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	<title>Sally &#8211; desfavor</title>
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		<title>Raiva!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 16:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva. Antes de entrar no [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva.<span id="more-34160"></span></p>
<p>Antes de entrar no tema em si, uma introdução para ajudar na compreensão. Vamos trabalhar com simplificações grosseiras e até tecnicamente imprecisas, para fins didáticos, pois é mais importante que todos entendam os conceitos, mesmo que para isso algo da parte técnica tenha que ser sacrificado: qual é a diferença entre emoções e sentimentos?</p>
<p>Emoções são reações instintivas, instantâneas, quase sempre incontroláveis, que aparecem de imediato em respostas a eventos, pensamentos ou estímulos do ambiente. Costumam ser universais, inerentes a todo ser humano e provocam mudanças fisiológicas, como alterações na frequência cardíaca, tensão muscular e expressões faciais.</p>
<p>As emoções estão ligadas à nossa sobrevivência e evolução como espécie. A seleção natural privilegiou quem tinha essas emoções na hora certa e na medida certa. Por exemplo, o home das cavernas que sentia medo quando via um predador se aproximando e se escondia, foi o que sobreviveu para passar seus genes adiante. São exemplos de emoções inveja, ansiedade, tristeza, alegria, tédio, medo, nojo e raiva.</p>
<p>Por exemplo, reencontrar um amigo querido gera alegria (não euforia, alegria). Vivenciar a perda de uma pessoa querida gera tristeza (não desespero, tristeza). Presenciar uma injustiça gera raiva (não ira, raiva).</p>
<p>No geral, não somos muito bons em controlar nossas emoções, pois, como já foi dito, é um mecanismo evolutivo que vem de fábrica. Mas podemos controlar o que fazemos com essas emoções. Vamos falar de sentimentos.</p>
<p>Sentimentos são o resultado da interpretação mental e consciente dessas emoções. É o que surge quando temos tempos de observar e racionalizar uma emoção sentida. São estados emocionais mais complexos e duradouros.</p>
<p>O cérebro processa e atribuí significado às emoções, transformando aquilo em um pensamento e em uma memória. Por exemplo, o sentimento de gratidão não é imediato, é um resultado da racionalização de que alguém fez algo bom por você, provavelmente despertando emoção de surpresa e alegria. É uma construção da sua cabeça: “quando eu precisei, a pessoa estava lá para me ajudar, então, agora eu sou grata a ela e a ajudarei quando ela precisar”.</p>
<p>Então, a diferença entre emoção e sentimento consiste basicamente na duração (emoção é mais rápida, sentimento é mais duradouro) e na complexidade (emoção é mais simples e sentimento é mais complexo). Provavelmente você vai encontrar outras formas de classificação por aí, e tá tudo certo, não se apegue a isso, e sim à ideia de que existem emoções rápidas, imediatas e instintivas e existe o que nós fazemos com essas emoções depois que são racionalizadas. Essa diferença é o importante.</p>
<p>Passada essa introdução, fica fácil entender que, dentro desse sistema de pensamento, raiva é uma emoção, não um sentimento. Algo que foi desenhado para ser rápido, instantâneo, automático&#8230; e depois ser elaborado em algo mais complexo, virando um sentimento, por exemplo, de decepção por ter confiado em quem te sacaneou, arrependimento por ter compartilhado uma informação que deveria ser mantida em sigilo e assim por diante.</p>
<p>Pois bem, eu acho que muita gente está tão descontrolada, polarizada e surtada, que está deslocando a raiva da emoção para o sentimento. Mais: quase todo sentimento negativo que têm, vem acompanhado pela raiva ou acaba sendo substituído ou ofuscado por ela.</p>
<p>“Mas Sally, qual é a sua fonte?”. Arial 12. É tudo da minha cabeça. Daqui para frente é absolutamente tudo da minha cabeça sem qualquer base científica e sem qualquer pretensão de estar certa. Me interessa mais o debate, a construção, o somatório de opiniões, do que ter razão.</p>
<p>Não me atrevo a dizer qual combinação de fatores causou isso (e devem ser muitos), mas provavelmente tem um componente intelectual e também um componente cultural, pois é cada vez mais comum ver as pessoas levando tudo para o pessoal (se você discorda delas, você é um inimigo) e acreditando que se não “retribuir”, se não “se vingar”, se não “der o troco” é otário.</p>
<p>Obviamente tem muito mais que contribuí para esse cenário, mas eu não saberia listar tudo. O que me interessa aqui é a consequência. Esses fatores geram o estranho fenômeno: a raiva, que deveria ser uma emoção instantânea diante de um evento negativo, continua sendo alimentada, cultivada e até ostentada com honra. “Veja como eu não sou otário, veja como eu não engulo esse desaforo, eu estou com raiva de você!”. Tudo vira raiva. Nunca entendi o motivo, mas um número considerável de pessoas parece achar mérito ser muito intenso em tudo e, talvez por isso, cultive a raiva.</p>
<p>Então, uma transmutação natural e saudável da emoção raiva para outro sentimento mais elaborado, não acontece ou fica incompleta. Vamos das um passeio por alguns sentimentos, para que vocês percebam como uma raiva que não deveria estar lá, está?</p>
<p>Ciúmes por exemplo. É possível que a pessoa sinta uma raiva imediata quando algo lhe dá um gatilho de ciúmes, mas, o natural, o civilizado, o esperado, é que a raiva passe e a pessoa elabore isso como ciúmes, que pode ser resolvido conversando, esclarecendo, estabelecendo alguns limites. Só que nem sempre é o que acontece. Muitas vezes ciúmes vira briga, gritaria, ameaça e muitas vezes até agressão física ou coisa pior.</p>
<p>Por algum motivo, a pessoa não deixa a raiva ir e transitar para outro sentimento mais complexo. Ou mantém o ciúme e a raiva, ou mantém apenas a raiva mesmo. Talvez alguém esteja pensando “mas ciúmes implica em sentir raiva!”. Não, não implica. O ciúme é definido como “medo de perder o afeto ou a exclusividade de uma pessoa”. Em momento algum se depreende raiva disso aí. Nem desse, nem de nenhum outro sentimento negativo. Mas, como a raiva está cada vez mais presente em tudo, acaba sendo naturalizada.</p>
<p>Mesmo a tristeza, um sentimento de grande porte e conhecido por todos, costuma estar acompanhado pela raiva: raiva de quem ou do que causou essa tristeza, raiva do entorno, raiva de pessoas apontadas como culpados pela situação que causou a tristeza, afinal, está virando mania sempre designar culpados para tudo.</p>
<p>Ponha a mão na consciência em responda quando foi a última vez que você viu ou que você mesmo sentiu tristeza pura, sem qualquer raiva. Está cada vez mais difícil de se ver. Geralmente a pessoa está triste, mas está com muita raiva também. A raiva permeia tudo.</p>
<p>O relacionamento terminou? A pessoa fica triste e com raiva (de quem terminou, de quem está com a pessoa que terminou, do entorno que pode ter contribuído para o término). A pessoa foi demitida? Ela fica triste, mas fica com raiva (de quem a demitiu, de pessoas a quem ela atribuiu essa demissão e até de entes inanimados como marcas e empresas). Quase sempre tem o fator raiva. E não deveria.</p>
<p>E a raiva nem precisa ser contra terceiros, pode ser consigo mesmo, se a pessoa chegar à conclusão de que ela é a “culpada” pelo sentimento negativo que está sentindo. Sentimentos como remorso, culpa, arrependimento, dúvida e até luto podem despertar raiva, seja pela pessoa não querer sentir aquilo, seja pela pessoa se achar culpada pelo evento que desencadeou os sentimentos</p>
<p>Obviamente a raiva contra si mesmo é igualmente fora de lugar e inaceitável. Não faz sentido que uma pessoa sinta raiva de si mesma por sentir algo. Sentimentos são construções complexas, se você acha que algum deles está te fazendo mal ou inadequado, pode trabalhar para desfazê-lo ou substituí-lo, mas&#8230; sentir raiva de si mesmo? Não façamos isso com nós mesmos.</p>
<p>Pense em sentimentos negativos, qualquer um deles: temor, sofrimento, revolta, preocupação, medo, mágoa, rancor, insatisfação, indignação, impaciência, hostilidade, frustração, estresse, desilusão, desgosto, desconforto, antipatia ou qualquer outro. Nenhum deles precisa vir com a raiva junto. Por sinal, o ideal é que não venha, raiva é um alarme imediato que desgasta o corpo e turva o discernimento, é um recurso de emergência que deve ser transitório.</p>
<p>Arrisco dizer que boa parte das pessoas hoje está tão imersa nesse mecanismo de embutir raiva em tudo que não vivenciam sentimentos negativos sem sentir raiva. Foram educados assim, foram educados vendo isso, então, na cabeça, são sentimentos siameses, que estão sempre onde o outro está. Esse é o “correto” na cabeça de muita gente, se é que em algum momento elas param para pensar nisso.</p>
<p>Isso atrofia. A pessoa resume tudo negativo a raiva (é bem mais fácil do que vivenciar uma enorme nuance de sentimentos complexos e ter ferramentas para lidar com todos eles). Com o tempo, a pessoa só sabe reconhecer a raiva, só sabe lidar com a raiva e só sabe ensinar a raiva como sentimento válido e adequado para aquela situação. Assim, a sociedade parece estar se transformando em uma massa de zumbis emocionais. Mais por hábito do que por escolha, a raiva é o acompanhamento que sempre vem junto, pois é assim que as coisas são.</p>
<p>Ou melhor&#8230; eram. Agora você leu este texto. Agora você sabe melhor. Agora a situação foi desemaranhada e apresentada de forma clara para você. Você pode refletir e, se quiser, colocar a raiva no setor que ela pertence: uma emoção imediata com prazo de validade curto, que se transforma em uma emoção mais complexa e menos desgastante quando racionalizada.</p>
<p>A raiva é para ser um sentimento imediatista, passageiro. Um momento de raiva. Ela vai apagando, como um fogo, quando não é alimentada. Mas, por algum motivo frequentemente as pessoas a alimentam. Por não quererem ser “otárias”? Por acharem que tem que ser assim para não serem sacaneadas novamente? Por costume? Não sei. Só sei que pegar um recurso rápido e fazer dele algo no longo prazo desgasta demais o corpo e a mente. Está fora de lugar. É tóxico. E não te ajuda nem te protege em nada, isso é uma mentira.</p>
<p>E, como sempre falamos aqui, só mantemos comportamentos custosos para nosso corpo e nossa mente quando ele nos traz um belo ganho secundário, ainda que seja inconsciente. Então, seria o caso de se perguntar que ganho secundário a raiva gera.</p>
<p>Talvez uma falsa sensação de proteção? De achar que ninguém vai fazer nada com a pessoa por ela estar visivelmente enraivecida? Ou um conforto para si mesmo, para se sentir menor idiota, no estilo “fizeram tal coisa comigo, mas eu não sou idiota, pois estou furioso”. Ou ainda usar a raiva como escudo para manter aquela ferida, aquela sensação ruim viva, como tentativa de não repetir o erro? Podem ser milhões de ganhos secundários, mas todos são contraproducentes. A raiva, no longo prazo, só faz mal.</p>
<p>E gera um “vício”. O vício na raiva é algo real. A pessoa se acostuma a acoplar a raiva em qualquer sentimento negativo e, quando não o faz, fica com a sensação de que não está dando importância a algo sério, que não está dando uma resposta ou reação à altura, que está sendo permissiva, que está sendo idiota, fraca, otária. Se você realmente se importa, então vai ficar muito puto e sentir raiva. Percebem a armadilha?</p>
<p>Nas últimas décadas, a raiva foi banalizada, cultivada e prolongada. E isso não é ruim apenas para o infeliz que fica sentindo raiva o tempo todo, jorrando cortisol no sangue, intoxicando seu corpo em majorando em 500% sua chance de ter câncer, para depois culpar as vacinas. Isso é ruim para a sociedade como um todo.</p>
<p>Primeiro pela dinâmica povo desunido, políticos unidos. A cultura da raiva faz mulher ter raiva de homem, homem ter raiva de mulher, esquerdista ter raiva de direitista, direitista ter raiva de esquerdista, rico ter raiva de pobre, pobre ter raiva de rico e muitos outros grupos, jogados uns contra os outros, brigando e achando que seu “inimigo” é o grande problema, quando, geralmente, não é. O grande problema costuma ser sistemas corruptos que sacaneiam o povo,  filhos da puta que detém poder (com ou sem cargo) que sacaneiam o povo e o povo distraído demais brigando com seu colega para fazer algo a respeito.</p>
<p>Também cria uma sociedade violenta, de desentendimentos, de conflitos na maior parte das relações: é filho espancando a mãe, é mãe matando filho, é casal se esfaqueando, é criança agredindo criança, é gente matando vizinho com martelada na cabeça&#8230; Esse é o resultado de uma sociedade que insere raiva como inerente a qualquer sentimento negativo. Vira essa barbárie, esse inferno e ainda ensina para suas crianças a reproduzirem isso.</p>
<p>E todos nós somos parte do problema, pois todos nós, em algum momento, acabamos fazendo isso sem perceber: inserir raiva onde ela não deveria estar.</p>
<p>Então, em vez de ser parte do problema, sejamos parte da solução: analisemos cada sentimento negativo e observemos se tem raiva nele. Se tiver, trabalhemos para tirar, pois ela está fora de lugar. Raiva é emoção, é para ser curta e te proteger de imediato, depois deve ser transmutada em algum sentimento mais maduro.</p>
<p>Hora da gente aprender o que significa cada sentimento negativo e se portar de acordo. Hora de deixar a raiva ir e sentir algo mais condizente com a vida adulta. Hora de se livrar dessa necessidade no vício de agregar raiva.</p>
<p>Te faço um convite: se observe. Se policie. Se eduque para não desembocar na raiva automaticamente.</p>
<p>Talvez você não mude o mundo, mas a sua vida com certeza vai melhorar.</p>
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		<title>A nova prostituição.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Oct 2025 16:05:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Estamos muito acostumados a ver o termo “prostituição” como sendo sinônimo sexo pago. Provavelmente pelo fato de que, quando o termo foi cunhado, essa era a principal troca envolvendo material humano e dinheiro. Mas, os tempos mudaram e hoje existem muitas outras formas de prostituição, que são camufladas, negadas e renomeadas de forma a que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos muito acostumados a ver o termo “prostituição” como sendo sinônimo sexo pago. Provavelmente pelo fato de que, quando o termo foi cunhado, essa era a principal troca envolvendo material humano e dinheiro.<span id="more-33978"></span></p>
<p>Mas, os tempos mudaram e hoje existem muitas outras formas de prostituição, que são camufladas, negadas e renomeadas de forma a que não sejam malvistas socialmente. Mas também fazem mal, também implicam em um grau enorme de sujeição e violência para consigo mesmo e em algum nível de indignidade.</p>
<p>Este texto não é para julgar quem o faz, é para ajudar a perceber que o faz e para ajudar a perceber o mal que isso causa. Tendemos a medir o grau de dano que algo nos provoca pelo quanto aquilo é socialmente reprovado, mas, em uma sociedade doente, com mais pessoas usando remédio controlado do que não usando, esse critério deixa de ser confiável.</p>
<p>Há muitos comportamentos socialmente tolerados ou até aplaudidos que são sim extremamente nocivos para as pessoas e elas sequer se dão conta disso. Tem muita gente por aí sem entender por que não cresce na profissão, por que sente um enorme vazio, por que sente insônia, por que sente ansiedade, por que não se sente feliz e muito mais. Na cabeça da pessoa, ela não faz nada “errado”, afinal, tudo que ela faz tem aval social. Pois é, às vezes, mesmo com aval social, um comportamento pode ser muito nocivo.</p>
<p>Hora de expandir o conceito para adequá-lo aos novos tempos: Prostituição é comercializar a si mesmo, não apenas em troca de dinheiro, como também de algum benefício. A parte de ter ato sexual envolvido já caiu por terra com todos os zilhões de atividades online, nas quais nenhum dos envolvidos se conhece, se vê ou se toca. A prostituição, hoje, pode ser da vida, da intimidade, do relacionamento, da família, da ideologia e de muito mais.</p>
<p>Vamos partir da forma mais tradicional: sexo em troca de dinheiro. A prostituição não tem essa carga social negativa à toa, é de fato algo que faz mal à alma. Não por moralismo, mas por tolher algumas das coisas mais sagradas para nosso bem-estar: direito de escolha, liberdade, verdade, privacidade e integridade. Fazer sexo com uma pessoa pela qual não se sente atração, ter que esconder que isso é repulsivo, ter que fingir, mentir, tudo isso faz mal à alma, corrói a integridade.</p>
<p>Novamente, sem moralismos: para mim, íntegra é a pessoa que consegue alinhar o que sente, o que pensa, o que diz e o que faz. Quando você se prostituí, seja de que forma for (mesmo que seja não-sexual), um ou mais de um desses quatro itens será sacrificado.</p>
<p>Prostituição implica agradar outras pessoas, e quase nunca se consegue isso usando a verdade, infelizmente. A sociedade atual não quer verdade. Igualmente, não há liberdade quando a meta é agradar os outros. Também não há privacidade, pois o que a sociedade mais adora é revirar as entranhas da vida alheia.</p>
<p>Dito isto, quero te fazer um convite a uma reflexão, não apenas agora, mas várias vezes por dia na sua vida. Mas, esta reflexão só terá validade se você puder ser absolutamente sincero com você mesmo, já que certamente existirão estratégias para você faltar com a verdade na sua resposta e não se sentir tão mal. Todos os dias, antes de postar qualquer coisa em redes sociais, se pergunte: “Por que eu estou postando isso? O que me move a postar isso?”.</p>
<p>Vou ilustrar meu ponto com três exemplos de prostituição não-sexual, mas existem muitos outros. Vamos lá.</p>
