Autor: Sally

Ainda estou indignada com a pouca importância que foi dada à traição do Ricardo a um dos maiores ASTROS DO ROCK do nosso país, talvez do mundo. Foi mal, mas não deu para engolir. Pedi ajuda para o Somir, que me virou as costas (em parte por causa do Siago Tomir da musculação, em parte por bom senso). Ele se recusou a fazer uma montagem com a foto do Ricardo (seria baixaria mas teria ficado muito engraçado). Portanto, terei que denegri-lo sozinha, com meus poucos recursos de informática (paint *cantinho da vergonha). Tá, tudo bem, não é grandes merda, mas o que vale é a intenção:

E se mais alguém aqui também sentir toda uma indignação, deixe um comentário e vamos pensar no que fazer!

Love a Tender, love a sweet...

Seguindo a linha “quem disse que não se chuta cachorro morto?”, o Processa Eu de hoje chuta e faz embaixadinhas com mais um rei. É muito bacana falar de reis, desconstruir mitos. Quando uma pessoa morre a mídia e os puritanos hipócritas de plantão fazem questão de relembrar apenas suas coisas boas, escondendo tudo de ruim que havia na pessoa. É assim que se faz um mito. Por sorte, as pessoas fazem um trabalho tão bunda que qualquer imbecilóide dono de um blog pequeno pode desfazer, como provarei nas linhas abaixo. Senhoras e senhores, o Processa Eu de hoje é sobre Pelvis Presley.

Pelvis nasceu em uma pequena cidade da Suíça em 8 de janeiro de 1935. Mamãe Pelvis estava grávida de gêmeos univitelinos (aqueles que são idênticos), mas seu irmãozinho nasceu morto. Um só já bastava, né?

Criado em uma família exemplar e estruturada, Pelvis teve a oportunidade de crescer com bons exemplos dentro de casa: seu pai foi preso por crime de estelionato quando Pelvis tinha apenas três anos de idade. Parece que ele andava falsificando cheques por aí. Joinha joinha. Todo final de semana Pelvis tinha que viajar 5 horas de ida e 5 horas de volta para visitar Papai na prisão. Graças aos crimes cometidos por Papai Pelvis, a família foi despejada e teve que se mudar para a casa dos avós, pais do estelionatário.

Em 1945 começa a vida artística de Pelvis. Ele participa de um concurso de novos talentos em uma feira qualquer e ganha o segundo lugar. Nesta altura, Papai Pelvis já havia cumprido sua pena e estava de volta ao lar (ótima influência para a criança) e lhe deu um violão de presente. Foi a gota dágua para Pelvis vagabundear durante toda sua vida escolar. Além de burro, era um aluno relapso, mais interessado em violão do que em se instruir. Sua aparência “excêntrica”, com cabelos mais longos que o desejado e costeletas faziam com que muitos colegas quisessem lhe enfiar a porrada, e de fato, chegaram a fazê-lo. O treinador do time de futebol disse a ele que com aquele cabelo ele não poderia continuar jogando e Pelvis preferiu sair do que cortar o cabelo.

Depois de largar o time de futebol, ele começou a se vestir com roupas extravagantes, geralmente nas cores rosa e preto (atentem aqui que estou me segurando ao máximo para não fazer comentários preconceituosos). Pelvis comeu merda durante muito tempo de sua vida. Foi lanterninha de cinema, motorista de caminhão e continuou enfrentando preconceito por seu cabelo e roupas.

A história de seu sucesso é bem questionável. A versão oficial é que ele, Pelvis, decidiu bancar do seu bolso (apesar de ser extremamente pobre) a gravação de um disco seu para dar de presente de aniversário para sua mãe. Durante esta gravação, bancada por ele, o dono do estúdio, que também era dono de uma gravadora, teria visto seu desempenho e ficado encantado. Ele decidiu lançar Pelvis, assim… por pura bondade. Sei… O curiosos é que o dono da gravadora só trabalhava com UM gênero musical, e o de Pelvis era OUTRO. E mesmo assim, ele decidiu investir em Pelvis. Como sempre tem alguém nervoso pedindo fontes, e esta é uma parte polêmica, vou transcrever um trecho de uma das mais famosas biografias dele:

“Como o aniversário de sua mãe era em abril, o tempo dessa versão da história não está correto, pois Pelvis preparou esse primeiro disco de acetato no verão de 1953. É mais provável que Pelvis conhecesse sua reputação como um produtor independente e foi ao estúdio pedir sua atenção.”

Se Pelvis não deu o roscofó para esse sujeito eu sou mico de circo. Porra, podia ao menos ter criado uma mentira plausível! Nem a data do aniversário da mãe bateu! Ô gente burra!

Cercado de toda a estrutura necessária, Pelvis vira sucesso do dia para a noite. Claro, sofria críticas, afinal, sempre foi um caipira sulista e quando abria a boca sua burrice fazia chorar. Também diziam que ele era vulgar, que dançava de forma vulgar. Mmmmmm… estou pensando aqui: burrice + dançar de forma vulgar = rei. Será que depois que Cumpadi Washington morrer ele também vira rei? Tchuu tchuu pá! Ordinááááária! Sim, Pelvis foi um É o Tchan da época. E tem gente que acha fino gostar de Pelvis…

Pelvis dançava de forma ousada para a época. Sem querer ser espírito sem luz, na minha nada humilde concepção, parece mais um ataque epiléptico do que uma dança, mas esses religiosos puritanos (hipócritas) não podem ver um chacoalhar de saco que já acham sexy e ousado. Gente reprimida é uma merda. Deve ter aprendido a dançar com o Forrest Gump mesmo, só um aparelho ortopédico na perda justifica aqueles movimentos (além, é claro, de epilepsia).

Para não dizer que ele não era tão rebelde como pintam, vou citar um gesto de rebeldia dele que ilustra muito bem esse tipinho “me faço da mau, muito mau”. Em um famoso programa de TV ele cantou, contra a vontade do apresentador, uma música GOSPEL que era a preferida da sua MAMÃE. Rebelde pra cacete, hein? Depois disso foi chamado para gravar um disco gospel! Dizem que só desafiou o apresentador porque estava bastante doido. A gente sabe que ele era chegado em drogas (remedinhos, principalmente). Mmmmmm… estou pensando aqui: drogas + gravar disco gospel = rei. ALGUÉM TRAZ UMA COROA PARA O RAFAEL PILHA JÁ!!! JÁÁÁÁÁ!

