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	<title>Des Aprenda &#8211; desfavor</title>
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		<title>Raiva!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 16:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva. Antes de entrar no [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva.<span id="more-34160"></span></p>
<p>Antes de entrar no tema em si, uma introdução para ajudar na compreensão. Vamos trabalhar com simplificações grosseiras e até tecnicamente imprecisas, para fins didáticos, pois é mais importante que todos entendam os conceitos, mesmo que para isso algo da parte técnica tenha que ser sacrificado: qual é a diferença entre emoções e sentimentos?</p>
<p>Emoções são reações instintivas, instantâneas, quase sempre incontroláveis, que aparecem de imediato em respostas a eventos, pensamentos ou estímulos do ambiente. Costumam ser universais, inerentes a todo ser humano e provocam mudanças fisiológicas, como alterações na frequência cardíaca, tensão muscular e expressões faciais.</p>
<p>As emoções estão ligadas à nossa sobrevivência e evolução como espécie. A seleção natural privilegiou quem tinha essas emoções na hora certa e na medida certa. Por exemplo, o home das cavernas que sentia medo quando via um predador se aproximando e se escondia, foi o que sobreviveu para passar seus genes adiante. São exemplos de emoções inveja, ansiedade, tristeza, alegria, tédio, medo, nojo e raiva.</p>
<p>Por exemplo, reencontrar um amigo querido gera alegria (não euforia, alegria). Vivenciar a perda de uma pessoa querida gera tristeza (não desespero, tristeza). Presenciar uma injustiça gera raiva (não ira, raiva).</p>
<p>No geral, não somos muito bons em controlar nossas emoções, pois, como já foi dito, é um mecanismo evolutivo que vem de fábrica. Mas podemos controlar o que fazemos com essas emoções. Vamos falar de sentimentos.</p>
<p>Sentimentos são o resultado da interpretação mental e consciente dessas emoções. É o que surge quando temos tempos de observar e racionalizar uma emoção sentida. São estados emocionais mais complexos e duradouros.</p>
<p>O cérebro processa e atribuí significado às emoções, transformando aquilo em um pensamento e em uma memória. Por exemplo, o sentimento de gratidão não é imediato, é um resultado da racionalização de que alguém fez algo bom por você, provavelmente despertando emoção de surpresa e alegria. É uma construção da sua cabeça: “quando eu precisei, a pessoa estava lá para me ajudar, então, agora eu sou grata a ela e a ajudarei quando ela precisar”.</p>
<p>Então, a diferença entre emoção e sentimento consiste basicamente na duração (emoção é mais rápida, sentimento é mais duradouro) e na complexidade (emoção é mais simples e sentimento é mais complexo). Provavelmente você vai encontrar outras formas de classificação por aí, e tá tudo certo, não se apegue a isso, e sim à ideia de que existem emoções rápidas, imediatas e instintivas e existe o que nós fazemos com essas emoções depois que são racionalizadas. Essa diferença é o importante.</p>
<p>Passada essa introdução, fica fácil entender que, dentro desse sistema de pensamento, raiva é uma emoção, não um sentimento. Algo que foi desenhado para ser rápido, instantâneo, automático&#8230; e depois ser elaborado em algo mais complexo, virando um sentimento, por exemplo, de decepção por ter confiado em quem te sacaneou, arrependimento por ter compartilhado uma informação que deveria ser mantida em sigilo e assim por diante.</p>
<p>Pois bem, eu acho que muita gente está tão descontrolada, polarizada e surtada, que está deslocando a raiva da emoção para o sentimento. Mais: quase todo sentimento negativo que têm, vem acompanhado pela raiva ou acaba sendo substituído ou ofuscado por ela.</p>
<p>“Mas Sally, qual é a sua fonte?”. Arial 12. É tudo da minha cabeça. Daqui para frente é absolutamente tudo da minha cabeça sem qualquer base científica e sem qualquer pretensão de estar certa. Me interessa mais o debate, a construção, o somatório de opiniões, do que ter razão.</p>
<p>Não me atrevo a dizer qual combinação de fatores causou isso (e devem ser muitos), mas provavelmente tem um componente intelectual e também um componente cultural, pois é cada vez mais comum ver as pessoas levando tudo para o pessoal (se você discorda delas, você é um inimigo) e acreditando que se não “retribuir”, se não “se vingar”, se não “der o troco” é otário.</p>
<p>Obviamente tem muito mais que contribuí para esse cenário, mas eu não saberia listar tudo. O que me interessa aqui é a consequência. Esses fatores geram o estranho fenômeno: a raiva, que deveria ser uma emoção instantânea diante de um evento negativo, continua sendo alimentada, cultivada e até ostentada com honra. “Veja como eu não sou otário, veja como eu não engulo esse desaforo, eu estou com raiva de você!”. Tudo vira raiva. Nunca entendi o motivo, mas um número considerável de pessoas parece achar mérito ser muito intenso em tudo e, talvez por isso, cultive a raiva.</p>
<p>Então, uma transmutação natural e saudável da emoção raiva para outro sentimento mais elaborado, não acontece ou fica incompleta. Vamos das um passeio por alguns sentimentos, para que vocês percebam como uma raiva que não deveria estar lá, está?</p>
<p>Ciúmes por exemplo. É possível que a pessoa sinta uma raiva imediata quando algo lhe dá um gatilho de ciúmes, mas, o natural, o civilizado, o esperado, é que a raiva passe e a pessoa elabore isso como ciúmes, que pode ser resolvido conversando, esclarecendo, estabelecendo alguns limites. Só que nem sempre é o que acontece. Muitas vezes ciúmes vira briga, gritaria, ameaça e muitas vezes até agressão física ou coisa pior.</p>
<p>Por algum motivo, a pessoa não deixa a raiva ir e transitar para outro sentimento mais complexo. Ou mantém o ciúme e a raiva, ou mantém apenas a raiva mesmo. Talvez alguém esteja pensando “mas ciúmes implica em sentir raiva!”. Não, não implica. O ciúme é definido como “medo de perder o afeto ou a exclusividade de uma pessoa”. Em momento algum se depreende raiva disso aí. Nem desse, nem de nenhum outro sentimento negativo. Mas, como a raiva está cada vez mais presente em tudo, acaba sendo naturalizada.</p>
<p>Mesmo a tristeza, um sentimento de grande porte e conhecido por todos, costuma estar acompanhado pela raiva: raiva de quem ou do que causou essa tristeza, raiva do entorno, raiva de pessoas apontadas como culpados pela situação que causou a tristeza, afinal, está virando mania sempre designar culpados para tudo.</p>
<p>Ponha a mão na consciência em responda quando foi a última vez que você viu ou que você mesmo sentiu tristeza pura, sem qualquer raiva. Está cada vez mais difícil de se ver. Geralmente a pessoa está triste, mas está com muita raiva também. A raiva permeia tudo.</p>
<p>O relacionamento terminou? A pessoa fica triste e com raiva (de quem terminou, de quem está com a pessoa que terminou, do entorno que pode ter contribuído para o término). A pessoa foi demitida? Ela fica triste, mas fica com raiva (de quem a demitiu, de pessoas a quem ela atribuiu essa demissão e até de entes inanimados como marcas e empresas). Quase sempre tem o fator raiva. E não deveria.</p>
<p>E a raiva nem precisa ser contra terceiros, pode ser consigo mesmo, se a pessoa chegar à conclusão de que ela é a “culpada” pelo sentimento negativo que está sentindo. Sentimentos como remorso, culpa, arrependimento, dúvida e até luto podem despertar raiva, seja pela pessoa não querer sentir aquilo, seja pela pessoa se achar culpada pelo evento que desencadeou os sentimentos</p>
<p>Obviamente a raiva contra si mesmo é igualmente fora de lugar e inaceitável. Não faz sentido que uma pessoa sinta raiva de si mesma por sentir algo. Sentimentos são construções complexas, se você acha que algum deles está te fazendo mal ou inadequado, pode trabalhar para desfazê-lo ou substituí-lo, mas&#8230; sentir raiva de si mesmo? Não façamos isso com nós mesmos.</p>
<p>Pense em sentimentos negativos, qualquer um deles: temor, sofrimento, revolta, preocupação, medo, mágoa, rancor, insatisfação, indignação, impaciência, hostilidade, frustração, estresse, desilusão, desgosto, desconforto, antipatia ou qualquer outro. Nenhum deles precisa vir com a raiva junto. Por sinal, o ideal é que não venha, raiva é um alarme imediato que desgasta o corpo e turva o discernimento, é um recurso de emergência que deve ser transitório.</p>
<p>Arrisco dizer que boa parte das pessoas hoje está tão imersa nesse mecanismo de embutir raiva em tudo que não vivenciam sentimentos negativos sem sentir raiva. Foram educados assim, foram educados vendo isso, então, na cabeça, são sentimentos siameses, que estão sempre onde o outro está. Esse é o “correto” na cabeça de muita gente, se é que em algum momento elas param para pensar nisso.</p>
<p>Isso atrofia. A pessoa resume tudo negativo a raiva (é bem mais fácil do que vivenciar uma enorme nuance de sentimentos complexos e ter ferramentas para lidar com todos eles). Com o tempo, a pessoa só sabe reconhecer a raiva, só sabe lidar com a raiva e só sabe ensinar a raiva como sentimento válido e adequado para aquela situação. Assim, a sociedade parece estar se transformando em uma massa de zumbis emocionais. Mais por hábito do que por escolha, a raiva é o acompanhamento que sempre vem junto, pois é assim que as coisas são.</p>
<p>Ou melhor&#8230; eram. Agora você leu este texto. Agora você sabe melhor. Agora a situação foi desemaranhada e apresentada de forma clara para você. Você pode refletir e, se quiser, colocar a raiva no setor que ela pertence: uma emoção imediata com prazo de validade curto, que se transforma em uma emoção mais complexa e menos desgastante quando racionalizada.</p>
<p>A raiva é para ser um sentimento imediatista, passageiro. Um momento de raiva. Ela vai apagando, como um fogo, quando não é alimentada. Mas, por algum motivo frequentemente as pessoas a alimentam. Por não quererem ser “otárias”? Por acharem que tem que ser assim para não serem sacaneadas novamente? Por costume? Não sei. Só sei que pegar um recurso rápido e fazer dele algo no longo prazo desgasta demais o corpo e a mente. Está fora de lugar. É tóxico. E não te ajuda nem te protege em nada, isso é uma mentira.</p>
<p>E, como sempre falamos aqui, só mantemos comportamentos custosos para nosso corpo e nossa mente quando ele nos traz um belo ganho secundário, ainda que seja inconsciente. Então, seria o caso de se perguntar que ganho secundário a raiva gera.</p>
<p>Talvez uma falsa sensação de proteção? De achar que ninguém vai fazer nada com a pessoa por ela estar visivelmente enraivecida? Ou um conforto para si mesmo, para se sentir menor idiota, no estilo “fizeram tal coisa comigo, mas eu não sou idiota, pois estou furioso”. Ou ainda usar a raiva como escudo para manter aquela ferida, aquela sensação ruim viva, como tentativa de não repetir o erro? Podem ser milhões de ganhos secundários, mas todos são contraproducentes. A raiva, no longo prazo, só faz mal.</p>
<p>E gera um “vício”. O vício na raiva é algo real. A pessoa se acostuma a acoplar a raiva em qualquer sentimento negativo e, quando não o faz, fica com a sensação de que não está dando importância a algo sério, que não está dando uma resposta ou reação à altura, que está sendo permissiva, que está sendo idiota, fraca, otária. Se você realmente se importa, então vai ficar muito puto e sentir raiva. Percebem a armadilha?</p>
<p>Nas últimas décadas, a raiva foi banalizada, cultivada e prolongada. E isso não é ruim apenas para o infeliz que fica sentindo raiva o tempo todo, jorrando cortisol no sangue, intoxicando seu corpo em majorando em 500% sua chance de ter câncer, para depois culpar as vacinas. Isso é ruim para a sociedade como um todo.</p>
<p>Primeiro pela dinâmica povo desunido, políticos unidos. A cultura da raiva faz mulher ter raiva de homem, homem ter raiva de mulher, esquerdista ter raiva de direitista, direitista ter raiva de esquerdista, rico ter raiva de pobre, pobre ter raiva de rico e muitos outros grupos, jogados uns contra os outros, brigando e achando que seu “inimigo” é o grande problema, quando, geralmente, não é. O grande problema costuma ser sistemas corruptos que sacaneiam o povo,  filhos da puta que detém poder (com ou sem cargo) que sacaneiam o povo e o povo distraído demais brigando com seu colega para fazer algo a respeito.</p>
<p>Também cria uma sociedade violenta, de desentendimentos, de conflitos na maior parte das relações: é filho espancando a mãe, é mãe matando filho, é casal se esfaqueando, é criança agredindo criança, é gente matando vizinho com martelada na cabeça&#8230; Esse é o resultado de uma sociedade que insere raiva como inerente a qualquer sentimento negativo. Vira essa barbárie, esse inferno e ainda ensina para suas crianças a reproduzirem isso.</p>
<p>E todos nós somos parte do problema, pois todos nós, em algum momento, acabamos fazendo isso sem perceber: inserir raiva onde ela não deveria estar.</p>
<p>Então, em vez de ser parte do problema, sejamos parte da solução: analisemos cada sentimento negativo e observemos se tem raiva nele. Se tiver, trabalhemos para tirar, pois ela está fora de lugar. Raiva é emoção, é para ser curta e te proteger de imediato, depois deve ser transmutada em algum sentimento mais maduro.</p>
<p>Hora da gente aprender o que significa cada sentimento negativo e se portar de acordo. Hora de deixar a raiva ir e sentir algo mais condizente com a vida adulta. Hora de se livrar dessa necessidade no vício de agregar raiva.</p>
<p>Te faço um convite: se observe. Se policie. Se eduque para não desembocar na raiva automaticamente.</p>
<p>Talvez você não mude o mundo, mas a sua vida com certeza vai melhorar.</p>
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		<title>Nova vida.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 16:02:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Tem uma frase de um personagem do seriado La Casa de Papel que ilustra muito bem o texto de hoje: “É possível ter várias vidas dentro de uma vida”. Isso significa que às vezes nossa vida muda tanto, que acaba se transformando em uma nova vida, completamente diferente da anterior. E ter a consciência disso [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem uma frase de um personagem do seriado La Casa de Papel que ilustra muito bem o texto de hoje: “É possível ter várias vidas dentro de uma vida”. Isso significa que às vezes nossa vida muda tanto, que acaba se transformando em uma nova vida, completamente diferente da anterior. E ter a consciência disso pode te ajudar muito.<span id="more-33545"></span></p>
<p>Pode ser uma doença, um divórcio, um casamento, o nascimento de um filho ou uma infinidade de coisas, fato é que em alguns momentos das nossas vidas, as coisas mudam tanto que ela se torna completamente diferente do que já foi um dia. Às vezes são fatores que escolhemos, como mudar de profissão, às vezes são fatores que acontecem e não podemos evitar, como a morte de alguém.</p>
<p>Não importa qual seja a causa, entender quando algo dá o start para uma nova vida e se portar de acordo pode te ajudar muito nesse processo. E agora que já colocamos um “nome” para isso, você vai ter mais facilidade em reconhecer quando acontecer.</p>
<p>É um esforço enorme para qualquer um começar uma nova vida, ainda que seja para melhor. Se você não tiver consciência disso e continuar agindo como se tudo estivesse dentro da mais perfeita normalidade, pode acabar exaurido, estressado ou até em depressão sem nem entender o motivo. Adaptação é uma das coisas que mais cansam nossos cérebros, então, vamos jogar a favor dele, não contra.</p>
<p>Então, a primeira grande regra é entender quando algo, por escolha sua ou não, está te levando para uma nova vida e ser gentil com você mesmo nesse processo, ajudando, em vez de atrapalhar o processo de adaptação. </p>
<p>Tudo que é novo consome muita energia do cérebro: aprender, se adaptar, transformar a novidade em uma rotina funcional. Por isso, ainda que seja uma nova vida melhor ainda que ela decorra de acontecimentos positivos, saiba que você deve respeitar esse período e se observar, fazendo os ajustes necessários para que a transição para a nova vida seja o mais suave possível.</p>
<p>Agora, mais do que nunca, é importante respeitar o tripé da saúde: sono, alimentação, atividade física. Faça cada um desses três o melhor que conseguir. O melhor sono possível dentro da sua realidade, a melhor alimentação possível dentro da sua realidade e a prática de atividade física possível dentro da sua realidade. Se essa base estiver firme, todo o resto será mais fácil. “Mas Sally não consigo fazer direito”. Faça o melhor possível dentro da sua realidade.</p>