<p>Pessoas que postam anúncio de Tigrinho, por exemplo, estão se prostituindo, estão prostituindo sua credibilidade em nome de dinheiro. É de conhecimento público que bets buscam em qualquer influencer, do maior ao menor, pessoas que convençam seus seguidores que vai ser bom apostar, que vão ganhar dinheiro com isso, que, como anunciava Felipe Neto, é uma “forma de complementar a renda”.</p>
<p>Faz mal. Primeiro porque você desgraça a vida de um monte de gente e isso nunca traz coisa boa. A pessoa que divulga bet é como um traficante: apresenta algo que vicia a pessoas vulneráveis. E algumas delas ficarão viciadas. Apostas são questão de saúde pública, arruínam famílias, causam danos à economia do país. Não é problema de cada um, podem criar uma bolha financeira que pode desgraçar todo mundo.</p>
<p>Também faz mal por detonar sua integridade: o que a pessoa pensa e sente não está de mãos dadas com o que ela fala e faz. Certamente quem anuncia bet não usa bet como forma de complementar renda e nessa altura não tem como a pessoa não saber que, para que o negócio se mantenha viável, a banca tem que ganhar quase sempre, ou seja, seu público vai perder dinheiro.</p>
<p>As pessoas sabem. Gostam de fingir que não, gostam de dizer que “aposta quem quer”, mas em algum lugar da mente, elas sabem que sua divulgação incentiva os outros a apostarem. E por mais que soterrem isso com toneladas de desculpas para tentar torná-lo socialmente aceitável, em algum ponto inconsciente, esse culpa faz um ninho, cresce e dá filhotes. Aí vem o vazio, a ansiedade, a insônia, a depressão e muito mais. Paga-se com a alma.</p>
<p>Pessoas que evadem sua privacidade mostrando sua casa, seus filhos, sua rotina, o que comeram, sua ida à academia, estão prostituindo sua intimidade. E este provavelmente é o grupo que mais resistência tem em perceber que não deixa de ser uma forma moderna de prostituição, pois muita gente o faz, dando uma falsa aura de normalidade.</p>
<p>Sabemos que cada um tem um conceito do que considera privado ou não e tá tudo certo. Mas que tal a gente estabelecer alguns parâmetros, para não se deixar enganar? O oposto de privado, é público. Logo, tudo que não é público é privado (não existe mais ou menos público). E quando você posta coisas em redes sociais, elas são públicas, por mais privadas que você pense que suas redes são, o conteúdo pode vazar de infinitas maneiras.</p>
<p>Se o oposto de privado é público, então, tudo que você posta tem que estar na categoria de “público”, ou seja, coisas que você faria em praça pública, na frente de uma freira, de uma criança e de um mendigo. Coisas que você faria que poderiam ser exibidas no Jornal Nacional sem causar qualquer constrangimento a seus filhos, aos seus pais ou a seus avós. Coisas que você faria dentro de uma igreja, dentro de um shopping ou dentro do transporte público. Tudo que você posta se enquadra nessa categoria?</p>
<p>Só aqui, rapidamente, eu consigo pensar em diversas postagens recorrentes que não. Gente reclamando do parceiro, de problemas pessoais, do trabalho. Gente mostrando outra pessoa dormindo, mostrando os erros que o parceiro(a) comete. Você berraria em praça pública qual é o seu salário? O que comprou? O que comeu? Não, né? Não faz o menor sentido. Redes sociais, meus amigos, são a praça pública moderna.</p>
<p>A partir do momento em que a pessoa se convence que só é privacidade/intimidade cagar e fazer sexo, ela expõe basicamente tudo da sua vida online e perde cada vez mais o filtro do que faz. Esse é um dos grandes problemas de redes sociais: é preciso escalar, sempre. O que você posta hoje se torna monótono depois de um tempo, então, é preciso postar mais, subir mais um degrau, para continuar recebendo atenção.</p>
<p>Daí surgem esses desafios imbecis estilo cheirar pimenta, lamber um prego enferrujado ou enfiar um baiacu vivo no fiofó. São as pessoas desesperadas por atenção. E, como dissemos lá no começo do texto, não precisa ter dinheiro envolvido para ser prostituição, pode ser algum benefício também, como status, seguidores, validação, atenção.</p>
<p>Então, gente que mostra sua vida em redes sociais está prostituindo sua intimidade e, por mais que encontre mil justificativas (a mais comum é dizer que eu sou fresca ou maluca), o dano que isso causa está aí. Remedinho controlado, ansiedade, síndrome do pânico, depressão, estresse, vazio, sensação de que algo falta, insônia, exaurimento. Gente&#8230; esses sintomas não vêm de graça nem do nada, se estão aparecendo, tem algo na sua vida que os está gerando.</p>
<p>Primeiro pela demanda insana que é ter que transformar sua vida em postagem. Sejamos sinceros, ninguém tem uma vida real tão interessante que entretenha seus seguidores todos os dias, muito menos as pessoas que costumam evadir sua privacidade.</p>
<p>Então, para conseguir audiência, a pessoa inventa, aumenta, maquia a própria vida, é lá se vai a integridade novamente. Se cuidar de uma vida só já é cansativo, imagina ter que administrar duas: a vida real e a vida contada em rede social. Pior ainda quando a vida de rede social acaba se tornando melhor do que a vida real, imagina a tortura de ter que voltar para a vida real todo dia. Talvez por isso tanta gente escolha passar a maior parte do seu tempo em redes sociais, lá sua vida é do jeito que a pessoa gostaria que a vida real fosse.</p>
<p>Em todo caso, quando se compromete a verdade (em algum lugar a pessoa sabe que está mentindo), a liberdade (a pessoa não pode postar o que quer, certas coisas não se postam para não perder seguidor, outras precisam ser inventadas para atrair a audiência e&#8230; a pessoa não pode parar de postar!) e a integridade, a alma perece. E a pior parte é: quase nunca é por dinheiro, quase sempre é uma busca desesperada por atenção, validação e elogios. É muito triste.</p>
<p>As novas formas de prostituição podem chegar a patamares assustadoramente baixos. Nessa categoria, cito como exemplo as meninas que aceitam sair com homens para jantar ou lanchar, mesmo cientes de que não querem nada com eles, e depois ainda postam numa vibe de “hi hi levei vantagem”. Isso vem sendo mais comum do que a gente imagina.</p>
<p>Não consigo pensar em nada mais triste do que prostituir seu tempo e sua presença em troca de um prato de comida e ainda achar que isso é motivo para se gabar. O autoconceito de quem faz uma coisa essas está muito, mas muito baixo. Primeiro por acha que é de alguma forma admirável enganar o outro, segundo que&#8230; por comida? A pessoa vale tão pouco?</p>
<p>Alardear que saiu com uma pessoa com a qual não tinha interesse para conseguir qualquer benefício já me parece autodepreciativo e infantil, mas contar que o benefício era um prato de comida, para mim, é o fundo do poço. “Ah mas eu não fiquei com ele”. Deu sua presença e seu tempo. Em troca de um prato de comida. Se eu tivesse uma filha e ela fizesse isso, ia para terapia na mesma hora.</p>
<p>Enfim, meus queridos, existem inúmeras formas de prostituição além dessas. Basicamente tudo que temos pode ser prostituído, não é só sobre corpo e sexo: nossa opinião (pessoas pagas para defender político X ou Y até a morte), nosso relacionamento (postar vídeo ridicularizando o marido por ele não saber escolher uma fruta no mercado), nosso lazer (passar uma viagem com o celular na mão filmando tudo que faz) e muito mais. É sagrado direito seu fazer mas&#8230; saiba que tem um preço pago com algo da sua saúde mental.</p>
<p>Por mais que, racionalmente, a pessoas que prostituí algo na sua vida não veja problema, isso faz mal. E cedo ou tarde, as consequências chegam no emocional, no psicológico é até no físico. Então, este texto não é para te julgar e sim para te informar que, por mais que a maioria das pessoas tenha certeza de que não, essa conta existe e essa conta chega. Não prostitua nenhum aspecto da sua vida.</p>
<p>Viva o agora, com verdade, com integridade, focando em você e nas pessoas que são importantes para você (família e amigos), não em seguidores. É um exercício de resgate de si mesmo focar sua vida no que você tem vontade e não no que é mais instagramável. É tentador querer viver uma vida perfeita construída em rede social mas&#8230; faz mal. O foco tem que ser na vida real e é ela quem precisa ser aprimorada, por mais difícil que seja.</p>
<p>Não prostitua nenhum aspecto da sua vida, pelo bem da sua saúde mental. Comece se vigiando em redes sociais. Antes de postar qualquer coisa, se pergunte: “para que eu estou postando isso?”. Se for em troca de aprovação, atenção, dinheiro, validação ou elogios, faça um favor a você mesmo e não poste.</p>
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		<title>Fãs de&#8230; calor?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Oct 2025 15:49:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Todo ano, mais ou menos nessa época, a gente faz um texto para reclamar de calor. Talvez tudo que precisasse ser dito sobre calor tenha sido exaurido em 17 anos. Mas ficou coisa por dizer sobre os degenerados que gostam de calor, que ficam felizes com calor, que pedem por calor o ano todo. O [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Todo ano, mais ou menos nessa época, a gente faz um texto para reclamar de calor. Talvez tudo que precisasse ser dito sobre calor tenha sido exaurido em 17 anos. Mas ficou coisa por dizer sobre os degenerados que gostam de calor, que ficam felizes com calor, que pedem por calor o ano todo. <span id="more-33795"></span></p>
<p>O Brasil tem todo tipo de fã: fã de Taylor Swift, fã time de futebol, fã de político e até mesmo&#8230; fã de calor. E este texto é dedicado a eles, para falar um pouco sobre essa escolha odiosa de idolatrar calor.</p>
<p>“Mas Sally, eu gosto de calor, você está dizendo que eu sou odioso?”. Não, você pode ter suas preferências. Ser fã de calor é outra coisa. É o militante do calor, o compulsivo, o irracional, o que quer impor o calor aos outros. Da mesma forma como fã de político canta hino nacional para pneu ou nega que mensalão existiu, o fã de calor se porta de forma idiota, irracional e vergonhosa.</p>
<p>O fã de calor é tirano, nada que não seja calor extremo o satisfaz, sua alegria reside em 40° de temperatura à sombra. Quando a temperatura cai ele reclama, ele fica indignado e até infeliz. E geralmente reclama de muito pouco, pois, para um fã de calor, 20° é frio. <a href="https://www.desfavor.com/blog/2025/06/frio-de-verdade/" target="_blank" rel="noopener">Já fizemos um texto sobre isso</a>, mas fica o recado: não tem frio de verdade de São Paulo para cima, ok? Se você sente frio, é por não saber se vestir de forma adequada. E não estamos falando de pagar caro por roupa e sim de fazer a escolha certa de tecidos e combinações, que pode ser muito barata.</p>
<p>Mas não. 22° e tá lá o carioca de bermuda, chinelo e casaco de moletom chiando e choramingando “Tá frio dimaixxxxx mermão”. Não, amental, não tá frio. A temperatura não desce abaixo de 10° no Rio. Você é que está com partes cruciais do corpo que devem ser mantidas aquecidas expostas. Se estivesse frio de verdade, seus dez dedinhos do pé já teriam necrosado e caído e seu pezinho estaria igual ao pé do Cebolinha. Querer usar chinelo o ano todo (você só tira o chinelo de um carioca com intervenção cirúrgica) e pretender que as estações se adaptem a isso deveria ser considerado algum tipo de problema de cabeça.</p>
<p>Então, antes de choramingar, reclamar ou se indignar, entenda que a temperatura cair não é sinônimo de fazer frio e que o fato de você estar sentindo frio não quer dizer que esteja fazendo frio. Essa premissa Mogli de que se a pessoa não puder andar seminua é frio é um pensamento sem nexo. Se a temperatura caiu, use roupas e calçados adequados e você não vai sentir frio. Se com meia, tênis e moletom você fica de boas, acredite, não é frio de verdade.</p>
<p>Boa parte dos fãs de calor é hipócrita. Eles amam calor, eles veneram o calor, eles exaltam o calor mas&#8230; trabalham e dormem em um ar condicional geladinho. Oi, querido? Assim até eu gosto de calor: enfiada no ar, calor lá fora e eu aqui dentro fresquinha. Os mesmos que se revestem de uma sensibilidade social exacerbada para atacar o frio pensando nos menos privilegiados que estão nas ruas não tem um pingo de dó do trabalhador que não tem ar condicionado e passa meses do ano sem dormir direito por estar suando, torrando e sendo comido por mosquitos.</p>
<p>Muitas vezes o fã de calor nem trabalha, aí posta de casa, uma foto na praia ou na piscina, exaltando o calor. Debaixo d&#8217;água é fácil, quero ver no busão lotado, no centro da cidade ou andando de terno. Perto da praia é fácil, quero ver verão em Bangu, sem ar-condicionado, se acham gostoso. O fã de calor vai te dizer que sim, pois ele é irracional, mas se fosse colocado nessa situação, certamente não iria gostar. Nem cachorro gosta.</p>
<p>Eu não vou argumentar que a porção mais fria do planeta é a mais desenvolvida pois já aprendi que à luz de todos os estudos que existem isso não é correto e levo bronca quando falo isso. A sociedade ainda não está pronta para aceitar que o frio civiliza. Então, vamos colocar da seguinte forma: no frio as pessoas se recolhem mais, tendem a atividades mais intelectuais ou introspectivas e no calor elas saem mais e tendem a fazer mais barulho.</p>
<p>Pode reparar, no seu dia a dia, no seu bairro. Assim que o clima esquenta provavelmente começa mais movimento, mais música alta (de péssima qualidade, quanto mais alta a música, pior a qualidade), mais animosidades, mais &#8220;socialização conflituosa&#8221;. Parece que os mal educados que estavam hibernando despertam, saem dos bueiros quando o clima esquenta. Eles entram em modo turbo, talvez eles sejam movidos a energia solar.</p>
<p>O calor parece aflorar algo expansivo nas pessoas, que, depois dos 40°, é levado às últimas consequências. Muitas vezes vemos briga, gritos, mais barulho e até mais agressão física no calor. “Ain Sally, é porque as pessoas bebem mais no calor”. Sei não. Russo vive abaixo de zero e bebe muito também. É um start que dá no fã de calor, ele fica cheio de energia, frenético, ativo.</p>
<p>E, ainda assim, tem gente que acha o verão uma estação maravilhosa. Adivinha quem? Quem briga, quem grita, quem faz barulho. O fã de calor tem no calor seu habitat natural e nele se expressa em toda sua desenvoltura, sem se importar ou sequer perceber que, ao se expressar nesses decibéis, obriga todos à sua volta a participarem de sua vida, mesmo que ninguém queira.</p>
<p>Não falha: shortinho jeans, corpo todo rabiscado de tatuagem, copinho de plástico com cerveja na mão, cantando alto alguma música que poderia ser considerada instrumento de tortura pela ONU. Bermuda de tactel de cor lamentável, corpo todo rabiscado de tatuagem e os óculos escuros mais bregas que a humanidade já viu, cantando alto alguma música que poderia ser considerada instrumento de tortura pela ONU. O colapso, senhores, também é estético. Por mais belos que sejam os corpos, o pacote é muito brega, cafona e hediondo.</p>
<p>Assim como o vampiro teme o sol, o fã de calor teme o frio. E se você realmente se incomoda com essa dinâmica sem educação na qual o fã de calor entra quando recebe os primeiros raios de sol do verão, você topa tudo, até chuva de canivete, para que essa gentalha cale a porra da boca e fique em silêncio ao menos 24h seguidas. Então, se falta de educação, falta de classe, falta de civilidade te incomoda, você vai abraçar o frio. Reflitam.</p>
<p>O fã de calor não tem preocupação com higiene e, antes que me acusem de preconceito, explico: não é que sejam porcos, eles tomam inclusive muitos banhos. Meu ponto é que no calor as pessoas suam muito. Eu disse SUAM, o que &#8220;soa&#8221; é o sino, ok? Então, por mais que você use desodorante e tome vários banhos, o suor está ali. Ele empapa a roupa, cola o cabelo. A pessoa não pode passar o dia inteiro tomando banho, certo? Mas ela passa o dia inteiro suando. Uma pessoa que não se incomoda em passar o dia inteiro suando é uma pessoa que precisa rever sua vida. Não é higiênico passa o dia suando, mesmo que você tome 200 banhos por dia.</p>
<p>Uma pessoa que vive bem sentindo aquela gota de suor escorrendo das costas para o c* enquanto come não preza pela higiene. Uma pessoa que chega ao final do dia feliz com a roupa de baixo molhada de suor não preza pela higiene. Uma pessoa que passa um dia contente com aquela pizza de suor debaixo do braço sem o menor incômodo é uma pessoa que não preza pela higiene. Se estar todo suado o tempo todo não te incomoda, adivinha só, eu acho que você não preza por higiene.</p>
<p>O fã de calor também não preza pela salubridade do ambiente. No verão, todo tipo de bicho escroto sai do esgoto e circula pelas ruas, pelas casas, pelas varandas. Baratas do tamanho de um fusca, ratos do tamanho de gatos, aranhas que poderiam ser usadas como peruca e mosquitos que a gente fica até com medo de dar um tapa e o bicho revidar. No calor os bichos hediondos acordam, se multiplicam e entram nas nossas casas. Quer viver com inseto do tamanho do seu punho? Vai morar na Austrália, fã de calor!</p>
<p>Quem é que gosta de viver em um ambiente assim, a não ser um desclassificado que, por não saber se agasalhar, exige que o ambiente esteja adequado à sua temperatura corporal? Você é pecilotérmico, seu maldito? A temperatura ambiente tem que bater com a do seu corpo, se não você morre? Quem é que topa ficar em um ambiente no qual pragas e doenças proliferam absurdamente, onde a comida perece rápido, onde há 437 tipos de mosquitos e ainda bate palminhas? O fã de calor!</p>
<p>Não podemos esquecer das questões médicas. O calor de verdade é nocivo para o corpo sob diversos aspectos, desde a proliferação de doenças transmitidas por mosquitos, agravamento de condições cardiovasculares até câncer de pele. Por sinal, o Brasil é um dos países do mundo com maior incidência de casos de câncer de pele. E, via de regra, o fã de calor não usa protetor solar, nem mesmo no rosto, pois acha que &#8220;isso é frescura, isso é coisa de mulher ou isso é mentira da indústria do skincare&#8221;.</p>
