Ninguém perguntou.

Toda vez que eu tenho que pensar num tema para escrever, eu parto do seguinte princípio: ninguém perguntou. Claro, às vezes usamos ideias da página de sugestões, mas na média os temas do Desfavor vêm da nossa cabeça mesmo. Ninguém perguntou, mas eu vou contar por que acho importante ter isso em mente.

Existe uma diferença brutal entre responder uma pergunta e passar uma informação aleatória. Aposto que se olharmos a fundo, até a forma como o cérebro reage muda. Neurônios diferentes, recompensas químicas, etc. É a diferença entre receber uma ligação de uma pessoa pela qual você se interessa muito e uma de telemarketing.

Quando você quer uma informação, sua mente abre as comportas para recebê-la. Quando não estava nem pensando nisso, existe uma chance muito grande da informação ser colocada na mesma categoria de “o que eu almocei semana passada” ou “onde eu guardei aquele documento”. Coisas que são colocadas num canto obscuro da mente até desaparecer. Prioridade zero.

Muitas das infames opiniões de rede social se encaixam nessa categoria: gente respondendo perguntas que ninguém fez pra elas. Quando eu bato no cidadão médio por falar asneira na internet por achar que sua opinião é muito importante para o mundo, não estou falando que nenhuma opinião tem valor, estou apenas mencionando o fato que na maioria dos casos, ninguém perguntou.

E isso muda a lógica da coisa. Eu aprendi muito sobre comunicação humana com o trabalho publicitário, eu estou sempre pensando em formas de responder perguntas que ninguém fez: quando você vê uma propaganda, ela normalmente tenta te dar a solução para um problema que você não sabia que tinha. Claro que é muito mais do que isso, mas em praticamente todo trabalho nesse setor, você tem que lidar com essa ideia.

Você está entrando no mundo do outro com as ideias do seu. Muitas das ideias da publicidade podem ser usadas para se comunicar com outras pessoas, de uma certa forma, estamos fazendo propaganda e vendendo coisas o tempo todo, mesmo que não tenha dinheiro envolvido. Por isso eu quero fazer essa conexão: da mesma forma como o publicitário tem que responder perguntas que não lhe foram feitas, a pessoa normal também passa por vários desses momentos na vida. Às vezes você tem que tomar a iniciativa da comunicação. Vamos conectar os pontos?

Em primeiro lugar, respeite o território alheio. Eu odeio telemarketing e spam justamente por violar essa primeira regra. Não quer dizer que você tem que ficar quieto pra sempre, mas quer dizer que você tem que dar a opção para a pessoa de fechar a porta se ela não quiser papo. Não dá pra vender sem encher um pouco o saco do outro, e a maioria dos seres humanos tem um certo limite de quanto toleram. Faz sentido ir com um pouco de calma e garantir que não está acampando no quintal de quem não te convidou.

É muito parecido na hora de resolver um problema com alguém, se declarar, tentar chamar atenção de alguém interessante… não é possível sem alguma insistência, mas é uma péssima propaganda sua forçar a barra e virar spam humano. Proponha a conversa e dê uma chance do outro reagir. Nem sempre é a hora certa, porque todo mundo precisa do seu espaço, às vezes não temos cabeça nem pra decidir sabor de pizza. Se você perguntar uma vez se a pessoa quer conversar sobre o assunto, no mínimo mostra que respeita o território dela.

Em segundo lugar: goste você ou não, ninguém é obrigado a te achar interessante. Na publicidade, o esforço é para ter uma combinação de forma e mensagem que sejam atraentes. Uma propaganda pode ter um visual lindo, mas não dizer nada; ou o inverso, com uma ideia muito bacana com uma execução técnica vagabunda… em ambos os casos, você está arriscando perder o interesse da outra pessoa.

Quando você está no mindset do “ninguém perguntou”, é importante pensar sobre como vai passar sua mensagem: é o jeito mais bonito de falar a coisa? A ideia está bem resolvida na sua mente? Você sabe do que está falando? Se você responder não para pelo menos uma dessas perguntas, é bem possível que não consiga passar uma ideia pra frente. A gente faz isso instintivamente com nosso visual: como homem, eu posso afirmar que quando passar uma mulher bonita na frente eu murcho a barriga e só presto atenção nisso depois que já murchei…

Só que no campo intelectual, parece haver um preconceito contra se tornar mais atraente no que diz. A pessoa acaba achando que é falsidade. Comunicação de alto nível como o ser humano faz pode acontecer de inúmeras formas diferentes: tem jeitos e jeitos de falar a mesma coisa. Palavras diferentes, expressões, a ordem na qual você se comunica… são inúmeras combinações que podem tornar o que você quer dizer mais ou menos interessante para o outro.

