Imagine a seguinte situação: você desenvolve interesse por uma pessoa e está considerando começar um namoro com ela. Antes de tomar a decisão, você descobre que ela já foi condenada por um crime e chegou a cumprir tempo de cadeia. Sally e Somir concordam que o sistema prisional brasileiro é um terror, mas não sobre todas as consequências dele. Os impopulares soltam sua opinião.

Tema de hoje: é imprudência se envolver com alguém que foi condenado e cumpriu pena?

SOMIR

Não. É uma bagagem complicada que a pessoa carrega, mas não necessariamente uma imprudência. Pessoas são mais do que o resultado de um evento em suas vidas, especialmente quando esse evento ocorre na vida adulta.

Quem já viveu o suficiente sabe que durante a vida muita coisa pode dar errado, algumas culpa da gente, outras nem tanto. Não é nem razoável esperar encontrar uma pessoa que não tenha passado por uma experiência traumática. Até por isso, é bom não ter muitas regras sobre que tipo de pessoa pode ou não entrar na sua vida.

Alguns traumas são compatíveis com uma relação com você, outros não. Não podemos esquecer que qualquer relação amorosa é uma combinação de duas pessoas, as coisas têm que combinar. Algumas coisas combinam por similaridade, outras por complementaridade. Relacionamento é uma reação entre dois elementos, basta você gostar do resultado pra valer a pena. O que serve pra mim pode não servir pra você, e vice-versa.

Então, embora eu não tire a razão da Sally de achar que o trauma da cadeia pode ser muito pesado, isso não quer dizer automaticamente que é sinal vermelho num relacionamento. Pessoas reagem de formas diferentes, não é como se todo mundo saísse psicopata da cadeia. Aliás, esse não é o problema do sistema prisional brasileiro: todo mundo pode ser bem mais violento e cruel do que é se for forçado a isso. É bem possível que a pessoa consiga separar o que fez por pressão naquele ambiente do que fará num contexto mais normal de vida.

O que eu faço questão de colocar nessa equação é a sua participação na relação: ninguém sai impune de lidar com outro ser humano na proximidade que um namoro ou casamento exigem. A outra pessoa te influencia da mesma forma como você a influencia. Considerando a minha personalidade conciliadora, por exemplo, eu tenho uma facilidade acima da média de lidar com gente explosiva. Se o trauma da cadeia render uma personalidade agressiva, uma pessoa como eu tem maior potencial de lidar com isso.

Uma pessoa como você talvez não seja assim, mas com certeza existem elementos da sua personalidade que podem ajudar com uma série de problemas vindos do outro. Não é aquele papo besta de tentar “salvar” o outro, é o que cada um traz para a relação. Você não pode mudar a outra pessoa sem ela querer mudar, mas você pode ajudar, e muito, quem quer ser ajudado.

Vamos partir do princípio de que você escolheu essa pessoa. Alguma coisa ela tem que te fez ficar atraído para uma relação de maior duração. Estamos indo além de pura atração física, porque se fosse só isso você provavelmente não teria esse dilema na cabeça. Se você escolheu essa pessoa, ela tem coisas boas na personalidade que te interessam no longo prazo. Se você está suficientemente bem da cabeça, as coisas que te interessam no outro normalmente estão relacionadas com uma relação feliz.

Existem muitos motivos para uma pessoa ter sido condenada e passado tempo na cadeia, acho que nem vale a pena entrar nesse ponto: tem alguns crimes que você entende, outros não. Se você fez a análise dessa pessoa em relação ao crime (lembrando que no Brasil é até comum ir preso depois de confessar algo que não fez depois de sofrer tortura) e decidiu que isso não te impede de considerar uma relação, acredito que o tempo de cadeia seja um problema menor.

E aqui, é importante fazer uma ressalva: o tempo de cadeia é consideravelmente pior para gente muito pobre. Não é saudável pra ninguém passar anos ali dentro, mas eu já ouvi casos de gente que passou por uma experiência mais humana ali dentro por ter dinheiro para pagar por alguns luxos. E tem algo horrível pra considerar também: a facção criminosa dona da cadeia pensa meia vez a mais antes de fazer algo com alguém de classe média pra cima. Sabem que dá pra tirar um dinheiro melhor. E porque o Brasil é um saco de merda racista em negação: se a pessoa for branca, tem bônus também.