<p>A primeira coisa que quero te dizer é que é normal ficar triste de alguma forma ou sentir uma perda, ainda que estejamos falando de uma mudança muito positiva na sua vida.</p>
<p>O exemplo clássico é um filho. Supomos que é o evento mais feliz da vida de uma mulher, mas é uma enorme adaptação. Sua vida anterior “morre” e começa uma vida nova, que provavelmente vai ser bem melhor, mas, ainda assim, a perda da vida anterior gera um luto. Não deixa de ser uma perda. E tá tudo bem sentir essa perda, ficar triste, ter algum tipo de luto. Isso não quer dizer não gostar da nova vida. Isso quer dizer que somos humanos.</p>
<p>Então, se permita vivenciar um luto, se ele vier. E não depreenda desse luto uma rejeição à nova vida. Uma coisa não se diz da outra. Uma perda é sempre uma perda, não importa quão maravilhosos sejam os ganhos. É ok ficar triste. O que não é ok é se afundar em tristeza, a ponto dela dificultar sua vida. Aí é hora de pedir ajuda. E é ok pedir ajuda. Pergunte-se: a tristeza está atrapalhando a minha vida? Esse é seu guia para buscar ajuda.</p>
<p>Para que algo novo entre, algo velho tem que sair. O que mais derruba as pessoas é a falta de previsão do que vai realmente acontecer. Por exemplo, se você tem um filho e acha que sua vida vai ficar exatamente como está só que com um filho de plus, suas expectativas estão erradas. Muita coisa vai mudar para que essa adaptação à nova vida funcione.</p>
<p>Entenda que nós, humanos, somos seres com recursos limitados. Algo como The Sims da vida real: se você que turbinar um aspecto da sua vida, essa energia tem que sair de outro. Se impor atividades novas apenas como um acréscimo é uma violência contra você mesmo. Pense em um armário cheio: para que uma roupa nova possa entrar, é preciso jogar fora uma roupa antiga. Assim é com a disponibilidade emocional: para que algo novo possa entrar, é preciso retirar essa energia de outros setores.</p>
<p>Um exemplo bobo, mas que ganhou fama é o das roupas. Você vai ver muito CEO bem-sucedido (Mark Zuckerberg, Elon Musk e outros) sempre com a mesma roupa. Essas pessoas fizeram essa escolha de sacrificar a diversidade nas roupas para poupar energia: o tempo e energia gastos com escolha de roupa é canalizado para outras atividades.</p>
<p>Não estou dizendo que você tenha que usar sempre as mesmas roupas, estou explicando o mecanismo: quando estamos construindo uma nova vida, gastamos mais tempo e energia nisso, portanto, o ideal é conseguir poupar tempo e energia de outros setores da nossa vida. Onde você vai poupar tempo e energia é com você, mas é preciso fazer esse ajuste. </p>
<p>Achar que dá para fazer algo grandioso como construir uma nova vida sem abrir mão de nada é uma utopia. Você pode até conseguir, mas vai pagar com a alma e com a sua saúde física e mental. E não vai ficar tão bem-feito como poderia se você tivesse feito uma gestão adequada de tempo, disponibilidade emocional e energia. </p>
<p>Então, está começando uma nova fase? Uma nova vida? Pensa aí no que pode ser otimizado para ter mais tempo e energia até se adaptar a essa nova vida. O que você vai gastar construindo essa nova fase precisa ser tirado de algum lugar. Provavelmente de vários, provavelmente você vai precisar racionar em vários setores.</p>
<p>Você pode comprar quentinhas em vez de cozinhar. Você pode delegar algumas tarefas suas para outras pessoas (de forma remunerada ou não). Você pode apenas cortar tarefas que não são tão importantes (como o escolher a roupa diariamente). Você pode botar no papel uma estimativa realista de gestão de tempo de tudo que faz para ter uma visão clara do que toma seu tempo na atualidade e decidir de onde que tirar para colocar tempo no esforço de construção e adaptação para essa nova vida.</p>
<p>Eu também recomendo colocar no papel exatamente quais tarefas você deve investir para realizar essa transição para esse novo momento de vida. Por exemplo, se você vai mudar de país, seria indicado que, ao menos uma hora por dia, você estuda o idioma do novo país, sua cultura, suas leis. Se você vai ter um filho, que faça o mesmo com o universo infantil: aprender sobre, tornar sua casa segura para um bebê, estimar o tempo que a maternidade/paternidade vai te consumir e pensar de onde você vai cortar esse tempo e essa energia, de modo a que sobre para essa nova vida.</p>
<p>Planejamento é bom. Botar no papel ajuda a entender o quanto de tempo, energia e disponibilidade emocional você tem e como vai distribuí-los durante o dia. Quando a gente faz esse cálculo de cabeça, tende a errar, sempre superestimando o que somos capazes. Na nossa cabeça, sempre dá. Na prática, costuma ficar muito pesado.</p>
<p>Além disso, na nossa cabeça o tempo é relativo. Coisas que a gente gosta passam voando, coisas que a gente não gosta, parecem uma eternidade. Se a gente pegar o somatório de tempo que uma pessoa gasta em redes sociais por dia (Whatsapp incluído), descobre que quase ninguém que está começando uma nova vida pode se dar ao luxo de consumir frequentemente redes sociais por lazer. </p>
<p>Muitas pessoas acham que o único limite do corpo é a energia, ou seja, o quanto você consegue ficar acordado e funcional. Mas os limites mais importantes são sua capacidade de concentração, sua disponibilidade emocional e sua capacidade de aprendizado. Não adianta ficar acordado se esses três já não estão funcionando direito. O que nos leva à próxima dica.</p>
<p>Guarde as horas do dia nas quais você está na sua melhor forma para as tarefas que envolvem a vida nova. Geralmente é pela manhã, não necessariamente pela manhã cedo, mas pela manhã, quando estamos fresquinhos, não cansamos nossa mente nem nosso corpo com tudo que um dia demanda. Mas, se for em outra hora, reserve essa outra hora para isso. Assim como programas de TV tinham horário nobre, seu corpo também tem. Reserve o que é realmente importante para o horário nobre.</p>
<p>Converse com as pessoas próximas a você e exponha o quadro: você está entrando em uma nova vida, precisa se preparar para isso e esse preparo não é fácil. Peça ajuda, no sentido das pessoas te pouparem de tudo aquilo que possam te poupar, que entendam uma menor disponibilidade sua, que colaborem com esse projeto. Quem realmente gostar de você, vai colaborar. As pessoas não têm bola de cristal ou sequer conseguem elaborar tudo isso que estamos falando, é importante que escutem da sua boca esse pedido de ajuda.</p>
<p>Depois, escolha suas batalhas. Brigar, argumentar, antagonizar e similares são um dreno de energia física e emocional. Tente se poupar disso até estar adaptado à sua nova vida. Pode ser em redes sociais, pode ser com a caixa do supermercado que falou um desaforo, pode ser nos mais diferentes contextos: não compre nenhuma briga que não seja absolutamente fundamental.</p>
<p>Crie mecanismo para evitar distrações, interrupções ou qualquer estímulo que sabote essa adaptação. Acredite, quando você mais precisa de concentração, silêncio e consideração é quando mais imprevistos vão acontecer. Se puder, tenha uma pessoa perto de você que funcione como filtro, que filtre as demandas e só leve até você as que forem realmente urgentes.</p>
<p>Aprenda a olhar para você e entender depois de quanto tempo do seu dia você está exausto e sem render bem, para saber quanto dura sua “bateria cognitiva”. Observe o que você fez naquele dia que pode ser cortado, substituído ou delegado para que sua bateria dure mais. Aprenda a encaixar suas demandas dentro do período de vida da sua bateria cognitiva.</p>
<p>E, muito importante: não pegue nenhum projeto novo nessa fase, se puder evitá-lo. Não me refiro apenas de trabalho, nenhum projeto mesmo: começar dieta, abri um perfil em uma rede social nova, arrumar o armário&#8230; Toda sua disponibilidade emocional tem que ir para a transição para a nova vida. Muitas vezes nos sabotamos pegando várias coisas novas ao mesmo tempo, o que nos leva a não conseguir terminá-las.</p>
<p>Se puder, converse com pessoas que já passaram por essa mudança de vida que você está passando. Isso vai te dar uma visão mais realista do tempo e do esforço que ela vai demandar. É difícil calcular algo que nunca vivenciamos. E, se você for ruim no cálculo, se você for daquelas pessoas que sempre atrasa prazos, que sempre acha que dá e nunca dá, dobre todos os tempos estimados: se acha que uma tarefa vai durar uma hora, compute como duas.</p>
<p>E nada disso é um processo fechado, um cronograma estático. São mecanismos, ferramentas, que você vai aprender a adaptar. Está chegando ao final do dia exausto a ponto e não render bem no dia seguinte? Hora de cortar mais coisas. Dormiu mal, está sem disposição naquele dia? Hora de rever as prioridades. Aprenda a acomodar sua vida para um modo de redirecionamento de recursos (tempo, energia e disponibilidade emocional) flutuante, que mantenha o projeto sempre em andamento.</p>
<p>Tem uma infinidade de setores na vida de cada pessoa que podem precisar de ajustes: socialização, bebida, cursos paralelos, viagens, hobbies e muito mais. Só a pessoa envolvida nessa transição de vidas vai poder avaliar o que precisa ser ajustado e onde. O único cuidado que eu recomendo é tomar uma decisão adulta e racional: em vez de priorizar o que você gosta, priorize o que é realmente importante.</p>
<p>Provavelmente, neste ponto do texto, já tem alguém apavorado com o que está lendo. Percebam que isso não é um projeto de vida, não é assim que você vai viver para sempre. É um plano de poucos meses, até que você esteja adaptado à sua nova vida. Uma vez adaptado, o cérebro executa essa nova rotina no modo automático e ela deixa de ser um gasto enorme de energia, sobrando energia para todas as outras coisas que você quer fazer.</p>
<p>Assim como dedicamos uma hora do nosso dia à fisioterapia quando nos machucamos e deixamos de fazer diversas atividades por estar machucados e ter a necessidade de descanso, temos que fazer o mesmo com o cérebro, quando ele é excessivamente exigido. Tem que tirar de algum lugar para por na nova rotina. Mas passa. E normalmente passa rápido. Em média, a gente costuma se adaptar a quase tudo em três meses.</p>
<p>Você vai saber que está adaptado à nova vida quando as coisas começarem a fluir sem esforço, quando o que antes demorava mais tempo e consumia mais energia puder ser feito com mais facilidade. Só que não é algo de uma hora para a outra. </p>
<p>Por isso, à medida que as coisas forem retornando à normalidade, à medida que seu cérebro conseguir automatizar os novos processos sem gastar tanta energia com eles, você pode voltar a reintroduzir aquilo que cortou. Mas de forma gradual.</p>
<p>Tá tranquilo na nova rotina? Insere uma coisa nova. Espera umas duas semanas. Continua tranquilo? Insere outra. Você está construindo uma estrutura nova, cuidado para não botar peso demais, se não ela pode colapsar.</p>
<p>Parece fácil em tese, certo? Então por qual motivo é tão difícil de executar? Provavelmente porque somos ruins em admitir limites, em abrir mão de coisas e com perdas no geral. Perdas imediatas, ainda que impliquem em um bom ganho no longo prazo, não são o ponto forte do ser humano. </p>
<p>Então, suas chances de perseverar são maiores se você sempre relembrar da meta final: você está se adaptando a uma nova vida e todas as restrições serão temporárias e serão para o bem, para que você entre nessa nova vida o mais preparado possível.</p>
<p>Para fechar, vale lembrar que não é vergonha nem fraqueza precisar de ajuda para entrar em uma nova vida. Conversar com um profissional, eventualmente usar algum remédio que te ajude nessa transição (com prescrição médica, claro), obter informações técnicas com pessoas que tem mais experiência, etc. Não é fácil mudar de vida dentro de uma mesma vida. Não é fácil para ninguém, nem mesmo para quem faz parecer ser fácil. É normal que não seja fácil. É esperado que não seja fácil. É totalmente aceitável receber ajuda.</p>
<p>Acreditem, toda pessoa vive várias vidas dentro de uma vida. É inevitável. Então, salvem este texto, pois se hoje ele parece algo distante, um dia ele pode ser muito útil.</p>
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		<title>Seu sustento.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Jun 2025 15:35:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Vejo muita gente romantizando as diferentes formas de trabalho, repetindo bordões que hoje não são mais verdade e tomando muitas decisões erradas por conta disso, então, como pessoa que teve experiência e trabalhou em várias dessas modalidades, queria desmistificar algumas bobagens que se repetem por aí. A intenção é que todos possam tomar decisões mais [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vejo muita gente romantizando as diferentes formas de trabalho, repetindo bordões que hoje não são mais verdade e tomando muitas decisões erradas por conta disso, então, como pessoa que teve experiência e trabalhou em várias dessas modalidades, queria desmistificar algumas bobagens que se repetem por aí. A intenção é que todos possam tomar decisões mais bem informadas sobre o que será menos sofrido para conseguir seu sustento.<span id="more-29889"></span></p>
<p>Vamos começar com o queridinho do Brasil: concurso público. O que a gente mais escuta é pessoa querendo fazer concurso público por causa da remuneração. Concursos grandes, como por exemplo, para juiz, pagam bem, mas, se você teve capacidade, competência e estudo para chegar lá (é bem difícil), provavelmente você ganharia mais na iniciativa privada, pois seria uma pessoa com muito empenho e muitas horas gastas na sua profissão. O grosso do dinheiro está na iniciativa privada.</p>
<p>Olha, tem que ter estômago para ver todo mês o Estado tomar um quarto do seu salário no contracheque e não se perguntar como seria se você não fosse obrigado a pagar. Tem que ter estômago para ver que seu salário chegou no teto e por isso você não pode ganhar mais ou crescer além disso, enquanto colegas da iniciativa privada ganham o dobro e estão constantemente aumentando seus rendimentos. Tem que ter estômago para ser impedido de trabalhar na iniciativa privada se quiser complementar a renda. São coisas que as pessoas geralmente só descobrem depois que passam.</p>
<p>Também se almeja estabilidade em concurso público, o que de fato é uma garantia constitucional. Sempre acontece? Sinto informar que não. A maior parte dos ambientes é enxarcado de politicagem, jogos de poder e baixaria. Se você não for uma pessoa que sabe compor com o poder estabelecido, com os interesses de cima, pode acabar exonerado sim, e injustamente. Principalmente se, por seu temperamento, você bater de frente. Eu mesma fui ameaçada de exoneração mais de uma vez por não querer compactuar com certas coisas que aconteciam.</p>
<p>Então, se você for flexível, bom de convivência e estiver disposto a fazer vista grossa para coisas erradas, você não vai ter nenhum problema e terá sua estabilidade garantida. Porém, se essa não é a sua índole, você pode sim levar um puxão de tapete e perder seu cargo. Sempre vai ter quem testemunhe contra você e, quando a máquina está contra você, não adianta ter razão.</p>
<p>Temos ainda o mito de almejar concurso público para “ter autonomia”, por não querer ter um patrão. É parcialmente verdade, pelos mesmos motivos do parágrafo anterior. Por mais alto que seja seu cargo, sempre vai ter algum direcionamento vindo de cima que terá que ser observado, em maior ou menor grau. Sempre tem um telefonema que te tira totalmente a autonomia, te obrigando a agir como ordenado. Nenhum concursado tem total autonomia, se você está esperando por isso, pode esquecer.</p>
<p>Por fim, o último mito do concurso público é o de que é garantido que você vai trabalhar pouco. Geralmente, qualquer novato, até mesmo concursado, tem que ralar muito para conseguir algum respeito e privilégios. Não é incomum que concursados trabalhem muito e que inclusive comecem trabalhando nos piores lugares possíveis, seja em localização geográfica, seja em material humano.</p>
<p>E mesmo trabalhando muito, todo mundo vai te ver como um acomodado que mama nas tetas do governo. Dificilmente você trabalhe tão pouco como todas as pessoas vão presumir que você trabalha. Vai ter muita responsabilidade e pouco reconhecimento. Talvez concurso sirva para dar algumas carteiradas, mas a opinião pública costuma ser bem negativa para com aqueles que trilharem esse caminho. Funcionário público é sempre visto com desdém, isso quando não é visto como inimigo, como o burocrata que está ali para ferrar com a vida das pessoas. Só concursando admira concursado.</p>