<p>Mas o fã de calor vai te dizer que frio é ruim, pois &#8220;morrem pessoas em situação de rua&#8221;. DE CALOR TAMBÉM. Ou será que o fã de calor, de dentro do seu carrinho com ar-condicionado, bebendo Gatorade da sua garrafinha Stanley acha que morador de rua se hidrata corretamente? (spoiler: morador de rua não bebe água mineral). Será que acham que morador de rua tem descanso à sombra e proteção térmica contra os malditos 60°? No frio, meu querido, a pessoa se agasalha, nem que seja com roupa doada. No calor, não tem o que fazer. Vai tirar a pele?</p>
<p>Quando você leva uma vida de adultinho funcional, o calor te atrapalha demais inclusive na rotina diária. Você já tentou cozinhar em um dia muito quente? Só um degenerado acha a experiência legal. Mas normalmente o fã de calor não é funcional, ele ou não sabe cozinhar e depende de aplicativo de comida para viver, ou tem alguém na vida (mãe, esposa, marido&#8230;) que cozinha para ele e quem passa o calor da morte perto do fogão é essa pessoa. Aí é moleza, não é mesmo?</p>
<p>Nem vou citar o impacto negativo do calor no meio-ambiente, pois qualquer imbecilóide que já plantou um feijãozinho em um algodão sabe o que acontece com uma planta exposta a um calor muito intenso e um sol muito forte. Para quem se diz preocupado com a natureza, me soa no mínimo hipócrita aplaudir quando a sensação térmica bate 63° (como aconteceu ano passado, no Rio de Janeiro) enquanto colheitas de alimentos perecem ao sol para que a pessoa possa esturricar na praia e fazer uma bela fotinho para o Instagram.</p>
<p>O fã de calor é tão escroto que se acha senhor da razão e chama de “maluco” todo aquele que gosta de frio, leia-se, dignidade. Aposto que você já passou por isso: uma pessoa com aura de personagem do Zorra Total se achando dona da razão dizendo “Ai, vocês são malucos de gostar de frio”. Somos? SOMOS? Quem não gosta de dormir em uma poça de suor, quem não gosta de passar o dia melecado, quem não gosta de sentir o cu suar é maluco?</p>
<p>E se acham superiores. Escrotizam quem não é fã de calor, vejam só. Até então, nós, povo do frio, sempre escutamos calados. Mas acho que devido à violência dos últimos verões, o pessoal do frio se emputeceu de tal forma que resolveu começar a revidar. Eu já vejo uma leve agressividade em redes sociais contra os fãs de calor. Não briguem, vocês sabem, esse é nosso mantra: não briguem com desconhecidos. Só esperem o aquecimento global piorar um pouco mais e, cedo ou tarde, eles morrerão de insolação.</p>
<p>E tem um tipo específico de fã de calor que é ainda mais degenerado: o que odeia ar-condicionado. Meu amigo, se você mora em uma cidade na qual faz calor de verdade, na qual o termômetro passa dos 40°, brigar com o ar-condicionado é atestado de insanidade.</p>
<p>Tenta dormir em uma noite de mais de 40° sem ar para você ver se tem ventilador que dê jeito. Você liga o ventilador e parece que você está dentro de uma Air Fryer. Vai suar todo o pijama, todo o lençol, toda a fronha e todo o travesseiro. É exigível que uma pessoa troque a roupa de cama diariamente? É quase impossível. O que vai acontecer é o suor secar e o infeliz ter que deitar por cima dele na noite seguinte, acumulando camadas e mais camadas de suor.</p>
<p>A pior parte é que esse tipo específico de fã de calor, ainda tenta impor isso aos outros: chega no ambiente de trabalho e dá piti para desligarem ou reduzirem o frio do ar-condicionado. SE AGASALHA, MALDITO. Quem está com calor não tem recursos a não ser o ar condicionado, você, que está com frio, pode parar de sentir frio ao se agasalhar.</p>
<p>Aí alegam rinite, alergia, o caralho a quatro. Meus queridos computador não tolera bem o calor. Não tem como trabalhar com computador em dia de verão sem ar-condicionado, você vai minar a vida útil dele. Ligar o ar é uma forma de conferir dignidade às pessoas e de preservar sua ferramenta de trabalho. Não consegue ficar em ambiente com ar-condicionado em uma cidade que faz 60°? Vai fazer um tratamento para alergia, eu mesma fiz um de vacinas semanais que curou minha rinite. Sim, é possível. Querer que uma equipe inteira trabalhe com desconforto e que o maquinário sofra danos não é sensato. Toma um Allegra e cala a boca.</p>
<p>“Ain Sally, você fala isso porque é calorenta”. Juro para você, nunca conheci alguém que sinta tanto frio como eu. Eu sinto frio o tempo todo. Mas não sou maluca nem egoísta, não pretendo que todos à minha volta se adaptem a mim. Eu sei viver em sociedade. Eu me agasalho devidamente e permito que as pessoas se mantenham em um ambiente fresco, termicamente adequado, pois não sou uma mimadinha sem consideração.</p>
<p>Ainda tem os fãs de calor que tem o desplante de exigir que se desligue ou se mude a temperatura do ar-condicionado de ambientes coletivos, como restaurante ou cinema. Vem cá, seus pais são primos? A temperatura de um ambiente assim é pensada e determinada por especialistas com diversas metas em mente, a maior parte voltadas para higiene e contaminação e certamente nenhuma delas é pensando em você. Repito: tá com frio? Se agasalhe. Não quer se agasalhar? Não frequente.</p>
<p>Mas, com o fã de calor não há diálogo, estão com o cérebro inchado pelo calor, carcomido pela desidratação e atordoado pela música ruim. Venha para o frio. Venha para a neve. Venha para o lado gelado da força.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Tá fácil.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 15:35:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Tenho visto umas novas gerações reclamarem muito das “dificuldades” em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estivéssemos em tempos difíceis. Pois bem, não estamos. Difíceis são vocês, floquinhos de neve especiais, que, de tão mimadinhos pelas facilidades da tecnologia, não suportam fazer um esforço. Deixa a tia Sally te contar o que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho visto umas novas gerações reclamarem muito das “dificuldades” em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estivéssemos em tempos difíceis. Pois bem, não estamos.<span id="more-33789"></span></p>
<p>Difíceis são vocês, floquinhos de neve especiais, que, de tão mimadinhos pelas facilidades da tecnologia, não suportam fazer um esforço. Deixa a tia Sally te contar o que era realmente difícil, para você não reclamar de barriga cheia. Observe a realidade da minha geração e pare de reclamar.</p>
<p>Vamos começar pelo primeiro estágio: conhecer gente. Quando não existiam redes sociais, antes da internet, antes de aplicativos, nós precisávamos sair para conhecer gente. Não só sair, como interagir com estranhos até conseguir encontrar uma pessoa com a qual tivéssemos um mínimo de afinidade e atração.</p>
<p>Não tinha essa de mandar fotinho cheia de filtro, editada, ou tirada do melhor ângulo, com a melhor luz, depois de cem tentativas. Era você, ao vivo e a cores, que tinha que ser atraente. Isso significa que sair com um layout escroto para ir ao banco, ao supermercado ou à padaria poderia ser sinônimo de minar uma chance de conhecer alguém legal. Tínhamos que estar apresentáveis o tempo todo. Toda ida na rua podia ser produtiva.</p>
<p>E estar apresentável não era tão fácil. Não havia facilitadores como escova progressiva, para manter o cabelo sempre lisinho, ou babyliss para manter sempre cacheado, era o cabelo que Deus te deu e faça as fazes com isso. Não havia maquiagem de boa qualidade (e com uma variedade decente de cores) e não existiam nenhum dos procedimentos atuais, desde canetinha para emagrecer até depilação definitiva, que te ajudassem. Ou você fazia tudo na raça, no esforço, ou não fazia. Era altíssima manutenção estar sempre apresentável.</p>
<p>E para os homens também era dureza. Não tinha implante de cabelo, não tinha harmonização facial, não tinha lente de contato nos dentes, não tinha nem remédio para queda de cabelo. Um carro custava muito caro quando comparado ao salário-mínimo e, se você fosse jovem, a menos que fosse de uma família classe média alta para cima, teria que buscar a mulher a pé. E não tinha remedinho azul para ajudar na performance.</p>
<p>Não tinha essa tonelada de informação online, então, o pouco que a gente sabia sobre o sexo oposto (e nem me refiro ao corpo humano) era por tentativa e erro (nossa ou dos amigos) e geralmente ninguém era muito sincero sobre seus fracassos, as pessoas contavam umas histórias de sucesso ficcionais, que, quando você tentava reproduzir, nunca tinham um bom final. Isso quer dizer que você ia para a interação olho no olho com pouquíssimo ou nenhum preparo.</p>
<p>Não existia fórum de discussão, tutorial no Youtube e nem ao menos essa mentalidade de acolhimento. Se faziam algo escroto com você ou se você fazia alguma besteira, basicamente tinha que lidar com as consequências dos seus atos, sem poder contar para o mundo (no máximo para algum amigo mais chegado). Não tínhamos essa noção de que certas coisas acontecem com todo mundo. Ninguém recebia afago da coletividade quando algo dava errado. Especialmente homens.</p>
<p>Os padrões de comportamento aos quais estávamos expostos eram péssimos. Você já viu, por curiosidade, um capítulo de alguma novela da década de 80/90? É tenebroso. O machismo, a insensibilidade, a babaquice. Aquilo era vendido como algo bonito, fodão. Pessoas fumando eram consideradas atraentes. Uma pessoa traindo era sexy. E o layout de ator na época era totalmente destoante da genética brasileira, não tinha como uma pessoa média chegar remotamente perto daquilo, seja pela aparência, seja pela produção.</p>
<p>Roupas eram artigo de luxo: não havia essa variedade nem esses preços de hoje. A roupa era cara e não tinha muitas opções. Se você queria estar “na moda”, tinha que usar a marca X, que sempre era caríssima. E pulávamos de modismo em modismo, um mais caro do que o outro: mochila da Company, tênis da Redley, moletom da Pakalolo e por aí vai. Não tinha substituto, ou você usava o modismo da vez ou estava fora de moda. Íamos para o campo de batalha quase todos fora de moda.</p>
<p>E mesmo quando nossos pais se comoviam e atrasavam o aluguel para comprar o modismo da vez, não havia a variedade de roupa que vemos agora. Mesmo modelo, três cores diferentes. Escolhe uma e usa até não caber mais ou até se desfazer. Vai para o cinema, para a festa, para a excursão, tudo com a mesma roupa.</p>
<p>Geralmente, quem não fosse muito privilegiado, tinha uma, duas ou no máximo três roupas de sair. E era com isso que você tinha que se virar em todos os eventos que fosse. Nem perfume era algo acessível, muita gente só jogava o desodorante pelo corpo para se perfumar.</p>
<p>Os eventos sociais de pegação geralmente se resumiam a festas. Não grandes festas, festinha caída no play de alguém. Você nunca sabia quem ia e quem não ia, pois não tinha celular para confirmar quem vai chegar e quando. Era sempre uma taquicardia esperando que aquela pessoa que você queria que fosse chegasse. Todos nós fomos a festas que foram um completo desperdício, mais de uma vez. Perdia-se tempo, energia, dinheiro e preparo.</p>
<p>E nas festas, meus amigos, você não podia contar com nada além da sua aparência e desenvoltura. Não tinha seu número de seguidores para te tornar interessante, não tinha fotinho com o grupo ou selfie para mostrar o quanto foi legal. Normalmente eram umas festinhas caídas, nas quais mulher levava algo para comer e homem levava algo para beber e a festa toda costumava girar em torno de&#8230; dançar.</p>
<p>Isso mesmo, durante muitos anos o grande peneirão acontecia na pista de dança. Era lá que os meninos chegavam nas meninas. Se eram mais jovens, em festinha de play ou matinê. Se eram mais velhos, em boates. Mas era sempre na pista de dança. Você tinha que, no mínimo, fingir que dançava.</p>
<p>Quem é +40 aqui certamente já se humilhou dançando o que não queria para tentar pegar mulher (deixe nos comentários se o seu coração mandar, queremos rir). Existiam as músicas da moda, que tocariam em qualquer festinha. Nos tempos mais obscuros, uma febre de lambada humilhou os homens como nunca antes na história do país. Para pegar mulher homem tinha que tentar dançar lambada, Senhores. Pensem bem se vocês têm motivo para reclamar.</p>
<p>Também teve um tempo obscuro do axé. Aonde você ia, tocava axé e tinha que dançar, caso contrário você entrava no grupo marginalizado antissocial e inferiorizado que ficava às margens da pista de dança, um grupo que reduzia muito suas chances de pegar alguém.</p>
<p>Mas não bastava chegar e correr para a pista de dança não, ali era só para finalizar todo um trabalho pregresso de vender bem a você mesmo. As pessoas tinham que procurar aptidões que as tornem valorizadas, já que não tinha como postar fotinho das realizações online. Não fazia muita diferença ter viajado para lugares lindos, ter comido pratos maravilhosos ou qualquer outra “realização” do passado. Ninguém via.</p>
<p>Você não entrava com status pregresso para te ajudar. Importava o que as pessoas viam quando olhavam para você, naquele momento. Tinha que ser interessante ao vivo, no improviso, na frente da plateia, mesmo com uma roupa escrota repetida 500 vezes. Se você não fosse aquele um e um milhão que nascei belíssimo, tinha que se virar para conseguir chamar a atenção.</p>
<p>Quem não era abençoado pela genética, (e poucos eram/são) tinham que encontrar e aprimorar outros atrativos para que, na interação olho no olho, despertassem interesse. Tocar violão, ser muito bom de conversa, ser bem-humorado e muitos outros recursos eram testados e desenvolvidos. Havia um empenho real em se aprimorar, não por evolução pessoal, mas para pegar gente mesmo.</p>
<p>E você não podia pensar com calma no que ia “postar” para ser atraente. Era na hora, em tempo real, no calor do momento. Não é tão fácil quanto parece. Uma coisa é estabelecer uma imagem online, pensando com calma em cada passo e depois só sustentar. Outra é ter que construir essa imagem em tempo real. E sustentar.</p>
<p>A imagem física também era um desafio. Ninguém lembraria de você como sua foto de perfil de uma rede social e sim como você se apresenta em uma festa. E se já era difícil se apresentar de forma bacana, terminar uma festa de forma atraente era pior ainda. Quase tudo que se fazia em matéria de beleza era gambiarra, já que no Brasil quase não entravam produtos importados e a indústria brasileira não fabricava muita coisa além de Monange. Maquiagem borrava, desodorante vencia. Não era fácil.</p>
<p>Se alisava o cabelo com ferro de passar, se hidratava o cabelo com babosa, se usava aquele batom hediondo verde, que você passava na boca sem ter a menor ideia da cor na qual iria se transformar (e sempre se transformava na pior cor, um vermelho menstruação que fazia o lábio parecer uma peça de carne do açougue). Spoiler: durava 24h e não saía da pele nem com água sanitária.</p>
<p>O máximo de beleza que conseguíamos alcançar era baixo. Não dava para se garantir nisso, a menos que você fosse muito privilegiado geneticamente &#8211; e quase nenhum de nós era, ao  menos não eu. Todos os dentes retos e brancos? Causaria até estranhamento. Pele perfeita? Esquece, impossível. Corpo com pouca gordura? Altamente improvável. Você ia para a vida com o que mãe natureza te deu, podendo fazer pouquíssimas modificações. E tinha que jogar com outras ferramentas, outras habilidades&#8230; ou se conformar em pegar uma pessoa não tão bonita.</p>
<p>O máximo que a gente conseguia, em termos de beleza, era passar um gel New Wave no cabelo ou um brilho labial que vinha dentro de uma embalagem que simulava um morango. Espinha no rosto? Se fode aí, compensa sendo muito legal. A gente era o que era e tinha que encontrar dentro da gente armas para lutar esse jogo da conquista.</p>
<p>E mesmo no campo da conversa, nada era fácil. Não era possível ver redes sociais do outro para saber quais eram seus interesses e nortear a conversa para esse lado. A gente entrava em uma conversa sem ter a menor ideia de quem a pessoa era, se era solteira ou não ou do que ela gostava. Não raro falávamos algo que ia totalmente de encontro como o que a pessoa gostava, era altamente constrangedor.</p>
<p>Pense no tempo que você precisa interagir com alguém em redes sociais para conhecer melhor a pessoa e imagine que esse mesmo tempo deveria ser gasto em encontros presenciais, para conseguir criar alguma conexão com a pessoa. Não era possível fazer algo multitarefas: conversa com a pessoa enquanto trabalha, enquanto faz o almoço, enquanto faz compras. O tempo era usado 100% para o outro. Pensa no trabalho e no tempo que levava fazer tudo presencial.</p>
<p>E muitas vezes a gente investia bastante tempo em conhecer uma pessoa e depois de todo esse investimento, descobria um obstáculo inegociável (o fato de a pessoa ser comprometida, o fato de a pessoa fumar ou qualquer outra coisa) que nos obrigava a jogar fora todo o trabalho. Tinha zero conversinha de responsabilidade afetiva, todo mundo mentia e pronto, você que lide com isso.</p>
<p>Quando a pessoa mentia para você, você só descobria em um futuro distante. Não existia foto de rede social para provar que ela não morava em determinado bairro ou que ela não estava viajando a trabalho. A peneira, meus amigos, era muito, mas muito difícil, pois cientes disso, todo mundo mentia muito.</p>
<p>Imagina só, homem falando de si mesmo sabendo que as chances de uma mentira ser descoberta são mínimas. Tá decepcionado porque descobriu que o contatinho votou no político X? Na nossa época a gente descobria que o contatinho era pai de família ou procurado pela polícia!</p>
<p>E se você tivesse a sorte de pegar alguém e essa pessoa não estar mentindo para você, seus desafios estavam só começando. Não havia celular, o que significava que, para falar com a pessoa novamente, você teria que ligar para a casa dela (se, com sorte, ela tivesse telefone fixo) e correr o risco de falar com o pai ou com a mãe dela. Era uma taquicardia ligar para os outros, você nunca sabia quem ia atender.</p>
