Guerra às drogas.

O presidente colombiano, Gustavo Petro, fez um discurso na Assembleia Geral da ONU nesta semana criticando o que ele chamou de guerra às drogas. Oras, mas se as drogas fazem mal pra tanta gente, qual é o problema de declarar guerra a elas? Bom, se você vem da Colômbia, talvez tenha uma visão bem diferente sobre as coisas.

Petro é o recém-eleito presidente da Colômbia, abertamente de esquerda e defensor de todo tipo de discurso popular entre a esquerda moderna. Pior, foi guerrilheiro revolucionário nas selvas locais. É o tipo da pessoa que fica fácil de colocar dentro de um arquétipo de “traficante comunista” e usar na sua máquina de propaganda como exemplo de ameaça iminente ao bem-estar da família tradicional. Se ele é contra a guerra às drogas, só pode ter um objetivo maligno, não?

Provavelmente não. Estamos falando da Colômbia, e aí, o buraco é muito mais embaixo nessa questão das drogas. O que todo mundo deve saber é que nos anos 80 e 90, os colombianos eram conhecidos pelos cartéis de traficantes que dominavam o país, o mais famoso sendo Pablo Escobar, que por algum tempo chegou a rivalizar com o governo oficial em questão de poder.

O que nem sempre é bem explicado é o papel dos EUA nessa história. Como sempre na América Latina, suas digitais estão por todo tipo de tomada de poder ilegal sob o pretexto de combater o comunismo. Fizeram isso em basicamente todos os países e hoje em dia nem se discute mais a veracidade dos fatos. Era parte da estratégia de Guerra Fria dos americanos: instalar governos avessos a tudo relacionado com a União Soviética em seu quintal.

Gustavo Petro foi um dos cidadãos que se bandeou para o lado da guerrilha revolucionária de esquerda quando os americanos ajudaram a derrubar um governo local que não atendia aos seus desejos. Eu super concordo que se bandear para o lado dos soviéticos não era vantagem nenhuma para o continente, mas eu não tenho como negar o jogo sujo dos americanos para manter o controle sobre seu “quintal”. A gente pode ser contra ditadura de esquerda e de direita ao mesmo tempo.

A Colômbia tinha em suas enormes áreas de floresta e montanhas o material humano, o conhecimento técnico e a liberdade de produzir cocaína. A planta é nativa da região, o povo mascava as folhas de coca há milênios. Com a “invenção” da versão potencializada, o país tinha em suas mãos um produto com demanda interminável. E os produtores colombianos começaram a perceber um potencial enorme: levar a cocaína para os EUA.

A droga já era proibida por lá, mas não era uma preocupação das maiores. Até que se tornou: a droga explodiu em popularidade, os colombianos produziam toneladas de cocaína e exportavam para os EUA com lucros exorbitantes. A coisa ficou tão séria que virou uma crise interna, como era algo ilegal, não havia supervisão estatal. Os traficantes se estabeleceram no sul dos EUA e formaram impérios do crime que começam a assustar até o governo ianque.

Foi na onda dessa violência causada pelo tráfico e a percepção de um Estado cada vez menos capaz de lidar com esse poder paralelo que o presidente americano Ronald Reagan declarou guerra às drogas. Foi num discurso ao vivo para a nação, dizendo que essa era a maior ameaça ao povo! Os EUA entravam numa nova era de repressão ao uso e a venda de cocaína e todo tipo de droga ilegal.

Parecia óbvio ali. Se tem gente fazendo coisa ilegal, o Estado tem que usar sua força para impedir. E como boa parte das drogas entrando nos EUA vinham da Colômbia, parecia óbvio também intervir no país para represar o rio na nascente. Começa então uma invasão “tolerada” dos EUA na Colômbia. Os políticos colombianos estavam ficando sem margem de manobra para lidar com os cartéis, então depois de muitos anos de tolerância corrupta, abraçaram a intervenção americana.

Agora, as coisas se somam: muita gente se tornou revolucionária por causa das intervenções americanas, e como as guerrilhas haviam encontrado um ponto de equilíbrio com os cartéis de drogas (que não precisavam concordar em nada além da vontade de derrubar o poder oficial colombiano), a intervenção americana criou um novo monstro: as FARC. O sucesso em enfraquecer os cartéis gerou uma reação entre esses dois movimentos.