<p>Falemos agora sobre os mitos de ser empregado, ou, como tem se dito pejorativamente, ser “CLT”. Ainda tem quem ache que essa modalidade vale à pena, pois o empregado não sofre com os riscos do negócio, se for mal, se der errado, a coisa estoura nas mãos do patrão. Não é bem assim. Se der errado o patrão se ferra sim, mas você se ferra junto, pois acaba demitido ou sem trabalho pela falência da empresa. E provavelmente não vai nem receber suas verbas trabalhistas. Então, a pessoa se ferra e sem poder decisório para evitar que o desgraçamento aconteça. É como assistir um acidente de carro em câmera lenta.</p>
<p>Tem quem se sinta atraído por não ter que tomar decisões importantes, o patrão apenas diz o que fazer e a pessoa obedece, vivendo assim uma vida de menos pressão e responsabilidades. Em tese seria bom, na prática, no Brasil, é desesperador. A maior parte dos empregadores não tem qualificação para o cargo que ocupa e faz seus funcionários trabalharem de forma descoordenada, contraproducente e até beirando a escravidão. É uma sequência de péssimas decisões, perda de tempo e de dinheiro.</p>
<p>Não ter poder de decisão quando quem te comanda é um a) idiota; b) ultrapassado; c) filho da puta ; d) burro ou e) todas as hipóteses anteriores não é um conforto, é apenas um desespero. Receber ordens de quem não é capaz de te dizer o melhor a fazer é desesperador. Ser guiado a caminhos errados, que te fazem trabalhar o dobro para ter metade da produtividade é angustiante. Então, a menos que você tire a sorte grande e tenha um gestor extremamente capaz, competente e correto, não é um alívio, é péssimo não ter poder decisório.</p>
<p>Também vejo gente dizer que ganha-se mais dinheiro na iniciativa privada do que nas outras modalidades. É possível, acredito que seja o caminho onde estão as mais altas remunerações do mercado. Mas 1% das pessoas conseguem isso, e geralmente tem que sacanear muita gente. Como regra, a maioria trabalha muito e com uma remuneração inferior a aquilo que merecia. </p>
<p>E, mesmo que você chegue lá, mesmo que consiga subir sem fazer nada errado, mesmo que você seja os 1% que ganham extraordinariamente bem, saiba que você não vai ter vida nem tempo para gastar esse dinheiro, pois iniciativa privada também é o caminho que mais se trabalha e que mais consome tempo e disponibilidade da sua vida. Por mais que você trabalhe muito em qualquer outra área, você não sabe o que é se matar de trabalhar enquanto não trabalhar para uma multinacional.</p>
<p>Outro equívoco que vejo é gente falando que quer ter férias remuneradas e direitos trabalhistas, como se fosse algo muito tranquilo. Nem sempre é. A maior parte das pessoas que tiram férias ou licença maternidade na iniciativa privada o faz com o cu na mão de que a pessoa que a está substituindo pegue seu lugar de forma definitiva, seja por trabalhar melhor, seja por aceitar trabalhar pela metade do seu salário. É quase sempre um risco de perder o emprego. E muitas vezes você leva uma pernada e nem recebe como deveria seus direitos trabalhistas.</p>
<p>Mais um equívoco comum: achar que na iniciativa privada se sobe por meritocracia, que se você for bom, vai subir. Tomara, mas nem sempre. Você tem que estar preparado para ver gente menos qualificada do que você subir por ser puxa-saco, por ter sobrenome com pedigree, por fazer sexo com o chefe e por outros motivos ainda menos nobres. Achar que esse é o melhor caminho para ser reconhecido é pedir para se frustrar.</p>
<p>Vamos agora ao universo dos autônomos, que parece algo muito tranquilo, se visto de longe. A maior vantagem alardeada é “não ter patrão”, como se isso fosse sinônimo de fazer o que quer quando quer. Meus amigos, cliente é mais patrão do que qualquer patrão, com a diferença que é leigo, então, consegue dar ordens ainda mais bostas. E se você não cumprir, não recebe. Simples assim.</p>
<p>Você não vai fazer o que você quer quando você quer, muito pelo contrário, pois o cliente tem sempre razão. E ele vai se meter no que não sabe e te dizer quando e como fazer. Eventualmente você pode ter um cliente sensato que entenda que é melhor deixar decisões importantes a cargo do profissional que estudou o assunto, mas, acreditem, esse tipo de cliente é uma exceção.</p>
<p>Para que você alcance um patamar no qual pode mandar cliente passear ou pode dizer na cara dele que não vai fazer do jeito dele, demorarão décadas, isso se você conseguir. Além disso, mesmo que o cliente aceite, ele vai te encher o saco demais por não fazer o que ele quer.</p>
<p>Outro mito que envolve quem trabalha como autônomo é você fazer sua carga horária, sua quantidade de trabalho, sua agenda. Pode acontecer se você for uma referência na sua área, mas, nos primeiros dez anos (pelo menos) você não vai ter muita pouca autonomia no que diz respeito a quanto e quando trabalhar. Você vai ter que pegar o que aparecer e dar graças a Deus se aparece, pois certamente lá na esquina tem mais três dispostos a fazer o que você faz, com a mesma qualidade e pela metade do preço. E geralmente aparece gente com pressa, com pedidos em cima da hora e com alterações urgentes no seu trabalho.</p>
<p>Tem ainda uma ilusão de que o autônomo pode tirar férias à vontade, viajar quando quer e tirar dias de folga quando quer. Em tese, sim. Na prática, é bem mais difícil, pois se você não trabalha, você não recebe. Então, tem que ter um bom pé de meia para ter dinheiro guardado para algum imprevisto (spoiler: eles sempre acontecem) e ainda sobrar dinheiro para pagar todas as contas da casa sem receber nada naquele mês e também pagar uma viagem. Não é tão fácil quanto parece.</p>
<p>Por fim, o último grande mito do autônomo é que ele vai poder trabalhar sozinho, sem colega de trabalho para encher o saco. Quase nunca é assim. Dificilmente alguém sozinho consegue dar conta de tudo, ao menos no começo. Geralmente precisa dividir o espaço com outros (é muito caro bancar sozinho), fracionar o trabalho com outros profissionais (é muito difícil no começo saber fazer tudo sozinho) ou fazer qualquer tipo de combinação que envolva outras pessoas para conseguir mais clientes e/ou reduzir os custos. Demora para um autônomo se dar ao luxo de não ter que conviver com mais ninguém &#8211; e nem todos chegam lá.</p>
<p>Vamos agora para a escolha pelo empreendedorismo. A pessoa que montar seu próprio negócio. Seja uma clínica, uma franquia ou uma barraquinha de churros, não importa, ela quer empreender. É uma iniciativa muito bem-vista atualmente, mas muito romantizada também: parece que só depende da sua aptidão, quando não é verdade. No Brasil, o Estado joga contra o empreendedor, acumulando uma série de medidas burras contra ele, seja em matéria de impostos, seja em matéria de burocracia a restrições.</p>
<p>Não é fácil como fazem parecer. Não basta uma boa ideia e muito esforço. Mais da metade das empresas fecham após o primeiro ano no Brasil. É preciso muito mais do que boas ideias e esforço. É indispensável algum conhecimento de administração, contabilidade e economia, mesmo que você contrate esses serviços por fora, pois é esse mindset que vai te fazer tomar decisões saudáveis para o seu negócio.</p>
<p>O retorno também não é tão rápido quanto nas outras modalidades, por sinal, é bem provável que nos primeiros dois anos não sobre dinheiro e você ainda tenha que injetar do seu bolso. E mesmo quando entra algum lucro nos primeiros anos, ele tem que ser reinvestido no negócio se você quiser que ele cresça. Você consegue ficar dois anos sem salário trabalhando feito um maluco? Pense nisso.</p>
<p>Mais um mito: “como o negócio é meu, vai ser do meu jeito e eu vou me aborrecer menos”. Não. Você vai se aborrecer mais. Primeiro pela questão que já conversamos lá nas desvantagens dos autônomos, do cliente ter sempre razão, segundo, você vai ter que contratar funcionários e não tem nada mais insalubre, infernal e desgastante do que lidar com funcionários. Se prepare para todo tipo de desgosto e indignação.</p>
<p>Além de encontrar bons funcionários (demora), treiná-los (demora) e manter um salário bom para que eles não te troquem por outra empresa, você ainda tem que manter eterna vigilância. Sem o dono por perto fatalmente as coisas desandam. Com sorte um dia você acha um gerente bom e confiável para dividir esse fardo com você, mas o olho do dono tem que estar sempre ali. Uma vida confortável em casa enquanto os outros trabalham para você? Esquece.</p>
<p>Vamos agora para outra categoria: o meio acadêmico. Para quem tem essa vertente, parece lindo, mágico, admirável. Mas para o resto das pessoas&#8230; não. O primeiro erro é pensar que vai ter prestígio. No Brasil não tem. Quem é de fora não entende a importância do que você está fazendo e muito menos a dificuldade. Quem é de dentro está mais preocupado em competir, te detonar, te sabotar do que em te admirar. Você simplesmente não vai ser valorizado quase nunca no seu país. Nem mesmo pelos seus colegas.</p>
<p>Outro mito comum é o de que pessoas competentes nessa área alcançam “grandes descobertas”, algo que não funciona assim. Se você sonha em virar pesquisador imaginando seu nome entrando para a história como a pessoa que descobriu “a cura para o câncer”, saiba que não é assim que a banda toca. Dificilmente alguém faça uma grande descoberta sozinho, o que acontecem são várias pequenas descobertas com nomes incompreensíveis para leigos que, somadas, podem levar a um passo para a humanidade.</p>
<p>E essa coisa de filme, de cientista com laboratório top de linha, no Brasil não corresponde à verdade. Na real, é uma das áreas mais difíceis de monetizar, pois o país não prestigia pesquisa científica e se você quiser, como alternativa, se tornar divulgador científico online, vai atrair o que há de mais podre do chorume humano para te atacar, desde símios tomados pelo efeito Dunning-Kruger até religiosos obtusos. É viver uma enxurrada de hate para conseguir cem seguidores que te admirem.</p>
<p>Tem também a ilusão de conseguir criar algo que melhore seu país ou seu povo, que não é tão difícil assim, já que tanto país como povo estão muito fodidos. Um país no qual metade da população não tem saneamento básico pode ser ajudado com muito pouco. Pois bem, desculpa te dizer, mas dificilmente vai acontecer, pois existirão forças poderosas para que tudo continue como está (vulgo “pessoas dependendo de benesses governamentais”) e o Poder Público dificilmente investe em algo que não lhe gere um suborninho de cashback. Então, por mais legal que seja sua ideia, ela provavelmente será descartada.</p>
<p>Talvez a única forma de ganhar dinheiro de verdade seja trabalhar para uma grande empresa, uma multinacional, por exemplo, que venda remédios ou coisa do tipo. Mas as coisas que você vai ter que pesquisar, que assinar e que atestar lá dentro nem sempre te permitem dormir à noite com a consciência tranquila.</p>
<p>Por fim, vamos à última categoria: ganhar a vida com o corpo, com a aparência, com a juventude. Entram nessa categoria perfil no Only Fans, arrumar um Sugar Daddy, casar com uma pessoa rico por golpe, ser influencer, se prostituir e coisas no estilo. Felizmente nunca fiz, mas já tive contato próximo com pessoas que o fizeram e, meus amigos, é um horror.</p>
<p>Vamos começar por esse mito do Only Fans e plataformas simulares. Poucas pessoas realmente ganham um bom dinheiro com isso, e quando ganham, geralmente fazem programa ao vivo. Só rebolar para câmera parou de dar dinheiro tem mais de uma década. Quem diz que ganha muito está flertando com o crime no que faz ou galgou um degrau na prostituição e está atendendo ao vivo. Mas, mesmo que fosse lucrativo: em questão de poucos anos, qualquer Zé Ruela vai conseguir pedir que uma IA realize visualmente suas fantasias e de forma muito mais barata, então, é uma fonte de renda que está condenada.</p>
<p>Depender de outra pessoa ao, com é o caso de se casar por interesse ou ter um Sugar Daddy, vivo é pior ainda. É uma das coisas mais humilhantes e desastrosas que podem te acontecer. Primeiro que fazer sexo ou ter momentos de intimidade com uma pessoa que você não gosta, não se sente atraído(a) ou não tem afinidade mata sua alma, mesmo que você tente se convencer que não.</p>
<p>Segundo que é uma vida de escravidão, de dependência do outro, é simplesmente degradante. Quem paga as contas dá as cartas, você nunca vai poder realmente peitar, discordar ou se impor. E terceiro, esse tipo de dinâmica se baseia em juventude. E juventude acaba. E quando a sua acabar, você será descartado como uma fralda suja e terá que aprender a se virar já burro velho.</p>
<p>“Mas Sally, se eu casar e tiver filhos eu tenho uma renda garantida”. Não. Só se for subserviente à pessoa. Se algum dia bater de frente, a pessoa bota os melhores advogados, toma a guarda dos seus filhos de você e te paga porra nenhuma, pois os filhos vão morar com ela. Depender dos outros tem que ser sempre sua última opção.</p>
<p>E ser influencer, meus amigos, é o caminho mais curto para detonar sua saúde mental. Depender da admiração dos outros para ter seu sustento é o inferno na Terra. Ter que acordar todos os dias e estar arrumada, maquiada, apresentável, tirando do cu coisas interessantes para mostrar é terrível. Precisar criar interesse nas pessoas o tempo todo, várias vezes por dia, é um suplício. </p>
<p>Ninguém é tão interessante. Chegará o momento no qual a pessoa precisará começar a mentir, maquiar, camuflar. E é muito fácil acabar vivendo uma vida de mentira com o pretexto de que tem que pagar as contas. Uma vida na frente das câmeras é mais insalubre do que trabalhar em uma multinacional, pois ao menos na multinacional você sempre ganha bem quando trabalha o dia inteiro.</p>
<p>Bem, espero que este choque de realidade ajude alguém a fazer uma escolha melhor para sua vida. Qualquer escolha tem lados positivos e negativos, optamos por falar nos negativos aqui, pois estes são os ninguém conta. Pense neles antes de tomar decisões sobre seu trabalho.</p>
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		<title>Reuniões.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 May 2025 16:04:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Todo mundo fala mal de reuniões de trabalho: perda de tempo, dreno de energia, poderia ter sido um e-mail&#8230; Então, hoje, na contramão, queremos falar sobre quando uma reunião é útil e como fazer com que ela seja eficiente, agradável e produtiva. Um grande problema que vejo no Brasil é que reuniões são usadas de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo fala mal de reuniões de trabalho: perda de tempo, dreno de energia, poderia ter sido um e-mail&#8230; Então, hoje, na contramão, queremos falar sobre quando uma reunião é útil e como fazer com que ela seja eficiente, agradável e produtiva.<span id="more-29495"></span></p>
<p>Um grande problema que vejo no Brasil é que reuniões são usadas de forma equivocada, para fins aos que não se destinam. Reunião não é para comunicar coisas à equipe. Reunião não é para fazer cobranças. Reunião não é para comunicar metas. Reunião não é para nada que não seja reunir cabeças pensantes para trabalharem juntas em uma ideia.</p>
<p>Todo o resto pode ser por comunicado, por memorando, falado individualmente, gravado na forma de um vídeo e enviado para a equipe (com espaço para que todos tirem dúvidas individualmente depois) ou até dito informalmente no próprio ambiente de trabalho. Todo o resto envolve comunicar uma informação. Reunião não é para comunicar uma informação, é para todo mundo pensar junto.</p>
<p>Interromper o fluxo de trabalho da sua equipe e fazer com que se desloquem para uma sala de reunião tem que ser apenas quando nenhuma outra forma é viável para alcançar aquele objetivo. Parem de usar reunião para comunicados, broncas e compartilhamento de informação. Não é reunião. É um monólogo. E você não é um gestor, é um carente que quer atenção.</p>
<p>“Mas Sally, se eu não fizer na forma de reunião, ninguém presta atenção, ninguém assiste, ninguém lê”. Então sua equipe é uma bosta que não te respeita e que não tem interesse no que você fala. Hora de trocar de equipe. Manter uma equipe assim também faz de você um péssimo gestor.</p>
