Séries antigas.

Nem só de questões existenciais e baixaria vive esta coluna. Hoje Sally e Somir vão discutir sobre séries antigas, e para o desespero de muitos, séries antigas já podem ser consideradas como anteriores a 2001. Os impopulares apoiam um dos dois, ou fazem propaganda da sua favorita.

Tema de hoje: qual o melhor seriado anterior a 2001?

SOMIR

Eu vou com Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Sim, a do Picard. Não a do Kirk. Se você não reconheceu nenhum desses nomes, favor não falar mais comigo. Por mais que Jornada nas Estrelas clássico tenha lugar reservado na minha memória afetiva, a série dos anos 60 ainda é muito mais boas ideias do que boas execuções. Era tudo meio tosco, eram os atores e atrizes que faziam ter um pouco mais de graça.

E, é claro, o roteiro. Jornada nas Estrelas clássico e Nova Geração compartilham de uma visão de futuro única do seu criador: Gene Roddenberry. Ele olhava para as décadas e séculos à sua frente e imaginava que ao invés de um futuro distópico numa Terra devastada, a humanidade ia continuar avançando, mesmo que aos poucos.

Muitos dizem que Jornada nas Estrelas tem uma visão otimista do futuro, e com exceção de viagens acima da velocidade da luz, eu acredito que é um dos ângulos mais realistas já colocados numa história de ficção científica. Vejam bem: por mais a humanidade tenha sofrido com guerras e abusos por muitas vezes durante sua história, não é como se o nosso passado tivesse sido sofrimento puro 100% do tempo. As coisas melhoravam com o passar do tempo. As pessoas iam sofrendo um pouco menos a cada geração.

Até por isso, o pobre de 2021 tende a ter uma vida mais segura e confortável que uma boa parte dos nobres da idade média. Gene entendia isso, e pintava um futuro onde boa parte do sofrimento por falta de recursos tinha acabado. As pessoas não ficam boazinhas, mas algo essencial nelas muda: não tem mais desespero de passar fome, de ficar sem casa, de ser roubado, etc. O ser humano vai agir diferente com abundância de recursos, ponto.

Se vai ser exatamente daquela forma cordial e intelectualizada que as séries demonstram eu não sei, mas que boa parte da nossa agressividade e tribalismo perdem o significado quando não temos que lutar pela sobrevivência. Por isso que Jornada nas Estrelas original tinha uma equipe diversa para os padrões dos anos 60 do século passado. Tinha uma mulher negra na equipe (era a “telefonista”, eu sei, mas foi um passo), tinha russos e americanos trabalhando juntos…

A lógica da série era simples: “já que ninguém está mais passando fome, vamos brincar de explorar o espaço?”. Esse era o futuro que Roddenberry queria (e eu também). Era mais sobre conhecer o universo ao seu redor e lidar com as diferenças do que sobre enfrentar uma ameaça maligna. A série sabia se divertir com a ideia.

Mas, o mundo mudou e a tripulação original já tinha perdido seu poder de atração midiático. Três décadas depois, a série é relançada com um novo elenco. Proposta arriscada, pois os que ainda gostavam de Jornada nas Estrelas eram fãs muito dedicados, ia ser complicado agradar eles e novos telespectadores. Mas, ainda sob a supervisão do criador, a série soube pegar os pontos fortes da original e adicionar ainda mais valor na proposta.

A Nova Geração é uma série melhor em tudo do que a original. Tudo menos carisma, porque é puxado vencer Kirk, Spock e McCoy originais. A Nova Geração começa de um ponto mais avançado da história original, com o universo um pouco mais bem mapeado, sem os ares de pioneirismo da primeira série. Não são mais malucos se embrenhando pela selva estelar, são uma equipe de alto nível que lida com todo tipo de problema num espaço povoado por diversas raças alienígenas, nem todas amistosas (quase nenhuma amistosa).