Assim como a pessoa estranha não sabe que você é uma ótima pessoa para compensar um visual desleixado, ela também não sabe que tem alguma coisa valiosa no que você diz se você não der uma caprichada nisso também. Não é mentir, não é manipular, é prestar atenção no seu público-alvo e fazer o melhor caminho até ele. Tem gente que reage bem a um papo mais prolixo, tem gente que precisa ser elogiada, tem gente que lida super bem com papo retíssimo. Se você conhece a pessoa, pode escolher o melhor caminho. Isso é, se você tiver vontade de fazer esse esforço, eu escrevo esse texto todo presumindo que você queira, pelo menos eventualmente.

E mais uma lição da publicidade: se a pessoa não entender o que você está vendendo, ela não vai pensar em comprar. Quando eu penso em propaganda, eu sempre tento considerar o caminho mais simples possível para explicar uma ideia. Aqui no Desfavor eu me permito sair mais desse script e escrever coisas mais enroladas, mas quando eu preciso me comunicar com gente que não quer ler páginas de texto, eu reverto para o modo publicitário.

Como dizer uma coisa com o mínimo de palavras? Lembre-se: ninguém perguntou. Não tem um tempo de atenção garantido na cabeça alheia. Se você conseguir passar uma mensagem atraente em cinco palavras, é melhor que passar em dez. O outro entende mais rápido e a conversa pode evoluir a partir daí. Mesmo as pessoas que gostam de você preferem quando a ideia principal é passada rapidamente. Fazer rodeios é um engano: porque você gasta tempo mental do outro e quando finalmente chega a hora de dizer o que quer, você já está fazendo hora extra.

Muita gente acha que ficar inventando moda antes de chegar no centro do assunto ajuda a gerar mais atenção e às vezes até reduzir a chance de briga, mas na prática isso não é verdade. Uma propaganda com um slogan forte coloca uma ideia na sua cabeça e aí sim começa a falar sobre ela. A mente do outro está fora do nosso controle, ela está constantemente buscando novas coisas para se atentar, faça questão de que a sua mensagem esteja no topo dessa fila.

Alguns de vocês podem estar confusos: “mas é para falar bonito ou é para falar logo?”, e aqui eu te digo que não são coisas incompatíveis. Falar bonito no contexto deste texto é demonstrar a emoção certa: se você está empolgado, se você está triste, se você está com raiva, existem vários modos de colocar emoção na conversa sem criar um clima ruim. Ninguém perguntou, então ninguém está pronto para lidar com emoções complexas assim de cara.

“Eu estou muito bravo(a) com você.” é um jeito bonito (nesse contexto) de expressar uma emoção de forma curta e ficar no topo da atenção da pessoa. Não é algo que as pessoas gostam de ouvir, mas é claro, direto ao ponto e avança a conversa. Lição de publicitário: o que você quer vender vem primeiro. A conversa não é sobre o resto do universo, é sobre o motivo pelo qual você “invadiu” a vida do outro.

Num exemplo escroto: mendigo que começa a contar história triste irrita muito mais que mendigo que pede para você comprar um lanche pra ele. O que pede o lanche chega no alvo com uma meta e você sabe na hora se pode ou não dar conta dela. E mais, ele já tirou da sua cabeça qualquer dúvida sobre comprar drogas. Ele quer comida. A mensagem dele é muito mais “bonita” do que a do que realmente tem uma história triste e realmente quer dinheiro para comprar comida.

É irônico escrever isso num blog tão verborrágico, mas é uma questão de contextos mesmo: na vida em geral, quanto mais publicitária for sua fala, maior a chance de te ouvirem. Maior a chance de você conseguir o que quer. E não é porque você aprendeu um “segredo de sucesso”, é porque você aprende a falar logo o que quer e respeitar o outro. Isso obviamente funciona melhor, você gosta de ter o tempo desperdiçado e seu espaço pessoal violado? Então é claro que a maioria das outras pessoas também pensam assim.

O meu atalho para falar como publicitário para o outro é lembrar sempre que ninguém perguntou. E se ninguém perguntou, o problema de passar uma mensagem boa é todo meu. Às vezes parece injusto, especialmente se você vai fazer uma crítica ou pedir respeito, mas existem regras muito bem estudadas de como o ser humano processa informação, e não dá pra se enganar achando que elas podem ser burladas só porque você quer. Aliás, essas regras valem muito bem, obrigado, até para quando alguém pergunta.

Direito de cada um ficar emputecido e escolher não fazer nada do que eu estou sugerindo aqui, mas ter a informação é muito útil.

Mesmo que… você não tenha perguntado.

Para dizer que é só fazer tudo ao contrário do que eu faço, para dizer que nem desenhando para a maioria das pessoas, ou mesmo para dizer que seu cachorro entende tudo o que você precisa: somir@desfavor.com

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Comments (12)

  • “Quando eu bato no cidadão médio por falar asneira na internet por achar que sua opinião é muito importante para o mundo, não estou falando que nenhuma opinião tem valor, estou apenas mencionando o fato que na maioria dos casos, ninguém perguntou.”