Eu queria falar de passagens importantes como seu novo empresário 171 Pom Tarker, que pintava pardais de amarelo e os vendia como periquitos (como tem estelionatário na Suíça, não?), o factóide comercial que foi seu alistamento no exército, a morte de sua mãe, o tempo em que serviu na Alemanha, seus filmes ruins (é de constranger a Muxa) e tantas outras passagens importantes (e cheias de informações que ninguém conta), mas a realidade é o limite de 4 páginas, logo, vou guardá-las para o final de vida de Pelvis, que é a parte mais interessante.

Além de dar/comer o rabo para subir na carreira, em suas relações pessoais Pelvis também não valia muito. Quando estava servindo ao exército na Alemanha, deixou uma namorada nos EUA, reconhecida perante a imprensa, à qual prometeu fidelidade. Claro que não cumpriu. Mas além de não cumprir, tripudiou. Era visto com uma outra chamada Briscilla Peaulieu, que tinha apenas 14 anos, para cima e para baixo. Enquanto isso, omitia de sua namorada este fato, mandava presentes e cartas. Quando se despediu de Briscilla, chorou feito um bebê, e poucas horas depois, quando chegou aos EUA, deu uma coletiva de imprensa, Pelivis minimizou sua relaçao com Briscilla, entretanto, falava com ela ao telefone o tempo todo e lhe escrevia centenas de cartas.

Mas Briscilla era teimosa. Mesmo sabendo que Pelvis tinha namorada, e que além dela pegava geral (toda semana se lia uma notícia dele pegando uma famosa), ela continuou mantendo contato com ele e reafirmando que gostava dele. Um dia, Pelvis decidiu que era Briscilla que ele queria e pediu que ela fosse aos EUA vê-lo. Moveu mundos e fundos. Teve que convencer os pais da moça e seguir uma série de condições estipulada por eles. O test drive foi tão bem sucedido que Briscilla acabou se mudando para os EUA e, depois de sete anos do seu primeiro encontro com Pelvis, ela foi pedida em casamento. Linda a história, né? Só que Pelvis se mostrou um canalha, teve casos públicos com geral e quando Briscilla estava grávida de sete meses Pelvis lhe disse um “desculpa, foi engano” e que queria se separar. Briscilla lutou para manter o casamento, mas acabou se divorciando pouco depois, sozinha com uma filha para criar. E criou mal pra caralho, diga-se de passagem, porque muitos anos depois, sua filha casaria com Jichael Mackson!

Sua carreira continuava um sucesso, mas ele precisava cada vez mais de drogas para ter energia nos palcos e depois prescisava de drogas para conseguir dormir. Drogado ele sempre foi, que fique claro, mas em seus útlimos anos ele fez uso descomunal de substâncias lícitas e ilícitas. Para quem endeusa Pelvis, lembre-se que está endeusando um drogado. O que o difere de um drogado comum, que geralmente a sociedade repudia e condena, é que ele cantava bem. Apenas. (porque eu não paro de compará-lo mentalmente ao Rafael Pilha?)

Pelvis estava cada vez mais recluso. Vivia dopado, mal conseguia sair de casa. Ele estava tão chumbado que não conseguia nem ir ao estúdio gravar. O problema foi resolvido da forma mais burra possível, em vez de tirar Pelvis do buraco, resolveram instalar uma gravadora dentro da casa dele, para que ele possa gravar mesmo sem conseguir andar de tão drogado.

Dizem que fazia uso indiscriminado de anfetaminas para perder peso, mas considerando que em seus últimos anos de vida ele parecia um leitão de costeletas, eu duvido. Era coisa mais pesada mesmo. Também diziam que ele tinha dores nas costas, hipertensão e outros problemas de saúde. Também, né? Com aquele peso… me espanta que a coluna dele não tenha se partido ao meio. O mais engraçado é que ele falava mal de drogas. Pessoas hipócritas não são uma delícia?

Já li sobre pessoas que justificaram o aumento de peso de Pelvis com uma série de doenças. Ele mesmo era hipocondríaco, vivia achando que estava doente. Pois eu vou dizer qual era a doença dele: falta de vergonha na cara. Amigos e parentes já declararam de forma pública que ele só se alimentava de três coisas, em grandes proporções: bacon, pizza e sorvete. Parece aquele gordinho que durante o dia come uma saladinha e depois enche o rabo de doce em casa e fica choramingando, dizendo que nao sabe porque não emagrece, que não come nada, que deve ter “problemas hormonais”.

Enfim, a falta de vergonha na cara de comer feito um gordo carente, somada à falta de vergonha na cara de ficar se entupindo de drogas (lícitas ou não), acabaram por deteriorar a saúde de Pelvis. Começou a ficar paranóico também. Carregava armas onde quer que fosse, porque achava que alguém poderia querer assassiná-lo para ganhar fama. Estava armado até mesmo no palco, em suas apresentações. Ele foi se isolando cada vez mais, gordo, decrépito, decadente e armado.

Um belo dia ele foi encontrado morto na banheira de sua casa, por sua namorada. A causa da morte não foi bem explicada até hoje. Alguns biógrafos falam em “colapso fulminante”, outros em “disfunção cardíaca” e outro em “arritmia”. Banha + drogas. Chamem como quiserem, o sujeito pifou. A família pediu uma autópsia particular, mais detalhada, e seus resultados nunca vieram a público. Chegaram a acusar seu médico de prescrever medicamentos de forma irresponsável, mas ele foi julgado e absolvido.

Após sua morte, surgiram teorias conspiratórias dizendo que ele não tinha morrido, tinha apenas simulado a própria morte para poder levar uma vida mais tranquila. Pessoas contam ter visto Pelvis após sua morte, e alguns até mostram fotos. O engraçado é que nestas fotos ele continua com topetão, cavanhaque e roupas nada discretas. Praticamente uma caricatura. Outros dizem que ele vive em uma ilha. Gente rudimentar e negadora não sabe lidar com a morte, com a perda, então cria esses eufemismos mentais para tentar mitigar a própria dor: ele está em uma ilha, ele está no céu, ele está no paraíso e assim por diante.

