Histórias de vida – Parte 1

Hoje, último dia do mês, é meu dia de seguir uma sugestão dos leitores. Um anônimo sugeriu que eu sofresse junto com os nomes cagados dos candidatos brasileiros, e eu escolhi fazer isso da forma que mais me diverte: contando histórias sobre os meus preferidos. Vamos começar pelo nome que mais mexeu com meu coração:

Mestre Dejair Canibal – Candidato a Deputado Federal por SP

Dejair nasceu numa casa humilde da periferia, reboco incompleto diante de uma rua de terra às margens instáveis de um córrego muito poluído. Ao lado de oito irmãos e irmãs, dormia toda noite num amontoado de colchonetes, enroscado entre braços e pernas dos familiares. Numa dessas noites, enquanto batalhava por espaço logo antes de pegar no sono, escutou dois estampidos secos vindos de fora.

Dejair correu em direção aos gritos da mãe, e só teve tempo de observar o disparo final. Ele não viu a bala atingir o corpo inerte do pai, mas viu o rosto do matador. Seu pai fora assassinado por um jagunço. Punido por não pagar em tempo a dívida com um agiota. Dívida feita para pagar por uma reforma na casa, um novo quarto para tornar mais confortável a vida dos filhos. O quarto nunca foi construído, mas o garoto fez uma promessa de vingança.

Não pode estudar português, matemática ou geografia, afinal, passava os dias nos sinais pedindo dinheiro para sustentar a família. Os irmãos mais velhos sumiram um a um, presos ou mortos. Polícia e tráfico, ambos letais. O que pode estudar foram as artes marciais. Entre um sinal e outro, repetia os movimentos que via pela janela de uma academia de ginástica. Homens e mulheres vestindo roupões brancos, lutando contra inimigos imaginários.

Dejair foi crescendo e ficando famoso na região. Seus golpes atingiam o ar e entretinham os motoristas ao ponto de aumentar e muito seus ganhos. Mas na sua mente, Dejair tinha um alvo para cada um dos movimentos: aquele matador da noite onde perdera seu pai. Logo o apelido jocoso de Mestre Dejair se espalhou pela vizinhança. Ele não se importava. A cada dia, seus golpes eram mais rápidos, poderosos, e em sua imaginação… mortais.

O corpo franzino de dezenove anos de subnutrição e abuso de substâncias ilegais se movia de forma fluida, e também contava com uma vantagem: servia perfeitamente dentro dos quimonos infantis de crianças entediadas com artes marciais. Recebeu mais de oito de pais que não sabiam mais o que fazer com eles depois dos filhos desistirem. Vestia um por dia, para dividir o amarelado causado pela fumaça dos carros por igual, afinal, não tinha como lavar nenhum deles.

Numa tarde chuvosa, Dejair se escondia debaixo de uma árvore perto do sinal de trânsito, quimono cada vez mais pesado pela água que escorria por entre as folhas. Ele considerava um desafio extra aos músculos. Ao terminar um de seus chutes, o corpo se volta para a janela da academia mais uma vez. É quando ele percebe algo estranho: os alunos com seus quimonos brancos de braços erguidos, parados. Do outro lado do salão, um homem apontava uma arma.

Dejair reconheceu esse homem. O rosto marcado pelo tempo, mas com os mesmos detalhes que ficaram queimados em sua memória naquela triste noite. Era o assassino. Ele estava de volta. Não teve um segundo de hesitação: correu até a porta do prédio, pulou a catraca enquanto ouvia os gritos de mulheres histéricas pelo caminho. Suas roupas enxarcadas não conseguiam impedir sua força de vontade.

Subiu a escada com a força da adrenalina, e rapidamente deu de cara com a cena. O bandido não hesitou, deu dois tiros em sua direção. Ambos acertaram a parede. Dejair sabia que era hora da sua vingança, sabia que os céus estavam olhando por ele, que a morte de seu pai não ficaria mais impune. Ele corre em direção ao homem armado. Mais dois tiros. Mais dois erros.

Os alunos da academia começam a gritar desesperados, e a turba se dissipa em direção à saída. Dejair se joga no chão, rolando pelo tatame, muito mais permissivo com impactos do que o asfalto com o qual se acostumara. Ele escuta as duas últimas balas. Uma próxima do ouvido, zunindo de forma dolorosa, outra queimando a pele de seu braço. Terminado a rolagem, ele olha rapidamente para o braço esquerdo. O tiro foi de raspão.

O assassino de seu pai arregala os olhos. Sem munição, diante de um jovem franzino com expressão de fúria em posição de combate. O homem tenta dar uma coronhada em Dejair, facilmente desviada. A arma escorrega das mãos do vilão e cai inerte no tatame.

A dor no braço não é impedimento. Dejair sabe que é a hora de fazer jus ao apelido, e dessa vez não seria uma piada. Naquela noite do passado, ele era indefeso, hoje… hoje ele era o Mestre Dejair. Um grito de puro ódio explode de seus pulmões, e ele se prepara para colocar em prática tudo o que aprendera em mais de uma década de treino nas ruas.

