Democracia para poucos.

A mais ampla manifestação por democracia sob o governo de Jair Bolsonaro (PL) teve ápice na manhã desta quinta-feira (11) com um ato na Faculdade de Direito da USP em que foi lida, sob aplausos e falas contra o autoritarismo, a carta iniciada na instituição e assinada por 1 milhão de pessoas. LINK


Mas… será que faz alguma diferença? Quer dizer, para a democracia ou para o povo brasileiro? Desfavor da Semana.

SALLY

Patético. Não tem outra palavra para definir quem dá realidade aos factóides de Bolsonaro. Um grupo patético de pessoas, que se divide entre idiotas e mal-intencionados, protagonizaram um verdadeiro vexame contraproducente e ai de você se falar isso em voz alta, será taxado como pessoa que não quer democracia!

Vamos ao primeiro grupo: os idiotas. No meio dos idiotas estão as pessoas que acreditam que Bolsonaro efetivamente pode dar um golpe ou ameaçar a democracia, desconhecendo que, no Brasil, Presidente da República é um Muppet de Gravata que não manda porra nenhuma, quem manda é o Congresso e o STF e que, mesmo se quisesse e pudesse, Bolsonaro tem o QI de uma ameba de esgoto, sendo incapaz de amarrar o próprio sapato, muito menos de dar um golpe de estado.

Também temos os idiotas que, mesmo sabendo que ele não vai, não pode e nem quer dar um golpe, acreditam que o estão enfraquecendo com essa “demonstração de poder do povo na rua”. Não estão. Bolsonaro sempre foi como bolo: quanto mais você bate, mais ele cresce. Por sinal, foi assim que ele se elegeu da primeira vez: com todo mundo gritando a ameaça que ele era. E isso não vale só para Bolsonaro, na vida, qualquer coisa que você “combate” acaba gerando um contraponto ainda mais forte. Não é assim, com antagonismo, luta e combate que se muda nada. Apenas se reforça o status quo.

Mas, existem também os mal-intencionados – e eles não são poucos. Os mal-intencionados sabem que não tem risco algum à democracia (que, se pegar o conceito certinho, nem existe no Brasil) mas querem fazer esse tipo de oba-oba por razões pessoais: desde demonstrar virtude até ganhar dinheiro com isso. Pouco se fala dos mal-intencionados, deveríamos falar mais deles. E não, criticar marcha pela democracia não é ser contra a democracia, é ser contra a porra da marcha, um espetáculo escroto, deprimente e cafona.

Basicamente foi aquela esquerda intelectualóide miolo mole fazendo ostentação da sua figura novamente. Eles falando para eles mesmos. O pobre, aquele que precisa vender o almoço para pagar o jantar, não tem tempo para isso, não tem interesse nisso e despreza esses esquerdinhas caviar que insistem em querer dizer o que é melhor para o pobre.

Uma marcha pela democracia com área VIP, onde VIP era Daniela Mercury. É tanta vergonha que não cabe em mim. Uma marcha protagonizada por Zé Maconha com tênis que custa 3 salários-mínimos defendendo o povo. Uma marcha que, em essência, não defendeu democracia porra nenhuma, defendeu que aquele projeto de poder daquelas pessoas não fosse ameaçado.

A democracia no Brasil não está em risco. Mas o medo, o perigo, o antagonismo de estar do lado “certo” na luta contra o “mal” é o melhor recrutador de todos! Medo vende, medo rende cliques, medo dá ibope. Medo é o combustível de muita gente de países involuídos, que só conhecem o martelo e, portanto, tudo é prego, como falamos no sábado passado. O ego chega a gritar mandando a pessoa ir desfilar pela rua para mostrar como é virtuosa e quer democracia. Vão bem tomar no cu, bando de ridículos.

As ameaças reais que existem no Brasil ninguém alardeia, né? Marcha contra fome, a favor de esgoto e água tratada, a favor de aumentar a cobertura vacinal, a favor de mais investimento na ciência, de melhor aparelhamento no SUS ou qualquer outra coisa mais real não tem. Óbvio que não tem, a esquerdinha caviar tem plano de saúde, tem comida na mesa, tem rede de esgoto. E tem tempo de sobra também, e uma vocação cafonérrima para camuflar um papel defensor dos fracos e oprimidos como um manto para se promover e defender seus próprios interesses.