<p>E não era fácil falar com a pessoa de primeira, pois para isso, a pessoa precisaria estar em casa e a linha precisaria estar desocupada. Era muito comum ligar e ninguém atender, o ligar e o telefone estar ocupado, ou ainda ligar e falar com pai/mãe e eles te avisarem que a pessoa não está. Era todo um processo. Geralmente demandava pelo menos umas 5 tentativas. Imagina essa geração que tem medo de falar ao telefone tendo que passar por isso cada vez que quer falar com seu ficante&#8230;</p>
<p>Se finalmente você conseguisse falar com a pessoa e tivesse a sorte dela topar sair com você, precisava marcar dia e hora para o encontro. E quando chegava o dia e hora, torcer para que a pessoa esteja lá, pois não era possível avisar em caso de atrasos ou imprevistos. A vida sem celular era bem desafiadora. A gente ia mais nunca tinha certeza se o outro de fato estaria lá. Não por te rejeitar, podia acontecer qualquer imprevisto e a pessoa não teria como te avisar.</p>
<p>Isso te colocava em um exercício muito cruel de autoestima: quanto tempo esperar caso a pessoa não apareça na hora marcada. A pessoa marcou às 20h com você em um lugar público, mas são 20:20 e ela não chegou. Você sabe que ela não vai poder te avisar se acontecer um imprevisto, seja de falta, seja de atraso.</p>
<p>O quanto é digno esperar? Quando ir embora? Era uma decisão difícil quando estávamos realmente interessados na pessoa. E geralmente os locais de encontro eram locais públicos, como porta do cinema ou restaurante, então, todas as outras pessoas podiam assistir sua espera ansiosa. Vocês ficam aí chorando ghosting quando a pessoa não responde um Whatsapp? A gente se arrumava todo, ficava plantado e todo mundo assistia a nossa humilhação!</p>
<p>E mesmo que desse tudo certo, fatalmente, vocês teriam outros encontros, então, isso se repetiria outras vezes: ligar e falar com o pai da menina, ter que se arrumar com pouquíssimos recursos, ter aquela taquicardia de não saber se a pessoa vai atrasar ou te deixar plantado esperando&#8230; Namoro era basicamente esse grande combo.</p>
<p>Não tinha como se falar o dia todo. Não tinha como saber onde o outro estava, o que estava fazendo ou se estava bem. As pessoas se falavam, no máximo, no final do dia para contar rapidamente (ligação telefônica já custou muito caro) como foi o dia.</p>
<p>Dividir problemas? Pedir conselho? Conversas profundas? Só no final de semana. A gente ia construindo intimidade e proximidade final de semana a final de semana. Demorava muito mais. O que essa geração faz em seis meses a nossa demorava anos para construir. E os bonitos reclamam que tudo vai muito devagar na vida deles&#8230;</p>
<p>O lazer também era muito limitado: cinema, pracinha, casa dos outros, festinha. Não fugia muito disso, a menos que sua família fosse rica. Isso nos obrigava a focar mais nas pessoas do que nos lugares, mais na conversa do que no espetáculo. É bem mais desafiador sustentar algo só na base das pessoas. Essa nova geração enjoa fácil do outro? Imagina quanto duraria quando o programa era só sair para comer um cachorro-quente e ficar conversando olho no olho.</p>
<p>Já ultrapassei uma página do meu limite e não cheguei nem perto de cobrir todos os perrengues que passávamos quando éramos jovens. Se interessar, posso fazer uma continuação. O fato é que hoje a vida tá fácil, tá muito fácil. Se está difícil para você conhecer gente, bem, desculpa te informar, a responsabilidade é só sua. Pare de reclamar e busque ferramentas para: 1) aprender a escolher pessoas boas e 2) conseguir se conectar com elas e construir algo.</p>
<p>E&#8230; sério mesmo, deixa nos comentários as suas maiores humilhações na pista de dança para tentar pegar alguém. Todos nós precisamos dessa alegria.</p>
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		<title>Nova vida.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 16:02:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Tem uma frase de um personagem do seriado La Casa de Papel que ilustra muito bem o texto de hoje: “É possível ter várias vidas dentro de uma vida”. Isso significa que às vezes nossa vida muda tanto, que acaba se transformando em uma nova vida, completamente diferente da anterior. E ter a consciência disso [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem uma frase de um personagem do seriado La Casa de Papel que ilustra muito bem o texto de hoje: “É possível ter várias vidas dentro de uma vida”. Isso significa que às vezes nossa vida muda tanto, que acaba se transformando em uma nova vida, completamente diferente da anterior. E ter a consciência disso pode te ajudar muito.<span id="more-33545"></span></p>
<p>Pode ser uma doença, um divórcio, um casamento, o nascimento de um filho ou uma infinidade de coisas, fato é que em alguns momentos das nossas vidas, as coisas mudam tanto que ela se torna completamente diferente do que já foi um dia. Às vezes são fatores que escolhemos, como mudar de profissão, às vezes são fatores que acontecem e não podemos evitar, como a morte de alguém.</p>
<p>Não importa qual seja a causa, entender quando algo dá o start para uma nova vida e se portar de acordo pode te ajudar muito nesse processo. E agora que já colocamos um “nome” para isso, você vai ter mais facilidade em reconhecer quando acontecer.</p>
<p>É um esforço enorme para qualquer um começar uma nova vida, ainda que seja para melhor. Se você não tiver consciência disso e continuar agindo como se tudo estivesse dentro da mais perfeita normalidade, pode acabar exaurido, estressado ou até em depressão sem nem entender o motivo. Adaptação é uma das coisas que mais cansam nossos cérebros, então, vamos jogar a favor dele, não contra.</p>
<p>Então, a primeira grande regra é entender quando algo, por escolha sua ou não, está te levando para uma nova vida e ser gentil com você mesmo nesse processo, ajudando, em vez de atrapalhar o processo de adaptação. </p>
<p>Tudo que é novo consome muita energia do cérebro: aprender, se adaptar, transformar a novidade em uma rotina funcional. Por isso, ainda que seja uma nova vida melhor ainda que ela decorra de acontecimentos positivos, saiba que você deve respeitar esse período e se observar, fazendo os ajustes necessários para que a transição para a nova vida seja o mais suave possível.</p>
<p>Agora, mais do que nunca, é importante respeitar o tripé da saúde: sono, alimentação, atividade física. Faça cada um desses três o melhor que conseguir. O melhor sono possível dentro da sua realidade, a melhor alimentação possível dentro da sua realidade e a prática de atividade física possível dentro da sua realidade. Se essa base estiver firme, todo o resto será mais fácil. “Mas Sally não consigo fazer direito”. Faça o melhor possível dentro da sua realidade.</p>
<p>A primeira coisa que quero te dizer é que é normal ficar triste de alguma forma ou sentir uma perda, ainda que estejamos falando de uma mudança muito positiva na sua vida.</p>
<p>O exemplo clássico é um filho. Supomos que é o evento mais feliz da vida de uma mulher, mas é uma enorme adaptação. Sua vida anterior “morre” e começa uma vida nova, que provavelmente vai ser bem melhor, mas, ainda assim, a perda da vida anterior gera um luto. Não deixa de ser uma perda. E tá tudo bem sentir essa perda, ficar triste, ter algum tipo de luto. Isso não quer dizer não gostar da nova vida. Isso quer dizer que somos humanos.</p>
<p>Então, se permita vivenciar um luto, se ele vier. E não depreenda desse luto uma rejeição à nova vida. Uma coisa não se diz da outra. Uma perda é sempre uma perda, não importa quão maravilhosos sejam os ganhos. É ok ficar triste. O que não é ok é se afundar em tristeza, a ponto dela dificultar sua vida. Aí é hora de pedir ajuda. E é ok pedir ajuda. Pergunte-se: a tristeza está atrapalhando a minha vida? Esse é seu guia para buscar ajuda.</p>
<p>Para que algo novo entre, algo velho tem que sair. O que mais derruba as pessoas é a falta de previsão do que vai realmente acontecer. Por exemplo, se você tem um filho e acha que sua vida vai ficar exatamente como está só que com um filho de plus, suas expectativas estão erradas. Muita coisa vai mudar para que essa adaptação à nova vida funcione.</p>
<p>Entenda que nós, humanos, somos seres com recursos limitados. Algo como The Sims da vida real: se você que turbinar um aspecto da sua vida, essa energia tem que sair de outro. Se impor atividades novas apenas como um acréscimo é uma violência contra você mesmo. Pense em um armário cheio: para que uma roupa nova possa entrar, é preciso jogar fora uma roupa antiga. Assim é com a disponibilidade emocional: para que algo novo possa entrar, é preciso retirar essa energia de outros setores.</p>
<p>Um exemplo bobo, mas que ganhou fama é o das roupas. Você vai ver muito CEO bem-sucedido (Mark Zuckerberg, Elon Musk e outros) sempre com a mesma roupa. Essas pessoas fizeram essa escolha de sacrificar a diversidade nas roupas para poupar energia: o tempo e energia gastos com escolha de roupa é canalizado para outras atividades.</p>
<p>Não estou dizendo que você tenha que usar sempre as mesmas roupas, estou explicando o mecanismo: quando estamos construindo uma nova vida, gastamos mais tempo e energia nisso, portanto, o ideal é conseguir poupar tempo e energia de outros setores da nossa vida. Onde você vai poupar tempo e energia é com você, mas é preciso fazer esse ajuste. </p>
<p>Achar que dá para fazer algo grandioso como construir uma nova vida sem abrir mão de nada é uma utopia. Você pode até conseguir, mas vai pagar com a alma e com a sua saúde física e mental. E não vai ficar tão bem-feito como poderia se você tivesse feito uma gestão adequada de tempo, disponibilidade emocional e energia. </p>
<p>Então, está começando uma nova fase? Uma nova vida? Pensa aí no que pode ser otimizado para ter mais tempo e energia até se adaptar a essa nova vida. O que você vai gastar construindo essa nova fase precisa ser tirado de algum lugar. Provavelmente de vários, provavelmente você vai precisar racionar em vários setores.</p>
<p>Você pode comprar quentinhas em vez de cozinhar. Você pode delegar algumas tarefas suas para outras pessoas (de forma remunerada ou não). Você pode apenas cortar tarefas que não são tão importantes (como o escolher a roupa diariamente). Você pode botar no papel uma estimativa realista de gestão de tempo de tudo que faz para ter uma visão clara do que toma seu tempo na atualidade e decidir de onde que tirar para colocar tempo no esforço de construção e adaptação para essa nova vida.</p>
<p>Eu também recomendo colocar no papel exatamente quais tarefas você deve investir para realizar essa transição para esse novo momento de vida. Por exemplo, se você vai mudar de país, seria indicado que, ao menos uma hora por dia, você estuda o idioma do novo país, sua cultura, suas leis. Se você vai ter um filho, que faça o mesmo com o universo infantil: aprender sobre, tornar sua casa segura para um bebê, estimar o tempo que a maternidade/paternidade vai te consumir e pensar de onde você vai cortar esse tempo e essa energia, de modo a que sobre para essa nova vida.</p>
<p>Planejamento é bom. Botar no papel ajuda a entender o quanto de tempo, energia e disponibilidade emocional você tem e como vai distribuí-los durante o dia. Quando a gente faz esse cálculo de cabeça, tende a errar, sempre superestimando o que somos capazes. Na nossa cabeça, sempre dá. Na prática, costuma ficar muito pesado.</p>
<p>Além disso, na nossa cabeça o tempo é relativo. Coisas que a gente gosta passam voando, coisas que a gente não gosta, parecem uma eternidade. Se a gente pegar o somatório de tempo que uma pessoa gasta em redes sociais por dia (Whatsapp incluído), descobre que quase ninguém que está começando uma nova vida pode se dar ao luxo de consumir frequentemente redes sociais por lazer. </p>
<p>Muitas pessoas acham que o único limite do corpo é a energia, ou seja, o quanto você consegue ficar acordado e funcional. Mas os limites mais importantes são sua capacidade de concentração, sua disponibilidade emocional e sua capacidade de aprendizado. Não adianta ficar acordado se esses três já não estão funcionando direito. O que nos leva à próxima dica.</p>
<p>Guarde as horas do dia nas quais você está na sua melhor forma para as tarefas que envolvem a vida nova. Geralmente é pela manhã, não necessariamente pela manhã cedo, mas pela manhã, quando estamos fresquinhos, não cansamos nossa mente nem nosso corpo com tudo que um dia demanda. Mas, se for em outra hora, reserve essa outra hora para isso. Assim como programas de TV tinham horário nobre, seu corpo também tem. Reserve o que é realmente importante para o horário nobre.</p>
<p>Converse com as pessoas próximas a você e exponha o quadro: você está entrando em uma nova vida, precisa se preparar para isso e esse preparo não é fácil. Peça ajuda, no sentido das pessoas te pouparem de tudo aquilo que possam te poupar, que entendam uma menor disponibilidade sua, que colaborem com esse projeto. Quem realmente gostar de você, vai colaborar. As pessoas não têm bola de cristal ou sequer conseguem elaborar tudo isso que estamos falando, é importante que escutem da sua boca esse pedido de ajuda.</p>
<p>Depois, escolha suas batalhas. Brigar, argumentar, antagonizar e similares são um dreno de energia física e emocional. Tente se poupar disso até estar adaptado à sua nova vida. Pode ser em redes sociais, pode ser com a caixa do supermercado que falou um desaforo, pode ser nos mais diferentes contextos: não compre nenhuma briga que não seja absolutamente fundamental.</p>
<p>Crie mecanismo para evitar distrações, interrupções ou qualquer estímulo que sabote essa adaptação. Acredite, quando você mais precisa de concentração, silêncio e consideração é quando mais imprevistos vão acontecer. Se puder, tenha uma pessoa perto de você que funcione como filtro, que filtre as demandas e só leve até você as que forem realmente urgentes.</p>
<p>Aprenda a olhar para você e entender depois de quanto tempo do seu dia você está exausto e sem render bem, para saber quanto dura sua “bateria cognitiva”. Observe o que você fez naquele dia que pode ser cortado, substituído ou delegado para que sua bateria dure mais. Aprenda a encaixar suas demandas dentro do período de vida da sua bateria cognitiva.</p>
<p>E, muito importante: não pegue nenhum projeto novo nessa fase, se puder evitá-lo. Não me refiro apenas de trabalho, nenhum projeto mesmo: começar dieta, abri um perfil em uma rede social nova, arrumar o armário&#8230; Toda sua disponibilidade emocional tem que ir para a transição para a nova vida. Muitas vezes nos sabotamos pegando várias coisas novas ao mesmo tempo, o que nos leva a não conseguir terminá-las.</p>
<p>Se puder, converse com pessoas que já passaram por essa mudança de vida que você está passando. Isso vai te dar uma visão mais realista do tempo e do esforço que ela vai demandar. É difícil calcular algo que nunca vivenciamos. E, se você for ruim no cálculo, se você for daquelas pessoas que sempre atrasa prazos, que sempre acha que dá e nunca dá, dobre todos os tempos estimados: se acha que uma tarefa vai durar uma hora, compute como duas.</p>
<p>E nada disso é um processo fechado, um cronograma estático. São mecanismos, ferramentas, que você vai aprender a adaptar. Está chegando ao final do dia exausto a ponto e não render bem no dia seguinte? Hora de cortar mais coisas. Dormiu mal, está sem disposição naquele dia? Hora de rever as prioridades. Aprenda a acomodar sua vida para um modo de redirecionamento de recursos (tempo, energia e disponibilidade emocional) flutuante, que mantenha o projeto sempre em andamento.</p>
<p>Tem uma infinidade de setores na vida de cada pessoa que podem precisar de ajustes: socialização, bebida, cursos paralelos, viagens, hobbies e muito mais. Só a pessoa envolvida nessa transição de vidas vai poder avaliar o que precisa ser ajustado e onde. O único cuidado que eu recomendo é tomar uma decisão adulta e racional: em vez de priorizar o que você gosta, priorize o que é realmente importante.</p>
<p>Provavelmente, neste ponto do texto, já tem alguém apavorado com o que está lendo. Percebam que isso não é um projeto de vida, não é assim que você vai viver para sempre. É um plano de poucos meses, até que você esteja adaptado à sua nova vida. Uma vez adaptado, o cérebro executa essa nova rotina no modo automático e ela deixa de ser um gasto enorme de energia, sobrando energia para todas as outras coisas que você quer fazer.</p>
<p>Assim como dedicamos uma hora do nosso dia à fisioterapia quando nos machucamos e deixamos de fazer diversas atividades por estar machucados e ter a necessidade de descanso, temos que fazer o mesmo com o cérebro, quando ele é excessivamente exigido. Tem que tirar de algum lugar para por na nova rotina. Mas passa. E normalmente passa rápido. Em média, a gente costuma se adaptar a quase tudo em três meses.</p>
<p>Você vai saber que está adaptado à nova vida quando as coisas começarem a fluir sem esforço, quando o que antes demorava mais tempo e consumia mais energia puder ser feito com mais facilidade. Só que não é algo de uma hora para a outra. </p>
<p>Por isso, à medida que as coisas forem retornando à normalidade, à medida que seu cérebro conseguir automatizar os novos processos sem gastar tanta energia com eles, você pode voltar a reintroduzir aquilo que cortou. Mas de forma gradual.</p>
<p>Tá tranquilo na nova rotina? Insere uma coisa nova. Espera umas duas semanas. Continua tranquilo? Insere outra. Você está construindo uma estrutura nova, cuidado para não botar peso demais, se não ela pode colapsar.</p>
<p>Parece fácil em tese, certo? Então por qual motivo é tão difícil de executar? Provavelmente porque somos ruins em admitir limites, em abrir mão de coisas e com perdas no geral. Perdas imediatas, ainda que impliquem em um bom ganho no longo prazo, não são o ponto forte do ser humano. </p>