“Iá!” – Mestre Dejair ergue as maõs para o alto, passa por trás da cabeça e rebola de forma agressiva.

O homem fica sem reação.

“Uááá!” – ele puxa os dois braços para trás e faz três polichinelos numa velocidade impressionante.

O assassino de seu pai olha bem em seus olhos e começa… a rir.

Mestre Dejair fica confuso. Todos os seus movimentos marciais, treinados com esmero há tantos anos, forjados no fogo do asfalto escaldante, não estavam causando dor ao seu inimigo mortal. Pior, estava fazendo dele uma piada. Ele olha para as paredes, vários desenhos de mulheres dançando, e os escritos: “AeroCombate”. Todo aquele esforço, todo o propósito de uma vida… desperdiçado em movimentos de aeróbica com temática de luta.

Sua vida passa diante de seus olhos. As horas intermináveis de treinos nas ruas e as risadas dos transeuntes. Mestre Dejair era mesmo uma piada. A fúria de uma vida destruída na infância e desperdiçada na adolescência começam a se acumular. O homem se abaixa para buscar a arma. Ele poderia correr para evitar os tiros, ele poderia deixar o seu grande inimigo fugir mais uma vez…

Mas como uma fera acuada pelo destino, Mestre Dejair apela para seus instintos mais primais. Com a leveza dos seus movimentos aeróbicos, salta na direção da presa, pescoço descoberto por estar abaixada. Com uma mordida violenta, Dejair crava os caninos na jugular da vítima. Um pouco mais de força e os dentes da frente se conectam. Metade do pescoço do assassino de seu pai volta junto com o movimento brusco de sua cabeça.

No lugar, um buraco vermelho, profundo, jorrando sangue. Dejair sente o gosto metálico do sangue em sua língua. Sem pensar duas vezes, mastiga a carne de seu adversário. Seu quimono se enche de sangue enquanto o homem desaba no chão, manchando de vermelho os tatames verdes desgastados do salão.

O resto do pescoço do homem nunca foi encontrado. Os policiais que encontraram Dejair rosnando sobre o corpo dele descreveram no boletim de ocorrência que ele provavelmente tinha mastigado e engolido a carne da mordida que dera. Mestre Dejair nunca confirmou, mas sua foto no jornal da manhã seguinte, boca ainda cheia de sangue e olhar enfurecido, foi responsável por criar o nome pelo qual seria reconhecido a partir dali.

Mestre Dejair Canibal.

As marcas de tiros nas paredes e o depoimento agradecido dos reféns foram o suficiente para que Dejair fosse considerado inocente. Legítima defesa. A história da vingança se espalhou pela região. Mestre Dejair Canibal ganhou aulas grátis onde quisesse na cidade. Hoje em dia, é faixa vermelha em Jiu-Jitsu e ganha a vida dando cursos de defesa pessoal para mulheres na mesma academia que viu pela janela todos esses anos. De tempos em tempos aparece para fazer a aula de AeroCombate, para o delírio das alunas.

A mãe ganhou uma pequena casa num bairro melhor, que divide com os três irmãos ainda vivos. Dejair mora com a esposa num apartamento no centro, barriga enorme de gêmeos que pretende chamar de Bruce e Chuck.

Se eleito for, promete lutar pela segurança pública e oferecer aulas de artes marciais – as verdadeiras – para a população carente.

Fim.


Eu ia escrever várias histórias curtas sobre vários candidatos, mas eu saí de controle logo na primeira. Vou continuar escrevendo sobre esses seres fascinantes e seus nomes incríveis. A minha lista atual é essa:

  • Waldemir Papa Tudo
  • Lubiana Barrigueira
  • Zé Gotinha da Floresta
  • Naiara Mandata Transfeminista
  • Nega Diaba Filha
  • Fabiola da Rua da Vala
  • Fatal O Retorno
  • Pastor Fernando Jesus é Lindo
  • Seu Toba
  • Ralado de Gel do Bode

Se alguém tiver preferência de qual será a próxima, só deixar nos comentários. Ou não, sei lá. O importante é que eu me diverti.

Para dizer que quer votar no Dejair, para ser o Dejair e dizer que isso tudo é saudade, ou mesmo para dizer que era isso que faltava na eleição: somir@desfavor.com

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Comments (6)

  • Somir, em apenas duas palavras: “ESSE LENTE” (kkkk!)

    Esperando MUITO ansiosamente pelas histórias da grotesca (e isso é um elogio) Transfeminista, do Seu Toba e do Ralado do Gel do Bode (pra esse até dou uma idéia: o cara se ralou depois de escorregar no… bem… digamos… “gel” do bode numa tentativa zoófila!).

    Que idéia sensacional a desse abençoado anônimo! :-)

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  • Essa historia daria um filme trash de humor bem divertido, com estética visual e cenas tirando sarro dos clichês das bagaceiras que antigamente passavam na “Sessão Kickboxer” da TV.

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