Gente desconectada da realidade. Gente egóica. Gente que precisa arrumar um moinho de vento para brigar, seja para não ter que olhar para a própria vida, seja para se sentir melhor consigo mesma (e, às vezes, aplacar a culpa por ter mais dinheiro do que a média). É nítido o perfil. É claro, cristalino. O rei está nu para quem tem mais de dois neurônios. O problema é que o brasileiro médio nem isso tem.

Mas, fosse apenas o ridículo da situação, vá lá, o ridículo é meio que uma constante no Brasil. O problema é o efeito colateral que esses piolhentos causam. Quando você vê figuras tão desagradáveis, tão arrogantes, tão distantes da realidade do povo militando por algo, dá vontade de correr para o sentido oposto. Se eu vejo Daniela Mercury, Caetano Veloso e cia protestando contra a morte de filhotinhos de gato, capaz de eu sair pisoteando gatinhos.

O povo, o povão mesmo, tem horror a essa gente, ao seu discurso incompreensível e a tudo que eles representam. Quando esses neuróticos saem gritando contra Bolsonaro, o povo tende até a simpatizar mais com ele. O povo vê nessas marchas um casal de homens de sunga se lambendo (ninguém me contou, eu vi) e imediatamente quer correr para o lado oposto. Será possível que ainda não entenderam como funciona o brasileiro médio?

Se estivessem tão interessados em defender a democracia, não votavam no Lula, que já disse centenas de vezes, abertamente, que vai adotar medidas pouco democráticas, como por exemplo, regulação da mídia. Não é luta pela democracia porra nenhuma, é um combo de demonstração de virtude, manutenção dos seus interesses e muita vontade de mostrar virtude e poder.

Não é esse o caminho. Bolsonaro não para de subir nas pesquisas. Não precisa ser um gênio para ver que não é esse o caminho. Bolsonaro joga umas iscas e a esquerda histérica começa a faniquitar “Ai! Golpe! Ai! Golpe!”. E ainda se orgulham de dizer que Bolsonaro é burro e eles são espertos. Será? Quão burro você tem que ser para cair em uma jogadinha de um jumento?

Olha, haja paciência para aturar essa classe média defensora dos frascos e comprimidos enchendo o saco com coisas que não existem: racismo onde não existe, machismo onde não existe, fascismo onde não existe e agora, a mais nova modalidade, golpe onde não existe. Se fossem tão virtuosos, fariam algo para solucionar os problemas urgentes de um povo que está morrendo de fome.

Para dizer que quer os melhores momentos da marcha comentados em fotos, para perguntar quando vamos falar dessa cratera do Chile que não para de crescer ou ainda para nos chamar de racista, machistas ou fascista: sally@desfavor.com

SOMIR

Baudelaire disse que o maior truque já realizado pelo diabo foi convencer o mundo de que ele não existe. Indo no caminho oposto, eu acabo entendendo que o maior truque já realizado pelo Bolsonaro foi convencer o Brasil de que ele tem algum poder…

É complicado escrever este texto porque tirando alguns detalhes aqui e acolá, não tem nada para discordar do que foi dito nessas manifestações pela democracia. É o sistema que faz mais sentido, mesmo com seus problemas. As coisas podem estar ruins com democracia, mas dado o nosso histórico, não é o sistema de governo que causa nossos problemas. Quem acha que um ditador resolveria tudo não tem profundidade intelectual suficiente para entender como nunca é uma boa ideia equilibrar um sistema tão grande como um país sobre apenas um indivíduo.

Democracia funciona mais que o resto porque tem mais pontos de suporte, mais gente para dividir a carga, e especialmente porque o sistema não precisa ser derrubado a cada vez que trocamos uma dessas bases. Faz milênios que a humanidade pensa numa solução para a vida em coletividade, e se essa ideia pegou, não pegou à toa.

