Histórias de Vida – Parte 3

Se você não gostou das Histórias de Vida, o bullying vai ser com você. Se gostou, vamos para mais uma fascinante história dos cafundós da política tupiniquim!

Fabiola da Rua da Vala, candidata (derrotada) à deputada estadual no Ceará.

Crato não é uma cidade como qualquer outra no Ceará: conhecida como o Oásis do Sertão, a cidade ao sul do estado tem como seu ponto forte a agropecuária, possível pelos seus vales irrigados bem no meio do Cariri. Essa pujança fez com que desenvolvesse uma população muito maior do que o esperado numa região tão afastada.

E com uma população grande, invariavelmente vem zonas periféricas ocupadas por aqueles que não conseguem aproveitar todos os recursos regionais. Numa delas, encontramos a Rua 19, uma daquelas que confundem quem não é da região: começa sem razão de ser no meio do que deveria ser um quarteirão, termina em lugar nenhum diante de um morro com os qual os populares não conseguiram negociar passagem.

Bem no meio da Rua 19, num parto surpreendente salvo pela perícia de uma vizinha treinada em enfermagem, nasce Fabíola. Prematura por dois meses, sua história virou milagre na boca do povo. Padre Cícero recebeu os méritos, afinal, Crato era sua cidade natal. Enquanto criança, a jovem adorava ouvir a história de seu nascimento e a intervenção divina que a mãe jurava ter acontecido. Fabiola fora salva por um motivo.

Com o passar dos anos, outros milagres foram tomando conta da mente dos vizinhos, e a história ficou apenas com ela e sua família. Mesmo com uma infância de dificuldades, Fabiola mantinha sua confiança em um propósito maior. Um dia ele chegaria, ela tinha fé.

Era uma manhã do surpreendentemente frio inverno da região quando a jovem saia de casa para o trabalho como balconista numa padaria distante. Como sempre, navegava pelo inconsistente chão de terra batida, evitando sujar demais o sapato. A promessa de pavimentação ia e vinha a cada quatro anos quando candidatos a vereador visitavam seu bairro, mas nunca era cumprida. A antiga Rua 20 já tinha asfalto e nome de doutor, mas não importava a administração, a 19 continuava sendo deixada para trás.

Fabiola percebe um pedregulho afiado num dos cantos da rua. Preocupada com os poucos carros que ainda passavam por ali, sai do seu caminho com o objetivo de chutá-la para o terreno baldio logo em frente. Ao se aproximar, leva um susto: a centímetros dos seus pés, o chão parecia se abrir num enorme buraco. Ela se joga para trás instintivamente, sujando a calça ao cair sentada. Mal eram cinco horas da manhã, o sol ainda negociava com as nuvens do horizonte, ninguém estava lá para ver a queda desastrada.

Menos mal. Mas logo outra coisa toma conta de sua atenção: o buraco não estava lá. Ela poderia jurar que viu uma cratera na rua, mas nada além de terra vermelha umedecida pelo sereno diante de seus olhos. Ela se levanta lentamente, batendo a terra que grudara na calça, sem sucesso. O ônibus partia em cinco minutos. Foi assim mesmo para o trabalho, pegou uma calça emprestada da caixa assim que chegou. Mas durante o seu turno, a cabeça estava focada naquela visão da manhã: ela tinha certeza que viu o buraco, poderia jurar que viu até alguns vultos lá embaixo. Foi muito rápido, mas a imagem ficou gravada na memória.

O sol já havia se posto quando a longa jornada de volta à Rua 19 terminou. Os postes eram mais espaçados que nas outras ruas, e as lâmpadas tinham o péssimo hábito de não perceber a noite e continuarem desligados. Ela estava sozinha, e a área onde vira o buraco antes estava exatamente num desses pontos escuros. Apesar de conhecer bem a vizinhança, não era boa ideia para uma mulher sozinha ir para um canto escuro de noite, aonde quer que estivesse. Decidiu acordar mais cedo no dia seguinte.