Pelvis era um prostituto que fez o que foi necessário para subir na vida, quem o admira não pode criticar pessoas interesseiras e sem moral. Pelvis foi um mulherengo safado, quem o admira não pode chamar de canalha um homem que trai publicamente. Pelvis foi um irresponsável drogado, quem o admira não pode falar mal de viciados que morrem cedo e deixam filhos sem pai no mundo. O cara cantava bem, mas cá entre nós, era um ser humano de merda. Quem quiser admirá-lo, saiba que está ostentando os valores errados.

Para me dizer que Pelvis não morreu, apenas se disfarçou de Rafael Pilha, para me dizer que que eu tenho enveja de Pelvis porque eu queria ser uma gorda drogada e para dizer que Lohn Jennon teria o mesmo destino, mas Mark Chapman infelizmente o transformou em mártir: sally@desfavor.com

Recentemente a questão foi levantada pelo Presidente da França, Nicolas Sarkozy e agora o assunto voltou à moda novamente com o episódio do médico (está mais para monstro) que estuprou dezenas de pacientes anestesiadas: o que fazer com estupradores?

Já disse isso aqui outras vezes e vou repetir: costumamos ser menos tolerantes com os criminosos que cometem crimes que nós achamos que não cometeríamos. Nosso senso de justiça costuma estar atrelado a nossos valores pessoais. E com base nesses critérios, o estuprador vira um dos criminosos mais rejeitados pela sociedade, afinal, poucos de nós se acham capazes disso. Não que um estupro mereça qualquer justificativa ou atenuante, porque realmente não merece. É um crime horrível que com toda razão causa repulsa social. Só estou querendo deixar claro que damos um tratamento diferenciado em função de valores próprios, sobretudo nós mulheres, que nos identificamos com as vítimas.

Pois bem, dito isto, vou direto ao assunto. Algumas pessoas vem levantado a possibilidade de se punir o estupro com a castração química do estuprador. É uma castração realizada mediante a aplicação de medicamentos (salvo engano, hormônios femininos) que diminuem drasticamente os níveis de testosterona no organismo do homem, tornando-o incapaz de ter uma ereção. Na forma como ela é proposta seria supostamente reversível, ou seja, a impossibilidade de sexo dura o tempo que durar o “tratamento”. Confesso que não tenho conhecimento das consequências a longo prazo – mas também não é intenção discuti-las aqui.

Se fosse algo irreversível como é a castração física, eu nem viria aqui falar sobre o assunto, porque acho uma barbárie (apesar de saber que sempre tem uma meia dúzia de almas exaltadas que querem que prenda, castre e mate, deixo esses radicalismos para o Somir). Portanto, vamos falar da castração apenas no caso dela ser reversível.

No Brasil é expressamente proibida a aplicação de penas corporais, ou seja, punições que afetem a integridade física do condenado. Em tese, né? Porque quem já visitou um presídio ou uma carceragem de delegacia sabe que na prática as coisas podem ser diferentes. Em tese, a castração química não poderia ser utilizada no nosso país. Mas, com um pouco de debate e alguns ajustes, talvez seja até mesmo possível argumentar que não se trata de uma punição corporal. Também pode ser alegado que, entre a violação dos direitos de uma pessoa de não ser estuprada e a violação do direito do estuprador à integridade física, os primeiros devem prevalecer. Tudo muito controverso, mas possível de se argumentar. A questão é: vale a pena? queremos isso?

O grande problema das discussões sobre estupro é que as pessoas se exaltam e a indignação não lhes permite pensar na complexidade do que está sendo debatido. Falando assim, sem aprofundar o tema: “Você acha que deveriam aplicar castração química a estupradores?” a gente tende a dizer que sim, claro, e que ainda tem que bater, prender, matar, etc. Pensamos com presunção de culpa. Por isso, vou reformular a pergunta para que vocês entendam onde eu quero chegar: VOCÊS ACHAM QUE EM UM SISTEMA JUDICIÁRIO COM FALHAS COMO O NOSSO É ADEQUADO IMPOR CASTRAÇÃO QUÍMICA PARA OS CONDENADOS POR CRIME DE ESTUPRO?

Que estuprador deve sofrer castração química eu não tenho dúvidas. Assino embaixo. Mas o que se discute aqui não é isso. O que se discute é se deve ser dada autorização ao Estado para aplicar a castração química aos condenados pelo crime de estupro, que nem sempre são de fato estupradores. Acredite em mim, se me levarem para algumas das delegacias do Rio de Janeiro, até eu confesso crime de estupro.

Durante muito tempo eu pensei de forma equivocada sobre estupradores. Eu presumia que para uma pessoa ser capaz de estuprar alguém, ela deveria necessariamente ser doente mental, ter alguma psicopatia, algum problema de cabeça. Conversando com especialistas, fui advertida de que não é o caso. Existem pessoas que o fazem por opção, que poderiam muito bem controlar seu impulso e ainda assim optam por fazer. Existe a maldade, a maldade pura e deliberada como escolha. Isso me fez pensar que estas pessoas não são passíveis de tratamento psicológico ou psiquiátrico, porque não são doentes.

Se não podem ser tratados, como garantir que retornarão ao convívio social e não repetirão o mesmo crime? E se for o caso de uma pessoa de fato doente, será possível tratá-la para evitar que ela repita o erro? Geralmente não. Os índices de reincidência no crime de estupro são altíssimos: 75% faz novamente.

No caso ocorrido da França, que levou o Presidente Nicolas Sarkozy a defender a castração química, um pedófilo que havia cumprido pena de dezoito anos e assim que colocou o nariz na rua, estuprou um menino de cinco anos de idade. Não adiantou porra nenhuma de nada passar dezoito anos enjaulado. O que fazer com pessoas assim? É tentador recorrer à castração química.

