13 anos de… virtualização.

A palavra “virtual” vem do latim, ou seja, tem uma longa história. De forma bem simplificada, sua origem significava a capacidade de fazer alguma coisa. O passar dos séculos (e milênios) foi transformando a nossa noção sobre ela para algo simulado por computadores. Não deixa de ser o poder de realizar uma tarefa, mas atualmente é algo mais conectado com o conceito de simulação: ao invés da coisa real, uma imitação. Mas até onde vai a nossa capacidade de diferenciar isso?

O assunto esquentou nas últimas semanas com a visão do criador do Facebook com o lançamento da nova marca da sua empresa, a Meta. Zuckerberg quer ser o pioneiro do metaverso, mas se fizermos uma análise do que aconteceu nos últimos 13 anos, a ideia não parece tão inovadora assim. A linha entre real e virtual está ficando cada vez mais borrada.

E ao contrário do que se esperaria com as ideias de futurismo que tínhamos em décadas passadas, não foi exatamente o entretenimento puramente escapista que criou esse avanço rumo à virtualização, na verdade, foram as relações humanas que puxaram esse trem. Pouca gente tem os equipamentos necessários para fazer uso de realidade virtual imersiva, e é provável que continuem fora da capacidade de consumo da maioria da população humana por muito tempo ainda.

Mas quem disse que precisamos de óculos especiais para virtualizar nossa relação com a realidade? Uma parcela considerável da humanidade tem acesso à internet e o conceito de relacionamentos baseados nela se popularizou imensamente desde 2008, quando começamos o Desfavor. Naquele tempo, a relação que eu tinha com a Sally – iniciada na internet entre duas pessoas que viviam muito distantes – era algo meio complicado de explicar para as pessoas ao nosso redor.

Hoje em dia é comum fazer amizades e até mesmo começar namoros pela internet. Sem olho no olho, sem convivência física. Hoje em dia ninguém mais levanta uma sobrancelha se você falar que tem alguma relação pela internet. A coisa avançou nesse sentido de tal forma que nem mais relações amorosas de longa duração à distância parecem estranhas. O ser humano percebeu que a internet pode ser uma ferramenta de conexão, e como toda ferramenta, pode ser usada de diversas formas.

Percebam que não tem juízo de valor aqui, não estou nem dizendo que é mais ou menos saudável manter relações pela internet, apenas que a possibilidade se abriu e muita gente se acostumou com ela nesses últimos 13 anos. Eu já tinha me aprofundado nisso em outro texto, mas vou resumir aqui: pela forma como o cérebro humano funciona, relações com outras pessoas não deixam de ser virtuais. Você tem que criar a pessoa dentro do seu cérebro para interagir com ela. É assim que o cérebro faz desde que você nasceu, afinal, não fosse isso, você jamais conseguiria prever o que outra pessoa vai fazer. Tem uma cópia de cada pessoa que você conhece dentro da sua cabeça.

A virtualização não é algo estranho às nossas mentes. E eu prevejo que estamos apenas engatinhando nesse caminho rumo ao ser humano virtual. O potencial é gigantesco, com todas suas vantagens e desvantagens. E é aí que pode vale a pena analisar o mundo para o qual estamos todos indo. Prepare-se para uma competição cada vez mais violenta pela atenção das pessoas.

Hoje em dia você pode atrair milhares, quiçá milhões de seres humanos com um perfil de rede social. Claro, sucesso nessa área é quase que “lotérico”: depende de muita sorte de estar no lugar certo na hora certa para virar uma celebridade virtual, mas o volume está lá. Tem muita gente ganhando atenção impensável para seus antepassados na internet. Carisma, beleza, personalidade… todas coisas que ajudam uma pessoa a se destacar, mas o fator mais determinante é a idealização.

Uma pessoa que é idealizada pelos seus seguidores compete num campo inalcançável para as pessoas comuns: o virtual. A pessoa idealizada pode ter tudo o que você quer que ela tenha, e sua falta de acesso real a ela só ajuda nesse processo. Estou falando de influencers agora, mas isso é muito mais profundo: até mesmo as pessoas com as quais você tem relações pela internet se beneficiam dessa idealização.

A pessoa real tem variação de humor, fica azeda, fica pra baixo. A pessoa real tem derrotas e passa vergonha. A pessoa real peida e tem pelo encravado. A pessoa real fica sem assunto e às vezes só está lá, sem fazer nada para te entreter. A pessoa virtual vai se livrando de todos esses problemas na medida que sua interação com ela é limitada. O influencer e qualquer outra relação virtual que você tenha se beneficiam demais de idealização: você vê o que ela quer que você veja, e você resolve o resto dentro da sua cabeça da forma que achar mais agradável.

