Polêmica armada.

Um disparo acidental feito pelo ex-ministro da Educação Milton Ribeiro nesta segunda-feira deixou uma pessoa ferida no aeroporto de Brasília. Uma funcionária da companhia aérea Gol, que não teve a identidade revelada, foi atingida por estilhaços e atendida no local. LINK


E aí, é culpa das armas ou da influência negativa no bolsonarismo? Nem uma coisa, nem outra. Desfavor da Semana.

SALLY

O ex-Ministro da Educação Milton Ribeiro causou um acidente na última segunda-feira, no aeroporto de Brasília: uma arma de fogo foi acidentalmente disparada por ele, quando, pasmem, ele tentava despachá-la, carregada e sem trava de segurança, no balcão da Cia Aérea.

Não que seja necessário isso para perceber o perigo da situação, mas, pelas regras da Agência Nacional de Aviação Civil, o descarregamento das armas de fogo despachadas é de responsabilidade do passageiro e deve ser feito “previamente à chegada ao aeródromo ou no aeródromo, em local disponibilizado pelo operador de aeródromo”. Ou seja, além de burro, muito burro, ainda descumpriu as regras de segurança que existiam.

A regra existe justamente para evitar esse tipo de acidente. De acordo com a norma, a arma deve ser descarregada em um local específico designado para isso e, na hora de descarregar a arma, por segurança, o cano deve estar sempre apontado para a caixa de areia. Só depois disso é que o passageiro pode ir para o check-in e levar a arma, já lacrada, em um envelope especial fornecido pelas empresas aéreas, para ser despachada.

Pode ter porte de arma, pode ter registo no CAC, pode estar se mudando, pode ter a bênção do Papa: tem que obedecer às regras de segurança. Elas existem por algum motivo. Não é o seu julgamento pessoal que norteia suas ações, em questões de segurança, são as normas, pois as consequências da sua irresponsabilidade não se restringem a você, afetam toda a sociedade. O disparo, por sinal, feriu uma funcionária que trabalhava no local.

Estamos todos de acordo que o acidente aconteceu por exclusiva imbecilidade humana? Espero que sim, pois o brasileiro médio parece não estar. Mais uma vez surgem dos bueiros os grupos militantes usando o acidente para panfletar sobre o quanto armas são perigosas e desnecessárias. É sério que vão botar esse acidente na conta da arma, um objeto inanimado?

Seria como começar um movimento pedindo o fim dos automóveis, pois todos os anos eles atropelam e matam milhões de pessoas. Se bem utilizado, se corretamente utilizado, um automóvel pode salvar a vida de uma pessoa, por exemplo, levando-a para um hospital quando ela precisa. Se bem utilizada, uma arma pode salvar a vida de uma pessoa, impedindo que um invasor entre na sua casa, por exemplo.

Com isso estamos defendendo que seja permitido ou incentivado ao brasileiro ter armas? De maneira alguma. Eu acho inclusive que até os garfos deveriam ser abolidos no Brasil, pois existe o risco da pessoa perfurar o próprio olho comendo – todos deveriam comer de colher. O brasileiro não deveria poder ter arma.

Mas o brasileiro não deve poder ter arma de fogo por arma de fogo ser perigosa? Não. O brasileiro não deve poder ter arma de fogo por ser um ignóbil, incompetente, sem maturidade emocional e incapaz de compreender ou seguir normas básicas de segurança.

E, na real, o desfavor da semana de hoje nem é especificamente sobre armas de fogo, essa notícia foi escolhida como exemplo ilustrativo. O tema central é: passou da hora de parar de culpar objetos inanimados pelas más escolhas dos seres humanos.

É um discurso antigo: TV faz mal à cabeça das crianças, videogame cria assassinos, redes sociais causam mortes. Não. Tudo depende do uso que se faz de qualquer objeto. Pessoas com baixo discernimento (como crianças, deficientes mentais e brasileiros médios) tendem a fazer um mau uso deles, portanto, o ideal é que não usem ou usem com a supervisão de uma cabeça pensante. Mas a culpa não é da TV, do videogame ou das redes sociais, é dos imbecilóides que fazem mau uso deles.

Seja o “desafio de beber água sanitária” do Tic Toc, seja o Baleia Azul no Facebook, seja o adolescente que jogou jogo de tiro e entrou no cinema atirando uma arma de verdade: o perigo, em qualquer um dos casos, está nas pessoas, não na internet, na rede social ou no videogame.

O problema é que se admitirmos que o perigo está nas pessoas, a culpa começa a ser os pais desses imbecilóides que não criaram, educaram e acompanharam os filhos da forma correta, permitindo que tenham acesso a um conteúdo para o qual não estavam prontos para lidar e façam mau uso deles.