<p>“Mas Sally, quase todo mundo é assim”. Foda-se. Um bom gestor troca até achar pessoas sérias, comprometidas, dedicadas. Troca. Troca mil vezes. Eu já precisei demitir mais de cem funcionários ao longo de um ano até achar a equipe certa. Demorou, mas achei. Me desgastei treinando uma centena de pessoas que não ficaram, mas quando montei a equipe certa, não tive mais problemas. Acredite em mim: trocar até achar as pessoas certas é o melhor caminho.</p>
<p>Vamos falar sobre as reuniões em si. O primeiro passo para não se perder é definir qual é o propósito da reunião, sempre tendo em mente que o propósito tem que ser construir algo, criar algo ou solucionar um problema, com todos pensando de forma conjunta. Se for apenas informar, reclamar ou cobrar, o meio correto não é a reunião.</p>
<p>Exemplo: o desempenho da equipe foi baixo, os números estão péssimos. Fazer uma reunião para comunicar isso é ser um péssimo gestor. Fazer uma reunião para reclamar disso é ser um péssimo gestor. Números podem ser enviados por e-mail. Fazer uma reunião com o objetivo de definir o que pode ser feito para melhorar é ser um bom gestor, especialmente se você perguntar à sua equipe o que eles precisam para melhorar.</p>
<p>Percebem que não é sobre o tema? No exemplo anterior, o tema é o mesmo: desempenho abaixo do esperado. É sobre o enfoque. Uma reunião que mostra dados, uma reunião de reclamação, uma reunião de esporro é tempo perdido. Tudo isso pode (e deve) ser feito por outros meios. Uma reunião sobre este tema só é válida se todos forem ouvidos e se construir uma solução em conjunto.</p>
<p>“Mas Sally, minha equipe não tem que solucionar nada, o gestor sou eu e eles nem sabem resolver esse problema”. Novamente: troque de equipe. Se você acha que você é a única cabeça pensante, que sua equipe não sabe solucionar problemas e que são pessoas que devem apenas seguir suas ordens, sua equipe é uma merda de equipe e você é uma merda de gestor.</p>
<p>Como já dissemos, atualmente, uma reunião só se justifica quando é preciso reunir diferentes mentes para pensar a respeito de algo, solucionar um problema, dar ideias, dar sugestões. Reunião é uma construção: todos os que estão à mesa tem que ser pessoas com potencial de acrescentar um tijolinho a essa construção.</p>
<p>Isso significa que só pessoal altamente qualificadas devem participar da reunião? Claro que não. Salvo assuntos muito específicos e técnicos, qualquer um que esteja familiarizado com o assunto pode ter uma boa ideia, direta ou indiretamente relacionada com o tema da reunião. Resumir reunião à alta cúpula deve se restringir apenas a temas que não possam ser do conhecimento de todos os funcionários, de resto, acho muito válido incluir gente de todos os escalões.</p>
<p>Está diante de uma situação que não pode ser resolvida de outra forma que não uma reunião? Precisa da presença física de pessoas debatendo esse assunto? Já selecionou quais são as pessoas que podem ajudar nessa questão? Ótimo. O primeiro passo foi dado. Mas é só o primeiro passo. É preciso muito mais para implementar um esquema de reuniões eficientes.</p>
<p>Agora que você tem um tema definido e um público selecionado, o próximo passo é fazer uma pauta da reunião. Informe a todos os que vão participar 1) o objetivo da reunião (ex: o desempenho está baixo, então o objetivo da reunião é pensar em novas estratégias para melhorar o desempenho); 2) os tópicos que serão abordados (números dos últimos 3 meses, meta para o próximo mês e estratégias para alcançar essa meta) e, por fim, estipule em um tempo mínimo para esta reunião, assim as pessoas podem se planejar (por exemplo: tempo mínimo de uma hora).</p>
<p>O ideal que que uma reunião tenha um grande tema, que será tratado no passado, presente e futuro. Temos o problema X. Como lidamos com o problema X no passado e quais foram os resultados. Como estamos lidando com o problema X no presente e qual é a percepção dos envolvidos. Como devemos lidar com o problema X no futuro para ter melhores resultados. </p>
<p>Obviamente o gestor deve ir preparado com todos os dados e estatísticas que envolvem o problema, mas não soterrar as pessoas em dados. Dados são a introdução, o que tem que brilhar na reunião é o brainstorm, a troca de ideias, a construção de uma solução. É nisso que deve ser gasta a maior parte do tempo.</p>
<p>E, para que esse brainstorm seja produtivo, as pessoas não podem estar exaustas. Pessoas que escutaram o gestor falando por 40 minutos só querem tirar a própria vida se enforcando no lustre da sala de reunião. Poder de síntese. Fale no máximo dez minutos antes de partir para a solução do problema. Mais do que isso é um misto de incompetência com ego.</p>
<p>A pauta da reunião, com o tema, os tópicos e a estimativa mínima de duração deve ser enviada a todos os que vão participar da reunião, preferencialmente vários dias antes da reunião. As pessoas têm que entrar sabendo sobre o que vai se falar e qual é o problema que se pretende solucionar.</p>
<p>Se organizando dessa forma você poupa tempo de explicar durante a reunião sobre o que é a reunião, permite que as pessoas se planejem e que elas se preparem. Ao saber qual é o objetivo da reunião, um bom funcionário já vai começar a pensar em ideias, já vai se preparar e com sorte até estudar algo sobre como alcançar esse objetivo. </p>
<p>Muitas boas ideias só surgem depois de dias de reflexão. Permita que as pessoas tenham a oportunidade de refletir e amadurecer ideias. “Mas Sally, ninguém faz isso”. Novamente, erro seu de manter uma equipe merda. Procura que você acha quem faça. Tem muita gente boa por aí, desempregada, esperando por uma oportunidade.</p>
<p>A reunião começa na hora exata marcada. Atrasar reunião é uma falta de respeito absurda com pessoas que estão ali. É dizer que o tempo delas vale menos do que o tempo dos atrasados, pois, com o atraso, a reunião vai acabar depois do previsto, comendo tempo de quem chegou na hora. Eu sei que é não é esse o costume no Brasil, mas começar a reunião na exata hora marcada vai, além de tudo, te ajudar a filtrar uma boa equipe. Atrasados vem com um combo profissional ruim em outros aspectos também. Não valem à pena.</p>
<p>Nas minhas equipes sempre existiram consequências para quem atrasa reunião, recomendo o mesmo. Em dias de bom humor a pessoa atrasada não podia entrar e ficava excluída do projeto, sendo penalizada financeiramente. Em dias de mau humor, a pessoa era demitida. </p>
<p>Obviamente, existem casos e casos. Uma coisa é atrasar por um motivo de força maior, como um acidente de trânsito, e avisar do atraso. Outra é perder a hora e não avisar. Outra ainda pior é perder a hora frequentemente. Não tolere atraso como regra. Aprenda a peneirar bons funcionários pelos pequenos atos.</p>
<p>“Mas Sally, isso é muito radical”. Será? Em um país que zela pela informalidade, pelo jeitinho e pelo pouco profissionalismo, a peneira pela qual você passa sua equipe tem que ser bem fina. Ao tolerar atraso você desanima e desprestigia quem chega na hora. Não faça isso.</p>
<p>“Mas Sally, não vai ficar ninguém”. Vai sim. Tá cheio de gente boa e comprometida querendo trabalhar, procura que você acha. O maior erro do gestor brasileiro é esse medo de demitir. “Mas Sally, o RH reclama dos custos”. Foda-se. Ou você tem plenos poderes para gerir sua equipe, ou então nem aceite a responsabilidade. Se o gestor não está satisfeito com uma equipe ele tem que ter o poder de trocar.</p>
<p>Vamos presumir que todos chegaram na hora. A reunião se dá a portas fechadas e sem interrupções. Se as pessoas tiverem maturidade e discernimento, não mexerão nos seus celulares (salvo situações muito excepcionais). Se as pessoas não tiverem, recolhem-se os celulares e se deixam em uma caixinha, no modo silencioso, longe do alcance de todos. </p>
<p>A reunião se dá a portas fechadas e sem interrupções. Qualquer pessoa que interrompa a reunião que não seja por causa de um incêndio no prédio tem que ser repreendida. </p>
<p>A reunião tem que ter água, café e alguma comida, pois ela pode durar muito tempo ou todos podem ter conseguido montar um cronograma para estar lá devidamente cafeinado e alimentado e, sem esses dois fatores, o rendimento cai. Eu considero comida e café instrumento de trabalho.</p>
<p>A pauta da reunião tem que estar fisicamente acessível a os que estão participando dela durante a reunião, para que ninguém se desvie dos assuntos, até mesmo o gestor. É mais comum do que a gente imagina. </p>
<p>O foco da reunião é no futuro, o passado já passou e não pode ser mudado, só é útil como aprendizado. Um breve passeio pelo problema e pelo que já foi tentado, apenas como caráter informativo, para dar contexto. Nada de ficar batendo no erro. Todas as pessoas estão reunidas ali para pensar em uma solução. O foco tem que ser na solução.</p>
<p>Uma vez contextualizada a situação e apresentado de forma bem clara o objetivo da reunião, eu sugiro fazer um exercício de desbloqueio de timidez, vergonha, medo, criatividade. Faça várias rodadas com a sua equipe sobre as piores soluções possíveis para esse caso. Isso mesmo, não as melhores, as piores. Soluções absurdas, terríveis, idiotas. As piores possíveis.</p>
<p>No começo as pessoas vão estranhar, mas depois, quando entenderem a dinâmica, quando perceberem que é uma situação na qual não tem como errar (pois o erro é justamente o que se pede), começarão a se empenhar e até competir pelas piores soluções. Na minha opinião, isso corresponde ao alongamento muscular representa para a atividade física: você não faz pela coisa em si e sim pensando no passo seguinte. Aquecimento para o cérebro.</p>
<p>Depois que todo mundo opinou em várias rodadas sobre as piores soluções possíveis, é hora de focar no objetivo da reunião com a cabeça voltada para as melhores soluções possíveis. </p>
<p>“Mas Sally, tenho que obrigar a equipe a participar? Muitos não querem responder”. Não é colégio, não tem que obrigar ninguém a nada, mas se um funcionário não é participativo em uma atividade diretamente relacionada a trabalho, ajudando a solucionar um problema que afeta a todos, eu me perguntaria se quero mantê-lo na minha equipe, pois ele não parece bom de trabalho em equipe.</p>
<p>Agora é a hora na qual o gestor mais terá trabalho. É como um pastor tentando manter as ovelhas reunidas, só que com pensamentos. Nessas horas as pessoas facilmente se desviam do tema. Você pode trazê-las de volta para o tema usando uma frase chave, um bordão, que depois de repetida pela quinta vez vai acabar fixando na cabeça das pessoas. Algo como “Como isso pode ajudar a resolver o problema?”, cada vez que alguém se desviar do objetivo da reunião.</p>
<p>Depois da terceira vez que alguém escuta um “Como isso pode ajudar a resolver o problema?” a frase fica fixa na cabeça das pessoas e elas se perguntam isso antes de abrir a boca. E se alguém responder com um “não ajuda a resolver mas&#8230;” informe educadamente que aquela reunião é para resolver aquele problema, sobre outras coisas se fala em outra hora.</p>
<p>Toda ideia que venha a convergir de alguma forma para a solução do problema é válida, mesmo que ela, por si só, não resolva o problema. Se a ideia convergir para a solução, não a descarte.</p>
<p>Muitas vezes a solução é uma construção de ideias de várias pessoas. Então, essa ideia que não soluciona, mas converge para a solução pode ser um tijolinho que vai ajudar a construir a solução. </p>
<p>Por isso é sempre bom que pontos importantes sejam anotados. Mas não pelo estagiário ou pela secretária, como uma impressora humana, e sim pelos envolvidos, que entendem o assunto. Alguém anota os principais pontos, nem que seja o gestor. Mas só os tópicos, se a pessoa tiver que fazer uma ata ela perderá o foco na reunião.</p>
<p>A reunião termina quando soluções plausíveis, exequíveis e promissoras para o problema forem cogitadas, bem como as estratégias para executá-las, o que significa um cronograma: quem vai fazer o que em qual prazo e como essas informações serão repassadas para o resto da equipe. Projeto sem prazo não é projeto, é esperança. As tarefas de cada um têm que ficar claras, tanto no que deve ser executado, quanto no prazo. E uma nova data para análise de resultados deve ser estipulada.</p>
<p>Além disso, um bom gestor se posiciona de forma a estar sempre disponível para ajudar em qualquer tarefa, processo ou dificuldade. Ele mete a mão na massa também. Ele recebe tarefas como qualquer outro. Ele é como qualquer outro, exceto pelo fato de que, se eventualmente surgir um impasse, o voto decisivo será dele.</p>
<p>Gestor em pedestal ou é burro ou é filho da puta – e nenhum dos dois é um bom gestor. Pense que tudo que você tem hoje, desde motorista até brindes, não é para você, é para o seu cargo. Se o seu cargo for embora, isso vai embora junto. Então, porte-se de acordo e seja exatamente como seus funcionários, não confunda a sua pessoa com o seu cargo, isso só gera problemas e sofrimento.</p>
<p>Então, depois de delegar as tarefas a cada membro da equipe, preferencialmente com uma postura parceira de ajuda mútua, com prazos bem acertados, o gestor tem que deixar sua equipe em paz. A menos, é claro, que algum funcionário recorra a ele com dificuldades em executar sua parte. Aí senta e ajuda, de igual para igual.</p>
<p>Essa coisa de ficar cobrando se fulaninho está fazendo é chato, é terceira série, só é justificável para crianças. “Mas Sally, se eu não cobrar, a pessoa não faz ou não faz direito”. Você está se ouvindo? Você realmente quer te na sua equipe alguém de quem tem que ser babá? Repito: tá cheio de gente boa procurando oportunidades.</p>
<p>Pessoa que não executa o que lhe foi delegado é uma âncora que afunda a equipe. Não prestigie âncoras. Não ignore âncoras. Não finja que as âncoras não existem. Não obrigue os outros a remarem mais pois tem alguém que não está remando. Vai na farmácia, toma uma injeção de testosterona e faça o que precisa ser feito.</p>
<p>Se os problemas se resolveram, que ótimo, parabéns, sua reunião deu certo. Se não se resolveram. Se os problemas não se resolveram, avalie primeiro se quer continuar com essa equipe. Se sim, nova reunião, nos mesmos moldes, com novas ideias e novas soluções. </p>
<p>Não perca seu tempo. Não faça as pessoas perderem o tempo delas. Seja um gestor inteligente e não banalize reuniões.</p>
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		<title>Mudança de hábito.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Oct 2024 15:11:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Tem um hábito ruim do qual não consegue se livrar? Cada vez que tenta implementar ou mudar um hábito falha e se sente mal e fracassado? Acha que é preguiçoso, indisciplinado e sem força de vontade? Tenho uma boa notícia: não é preguiça, nem falta de força de vontade, nem incompetência, provavelmente você está apenas [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem um hábito ruim do qual não consegue se livrar? Cada vez que tenta implementar ou mudar um hábito falha e se sente mal e fracassado? Acha que é preguiçoso, indisciplinado e sem força de vontade?  Tenho uma boa notícia: não é preguiça, nem falta de força de vontade, nem incompetência, provavelmente você está apenas tentando errado. E nós vamos te dar algumas dicas para tentar certo.<span id="more-23881"></span></p>
<p>Antes de qualquer coisa, é preciso entender como funciona o sistema de criação de hábitos e, por consequência, aprenderemos a desfazê-los. Tem uma comparação muito didática que vamos pegar emprestada do livro “A hipótese da felicidade” para nos ajudar a entender esse processo.</p>
<p>A maior parte das decisões que tomamos todos os dias são inconscientes, ocorrem quase que no piloto automático do cérebro. Isso é um mecanismo evolutivo para economizar energia, pois tomamos milhões decisões diariamente e o corpo não daria conta de pensar todas elas de forma racional, seja por falta de tempo, seja por falta de energia.</p>
<p>Então, para tornar nossa vida viável, o cérebro decide “sozinho”, isto é, sem seu o seu consciente, sem o seu racional, com base em critérios que ele entende serem os melhores. Pense na seguinte cena: um enorme elefante com uma rédea na boca e um minúsculo cavaleiro montado nele segurando essa rédea. O elefante gigante é a parte subconsciente do seu cérebro, o pequeno cavaleiro é a parte racional do seu cérebro.</p>
<p>Em algumas situações o cavaleiro vai conseguir domar o elefante e levá-lo para onde ele acha melhor, mas, se o elefante se chatear e se recusar a ir, não há nada que o cavaleiro possa fazer. E se o elefante for muito atraído por alguma coisa, o cavaleiro não vai poder impedir que ele vá até ela. O cavaleiro tem as rédeas, mas o elefante é muito mais forte, então, na real, quem acaba mandando em quase tudo é o elefante.</p>