Existe um projeto de lei sobre introdução da castração química no Brasil, mas dificilmente será aprovado, porque da forma como foi escrito é inconstitucional. Eu sei que todos que estão lendo estão pensando favoravelmente à castração química, mas peço que deixem sua indignação de lado por um segundo, se desarmem e procurem ler as próximas linhas com racionalidade.

A lei brasileira sacaneia o homem por demais. E olha que para que EU (que acho que toda sacanagem com homem é pouco) diga uma coisa dessas, a injustiça deve ser enorme. O homem só se fode. Por causa de meia dúzia de babacas todos pagam o preço. Não discuto se isso é necessário ou não, apenas estou dizendo que as leis são extremamente protecionistas com mulheres, que ultimamente não andam tão indefesas.

Vocês sabem o que vem acontecendo com a Lei Maria da Penha, a lei contra a violência doméstica, né? Praticamente TUDO que um homem faz e desagrada uma mulher pode virar violência doméstica. Quem tiver curiosidade de ler, procure no Google a lei 11.340 e leia o artigo 5º para constatar o que o legislador definiu como sendo “âmbito doméstico” (não precisa nem morar junto, ta?) e o pior de todos, o art. 7º, que nos diz o que configura violência doméstica. Os incisos que descrevem o que é violência psicológica e violência moral englobam praticamente tudo, por essa lei, Somir comete violência doméstica contra mim todo santo dia.

Resultado? O que era para impedir que um marido violento dê umas pancadas na esposa porque ela queimou o feijão virou arma de Patricinha mimada para se vingar de namorado que a largou ou de homem que a rejeitou. Mesmo quando não chega a virar um processo, tem sempre aquela mulherzinha barraqueira que vive de blefe com o discurso ameaçador no canto da boca “Olha que eu vou te processar, hein”. E o homem responde ao processo preso, ok? Antes mesmo de ser condenado. O bicho pega.

Eu sou a favor de homem bater em mulher? NUNCA. Mas eu sou a favor da Lei Maria da Penha? Não, obrigada. Entendem o paralelo? Já tive amigos presos sem jamais encostar um dedo na ex-namorada. Eu trabalho com isso, acabo vendo essas injustiças todo santo dia. Entendem meu medo?

Se for liberada a castração química, será mesmo que vai ser usada contra estupradores? Ou será que vai ser usada apenas nos estupradores pretospobresfavelados e contra homens que rejeitaram mulheres histéricas e vingativas? Quem se safa sempre, vai continuar se safando, não importa quão duras sejam as leis. Não é a intensidade da pena que coíbe o crime, é o real temor de ter que cumpri-la.

Quando a gente pensa naquele estuprador padrão, tipo maníaco do parque, fica fácil desejar a castração química. Mas quando a gente pensa no nosso pai, irmão, primo, filho ou amigo que aborreceu uma vadia qualquer que só de raiva resolveu acusá-lo de estupro para vê-lo castrado (e, meus amigos, vocês não tem noção da baixaria que algumas pessoas são capazes de fazer para se vingar), a coisa muda de figura. Alguém aqui põe a mão no fogo que a justiça não erra?

Pensemos em um processo por estupro, contra seu pai, irmão, primo, filho ou amigo. Estupro não precisa de testemunhas, e geralmente não as tem. É a palavra da mulher contra a do homem. Adivinha quem tem presunção de vítima? O estuprador PODE ser condenado SEM EXAME DE CORPO DE DELITO, ok? A mulher diz que foi para casa, porque estava traumatizada, e depois de vinte dias criou coragem e denunciou. Os vestígios já eram. E ainda assim, ele pode ser condenado.

Quantos de vocês, homens, nunca tiveram um LOUCA no caminho capaz de tudo (inclusive de queimar o próprio filme) para ficar com você ou se vingar depois de ter sido rejeitada? Imagina se uma lei desse a essa louca o poder de te castrar, ainda que temporariamente? Imagina ela fingindo choro em uma audiência, comovendo os presentes e dizendo “ele me estuproooooouuuu!” e você sendo condenado a ficar por anos e anos broxa. Estamos falando de vinte ou trinta anos sem uma ereção. Ainda está tão certo da castração química?

Não pensem nos bandidos quando falarem de uma lei criminal. Pensem que pode chegar em todos nós.

Mas Sally, é reversível”. Sim, mas e se você não conseguir provar a sua inocência? Vai gostar de ter passado vinte anos broxa? E se 19 anos depois se comprova que você é inocente, quem te devolve esses anos todos que você passou broxa? Não sou homem, mas acho que se fosse, preferiria ser privado da minha liberdade do que da minha ereção. Opinem.

Mas Sally, você não gostaria que um homem que te estuprou fosse castrado?”. Sim, castrado e morto. Gostaria sim. Mas não é assim que se fazem leis, pensando em revanche. Se fazem pensando no melhor para a sociedade. E nosso sistema penal não tem por objetivo a vingança, como por exemplo nos EUA, onde das famílias das vítimas vão bater palminhas para a execução do assassino. Se fosse comigo é claro que eu ia querer tudo de ruim para a pessoa, mas a pergunta é: eu quero viver em um país onde o Estado pode fazer tudo de ruim a um condenado? Minha raiva pessoal não deve virar lei. Se virar, será um perigo. (afinal, eu sou RITLER, né?)

Por outro lado, eu tenho plena consciência que é foda ficar alimentando vagabundo que estupra a rodo e saber que depois de no máximo trinta anos (provavelmente antes) ele vai sair e fazer tudo novamente. É uma questão delicada. Entendo quem defenda a castração química. Eu sou contra, mas não acho um argumento descabido. Para uma mulher é muito fácil dizer “castra mesmo!”, porque não podemos nos identificar com a figura do agressor, nunca que essa merda vai feder na gente. Talvez os homens me entendam melhor.

Não tem jeito, pena corporal não entra na minha cabeça. Se resolvesse, minha gente, eu até pensava com carinho nessa birra que eu tenho com penas corporais… Mas não resolve, meu povo. Sem querer ser grossa, ainda que se aplique castração química, a pessoa continua tento dedos, língua e boca. Não é só com um pênis que se molesta alguém.