<p>Então, suas chances de perseverar são maiores se você sempre relembrar da meta final: você está se adaptando a uma nova vida e todas as restrições serão temporárias e serão para o bem, para que você entre nessa nova vida o mais preparado possível.</p>
<p>Para fechar, vale lembrar que não é vergonha nem fraqueza precisar de ajuda para entrar em uma nova vida. Conversar com um profissional, eventualmente usar algum remédio que te ajude nessa transição (com prescrição médica, claro), obter informações técnicas com pessoas que tem mais experiência, etc. Não é fácil mudar de vida dentro de uma mesma vida. Não é fácil para ninguém, nem mesmo para quem faz parecer ser fácil. É normal que não seja fácil. É esperado que não seja fácil. É totalmente aceitável receber ajuda.</p>
<p>Acreditem, toda pessoa vive várias vidas dentro de uma vida. É inevitável. Então, salvem este texto, pois se hoje ele parece algo distante, um dia ele pode ser muito útil.</p>
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		<title>PEC da Blindagem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Sep 2025 16:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Bônus]]></category>
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					<description><![CDATA[Este final de semana o Brasil viu pessoas indo às ruas se opor à PEC da Blindagem (ou PEC da Prerrogativa, como queiram), mas, será que todo mundo entende sobre o que se está falando? É cada vez mais comum pegar um tema, um assunto, um projeto e rotulá-lo como “de direita” ou “de esquerda” [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Este final de semana o Brasil viu pessoas indo às ruas se opor à PEC da Blindagem (ou PEC da Prerrogativa, como queiram), mas, será que todo mundo entende sobre o que se está falando?<span id="more-33357"></span></p>
<p>É cada vez mais comum pegar um tema, um assunto, um projeto e rotulá-lo como “de direita” ou “de esquerda” e ver pessoas aderindo ou repudiando sem sequer entender o conteúdo, apenas por ter simpatia ou antipatia com o rótulo que colaram naquilo. Não é assim que se adota um posicionamento informado.</p>
<p>Por isso, apesar de acharmos que não vai passar, decidimos fazer um resumo dessa PEC, com o nosso posicionamento incluído, para que todos saibam exatamente o que está acontecendo, mastigadinho, sem politização e para ficar bem registrado que nós avisamos.</p>
<p>“Mas Sally, se não vai passar, por qual motivo você vai perder seu tempo fazendo um texto sobre isso?”. Porque é Brasil. A Taxa das Blusinhas também não passou, até que tentaram novamente, e novamente, até passar. Brasil é assim: aproveita um feriado, um carnaval, uma mudança de foco e aprovam as coisas na calada da noite e tentam passar aquilo novamente, meses depois. Natal tá chegando. Ano novo tá chegando. Carnaval tá chegando. É importante que todos entendam o que está em jogo.</p>
<p>O nome oficial é PEC 3/21 e você pode encontrar o texto completo no próprio site oficial do governo. PEC significa uma Proposta de Emenda Constitucional, ou seja, ela serve para alterar a Constituição, que é a lei mais importante do Brasil. Todas as demais leis devem estar de acordo com a Constituição, se não, perdem sua validade.</p>
<p>Pela sua importância no ordenamento jurídico, mexer na Constituição Federal deveria ser algo muito raro e bem pensado, pois impacta inúmeras leis inferiores. Bagunça tudo. Centenas de artigos terão que ser revistos e reinterpretados. Não é algo que deveria ser feito com a frequência que o Brasil faz, muito menos sobre assuntos que não sejam urgentes, importantes e fundamentais.</p>
<p>O objetivo oficial dessa PEC é dar mais segurança, independência e proteção aos parlamentares brasileiros (Deputados Federais e Senadores, que, juntos, compõe o Congresso Nacional), em função das muitas interferências e abusos que vem ocorrendo no país nos últimos anos, especialmente por parte do STF. Isso é a explicação em tese. A explicação prática eu te dou: “estão sacaneando a gente? Vamos aproveitar para enfiar uma baita impunidade com apoio popular”.</p>
<p>O STF comete abusos? Sim. Muitos. Todo santo dia. Precisa de um freio, pois esse desequilíbrio entre os três poderes compromete uma democracia. Porém, essa PEC não é a via adequada, pois não vai impedir abusos do STF, vai é permitir abusos do Congresso.</p>
<p>Percebam que o fato do STF cometer abusos não faz com que, automaticamente, uma medida para cessas esses abusos seja boa. Lei Felca tá aí para mostrar que não basta criar lei, é preciso que a lei seja adequada para combater aquilo a que se propõe.</p>
<p>E a PEC3/21 não é adequada. Ela não foi pensada para restaurar o equilíbrio entre os três poderes e preservar a estrutura democrática. Ela foi pensada para salvar a pele de político e torná-los inalcançáveis pelo Judiciário.</p>
<p>Veja bem, se já temos problemas com um Judiciário sem predador, a situação ficaria bem pior se, além disso, tivéssemos um Congresso sem predador. Não se iludam, esse projeto não foi pensado no povo, foi pensado em salvar a eles mesmos às custas de um monte de efeitos colaterais extremamente nocivos para o povo, para o país e para a democracia. E nós vamos apontar todos eles agora.</p>
<p>O primeiro ponto que preocupa é a chamada Imunidade Ampliada: para abrir um processo criminal contra um parlamentar será necessária a autorização do Congresso. Isso significa que se um Deputado ou Senador comete um crime, o Judiciário não pode apurar e punir se o Congresso não permitir.</p>
<p>Calma que piora: o Congresso decidirá se o parlamentar pode ou não ser processado através de uma votação secreta, ou seja, o povo nem ao menos ficará sabendo quem foi a favor da impunidade. Não terão qualquer constrangimento ou consequência em salvar uns aos outros, não importa quão bizarro seja o crime cometido, pois o povo nunca saberá quem votou como.</p>
<p>É muito complicado colocar funcionários do povo acima da lei. Se eles cometerem crime, podem não ser processados por esse crime se seus colegas livrarem sua cara. Imagina um mundo no qual seu vizinho não pode ser processado criminalmente a menos que a família dele aprove. Te parece um bom mundo? Pois é. E essas pessoas têm muito mais poder de estrago que o seu vizinho.</p>
<p>Não dá. Cada macaco no seu galho: crime é competência do Judiciário, é uma aberração impedir o Judiciário de atuar em caso de crime. É uma abominação que político possa dizer “Nosso colega cometeu um crime sim, para nós não permitimos que você, Judiciário, puna ele”. Não dá, ainda mais no Brasil.</p>
<p>Repito: eu sei que o STF comete abusos dia sim, dia também. Mas se parlamentar se tornar intocável, improcessável, se criará uma nova fonte de abusos. Vocês já se perguntaram o que político brasileiro faria se tivesse a certeza da impunidade? Não se combate abuso de um dando ferramentas para que o outro abuse também, tudo que se consegue com isso é um duplo abuso.</p>
<p>E nesse ponto pode ter um romântico que diga que se foi eleito pelo povo tem que ter sim essa blindagem pois é a única forma de se combater a tirania do STF. Primeiro, não é a única forma. Segundo, não seria apenas para eleitos pelo povo. A PEC prevê que Presidentes de Partido usufruam de foro privilegiado, o que os blinda também, quando esse partido tenha ao menos um representante no Congresso.</p>
<p>Um Presidente de Partido não é eleito pelo povo, é escolhido pelo partido. E sabemos que no Brasil as pessoas podem criar quantos partidos quiserem. Também sabemos que com dinheiro é fácil criar um partido para chamar de seu e conseguir uma das mais de 500 cadeiras no Congresso. Com dinheiro e no estado certo, a pessoa talvez consiga se eleger.</p>
<p>Isso significa que qualquer pessoa com muito dinheiro que queira imunidade para cometer crimes pode fundar um partido, se tornar Presidente desse partido e ganhar liberdade para cometer crimes. Qualquer pessoa que queira dedicar uma vida ao crime pode distorcer as regras, fazer um malabarismo, criar um partido e se tornar Presidente desse partido para tentar fugir de punição.</p>
<p>Ou, ainda mais fácil, bater à porta de um partido pequeno, oferecer uma fortuna para que esse partido que já existe o coloque como Presidente e garantir sua imunidade. Eu consigo ver todo tipo de criminoso explorando essa brecha, desde traficantes até alto empresariado que aplica golpes financeiros. É comprar um Green Card para o crime.</p>
<p>E mesmo que a pessoa não vire Deputado, Senador ou Presidente de Partido para cometer crimes, conhecemos o brasileiro. Se chegar lá e tiver total certeza da impunidade, provavelmente não vai se comportar 100% dentro da lei como deveria. Não se colocam pessoas em um ambiente que é historicamente problemático em matéria de honestidade, cumprimento da lei e civilidade afrouxando ainda mais as amarras. Político vai ficar ainda mais bandido e desonesto.</p>
<p>Talvez nem seja essa a intenção da PEC, mas sempre que a gente fala sobre qualquer regra, é preciso levar em conta o Fator Brasil. Infelizmente, é assim que as coisas são.</p>
<p>“Mas Sally, antigamente a Constituição Federal tinha essa previsão de não poder processar sem autorização do Congresso, se é tão ilegal, por qual motivo estava na lei antes?”. Outro contexto histórico: era um país recém-saído da ditadura, que queria assegurar que seus parlamentares não fossem perseguidos por um resquício de autoritarismo. E, ainda assim, falhou miseravelmente e deu margem a abusos, por isso essa norma foi removida.</p>
<p>“Mas Sally o STF também promove perseguição hoje em dia”. Ok. Mas esse remédio o país já testou e sabe que não funciona. Os abusos do STF podem continuar de muitas outras formas (o Judiciário é o mais forte dos três poderes no Brasil) e o Legislativo vai ficar com 600 filhos da puta com certeza da impunidade.</p>
<p>Nada como um caso concreto para te relembrar onde o Brasil pode chegar. Vamos falar de Hildebrando Pascoal.</p>
<p>Se você tem um pouco mais de idade, deve se lembrar de Hildebrando Pascoal, mais conhecido como “Deputado da Motosserra”. Se você não sabe quem é esta pessoa querida, eu vou te dar um breve resumo: foi condenado criminalmente por liderar um grupo de extermínio e integrar um esquema de crime organizado para tráfico de drogas e roubo de cargas. Ele foi condenado judicialmente por tráfico, tentativa de homicídio e corrupção eleitoral.</p>
<p>Atuava como parlamentar enquanto chefiava o crime organizado no seu estado, praticando crimes com requintes de crueldade. Sem entrar em detalhes, mas vocês podem imaginar as coisas que ele fazia, com base no apelido “Motosserra”. Somadas, suas penas totalizavam mais de 100 anos de prisão. E durante muito tempo, essa pessoa querida, ficou intocável, pois o Congresso não autorizava que encostassem nele.</p>
<p>Resumo: não se corrige abuso cometido por um filho da puta dando total blindagem a outro filho da puta.</p>
<p>Se o Brasil fosse um país sério, com políticos sérios que zelam pelos interesses do povo, a conversa seria outra. Mas não é. O Brasil é um país que elege bandido sem qualquer escrúpulo de usar o cargo em benefício próprio ou para cometer crime. Não há qualquer condição de manter essas pessoas blindadas ou seguras. Eu vou além, eu acho que essas pessoas têm que ter é medo. Medo do povo.</p>
<p>Se essa PEC passar, nunca mais veremos um político ser punido no Brasil, pois, para punir político, será preciso autorização de político. Esse jamais pode ser o caminho e é muita canalhice politizar esse posicionamento, inclusive pelo fato de políticos do PT também terem votado a favor dessa desgraça. Os lados não são “esquerda x direita”, pois boa parte da esquerda votou de mãos dadas com a direita. Os lados são Políticos x Povo. E você é bem otário se ficar ao lado de político.</p>
<p>Não dá para tomar decisões importantes com base na raiva que você sente do outro. Se sua mãe está sendo escrota com você e te impondo restrições injustas é apenas estúpido você cortar uma perna pois isso vai deixá-la chateada. É hora de usar o cérebro, não raivinha passional. Não é um namorico, é a condução de um país.</p>
<p>No Brasil, qualquer medida que afrouxe controle e punição de gente que detém o poder é um tiro no pé. Tanto político como juiz tem que ter medo do povo, tem que andar na linha sabendo que se fizer besteira, o bicho vai pegar. A via correta seria impor restrições ao STF e não blindar o legislativo. “Ain mas não vai acontecer”. Não mesmo, pois vocês não lutam por isso, mas, de qualquer forma, o fato de não acontecer não justifica piorar ainda mais as coisas.</p>
<p>Com poderoso é sempre na base da restrição, punição, limitação, nunca da proteção. Quem precisa de proteção é o povo, que, no final das contas está bastante esquecido no meio desse fogo cruzado. Não perca seu tempo tentando proteger político, você está apenas passando vergonha.</p>
<p>Eu sei que dói estar do mesmo lado que uns hediondos que estão se posicionando contra essa PEC, mas, lembrem-se: não é sobre lados de ideologia. Não é torcida de futebol. É sobre analisar circunstancialmente, caso a caso, o que é melhor para o Brasil naquele assunto específico. Se você fica de birra querendo se posicionar sempre contra X ou Y, se torna uma criatura não pensante, que apenas corre para o lado oposto do que alguém faz. Até relógio parado acerta duas vezes por dia.</p>
<p>Parem de querer proteger político. O caminho é justamente o oposto: lutar para quem tem muitos poder não tenha tanto poder e não possa cometer abusos.</p>
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		<title>Desumanização.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Sep 2025 17:35:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Todo ser humano, independente da cultura, classe social ou religião, vem com uma trava de fábrica que lhe faz sentir antinatural matar outro ser humano. Se supõe que seja um mecanismo evolutivo dos tempos em que todos tinham que cooperar com todos para sobreviver em um mundo hostil. Essa trava não te impede de matar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Todo ser humano, independente da cultura, classe social ou religião, vem com uma trava de fábrica que lhe faz sentir antinatural matar outro ser humano. Se supõe que seja um mecanismo evolutivo dos tempos em que todos tinham que cooperar com todos para sobreviver em um mundo hostil. Essa trava não te impede de matar outra pessoa, mas te torna menos eficiente em fazê-lo.<span id="more-33169"></span></p>
<p>Por isso, durante muito tempo, fez parte do treinamento de soldados de exércitos pelo mundo todo tentar eliminar essa trava, dessensibilizando seus soldados antes do combate. Como eu disse, essa trava não te impede de matar alguém, mas pode te levar a hesitar alguns segundos, o que, em uma guerra, geralmente significa a morte.</p>
<p>Essa trava pode ser removida de diversas formas, desde colocando as pessoas para atirarem diariamente em imagens realistas de seres humanos até campanhas de medo, desumanizando o inimigo, colocando-o como alguém perigoso, cruel e que quer seu mal.  Esta última funciona muito bem. Tão bem que essa dinâmica parece estar sendo importada para a nova modalidade de guerra que vivemos: a guerra ideológica.</p>
<p>À medida que a polarização foi aumentando, estratégias de guerra começaram a ser usadas por ambos os lados para “vencer”. E por “vencer” não estamos falando do povo triunfar em seus ideais e sim de político filho da puta conseguir poder, prestígio e dinheiro, cagando para as necessidades do povo, mantendo o povo distraído, desunido e brigando.</p>
<p>A tática da desumanização é hoje o carro-chefe na guerra ideológica que assola diversos países no mundo, entre eles, Brasil e EUA. Se você desumaniza o rival com eficiência, ninguém vai ouvir o que ele fala, as pessoas vão pegar antipatia por ele e as chances de trazer mais gente para o seu lado, por coerção, aumentam, afinal, ninguém quer ser tachado de algo ruim e se você não está a favor do lado A, só pode ser favorável ao lado B.</p>
<p>Caso você não esteja ligando o nome à pessoa, permita-me especificar como isso acontece no Brasil: um lado te diz que o outro lado é, entre outras coisas, nazista, fascista, racista, machista, odeia o pobre, não quer ver o pobre bem, explora o trabalhador e é homofóbico. O outro lado te diz que os rivais são comunistas, pedófilos, promíscuos, vagabundos, drogados, contra a família, perseguem os cristãos e são a favor de bandido e traficante.</p>
<p>Certamente, em algum momento, você já ouviu estes contrapontos. E provavelmente, em algum momento, você foi pressionado a se posicionar em um dos lados sob a presunção de que, se não o fizesse, você era tudo de ruim do outro lado. Mais provavelmente ainda, se, por algum motivo, você criticou algo pontual de um dos lados, deve ter sido desacreditado te jogando automaticamente para o outro.</p>
<p>Um exemplo: se você disser que acha desproporcional uma mãe de família ser condenada a uma pena maior do que estupro ou homicídio por passar batom em uma estátua, certamente virá alguém desqualificar seu argumento afirmando que você é bolsonarista ou “extrema-direita”. Da mesma forma, se você se disser a favor de aborto por entender que se trata de uma questão de saúde pública, virá alguém te jogar no saco dos petistas com todas as ofensas correlatas destinadas a esse grupo.</p>
<p>Isso, meus queridos, é a mesma desumanização que faziam com o soldado inimigo na guerra. Se atribuem adjetivos extremos, dos quais muitas vezes os interlocutores nem ao menos sabem o conceito preciso, para te desqualificar, para te calar, para te jogar na lama, assim você não ousa criticar a preciso ideologia da pessoa ou seu querido político de estimação.</p>
<p>Se desumaniza para tentar desmoralizar a pessoa, anular seus argumentos, calar a boca, intimidar, fazer com que os outros não respeitem ou repudiem. É ataque através da desumanização. E quem faz, geralmente, não percebe o que está fazendo. Só quem te insufla a fazê-lo entende a tática e suas consequências.</p>