E tem esse código secreto implícito entre pais de que a culpa nunca é deles, é sempre dos objetos inanimados: da bebida, do videogame, das más influências, das redes sociais e tantos outros.

Como a maior parte das pessoas tem ou pensa em ter filhos, ninguém se atreve a apontar o dedo para pais que já estão devastados por uma tragédia e dizer: “a culpa é de vocês, não das redes sociais. Vocês deveriam ter educado e supervisionado melhor o seu filho”. Se a moda pega, todos os pais serão responsabilizados e, que perigo, um dia pode chegar em você. Melhor não, melhor continuar culpando objetos inanimados.

Essa premissa virou regra sagrada e se aplica a todos os casos, mesmo quando falamos de um marmanjo que deveria sabe como se portar sozinho. Metade está jogando um holofote no “perigo das armas” e a outra metade no “perigo dos bolsonaristas”, como se pessoas de outros partidos não fizessem uma pá de merda por incompetência ou irresponsabilidade. Não. A culpa é das pessoas.

Até a mídia endossa isso. De tempos em tempos aparece uma manchete dizendo “carro atropela e mata 6 em rodovia”. A menos que existam Transformers, quem matou foi o filho da puta que estava dirigindo bêbado. “Arma dispara por acidente e atinge criança”. Não, a arma não dispara sozinha, o filho da puta guardou a arma carregada e destravada em um lugar onde seu filho de 6 anos encontrou e usou para brincar com o colega.

É hora de responsabilizar pessoas (não partidos, não objetos, não redes sociais, não más influência ou horóscopo) quando esse tipo de coisa acontece. Se as pessoas forem responsabilizadas, elas podem ser punidas ou educadas e, quem sabe, esse tipo de coisa aconteça menos. Enquanto os objetos levarem a culpa, nada vai mudar.

Para melhorar como pessoa ou como sociedade, o primeiro passo é olhar para o que está errado, admitir que está errado e assumir responsabilidade por isso. Enquanto o brasileiro não der esse primeiro passo, vai continuar vivendo nesse chiqueiro de irresponsabilidade, impontualidade, descompromisso e incompetência que é o Brasil.

E a pior parte é que isso deve demorar a acontecer, pois a maioria dos brasileiros se beneficia desse chiqueiro para ser irresponsável, impontual, descompromissado e incompetente. Ah, o ganho secundário… sempre ele…

Para dizer que a culpa é do Bolsonaro que exalta as armas, para dizer que a culpa é da liberação das armas que tinham que ser proibidas ou ainda pra dizer que a culpa é de todo mundo, menos de quem tem culpa: sally@desfavor.com

SOMIR

O jeito padrão de se criar um ser humano é através de exposição lenta e controlada ao conceito de responsabilidade pessoal. Nós entendemos como espécie que nossas crianças não nascem sabendo como se portar num contexto social e precisam ser ensinadas aos poucos sobre seu impacto no mundo. Até por isso, perdoamos a imensa maioria dos erros que os menores de idade cometem: eles precisam de alguma liberdade para errar e entender como as coisas se relacionam na vida.

Muito mais do que português, matemática ou geografia, espera-se que durante sua criação o ser humano aprenda que tem responsabilidade, que o que faz gera consequências, e principalmente que a partir de um certo ponto da vida, ele vai ter que arcar com elas. Só pode ser considerado adulto quem entendeu esse conceito, certo?

Se a notícia escolhida nos diz alguma coisa, é que não. Um fuckin’ ex-ministro da Educação brasileiro não conseguiu entender que mexer com uma arma carregada dentro de um aeroporto era uma péssima ideia. Se você acompanhar a história através das lentes da polarização política, é bem provável que esqueça desse elemento básico: uma pessoa estúpida fez uma coisa estúpida que tinha total condição de prever.

O grande desfavor que tentamos contar aqui é que essa mania de procurar comunistas ou nazistas em todos os cantos está reduzindo a capacidade do povo em perceber falhas óbvias em seu comportamento. Milton Ribeiro foi extremamente estúpido e colocou vidas em risco não porque é bolsonarista ou lulista, mas porque não exerceu sua obrigação de pensar nas consequências de suas ações. Seja por preguiça ou burrice, ele foi com a arma carregada para o aeroporto e fez tudo do jeito errado.

Quando tem um “inimigo” na mente para botar a culpa de tudo o que dá errado, as pessoas se acomodam na ideia de que não podem errar, que não tem responsabilidade pelos seus atos. Armas são mecanismos metálicos inanimados, armas são incapazes de fazer qualquer coisa. Armas de fogo são ferramentas que só funcionam nas mãos de um ser humano.