Prospecto dificultado pela difícil noite de sono. Sonhou duas vezes com o buraco, e sempre havia algo assustador lá dentro. No primeiro sonho, viu olhos brilhantes, no segundo, uma mão saiu do buraco em sua direção. Nos dois, acordou com o coração acelerado e respiração ofegante. A noite mal dormida custou uma manhã especialmente difícil, mas Fabiola não tinha escolha: o banho foi gelado e o café bem quente.

De volta à Rua 19, Fabíola tinha um pouco mais de visão, o poste diante do terreno baldio tinha acendido em algum momento durante a noite e não tinha desligado até agora. Ela se aproxima da pedra pontiaguda, passos lentos, ponta dos pés confirmado a solidez do chão a cada centímetro. Quando finalmente se conforma que o dia anterior fora apenas uma visão causada pelo sono matinal, sente o chão sumir embaixo do pé esquerdo. A perna é sugada imediatamente.

Fabiola se desequilibra e cai sentada novamente, as duas pernas agora dentro de uma enorme vala no meio da Rua 19. Estivesse um passo além de onda estava e teria caído lá dentro. Ela tira as pernas rapidamente e se debruça sobre o buraco. A terra avermelhada se contorce chão abaixo, cada vez mais escura, alcançando uma profundidade incalculável. A fenda no solo parece ter uns quatro metros à sua frente, com uns dois de largura. A luz do poste avança alguns metros na escuridão enquanto os primeiros raios de sol começam a invadir o buraco.

Ela pega aquela pedra pontuda e joga no buraco. Ela se debate refletindo a luz vinda de cima, e a cada impacto ela pode ouvir o eco de algo gigantesco lá embaixo. A pedra bate mais algumas vezes nas paredes, já invisível pela falta de luz. Fabiola espera pelo som do final da queda para calcular a profundidade, mas ele nunca vem. Curiosa, ela termina de se sujar se debruçando sobre o chão de terra e colocando o ouvido o mais próximo possível do vazio.

Nesse momento, escuta algo que arrepia seu corpo: um grito. A voz parece jovem, uma mulher ou uma criança. Ela grita de volta no buraco. Pergunta quem estava lá. Mais gritos respondem: dessa vez, uma união de vozes de inúmeras fontes, homens, mulheres, crianças, todos claramente desesperados, mas não usando nenhuma palavra reconhecível por ela. Sua criação católica fervorosa dá a resposta perfeita para aquilo: estava vendo uma abertura para o Inferno. O buraco não emitia calor ou cheiro de enxofre, mas aquelas vozes de terror eram prova o suficiente de que aquilo lá era um caminho para o reino do demônio.

Ela se levanta e olha ao redor. Precisava contar isso para alguém. Imaginava o desespero de quem caísse no Inferno por puro azar de não olhar para onde estava indo. Ninguém merecia esse destino. Pantera morava do outro lado da rua, pedreiro experiente que nunca saia de casa sem seu pingente com a cruz sagrada, ele parecia uma excelente escolha para lidar com o problema. Talvez ele pudesse tapar a vala.

Ela força o portão da casa de Pantera, ouvindo as correntes chacoalharem. Ela grita o apelido do homem e bate palmas algumas vezes. Alguns segundos se passam antes da porta da frente se abrir lentamente e o homem – pele muito negra reluzindo com a lâmpada acima da porta, sem camisa e vestindo apenas uma bermuda surrada, chinelos e sua inseparável cruz no peito – aparecesse ainda esfregando os olhos com uma cara de ressaca das mais bravas. Desde a morte da esposa há alguns anos, ele nunca mais foi o mesmo.

Fabiola apressa Pantera, dizendo que ele precisava fechar uma porta para o Inferno. Curiosamente, ele não reage à estranha frase, dizendo apenas que já estava indo. Mais ou menos uns cinco minutos se passam antes que ele se aproxime do portão e desfaça a fechadura, agora com a cara lavada, ainda pingando, e um cigarro molhado entre os lábios. Fabiola pega o homem pelo braço e o traz até o outro lado da rua.