Isso pode desanimar muitos de vocês, mas pra mim é o ponto forte: na série original era tudo sobre a aventura do espaço, na Nova Geração, é tudo sobre a diplomacia do espaço. Claro, ainda tínhamos algumas aventuras, ação, phasers e tudo mais, mas a alma da série eram as complicadas decisões éticas e a delicada trama de relacionamentos entre a humanidade e seus vizinhos. Nenhuma personagem é muito agressiva ou expansiva. Todo mundo é meio “normal”, e eventualmente vamos conhecendo melhor essas pessoas e vendo como reagem em situações estressantes.

Picard não é um gênio indomável, é um capitão experiente, com a cabeça no lugar e muito ético. Ele não está lá para ser um herói clássico como foi Kirk, ele está lá para ser o capitão da nave. Tanto que se você não viu a série que fizeram só pra ele recentemente, não veja: estragaram a personagem sem volta fazendo ele correr de explosões e atirar em bandidos (aos 90 anos de idade).

O que me leva ao motivo pelo qual Jornada nas Estrelas tem tanta dificuldade de “pegar” de novo na cultura pop: esqueceram qual era a visão de Gene Roddenberry, um futuro “normal” onde as pessoas melhoraram um pouco, mas que é claro, ainda tem seus problemas. Acharam que para renovar a série tinham que colocar batalhas espaciais gigantes e gente se matando o tempo todo, ficou um lixo. Porque essa não é a graça da série: era uma aventura meio paradona no começo e na Nova Geração, era um grupo de diplomatas paradão. Porque é isso que a diferencia. Ser paradona.

A série tem tempo pra desenvolver personagens, para criar climas, para te dar material para se importar com o que acontece na tela. Não é um bando de capangas morrendo em explosões, nunca foi! Se você nunca viu Jornada nas Estrelas, sugiro começar direto pela Nova Geração. A original é divertida, mas é meio difícil de engolir 60 anos depois. Na Nova Geração, temos alguns “defeitos especiais” dos anos 90, mas é tudo bem-produzido, e não tem uma identidade datada. É o futuro dos futuristas, não o futuro dos executivos de TV.

Eu também sou fã da série que a Sally escolheu, mas apareceram outras comédias bacanas depois dela. Mas como Jornada nas Estrelas, a Nova Geração? Essas séries não se fazem mais (ok, Voyager foi boa também, mas um pouco menos). Acabou a era de respeitar a inteligência do espectador, acham que somos todos imbecis que só conseguem prestar atenção em algo se tiver overdose de emoção a cada segundo. Às vezes você só quer uma história bem contada num futuro que não seja horrível de viver… é pedir muito?

Para me chamar de nerd, para dizer que não vai mais falar comigo, ou mesmo para dizer que foi uma péssima propaganda: somir@desfavor.com

SALLY

Qual o seu seriado antigo (anterior a 2001) favorito?

Um que ninguém conhece e que não passa em nenhum streaming: Scrubs.

Scrubs é um seriado ambientado em um hospital, mas é uma comédia sem noção, politicamente incorreta e totalmente nonsense. Eu amo esse seriado do fundo do meu coração.

O personagem principal, John Dorian, é um médico novato que passa as nove temporadas sendo esculachado pelo seu mentor, o Dr. Cox – mesmo quando deixa de ser novato. É bullying pesado: desde tripudiar de características físicas até o fato de só se referir a ele chamando-o por nomes de mulheres.

A quantidade de piadas machistas, racistas e de maus tratos com crianças cativou meu coração. Além disso, é um humor do absurdo, onde o seriado ilustra para o espectador tudo aquilo que o protagonista mentaliza, gerando cenas, no mínimo, ridículas e inusitadas.

E, vejam bem, é um seriado pouco conhecido, mas conta com a participação de atores importantes, como Brendan Fraser, Courtney Cox, Michael J. Fox e outros. Não é aqueles seriados cult desconhecidos. Ele inclusive tinha boa audiência, o que o levou a durar 9 temporadas (a última uma derivação).

Também foi indicado a vários prêmios, inclusive Globo de Ouro. Mas, por motivos que até hoje eu não entendo, não ganhou muita fama e ficou restrito a um nicho específico de público (gente meio sem limites, como é o caso do Somir, que também assistia, e eu).

