Bolha colorida.

Levantamento feito pela primeira vez pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que 94,8% das pessoas de 18 anos ou mais no país se declaram heterossexuais. Entre os entrevistados, 1,8% se disse homossexual (1,13%) ou bissexual (0,69%). LINK


O mundo não é a sua bolha. Desfavor da Semana.

SALLY

O Brasil não é a sua bolha. O Brasil não é o Projac. O Brasil tem pouco mais de 1% da população que se declara homossexual. Sabem o que isso significa em termos de expressividade? Quase zero.

O Brasil tem aproximadamente 4% de ruivos na população. Cerca de 4% de cegos. Cerca de 5% dos brasileiros são veganos. Percebem onde quero chegar? Parece que tem um grupo que está inflacionando sua importância, e tem gente (e marca) idiota que está comprando. Vai lá, faz Polo para 1% da população!

Nos números divulgados pelo IBGE, 1,8% das pessoas se declararam homossexuais ou bissexuais. Se a gente remover os bissexuais, fica menos de 1,8%. Se a sua percepção é que existe muito gay no Brasil, está na hora de você sair da sua bolha e encarar o país como ele verdadeiramente é.

“Mas Sally, muita gente deve ter mentido nessa pesquisa”. Pior ainda. Tem homossexuais que tem vergonha deles mesmos. Certamente não vão consumir produtos para esse público-alvo, certamente não vão sair defendendo seus direitos em redes sociais e certamente não tem qualquer expressividade na causa gay.

Se você pegasse todo o público LGBTWZXOGATOPISOUNOTECLADO, certamente teria um número mais expressivo. Juntos, teriam mais força. Mas não, estão brigando entre si, como todos os grupos que existem. Sabem quem se enfraquece quando grupos brigam entre si? Os próprios grupos. E isso diz respeito a todos nós, inclusive você e eu.

Minha premissa é: em um mundo de pessoas carentes, inseguras, egóicas, com uma sensação de falta enorme, com um desejo de pertinência gigante, que reconhecem quem são e seu valor pelos olhos de terceiros, se separar é algo tentador. Torna a pessoa especial, ajuda a definir a pessoa. Quem não conhece sua essência sente uma angústia enorme, que tenta aplacar aderindo a um rótulo: eu sou isso, eu sou aquilo.

Uma pessoa que gosta de ovo é um ser humano como outro qualquer, que poderia e deveria se perder no meio da multidão. Mas não. A pessoa tem um buraco interno enorme, ela precisa ser especial. Aí ela começa a militar que a gema do ovo é melhor do que a clara. O grupo de pessoas que comem ovos se divide em Team Clara e Team Gema. O grupinho da gema se sente super especial, ele não são qualquer um, eles são diferentes, eles são uma elite que só come a gema!

Mas, com o tempo, com mais e mais pessoas entrando nesse grupo, ele não é o bastante. Tem muita gente que come gema, eu não sou mais tão especial, como posso me destacar? Já sei, vou defender que a melhor gema é a gema mole! Surge uma subdivisão, os Comedores de Gema Mole x os Comedores de Gema Dura, e cada um se acha melhor do que o outro.

Com o tempo, os Comedores de Gema Mole começam a cair no esquecimento, são normalizados, não são mais tão especiais. Começa a bater esse vício de ser mais e mais especial. Eu sou tão especial, tão único, que vou me tornar Comedor de Gema Mole Com Sal, e aquela ralé ali… são apenas os Comedores de Gema Mole Sem Sal, a escória! E assim sucessivamente.

Em essência, somos todos iguais, mas egos frágeis não conseguem engolir isso. Não faz a menor diferença o que você enfia em qual orifício do seu corpo, isso não deveria ter a menor relevância, no entanto, muita gente veste a camisa e se define assim. E as pessoas estão se “especializando” cada vez mais em definir quem são, refinando, restringindo, criando novas categorias. TREMENDA BURRICE.

Qualquer história infantil te mostra que juntos somos fortes, separados somos fracos. Nos últimos cem anos a humanidade não faz nada além de se separar cada vez mais. E certamente estamos cada vez mais fracos. As ferramentas que surgiram que poderiam nos ajudar a ser fortes e unidos novamente, como por exemplo a internet, estão sendo usadas justamente para separar, categorizar, antagonizar, dividir. Sabe a quem isso beneficia? A quem quer explorar estas pessoas, usando a divisão.

Não falo apenas de políticos. Publicidade, terapias alternativas, produtos, turismo, tudo que envolve gasto de dinheiro ou dinâmica social tira proveito dessa divisão – por isso a alimentam. E, em troca de se sentirem especiais, diferentes, únicas, as pessoas continuam vendendo a alma, aceitando divisão, categorias, separação. E pior: vestindo máscaras para reforça-las. Adotando comportamentos que muitas vezes nem seriam sua essência, para se encaixar perfeitamente naquele grupo. Tudo pela pertinência.