Por favor, opinem. Mas opinem com civilidade.
Para me dizer que é foda mesmo, que só podia ser eu para ficar defendendo estuprador, para me perguntar se eu não gostaria de que a pessoa que me estuprou fosse castrada, torturada e assassinada e para usar qualquer outro argumento de gente pobre de espírito: sally@desfavor.com

Eu conheço bem meu companheiro de blog. Por isso tenho diversos episódios de Siago Tomir escritos, prontinhos para serem copiados e colados aqui: porque sei que ele é incapaz de cumprir metas, horários e qualquer obrigação em determinadas fases de sua vida. Bom, pelo visto, esta é uma delas. Aparentemente ele está sem internet e aparentemente ele não pode usar o horário do almoço dele, como eu faço, para escrever o texto do dia seguinte em uma lan e me enviar por e-mail, porque “nem fodendo que eu vou deixar de comer, você é doente” e blá blá blá.
Por sorte, um de nós é responsável. Com vocês, mais um SIAGO TOMIR.

Hoje conto a vocês como introduzi (ou melhor, como tentei introduzir) Siago Tomir no mundo da musculação.

Não, não foi capricho nem futilidade. Quem conhece meus ex-namorados sabe que eu sou eclética e vou a extremos: tem dos modelos mais lindos até os barangos mais feios. Meus caros, só tem um corpo que eu não abro mão que seja sarado nesse mundo – o meu. O grande estopim que me fez convencê-lo a malhar foi um problema de saúde de Siago Tomir, onde ele realmente precisava de uma atividade física e dentre elas, a musculação era a mais indicada (palavras do médico, juro).

Existe uma peculiaridade sobre Siago Tomir que vocês talvez não saibam: Siago Tomir não dorme. E gosta disso. E tem orgulho disso. E quando você tenta convencê-lo a dormir ele faz um “Tssst!” (numa vibe meio Cesar Millan, visualizaram?) e declama: “Dormir é para os fracos”. Como todo arrogante, egoísta e individualista, ele se acha imortal. Então, na véspera de ir a seu primeiro dia de academia, Siago Tomir estava saracoteando pela casa às duas da manhã, enchendo os cornos de coca-cola e jogando um jogo de guerra no vídeo-game. Recomendei que ele durma e tomei um “Tssst!” no meio dos cornos. Fui dormir sem ele.

Já havia sido uma batalha tremenda convencê-lo a se matricular em uma academia, aquela choradeira, ameaças dizendo que eu não queria estar ao lado de alguém que se destruía, chantagem perguntando se ele queria que seus filhos vejam o pai morrer aos 40 e essas coisas que eu faço. Quando ele sentiu que a coisa ia escaralhar, tanto do ponto de vista do problema de saúde quanto da minha paciência, ele concordou.
O que pessoas como ele não entendem é que não basta se matricular em uma academia. É todo um ritual, é toda uma mudança de estilo de vida. São novos hábitos, nova alimentação, nova rotina. Siago Tomir foi se deitar com o nascer do sol, como de costume. Mais ou menos três horas antes de tocar meu despertador.

Quando o despertador tocou, ele estava praticamente em coma. Sim, porque Siago Tomir não dorme, Siago Tomir entra em mode off. Eu já conhecia a figura, então nem me dei ao trabalho de gritar ou coisas do tipo, isso não resolve. Me arrumei e disse “Estou pronta, você vem?”. Siago Tomir fez um sinal de “joinha” com o dedo sem desenterrar a cara do travesseiro e continuou dormindo. Repeti em voz alta “SIAGO! Estou indo, ta? Pelo menos me dá um beijo…”. Desconfie quando uma mulher te pede beijo. Beijo é o caralho, eu queria é que ele olhe para mim. Siago Tomir se levantou para me dar um beijo no piloto-automático, quando viu as minhas roupas. Acordou que foi uma beleza.

“VOCÊ VAI ASSIM? ASSIM? ASSIIIIIIIM?”. Não, nunca que eu ia daquele jeito que não sou maluca nem nada, mas falei que ia assim. Ele acordou rapidamente e começou a debochar (o deboche dele é o primeiro sentido a acordar) me perguntando se eu iria à praia e etc. Fiz uma proposta: eu colocaria uma calça e uma camiseta se ele fosse. Ele concordou. E dez minutos depois se ofendeu, porque de manhã ele tem esse delay mental, ele demora para entender tudo, inclusive quando foi manipulado).

Chegamos na academia. Um simpático instrutor que atendia por “Jão”, e que Siago Tomir jura de pés juntos que não tem cérebro, conversou conosco. Siago disse que não confiava em Jão e que achava que ele não tinha nem polegares opositores, então, sugeri que ele faça a MINHA série, uma série PARA UMA MENINA de um metro e meio e que tente o instrutor do dia seguinte para ver se lhe inspirava mais confiança.

Siago Tomir riu. Siago Tomir disse, e eu guardei muito bem estas palavras, que estava antevendo briga porque eu era muito competitiva e um novato pegaria mais peso do que eu. Sim, Siago Tomir merece que esta história seja contada por toda a eternidade para deixar de ser babaca arrogante.

No primeiro exercício, eu fiz as minhas repetições e quando ele sentou no aparelho, com o mesmo peso, ele disse “Sally, está quebrado”. Fiquei olhando. “Sally, está quebrado, não mexe”. Mandei ele fazer força e ele me deu uma patada ríspida dizendo “Gênia! Estou dizendo que está quebrado, estou fazendo força mas não mexe!”. Tirei Siago Tomir do aparelho, sentei e fiz mais repetições. Ele ficou olhando de boca aberta. Um marombeiro começou a rir no aparelho do lado. Isso mexeu com a honra de Siago Tomir.

“SAI DAÍ!” e ele me puxou para fora do aparelho. Para falar a verdade, ele me arremessou para fora do aparelho. Sentou com toda a determinação do mundo e começou a fazer força. Começou a ficar vermelho e a veia na sua testa começou a saltar. Tentei intervir dizendo que aquilo não era uma competição (mentira, eu estava competindo com ele, eu sou competitiva) e que ele estava ali atrás de saúde, mas ele me conhece bem e gritou “TÁ COMPETINDO SIM! TÁ COMPETINDO SIM!” e eu fiz a minha dancinha da vitória.