<p>Quem o faz é massa e manobra, idiota útil, pessoa de pouco cérebro que está cega pelo medo, pela ideologia ou que apenas precisa se sentir bem consigo mesma achando que está fazendo um bem para o mundo. Quem o faz acredita, de coração, que está fazendo algo bom, combatendo o mal, lutando por um mundo melhor. Pois bem, não está. Todos vocês que fazem isso, não importa de que lado estejam, tornam o mundo pior, mesmo sem perceber.</p>
<p>Charlie Kirk não foi assassinado por “ser fascista e nazista”. Ele foi chamado de fascista e nazista à exaustão para desumanizá-lo, na tentativa de destruí-lo politicamente e, como consequência dessa desumanização, ficou mais fácil que um imbecil com meia dúzia de parafusos soltos o mate. Como sociedade, vocês estão agindo como facilitadores de homicídio ao desumanizar alguém. Será que isso é mesmo uma boa ideia?</p>
<p>Uso o exemplo do Charlie Kirk por ter acontecido alguns dias atrás, mas ambos os lados fazem. E é um desfavor, não importa de qual lado venha. E a maior parte das pessoas que o faz não tem ideia do mal que está causando. Na verdade, a pessoa acha que está fazendo o bem e periga nem ver relação entre a desumanização e tentativas de homicídio.</p>
<p>E continuam fazendo mesmo depois que a pessoa foi morta. Esta semana assistimos um show de horrores em redes sociais de pessoas que, supostamente tiveram oportunidade de estudar e deveriam ser esclarecidas, comemorando publicamente uma morte bárbara de alguém apenas pela vítima ter uma ideologia diferente da sua. A desumanização continua. “Bem-feito” que mataram ele, ele mereceu pelas coisas que falou.</p>
<p>A sociedade está doente. A ponto de gente que desumaniza, antes, durante ou depois da morte ficar indignada por estar perdendo o emprego. As pessoas realmente não conseguem ver o problema. As pessoas não entendem o conceito de liberdade de expressão e acham que qualquer trava no que elas falem é censura. É desesperador. A desumanização está virando um novo modo de funcionar.</p>
<p>Todo mundo se acha certo. Todo mundo se acha coberto de razão. Todo mundo acha que tem bons motivos para desumanizar alguém, seja o fato da pessoa ser ruim, má, perigosa ou qualquer outra coisa. Essas pessoas que estão imersas na desumanização como método a gente não vai alcançar, nem com este texto, nem com conversa. Para essas pessoas, resta a lei, que no Brasil é bem fraca. Resta a sua iniciativa de não contratar ou demitir. Resta o seu repúdio de todas as formas possíveis. Mas para alguns talvez ainda exista resgate.</p>
<p>Para a pessoa que ainda não esteja totalmente imersa na desumanização talvez este texto tenha alguma utilidade. Também pode ajudar quem nunca tenha entrado na desumanização por sentir que tinha algo errado ali que a pessoa não entendia bem o que era e causava um mal-estar: agora isso tem nome, e é mais fácil combater o que tem nome. Ainda tem gente que consegue voltar ou não entrar, então, este texto vale à pena.</p>
<p>Acima de qualquer coisa, de cor, religião, ideologia ou nacionalidade, somos todos seres humanos. E se esse vínculo não basta, além de seres humanos, vocês são todos brasileiros, um país, uma nação, um povo, mega sacaneado por políticos e figuras de poder. Um povo que tem força e poderia se unir e fazer valer a sua vontade, conquistar direitos, viver melhor, mas, em vez disso, está imbuído da sanha de desumanizar quem pensa diferente.</p>
<p>Todos nós temos concordâncias e divergências com outras pessoas. Você nunca vai encontrar uma pessoa com a qual concorde com tudo ou discorde de tudo. Cabe a nós escolhermos onde queremos focar: nas divergências ou nas concordâncias.</p>
<p>Aqui mesmo no Desfavor vocês podem ver isso. Somir e eu somos muito diferentes em algumas coisas, mas em vez de olhar um para o outro como inimigos por isso, nos unimos e fazemos o que falta em um ser suprido por aquilo que sobra no outro. Toda semana discordamos na coluna Ele Disse, Ela Disse e concordamos na coluna Desfavor da Semana. E vem dando certo, por mais de 15 anos.</p>
<p>Se, em algum ponto a gente tivesse resolvido focar na discordância, poderíamos estar brigados e sem escrever o Desfavor. Somir diria que eu sou uma controladora, chata, fútil que fala sobre temas superficiais e eventualmente um potencial perigo de processo para o blog. Dependendo do ângulo, dá para me ver como tudo isso, como um desfavor para o Desfavor. Eu poderia ver o Somir como um indisciplinado, relapso, megalomaníaco que só escreve para ele mesmo e arrogante que acha todo mundo que discorda dele burro. E eu poderia achar ele um desfavor para o Desfavor.</p>
<p>Porém, escolhemos olhar para o que nos une e conversar sobre o que nos separa, para que aquilo que nos separa possa ser atenuado e se torne menos insuportável para ambos. Escolhemos olhar para o que nos separa não como uma característica de um filho da puta que quer destruir o Desfavor e sim como um equívoco, uma falha ou um erro de alguém que, assim como o outro, está querendo fazer o melhor pelo Desfavor.</p>
<p>Por mais que se desumanize o outro lado à exaustão, acho que todo mundo aqui concorda que, salvo raríssimas exceções, todos os brasileiros querem o melhor para o Brasil, afinal, é seu país. O caminho que cada um dos lados considera ser o melhor pode ser altamente questionável, mas dificilmente algum dos envolvidos está pensando “vou fazer isso pois eu quero destruir meu país!”. </p>
<p>As pessoas estão fazendo o que elas acham certo, estão fazendo o melhor que podem de acordo com sua capacidade cognitiva, sua vivência e seus medos. Presumir, apenas pelo seu posicionamento ideológico, que elas são más, ruins, que querem te destruir, está apenas na sua cabeça e é fruto dessa cultura da desumanização, de colocar o outro como inimigo, como um risco, como alguém que pode te destruir.</p>
<p>Mas, se é tão simples, por qual motivo a maior parte das pessoas está caindo nessa armadilha de desumanizar seu colega, povo do mesmo povo, cidadão do mesmo país? Pelo mesmo motivo de sempre: traz ganhos secundários que pegam justamente nos maiores pontos de carência do brasileiro.</p>
<p>Primeiro, essa compulsão por ser “bom” ou “do bem”, que eu atribuo ao massacre religioso que europeu fez quando chegou ao país. É uma necessidade doentia de querer ser visto como bom, virtuoso e correto, em parte por não ser, em parte por medo de uma punição imaginária que permeia o inconsciente coletivo. Quando existe um inferno (ou coisa que o valha), é muito importante que existam pessoas mais incorretas que a gente, assim, são elas que vão para o inferno e a gente, pelo parâmetro comparativo, fica do lado do bem e vai para o céu. Então, vamos passar uma vida apontando o defeito dos outros aos berros, para tentar esconder os nossos.</p>
<p>Obviamente a questão não é tão simples, mas há um limite do quanto você pode aprofundar em um único texto. Tem muito mais mecanismos e interesses por trás disso, mas o ponto principal é: estão induzindo um povo a desumanizar seu semelhante a ponto de estar ficando fácil matá-lo. Se o preço para manter o povo ocupado brigando for um grupo desumanizando o outro até que se quebre a trava e se torne mais fácil matar outra pessoa, quem está no poder vai pagar.</p>
<p>Desumanizar uma pessoa que discorda de você, por pior que seja a barbaridade que ela fala, é um desfavor para toda a sociedade, mas principalmente para o povo. Não sai nada de bom de desumanização. E está nas suas mãos escolher se quer focar no que te une ou no que te separa de outra pessoa.</p>
<p>“Quer dizer que eu tenho que abraçar e ser amigo de uma pessoa que eu detesto?”. Não, Pessoa Quer Dizer, não quer dizer isso não. Quer dizer que, por mais que você deteste, ache a pessoa errada e até nociva, não devemos desumanizar a ninguém. Pode se afastar. Pode criticar. Só não pode desumanizar. E, seguindo essa linha, eu aproveito para informar que aqui no Desfavor não vou mais aprovar nenhum comentário que esteja desumanizando uma pessoa ou um grupo.</p>
<p>As pessoas têm que ter o direito de discordar, de ter outro posicionamento e inclusive de ter pensamentos merdas, toscos, pequenos, sem serem desumanizadas. “Ain tá defendendo bandido”. Não, meu anjo, estou defendendo uma sociedade mais sã, na qual tenhamos mais travas antes de matar o coleguinha. Se o colega é nazista, ele comete crime e para ele existe a lei. E sabemos que quase ninguém que é chamado de nazista ou comunista realmente é nazista ou comunista, 99% dos casos é desumanização pura.</p>
<p>Então, sempre que vocês caírem na armadilha de pensar que tal pessoa ou tal grupo “nem gente é”, que é fascista, comunista, nazista, pedófilo ou qualquer outra merda, respire fundo e lembre desse texto: vocês são filhos da mesma pátria, desumanizar seu irmão é ruim para ele, para você e para todo mundo. Dá para discordar e criticar sem desumanizar. Não seja baixo, não seja vil, não seja rasteiro. </p>
<p>Como eu disse no começo, não temos esperança de mudar o mundo com este texto, a desumanização vai continuar galopante, mas temos esperança de ajudar algumas mentes, não só a não fazer, mas a compreenderem que tem que se afastar de pessoas que fazem isso. É preciso se policiar, pois quando se vive em uma sociedade que normaliza um comportamento, é muito fácil cair nesse comportamento sem perceber.</p>
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		<title>O que você não sabe sobre assédio.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2025 16:04:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[O texto de hoje não é para as mulheres, é para os homens. É uma informação que a maioria de vocês, homens, não sabem. E a intenção é apenas essa, informar, para que, de posse dessa informação, vocês consigam entender melhor as mulheres. Dificilmente um homem tem a real dimensão do que uma mulher passa, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O texto de hoje não é para as mulheres, é para os homens. É uma informação que a maioria de vocês, homens, não sabem. E a intenção é apenas essa, informar, para que, de posse dessa informação, vocês consigam entender melhor as mulheres.<span id="more-32680"></span></p>
<p>Dificilmente um homem tem a real dimensão do que uma mulher passa, diariamente, no Brasil, em matéria de desrespeito. Por mais que nós, mulheres, desenvolvamos mecanismos, aprendamos a lidar e sobrevivamos a isso, é inevitável que nos afete.</p>
<p>E este não é um texto militante, eu passo longe desse conceito de “feminismo” atual, que de feminista não tem nada. Este é um texto para homens tenham consciência do que realmente acontece, pois isso impacta a vida, o ânimo e as escolhas de uma mulher e você não vai compreendê-la se não compreender o contexto.</p>
<p>Uma mulher comum não chega à vida adulta no Brasil sem ser assediada de diversas formas. Existem graus, existem formas mais leves e formas mais pesadas, então, vamos abordar o assunto na ordem crescente. Que fique claro: de forma alguma este texto abarca todas as baixarias feitas com mulheres, tem muito mais, ele fala apenas das de caráter sexual e apenas das mais comuns. Tem muitas outras acontecendo.</p>
<p>A forma mais leve é a cantada por estranhos no meio da rua. Talvez pareça inofensivo para muitos, pois é algo que foi normalizado no Brasil por muito tempo, mas não é. Escutar que você está linda hoje pode não ser muito traumático, mas ter um popular colando a boca no seu ouvido e descrevendo o que ele gostaria de fazer com você sexualmente certamente não é agradável.</p>
<p>Até pelo medo que desperta. O sujeito pode saber que ele jamais vai passar daquilo, mas a mulher não sabe se é só uma cantada horrorosa ou se é um prenúncio de estupro. Então, independente do que é dito, é um momento de medo, estresse e taquicardia. Até o cortisol baixar e a mulher retomar a sua normalidade, pode demorar horas. E as falas normalmente são de um baixo nível que geram muita raiva, raiva por aquilo ficar impune. E essa raiva pode durar anos, de forma cumulativa.</p>
<p>Ainda nessa categoria de se manter à distância, temos homens que fotografam com seus celulares por debaixo da saia das mulheres sem que elas percebam, ou fotografam deus decotes ou qualquer coisa no estilo. Tem ainda os que espiam quando a mulher vai ao banheiro, ao vestiário ou fica em qualquer situação de vulnerabilidade.</p>
<p>Salvo situações muito particulares, eu não acho que nenhuma mulher brasileira possa dizer que nunca levou no mínimo uma cantada na rua. E muitas vezes a coisa escala e a cantada vem acompanhada de contato físico indesejado, seja segurar pelo braço ou coisa pior.</p>
<p>Se estamos falando de mulheres com mais de 40 anos, eu ouso afirmar que quase todas já receberam alguma cantada ou interação abusiva por parte de patrão ou colegas de trabalho ou qualquer pessoa hierarquicamente superior. </p>
<p>Era normal. Podia ser uma proposta descarada ou apenas um comentário inconveniente, mas estava sempre lá. E não se podia criar “problema” por causa disso ou você perderia seu emprego. Eu suponho que hoje isso tenha melhorado, mas certamente ainda acontece, não sei em que grau.</p>
<p>Saindo da área da fala, vem o outro degrau, péssimo, do mostrar. Quem vive em grandes cidades e tem mais de 40 anos provavelmente já viu o que não queria ver: sujeito mostrando o pênis, sujeito se masturbando ao seu lado (acontecia até no transporte público) ou qualquer outra cena inadequada. Talvez você, homem, esteja surpreso, mas é algo que a maioria das mulheres infelizmente já experimentou.</p>
<p>Às vezes, seguido de complementos hediondos, como por exemplo, ejacularem em você (novamente, acontecia até no transporte público), te convidarem a participar, pegarem sua mão e colocarem na parte exposta e coisas piores. </p>
<p>Não posso falar no presente, pois estou longe do Brasil há cinco anos, mas eu suponho que isso ainda aconteça. No metrô, com um motorista de táxi, em um evento lotado e em muitos outros lugares.</p>
<p>Subindo mais um degrau na escala de desrespeito, passamos para a categoria na qual o homem encosta na mulher sem o seu consentimento. Pode ser algo leve, como mexer no seu cabelo, pode ser algo mais pesado, como tentar beijar à força ou pode ser algo muito mais pesado, que fica para as próximas categorias. Pode acontecer em qualquer lugar. Não necessariamente vai acontecer, mas pode. </p>
<p>Muitas vezes o grande prazer do homem nem é o ato em si e sim sentir poder. Ver o medo. Tem gente que se sente bem, menos desempoderada, quando subjuga uma mulher. Geralmente são homens com disfunção erétil que já foram muito motivo de piada e sentem raiva de mulher ou homens que tiveram mães abusivas. Descontam em todas as mulheres.</p>
<p>Pode ser roçar uma ereção no quadril (ou na mão) da mulher, fingindo que é o movimento do ônibus que deslocou o corpo, sucessivas vezes. Pode ser um colega de trabalho fingindo esbarrar na mulher fazendo o mesmo. Normalmente é essa situação dúbia, a pessoa não faz descaradamente, justamente para poder desacreditar a mulher se ela reclamar: “Credo, só esbarrei nela, que maluca”. </p>
<p>Mas a gente sabe que não foi sem querer. Tem uma troca de olhar, tem uma expectativa de ver medo por parte do homem. A gente sempre sabe quando é ou não sem querer. Mas não tem como provar, então, a gente também sabe que vai ser desacreditada se falar.</p>
<p>Também pode ser algo declarado, proposital, ostensivo, como agarrar e dar um beijo (mais comum em ambiente de gente alcoolizada) e ainda ficar puto se a mulher rejeitar. Não me refiro a pessoas que estavam flertando e sim a homens que sequer fizeram contato visual com essa mulher. É sério, a gente não os vê chegando, parece que saem de um bueiro. E se a mulher recusa a investida, tem boas chances de o sujeito ficar puto. Com sorte você é apenas xingada, com azar, rola uma agressão física ou coisa pior.</p>
<p>Escalando um pouco mais, temos a desagradável situação na qual um homem faz um contato de cunho sexual indesejado, mas que não chega a consumar o ato. Por exemplo, pegar a mão de uma mulher e colocá-la à força nos seus genitais ou ele colocar a mão nos genitais da mulher. Esta é a categoria mais subnotificada de todas. Meus queridos homens, acontece, e acontece muito, mas cruza uma linha de humilhação tão grande que a maioria das mulheres guarda isso para si e não comenta.</p>
<p>Não é algo socialmente grave o suficiente para procurar uma delegacia, mas é socialmente grave o suficiente para humilhar a mulher, para levantar dúvidas sobre ela ter de alguma forma correspondido e levado até isso ou para desgraçar a cabeça do seu parceiro e acabar gerando uma tragédia. Por esses fatores, quase nenhuma mulher comenta essa categoria específica.</p>
<p>Existe também o contato sexual em tese consentido, mas que a mulher jamais teria se não houvesse um fator externo empurrando a mulher para essa direção. É o caso do sujeito que a chantageia de alguma forma para obter sexo em troca, que pede favores sexuais para que ela não seja demitida ou que faz qualquer tipo de ameaça ou barganha (atendida ou não) em troca de sexo.</p>
<p>Eu sei que nesse caso a mulher sempre pode recusar, porém, dependendo da sua realidade, a recusa pode piorar sua vida a tal ponto que não cabe a mim julgar sua decisão. O correto seria que uma mulher que faz um bom trabalho não precise fazer favores sexuais a seu superior para se manter no emprego.</p>
<p>Temos algo ainda pior, que é o contato sexual invasivo que não é socialmente considerado estupro, com por exemplo enfiar o dedo em uma mulher que está de saia em um transporte público. Não vou fazer listas de condutas, pois são todas muito desagradáveis, vocês entenderam. </p>
<p>Por fim, temos um contato que pode ser socialmente considerado ato sexual pelas pessoas. Percebam que eu disse “pelas pessoas”, pois pela lei, já entramos no estupro na primeira página. Este texto não é sobre a lei, é sobre a questão social. Este texto é sobre o que as mulheres, via de regra, passam e escolhem ou não comentar ou comprar uma briga.</p>