O mais maravilhoso de Scrubs é a falta de limites. Qualquer coisa pode acontecer. Qualquer coisa mesmo, ainda que seja altamente constrangedora, de péssimo gosto, ridícula ou ofensiva. Há agressões gratuitas o tempo todo, há bullying com minorias e é visível o quanto os atores se divertem fazendo aquilo.

É um humor leve, despretensioso, que faz cócegas no cérebro. Infelizmente não vemos mais esse tipo de seriado hoje em dia, quando todo mundo se leva muito a sério e parece que todo roteiro tem que ter alguma profundidade, alguma causa nobre a ser defendida ou representar algum bem para a humanidade. Scrubs não. Scrubs era dedo no cu e gritaria.

Além disso, Scrubs tinha uma dinâmica rápida: não enrolava em uma cena para trazer a piada. Era uma entrega insana, de uma piada por cima da outra. O próprio criador da série conta que o elenco era tão afiado e entrava tão bem no clima das gravações que, de um ponto em diante, os roteiristas escreviam o básico e deixavam a cargo do improviso, tipo “J.D entra e o Zelador fala alguma coisa engraçada”.

É um seriado com diversas camadas de compreensão: tem desde torta na cara até uma piada com referência super nerd que 1% do público vai entender. Todo mundo ri com Scrubs, desde a tia do sofá que gostava de Trapalhões, até o Somir. Quantas comédias podem ostentar essa qualidade?

Uma vez eu li que Scrubs era “Arrested Development no Hospital” (por sinal, Arrested Development também é uma das minhas séries de humor favoritas, mas é de 2003, portanto não preenche os requisitos da pergunta de hoje) e isso define muito bem: você sabe que os roteiristas ali são capazes de tudo, que não há limites, freios ou bom-senso. Com a diferença que Scrubs não fica só no humor, tem seus momentos fofinhos e até, muito de vez em quando, uns poucos momentos emocionantes.

Talvez o determinante seja o não se levar a sério. Quantos seriados vemos por aí onde o protagonista é um fodido e chega igualmente fodido ao último episódio? Mesmo comédias legais como The Big Bang Theory ou Two and a Half Man e Friend tem protagonistas que experimentam sucesso com o passar das temporadas. Sheldon ganha um Nobel, Charlie fica cada vez mais rico e conquista cada vez mais mulheres, Rachel virou uma profissional bem-sucedida, Monica conseguiu ser mãe, etc.

Scrubs não, é todo mundo tomando no cu o tempo todo. Até o final, é todo mundo tomando no cu enquanto tenta não tomar. Gente como a gente, sabe? Curioso que uma séria supostamente criada para ser over fantasiosa seja a que melhor acaba retratando a realidade.

Os personagens também são maravilhosos: o médico abusivo que faz bullying com todo mundo, o dono de hospital canalha e ambicioso, o zelador abusado que aterroriza médico e muitos outros. Ninguém vale nada ali, exceto o protagonista, que só se fode.

Infelizmente não existe mais espaço para seriados como “Scrubs”, onde o protagonista tem um cachorro morto como mascote (é um labrador empalhado chamando “Rowdy”), onde se pode fazer piada com etnia, onde se pode fazer piada com sexualidade, onde se pode mostrar criança apanhando e isso ser engraçado. O último que vi com a mesma pegada foi “Community”, em 2009. E sinto que não veremos mais nenhum.

Eu gostaria de recomendar que vocês assistam Scrubs, mas infelizmente, por sua natureza… peculiar (ofensiva) ninguém comprou a briga de colocá-lo no ar novamente, nem mesmo a Netflix. E eu não consegui encontrar em nenhum streaming ou site que disponibilize a série. Tem de tudo na internet, menos Scurbs.

Se alguém tiver notícias de como posso ver Scrubs, por favor, compartilhe nos comentários.

Às vezes tenho medo de Scrubs não ter existido, de ter sido só um sonho meu…

Para dizer que isso não se faz (indicar algo que não pode ser visto), para dizer que se Somir e eu gostamos, mesmo sendo tão diferentes um do outro, deve ter algo realmente especial ou ainda para dizer que viu e achou uma merda: sally@desfavor.com

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