Guerrilhas colombianas que tomavam as enormes florestas locais, sob uma ideia meio vaga de comunismo, mas com o firme propósito de se financiar com a produção e distribuição de cocaína. Toda essa ideia de comunismo e tráfico estarem integrados na América Latina vem das FARC. Não tinha nenhum santo nessas guerrilhas, mas há de se entender que elas foram moldadas por intervenção externa do, em tese, maior inimigo do comunismo e das drogas no mundo.

O colombiano viu ao vivo o desastre humanitário que a guerra às drogas nos EUA estava causando. O plano americano era reprimir, reprimir e reprimir. O resultado foi a Colômbia passando boa parte das últimas décadas num estado de caos e praticamente nenhum avanço prático na redução do consumo de drogas nos EUA ou no resto do mundo.

A tentação de dizer que Gustavo Petro é contra essa ideia de repressão às drogas por ser amigo das FARC é grande, eu sei… mas nada é tão simples assim no mundo. A gente aqui no Brasil sabe que Bolsonaro é um pateta que não consegue mandar nem na própria família, mas a informação que roda o mundo é que nossa democracia está ameaçada pela extrema direita. Vamos tentar analisar o que Petro diz pela via do bom-senso.

E pela via do bom-senso, podemos analisar os dados de quanta gente está usando drogas sem parar, inclusive nos EUA. O país tem a maior população carcerária do mundo, em números gerais e em porcentagem da população. São milhões de pessoas presas, e a maioria está atrás das grades por causa das drogas. Se você consegue prender mais de 2 milhões de pessoas, quase todas por crimes relacionados às drogas, era de se esperar que alguma coisa estivesse funcionando, não?

Pois é… pra provar como a repressão não funcionou, a maior epidemia de viciados por lá é baseada em remédios legais. Opióides. A demanda não foi reprimida. Na verdade, ela foi quase que legalizada: o governo faz de tudo para evitar que drogas cruzem suas fronteiras, mas as empresas farmacêuticas locais criam drogas diferentes muito mais poderosas e atuam livremente no incentivo ao seu uso pela população mais vulnerável.

“Oras, a repressão funcionou então, não são mais as drogas ilegais causando problema!”

Não, não é isso. As drogas ilegais continuam rodando pelo país, porque controlar entrada de cocaína num país como os EUA é enxugar gelo, o que aconteceu de verdade foi que o número de pessoas drogadas ao ponto de serem imprestáveis para a própria vida aumentou. As drogas legais se somaram às ilegais e eles estão lidando com o dobro do problema agora. Quando você só pensa em repressão, você isola a pessoa suscetível ao uso. E pessoa abandonada faz besteira.

O problema não é que mudou o foco das drogas causando problemas nos EUA, o problema é que as legais se somaram ao problema. E a guerra às drogas declarada por Reagan década atrás é parte integrante disso: enfiaram na cabeça que prender traficante e botar fogo em floresta na Colômbia é lidar com o problema. Pior que não ter descoberto uma solução é achar que tem uma que não funciona.

A guerra às drogas causou diversos problemas na Colômbia. Quando Petro vai falar disso na ONU, fala com a experiência de quem viu os americanos chegarem, bagunçarem tudo e continuar basicamente com o mesmo problema de antes. Os cartéis colombianos se tornaram cartéis mexicanos. Jogaram veneno num bueiro, os bichos foram para outro.

E o mais triste: muita gente acha que está tudo bem. Que é só questão de reprimir mais para resolver, que o que falta é mais porrada. Quando você está num caminho que não parece estar dando resultado e sua única ideia é insistir nele, você está com um problema sério. A guerra contra as drogas não falhou por falta de poder de fogo, se alguém tinha armas e poderio militar para jogar em cima do problema, eram os EUA; a guerra contra as drogas falhou porque as pessoas estão usando ainda mais drogas.

O ser humano até consegue perdoar alguns excessos de força se enxerga uma vantagem depois. Agora, quando alguém vê a quantidade de mortes e violência da guerra contra as drogas e descobre que as pessoas estão mais viciadas depois… fica mais difícil de compreender.