<p>Tirando essa nova geração, que vem mais informada e consciente, socialmente, só é considerado “estupro” penetração ou sexo oral. Todo o resto costuma ser tido como “menos grave”. Está certo esse posicionamento? De forma alguma, está muito errado. Mas infelizmente, ainda parece ser uma maioria a que pensa assim. Então, tomara que um dia este texto fique obsoleto, tomara que as pessoas olhem e pensem “nossa, que absurdo, isso não era visto como estupro?”. Até aqui, é assim que as coisas são.</p>
<p>Mas o objetivo não é discutir terminologia. O ponto deste texto é: você, homem, provavelmente não tem ciência nem de 10% do que acontece com as mulheres da sua vida em matéria de desrespeito, assédio e estupro. </p>
<p>Primeiro por muitas delas naturalizarem o que acontece, segundo por elas sentirem vergonha e terceiro por elas saberem que contar certas coisas só vai te causar desgosto e você não vai poder fazer absolutamente nada a respeito.</p>
<p>Que bem traria dizer a um pai, irmão ou marido que um filho da puta tirou os genitais para fora da calça e esfregou em você no ônibus lotado? Ou que se masturbou ao seu lado no metrô lotado e você não conseguiu sair de perto e o sujeito ejaculou nas suas pernas? Não gera nada de bom, só deixa o outro transtornado com algo que ele não pode fazer nada a respeito. Então, a gente aprendeu a engolir e lidar com isso sozinhas.</p>
<p>Mas acontece. Saibam que acontece. Mais do que vocês imaginam. Já deve ter acontecido aos montes com a sua mãe, bastante com sua esposa e muito com a sua irmã. E elas tiveram que lidar sozinhas com isso. </p>
<p>E com este texto eu não quero encorajar ninguém a contar. Conte se achar que tem que contar, não conte se achar que não tem que contar. É uma decisão personalíssima sua. Mesmo que uma mulher decida contar tudo, coisa que eu acho muito improvável, ter que viver em um mundo onde isso acontece é difícil de lidar e isso ela vai ter que trabalhar sozinha.</p>
<p>O objetivo com este texto é que os homens saibam que quase todas as mulheres têm esse fator extra de estresse em suas vidas – e mais do que eles imaginam, em quantidade e em grau. E isso te tira um pouco da saúde mental, da capacidade de concentração, da disponibilidade emocional. Isso leva a reações, escolhas e mecanismos que podem parecer excessivos ou irracionais para quem não tem a noção do que aconteceu.</p>
<p>Então, antes de dizer que uma mulher “tá nervosa” ou “tá estressada” por nada, lembre deste texto. Talvez ela tenha passado ou esteja passando sistematicamente por uma situação horrível, está processando isso sozinha para te poupar e você, em retribuição, está minimizando o impacto disso nela. Pensem um pouquinho mais antes de falar.</p>
<p>E mesmo que, por um milagre que desde já eu te comunico ser impossível, uma mulher nunca tenha sofrido nenhum tipo de abuso, desrespeito ou assédio, o simples fato de viver em uma sociedade que sabidamente faz isso já gera um estresse, um medo constante, um modo “luta ou fuga” cada vez que sai na rua, ainda que a própria mulher não perceba isso.</p>
<p>Então, impacta a todas as mulheres. E, por ser algo muito aviltante, insuportável e constante, as mulheres encontram formas de dissociar, de negar, de tentar esquecer no seu consciente que a realidade é assim, se não, enlouquecem. Mas, no inconsciente a gente não manda, e ele sabe, ele lembra. Viver com medo, ainda que seja inconsciente, é um veneno e te coloca em desvantagem em tudo na vida. Sejam mais compreensivos.</p>
<p>O que muitas vezes se atribuí a “hormônios”, a “loucura” a “descontrole” é só esse veneno diário impactando a mulher mais do que ela é capaz de suportar naquele momento da vida. Sério mesmo, sejam mais compreensivos.</p>
<p>E com isso eu não quero dizer que algum homem tenha que tolerar abusos por parte de mulheres, como invasão da sua privacidade, desrespeito, xingamentos ou coisa do tipo. Jamais. O que eu quero dizer é que uma mulher emocionalmente esgotada provavelmente é uma mulher que passou por muito mais coisa do que você imagina. </p>
<p>Para terminar, quero dizer às mulheres que estão aqui que, mesmo lendo este texto, os homens não vão entender a magnitude do que eu estou falando e eu não acho legal que ninguém vá aos comentários compartilhar os abusos que sofreu, então, criei um meio-termo capaz de dimensionar o problema sem expor as mulheres. Fiz um bingo do abuso:</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD.png" alt="" width="900" height="900" class="alignnone size-full wp-image-32681 uk-margin" srcset="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD.png 900w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD-300x300.png 300w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD-150x150.png 150w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD-768x768.png 768w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2025/09/Tabela-FD-120x120.png 120w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p><strong>Somem quantos pontos vocês marcaram em toda sua vida e postem de forma anônima o resultado</strong>, assim, ninguém vai saber exatamente o que aconteceu, mas saberão que aconteceu. </p>
<p>“Mas Sally, você está dizendo que um estupro é quase tão grave quanto passar a mão em uma mulher?”. Não. Claro que não. Estupro deveria somar mil pontos, mas se eu colocasse assim, todo mundo saberia que mulheres com pontuação alta foram estupradas. </p>
<p>Não é um quantificador de sofrimento ou gravidade, é apenas uma ferramenta concreta para que homens percebam que isso acontece – e muito.</p>
<p>“Mas Sally, o que fizeram comigo não está na tabela”. Sim, seria inviável listar todos os tipos de abuso&#8230; e no Brasil, são muitos. Então, procure o mais parecido e pontue.</p>
<p>Normalmente eu não faço questão que leitor comente aqui, mas hoje eu acho importante. Lembro sempre que o anonimato de todos é assegurado pelo Desfavor e assim vem sendo mantido há mais de 15 anos. Hora de que os homens entendam a dimensão do que mulheres passam no Brasil.</p>
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		<title>Adultização (de verdade).</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/08/adultizacao-de-verdade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Aug 2025 15:45:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Oi. Meu nome é Sally, e você não vai gostar deste texto. Prossiga, mas não diga que eu não avisei. O tema é tão complexo, que vamos continuar nele hoje: o que fazer para proteger crianças que são exploradas e sexualizadas, conscientemente ou por ignorância, online? No grosso, a discussão parece ter dois lados: 1) [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Oi. Meu nome é Sally, e você não vai gostar deste texto. Prossiga, mas não diga que eu não avisei.</p>
<p>O tema é tão complexo, que vamos continuar nele hoje: o que fazer para proteger crianças que são exploradas e sexualizadas, conscientemente ou por ignorância, online?<span id="more-31931"></span></p>
<p>No grosso, a discussão parece ter dois lados: 1) Tem que regular internet não pode ser terra sem lei e se você é contra significa que você é extrema-direita, conservador e defende pedofilia e 2) não precisa regular, o Estado quer é censurar, tudo tanto é que já puniram um influenciador sem precisar de nova lei.</p>
<p>Ambos estão certos. E ambos estão errados. Vamos aprofundar?</p>
<p>Comecemos com essa mania que algumas pessoas têm de fazer uma coação moral moendo reputações: se você não concorda com algo de sua cartilha, você só pode ser bolsonarista, extrema-direita, conservador, moralista e a favor do crime que a pessoa diz tentar combater. </p>
<p>Isso afasta os outros. Isso empurra os outros a votarem no Bolsonaro. Isso é uma das coisas mais contraproducentes que eu já vi. Discordar de uma medida apresentada pode ter uma infinidade de motivos que não um político de estimação ou ser a favor da impunidade e me causa espanto que a suposta elite intelectual do país não saiba disso. Fico me perguntando se são burros ou sem caráter.</p>
<p>“Internet não pode ser terra sem lei”. E você não pode ser um ser humano sem cérebro. Existe Marco Civil da Internet, existe Código Penal, existe Estatuto da Criança e do Adolescente, existem infinidades de leis protetivas. E, cá entre nós, se criar lei adiantasse, não tinha mais homicídio no Brasil, país que, segundo a ONU, é recordista mundial em homicídios. Se criar lei adiantasse, mulher não apanhava mais, por causa da Lei Maria da Penha.</p>
<p>Apenas criar lei não resolve. Já falamos sobre isso em outro texto, lei é última tentativa para quanto tudo mais falhou, se não tem o “tudo mais”, a lei não vai dar conta de coibir um comportamento, como bem podemos ver pelos casos de violência e crimes patrimoniais no Brasil. Sem educação, sem acesso a uma vida digna, sem campanhas de conscientização, não tem lei ou punição que resolva.</p>
<p>Mas, quando pensamos na tarefa hercúlea que é esse “tudo mais” que deve anteceder à lei, dá uma depressão instantânea. É muita coisa. É trabalho de décadas. E é um trabalho invisível que não dá voto, consome recurso e não será sequer sentido nos primeiros dez anos, então, nem que fosse possível, iriam querer fazer. Mas não é. Os burros e corruptos, que estão no Congresso, encarregados de criar as leis que regem o país, não tem nem capacidade de pensar e gerir um plano desse tamanho nem se quiserem. Não vai acontecer tão cedo.</p>
<p>Mas, o Poder Público tem que dar alguma resposta ao clamor popular que esse caso causou. A mesma mãe que bota a filha para rebolar funk no aniversário de sete anos, filma e joga no Instagram, está indignada e exige providências. Então o que o Poder Público faz? Cria lei, pois já vendeu à população que essa é a resposta. E a população, inacreditavelmente, ainda compra, mesmo vendo toda a diarreia legislativa sem impacto na vida real, mesmo vendo que o tempo todo criam lei para tudo e nada nunca melhora.</p>
<p>Mas tem outra sutileza aqui. O Congresso se move por dinheiro. Além do salário alto e benefícios que recebem, cada pauta, cada votação, cada passo precisa de dinheiro por baixo dos panos. Governo quer aprovar uma lei rápido, furando fila, para inglês ver, para mostrar ao povo que estão fazendo alguma coisa? Beleza, isso vai custar dinheiro. Cada degrau escalado para aprovar essa lei vai custar dinheiro, que vai entrar por debaixo dos panos no bolso de cada congressista. </p>
<p>Por isso, ninguém se opõe a essa diarreia legislativa. É bom para o Executivo, pois cala a boca do povo e mostra que estão fazendo alguma coisa (ainda que seja inútil), o Congresso ganha mais dinheiro para acelerar ou apenas para não travar o trâmite e o povo fica com uma falsa sensação de que algo está sendo feito e não colapsa em uma crise mista de depressão com síndrome do pânico por viver em uma sociedade tão bosta.</p>
<p>Mas, na real, o povo é o único que sai perdendo. Sobretudo quando um governo canalha se utiliza de uma questão séria e grave para empurrar uma lei que não vai resolver o problema e ainda tem embutido em seus artigos mecanismos que permitem calar a boca de quem 1) critica o governo; 2) faz denúncias de corrupção contra o governo e 3) cobra mais transparência do governo. Não é ser contra regulação, é ser contra regulação nos termos propostos, pois é um cavalo de Tróia para aprovar regras que impedem de fiscalizar o governo.</p>
<p>Acredite em mim, eu leio de cabo a rabo todos os projetos de lei sobre o assunto e eu tenho formação jurídica. Nada do que foi apresentado até agora em matéria de regulação de redes sociais é capaz de coibir os problemas atuais. E é esperado que não seja, quando a gente olha para quem são os encarregados de criar lei no Brasil entende isso: desde Carla Zambelli a Guilherme Boulos. Desde Eduardo Bolsonaro a Gleisi Hoffmann. Desde Ricardo Salles a Erika Hilton. Não tem como sair algo que preste. Não tem.</p>
<p>Mas, ao mesmo tempo, achar que está tudo ótimo como está e não precisa de nenhuma regulação também é de uma imbecilidade tenebrosa. “Não tem que regular, minha liberdade mimimi”. Calma aí, amigão. Se tem criança sendo explorada, sexualizada, exposta, tem que fazer alguma coisa sim. </p>
<p>“Mas você mesma disse que já tem lei!”. Tem sim. E não funciona. Pode até funcionar para punir um caso individual (e, spoiler, só quando ele tem muita repercussão), mas não funciona na sua principal missão: coibir, impedir, desencorajar. Punir é importante, mas se conformar com punição depois que a criança já foi explorada? Não te parece um pouco escroto não?  </p>
<p>Da mesma forma que sim, tem que punir homicídio, mais importante é criar mecanismo para tentar evitar que ele aconteça, pois depois que matarem alguém da sua família, levar o criminoso para a cadeia não ressuscita quem morreu. Então, sim, algo tem que ser feito para que as pessoas tenham medo de explorar crianças assim e, para que, caso aconteça, isso possa ser imediatamente removido.</p>
<p>Eu não sei se alguém aqui já tentou remover algum conteúdo do Facebook, por exemplo. É praticamente impossível sem conhecer alguém de dentro ou sem entrar com um processo judicial que pode ser caro e demorado. E se cada caso for levado de forma individual, o Judiciário trava, pelo número de demandas.</p>
<p>Não dá para tutelar uma questão que é um problema recorrente de forma individual, simplesmente se torna inviável por diferentes motivos: o Judiciário não tem material humano para dar conta de tanto julgamento, muita gente não tem condição de judicializar e o brasileiro que pode judicializar, judicializa tudo, qualquer besteira, como arma, desde o que o ofende até o que ele não gosta, gerando uma avalanche de ações e muitos outros.</p>
<p>Já vi gente sugerindo reunião com representantes de rede sociais para resolver a questão. Gente&#8230; as redes sociais não vão parar. Se tem muita gente consumindo criança sexualizada, a rede social vai dar isso às pessoas, pois é do interesse delas que o usuário fique ali o máximo de tempo possível. Nenhuma big tech tem ética, sensibilidade ou preocupação com o bem-estar das pessoas. Não é demonizar, é o que é necessário para que esse modelo de operação tenha lucro e se mantenha vida. Sejamos realistas, daí não vem solução.</p>
<p>“Já sei, temos que controlar o usuário então! Tem que pedir CPF para entrar em rede social”. Por algum motivo a pílula anticoncepcional é o método contraceptivo mais usado: é muito mais fácil neutralizar um óvulo do que 150 milhões de espermatozoides. Vou repetir: hoje, o Judiciário não vai dar conta de avaliar a quantidade de ações que seriam propostas, então, não adianta saber quem essas pessoas são. Eu adoraria que essa fosse a solução, e se fosse, eu estaria aplaudindo de pé e defendendo, mas eu afirmo para vocês: é inexequível.</p>
<p>E ainda tem o fator “vocês, que são brasileiros, conhecem tão pouco o próprio país?” Tem gente recebendo aposentadoria com documento falso e olha que isso requer biometria. Não existe a menor possibilidade do brasileiro não burlar isso. Meus amigos, o povo dá jeitinho para tudo, daria nesse caso também. Não faz sentido controlar 220 milhões de pessoas e resolver cada infração de forma individual. Não tem como.</p>
<p>Para coroar, dar o seu documento seria mais uma forma de ajudar big techs a ter ainda mais informação sobre você, te rastrear, te “ler”. As pessoas precisam ser protegidas disso, não estimuladas a fazê-lo. Não só não vai causar nenhum bem, como ainda vai causar mal.</p>
<p>“Mas Sally, então faz o que?”. Sendo bem sincera aqui com vocês, se me pagar salário de congressista, em seis meses eu te apresento um plano exequível, eficaz e pronto para ser implementado. Como autora de um texto gratuito de 4 páginas com apenas poucas horas para pesquisa e reflexão seria insanidade ter a pretensão de resolver o problema. Dá para discutir direções, mas não dá para apresentar soluções. </p>
<p>“Ain mas que merda, eu li esse texto até aqui e ela não vai dar a solução?”. Aí, no caso, o problema está em você, não em mim, de esperar uma solução em quatro páginas para um assunto dessa complexidade. Efeito Dunning-Kruger acreditar que em um post, em um texto, em apenas uma ideia a solução vem. São pessoas assim que ficam se digladiando achando que não tem que regular nada ou que criar lei resolve.</p>
<p>O que de forma alguma autoriza censura. Autoriza medida radical e parcialmente injusta, mas apenas no tocante ao problema. Em bom português: por ter criança explorada não é legítimo que ninguém possa falar mais nada sobre o governo, mas é legítimo que postagens envolvendo esse problema específico, crianças, sejam tratadas com um rigor que ninguém gostaria que fosse necessário.</p>
<p>Quando um ferido leva um tiro, os médicos não atuam com finesse e precisão, ao menos não em um primeiro momento. Você soca gaze e panos lá dentro, como quem recheia um bicho de pelúcia, para conter o sangramento. Depois, quando a grande hemorragia está contida, aí sim se procedem os reparos cirúrgicos localizados necessários, para aquelas feridas específicas.</p>
<p>Minha solução imediatista, minha gaze no tiro, seria proibir imagem de criança em redes sociais.</p>
<p>Nem precisa argumentar comigo como é escroto, injusto, bla bla bla. EU SEI. É uma escolha trágica, para um problema enorme, gigante, avassalador que está nos soterrando. Problemas assim não tem soluções bonitas, justas ou agradáveis. Entre sacrificar o direito das pessoas de postarem foto de criança e o direito das crianças de serem exploradas, eu sacrifico o primeiro. </p>
<p>E hoje toda rede social tem robozinho para identificar criança em foto e impedir que seja postada. Talvez uma ou duas pessoas com nanismo sejam prejudicadas, mas esses casos individuais podem ser resolvidos. Essa é a direção para estancar um sangramento, sem depender de judicialização de cada caso. </p>
<p>Um plano maior, menos agressivo, mais estratégico, demanda um tempo, um estudo e uma dedicação que eu não posso ter sem comprometer minha renda. Se alguém quiser me pagar, estamos aí.</p>