A pessoa virtual te dá espaço para não se incomodar com ela. Ela está lá quando você quer e some quando não quer. Sim, o ser humano idealiza o outro desde que o mundo é mundo, mas estamos vendo mudanças na forma de viver e lidar com outras pessoas numa velocidade impressionante: o ser humano virtual já está estabelecido. E pior, mesmo que você ache que saiba a diferença, tende a comparar o real contra ele.

No Desfavor, eu posso me mostrar como quiser. Por mais que compartilhe com a Sally o prazer por mostrar as derrotas e pelo humor autodepreciativo, ainda sim é uma versão muito idealizada do que eu realmente sou. A única pessoa aqui que sabe o que eu sou mesmo é a Sally, e isso significa uma montanha de defeitos e problemas que formam o pacote completo. Vocês têm acesso a uma versão virtual que pode ser completada com qualquer coisa que quiserem. Somir virtual tem um monte de vantagens sobre o Somir real.

Mas aí entra o pulo do gato: Somir virtual tem vantagens superficiais sobre o Somir real. Somir virtual é mais bonito que Somir real, mas Somir virtual não tem a capacidade de compreensão que o Somir real tem. No curto prazo, Somir virtual é mais interessante, mas no longo prazo o real faz muito mais sentido. E antes que pareça que eu estou levantando minha bola, isso é algo que você tem também: sua versão real é muito mais humana do que a sua virtual. Óbvio! Sua versão real tem dor de barriga, sua versão real dá topada com o dedinho da quina do pé da mesa, sua versão real já sofreu várias vezes e tem empatia. Sua versão real é capaz de gostar de quem tem defeitos. Sua versão real enxerga mais longe do que uma bandeirinha no nome do perfil da rede social.

Só que à medida que vamos lidando com versões virtuais de outras pessoas, corremos o risco de esquecer essa diferença fundamental. E quando eu falo de versão virtual, eu não estou falando de contatos apenas por aplicativo de mensagens. Duas pessoas que se conhecem no Tinder tendem a fazer sexo com a versão virtual uma da outra. Tem o componente físico, mas ninguém conseguiu se aprofundar além daquela primeira imagem da internet. É muito mais sutil do que se ver ao vivo ou se ver numa tela: é sobre o quanto nos expomos de verdade.

Eu prevejo que novas gerações tenham mais e mais dificuldade de compreender a versão real dos outros humanos. Quando se passa tanto tempo vendo o outro idealizado, falta experiência com a versão original. É claro que você vai sentir que tem algo de errado com o outro se a única imagem que tem do outro é virtual, vulgo idealizada. E não demora muito para se acostumar com um mundo de gente virtual: lembrem-se que para o cérebro humano, é algo que ele faz desde que começou a fazer senso do mundo.

Quando eu digo que acho muito provável que a maioria da humanidade vá querer ir para dentro de uma simulação, estou falando da gratificação instantânea de se exibir como pessoa virtual e ver os outros da mesma forma. É natural querer se instantaneamente atraente para outras pessoas. Tornar-se um avatar idealizado nada mais é do que uma extensão da indústria da moda e da beleza. Queremos passar uma boa primeira impressão, queremos ser desejados e admirados.

E quando falamos de idealização, isso pode e vai muito além de aparência física: suas ideias e opiniões podem e serão usadas como acessórios de moda. Já estão. Lacração de esquerda e direita só são populares como são porque permitem transformar ideias em moda. Não falo apenas de aparecer como um homem musculoso ou uma mulher voluptuosa na internet, mas também de uma corrida armamentista pela opinião que mais atrai gente para o seu lado. Neutralidade pode ser um tédio nesse tipo de mundo.

As pessoas vão receber mais e mais características superficiais e vão esperar cada vez mais características superficiais. Vira uma bola de neve. Curioso que no mundo dos jogos, isso é chamado de o “meta” do jogo: qual a forma mais eficiente de jogar a cada momento. O “meta” pode ser usar uma personagem específica, um item que dá mais resultados, um caminho melhor numa fase… e quanto mais gente tenta esse “meta”, mais específico e exagerado ele se torna.

