O Dia do Nerd na República Impopular do Desfavor é comemorado dia 10 de Julho, e para celebrar a data, começamos uma semana temática de nerdices. Sally e Somir vão sair de suas caixinhas e tentar emular o que acham de nerd um no outro em seus textos, mas hoje a discussão é sobre ser nerd.

Tema de hoje: quem é mais nerd, Somir ou Sally?

SOMIR

Sally. Eu sei, eu sei… é uma afirmação chocante. Para alguns de vocês é mais de uma década com a certeza que eu sou o nerd da relação, porque eu vivo me descrevendo assim, e francamente, a minha escolha de temas encaixa certinho com todos os estereótipos de nerd.

Mas, eu gostaria de ir mais a fundo no que significa ser nerd: hoje em dia se convencionou que nerd é quem gosta de Guerra nas Estrelas ou joga RPG, é um “estilo de vida” baseado em elementos específicos da cultura, e com a popularidade de filmes e séries com nerds caricatos, é até moda. Tem “roupa de nerd”, tem “óculos de nerd”…

Eu argumento que isso é fantasia de nerd. É que nem dizer que a pessoa que anda com camisa de surf sabe pegar onda… uma coisa é ter o visual e hobbies conectados com a ideia de ser nerd, outra coisa totalmente diferente é ter o tipo de mentalidade que faz as pessoas ao seu redor te reconhecerem como nerd.

Explico: quando a moda ainda não existia, como as pessoas chegavam à conclusão de que alguém era nerd? Se você nunca tinha visto o filme “A Vingança dos Nerds”, não tinha em mente o visual de óculos de armação grossa ou a caneta no bolso da frente. Se você vinha de gerações onde ninguém pensava nessa fantasia de nerd como algo real, como é que você sabia que podia chamar alguém de nerd?

Eu que nem sou tão velho assim sei da existência de dois termos relacionados: Caxias e CDF. Ninguém mais usa, mas os dois tinham ideias muito parecidas com o conceito base da nerdice: a pessoa que estuda muito. Sei lá quais apelidos essas pessoas tinham durante nossa história mais antiga, mas uma coisa eu sei: o ser humano médio tem uma certa raiva da pessoa que estuda e vai bem em tarefas intelectuais.

Hoje em dia, como virou fantasia, o cidadão médio nem pensa muito mais nisso, no máximo faz uma piadinha. Não tem mais o peso da suposta inteligência muito desenvolvida para irritar os outros por comparação, é mais sobre ser meio otário e nutrir gostos considerados mais infantis. O nerd que incomodava foi desarmado até se tornar totalmente inofensivo. As gerações mais novas têm todas as características e hábitos que no meu tempo eram consideradas nerds.

Vamos esquecer a fantasia de nerd: não é sobre uma roupa ou um jogo preferido, é sobre estudar com afinco para aprender. Isso que emputece as pessoas ao redor do nerd, de certa forma, é o mesmo tipo de incômodo que gente que tem músculos definidos causa, aquela sensação de inadequação por comparação. A outra pessoa se sente preguiçosa ou incapaz porque viu alguém que trabalhou muito num aspecto da sua vida. O nerd raiz é aquele que causa essa raiva por ir lá e aprender o que os outros não tem saco pra fazer.

Sally é essa raiz. Ela vai lá e estuda. Ela estuda por gosto, não pelo gosto de estudar (nem acho que isso exista), mas pelo gosto de aprender. Tem uma missão mental que cumpre, e isso exige esforço, disciplina e força de vontade. É isso que incomoda o cidadão comum. Muitos de vocês podem concordar com o caso da Sally, mas achar que eu não sou diferente.

Ok, se por um acaso eu e a Sally fôssemos iguais na questão do estudo, eu tenho personalidade antissocial e tendência ao escapismo, coisas que ela não tem. Se esse fosse o caso, eu concordaria que eu sou o mais nerd.

Mas esse não é o caso. O meu segredo é que eu não estudo. Eu não aceito missões intelectuais. Nem mesmo no tempo da escola, sempre tirando notas muito altas, eu estudava. O que eu fazia melhor que as outras crianças era absorver a informação durante a aula. Todo mundo achava que eu ficava em casa estudando para sempre tirar 10, mas eu nunca tive paciência pra isso. Meus cadernos quase sempre eram lotados de desenhos. E como eu tirava nota alta, meus pais nunca perceberam que eu não estava estudando coisa nenhuma.