<p>Basicamente essa é a dinâmica: nosso racional tem algum poder de decisão, mas, quando algo vira um hábito, passa a ser gerido pelo elefante, justamente pela questão da economia de energia. No momento em que aquilo vira uma rotina, é incorporado na sua vida, para que não seja mais um gasto de energia para o racional, o elefante assume o comando. E ele costuma proteger aquilo que é colocado sob sua responsabilidade. Por isso é tão difícil mudar hábitos.</p>
<p>“Mas Sally, então eu sou escravo da parte subconsciente do meu cérebro?”. Não. De forma alguma. Você só não pode pretender uma mudança batendo de frente com o elefante, que é mais forte do que você. Na marra, a coisa não vai. E esse é o principal erro das pessoas que tentam mudar: força bruta ou falta de estratégia adequada. Tem que ser em parceria com o elefante, se não você vai fracassar.</p>
<p>E para estabelecer uma parceria, é preciso comunicação. Enquanto o cavaleiro não conseguir se comunicar com o elefante, a coisa não funciona. O grande problema aqui, é que o cavaleiro fala linguagem humana e o elefante fala em emoções. Emoções são subconscientes, portanto, nem sempre as entendemos bem. Isso faz com que a nossa comunicação com o elefante nem sempre seja eficiente, seja por não compreender as emoções, seja por insistir em tratar o elefante na base do racional.</p>
<p>Como pensa o elefante? Nosso cérebro tem uma grande meta: sobrevivência, é baseado em isso que toma suas decisões. E os critérios dele são os mesmos de séculos atrás, pois em termos evolutivos, ainda não passou tempo suficiente para que o cérebro perceba uma nova realidade e se adapte a ela. </p>
<p>Ele busca a sua sobrevivência com critérios das cavernas, por exemplo, te manda consumir comida calórica para estocar energia (ele não sabe que comida hoje é abundante em supermercado), te manda estar atento a possíveis riscos (ele não sabe que não vivemos mais no meio de predadores) e te manda buscar coisas que liberam dopamina, pois, nas cavernas, dopamina tinha sido projetada para recompensar comportamentos que majoravam nossas chances de sobrevivência, algo que não se aplica aos dias de hoje.</p>
<p>Então, por mais que a meta do cérebro seja sua sobrevivência, ele não está preparado para o mundo que vivemos. Se estivesse, ele não nos deixaria viciados em cigarro, em drogas e em jogo do Tigrinho. E aqui tem outra coisa importante que você precisa saber sobre seu cérebro: ele não entende o mundo moderno, ele não sabe o que é bom ou ruim. O julgamento dele é: resolve o problema ou não resolve? Gasta muita energia ou não gasta? Contribuí para a sobrevivência nos patamares pré-históricos ou não?</p>
<p>Um exemplo: a pessoa que fuma. Cigarro inquestionavelmente faz mal para a saúde, e a pequena parte racional do seu cérebro sabe disso. Ainda assim, o cérebro continua pedindo cigarro. Por qual motivo, se a meta dele é a sua sobrevivência? Aquele que a gente já comentou: o elefante não fala português, fala emoções. </p>
<p>Não adianta o cavaleiro ficar berrando que isso dá câncer de pulmão, pois o elefante não fala português, ele é regido pelas emoções &#8211; e a sensação que o cigarro dá é boa. O cérebro pena: quando este humano fuma, ele fica produtivo, ele se sente bem, e cumpre suas obrigações e para fumar ele não gasta muito da energia do corpo que me alimenta. Parece bom! Fume, humano, fume! Pronto, está estabelecido um hábito. Agora, para parar de fumar, você vai ter que convencer o elefante. E você não consegue se comunicar com ele, pois você fala português.</p>
<p>Quanto mais tempo dedicamos a um hábito, mais estabelecidos ficam os caminhos neurais que nos levam para esse hábito. Pense em um filete de água que corre pela terra: quanto mais tempo ele corre, mais cria um caminho para que a água continue correndo nessa direção. Quanto mais tempo passa, mais profundo fica esse sulco e mais difícil é desviar o percurso dessa água. </p>
<p>Muita vezes, o hábito pode se tornar um vício. Todos os vícios são hábitos, porém, quando os hábitos se tornam vícios, você se torna dependente dele para estar bem. O vício libera tanta <a href="https://www.desfavor.com/blog/2022/07/dopamina/" rel="noopener" target="_blank">dopamina</a> que o cérebro precisa liberar substâncias para reduzir essa dopamina, em nome de um equilíbrio saudável. Então, se você não mete mais dopamina para dentro (cada vez mais), seus níveis de dopamina despencam, pois seu cérebro está liberando reguladores de dopamina. </p>
<p>E se seus níveis de dopamina despencam, você se sente um lixo. Então, o que antes era um vício para se sentir bem, agora é um vício apenas para não se sentir um lixo e ficar minimamente funcional. Vício só dá prazer no começo, depois a pessoa faz (e precisa fazer cada vez mais) apenas para não se sentir extremamente mal. E nem precisa chegar no ponto do vício (precisar de dopamina para não se sentir um lixo completo). Mesmo sem vício (a dopamina que te faz sentir bem), já temos um hábito bem difícil de mudar.</p>
<p>Por isso é muito mais atraente jogar videogame do que estudar, ver pornografia em vez de trabalhar, ficar em redes sociais em vez de se exercitarm, assistir seriado em vez de aprender um idioma ou comer comida doce/gordura em vez de comer legumes. O elefante vai para onde ele acha que é melhor, e ele não é racional. Ao perceber que a dopamina vem, ele pensa “esse humano deve estar fazendo algo bom” e te incentiva a continuar fazendo.</p>
<p>Para dificultar um pouco mais, hoje, quase tudo que vemos e consumimos é cuidadosamente pensado por publicitários para descarregar toneladas de dopamina, de modo a assegurar que as pessoas consumam. Resultado? Como o elefante não fala português, ele cai nessa cilada: “meu humano se sente bem com isso? Vamos consumir mais disso!”. Exercício libera x de dopamina? Chocolate vai liberar 10x. Adivinha qual o elefante vai preferir?</p>
<p>Porém, felizmente, existe a opção de mudar esses caminhos neurais e tentar se livrar de hábitos ruins, inclusive antes deles virarem um vício. É a chamada “neuroplasticidade”. Mas na marra não vai acontecer. É preciso aprender a se comunicar com esse elefante, dar condições para que ele tenha energia para te ajudar nessas mudanças e convencê-lo de que a mudança é realmente necessária e o melhor para você. </p>
<p>Agora sim, vamos dar algumas dicas sobre as melhores formas de mudar algum comportamento que você, o seu cavaleiro racional, considera ruim, mas que seu cérebro subconsciente, o elefante, insiste em perpetuar.</p>
<p>Para começar a pensar em uma mudança, em primeiro lugar, é preciso que o elefante esteja com suas necessidades básicas cumpridas. Um elefante privado de sono não vai querer andar em direção alguma, ele vai querer poupar energia – e mudar um hábito gasta muita energia. Então, antes de começar, o elefante precisa estar bem: bem nutrido, bem descansado, bem hidratado e saudável. Pense no que você precisa para render em uma atividade importante e dê isso ao seu cérebro. Mantenha-o saudável.</p>
<p>E quando a gente diz “saudável”, fala em saúde mental também, ou seja, com níveis de estresse controlados, caso contrário o cérebro entra no modo fuga/luta e todo o foco será para prevenir ataques e evitar a sua morte. Você vai tentar ir na direção de uma mudança e ele vai dizer “sem tempo irmão, ligou uma sirente de alerta (o estresse) e isso significa que tem uma questão de perigo iminente muito mais importante acontecendo aqui que está usando toda a minha energia, vai lá e fica prostrado no sofá até o perigo passar”. E você vai ficar, pois o elefante é muito mais forte do que cavaleiro. Ele domina a química do nosso corpo. Se ele não quiser, você não vai a lugar algum.</p>
<p>Uma vez que o elefante esteja calmo, saudável e com suas necessidades básicas supridas, o primeiro passo é mostrar para ele que mudança é possível e que mudança pode ser boa. E é mais difícil conseguir isso com um grande projeto, como parar de fumar ou se obrigar a ir todos os dias para a academia. As chances de sucesso são maiores se você começar com um pequeno projeto, uma novidade fácil de executar, que você saiba que tem grandes chances de sucesso. </p>
<p>Pode ser beber um copo d’água todo dia assim que acordar, por exemplo. Quando você acordar e sentir sede, quando não precisar se lembrar de executar, quando o corpo te pedir aquele ato, você saberá que ele virou um hábito e que seu copo de água matinal passou a ser administrado pelo elefante.</p>
<p>“Mas Sally, eu quero realizar logo o projeto grande”. Manda um beijo da minha parte para a sua ansiedade. Se você quer começar pelo grande, comece, porém saiba que se não der certo, você ensina o seu cérebro que esse projeto não é possível e da próxima vez que você tentar, ele vai mandar um “sem tempo irmão”. Seu elefante vai pensar “esse humano idiota quer que eu vá por esse caminho novamente, mas eu já fui e não deu certo, eu sei que esse caminho é perda de tempo, então, não vou, vai, humano, vai ficar prostrado no sofá”. E você vai, pois o elefante é muito mais forte do que você.</p>
<p>Como o elefante sabe que você já foi por esse caminho? Ela fala emoções, lembra? Ele sabe que quando você foi por esse caminho encontrou frustração, medo, ansiedade, tristeza. Faz bastante sentido que o elefante não queria voltar ali. Então, comece pequeno, para que seu elefante entenda que dá para confiar em você e que seguir seu comando gera alegria, felicidade, satisfação.</p>
<p>Outra dica para ter sucesso é trilhar seu próprio caminho. O caminho que deu certo para os outros dificilmente vai dar certo para você. “Acorde cedo”, “tome banho gelado”, “corra x km ao acordar”, “trabalhe enquanto eles dormem” ou qualquer outra excrescência coach provavelmente vão te levar ao fracasso e será mais difícil que o elefante queira ir nessa direção novamente, ainda que com outras estratégias. Essas fórmulas prontas podem funcionar para determinados tipos de pessoas, mas não para todas.</p>
<p>Quer acreditar que tem uma fórmula mágica? Acredita. Mas eu te aviso o que vai acontecer: você vai se forçar a fazer o coach Estelionatinho mandou e isso vai gerar sensações negativas, fazendo seu elefante se recusar a prosseguir. </p>
<p>Você acorda cedo, mesmo estando morrendo de sono. Você toma um banho gelado, mesmo sofrendo horrores com isso. Você corre x km, mesmo odiando correr. O cavaleiro pena “uhuuu! Nós conseguimos! Nós nos superamos! Vamos continuar!”. O elefante pensa: “mas que merda é essa que esse humano está fazendo que me gera sono, estresse, gasto de energia e sofrimento? Não estou disposto, não dou mais um passo. O humano vai ficar prostrado no sofá até aprender a se comportar direito”. E, meus queridos, em uma disputa entre o cavaleiro e o elefante, já sabemos quem ganha.</p>
<p>Então, se você está fazendo algo obrigado, com sofrimento, contra sua vontade ou que te gera emoções negativas, saiba que pode até se obrigar por algum tempo, mas no final, o elefante vai ganhar. Ele sempre ganha. Lutar contra ele é uma batalha perdida. Ou você o convence, ou nada feito. Você tem que descobrir um caminho gentil, que você queira e que te gere algum (nem precisa ser muito, apenas algum) bem-estar no caminho.</p>
<p>Outro ponto importante: escolha uma mudança por vez. Querer mudar tudo ou várias coisas de uma vez só vai estressar seu elefante e fazer ele empacar. Não dê overload no seu elefante. Uma coisa é você, pequeno cavaleiro ágil e destemido mudar a rota, outra é um paquiderme de toneladas ter que fazer o esforço de mudar de direção. Uma coisa de cada vez majora absurdamente suas chances de sucesso. Depois que a mudança estiver incorporada e virar um hábito você dá um tempo e pede outra para o elefante.</p>
<p>Para aumentar suas chances de sucesso, dê uma rotina consistente e benéfica para o seu elefante, para que ele saiba o que esperar, não tenha sobressaltos e possa relaxar. Um elefante que não gasta energia com muitas novidades terá mais energia para gastar com um único projeto.</p>
<p>Mais um ponto que pode te ajudar: foco, atenção e repetição. Realizar o novo hábito diversas vezes com foco e atenção ajudam ao elefante a entender que talvez aquilo seja importante. Fazer algo enquanto mexe no celular, enquanto assiste tv ou enquanto conversa com outras pessoas dá ao cérebro a impressão de que aquilo é secundário, sendo mais fácil que ele descarte um gasto de energia que não parece tão importante. Fazer algo um dia e depois passar vários dias sem fazer também. </p>
<p>Então, quando fizer o novo hábito, mostre que é importante. Crie um ambiente favorável, sem distrações, seja assíduo, coloque todo seu foco e atenção nele e tente executá-lo da forma mais prazerosa possível. Quer se exercitar, mas odeia corrida? Faz natação, uma dança, uma luta. Qualquer coisa que seja mais prazerosa. Isso aumenta as chances de sucesso. E faça com foco e atenção total. Isso vai mandar um recado para o elefante para que ele passe a colaborar com você.</p>
<p>Até aqui foram dicas para criar o melhor ambiente, o ambiente mais propício. Agora bem a dica mais importante de todas, sem a qual não existe a menor chance de sucesso: esteja consciente dos seus sentimentos, saiba identificá-los, compreendê-los e lidar com eles.</p>
<p>Lembra que a gente falou que o elefante fala emoções? Pois bem, sentimentos nada mais são do que a consciência das emoções que estamos sentindo. O sentimento é o que explica, categoriza e racionaliza aquela emoção. E compreender melhor nossas emoções e sentimentos se consegue com autoconhecimento.</p>
<p>Não tem para onde correr, é o idioma do elefante, quanto melhor você falá-lo, melhor será a sua comunicação com ele. E você depende dele, então, sugiro investir bastante tempo e esforço nisso. Conhecer e entender seus sentimentos e entender se eles estão de acordo com suas emoções é sua forma de dialogar diretamente como o elefante e fazê-lo colaborar com você. </p>
<p>Você sabe reconhecer seus sentimentos? Se eles estão de acordo com suas emoções? Parece banal, mas é bastante comum viver no piloto automático, soterrado pelas demandas da vida e acabar ignorando ou silenciando nossos sentimentos e não entendendo o que são ou de onde vem. </p>
<p>Você pode ter uma emoção de tristeza, mas não ter o sentimento de tristeza, pois entra em negação, fica na defensiva ou foge dessa emoção, por exemplo. Por sinal, pessoas andam confundindo todo tipo de emoção com raiva: em vez de vivenciar o sentimento correspondente qualquer emoção negativa (medo, tristeza, frustração e outras) vira raiva. Isso impede que a pessoa experiencie a emoção e gera muitos problemas. Sentimentos desalinhados com emoções não bagunçam apenas a vida do elefante, bagunçam a sua também.</p>
<p>Talvez seu cavaleiro não perceba quando você varre emoções para debaixo do tapete, as camufla com sentimentos falsos, finge que não as sente, sente uma coisa e acha que sente outra ou nega as emoções para você mesmo. Mas o elefante entende, ele percebe o que está acontecendo e é ele quem controla a produção de neurotransmissores, então, em algum momento, essa conta chega. Ele se porta de acordo com as emoções, por mais que você as negue ou as camufle com outro sentimento. </p>
<p>Infelizmente é muito comum não conhecer a si mesmo o suficiente para entender cada emoção/sentimento e como lidar com eles. Então, dever de casa: trabalhar autoconhecimento até o fim da sua vida (pois gera ganhos não só nesta questão, como em todas) e observar emoções e sentimentos e como você lida com elas. Se vocês quiserem fazemos um texto só sobre isso.</p>
<p>Com autoconhecimento podemos compreender, mudar e ressignificar o que sentimos. E não falo apenas de forma profunda, falo também de pequenos boosts imediatos. Se percebeu estressado? Medita, se acalma, faz uma massagem. Se percebeu triste? Se exercita, assiste algo que te faça rir, escuta uma música que te ponha para cima. Você não é escravo das suas emoções, você é o criador delas.</p>
<p>Então, muitas vezes algo que nos daria tristeza, raiva ou frustração podem ser olhados sob um novo ponto de vista. E ressignificando uma emoção negativa para uma positiva você converte o elefante, que antes seria contra aquele hábito, mas agora, com esse novo sentimento, será a favor.</p>
<p>Mais uma dica: mantenha-se no presente a maior parte do seu tempo, para não dar pane no elefante. O passado já passou e não tem nada que você possa fazer a respeito e o futuro ainda não aconteceu e não pode ser previsto. O único tempo no qual se pode efetivamente fazer algo é no presente. Não ficar no presente ativa o modo perigo no elefante, ele entra no modo fuga/luta e corta qualquer recurso energético. Ele não vai fazer nada que não seja zelar pela sua vida com medo da suposta ameaça iminente que ele acha que vem.</p>