A interação humana tende a se adaptar a essa ideia de “meta”. É aí que a virtualização assume o controle: pessoas reais tem muita dificuldade de mudar suas características, uma pessoa ciumenta só consegue fingir que não é, e depende muito de um ambiente “falso” para manter as aparências. Uma pessoa insegura pode projetar a imagem que quiser no mundo virtual, desde que evite os pontos onde se sente inferior. É muita inocência achar que o ser humano vai escolher o caminho de olhar para dentro e promover complexas análises sobre o que sente, ainda mais quando o mundo oferecer oportunidades infinitas de fingir ser outra coisa.

E isso não se resume apenas à realidade virtual ou internet: no texto anterior eu falei sobre como máquinas podem fazer tudo o que fazemos muito melhor. Se não fazem ainda, vão fazer um dia. O ser humano é um generalista, sabe fazer milhões de coisas, mas não é equipado para ser mestre de nenhuma, não em comparação com uma máquina criada com esse único propósito. Eventualmente essas máquinas vão invadir o campo dos relacionamentos, e vai ser ainda mais difícil competir com elas.

Em 2008 eu tinha que engolir quando me diziam que era absurdo achar que as pessoas aceitariam bonecas e bonecos sexuais, que só os seres mais patéticos da humanidade aceitariam essa falsidade. Pois bem, estamos em 2021 e eu não vou mais ser compreensivo: sim, robôs de companhia vão começar num nicho de pessoas muito solitárias, até pelo combo de alto custo e baixa fidelidade de tecnologias em estado inicial, mas o tempo não vai parar. E quem tiver um companheiro ou companheira robóticos à disposição já vai ter sido criado num mundo de relações virtuais, à base de doses cavalares de idealização.

E se você acha que pessoas precisam de perfeição na imitação de um corpo humano, não está acompanhando o mundo nesses últimos 13 anos. As pessoas se apaixonam por qualquer coisa que lhes dê atenção. Brinquedos sexuais vendem como nunca. Ligue os pontos. Mulher tira sarro dizendo que se o vibrador soubesse conversar não precisava mais de homem, e essa brincadeira tem um fundo de verdade. Relacionamentos reais são complexos, trabalhosos e cheios de concessões.

Uma máquina que te dá satisfação sexual e permite que você continue vivendo num mundo idealizado é perigosíssima para o mercado de relacionamentos. Vou mais além: se o que você quer é alguém que cuide de você e faça as coisas que você quer que faça, uma máquina criada para isso é imbatível. Se é assim que você enxerga amor, ela vai te dar amor de uma forma que nenhum outro ser humano pode entregar. E sinto dizer que não existe nada escrito nas leis da física que forcem sentimentos a funcionarem de um jeito ou de outro. Quem quiser amor de robô vai viver e morrer feliz quando tiver um robô programado para isso.

O que a pessoa quiser, a máquina vai dar. Não se pode dizer o mesmo de outra pessoa. Pessoas vão falhar terrivelmente em cumprir suas expectativas, e pudera: elas têm a própria vida para viver. A máquina está programada para derivar valor em cumprir a função para a qual foi criada, a pessoa não. Se você quer que o outro se conforme aos seus desejos, um robô ou inteligência artificial num mundo virtual é o melhor parceiro possível. Nenhuma pessoa pode se comparar a isso.

Agora, se você quer uma parceria que construa algo novo, aí pode ser que demore muito para criarem uma inteligência artificial capaz de fazer isso. E se fizerem, vai fazer parte da base do que ela é o poder de te rejeitar. Não tem solução perfeita, é uma escolha: se você quer tudo do seu jeito, só a máquina e o virtual vão te satisfazer. Se você quer construir algo maior do que já é, vai ter que arriscar rejeição e discordâncias de outra mente que não existe só para te agradar.

E eu temo que a humanidade vá escolher uma dessas opções na maioria dos casos. A opção que já estamos escolhendo num mundo cada vez mais focado em personalidades virtuais idealizadas. Talvez a grande conclusão desta análise seja que se o que você quiser da vida estiver no outro, qualquer sucesso sempre vai ser virtual. É muito mais sobre como você enxerga o mundo do que alguma coisa lá fora.

Quando essa escolha aparecer, espero que você se conheça o suficiente. Porque o que a gente acha que quer normalmente não é o que a gente quer…

Para dizer que só quer um vibrador que concorde com você, para dizer que o Somir real tem que ser o Brad Pitt para compensar um texto desses, ou mesmo para dizer que agradece pelo desânimo: somir@desfavor.com

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