Ok, a dancinha da vitória (uma dancinha que faço sempre que ganho algo) foi um exagero. Siago Tomir ficou tão irritado, mas tão irritado que conseguiu concluir o movimento do aparelho. Só não conseguiu sair dele. Ficou lá uns dez minutos com taquicardia se recuperando. E a manhã toda foi assim. Siago Tomir se matando para acompanhar meu peso sem conseguir, fazendo uma movimentação toda errada, movimentos curtos e roubando descaradamente em vez de diminuir o peso.

Quando acabamos ele nem falava mais. E nem precisava, porque o olhar de ódio falava por si só. Começou a reclamar que estava enjoado e quando eu disse que era normal ele disse que EU não era normal (olha que injustiça…) e que eu era sádica, e que eu queria ver ele morto. Coisas assim. Por sorte o fôlego era pouco e ele não conseguiu se estender no discurso. Na saída, Jão deu um tapa nas costas dele (que quase o fez cair no chão) e disse “Te vejo amanhã”. Eu puxei Siago antes que ele solte um palavrão. Chegando no carro foi que eu vi como a coisa era grave, porque ele me deu as chaves com uma lágrima no canto dos olhos. Minha gente, para Siago Tomir me dar, voluntariamente, sóbrio, as chaves do carro dele, o fim do mundo estava chegando.

Fiquei muda, entrei no carro e olhei para ele. Vi que não havia condições dele dirigir. Ele se jogou no banco feito um saco de batatas. E ficava repetindo o quanto ele me odiava. Foi um momento de romance único em nosso relacionamento.

Chegando na casa dele, tomou um banho quente de umas três horas seguidas, e cada vez que me via deixava bem claro os sentimentos dele por mim (ódio e similares). Saiu do banho e dormiu, no meio da tarde, e só acordou no mesmo horário do dia seguinte, isso porque eu o cutuquei de longe com um canudo para ver se ele estava vivo (porque Siago Tomir bate se você tentar acordá-lo encostando nele, sim, ele é quase um animal selvagem). Quando ele acordou, eu perguntei se ele estava bem e ele continuou imóvel na cama, apenas disse “Não, não estou bem, Sally. Tudo dói” e eu poupei o trabalho dele “E você me odeia, certo?”. E ele: “Sim, Sally, no momento, eu te odeio”.

O engraçado foi quando ele levantou da cama. Já viram o desenho Bambi? Sabe aquela cena depois que o Bambi nasce, onde ele tenta aprender a andar? Esse era Siago Tomir tentando chegar até o banheiro. Fui rir na cozinha para ele não me odiar mais ainda.
Quando ele conseguiu se arrastar até a sala, começou a berrar que estava com fome. Comeu feito um boi e ainda culpou a atividade física por isso “Tá vendo? Tá vendo, Gênia? Malhar engorda! Eu como mais quando eu malho!”. Nem me dei ao trabalho de explicar, porque ele já emendou uma teoria completamente descabida daquelas que ele usa no Flertando com o Desastre, onde não há espaço para questionar, porque se você questiona você é burra e não entendeu os argumentos dele (impossível um ser humano entender e discordar, imagina…)

Passou esse dia todo entrevado. Mas pelo menos dormiu cedo. No dia seguinte, após 48hs de descanso, como manda o figurino, tentei convencê-lo a ir malhar novamente. Me chamou de sádica, maluca, doente mental e até de Hitler (e ainda debocha de quem me chama de RITLER nos comentários). Fez um escândalo e disse que nunca mais na vida dele pisaria em uma academia.

Nunca dá certo ser racional com gente enfurecida. Expliquei para ele que não precisava ser assim, bastava ele respeitar os limites DELE e pegar um peso que fosse tolerável para ELE, pois respeitando o próprio corpo as conseqüências não são tão ruins. Ele me respondeu “E pegar menos que a minha mulher? NEM PENSAR!”. Tem ou não tem que se foder na vida? Porra, tem TANTA coisa que ele faz melhor do que eu… tanta, mas TANTA que não caberiam nessas quatro páginas. E eu nunca tentei me igualar a ele naquilo em que ele é bom. Ele teve a cara de pau de competir comigo em uma das poucas coisas na vida que eu sou bem treinada para fazer!

Começou uma longa discussão sobre quem era mais débil mental que quem. Ele começou a dizer que eu era maluca por ter prazer em sentir dor. Por mais que eu explique que meu pós-treino não é o mesmo que o dele, porque eu treino fazem dez anos, ele não queria entender. Como eu disse, gente enfurecida não responde bem a racionalidade.
Disse que ele estava certo (um dos grandes segredos para um relacionamento dar certo é se desculpar e dar a razão ao outro, mesmo sabendo que ele não tem razão porra nenhuma) e que podíamos aproveitar para passar o dia em casa, fazendo algumas coisas que precisavam ser feitas. Ele topou feliz, todo pavão, porque afinal, eu me desculpei e dei razão a ele.

Assim, bolei pequenas tarefas domésticas nas quais ele tinha que me ajudar com sua força de macho provedor (como guardar caixas no alto do armário ou empurrar ou levantar móveis) que correspondiam aos mesmos exercícios que ele estaria fazendo em cada aparelho. Malhou todos os grupamentos musculares que eu queria, sem saber que estava malhado. Fiz ele fazer o número de séries e repetições que ele queria, com um peso que eu achei adequado para ele, na forma de tarefas domésticas. Não malhou é o caralho, SIAGO TOMIR, naquele dia você malhou sim, só que foi é muito do BURRO de não perceber. Nisso que dá gente que se embriaga com a vitória de uma discussão. Tolinho.

Bom, agora vamos saber DE VERDADE se Siago Tomir está MESMO sem internet, porque até hoje ele não sabia desse meu pequeno Easter Egg e achava que realmente estava me ajudando a organizar a casa. Se eu receber um telefonema me xingando em breve, saberei que ele estava é com PREGUIÇA de escrever, isso sim. E acreditem em mim, se ele ler isso, ele é incapaz de se controlar para sustentar a mentira do “sem internet”.