<p>Claro que eventualmente precisamos de planejamento futuro, mas, para manter seu elefante saudável, para que ele não colapse e se recuse a fazer qualquer coisa, você tem que passar a maior parte do tempo com a mente focada no presente, no agora. Observe-se durante o dia e se pergunte onde estão seus pensamentos: no presente ou no passado/futuro? Se manter no presente a maior parte do tempo não é tão fácil quanto parece. Também podemos falar sobre isso em outro texto se vocês quiserem.</p>
<p>Outra dica: faça uma lista dos hábitos que deseja mudar ou incorporar na sua vida. Uma lista no papel mesmo. O cérebro compreende melhor se a gente organiza as coisas dessa forma. Quando você passa para o papel o cérebro entende que ali há, além de um desejo, uma tarefa a ser cumprida e as chances de que o elefante te ajude são maiores.</p>
<p>Para finalizar, uma dica genérica: trabalhe sempre a neuroplasticidade, mesmo que você não queira mudar nenhum hábito agora. É como musculação para o cérebro: você não chega na academia levantando 100kg, é preciso fortalecer a musculatura antes. Mas, uma vez que a musculatura está bem treinada, você levanta peso com mais facilidade. Exercite seu cérebro, exercite sua neuroplasticidade, isso traz inúmeros benefícios.</p>
<p>Como treinar a neuroplasticidade? Fazendo coisas novas. Não precisa se forçar a fazer nada, mas teste coisas novas que te gerem prazer. Tente sempre incluir ao menos uma coisa nova na sua vida e, quando/se ela virar um hábito, insira outra.</p>
<p>Seguindo estas dicas você e o elefante vão começar a se comunicar melhor e a se ajudar. E com o tempo o elefante vai ganhando confiança em você: “este humano sabe para onde está me guiando, sempre me leva para bons lugares, vou colaborar”. Torne-se amigo e parceiro do seu elefante, você depende dele.</p>
<p>“Mas Sally não tem outro jeito?”. Tem, mas costuma ser muito mais sofrido. Dá para virar essa chave com uma forte emoção (por exemplo, a pessoa que para de fumar do dia para a noite pois a mãe morreu de câncer no pulmão), por uma questão iminente de sobrevivência (a pessoa que para de comer gordura pois infartou) e por outros caminhos extremos que não costumam ser nem um pouco amorosos. E só ajuda naquela mudança pontual, não ajuda em outras não relacionadas.</p>
<p>Vai na amizade com o elefante, que, além de ser a forma mais eficiente, é um ganho para a vida. </p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que seu elefante é um filho da puta, para dizer que nada fez o menor sentido para você (um dia vai fazer) ou ainda para dizer que o seu não é um elefante, é uma mula: comente.</p>
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		<title>Perdão.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Aug 2024 15:13:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos conversar sobre perdão? Quando falamos em perdão, normalmente, as pessoas vinculam seu conceito à ideia religiosa, virtuosa ou moral da palavra. Perdoar é passar por cima de tudo, relevar, esquecer. E esse perdão, meus queridos, é um enorme desfavor e nós até chegamos a fazer um texto sobre ele em um passado remoto do [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos conversar sobre perdão?</p>
<p>Quando falamos em perdão, normalmente, as pessoas vinculam seu conceito à ideia religiosa, virtuosa ou moral da palavra. Perdoar é passar por cima de tudo, relevar, esquecer. E esse perdão, meus queridos, é um enorme desfavor e nós até chegamos a fazer um texto sobre ele em um passado remoto do Desfavor. Hora de tentar entender o real significado de perdão.<span id="more-23625"></span></p>
<p>Para começo de conversa, o perdão é interno. Não tem absolutamente nenhuma participação do outro. Você, no seu interior, perdoa ou não algo ou alguém. É você com você mesmo. </p>
<p>Não tem rituais, não tem regras e, acima de tudo, não pode ter barganha: “eu perdoo o Fulano, mas só se ele&#8230;” (complete a frase como quiser). Isso não é perdão. Isso é negociação: você suspende sua putez pois o outro te ofereceu algo que te interessa o suficiente para fazer essa transação.</p>
<p>Perdão não é fingir que nada aconteceu ou apagar o ocorrido. Perdão é não guardar sentimentos negativos e compreender que o outro fez o que fez pois não tinha a consciência/capacidade de fazer diferente. </p>
<p>Isso quer dizer que, se perdoar, você não é obrigado a voltar a falar com o outro como se nada nem a mantê-lo na sua vida. Apenas não vai guardar sentimentos negativos dele. Então, se uma pessoa te faz mal, é perfeitamente possível perdoá-la, mas não querer retomar contato com ela. </p>
<p>Perdoar significa que você não vai carregar essa raiva, não vai permitir que isso te desperte emoções negativas, não vai se deixar afetar. Mas, se partindo desse lugar de consciência, você entender que o convívio com o outo te é nocivo, é sagrado direito seu de perdoar porém não querer mais contato. Uma coisa não exclui a outra.</p>
<p>Não guardo raiva, não quero te punir, não quero me vingar, eu simplesmente concluo que a sua presença na minha vida não é do meu interesse. Está perdoado, porém não fará mais parte da minha vida. Isso é perdão com consciência e autopreservação.</p>
<p>Diferente de: “vai ficar sem mim e vai sofrer para aprender!”. Isso não é perdão. Quando o que fizeram conosco de alguma forma nos ativa, nos impacta com sentimentos ruins, nos desperta uma reação, seja ela de sofrer ou de querer ver o outro sofrer ou punido, não há perdão. Ainda que não seja dito, se é sentido, não há perdão. Se você tem essa sensação dentro de você, você não perdoou. E tá tudo bem também, sagrado direito seu não perdoar.</p>
<p>Perdão não é sobre ser nobre, magnânimo e superior ao outro vil mortal que cometeu um erro. Esse “Eu te perdoo” com uma aura de superioridade moral ou caridade é ego puro. </p>
<p>O perdão nós damos por nós mesmos, ou seja, pela consciência de que faz mal entrar em contato constantemente com sentimentos negativos. Pela consciência de que estamos todos em um processo de evolução e se o colega está um pouco atrás de você no processo e não faz coisas muito legais, não faz sentido nutrir raiva dele, pois ele não pode fazer diferente. Pela consciência de que não vale a pena permitir que um erro do outro impacte nossa vida dessa forma, se o outro é tão ruim, a melhor coisa é esquecer que ele existe, retirar toda a importância e relevância que ele tenha na nossa vida.</p>
<p>Perdão não se comunica em público, isso também é ego puro: vejam como sou bondosa, eu estou perdoando esta pessoa. Perdão é interno e pode ou não ser comunicado, mas com privacidade, para a pessoa à qual se destina. </p>
<p>Perdoar não é motivo de orgulho nem te torna melhor do que ninguém, é apenas uma escolha sua para com você mesmo que tende a ser mais saudável para a sua mente. Perdão não coma pontos com ninguém, não garante pedaço no céu e certamente não merece aplausos. É obrigação de qualquer pessoa decente.</p>
<p>Perdão e medo não são compatíveis. Achar que perdão vai ter tornar mais vulnerável é medo: “se eu falar que perdoei a pessoa vai fazer novamente comigo”. Se você acha que a pessoa vai fazer novamente, perdoe e afaste-se. Perdão e medo nunca poderão andar de mãos dadas, se o medo entra, o perdão sai.</p>
<p>Perdoar não é jogar toda a culpa do ocorrido no outro, passando um pano para a sua parte: “ok, eu perdoo a minha mãe por todos os estragos que ela fez na minha cabeça que me tornaram a pessoa com problemas que sou hoje”. Não. Perdoar é entender que o outro errou pois não tinha a possibilidade de fazer diferente. E se fazer responsável pela sua parte: o que você é hoje não é o resultado dos erros de X ou Y e sim de como você lidou com esses erros.</p>
<p>Perdoar não é colocar o outro em dívida: “eu te perdoei por aquilo, então agora você me deve uma, é bom fazer o que eu quero, me tratar bem e me deixar escolher qual filme vamos ver no final de semana”. O perdão com qualquer outro propósito que não seja poder virar essa página e não se deixar afetar pelo que aconteceu não é perdão, é manipulação, é barganha, é um escambo emocional.</p>
<p>Perdão também não pode ser justificativa para tolerar abusos: “é que eu sou muito boa, sabe como é, fulano me cobre de cacete e eu sempre perdoo, afinal, é o que Jesus faria”. Não, não é o que Jesus faria e você não é boa, é dependente emocional que não consegue se afastar de uma pessoa claramente abusiva e reveste isso com o manto nobre do perdão. Não estamos dizendo que é para guardar rancor, não guarde, mas afaste-se. Perdoar não implica em continuar se sujeitando a abusos.</p>
<p>Perdão não é condicional, nem moeda de troca: “eu perdoo o Fulano mas só se ele pedir perdão ou só se ele mudar tal coisa ou só se ele prometer tal coisa”. Esquece, isso não é perdão. O perdão nada tem a ver com o Fulano ou com as suas exigências, o que você está oferecendo não é perdão e sim um afago na consciência pesado do outro, fazendo um acordo de parar de culpá-lo por um erro em troca dele te dar algo que faça seu ego se sentir melhor.</p>
<p>Perdão não é aval para fazer o mesmo que perdoou e cobrar reciprocidade: “quando você gritou comigo, eu te perdoei, então agora que eu gritei com você, você tem que me perdoar”. Não, não. Isso se chama projeto de sofrimento casado. Isso se chama relação abusiva. Isso se chama insanidade. Perdão é desinteressado, incondicional e de coração. Perdão não contabiliza pontos ou créditos para fazer ou deixar de fazer nada.</p>
<p>Perdão não é vinculado a outros sentimentos. Não existe perdoar o Fulano “porque o amo muito” ou perdoar o Fulano, mas ainda sentir ódio do que ele fez. Perdão significa precisamente o contrário: deixar ir qualquer sentimento que aquele feito te ative, te desperte, te traga. </p>
<p>Dizer que perdoa alguém porque ama a pessoa é um equívoco, a gente perdoa por querer perdoar, por nós mesmos e pelo mal que aquilo vai nos fazer, não por amar, tanto é que tem muita gente que jura que perdoou e depois joga na cara, fica ressentida ou volta no assunto infinitas vezes. Repito: o perdão não é sobre o outro e sim sobre ser o melhor para você mesmo.</p>
<p>Perdoar não significa eximir a pessoa que errou da responsabilidade pelos seus erros. Se um pai perdoa o assassino da filha não está implícito que ele esteja autorizando o não cumprimento de pena pelo crime de homicídio. Erros tem consequências e elas não deixam de existir pelo perdão. O perdão é apenas sobre como aquela pessoa se sente, como ela resolveu lidar com o erro e as consequências desse erro dentro dela.</p>
<p>Perdão é irrevogável, já que significa virar aquela página e que aquilo não signifique mais absolutamente nada para você. Perdoar é escolher que aquele erro não te afete, não tenha relevância, não esteja mais na sua vida. E se de fato sua existência foi removida da sua vida, o perdão não pode ser desfeito, pois o que lhe deu causa não existe mais.</p>
<p>E, numa última instância tão abstrata que eu nem teria a petulância de tentar explicar como funciona, pois nem acho que possa ser traduzida em palavras, o perdão acaba sendo sempre para nós mesmos e para a nossa visão errada da situação. </p>
<p>Para o nosso esperneio. Para a nossa birra em não aceitar colher o que plantamos. Para a nossa não-confiança de que existe um motivo para tudo. Para a nossa arrogância de olhar para tudo como perda e não como aprendizado. Para a nossa pequenez de pensar que nossa opinião medíocre corresponde a 100% da realidade e de tudo que existe.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que devemos perdoar as pessoas banidas (não guardamos nenhum rancor, internamente estão todos perdoados, mas as consequências do erro persistirão), para dizer que esse perdão que eu narrei é impossível (não é não) ou ainda para dizer que perdoar é para os fracos os fortes se vingam (saúde mental mandou um abraço): <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Não há medo no presente.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jul 2024 15:14:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Não há medo no presente. A frase parece absurda, falsa e até sem sentido, mas ao final deste texto pode ser que você acabe concordando comigo ou ao menos refletindo sobre essa possibilidade: como regra, não há medo no presente, o medo está sempre vinculado ao passado ou ao futuro, tempos que não existem, pois [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não há medo no presente.  A frase parece absurda, falsa e até sem sentido, mas ao final deste texto pode ser que você acabe concordando comigo ou ao menos refletindo sobre essa possibilidade: como regra, não há medo no presente, o medo está sempre vinculado ao passado ou ao futuro, tempos que não existem, pois o passado já passou e o futuro ainda não chegou. Se você viver no presente, sua vida será muito melhor e com muito menos medo.<span id="more-23388"></span></p>
<p>Vamos definir medo? Medo é o sentimento de intenso mal-estar que se ativa com a percepção de um perigo. Se tem uma pessoa com uma faca colada no seu pescoço, te fazendo refém e gritando que vai te matar, temos uma situação, diga-se passagem, muito excepcional, de medo no presente. </p>
<p>Mas, salvo essas situações esdrúxulas e improváveis, o medo não costuma estar no presente e sim no passado e no futuro. E, ainda assim, nós o convidamos para o presente o tempo todo, de alguma forma, acreditando que ele pode nos proteger. Não pode. Medo, via de regra, só faz mal.</p>
<p>Medo é um mecanismo primitivo, ancestral, que tinha sim o objetivo de nos proteger. Foi o antepassado que fugiu em vez de lutar com um carnívoro enorme o que sobreviveu e passou os genes adiante. Foi o antepassado que não foi na moita que estava se mexendo ver o que era que sobreviveu e passou os genes adiante. Em seu tempo e fazendo bom uso, medo foi e ainda pode ser uma boa proteção.</p>
<p>Porém hoje o medo está beirando a obsolescência. Medo, com a finalidade de proteção, se tornou um discurso ultrapassado. Hoje, temos sentimentos menos nocivos e mais efetivos para nos proteger, como o planejamento, a racionalidade, a compreensão, a avaliação, a consciência e até algum tipo de fé (que, por ser a parte mais controversa, fica para o final do texto). Nada disso precisa de uma carga de medo para ser protetivo.</p>
<p>Mas, talvez por hábito, temos uma falsa crença que o medo precisa estar embutido em tudo para nossa proteção. Aí sempre vem uma Pessoa Quer Dizer e solta “Ah, quer dizer que não tem que sentir medo, então tá, vai lá, sai de calcinha no beco escuro”. </p>
<p>Olha, o que me faz não sair de calcinha no beco escuro é informação, é ter consciência de risco, é racionalidade. Eu não preciso do medo para ter a consciência de que algo é perigoso e me resguardar. Quem precisa de medo para se proteger é bicho com cérebro rudimentar, incapaz de pensar, avaliar, ponderar e entender. Eu posso estar ciente dos riscos e optar por não me sujeitar a esses riscos.</p>
<p>O problema é que o medo tem bons publicitários. Ele é uma ferramenta poderosa que vem sendo usada por séculos. Só para citar um exemplo, o que a Igreja Católica fez com o medo contribuiu muito para popularizá-lo: as pessoas não seguem/seguiam seus preceitos por amor a Deus e sim por medo a ele, aos castigos, às punições, ao inferno, ao diabo. E, adivinha só, se portar assim ou assado por medo não tem muito valor e não define caráter de ninguém. O mais canalha dos canalhas anda na linha quando é o seu brioco que está na reta.</p>
<p>A fórmula deu certo e o medo virou superstar. O medo de não pertencimento faz as pessoas se unirem com gente odiosa. O medo de não ser suficiente faz as pessoas consumirem imbecilidades. O medo de não atender a padrões faz as pessoas cometerem loucuras. E o medo do não medo, ou seja, o medo do que a pessoa faria se não tivesse a trava do medo, acorrentou o medo às nossas pernas.</p>
<p>Que pouca fé que temos em nós mesmos, não? Que bosta de pessoa achamos que somos para cogitar que sem medo (de julgamento, de punição, de reprimendas, de consequências negativas) nos tornaríamos pessoas horríveis que fazem coisas horríveis, ou pessoas idiotas que fariam coisas irresponsáveis. Se é o medo o que te impede de fazer merda com você ou com os outros, você precisa urgentemente de terapia.</p>
<p>Mas, isso está no inconsciente coletivo, eu suponho. Foram séculos construindo, talvez sejam necessários séculos para desconstruir. Pois bem, arregacemos as mangas e comecemos: como regra, você não precisa do medo. Desapega dele.</p>