Ela pergunta se ele está vendo o buraco. Pantera aperta os olhos, observa o chão e volta-se para a mulher com expressão confusa. Ela se abaixa e coloca o braço dentro do buraco, pedindo a atenção dele. Pantera enxerga o braço de Fabíola desaparecendo no chão, o que o faz ficar boquiaberto e derrubar o cigarro. Num passe de mágica, ele começa a ver a vala, tão grande e profunda como Fabiola descrevera.

Logo, ele começa a ouvir os lamentos, choros e gritos de desespero. Fazendo o sinal da cruz e beijando a que carregava ao redor do pescoço, ele se afasta alguns passos. Fabiola diz que ele precisa colocar um cimento em cima do buraco, senão as pessoas iam cair no inferno. Ela dá o exemplo da pequena filha da vizinha do fim da rua, dizendo que seria uma tragédia se ela viesse brincar aqui e fosse cair direto no Inferno. Pantera demora algum tempo para se recompor, mas acaba concordando com o plano de ação.

Fabiola diz que precisa correr para o trabalho, e que assim que voltasse ajudaria a pagar pelo cimento. Pantera apenas acena em concordância. Com a roupa toda suja ainda, ela faz questão de desviar bastante do buraco e acelerar o passo rumo ao ponto de ônibus, ainda preocupada com o que descobrira, mas um pouco mais tranquila por ter avisado um vizinho.

O dia de trabalho avança sem muitos percalços, apenas uma bronca do chefe sobre não deixar uma roupa limpa no local para não se apresentar assim para os clientes. Ela termina a sua parte da limpeza e pega a primeira condução de volta ao seu bairro. Ainda há alguma luz na Rua 19, mas ninguém à vista. Ela volta para as imediações do buraco, e alguns segundos depois de focar a visão no local, ele reaparece. Muito maior.

Fabiola estava quase na borda de novo. Eram uns dez por oito metros. O buraco já havia devorado uma parte da calçada, adentrando o terreno baldio. Num espaço de mato dobrado dentro do terreno, um saco de cimento aberto. Perto de seus pés, alguns pingos ressecados de cimento. Ela corre até a casa de Pantera, que estava com todas as luzes apagadas. O portão aberto, correntes escorridas pelo chão. Ela avança para dentro da casa do vizinho, mas nem sinal dele. Em cima da mesa da cozinha, uma latinha de cerveja aberta, quase cheia.

Ela se desespera com a ideia de Pantera ter caído no buraco. Sem pensar meia vez, corre três ruas acima, no orelhão mais próximo. Ao falar com a polícia, ouve que os bombeiros estão sendo enviados o mais breve possível. Fabiola volta, esbaforida, para a cena do desaparecimento. Agora o buraco parece ainda maior. Metade da Rua 19 foi engolida pelo buraco. Ela desvia e volta até sua casa, para avisar sua mãe sobre o que estava acontecendo.

A mãe, agora uma senhora de idade não muito afeita a sair de casa, tenta acalmar a filha, oferecendo um chá. A cada menção de Inferno, a idosa se arrepia, levanta a mão e pede para a filha não ficar falando essa palavra. Fabiola cobra a mãe, dizendo que ela deveria ficar mais chocada com algo como uma porta para o inferno se abrindo na rua dela. A senhora senta-se à mesa, toma um longo gole de chá e suspira antes de recontar a história preferida de Fabiola na infância.

Dessa vez, nenhum milagre envolvido. A vizinha que ajudara a fazer o parto, a finada mulher de Pantera de nome Lúcia, não era apenas assistente de enfermagem, era participante de uma seita estranha que se reunia durante as luas cheias, que inclusive tinha alguns participantes em altos cargos na região. O marido, cristão, ignorava essa parte da vida da mulher. A rua inteira fingia que não sabia. Mas sabia.