É uma pena. Não queriam “ser alguém”, vocês já são. Não queiram ser uma “elite”, somos todos iguais. Qual é o grande medo de ser igual? Por qual motivo você tem que ser diferente? Não tem coisa mais libertadora do que ser um “zé ninguém”, apenas ser, sem propagar ao mundo o que você é, sem aderir a rótulos, grupos ou bandeiras. Apenas seja. O resto é máscara que vai pesar no caminho e vai te jogar no colo de remédio tarja preta.

Somos todos um, mas quase ninguém está pronto para essa conversa. Todas as pessoas do mundo são mais ou menos iguais. Faz as pazes com isso, que porra de carência louca é essa de querer ser especial? Vai dividir e subdividir seu grupo até se tornar a risível marca de 1% da população? Isso não vai te ajudar de forma alguma. “Eu sou vegano”, “Eu sou feminista”, “Eu sou branco”. Vai tomar no cu. Você é. Você apenas É. Não carregue consigo essas definições, elas te impedem de ver quem você verdadeiramente é (isso merece um texto próprio?).

Desde o dia 1 do Desfavor, em 2008, não passa um dia sem que chegue comentário, e-mail ou qualquer contato dizendo “Vocês deveriam aparecer, vocês fazer vídeo, vocês deveriam monetizar, vocês poderiam ficar famosos”. Deus me dibre de ser famosa – ou especial, ou diferente, ou elite. Nós somos mais um na multidão com o maior orgulho e a maior paz de espírito. No Desfavor somos ideias, sem nome, sem forma, sem corpo, sem bandeiras.

Se você precisa se separar dos outros para se sentir especial, sinto te dizer que isso é muito ruim para você. Talvez você não sinta isso agora, mas em algum momento, vai pesar e vai cobrar seu preço. E sim, acredite, em algum momento você vai mudar de ideia e me dar razão. Essa ânsia por separação, por grupos, subgrupos, militância e dedo na cara é extremamente nociva.

Hora de parar de querer ser único, especial, diferente, famoso ou de se definir por um rótulo. É prejudicial. Faça isso, antes que você acabe encurralado em um grupinho de 1% que grita muito mas tem zero relevância.

Para dizer que deve ter mais argentino do que gay no Brasil, para dizer que essa pesquisa é homofóbica ou ainda para dizer que uma pessoa deveria ter vergonha de se definir com base no que faz no sexo: sally@desfavor.com

SOMIR

Os números encontrados não deveriam ser uma surpresa: mesmo sabendo que com certeza muita gente não se sentiu confortável de falar a verdade, ao redor do mundo os números são mais ou menos condizentes. Em países mais pobres e desiguais, a tendência é que fique nessa faixa, em países mais ricos e igualitários, os números costumam estar na faixa dos 5%.

E mesmo esses são bem desequilibrados pela população mais jovem: quase sempre a proporção é muito mais alta entre 18 e 24 anos, em ambos os sexos. No Brasil e na Suécia. Claro, estou só contando democracias, não dá pra acreditar em nada do que sai de ditaduras e teocracias nesse sentido. Tem muita coisa para analisar nesses números: será que as faixas de idade vão manter sua média com o passar das décadas? Até pouco tempo atrás no mundo, homossexualidade terminava em “ismo”, sugerindo ser uma doença. Só nos últimos tempos que conseguimos fazer as primeiras pesquisas em larga escala com alguma confiabilidade.

Tem muita coisa para descobrir ainda. A minha teoria preferida é a do gradiente de atração sexual: pessoas estão em pontos diferentes entre atração pelo sexo oposto e atração pelo mesmo sexo, nada perfeitamente definido, e nenhum desses pontos gera nenhuma obrigação de agir de acordo. É possível que uma pessoa muito próxima do centro desse gradiente (bissexualidade) na mente aja como exclusivamente heterossexual. É possível que alguém muito próximo da heterossexualidade mental aja muitas vezes como homossexual por N motivos na sua vida. No final das contas, tem o que você acha que é, o que acha que faz, o que você pensa de verdade e o que você faz de verdade. Boa sorte colocando rótulos nisso tudo. Seria tão melhor se todo mundo se tratasse como gente e negociasse sua atração caso a caso…

Infelizmente, não estamos seguindo para um mundo que lida com sexualidade assim: de forma livre, focando no que as pessoas querem e demonstram em suas vidas; estamos seguindo o velho caminho dos rótulos e nos achando supermodernos por criar uma infinidade deles. É como se a evolução do transporte humano ignorasse o motor e fosse colocando cada vez mais e mais cavalos na frente da carroça, para ir mais rápido. Cada letra colocada na frente de LGBT atualmente é mais um desses cavalos. É o futuro inventado pelo passado.