Eu mantenho minha opinião que liberação geral das drogas não é uma boa ideia no Brasil, porque temos uma desigualdade imensa que fatalmente vai terminar em crises de saúde pública e violência urbana de escalas nunca antes vistas, mas se tem algo que eu não discuto mais é a guerra às drogas: falhou. Falhou feio. Se o seu inimigo só fica mais forte depois de décadas de luta, você está claramente fazendo algo errado.

Existem várias ideias de como lidar com o tráfico e o usuário de drogas, algumas delas testadas com relativo sucesso, focando no viciado primeiro, ao invés de focar no traficante primeiro. Goste ou não de Petro e suas inclinações ideológicas, entenda que ele viu seu país ser virado de ponta cabeça pelas drogas, viu como os EUA tentaram resolver tudo na base da força e viu como nem por lá eles conseguiram um resultado válido.

Como as informações chegam ao Brasil muito influenciadas por ideologias locais, eu acho importante tentar tratar do problema de uma forma realista. Não fazer nada deu errado, atacar com violência deu errado. Posso discordar do presidente colombiano em tudo mais o que disser a partir de hoje, mas isso faz muito sentido. Combater as drogas do jeito como combatemos hoje deu errado e está na hora de procurar outra estratégia.

Para me chamar de Zé Droguinha, para me chamar de comunista, ou mesmo para dizer que a solução é pra tudo é bater mais forte na próxima vez: somir@desfavor.com

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Comments (22)

    • Quando eu era adolescente, tive uma vizinha de frente cujo filho estava nessa situação e sei bem o calvário que a família passou.

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  • Era só legalizar que o crime acabava. Quem quer usar usa mesmo, todos sabem onde vende, a única diferença é que ia acabar com matança de polícia x bandido. Esse argumento que todos iam virar drogados é uma furada. Nunca usei porque não quis, não vai ser legalizando que vou usar. Deixa os caras vender, aproveita cobra impostos sobre as vendas, quero ver geral comprar depois dessa hahaha

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    • Eu não vou mentir que essa ideia me atrai, mas a gente tem a indústria do tabaco e do álcool para nos mostrar o que pode acontecer assim que houver uma estrutura profissional lidando com a produção, distribuição e divulgação de produtos danosos à saúde humana. Pessoas mais pobres, que tem menos acesso à educação e francamente muito mais motivos para usar drogas em geral, acabam se viciando numa proporção muito maior. Eu espero que o dia que possamos liberar tudo chegue, mas se eu estivesse no poder, eu não daria essa ordem não: povos como o brasileiro ainda não estão prontos para isso.

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    • Olha, tem um monte de coisa que é legalizada mas vende muito no mercado paralelo, por ser mais barata, já que se comprar na mão de ambulante não paga imposto. Eu não sei se legalizando acaba com o mercado paralelo não…

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  • Legalizar qualquer coisa sob o argumento de “não adianta proibir que as pessoas vão fazer mesmo assim” é bem bizarro. Se for partir dessa premissa, então cancelem o Código Penal de todos os países e deixa o mundo virar uma selvageria de roubos, assassinatos, estupros, corrupção.

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    • Isso me lembra que tem uns políticos por aí que defendem anular penas de furtos e assaltos ditos simples, ou seja, o maldito que roubar sua lojinha ou te agredir na rua pra roubar seu celular vai sair impune. E agora querem liberar um drogas e todo tipo de perversão pra destruir famílias. É pra destruir a pessoa tanto materialmente quanto psicologicamente.

      Progressistas e libertários ODEIAM pobres.

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      • A quantidade de açúcar que o nosso organismo precisa é muito pequena se comparada com o oferecido nos alimentos industrializados. Um fato importante é que o nosso organismo consegue converter aminoácidos em açúcar, mas não consegue converter gordura em açúcar. Então gordura sempre é um problema. Além disso há a questão dos aminoácidos essenciais. Metabolismo é uma coisa muito bonita mesmo de estudar. Seja como for, o estudo que coloquei me chamou a atenção porque ele mostra que o açúcar é porta de entrada para drogas mais pesadas, tipo cocaína. Desculpem não ter sido claro sobre isso no começo.