Não vá achando que vai ser fácil, claro que não vai, mas é possível que a pessoa não tenha passado por uma experiência tão brutal quanto se espera da cadeia brasileira. Tem muita gente que sai quebrada da cadeia, mas tem gente que consegue processar o trauma, seja por vantagens prévias, seja por vantagens conquistadas dentro da cadeia.

Por isso é importantíssimo conhecer essa pessoa. Sempre é numa relação, então não é um trabalho excessivo a mais. Se você deixa qualquer pessoa “ajeitadinha” entrar na sua vida por carência, vai se expor a muita gente maluca e/ou perigosa. Se você tem um bom filtro inicial, é bem possível que até mesmo no caso de uma experiência de prisão no Brasil, a pessoa tenha o que é necessário para não deixar isso a traumatizar demais.

Muitos dos comportamentos que te fariam desistir de alguém numa relação não são exclusividade de experiência carcerária. São coisas que você pode perceber bem cedo no contato com a pessoa, isso é, se você faz sua lição de casa e presta atenção com quem vai se relacionar pra começo de conversa.

Algum problema todo mundo vai ter, te resta escolher com os quais você pode lidar e os com os quais não pode lidar. O que não pode acontecer é você ignorar toda sua parte na relação e julgar o outro isoladamente. É muito mais sobre o tipo de pessoa que você atrai do que uma regrinha genérica sobre quem vale a pena ou não nesse mundo.

Pode dar errado? Pode. Mas também pode dar certo. Imprudência é sentir que tem algo errado e teimar mesmo assim. Se você está confiante que pode funcionar, é um risco aceitável sim.

Para me mandar pegar a Richthofen, para dizer que pra homem é fácil dizer essas coisas, ou mesmo para dizer que se for gostosa pode tudo: somir@desfavor.com

SALLY

É imprudência se envolver com uma pessoa que foi condenada e cumpriu pena na cadeia?

No Brasil, sim. Não que todo condenado seja culpado e nem que todo crime seja reprovável (calma, eu vou explicar), mas pelas sequelas que uma pessoa que cumpre pena em cadeia brasileira carrega. Não é prudente se envolver com uma pessoa que passou por isso, pois essa pessoa certamente não tem condições emocionais de construir algo saudável.

Muita gente que cumpre pena no Brasil é inocente. Inocente completo (simplesmente não foi a pessoa que cometeu o crime e não tem qualquer vínculo com o evento) ou inocente circunstancial (a pessoa até estava no evento, mas entrou numa cilada, não sabia bem o que estava fazendo ou foi obrigada). Então, o primeiro ponto é: eu não acho que por cumprir pena uma pessoa seja necessariamente criminosa, culpada ou de alguma forma má ou perigosa.

Vou além: dependendo do crime que a pessoa cometeu, moral e eticamente, eu a apoio. Uma mulher que faz um aborto por não ter qualquer condição de sustentar ou criar um filho não é uma criminosa aos meus olhos. Um filho que, em um gesto de misericórdia promove a eutanásia de um pai que está em extremo sofrimento e dor, terminal, por uma doença incurável, também não é um criminoso do meu ponto de vista. Então, meu segundo ponto é: mesmo que a pessoa tenha cometido um crime, isso não faz dela necessariamente má ou perigosa.

Porém, eu vi coisas demais para ignorar uma dura realidade: o sistema penitenciário brasileiro é um show de horrores. Quem não conhece a fundo não consegue nem começar a mensurar a desumanidade, a crueldade e as atrocidades que acontecem ali. Dificilmente alguém sai mentalmente saudável, funcional e sem uma grande carga de revolta lá de dentro. Eu trabalhei com isso, confie em mim: muda a pessoa para pior e traumatiza para o resto da vida.

E, vamos esclarecer mais um ponto: não estou falando de pessoas que foram processadas. Também não estou falando de pessoas que foram condenadas a uma pena alternativa, como prestação de serviços comunitários. No Brasil, ser condenado e cumprir pena na cadeia significa ter cometido (ou ser acusado de) um crime muito grave, um crime com mais de 4 anos de punição, pois se for menos do que isso, a cadeia pode ser substituída por uma pena alternativa, como pagamento de cesta básica ou prestação de serviços à comunidade.