Você pode ter um país onde todo mundo tem armas e é violento como os EUA, e você pode ter um país onde todo mundo tem armas e o noticiário policial é um tédio como a Suíça. Ou você pode ter um país onde existe muita restrição no comércio e porte de armas como Brasil onde morre mais gente de forma violenta que país em guerra e país onde existe muita restrição como a Inglaterra onde a taxa de crimes violentos é baixíssima. A forma como se lida com armas é um verniz que se passa sobre a superfície da população. Lugares com muita desigualdade são violentos, lugares com pouca desigualdade são mais seguros.

É o fator humano. Fator inescapável. Ou você lida com o que o ser humano faz com a tecnologia, ou você fica girando em falso em legislações e discussões inúteis. Eu pessoalmente sou do time “ninguém pode ter arma” porque não confio no discernimento da maioria das pessoas: são criadas para não ter responsabilidade pessoal e culpar os outros por seus problemas. E sim, é um posicionamento ideológico, eu sei que não adianta ter leis contra armas numa nação que escolhe por comodidade qual lei seguir ou não.

Até por consistência argumentativa, eu não ligo muito para o que fazem com a legislação ao redor das armas no Brasil porque o fator humano é tão negligenciado que sempre vai dar no mesmo: quem não pode ter armas vai ter armas. Se a lei ficar mil vezes mais severa ou se liberar geral, o traficante, o miliciano e o psicopata vão ter uma arma do mesmíssimo jeito. Basta ter dinheiro para comprar uma. Num país onde as leis são respeitadas a discussão pode valer a pena, aqui o buraco é bem mais embaixo.

Justamente na parte da responsabilidade pessoal. Não se criam brasileiros capazes de fazer boas decisões com o poder que a tecnologia os dá. Seja no porte de arma ou na relação doentia com redes sociais, a pessoa vai agir como se não tivesse culpa de nada, afinal, essa é a mentalidade vigente. É sempre culpa do presidente da vez, dos políticos que elegeu sorrindo tempos atrás, dos “inimigos ideológicos” que querem instaurar sistemas de governo que mal sabe descrever, mas acha malignos…

É um povo que acaba infantilizado, achando que a tomada é malvada porque dá choque nele. Ninguém explicou por que não podia enfiar o garfo na tomada, então acaba se tornado algo místico, inexplicável. “Como assim manusear uma arma carregada na frente dos outros é perigoso?”

E aí, tudo é culpa de alguma entidade externa, a pessoa perde a noção de sua agência sobre a realidade. A arma começa a matar por conta própria, o filho vai para o mal caminho porque o professor é esquerdista, a mulher chifra o cara porque o feminismo envenenou a mente dela… tudo pra fora da pessoa. O suposto alento de ser uma eterna vítima do mundo pode até ser agradável no momento, mas tira da pessoa toda sua força.

A gente ensina criança a entender responsabilidades não para ela ficar se sentindo culpada por tudo ou com medo do mundo, mas para ela entender que não é só uma testemunha da realidade, ela tem parte naquilo. Pode e deve aprender a se proteger, porque suas ações têm impacto. Adultos tem capacidade, e mesmo que errem, podem corrigir seu rumo e buscar uma existência mais feliz. Se a pessoa não aprende responsabilidade pelos seus próprios atos, a pessoa fica num estado de vulnerabilidade que fatalmente leva ao medo e à ignorância.

Não é para culpar as armas ou para culpar a influência negativa dos bolsonaristas e seu fetiche importado por armas, é para culpar a pessoa que não entende sua responsabilidade nesse mundo. O mundo é escroto e muita vezes injusto, mas isso não tem que te tornar em mero expectador assustado, esperando que algum herói resolva tudo num passe de mágica. Ser responsável e cobrar responsabilidade de outros adultos é o caminho que funcionou em todas as sociedades de sucesso na nossa história.

E nada mudou nesse sentido. O ser humano é a base de tudo, se ele estiver quebrado, todas as ferramentas estarão quebradas.

Para dizer que somos nazistas por não ser contra armas (primeira coisa que Hitler fez?), para dizer que somos comunistas por não ser contra armas (primeira coisa que Stalin fez?), ou mesmo para dizer que já tem problema demais para assumir os dos outros: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • “Para melhorar como pessoa ou como sociedade, o primeiro passo é olhar para o que está errado, admitir que está errado e assumir responsabilidade por isso. Enquanto o brasileiro não der esse primeiro passo, vai continuar vivendo nesse chiqueiro de irresponsabilidade, impontualidade, descompromisso e incompetência que é o Brasil”.

    Acho que a maioria ainda nem sequer percebeu que está em um chiqueiro…

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    • Sim, um erro de UMA palavra em 15 páginas de texto semanais, ou seja, uma média de 7500 palavras por semana, há 13 anos, é um equívoco de brasileiro médio… Tenho certeza que você, na sua vida, quando faz algo 7500 vezes não erra nenhuma, nem mesmo quando faz uma coisa 7500 vezes por semana por 13 anos!

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