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        • Ah, tranquilo. Acredito que também fui meio passivo-agressivo na minha primeira resposta. Também peço desculpas. Vou dar uma lida no estudo.

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  • O M19 (que foi o movimento do qual o atual presidente participou, e não as FARC) não surgiu após a derrubada de um governo local, mas sim de uma suposta fraude na eleição presidencial de 1970. Ironicamente, o candidato derrotado na ocasião foi exatamente um general (Rojas Pinilla) que em 1953 perpetrou o único golpe de Estado do Século XX na Colômbia. Aliás, é curioso notar que a lista de Presidentes do país induz a pensar em uma democracia estável, pois desde 1958 os mandatos encerram-se e iniciam-se em 7 de agosto.
    Diga-se que tanto o M19 quanto as FARC precedem em muito a Presidência do Reagan. Seria oportuno ter mencionado também os paramilitares de direita que colaboraram decisivamente na degradação colombiana.
    No mais, bom raciocínio.

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    • Detalhes que acrescentam, mas eu achei que não cabiam no texto. Precisava contextualizar sem perder o foco nas drogas e cair demais em política. Mas fica aqui como suplemento!

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  • Guerra as drogas não funciona. Tentar lidar com o problema da drogadição talvez desse um efeito mais efetivo, mas você tem que de qualquer forma lidar com o poder dos cartéis e dos comandos fazendo seu jogo sujo de boicote a políticas nessa linha nos bastidores.
    O negócio do narcotráfico é bem mais lucrativo do que o cultivo de produtos “agrícolas” utilizados no dia-a-dia, como soja ou café por exemplo e isso funciona em favor do negócio continuar de pé e mais forte do que nunca.
    No fim, aquilo que chamam por capitalismo vence, a despeito de a esquerda pós-moderna tentar vender a todo custo uma imagem de que luta por uma maior igualdade no campo social.

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    • Há quem diga que é exatamente a ilegalidade do comércio e a correlata repressão que proporcionam tais lucros, por causar escassez dos produtos. Exemplificando, apreensão de drogas seria conveniente por diminuir a oferta em uma situação de demanda constante ou crescente.
      Tal interpretação mercadológica talvez seja simplista, entretanto.

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        • As máfias tem vários meios para operar, sendo que a operação entre o meio legal e o ilegal traz dificuldades para que se tenha o controle de ação das mesmas. Não é mais o mesmo “amadorismo” dos tempos do Pablo Escobar, que ganhava tanto dinheiro que nem tinha como esconder ou dissimular os recursos.
          De anos 80 pra cá se evoluiu bastante em termos de lavagem de dinheiro, seja no que diz respeito a armamento e a outros subterfúgios para manter a população no entorno refém, seja nas relações que constroem dentro da burocracia corrompida seja de países latinos, seja dos próprios EUA, que ainda tem influência no sentido de poder inclusive forçar suas posições mundo afora.

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        • Pra você ter uma ideia do poder dos carteis mexicanos, bem… Pensa nas milícias da baixada fluminense mas só que pior, até porque seria mais ou menos como se as milícias daquela região exportassem seu modus operandi para grande parte do país, o aplicando até com certa conivência das autoridades (ora corrompidas, ora ineptas pra fazer alguma coisa no combate a isso).
          Eles tem controle inclusive sobre a exportação do fuckin’ ABACATE, que passa longe de ser uma droga em si.

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          • Ainda tem muita sujeira escondida debaixo desse tapete. E de formas que a maioria das pessoas nem imagina…

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  • Somir, não sei se você já conhece, mas, lendo o seu texto, eu me lembrei de uma HQ online do autor Stuart MacMillen com que me deparei há algum tempo, baseada em idéias do economista norte-americano Milton Friedman – ganhador do Prêmio Nobel em 1976 – e que compara a “Guerra às Drogas” com a “Guerra ao Álcool” que vigorou nos EUA durante a Lei Seca dos anos 20 e 30.

    Segue o link para a HQ ONLINE: https://www.stuartmcmillen.com/pt/comic/guerra-as-drogas/#page-27

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