Por exemplo, uma lesão corporal grave, aquela que deixa o outro aleijado, incapacitado, que coloca sua vida em risco, pode ter pena menor do que quatro anos. Furto também costuma ter pena inferior a quatro anos. Então, como vocês podem imaginar, o legislador reservou as penas altas (aquelas que efetivamente te levam para a cadeia) para os crimes mais bizarros.

Então, mesmo que a pessoa presa seja um inocente, injustamente acusado, ela vai conviver de perto e de forma muito precária e desumana com a nata da nata da criminalidade. Dependendo do presídio, com facções criminosas, sendo obrigada a aderir a uma facção para não morrer. Uma vez dentro, ela terá que fazer coisas que você não consegue nem imaginar para ser aceito/mantido/protegido por essa facção criminosa dentro do presídio. E eu não julgo, pois é isso ou ser morto (ou coisa pior).

Não é exagero: a menos que você seja profundo conhecedor do assunto, você não tem capacidade de sequer imaginar o que se passa dentro de um presídio. Não é uma questão de “más influências”, é um sistema penitenciário incompetente, corrompido e ineficiente que é uma verdadeira máquina de fazer psicopatas e soltá-los de volta à sociedade.

Não é a regra que uma pessoa cumpra pena em um presídio e saia normal, bem de cabeça, sem traumas, apta para um relacionamento. E eu sempre conto com a regra geral, contar que a exceção vai acontecer com você é igualmente irresponsável. Conte sempre que o que vai acontecer é a regra, pois na maior parte das vezes, é ela o que acontece.

Meu ponto aqui não é que “se foi preso é bandido e se é bandido não presta”. O buraco é muito, mas muito mais embaixo. Nem sempre se foi preso é bandido e nem sempre se é bandido não presta. Mas sempre, um ser humano decente, quando exposto às atrocidades, violência, tortura física e psicológica do sistema penitenciário brasileiro sai com problemas. Diferentes problemas, em maior ou menor grau, mas certamente não está apta para um relacionamento como eu o concebo: com respeito, diálogo e cumplicidade.

Então sim, eu acho irresponsável se envolver com alguém que não vai corresponder ao que se espera para um relacionamento saudável. Não é que a pessoa vai pegar uma faca e te matar, é que essa pessoa foi emocionalmente danificada e isso é de difícil reversão. Se o que se procura é um relacionamento pleno, saudável e maduro, uma pessoa com esse tipo de dano psicológico não será capaz de acompanhar.

“Ain mas tem gente que nunca foi presa e também não é capaz de um relacionamento saudável”. Perfeito. Não se relacione com essas pessoas também. Não importa a origem, o motivo, a causa: se a pessoa não está em um patamar muito bom de equilíbrio mental, sanidade e maturidade emocional, é imprudente tentar estabelecer um relacionamento com a pessoa.

Pode soar frio e cruel, mas é uma medida de autoproteção: pessoas que não estejam muito bem de cabeça não conseguirão manter um relacionamento saudável. E você merece alguém que possa te dar um relacionamento saudável.

Para dizer que eu sou preconceituosa, para dizer que ninguém está bem de cabeça (sua bolha não é o mundo) ou ainda para dizer que, como sempre, começamos a semana muito alto astral: sally@desfavor.com

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Comments (6)

  • Partindo da analise só da pergunta ela parece mto preconceituosa… o q q n é imprudencia???

    Qm q conhece realmente um ao outro???

    Eu vejo mta coisa em comum em linha de pensamento com pessoas, e tbm totalmente contrárias, e tanto faz se são pessoas proximas ou ñ… e qlqr um pode cometer um deslize… então antes de prejulgar tente entender… eantes de se relacionar procure conhecer, mas isto é pra todos e n só pq é obvio!!!

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    • Eu também concordo. É imprudência. Não vale a pena correr o risco de tentar conviver com uma pessoa, seja culpada ou inocente, que tenha ficado mentalmente alquebrada por ter passado pelo inferno que é o sistema prisional brasileiro.

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  • Depende do crime, se for assassino, estuprador, pedófilo ou estuprador, pra mim não tem perdão, não mantenho amizade e nem contrato. Outras coisas é um caso a se pensar.

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    • E quando, como bem argumentado, for um inocente preso injustamente? Escola Plural é um grande exemplo.

      Eu concordo que há grandes chances das sequelas na pessoa dificultarem um relacionamento (isso se não impossibilitaram), mas… Não sei.

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