Esse “falso futuro” de rótulos e divisões comete o mesmo erro de sempre: abandona a maioria. A maioria de pessoas que vivem uma vida muito limitada pelos recursos escassos ou pela opressão de Estados totalitários, religiões restritivas ou mesmo controle de organizações criminosas. Essa gente – que é mais de 90% da população – fica sob ataque constante de alguns grupos muito barulhentos por sua dificuldade de aceitar o mundo paralelo criado pela bolha.

E aí, a bolha segue rumo ao seu futuro ideal, cada vez mais ressentida da massa descamisada que rejeita sua visão das coisas. Não precisa mais nem de dinheiro para ser elitista: basta escolher um grupo isolacionista raivoso para chamar de seu. Aí, você coloca sua plaquinha de identificação e começa a apontar o dedo para essa “gentalha”, certo de que escapou do atraso e da ignorância da humanidade.

Mas, modernismo de rótulos é um falso deus. Um cuja adoração não leva a nada além de mais rótulos. Como a Sally bem explicou, enquanto a ideia prevalente de evolução humana for escolher um grupinho para odiar os outros, as subdivisões vão se repetir sem parar. E quem tem alguma capacidade de ajudar a elevar a maioria da população da situação terrível na qual se encontra vai continuar brigando entre si, por causa das mesmas bobagens do passado como o que fazer com suas genitálias, ao invés de buscar objetivos que pelo menos sigam em direções parecidas.

Nas civilizações da Mesopotâmia já tinha gente perturbada pela sua sexualidade, essa história de ficar pensando com quem vai transar ou deixar de transar é literalmente instinto disfarçado de abstração. Não é porque você colocou uma bandeirinha de arco-íris no seu perfil da rede social que você está sendo moderno: é o mesmo papo de sempre, agora gastando seu plano de dados.

Se você reprimir ou liberar, uma grande maioria das pessoas vai agir de forma mais próxima à heterossexualidade e uma minoria vai agir de forma mais próxima à homossexualidade. Acontece em país super avançado também. E tudo bem. Tudo bem agir como hetero, agir como homossexual, agir como bissexual… evolução social passa por deixar essa âncora de ficar se subdividindo em grupos para sobreviver. O ser humano precisa aprender a viver em sociedade de novo, uma nova sociedade baseada em tecnologia e convivência em largas escalas.

E não vai ser requentando ideias ancestrais de competição entre tribos que vamos chegar lá. Eu já respondo “nenhum” quando perguntam meu signo por achar que não é saudável entreter gente maluca, estou quase considerando responder “nenhuma” quando me perguntarem minha orientação sexual. Estou ficando de saco cheio desse atraso, especialmente agora que cismaram que repetir a mesma besteira de sempre com outros rótulos é alguma forma de evolução.

Tomara que as próximas gerações sejam todas bissexuais e terminem de uma vez essa fase chata da história humana. O mundo é muito mais que isso, o mundo não é uma bolha, especialmente uma que você cria quando bem entender.

Para dizer que eu sou homossexual pela minha opinião, para dizer que eu sou homofóbico pela minha opinião, ou para dizer que eu estou me rotulando como chato: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • Não há um errinho na última frase do texto da Sally? Está lá “Faça isso, antes que você acabe encurralado em um grupinho de 1% que grita muito mais tem zero relevância.”. mas não deveria ser “grupinho de 1% que grita muito MAS tem zero relevância”?

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  • Sabe o que isso tem a ver com o conceito de “olimpíadas da opressão”, já discutido na esquerda fora das militâncias sectárias? T-U-D-O.

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  • Eu sei que o texto tem outro sentido, mas é só uma observação: Grande parte dos que se dizem heteros, pegam pessoas do mesmo sexo de vez em quando. Ah, mas foi só uma vez, ah mas eu tava bêbado etc. Do mesmo jeito que existe um grupo grande de católicos não praticantes. Ambos não são heteros nem católicos.

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  • Podemos concluir esse debate de uma vez por todas? Quem lacra lucra, quem não lacra também lucra. Tem mercado pra tudo no mundo, desde camisetas de orgulho LGBT até hijabs. Vídeos de orações e clipes de música infantil evangélica fazem milhões de visualizações no Youtube, vídeos de influencers e artistas progressistas também. Empresas progressistas que recebem boicotes de conservadores continuam existindo, empresas conservadoras que recebem boicotes de progressistas continuam existindo. É isso.

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    • O lacre só tem efeitos negativos mais sérios para quem está nas porções mais baixas da pirâmide social. É sobre isso.

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    • Fala isso pras ações da Tesla (mesmo antes de Elon dar sinais de que é um Trump mais novo e “ousado”).

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      • A Tesla é superestimada como uma espécie de Apple em especial no ramo dos veiculos elétricos. Não fosse o totozão da Volks fraudando os testes de emissões na cara dura não sei se dariam a mesma importância pra tal empresa.

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