Eu detesto estudar. Eu posso até usar a fantasia de nerd às vezes, mas no cerne da questão, eu sou fraudulento. Não estou me batendo, longe disso, eu já entendi isso faz tempo e achei várias formas de manter uma produtividade média e conseguir entender bem sobre os temas que preciso entender, mas não é pelo mecanismo básico da nerdice.

O que eu tenho é facilidade para me fascinar com informações diferentes. Se eu precisar estudar sobre um tema, eu até dou conta, mas me custa muito caro em qualidade de vida. E francamente, forçado eu sou na melhor das hipóteses mediano. O que me salva é que eu tenho interesse natural em tantas coisas aleatórias que por pura probabilidade eu sempre consigo conectar as informações acumuladas por puro prazer com as do estudo obrigatório. Isso economiza muito tempo.

Sally tem a base da nerdice, o que realmente criou a ideia do nerd na sociedade humana. O nerd que gerava incômodo nos outros ao ponto de virar uma conotação negativa. Querem a maior prova que ela é a verdadeira nerd aqui? Quanta gente enche o saco dela nos textos e quanta gente enche o meu? Sally demonstra o conhecimento que veio do estudo, e isso emputece quem é preguiçoso.

Eu demonstro o conhecimento que veio pela diversão. Mesmo que pouca gente seja capaz de racionalizar isso, eu acredito que isso passa pelos textos, e por tabela, para a percepção dos leitores sobre eles. Os meus textos costumam vir de conhecimento prévio que eu adorei aprender em algum momento, não me custam muito em esforço de aprendizado: já estava feito. Os da Sally são baseados no que ela acredita ser necessário entender sobre um tema, goste ela ou não de ter que aprender sobre aquilo.

Nerd que não causa raiva em gente normal não é nerd, é alguém fantasiado de nerd. Eu posso ter uma quantidade enorme de conhecimento geral/inútil e adorar temas científicos, mas eu calho de ser assim porque eu recebo uma injeção de dopamina violenta quando descubro algo novo nessa área. Não tenho a base de nerd na parte intelectual, é uma coincidência. Se eu fosse assim com moda, eu seria alguém extremamente bem-vestido. Entendem a sutileza?

E sobre a parte de ser antissocial, o que não falta é gente assim no mundo. A maioria não sabe escrever um parágrafo. É algo que muitos nerds tem por serem rejeitados pelas outras pessoas, mas não é base de nada. Sally tem a base nerd do estudo e do comprometimento com o aprendizado, se ela é uma pessoa popular que tem facilidade de gerar relações, isso não tem nada a ver com o verdadeiro tema. É sobre estudo, não sobre uma roupa, um estilo de vida ou mesmo sobre ser escravo de interesses…

É sobre estudo. É a Sally.

Para dizer que até minha síndrome do impostor é arrogante, para dizer que vai continuar não querendo dar pra mim, ou mesmo para dizer que adoraria que eu gostasse de moda: somir@desfavor.com

SALLY

Para comemorar o Dia do Nerd, no próximo domingo, iniciamos nossa semana temática com uma pergunta relacionada ao tema: Quem é mais nerd, Somir ou Sally?

Obviamente Somir, por um motivo muito simples: eu não sou nerd.

Eu sou estudiosa? Sim. Isso basta para alguém ser nerd? Não. Dizer que toda pessoa que estuda é nerd é uma simplificação que não se sustenta. Eu estudo e tenho amor ao conhecimento por acreditar de coração que ele é capaz de me ajudar a viver melhor e tornar o mundo um lugar melhor. Conhecimento (e sua divulgação) é meu propósito de vida.

Toda minha vida esteve permeada por isso. Quando ainda trabalhava com direito dava aula em universidades, explicava as coisas de forma didática para meus clientes, fazia sustentações orais em tribunais de forma a que todos os que estavam presentes pudessem entender. Era conhecida por isso, por “traduzir” o juridiquês para o mundo normal.

Não sou o ET Bilu mas, por todos os lugares onde passei, procurei levar conhecimento, algum conhecimento útil, que pudesse ajudar as pessoas e despertar nelas a ideia de que conhecimento é seu amigo, ele melhora a sua vida. Desde loja de shopping até Tribunal do Júri, o conhecimento sempre foi o elo que uniu tudo que eu fiz na vida.

Isso é nerd? Não, isso é o mínimo que se espera de alguém que quer fazer as coisas bem-feitas. Se no Brasil quem estuda para entender, ter mais ferramentas e desempenhar melhor qualquer trabalho, ofício, função ou profissão é nerd, eu só tenho a lamentar pela mediocridade do país.