Para me perguntar se depois dessa vamos ficar brigando como daquela vez que ficamos uma semana falando nisso, para me perguntar como fazer seu marido flácido e preguiçoso malhar sem que ele perceba que está malhando e para dizer que chega, está enjoando de Siago Tomir: sally@desfavor.com

Passa de meia noite e Madame não responde às minhas tentativas de contato. Minha parte do Desfavor da Semana foi devidamente enviada e nada acontece. O que isso significa? SIAAAAAGO TOMIIIIIR!
Lembrando sempre que Siago Tomir é um ex namorado meu, nascido e residente na Suíça. (cof! cof!)

Hoje vou contar uma história que deu início a uma lenda boba, mas que diverte a gente de montão.
Siago Tomir é um ser humano desligado. Ele é desatento por natureza. Eu não ligo (a menos quando ele provoca um incêndio, daí eu solto um monte de palavrões – e já aconteceu três vezes). Mas, normalmente, as pessoas se importam muito com isso. A ira que isso desperta ficou clara em um episódio memorável ocorrido durante uma visita de Siago Tomir à minha cidade. Vale a pena narrar este episódio. E se ele disser que não foi bem assim, não acreditem, ele estava bêbado.

Siago Tomir é, na maior parte do tempo, uma pessoa amável e tranqüila. Mas ele tem uns rompantes raros e quando eles acontecem, o melhor a se fazer é deixar Siago Tomir quieto. Pois bem, nesta visita, não sei porque, Siago Tomir estava em um desses seus rompantes de TPM. Nós já tínhamos um jantar na casa de um casal de amigos meus agendado. Eu sugeri desmarcar, mas Siago Tomir se negou. Insistir com ele nessas condições é problema na certa, então, fomos ao jantar.

O casal anfitrião é formado por um grande amigo meu e sua noiva, que acabou virando amiga por afinidade. Também foram convidados para o jantar a prima da noiva e seu namorado, pessoas que eu conhecia de vista. O jantar transcorria bem, até que o assunto religião surgiu e Siago Tomir expressou sua opinião impopular, que desagradou profundamente meu amigo. Climão. Mas isso era só uma gota de água perto do oceano de vexames daquela noite.
Após o jantar, estávamos conversando sobre uma amiga nossa que estava tentando tirar o Green Card para morar nos EUA. Assunto vai, assunto vem, a conversa foi parar naquelas pessoas que casam para conseguir o visto. A noiva do meu amigo comentou que é muito fácil de fazer isso e enganar o Governo e eu disse que nem tanto, porque ele fazem testes e perguntas aos casais que muito casal casado não saberia responder. Começou um semi-bate-boca sobre ser fácil ou difícil responder às perguntas do teste feito para liberação do Green Card, até que algum infeliz teve a idéia de baixar o teste na internet e submeter o grupo a aquelas perguntas. É preciso dizer que, a esta altura, todos (menos eu que não bebo) haviam tomado generosas doses de bebidas alcoólicas.
Cada um pegou uma folha de papel e as perguntas eram lidas em voz alta. Todos anotavam as respostas, que depois seriam comparadas. Eram perguntas muito pessoais e muito difíceis de responder. Algumas medem mais a memória da pessoa do que o conhecimento sobre a personalidade do seu parceiro. Na hora de colher as respostas, a baixaria começou.
Para começo de conversa, o anfitrião, meu grande amigo, foi para a cozinha pegar mais bebida (como se precisasse, tava todo mundo bêbado). Ato contínuo, a prima da noiva do anfitrião foi à cozinha também pegar água. Siago Tomir decidiu ir à cozinha também, pegar gelo. No que ele entra na cozinha, flagra o meu amigo se agarrando com a prima de sua noiva e volta pálido para a sala, fazendo gestos tentando me contar o que aconteceu. Claro que eu não entendi porra nenhuma (minto, achei que ele queria me dizer que minha calcinha estava aparecendo e passei a noite toda puxando a calça para cima, achando que estava pagando cofrinho). Nesse clima de harmonia começou a leitura dos resultados.
Antes de partir para a apuração, quero fazer uma breve exposição. Eu nunca medi o que um homem sente por mim com cobrança de datas ou de informações a meu respeito. Eu não demando que ele perceba quando eu cortei o cabelo ou qual é a nossa música. Então, quando você não cobra esse tipo de coisa, seu homem não fica adestrado a fazê-lo (sim, ele só fazem quando precisa, para evitar DR). Por isso, e pelo fato de ser desatento, Siago Tomir não sabia e não sabe porra nenhuma a respeito de alguns gostos e preferências minhas, o que não quer dizer que ele não gostasse de mim.
Enfim, Siago Tomir foi errando as respostas sucessivamente. Errando perguntas fáceis como “qual é o seriado de TV favorito dela e a que horas passa?” ou “que tipo de comida ela gosta e que tipo ela não gosta?”. As mulheres me olhavam com cara de pena e os homens comemoravam mentalmente porque afinal, não seriam eles a sair dali com o título de Pior Namorado da Noite. Eu nem ligava. Mas Siago Tomir começou a se irritar com os comentários, e como já estava de TPM e tinha bebido, começou a devolver. Quando Siago Tomir teve que responder de qual animal eu tinha mais medo e errou, meu amigo disse “Vocês namoram mesmo?” e riu.
Siago Tomir não engoliu. Em uma pergunta sobre qual era a obra de arte preferida da pessoa (imagina, Siago Tomir não sabe nem a dele, vai saber a minha?), antes do meu amigo responder, Siago Tomir berrou “Aposto que a dele é uma obra PRIMA!”. Ficou todo mundo olhando em silêncio. Eu achei que fosse coisa de bêbado, mas era algo muito mais profundo. Estava estabelecida a guerra fria.
Perguntados sobre a cor da roupa íntima de cada um, Siago Tomir berrou “Tá vendo! Tinha que ter feito sexo no carro! Ai eu saberia responder!” e ficou climão mais uma vez. Eu sei que ele não estava brincando, mas espero que as pessoas tenham levado na brincadeira. As perguntas continuaram. Quando Siago Tomir disse que meu sanduíche favortio era Big Mac, meu amigo gritou “PUTA QUE PARIU, ELA NEM GOSTA DE BIG MAC, ELA ACHA ENJOATIVO!”. Siago Tomir se aborreceu. A prima vadia perguntou mais uma vez em tom de brincadeira “Vocês tem certeza que vocês namoram MESMO?” e depois soltou um risinho A La Lindamar: hihihihi. Vi um dos olhos de Siago Tomir latejando.