<p>“Mas Sally tem que ter outro jeito”. NÃO TEM. Se você acha que tem, escreve um texto para a gente, que a gente publica como Desfavor Convidado e, nos comentários, eu vou te mostrar como essa solução não resolve.</p>
<p>O que tem é formas mais ou menos traumáticas de se implementar e gerir medidas drásticas. O que tem é uma fronteira clara de até onde é preciso apertar. Precisa proibir de criticar o governo para combater a exploração infantil? Claro que não. Mas precisa proibir criança de participar, nem que seja em imagem postada pelos pais, pois os pais já mostraram que não tem discernimento. Nem que seja em uma imagem inocente com zero sexualização, tem que ser vetada. Infelizmente, a situação é tão crítica que não permite subjetivismos.</p>
<p>E, cá entre nós, isso deveria partir dos próprios pais. Vamos agora ao ponto delicado que traz xingamentos aos comentários. Se você sabe que tem predador que vai se masturbar com a foto da sua filha pequena, mesmo que seja a foto mais inocente do mundo, quantas toneladas de merda você tem que ter na cabeça para postar foto dela mesmo assim?</p>
<p>Sim, isso é uma parte enorme do problema não conversada: por qual motivo pais têm essa necessidade de postar seus filhos em redes sociais? Francamente, tem um enorme componente de ego e futilidade aí, muito bem camuflado de amor, que todo mundo normalizou. Não tem que postar imagem de criança em rede social, independente de lei que proíba. </p>
<p>“Ain mas não dá para viver assim, se preocupando com isso, se privando de postar foto dos filhos”. DÁ SIM FILHA DA PUTA. DÁ SIM. A vida real é aqui fora, não é em redes sociais. Manda a foto por whatsapp para os avós. Que porra é essa de dar tanta importância a rede social? Que porra de sintoma é esse de querer mostrar sua vida para todo mundo? Vão pro inferno, vocês também, pois achar que é tão fundamental e importante postar foto de filho em rede social não é estar com razão, é sintoma. Malucos do caralho.</p>
<p>Eu sei que estou conversando com as paredes, mas, aqui vai: a sociedade acha que o problema são os pedófilos. Eu acho que os problema são os pais. Assim como nos sujeitamos a milhões de restrições na vida real para evitar o crime, o mesmo tem que ser feito no mundo virtual. É legal? Não é. É horrível. É injusto. É escroto. Porém é necessário. </p>
<p>Se eu fosse Presidente do Mundo, postou foto de filho em rede social perdeu a guarda (“poder familiar”) da criança. Mas medida dura ninguém quer, ninguém gosta, ninguém acha necessário. “Ain radical”. Como projeto de vida? Não. Para estancar a hemorragia? Com orgulho.</p>
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		<title>Inutilidade Performática.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2025 15:56:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos conversar sobre Inutilidade Performática? Sabe aquela piada que sugere que você faça tudo muito malfeito ou que simplesmente não faça, para virar uma pessoa com a qual não se pode contar e, assim, ninguém te pedir mais nada? Pois é, isso é a Inutilidade Performática: quando a pessoa, consciente ou inconscientemente torna a execução [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos conversar sobre Inutilidade Performática?</p>
<p>Sabe aquela piada que sugere que você faça tudo muito malfeito ou que simplesmente não faça, para virar uma pessoa com a qual não se pode contar e, assim, ninguém te pedir mais nada? Pois é, isso é a Inutilidade Performática: quando a pessoa, consciente ou inconscientemente torna a execução de algo tão sofrida, ruim ou trabalhosa que os demais preferem fazê-lo ou delegar para outros em vez de pedir para que a pessoa o faça.<span id="more-31923"></span></p>
<p>Curioso como, no Brasil, isso ainda pode ter, dependendo da pessoa, uma aura de se dar bem, de esperteza, de sensação de vantagem. É tão vergonhoso fazer isso, ser a pessoa com a qual não se pode contar, não dar conta do que te pedem&#8230; É tão decepcionante e, ainda assim, ainda tem tanta gente faz.</p>
<p>Eu entendo que existem exceções nas quais, talvez, isso pareça legítimo. Por exemplo, quando o empregador pune o bom empregado entulhando ele de trabalhos que seriam de competência de seus colegas. Pode ser sim um mecanismo de defesa, apesar de que, o correto seria não ficar em um ambiente de trabalho que te trata assim. </p>
<p>Porém, a maior parte dos casos de Inutilidade Performática não é justificado. É claro, na cabeça de quem faz, é sempre justificado, mas, justificativa de cabeça torta não conta. Não importa se há uma injustiça ocorrendo ou não, não é essa a forma adulta e decente de se lidar com o problema. Mas as pessoas fazem os caminhos mais tortos na suas cabeças para justificar seus comportamentos errados.</p>
<p>O marido que executa uma tarefa de casa de forma tosca pois “estou cansado trabalhei o dia todo” acha que está coberto de razão. O empregado que faz um trabalho porco pois “ganho pouco” também acha que está coberto de razão. A mulher que faz corpo mole para executar uma tarefa braçal da qual dá conta com tranquilidade pois “ele é mais forte do que eu” acha que está coberta de razão. E não estão.</p>
<p>Vale o combinado. Se o combinado for dividir as tarefas da casa, faça sua parte, mesmo cansado. Se o combinado foi trabalhar por aquele salário (e cada dia que você comparece ao seu trabalho você está dizendo que aceita isso), faça sua parte. Se o combinado foi dividir as tarefas braçais, faça sua parte. </p>
<p>Não há nenhum problema em combinar uma coisa e, com o passar do tempo e das mudanças da sua realidade e da sua cabeça aquele combinado não servir mais para você. Combinados não são eternos. O problema é, em vez de sentar e conversar feito adulto mentalmente são, fazer essa babaquice para demonstrar que você não quer mais aquele combinado. Não quer mais? Renegocia. </p>
<p>Não tem renegociação? Hora de desfazer o combinado e procurar outras pessoas que sejam compatíveis com o combinado que você quer fazer. Mas isso as pessoas não querem, elas querem que o outro queira o combinado delas, nem que para isso precisem enganar ou manipular o outro, usando, entre outras coisas, a Inutilidade Performática. Percebem a desonestidade?</p>
<p>“Não quero abrir mão do _______ (casamento, emprego, etc.) mas também não quero cumprir o combinado para que essa relação esteja boa para a outra pessoa”. É feio demais. É uma forma de calote.</p>
<p>E, nessas horas sempre vem um argumento muito delicado: “Eu fiz o combinado, a pessoa é reclamou porque eu não fiz do jeito dela, ela que quer tudo do jeito dela”. Vou ser bem sincera aqui&#8230; quase nunca isso é verdade. Aposto que os autores dessas pérolas das fotos usaram esse argumento.</p>
<p>Não é tão difícil de solucionar esse impasse. Basta pensar em qual era o propósito do pedido da pessoa e se ele foi atendido. Se o objetivo foi cumprido de uma forma racional, sensata, coerente. Se, aos olhos de qualquer ser humano com discernimento o caminho tomado foi aceitável.</p>
<p>Quando você pede para alguém guardar o feijão no congelador, nenhum ser humano normal vai achar coerente botar a panela elétrica junto. “Ain mas foi guardado!”. Desculpa, ou você é mau caráter ou é débil mental. Quando te pedem para pintar listras nas ruas, nenhum ser humano normal vai achar aceitável pintar os carros junto. “Ain mas rua foi pintada”. Sinceramente, vai tomar no cu essa pessoa e quem mantém essa pessoa em sua vida.</p>
<p>Um exemplo seria um combinado no qual uma das pessoas da casa tem que regar a grama. Se a pessoa aceitou essa tarefa, pra executá-la de forma correta não basta o gesto mecânico de jogar água na terra e dizer “regar eu reguei”.</p>
<p>O executor é encarregado de decidir o que fazer, como fazer, quando fazer e onde fazer. E para isso ele precisa estudar, ou perguntar a quem saiba. Não é fazer da sua cabeça o que você acha. Fazer da sua cabeça o que você acha, quando você não tem conhecimento sobre o assunto também é Inutilidade Performática.</p>
<p>A grama se rega nas primeiras horas da manhã ou no final do dia, trecho por trecho, em determinada quantidade por metro quadrado, com água fresca. Qualquer pesquisa de cinco minutos no Google te dirá isso. Provavelmente, a pessoa que te delegou a tarefa te explicará isso.</p>
<p>“Ain então além de tudo eu vou ter que estudar e pesquisar? Inviável viver assim”. Adoro vagabundo argumentando. Se eu fazia, quando nem internet tinha, você pode fazer agora, que o ChatGPT te responde em menos de dez segundos. </p>
<p>Para o que a pessoa gosta ou acha interessante, ela pesquisa exaustivamente, mas para cumprir tarefas do jeito certo, repentinamente, pesquisa se tornou exaustivo. Muito mais fácil fazer o que acha da sua cabeça e, se a outra pessoa reclamar, dizer que “ela quer tudo do jeito dela”. Manipulação não é tolerada neste blog.</p>
<p>Não é querer tudo do jeito dela, é o que é necessário para que aquele ser vivo sobreviva, portanto, para que a tarefa cumpra seu objetivo. Se a pessoa, da cabeça dela, acha aquilo “querer tudo do seu jeito” e rega a grama em pleno verão uma hora da tarde, vai matar a planta. Se coloca menos água do que precisa para acabar a tarefa logo, vai matar a planta. Se faz qualquer coisa que não devia, por não seguir as instruções e o gramado não continua vivo e saudável, não é que o outro queria tudo do seu jeito, é que isso é o necessário para executar a tarefa com sucesso.</p>
<p>“Mas a minha execução é racional, coerente, sensata e o objetivo é plenamente alcançado e, mesmo assim, a pessoa não aceita que eu faça de outro jeito”. Bom, aí é questão de conversa. Talvez se ela te explicar as razões pelas quais não aceita vocês consigam chegar a um denominador comum. Talvez possam distribuir as tarefas de outra forma, de modo a que essa, com execução problemática, não fique com você. Talvez seja um caso de incompatibilidade mesmo e tenham que seguir caminhos separados. Qualquer coisa, menos essa babaquice de Inutilidade Performática.</p>
<p>Sempre se pergunte: se você fizer do seu jeito, o resultado pretendido com aquela tarefa será alcançado? E na maior parte das vezes, a resposta é “sei lá”,, o que equivale a um “não”. A pessoa acha que vai alcançar o resultado fazendo de outro jeito, mas quase nunca alcança.</p>
<p>O que nos leva a um segundo momento: quando flagrada com o seu resultado bosta na mão, a pessoa começa a desmerecer o resultado esperado, como se ele fosse um exagero ou um preciosismo do outro. “Tem que tirar o lixo para manter a casa limpa” ou “Tem que fazer ligação pós-venda para ver se o cliente está satisfeito”. A pessoa diz que sim e não faz. É advertida e tenta te convencer de que é frescura, de que a casa está limpa mesmo com o lixo dentro e de que o cliente está satisfeito mesmo sem o pós-venda. Complicado. </p>
<p>Repito: o combinado não custa caro. Dialoguem, conversem sobre a meta, sobre o que se pretende alcançar e, se o outro topou aquela meta, não há espaço para depois vir reclamar dela, dizer que ela é desnecessária.</p>
<p>Se não concorda com a meta, discuta a meta. “Ain mas não adianta falar a pessoa nunca cede em nada”. Então, meu anjo, é hora de se perguntar o que diabos você está fazendo com uma pessoa que nunca cede em nada, com uma pessoa que te impõe tudo do jeito dela. Francamente, que inferno conviver com alguém assim. Não seria que as pessoas topam por um enorme ganho secundário de não ter que decidir coisas na vida, pois tem sempre alguém dizendo o que fazer?</p>
<p>“Mas Sally, é meu empregador, não posso fazer nada”. Pode sim. Pode fazer networking e procurar outro trabalho. Pode se capacitar para ficar acima da média no mercado (de forma gratuita) para ser mais contratável por outras empresas. Pode empreender. Pode monetizar algo que você já faz de graça. Pode tentar todo tipo de coisa para sair dessa situação. Só não pode cobrir seu próprio nome de bosta praticando a Inutilidade Performática e achar que com isso está causando dano ao seu empregador, pois não está. Só está causando dano a você mesmo. Se o seu empregador ainda te mantém, é porque você ainda dá lucro para ele, não se iluda. </p>
<p>Inutilidade Performática nunca é uma resposta ou reação saudável a nada. E ainda te faz mal. Pode até dar uma sensação de “hihi levei vantagem”, mas, no longo prazo, te acostuma com um modus operando medíocre, patético, incompetente e você tende a reproduzir isso sem sequer perceber. </p>
<p>Isso transparece, mesmo que a pessoa ache que não. Em um encontro, em uma entrevista de emprego, em um café, eu sei dizer quando uma pessoa é adepta de Inutilidade Performática e muitas outras pessoas também sabem. Fecha portas sem que você sequer entenda o motivo.</p>
<p>Se alguém está sendo injusto com você em matéria de metas ou cobranças, saiba que você é o maior prejudicado ao responder assim. Primeiro pelo comportamento vergonhoso, infantil e inepto. Segundo por questões práticas mesmo: agir assim envenena o relacionamento, seja ele familiar, profissional, afetivo ou amoroso. A pessoa que faz isso começa a ser vista como uma idiota, e, é questão de tempo para que as pessoas desgostem de idiotas.</p>
<p>Toda relação, para uma manutenção saudável, depende, entre outras coisas de admiração. Se colocar como imbecil, idiota, incompetente, talvez te salve de uma ou outra tarefa por um tempo, mas no logo prazo, e um veneno e é bem possível que, quando você menos esperar, venha uma demissão, um fora ou qualquer outro tipo de corte, justamente por ter acabado a admiração.</p>
<p>E, para a pessoa que recebe o corte, fica parecendo que foi “do nada, que loucura”, mas, para a pessoa que lidou por anos com Inutilidade Performática é o copo da paciência mega transbordado. Nunca é do nada, meus amigos. O fato da pessoa não conseguir perceber o motivo não faz com que seja do nada.</p>
<p>“Mas Sally, eu não escolho fazer isso, é sem perceber”. Então se posicione de modo a corrigir o problema. Se, quando te delegam algo o resultado é tão cagado que, frequentemente a pessoa que delegou diz “Deixa&#8230; deixa que eu faço” ou pede para outra pessoa, intervenha e peça para que ela te ensine, te ajude a fazer, assim, da próxima vez você dá conta da missão. </p>
<p>“Não posso fazer nada se eu não consigo” não existe. Você pode pedir ajuda para aprender ou, se for algo extremamente difícil para você, pode explicar que realmente tentou e não consegue e trocar essa tarefa por outra pela qual você tenha mais aptidão, para que ninguém saia sobrecarregado, em vez de deitar em berço esplêndido quando a obrigação é retirada das suas costas.</p>
<p>Que fique claro, homens e mulheres (e todas as outras classificações que vocês queiram dar ao ser humano) fazem isso. Não é exclusividade de homens. Mas, nos próximo parágrafos eu vou falar com as mulheres, não por achar que só os homens fazem e sim por ser mulher, portanto, conhecer melhor o que mulheres passam.</p>
<p>Vejo muita gente, muita gente mesmo, dizendo que em relacionamentos amorosos: “Não pode! Você não pode deixar ele se safar! Ele tem que fazer!”. Amiga&#8230; não, ele não tem que nada. E ninguém deveria obrigar ninguém a nada, pois isso nunca dá certo. Não se desgaste tentando fazer com que ninguém faça nada (a menos que seja seu filho, pois nesse caso, é educar). Apenas pense se vale à pena ficar com alguém assim (spoiler: não vale). Se vale, aceita essa tua realidade sem se chatear e sem brigar, se não, procura quem não se valha da Inutilidade Performática.</p>
<p>“Mas Sally, não adianta trocar, todo homem faz”. Não. Não. Não. Mil vezes não. Talvez todo homem pelo qual você se sinta atraída faça, e, nesse caso temos um sintoma que você tem que trabalhar. Mas pode ter certeza de que não é todo homem que faz não. </p>
<p>“Mas Sally, é uma estratégia de dominação, para obrigar as mulheres a fazerem tudo”. Não. Não é estratégia nenhuma, é um projeto de sofrimento casado, no qual dá match quem está com a saúde mental ruim. Nenhum homem faria um projeto que consiste em levar esporro e ter o saco enchido o tempo todo. Não é projeto, é sintoma. E você ficar nessa dinâmica é sintoma também. Abraça a pessoa assim e faz tudo sozinha ou parte para outra.</p>
<p>“Ain machista está dizendo que a mulher tem que fazer tudo sozinha”. NÃO. Estou colocando com uma das opções. Ou será que mulher pode ser o que ela quiser desde que atenda a determinada cartilha? Se a pessoa é feliz fazendo tudo sozinha, pois que faça, pau no cu da sociedade se achar isso ruim. Cada qual sabe o quanto pode ceder sem causar infelicidade e sobrecarga a si mesmo e querer escolher pelos outros no que eles devem ceder é tratá-los como retardados. Só tem que ter cuidado e ver se é realmente escolha ou sintoma.</p>
<p>Por exemplo, tem pessoas que são tão controladoras que encontram um enorme ganho secundário em se cercar de Inúteis Performáticos, assim é uma forma que a pessoa encontra de que seja tudo do seu jeito sem precisar impor uma tirania&#8230; Aí é sintoma. E você vê que é sintoma pois a pessoa não está feliz, ela reclama, sai de vítima, de raladora, de sobrecarregada. É por isso que eu digo: não existem vítimas, existem apenas consequências das nossas escolhas.</p>
<p>Falando com todos agora: é muito fácil detectar a Inutilidade Performática nos outros e muito difícil de percebê-la em nós mesmos, pois nós sempre temos ótimas desculpas para não fazer ou para fazer de um jeito meio cagado. Por isso, em vez de apontar nos outros, o melhor que fazemos é tentar observar isso em nós mesmos. No outro só vai ferrar o outro, se você quiser, você vai embora e o problema fico com o outro. Em você, vai te afetar o resto da vida.</p>
<p>Procurem se observar e identificar essas duas coisas: 1) se você realmente executa sua parte nas tarefas dos diferentes setores da vida de forma adequada, pontual e eficiente e 2) se você se cercou de inúteis performáticos, é escolha sua, não pode viver reclamando, se vitimizando ou sofrendo, ou abraça, mata no peito e faz tudo você, ou reconfigura as pessoas da sua vida.</p>
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