Não gosto de ficção científica, não gosto de Star Wars, não gosto de Star Trek, não gosto de astronomia, não gosto de rock metal pesado, não gosto de quadrinhos, não sou aficionada por cinema.

Gosto de cuidar do corpo, gosto de me adequar aos padrões de beleza socialmente apreciados, estou atenta à moda, tenho habilidades sociais (apesar de ter achar a maior parte das pessoas desinteressantes sei emular o contrário), não tenho nenhuma habilidade digital, não entendo de computação, não sou boa em matemática, sou extrovertida e tenho um histórico de reviravoltas e mudanças ousadas na minha vida que passam longe de zona de conforto.

“Mas Sally, isso que você falou são estereótipos do que seria nerd, isso não traduz o que é um nerd de verdade”. Ok, vamos olhar por outro ponto de vista: um nerd é uma pessoa que gosta muito de determinados temas e tem um hiperfoco ao estudá-los. Pode ser computação, matemática, astronomia ou o tema que você quiser. O nerd ama aquilo e se perde naquilo, estuda e absorve tudo que pode. Não é o meu caso.

Não tenho assuntos chave que me fascinam e me levam a estudar prazerosamente aquilo por semanas a fio sem nem sentir o tempo passar, a ficar imersa nesse tema, a viajar, a ficar refletindo no meu mundo interior. Eu tenho força de estudo, disciplina e meta.

Estudo qualquer coisa que precise, desde diarreia em porcos até física quântica. E eu não estudo pelo estudo, eu estudo para utilizar e aplicar isso em algum setor da minha vida: é conhecimento com propósito. Já estudei muita química para tentar cozinhar melhor, já estudei muito sobre cães para poder criar meu pet melhor, já estudei muito sobre saúde para poder cuidar do meu corpo melhor. É estudo utilitário, não por amor.

Para o nerd, o estudo é uma finalidade em si mesma, ele tem prazer ou até compulsão em estudar. Para mim o estudo é meio, é ferramenta, para fazer algo com ele no mundo do concreto depois – nem que seja um texto no Desfavor, que eu acredito que vá ajudar pessoas, tornar a vida de alguém menos merda ou contribuir para um mundo melhor.

E meu estudo é planejado. Não me perco horas a fio em uma leitura que me fascina, imersa em conhecimento que me inebria. Tenho tempo e hora, tenho cronograma, tenho meta. Estudo o que é necessário para chegar aonde quero chegar, o que não quer dizer que estude pouco, estudo muito, às vezes muito mais do que o nerd “inebriado pelo conhecimento”. Mas, como eu disse, é estudo com propósito. Não vejo a menor vantagem em “ser inteligente” (nem acho que seja) ou “ter conhecimento”, estudo não aplicado é gordura mental.

Se vocês querem a minha opinião sincera, eu acho que nerds nem gostam tanto de estudar, eles gostam de ser detentores de informação. Talvez os faça se sentirem superiores, talvez lhes dê alguma segurança ter conhecimento, não sei ao certo o motivo. Então, usar estudo para definir alguém como nerd, é um parâmetro um pouco equivocado.

Somir, meus queridos, é nerd raiz. Está tudo lá, todos os estereótipos culturais nerds. Não gosta de socializar, só aprofunda estudo voluntário se for em um tema que lhe dê prazer, de vez em quando dá umas escapadas e se desconecta da realidade, tem seu mundinho interior. Ele é regido pela criatividade e eu pela razão. Ele é Des Contos, eu dou Desfavor Explica.

O que não quer dizer que sejamos apenas isso. Somos predominantemente isso. Se for necessário, Somir vai fazer um esforço e estudar um tema que ele não goste, se for necessário, eu vou fazer um esforço e pautar algo em criatividade e não em informação. Mas, acho que está bem claro quem tem quais tendências.

Informação é poder, eu aprendi isso desde cedo. Quando você tem informação, você faz melhor, você chega mais longe e, no Brasil, você tem um grande diferencial. O que eu tenho não é amor pelo conhecimento, é amor pela excelência, por fazer bem-feito, por fazer o melhor que pode ser feito. Isso pode ser perfeccionismo, megalomania, insegurança ou qualquer outra coisa que vocês quiserem, mas, definitivamente, não é ser nerd.

Para dizer que ambos somos nerds, para dizer que nenhum dos dois é nerd ou para dizer que ambos somos egocêntricos pois nos fizemos tema da postagem de hoje: sally@desfavor.com

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