Perguntando sobre qual seria a estação do ano favorita de cada um, Siago Tomir levantou (é sério, ele levantou) e berrou, apontando para o meu amigo: “A SUA EU SEI! A SUA EU SEI! É PRIMAAAAAAA… PRIMAAAAAA. (olhando para a prima vadia) PRIMAAAAAA VERA!”. Foi aí que eu percebi que estava acontecendo alguma coisa, porque a cara da prima vadia de desespero eu conheço muito bem.
Puxei Siago Tomir para um canto a pretexto de pegar mais bebida e ele me explicou o que viu na cozinha. Ele viu sem ser visto. Disse a ele que eu não me importava com nada daquilo que estavam falando, que não ligava para ele não saber porra nenhuma sobre mim e que não havia necessidade dele atacar as pessoas. Ele fez um longo discurso sobre como carioca é cheio de marra.
Voltamos para continuar as perguntas e respostas. A hostilidade estava no ar. Siago Tomir sorria debochadamente. Siago Tomir continuou errando tudo: meu filme favorito, minha cor favorita, o perfume que eu usava, etc. Quando ele errou a minha música favorita (e devo dizer que ele erra com classe, ele berra a resposta errada com uma certeza de fazer inveja) meu amigo falou “Caralho, eu te conheço melhor do que ele!”. Eu não vi grandes problemas nessa frase, não sei se foi porque eu estava sóbria ou porque eu sou mulher, mas aquilo causou um grande transtorno na mente de Siago Tomir. Eu vi que ele estava prestes a explodir então fiz uma brincadeira para aliviar a tensão: “É, Fulano, na verdade a gente não namora não, ele está fingindo ter uma relação comigo para conseguir um Green Card para entrar na Argentina”. Risos. O foco da conversa foi para denegrir os argentinos. Alívio temporário.
A merda explodiu quando Siago Tomir errou meu signo e o namorado da prima vadia também se sentiu no direito de sacanear: “O que é isso, Fera? Até eu sei o signo dela! É só olhar que a gente vê que é de leão! Hahaha”. Siago Tomir, cheio de álcool na mente, respondeu “E o seu é TOURO, né?”. Climão Master.

Nisso eu fazia sinais para meu amigo, mandando ele calar a boca com medo de Siago Tomir dedurar ele. Meu amigo não entendeu que eu estava querendo salvar o pescoço dele e achou que eu estava dando uma de mamãe, querendo proteger Siago Tomir e se achou no direito de gritar “Siago, tua mulé ta brigando comigo, não pode mais mexer com você não!” e Siago respondeu “Comigo pode, o que não pode é MEXER COM A MU-LHER DOS OUTROS, NÉ? OU PODE?”. Climão Master Plus.
Eu tinha que tirar Siago Tomir de lá. A situação estava ficando insustentável. Eu queria alertar o meu amigo, mas estava com medo de deixar Siago Tomir sozinho na sala e dele falar merda. Então, peguei meu celular, fiz parecer que lia uma mensagem recebida quando na verdade mandava um torpedo para meu amigo: “CALA A BOCA, ele te viu beijando a Fulana”. O celular dele apitou acusando o recebimento de uma mensagem e a noiva dele disse “Amor, chegou uma mensagem para você!” e pegou o celular para olhar. Siago Tomir, que viu o que eu estava fazendo, começou a rir e imitar o Silvio Santos dizendo “OEEEEEEE! MAH OEEEEEEEE! AH AH EEEEEE” e rir (sim, ele faz uma imitação péssima do Silvio Santos, principalmente quando bebe). Me joguei em cima da noiva do meu amigo, tomei o telefone da mão dela ao som de mais “OEEEEEEE! VEM PRA CÁ! OEEEEEEEE!” e disse “Desculpa, é minha para ele, é particular”. O namorado da prima vadia olhou para Somir e disse “Cuidado, hein Merrrrmão… tua mulé mandando mensagem secreta pro Fulano, sei não…” e Siago Tomir respondeu “Minha MU-LHER não teria um caso com Fulano, e a sua? Teria? Teria?” olhando para a prima vadia.
Enquanto isso, meu amigo lia a mensagem e sua noiva me olhava com cara de fúria. Falei no ouvido dela “só pedi para ele parar de sacanear meu namorado, estou com pena dele, entende? ele é paulista, sabe como é…” e ela pareceu mais calma. Meu amigo estava branco, suando frio. O namorado da prima vadia estava encarando Siago Tomir, prestes a partir para a porrada. Foi quando a prima vadia vomitou, o que impediu uma desgraça.
Claro que o efeito colateral “vômito solidário” se fez presente. Ela vomitou do meu lado, e eu, por conseqüência, vomitei junto. Era o motivo que eu precisava para ir embora dali. Sabe, existem pessoas que vomitam certo e pessoas que vomitam errado. Eu sou uma pessoa que vomita errado. Vomitar certo = na privada, na pia, no chão, na janela do carro. Vomitar errado = na própria cama, nas próprias roupas, no próprio cabelo, etc. Lá estava eu, toda “vomitada em mim mesma”, com cara de sofrimento, quase chorando, quando Siago Tomir se aproximou.
“Quero ir embora” eu disse em voz baixa. “Eu sei, eu sei, você vai ter um colapso estético” ele respondeu. “Isso mesmo, um colapso estético, me leva daqui” eu respondi quase chorando. Saímos de fininho, dando um tchauzinho de longe para os presentes, comigo resmungando “você nunca mais vai conseguir me beijar depois de me ver vomitar!” e ele respondendo “relaxa, você já me viu mijando na pia”. Sim, eramos um casal estranho.
Para me dizer que Somir me conhece mais do que eu imagino, para me dizer que medo de não ser beijada por causa de um vômito é contraditório para quem alardeia que vai beber água do vaso sanitário e para me dizer que sem o Somir a formatação fica uma merda: sally@desfavor.com