<p>Salvo uma situação muito pontual de risco iminente, o medo é inútil e nós o resgatamos do passado (usando situações que ocorreram para justificá-lo) ou o projetamos no futuro (criando um futuro horrível da nossa cabeça que gera medo). E geralmente nenhuma delas corresponde à realidade, mas nós acabamos vendo uma realidade pelas lentes do medo que falsamente confirma nossas crenças.</p>
<p>A solução? Se manter no presente. Se manter no agora. Olha para o que está acontecendo exatamente agora, sem focar no passado, sem focar no futuro. Aprender com experiências passadas? Sim, super válido. Usá-las para alimentar medo? É algo completamente diferente e muito nocivo. Se planejar para o futuro? Sim, super válido. Traçar seus planos com base no medo de algo ou algos? Completamente diferente e muito nocivo.</p>
<p>É fácil se descolar desse “vício” no medo? Num primeiro momento não, mas é possível. E a vida melhora bastante à medida que progredimos nessa meta.</p>
<p>“Mas Sally, se eu ignorar completamente meu futuro vou virar um mendigo!”. Uau, que salto longo você deu! Tá vendo como o medo é prejudicial? Te deixa irracional! Não sentir medo não quer dizer ignorar completamente seu futuro. </p>
<p>Você pode e deve planejar seu futuro desder um lugar de consciência, de racionalidade, de escolhas. Só não precisa ser movido pelo medo. Acredita na Tia Sally, o medo é a pior força que pode te mover, apesar de ser o combustível mais popular dos últimos séculos, pois além de detonar sua saúde, também detona o seu discernimento e te leva a escolhas não tão boas como as que você poderia fazer se fosse movido por fontes melhores.</p>
<p>Você não precisa do medo para se proteger do futuro, você não precisa do medo para se proteger do passado. Perigo real e iminente? Incêndio em um prédio comercial? Talvez o medo ajude, desencadeando uma descarga de adrenalina que vai te fazer correr mais rápido e fugir para salvar sua vida. Mas fora essas questões de vida ou morte iminentes o medo não é seu melhor aliado.</p>
<p>“Mas Sally, então quer dizer que não posso usar os aprendizados que tive no passado?”. Novamente um salto vertiginoso. Aprendizado é sempre positivo, mas, querido leitor, não existe aprendizado com medo. </p>
<p>Quando tem medo como principal combustível, é trauma que chama. E trauma é ruim, pois cega, acovarda, limita. Um bom exercício na sua vida é se perguntar por qual motivo você está fazendo as coisas: se tiver medo envolvido, respira fundo e gasta um tempinho olhando para essa questão. Onde tem medo tem confusão, falta de clareza mental e algo que precisa ser transcendido para sua própria cura desse estado.</p>
<p>Não é sobre atos ou escolhas. Um mesmo ato ou uma mesma escolha podem partir da consciência ou do medo. É sobre o seu estado interno. </p>
<p>Por exemplo, se eu vejo uma panela de água fervendo no fogão, eu não vou colocar a minha mão dentro, e não estou movida pelo medo, estou movida pela consciência de que se fizer isso vou me machucar e não quero me machucar. Quem deixa de colocar a mão movido pelo medo, com pavor, com sentimentos ruins, taquicardia e sudorese poder até não se queimar, mas causou um dano ao seu corpo. Não escolheu, apenas reagiu.</p>
<p>O medo foi pensado pela mãe natureza como um recurso extremo para momentos de vida ou morte. Se você dispara esse alarme o tempo todo, vai intoxicar seu corpo, vai liberar toxinas que vão minar sua saúde, vai acabar destruindo inclusive sua saúde mental. </p>
<p>A solução? Mantenha-se no presente e entenda que o medo não é o único e definitivamente não é o melhor combustível para desencadear qualquer ação ou processo em você ou nos outros, principalmente em crianças. Que dó que eu tenho de crianças educadas através do medo&#8230;</p>
<p>Estamos viciados em medo, como se ele fosse nossa única ou melhor forma de proteção. E passamos isso adiante. Inclusive tem muita gente que só se mexe, só toma uma atitude, só faz o que precisa ser feito quando o medo a domina. Péssimo. Depender do medo como combustível para fazer ou deixar de fazer algo é uma das piores furadas nas quais você pode se colocar. Outras forças mais gentis e amorosas podem te mover, gerando melhores resultados e menos danos.</p>
<p>O primeiro passo para romper com esse círculo vicioso tóxico de ser movido pelo medo é justamente esse: entender racionalmente que tem outros combustíveis muito melhores e mais eficientes para nos proteger, para nos mover e para lidar com a vida. Agir consciente, agir informado, agir com inteligência e planejamento, por exemplo.</p>
<p>E o primeiro passo é acreditar que é possível, pois é. Talvez no começo sua mente caia no medo, pois são décadas dessa forma de funcionar sendo empurrada em direção a ela por todas as instituições relevantes para a humanidade, mas você pode se desintoxicar. </p>
<p>E se desintoxicar do medo não é ficar desprotegido, inconsequente, vida louca. Há um mundo de distância entre esses dois extremos. Tome decisões conscientes, pensadas, lúcidas e sua vida vai melhorar em vez de piorar.</p>
<p>“Mas Sally, eu sinto medo, não posso evitar”. Eu também, querido leitor. É uma vida inteira regida por essa dinâmica, é normal que o caminho neural volte no automático para o que é familiar. Mas pode ser desfeito. Se você compreender racionalmente que o medo não é necessário para sua proteção como regra e que é um péssimo combustível, pode, aos poucos, educar sua mente e tirá-la do medo cada vez que ela cair nele.</p>
<p>É fácil? Provavelmente não. É rápido? Provavelmente não. Mas é possível. E o ganho é enorme. Pense na mente como um filhotinho de cachorro, que insiste em roer o pé da mesa. Você o tira de lá, mas ele insiste, afinal, nenhum filhote aprende um comando com apenas uma única repetição, em um único dia. Será preciso tirar o filhote e a mente desse lugar muitas vezes, até que eles se acostumem que não devem ir para lá. Demora, mas essa hora chega.</p>
<p>Faça um exercício de auto-observação: quando sentir medo, análise em que lugar do tempo está esse medo. Medo de ser demitido? Está no futuro. Medo de ser traído como sua ex te traiu? Está no passado. Medo de morrer? Está no futuro. Agora, exatamente agora, no presente, tem alguma coisa acontecendo para justificar esse medo? Provavelmente não. Provavelmente as origens, raízes ou projeções desse medo estão no passado ou no futuro. Ou em ambos. </p>
<p>E quando o medo pertence ao passado ou ao futuro, ele está fora de lugar no presente. Ele é disfuncional. E faz mal. Só o mantemos no presente por acreditar que ele gera um ganho secundário muito bom, geralmente uma proteção. Mas essa suposta proteção é apenas uma ilusão. Que tal, em vez de sentir medo de algo passado ou futuro, tentar tirar sua mente desse lugar de medo e levar para a consciência, para o racional, para a lucidez? Isso vai te ajudar a resolver a questão que te incomoda.</p>
<p>Em tese, parece bom, né? Parece racional. Então, por qual motivo não começamos a fazer isso agora mesmo? </p>
<p>Bom, aí entra outra questão. Na sociedade em que vivemos, o medo gera vários ganhos secundário além dessa suposta proteção: acolhimento, atenção, redução de cobrança e muitos outros com os quais somos recompensados quando estamos com medo. E muitas vezes nem os percebemos, só vinculamos o medo a o que julgamos ser um bom resultado. </p>
<p>Acredite, não vale o preço. Medo vicia, pois facilita a vida, abre portas e dá uma falsa sensação de segurança, mas mina sua saúde física e mental em silêncio. Comece sua desintoxicação agora mesmo. Só depende de você.</p>
<p>Eu sei que vão surgir nos comentários argumentos tentando justificar a necessidade do medo. Muita gente realmente acredita que a vida vai virar um caos, um risco ou um descontrole sem o medo. Não é verdade. Talvez você tenha se livrado de algum risco sério na sua vida graças ao medo, mas, se você pensar direitinho, verá que também poderia ter se livrado dele agindo com consciência, com racionalidade, com informação adequada. O medo não é o único caminho, mas é o mais nocivo. Escolha caminhos melhores.</p>
<p>Muita gente também acha que o medo te prepara para algum evento futuro, o que não é verdade, você sofre antes e sofre na hora também, igualzinho. Talvez até pior, por já estar fragilizado depois de se expor a tanto “medo preventivo”. Se não for situação de perigo iminente, de luta ou fuga, desista do medo.</p>
<p>Parem de usar o medo como coringa, como recurso válido para tudo. O medo só tem uma utilidade, que é te ajudar em caso de perigo iminente, todo o resto é desvio de função e existem ferramentas muito melhores para se evitar, contornar ou resolver o que quer que seja. É ameaça real, iminente e está acontecendo agora? Não? Então o medo não é a ferramenta válida, agradeça e recuse.</p>
<p>O problema é que a consciência, a racionalidade, a informação demandam muito trabalho: pensamento crítico, lógica, coerência, estudo e uma série de outros requisitos que nem todos estão dispostos a cultivar. Muito mais fácil escutar um tio vestido de preto que te diga o que um amigo imaginário decidiu que pode e o que não pode, incentivando você a não fazer o que não pode com alguma penalidade estapafúrdia. Haja ansiolítico, haja indutor de sono, haja antidepressivo.</p>
<p>Não tem outro jeito se não tomar as rédeas da sua própria vida e parar de delegar o que pode/não pode, o que é perigoso/não é perigoso para terceiros. Sacerdotes, gurus, coach, sua melhor amiga&#8230; ninguém tem que ditar como viver de forma correta e segura. As pessoas podem aconselhar, mas, em última instância, você deve tomar uma decisão consciente, informada e racional.</p>
<p>Hora de observar a linha temporal do seu medo e remover todos aqueles cujas causas e consequências não pertençam ao presente. Hora de gerar um novo combustível para os seus atos que não seja o medo. </p>
<p>E talvez seja hora de passar a encarar o medo e a vida de outra forma: se você agiu conforme sua consciência, com base em todas as informações que conseguiu reunir, se você se comportou de forma racional e lógica fazendo o que estava ao seu alcance e, ainda assim, um resultado indesejado aconteceu, já parou para pensar que talvez ele não fosse evitável?</p>
<p>Shit happens. Merdas vão acontecer em nossas vidas, mesmo nas vidas das pessoas movidas pelo medo (até mais, já que medo não protege, apenas cega e paralisa). É parte da vida que aconteçam umas merdinhas com a gente. Não dá para querer viver tentando evitar que alguma merda aconteça o tempo todo. De muitas, podemos nos esquivar, de outras não. Esquive-se das que puder, e quanto às outras, bom, faz parte do pacote da existência neste planeta.</p>
<p>E se faz parte do pacote, não faz o menor sentido ter medo. Tá aí por algum motivo, sobrepasse com a melhor graça e elegância que conseguir em vez de achar que é uma punição ou que você, bichinho insignificante nesta galáxia, poderia ter evitado. Ninguém se esquiva de todas as merdas na vida, todo mundo toma um tolete na cara de tempos em tempos. Faz parte do jogo, ou, como diria o sábio Romário: só perde quem bate.</p>
<p>E é aí que entra a fé: se você tem fé em um Deus bom, que zela por você e que cuida de todos, mais um motivo para não ter medo. Ele está no controle e tudo que acontecer terá um motivo. Ter fé em um Deus onipresente, onisciente e onipotente e ter medo são coisas completamente incompatíveis. Reflita.</p>
<p>E se você tem fé em você mesmo, na sua capacidade de tomar as melhores decisões pela sua consciência, pelo seu estudo, pela sua racionalidade, saberá que as merdas que te atingirem não podiam ser evitadas, pois se ferramentas melhores não as evitaram, não seria o medo, uma ferramenta tosca e ultrapassada que o faria. E se não eram evitáveis, não faz o menor sentido viver em desgaste por algo que você não pode evitar.</p>
<p>Comecem hoje um exercício gradual em suas mentes para abandonar o medo como principal ferramenta de proteção e de impulsionamento para tomada de decisões e ações. Ano que vem, nesta mesma data, vocês estarão gratos por ter começado hoje.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que sem medo você se jogaria do alto de uma ponte (então você tem sérios problemas psiquiátricos), para dizer que medo é manobra de contenção de massa (exceto que no Brasil todo mundo tem medo, até quem manobra a massa) ou ainda para dizer que não estava preparado para este grau de discussão: comente.</p>
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		<title>Solitude.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 May 2024 14:55:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Você sabe o que é solitude? Este termo é usado para definir uma situação de isolamento voluntário, no qual a pessoa, por escolha, não está em contato com mais ninguém e usufrui disso de forma positiva para sua evolução pessoal. Ao contrário da solidão, que está associada a dor e tristeza, a solitude gera sentimentos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Você sabe o que é solitude? Este termo é usado para definir uma situação de isolamento voluntário, no qual a pessoa, por escolha, não está em contato com mais ninguém e usufrui disso de forma positiva para sua evolução pessoal. Ao contrário da solidão, que está associada a dor e tristeza, a solitude gera sentimentos positivos: alegria em estar sozinho, em poder se conectar consigo mesmo, em ter oportunidade de olhar para dentro, se conhecer melhor e desfrutar da sua própria companhia.<span id="more-23226"></span></p>
<p>No geral, as pessoas precisam aprender muito sobre solitude e seu valor. Não é concebível uma vida saudável quando falamos de saúde mental sem momentos voluntários e bem aproveitados de solitude. Mas, parece que a maior parte das pessoas só fica sozinha quando não tem opção e isso tem um custo alto para sua vida: muitos progressos de autoconhecimento, evolução pessoal e amadurecimento não podem ser alcançados em grupo ou em casal, só podem ser alcançados em solitude.</p>
<p>Todos os dias vemos alguma notícia falando da importância da socialização, sobre pessoas que vivem menos por estarem sozinhas, mas dificilmente vemos uma notícia que explique, inclusive com embasamento científico, a importância de, esporadicamente, se recolher e estar em quietude consigo mesmo. Provavelmente não convém noticiar esse tipo de coisa, pois uma pessoa recolhida, desfrutando de si mesma, não consome e a última coisa que a mídia quer é gente que não consome nada (inclusive seu conteúdo).</p>
<p>Porém, contra tudo que te vendem, a solitude é fundamental para sua saúde mental e evolução pessoal. E como ela é muito pouco falada, boa parte das pessoas sequer consegue entender seu significado. Por isso, hoje resolvemos falar um pouco mais sobre o assunto e sobre como tirar o melhor proveito desse momento.</p>
<p>Não basta apenas estar sozinho. Uma pessoa sozinha que se anestesia com bebida, com jogos eletrônicos, com redes sociais, com seriados ou com qualquer outro estímulo que desvie a atenção de si mesma não está em solitude e não alcança os benefícios que ela pode proporcionar.</p>
<p>Solitude é se isolar voluntariamente com a intenção de dedicar um tempo e dar atenção a você mesmo (e a mais nada além disso). É momento de olhar para dentro, pensar, refletir, meditar sobre o que você é, suas escolhas de vida e onde você pode melhorar. A forma pela qual cada um vai fazer isso é livre, desde que esteja voltado para si mesmo, para o seu interior (e não para nada externo).</p>
<p>Pode ser se fazendo perguntas, relembrando escolhas, se analisando, observando seus sentimentos ou simplesmente meditando, só para citar alguns exemplos.</p>
<p>Não é sobre fazer isso “no tempo que sobra”, por exemplo, aproveitar que vai tomar banho para pensar um pouco. É optar por separar um tempo da sua vida exclusivamente para isso, com prazer e alegria em fazê-lo, e se dedicar a você, sem qualquer estímulo externo, inclusive sem água e sabão. A atenção é total em você mesmo. É um tempo sagrado para você passar com você mesmo.</p>
<p>E se você não gosta da ideia de ficar com você mesmo, então temos um grande problema aqui que precisa ser resolvido.</p>
<p>Se refletir sobre sua vida, suas conquistas, seus erros, suas decisões, seus comportamentos e até sobre quem você é te é desagradável, é sinal de que você não está feliz com você mesmo e quem não está feliz consigo mesmo dificilmente se ama.</p>