Então, claro, não estamos aqui reclamando da defesa da democracia e o do Estado de direito. Estamos preocupados com a vitória retumbante de um completo imbecil sobre a mente de tantos especialistas e intelectuais brasileiros. De alguma forma, o fuckin’ Bolsonaro, o cara que oferece cloroquina pra ema e ficou famoso dando barraco com travesti em programa sensacionalista de TV, conseguiu passar uma imagem de força suficiente para gerar esse tipo de resposta da sociedade.

E não importa se as celebridades, intelectuais e figuras públicas brasileiras acreditam ou não na capacidade de Bolsonaro, importa que essa é a imagem que estão passando. Sally divide comigo a opinião que quase todo mundo que fez alarde dessa carta pela democracia estava advogando em causa própria, usando o evento para aparecer e fazer uma pose. Já tem muita pancada neles no texto dela e eu assino embaixo.

Por isso eu vou pegar essa tangente da imagem projetada para o resto da população: lembre-se que o brasileiro médio não recebe muita informação sobre política ou relacionados no dia a dia. Lembre-se também que mesmo quando recebe, a falta de prática com a compreensão de ideias complexas cria um fator de aleatoriedade na forma como vão receber e replicar essas informações.

As sutilezas do argumento em prol da democracia vão se perder em boa parte do público brasileiro, mas se a mensagem chegar no povo, ela vai chegar mais ou menos como “estão dizendo que o Bolsonaro vai dar um golpe”, e olha que eu ainda desconfio que o conceito de golpe não seja muito claro para essa gente toda. A pessoa talvez nem tenha ideia se golpe seja uma coisa boa ou ruim no final das contas.

É uma das leis da comunicação: toda falha na compreensão do receptor da informação é culpa do emissor da informação. Se você não se preocupar em adaptar uma mensagem para quem vai receber a mensagem, não adianta reclamar que não entenderam. Você não explica para uma criança que o fogo causa danos aos tecidos do corpo humano, você diz para ela tirar a mão dali. A informação tem que valer para quem recebe!

O Desfavor só é escrito da forma como é, com textos longos (para a média da internet), ideias abstratas e vocabulário mais complexo porque o público foi selecionado com pessoas que entendem comunicação dessa forma. Se eu tivesse que escrever para milhões de brasileiros, eu escreveria muito menos e com ideias e palavras muito mais simples. Não adianta teimar, o outro só entende o que tem interesse ou capacidade de entender.

E é aqui que os eventos e cartas pela democracia parecem tortos: com quem exatamente essas pessoas estão falando? Que evento é esse em dia de trabalho e horário de trabalho? Que palavras complicadas são aquelas de juristas e professores? O ponto central do discurso não vai chegar na parcela da população que poderia ser convencida sobre o valor da democracia.

Na verdade, o ponto central vai acabar sendo que o Bolsonaro, surpreendentemente, é um cara tão forte que pode acabar sendo dono do Brasil. E isso faz gente pensar…

O Bolsonaro é contra bandido e contra os gays, ele ferrou a gente com o preço da gasolina e do feijão, e falou pra tomar cloroquina… bom, acabou a pandemia, né?

Mas ele não é só isso, ele também deixou os artistas e os inteligentes do país com medo. Esse cara deve ser duro da queda, viu?

E, sabe do que mais? O pessoal que estava fazendo videozinho lendo a carta é tudo famoso, rico, doutor… se essa gente não gosta dele, pode ser que ele esteja fazendo umas coisas boas pros pobres, hein?

Ele subiu o auxílio, o preço das coisas tá baixando de novo… vai ver esse papo todo que ele é ruim é história dos mamadeira de piroca.

É tudo artista que ficou sem teta do governo! Tudo viado! O pastor disse que os viados estão querendo tomar conta.

Sei não… a coisa está tão ruim, viu? Será que piora se ele tomar conta? A gente vota, vota e só tem ladrão. Sei lá.

Para dizer que vai votar no Bolsonaro pra ditador, para dizer que o Brasil é incompetente o suficiente para perder dele, ou mesmo para dizer que somos uns azedos incorrigíveis: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Difícil é tentar explicar pra essa gente que um cara que organiza um brieNfing não tem quaisquer condições de organizar um golpe.