E naquela noite, não foi o acaso que colocou Lúcia naquela casa, foi um pedido desesperado de uma mãe sentindo que perderia a filha num parto muito antes da hora. Lúcia fez uma proposta, que não parecia vir dela, e sim de um lugar mais distante. Sua voz estava grossa, enrolada. Em troca de uma alma para a Rua 19, três almas de volta. Três pessoas ficaram sabendo do pacto: Lúcia, Pantera e ela.

Se Lúcia sabia o que estava fazendo, ninguém ficou sabendo. Ela sumiu uma noite qualquer, e o marido aceitou colocar um caixão vazio na terra sem protestar. Polícia e autoridades em geral fizeram vistas grossas, era comum ignorar a presença da Rua 19, talvez pela relação com a seita da qual nunca soube o nome. Se Pantera tinha sumido, estava claro o padrão. O que quer que a mulher tivesse oferecido em troca do milagre do nascimento da filha, a cobrança estava chegando.

Fabiola, ainda em choque, não tem resposta. A mãe pergunta se o buraco está muito grande. Ela balbucia que sim. A senhora então se levanta e diz que está na hora de pagar. A moça dispara em direção à mãe e diz que deve ter um outro jeito. A senhora olha para a filha, passando a mão nos cabelos da cria, olhar fixo como se estivesse guardando aquela cena na memória, num lugar protegido que ninguém poderia tirar dela.

Ela pergunta para Fabiola se ela aceitaria que outra pessoa pagasse pelas dívidas dela. Fabiola começa a chorar. Não precisava de resposta. A lua já estava alta no céu quando a senhora saiu de casa, acompanhada pela filha. Ela diz que consegue ver o buraco. Que ele vai engolir tudo se ela não fizer sua parte do acordo. Fabiola reluta para soltar a mão da mãe, mas o faz a alguns passos do abismo.

Sem titubear, a velha se joga no buraco. Quase que ao mesmo tempo, as sirenes de uma caminhonete dos bombeiros adentram a Rua 19. Eles descem a poucos centímetros do buraco, que começa a diminuir rapidamente. Não há sinal de que os dois bombeiros tenham notado a vala, o que é comprovado quando o primeiro contato deles é falando sobre a dificuldade de achar a rua no bairro. Eles perguntam sobre a pessoa desaparecida, Fabiola apenas chora.

É só o ela que faz pelos próximos dias. A imprensa fica sabendo da história da mulher que chamou os bombeiros para uma rua abandonada num bairro periférico, e por um daqueles acasos do destino, entendem sobre a reclamação incoerente dela sobre uma vala que levava para o inferno que ela estava protestando pelas péssimas condições locais. Fabiola vira símbolo da revolta da população com a esquecida Rua 19, que agora recebe apelido de Rua da Vala.

Asfaltada por políticos subitamente interessados, o nome de Rua da Vala pega, mesmo com a tentativa de colocar mais um doutor de família rica como nome oficial na placa. Alguns anos depois, Fabiola, já recuperada do trauma daquela noite fria, resolve aproveitar a fama e se candidata, tentando desmascarar a seita que tinha certeza que ainda se misturava com a política local. Para quem perguntar, ela ainda atribui seu nascimento à bênção de Padim Ciço.

Mas ao ouvir de um figurão do partido que ela precisaria fazer um acordo “bom para as duas partes” para receber uma polpuda verba eleitoral, ela se recusa e acaba apenas com meia dúzia de votos, todos da Rua da Vala.

Para dizer que a política brasileira finalmente está interessante, para dizer que Pantera é um nome que você reconhece, ou mesmo para dizer que a Vala nos representa: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • Seria Lúcia o próprio Lucifer?

    E claramente Pantera já chegou num cansaço fim de vida em que você não questiona mais as coisas, só as faz.

    • Excelente observação sobre Lúcia ser o próprio Lúcifer: faz todo o sentido. Mas não creio que Pantera tenha chegado num cansaço de fim de vida; acredito, sim, que ele já soubesse de antemão qual seria seu destino e só o encarou com resignação.

  • Uau! A melhor história até agora. Mas eu tenho a impressão de que quando tu fizer a da Transfeminista, não vai ter pra nenhuma outra!

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