    Sim, ngm perguntou… mas tbm n sabemos o motivo dela de estar ali explanando ou escrevendo… tipo eu estou encarando teu texto como um dialogo com o leitor, só q vc pode mtobem estar apenas sendo retórico e conversandoconsigo msmo em terceira pessoa (como o Pelé)… só q cada leitor tbm pode estar fazendo o msmo em cada resposta… e tdo o q seu texto fez foi na vdd fazer cada um refletir… eu gosto de falar o pq q eu faço as coisas, só q o ruim disto é q as pessoas podem entender como uma definição definitiva e q sempre vou me comportar daquela maneira… eu costumo pensar q ngm nunca me pergunta, mas n respondo pq me perguntaram e sim pq mta gente pode sentir da msma maneira e posso acabar ajudando de alguma forma aqueles q sao assim e n sabem bem o q fazer ou precisam de uma direção, ou simplesmente qm n é n tem a menor noção de q possa ter algm assim… nosso maior problema é ficarmos prejulgando e predefinindo os outros ao inves de nos conhecermos… até entendo ser uma resposta natural a primeira impressao, so n concordo sermos seres tao dotados de capacidade racional permanecer nela e julgarmos sem saber!

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  • “É muito parecido na hora de resolver um problema com alguém, se declarar, tentar chamar atenção de alguém interessante… não é possível sem alguma insistência, mas é uma péssima propaganda sua forçar a barra e virar spam humano.”

    É, geralmente é oq acabaacontecendo cmigo… mas é pq eu n aguento mais esperar o tempo q as pessoas costumam do se sentir a vontade… tempo é algo precioso e q n volta, e seria mto melhor se as pessoas pudessem ser mais racionais e ver q esta segurança é só placebo, e no fim perdemos o tempo q poderiamos ter aproveitado desfrutando a amizade ou qlqr outro interesse com algm!

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  • Jhonata Lima Barros

    Não sei se é um comentário que faz jus ao texto lido, mas imaginei que um análogo ao ‘ninguém perguntou’ poderia ser o ‘ninguém pediu’. Talvez ambas as coisas relacionadas.

    Exemplo: eu sei tocar violão. Nenhum dos(as) leitores(as) perguntou por isso. Mas se eu mostrasse que sei tocar violão, meio que não faria tanto sentido também, porque ninguém pediu para eu mostrar que sei tocar violão. Logo, a responsabilidade por ato seria totalmente minha.

    Leigo que sou no assunto, as consequências do ‘ninguém pediu’ seriam análogas ao ‘ninguém perguntou’?

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    • É o mesmo conceito. É bacana que as pessoas tenham iniciativa, nunca vou ser contra isso, mas com a iniciativa normalmente vem uma responsabilidade. E é essa que pouca gente quer…

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    • Eu já fiz um semana passada, ou retrasada. Mas uma sobre a questão ética sobre a vida de uma IA eu não sei se fiz. Eu acho fascinante, não sei o leitor médio.

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  • Se funcionasse para seres incoerentes e fúteis como mulheres, seria ótimo. Mas para elas nunca nada é suficiente.

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    • Porra, parceiro… se você acompanha o Desfavor há um mínimo de tempo, já deveria saber que mulher não é um bloco único de personalidade. Você lê os textos da Sally ou os comentários da imensa maioria das nossas leitoras? Se você está lidando com mulher incoerente e fútil, você no mínimo deu um azar enorme com as que estão na sua vida, mas muito provavelmente está procurando nos lugares errados.

      E eu nem estou falando de concordar com mulheres, só de ver que tem um cérebro lá. Sai dessa mentalidade, ela só vai te atrapalhar.

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  • “Quando eu bato no cidadão médio por falar asneira na internet por achar que sua opinião é muito importante para o mundo, não estou falando que nenhuma opinião tem valor, estou apenas mencionando o fato que na maioria dos casos, ninguém perguntou.”
    Deve ser por isso que nunca durei muito em redes sociais. Eu via as outras pessoas fazendo posts sobre o que estão fazendo e pensando, e tentava imitar pra entrosar e ser uma pessoa normal. Mas sempre vinha aquela voz na minha cabeça “pra quê?”, então me resignava a curtir posts alheios. E foi assim que uma conta minha foi bloqueada porque o sistema achou que era bot…
    Não, não me acho superior, ser um eterno lurker certamente me priva de muitas oportunidades. Mas é isso, de volta ao lurking.

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    • kkk… n estou rindo da situação mas sim da curiosidade, me identifiquei com teu caso rs… tbm estou a espreita qndo o assunto enturmar… é q depende mto do jeito o q cada um é e o q buscam… mas estranho tua conta ser deletada, a minha nunca teve problema e eu nunca postava nd kkk, na vdd eu criei so pra falar com uma pessoa!

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