    No fundo eles devem saber que Bolsonaro é, como eu costumo dizer, “Burro com B de Bastante”, mas precisam se convencer que um “perigo” se avizinha e só eles podem salvar o país e entrar pra história. É uma noção completamente distorcida da própria importância e relevância.

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  • A democracia não cai só por eleições e votos. Ela cai porque a sobrevivência da sociedade ruiu.

    Quem quer impedir a queda da democracia, não a faz parecer que ela não serve pra nada ou de que é um obstáculo que impede a militância de “combater o fascismo”.

    Quem quer impedir uma ditadura, sabe da importância de não criar um cenário miserável ideal para uma. Pessoas acuadas, famintas e doentes vão guerrear pelo pouco que resta, e abraçam qualquer coisa que de fato as ajude.

    Engraçado que esquerdistas raízes dominavam muito bem isso…

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  • Uma marcha protagonizada por Zé Maconha com tênis que custa 3 salários-mínimos defendendo o povo.
    Defende o povo bosta nenhuma. Na verdade, diz defender o povo pra fazer uma moralzinha nos Instagram e nos TikTok da vida.

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  • Medo é basicamente o que alimenta a polarização em torno de Lula e Bolsonaro, esvaziando o espaço para eventuais alternativas.

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  • Mamadeira de piroca é lenda urbana pra mim, nunca vi ninguém falando sobre isso além de pessoas debochando de pessoas que acreditaram nisso… mas ok…

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    • Mamadeira de piroca é produto de sex shop, tolinho.
      Provavelmente algum troll achou bacana jogar que o #hahahahaddad estaria com planos de desencaminhar as crianças com tal produto e jogou nas mídias bolsominions e ai já viu, né?

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    • Lembro do Bolsonaro falando do tal kit gay, que era uma espécie de cartilha de educação sexual pra crianças que não chegou a ser implantada, mas que realmente existiu e teve exemplares produzidos. Agora, a tal mamadeira de piroca eu nunca vi nem ouvi ele falando sobre… eu só ouvia menções a isso vindo dos esquerdinhas caviar de podcasts e redes sociais que estavam revoltados porque os eleitores do Bolsonaro acreditariam na tal mamadeira…

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      • E qual era o nome do ministro da educação na época do factoide do Kit Gay? Ele mesmo, o #HahahaHaddad
        Não sei como esse ser ainda se acha com culhão pra concorrer ao governo do estado de São Paulo, mas também… Olha os dois principais concorrentes dele, que são o Tarcísio “Eu sou a Universal” de Freitas e o Rodrigo “Vice do Dória” Garcia.

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  • Acho que Bolsonaro vai acabar sendo reeleito pelo simples fato de que ele tem um discurso abertamente contra a criminalidade, enquanto do outro lado falam em desencarceramento e reduzir penas pra quem comete pequenos roubos, justamente o tipo de roubo que mais prejudica as classes baixas. A “turma do bem” é tão descolada da realidade que parece até deboche. Já passou do ponto de ser burrice ou ingenuidade.

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    • Não acho que o Bolsonaro vá se reeleger não. Concordo que o discurso dele é mais afinado com o que o brasilerio médio pensa, mas ele cagou o bolso das pessoas, a saúde das pessoas e a qualidade de vida. Independente de afinidade, o brasileiro tá puto por estar tudo muito caro.

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      • Teoria: O que ainda segura esse país é a cultura do parcelamento, dá uma ilusão de poder de compra. Se não fosse isso o prédio do Congresso já estaria em chamas.

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    • Funciona pra caralho fazer discurso contra a criminalidade mexendo na burocracia pra tentar safar os filhotes de pagarem pelas suas próprias cagadas no campo criminal.
      Isso pra não dizer da relação dos Bolsonaro com grupos milicianos que é bem mais antiga do que se pensa a primeira vista.
      Tem matéria do Terra em 2007 com o Flavuxo defendendo na cara dura a “legalização” das milícias.
      Por mais que os vexames do Leslie Nielsen tupiniquim (só falta descolorir o cabelo pra ficar igualzinho) sejam engraçados, isso não torna a situação melhor pra ele.

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