<p>Imagina que inferno viver sem estar feliz consigo mesmo e/ou sem se amar! Não há saúde mental possível e não há relacionamento saudável possível com outras pessoas, pois se você não está feliz com você mesmo, se você não se amar, não se achará merecedor de nada que preste e vai acabar, ainda que inconscientemente, afastando pessoas legais da sua vida, por não se achar merecedor delas. Mais do que nunca, é preciso se recolher, olhar para dentro e corrigir a rota neste caso.</p>
<p>Estar em silêncio, sozinho consigo mesmo, olhando para dentro, olhando para si mesmo não é crucial apenas para sua saúde mental (e, por consequência, saúde física). Também é fundamental para melhorar sua vida, melhorar sua criatividade, melhorar sua produtividade, colocar pensamentos em ordem, entender suas emoções e fazer escolhas melhores. E isso impactará de forma positiva todas as áreas da sua vida, desde a amorosa até a financeira.</p>
<p>É um processo natural e necessário ao ser humano, mas, por diversas circunstâncias e interesses, cada vez mais somos levados a pensar que é perda de tempo, que dá para fazer isso concomitantemente com outras tarefas ou até que isso não é necessário. É necessário sim, e é uma pena que isso não nos seja ensinado desde pequenos, tanto o fato de ser necessário, como ajuda em como executá-lo.</p>
<p>Como tudo nessa vida, solitude requer prática. Ninguém que comece a fazer do nada vai conseguir executar direito, muito menos ter resultados maravilhosos. É o exemplo que sempre damos aqui: ninguém chega na academia levantando peso de 100kg, você começa com 10kg, no mês seguinte passa para 20kg e vai se fortalecendo, aumentando gradativamente. O mesmo vale para a mente. Uma mente que não esteja treinada nada pode fazer, já diziam os sábios.</p>
<p>Mas, nesse mundo imediatista, ninguém parece querer construir nada, a pessoa tenta e se não vier um resultado imediato, decreta que não funcionou “para ela”. Adoro esse conceito de “não funcionou para mim”, principalmente quando aplicado a algo que funciona para qualquer pessoa pelo simples fato dela ser humana. É se achar muito especial, não é mesmo?</p>
<p>A pessoa é o floquinho de neve especial, o único ser humano do mundo para o qual isso não funciona. Fazem isso com solitude, com terapia, com meditação e com qualquer atividade que demande tempo para mostrar resultado. Não caia nessa cilada de achar que o que não tem resultado imediato não funciona. Muito pelo contrário, é hora de inverter esse jeito de pensar e começar a desconfiar do que tem resultado imediato, pois isso sim costuma ser uma furada.</p>
<p>Outra armadilha comum é associar o fato de estar sozinho como algo ruim ou uma perda de tempo. Estar sozinho sempre, completamente isolado, é de fato muito ruim para sua saúde física e mental, mas não estar sozinho consigo mesmo nunca é igualmente ruim. Caminho do meio, já diziam os sábios.</p>
<p>Então, o ponto de partida para você se beneficiar desta ferramenta que, além de ser gratuita ainda gerar infinitas melhoras na sua vida e saúde, é entender sua importância. Assim, você pode se colocar em solitude com o mindset correto: com alegria, feliz por estar fazendo isso por você mesmo, com orgulho por estar fazendo isso por você mesmo, como um ato de autocuidado.</p>
<p>Autocuidado. É impressionante como essa palavra vem sendo estraçalhada pela mídia e pelas redes sociais. Tudo que querem te empurrar para consumir é autocuidado. Veja bem, eu não sou hippie, eu consumo bastante, eu gosto de futilidades como skincare, maquiagem, tratamento para o cabelo. Mas nada disso é autocuidado. É creme, é cosmético, é estética, é produto de beleza.</p>
<p>Hora de prestar muita atenção no que te vendem como “autocuidado”, pois é muito mais provável que você compre algo se acreditar que está cuidando de você mesmo(a). E um shampoo que elimina pontas duplas não está cuidando de você, acredite. Está apenas melhorando sua estética. O buraco do cuidado, meus amigos, é muito mais embaixo.</p>
<p>Salvo raríssimas exceções, geralmente vinculadas a problemas de saúde, nada que você compra está cuidando de você. E nem por isso devemos deixar de comprar coisas, compre o que você quiser, apenas mantenha-se consciente de que consumo, como regra, não é autocuidado, é estética, é status, é um mimo. Para cuidar de você o primeiro passo é se conhecer, se entender e se respeitar. E isso nenhum creme te dá. A boa notícia é: não custa nada, é de graça.</p>
<p>Uma vez que se compreende que a solitude é algo bom, é algo necessário e é algo que vai melhorar sua vida em diversos aspectos, também fica fácil entender que, quem decide não dedicar nenhum tempo a ela está claramente se sabotando. E não é bom viver se sabotando, é uma vida bastante sofrida. Portanto, se esse é o seu caso, procure ajuda de um profissional, lembrando que coach, astrólogo, cartomante e derivados não são vias profissionais.</p>
<p>Dito isto, muita gente tem dúvidas sobre como começar. A resposta é: desde que você dedique um tempo reflexivo a você mesmo, sozinho e sem qualquer distração externa, faça da forma como for mais agradável e produtivo. Não há regras, é possível simplesmente deitar no sofá e pensar na vida, preparar um belo café e beber na sua companhia enquanto reflete voltado para dentro ou qualquer outra forma que transforme esse ritual em algo bom, feliz, agradável.</p>
<p>Como já foi dito, é uma construção, é algo que precisa ser exercitado até que os resultados apareçam, então, não é razoável esperar um grande insight ou mudança imediata. Pode até acontecer, mas não costuma ser a regra. Nem tudo na vida é imediato, muitas coisas necessárias, fundamentais para o seu bem-estar, demandam tempo e comprometimento. Quem não tem esse entendimento vai bater muita cabeça na vida e sofrer bastante antes de conseguir amadurecer e ter uma relação saudável consigo mesmo e com os outros.</p>
<p>Também é normal que, por não exercitar imersão, reflexão e o estar consigo mesmo a pessoa tenha dificuldade nesse processo. Uma pena, isso deveria ser ensinado até nas escolas. É normal ter dificuldade, mas também é normal que ela seja superada com o tempo.</p>
<p>É tudo uma questão de educar sua mente para isso e de se conhecer e entender o que melhor funciona com você. E você só pode educar sua mente praticando. Você só pode se conhecer testando diferentes formas e observando qual é a que mais te agrada ou dá resultado. Quem te vende fórmula pronta te engana, só você pode definir o melhor caminho. Uma fórmula é muito mais agradável, por ser mais fácil, mas é mentira.</p>
<p>Então, tenha em mente que os resultados não virão imediatamente e que, para tirar o melhor proveito da solitude você precisa praticar e entender quais são os melhores caminhos para você se observar, se conhecer, se entender. Só não vale roubar e colocar estímulos externos pois “foi o que mais deu resultado”. A solitude é só você com você mesmo, nada mais.</p>
<p>Talvez para muitos isso soe como um esforço. E talvez no começo de fato seja, mas, com o passar do tempo (segundo a ciência, após três meses internalizamos quase tudo como um hábito) deixa de ser um esforço e passa a ser um prazer, uma rotina, um momento inerente à sua vida. Quer coisa melhor do que conseguir alegria, felicidade e prazer em uma rotina que, além de gratuita, só depende de você?</p>
<p>E ao surgirem os primeiros resultados a sensação de esforço também diminui, afinal, quando você percebe sua vida melhorando passa a ser um investimento em você mesmo e não um esforço.</p>
<p>Não se engane pensando na solitude como uma tortura, algo chato ou algo sofrido. Não se sabote se convencendo disso. Solitude não é “se obrigar a ficar sozinho”, é uma escolha consciente de estar sozinho e desfrutar desse momento, sem estímulos externos, utilizando-o para autoconhecimento, reflexão e auto-observação.</p>
<p>E os resultados não são “apenas” melhora na saúde física e mental, você também ganha todos os desdobramentos disso, inclusive um aumento na produtividade, energia recarregada e uma vida mais tranquila, pois fatalmente ocorrerão mudanças dentro de você que farão com que você se coloque em menos situações de estresse, conflitos e problemas.</p>
<p>Boa parte da resistência em olhar para dentro vem do medo do que vai encontrar. Não precisa ter medo, o que quer que você encontre, você pode trabalhar, mudar, melhorar. Medo tem que ter é de ficar acomodado em uma situação que não é boa para você ou ignorando coisas que não são do seu agrado.</p>
<p>Outro equívoco comum é pensar que, uma vez resolvidas as questões que te afligiam, não é mais necessário dedicar este tempo a você mesmo. Somos pessoas em constante transformação, em constante aprendizado, em constante mudança. Olhar para dentro faz parte desses processos e sempre será necessário se quisermos estar conectados conosco, conscientes e com saúde física e mental. Desconexão de si mesmo gera alterações bioquímicas no cérebro que podem abrir portas que nunca mais se fecharão, como depressão ou síndrome do pânico. Vale investir um tempo do seu dia para evitar esse tipo de problema, certo?</p>
<p>Não é opcional, tem que ser feito se você quiser uma vida com menos drama, estresse e problemas. Não tem como cultivar um relacionamento saudável com mais ninguém enquanto você não cultivar um relacionamento saudável com você mesmo. Não podemos entregar o que não temos ou que não sabemos como conseguir.</p>
<p>E não tem como cultivar um relacionamento saudável com você mesmo enquanto você não se conhecer, se compreender e se respeitar. E não tem como se conhecer ou compreender se não for em solitude. Se conhecer pelo olhar de terceiros é uma das maiores furadas nas quais você pode se colocar.</p>
<p>Então, da próxima vez que olhar para uma pessoa optando por ficar sozinha,  não sinta pena, sinta orgulho dela. Pena temos que ter daqueles que não reservam um tempo considerável para estarem com eles mesmos diariamente, pois estes serão os que mais vão se colocar em situações de sofrimento.</p>
<p>Seu corpo e sua mente são o seu lar, no qual você vai habitar todos os dias da sua vida. Olhar para eles, dedicar tempo a eles, cuidar deles é o primeiro passo para uma vida saudável e serena. Esse deve ser seu primeiro investimento e, só quando estiver com isso em dia, pensar no resto, no que está fora, pois o que está fora depende totalmente do que está dentro. O que está fora só melhora quando o que está dentro melhorar.</p>
<p>A ideia te provoca uma enorme resistência? Tudo certo, não a coloque em prática. Mas guarde esta ideia em algum lugar, pois vai chegar uma hora na qual o resultado de não investir em autorreflexão em solitude vai cobrar seu preço e você vai se cansar da forma como está vivendo e das consequências disso.</p>
<p>Quando chegar esse dia, quando você se cansar de sofrer e se perguntar “não é possível, deve existir um jeito mais fácil de se viver neste mundo”, este texto poderá te ajudar. Tem gente que não muda no amor, apenas na dor.</p>
<p>Quanto ao resto, que não precisa de dor para sair do lugar e melhorar, exercitem a solitude com alegria e convicção, por mais que o resto do mundo não entenda, não aprove ou sinta pena. Lembrem-se: um país que é campeão mundial de consumo de remédio tarja-preta não é referência para te dizer o que é melhor para sua saúde física ou mental.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que você não precisa disso (apenas guarde este texto e visite-o de volta quando a vida te provar que precisa), para dizer que isso não funciona para você (ah, a negação&#8230;) ou ainda para dizer que não entendeu absolutamente nada deste texto: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Violência por omissão.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Apr 2024 15:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos últimos meses fizemos vários textos falando sobre violência da mulher sob um ponto de vista, digamos, mais “popular”. Bater, xingar, gritar e outras formas mais descaradas de agressão. Mas, como temos leitores muito acima da média, hoje me permito de falar sobre uma forma de violência contra mulher muito mais sofisticada, incompreensível para a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos meses fizemos vários textos falando sobre violência da mulher sob um ponto de vista, digamos, mais “popular”. Bater, xingar, gritar e outras formas mais descaradas de agressão. Mas, como temos leitores muito acima da média, hoje me permito de falar sobre uma forma de violência contra mulher muito mais sofisticada, incompreensível para a maior parte da população. Vamos chamá-la de “violência por omissão”, mas, atenção, este termo não existe, eu acabei de inventá-lo, então não saia repetindo por aí.<span id="more-23045"></span></p>
<p>Antes de entrar no tema em si, um rápido esclarecimento: eu julgo ser um tipo de violência, mas não para militar, para cobrar providências judiciais ou para apontar o dedo para alguém. Cada um de nós, inclusive mulheres, somos responsáveis nossa própria felicidade e por quem escolhemos manter em nossas vidas. </p>
<p>Portanto, não é sobre vitimização (fica quem quer com um parceiro que faz isso), é sobre “ei, talvez você esteja fazendo isso sem perceber e gerando uma dinâmica um pouco ruim para a relação”. É meramente para reflexão. Pensem, reflitam, e se acharem que tem que mudar, mudem. Se não, passa amanhã tem que tem outro texto bem mais legal.</p>
<p>Normalmente quem cuida é a mulher e quem descuida é o homem. Óbvio que é uma generalização, óbvio que existem exceções, mas é uma tendência real. Normalmente quem se descuida da sua saúde ou segurança, quem se coloca em risco ou quem negligencia qualquer coisa que precise ser feita é o homem.</p>
<p>E é óbvio que não é só exclusividade de um dos sexos, ambos praticam esse tipo de violência e ambos estão igualmente errados. Porém eu julgo ser mais comum que isso seja feito contra mulheres, por isso esse será o foco do texto, mas totalmente ciente de que pode ser algo de mão dupla.</p>
<p>Vamos lá. O que eu resolvi chamar de “violência por omissão” consiste no não fazer alguma coisa que precisa ou deve ser feita (de acordo com regras universais de bom-senso), coisas que impactam de forma negativa a vida da mulher que está com você (mãe, irmã, filha, parceira&#8230; tanto faz), colocando-a numa posição de angústia, preocupação e sofrimento que levam a uma constante cobrança de algo que a pessoa deveria fazer sem que ninguém peça, por ser algo inerente à vida adulta.</p>
<p>É sempre mais fácil entender por exemplos, então, vamos aos exemplos. Se uma lâmpada da sua casa queima e você decide trocá-la, é esperado que alguns cuidados mínimos sejam tomados. Eu sei, a casa é sua, o corpo é seu, mas se você morrer ou se machucar, isso vai gerar um impacto negativo enorme em quem mora com você. Então, por consideração, não se espera que um adulto normal resolva trocar a lâmpada subindo molhado e descalço em uma cadeira de escritório com rodinhas.</p>
<p>“Mas Sally, isso é um exemplo extremo”. Sim, mas acredite, coisas extremas acontecem. Não é à toa que toda rede social tem algum perfil chamado “é por isso que homens vivem menos”, com marmanjos correndo voluntariamente todo tipo de risco desnecessário. </p>
<p>De qualquer forma, existem diversos tons de intensidade nessa omissão: desde não fazer um checkup anual para saber como está sua saúde até dirigir sem cinto de segurança para não amassar a camisa. São coisas que contrariam e lei, o bom-senso, a higiene, a medicina e a ciência. Uma forma muito sutil de desrespeito, provavelmente perpetrada para (de forma inconsciente) confirmar se o outro realmente gosta e se importa com você ou para conseguir atenção, se autossabotar ou fazer birra por vias truncadas.</p>
<p>Provavelmente uma das causas que impede o autor de dar uma trava desse tipo de comportamento é um mix de burrice com limitação mental, um pensamento de “se eu morrer é problema meu”. Não é. Ao morrer causamos um enorme sofrimento em todas as pessoas que nos amam e podemos até deixar algumas delas, que precisavam do nosso suporte, desamparadas. Morrer não é um problema só seu.</p>
<p>Além disso, morrer não é a única opção. Se você ficar tetraplégico em uma cadeira de rodas, a menos que sua família seja muito rica, é sua mãe, esposa ou filha quem vai trocar sua fralda todo dia e limpar a sua bunda. Se você ficar com qualquer incapacidade, vai onerar absurdamente sua família, tanto em matéria de tempo quanto de dinheiro. </p>
<p>“Mas Sally eu posso estar tomand&#8230;” sim, eu sei, a falácia do tomando banho, cair no chuveiro e se machucar. Seus pais são primos? Só isso explicaria você pensar que a probabilidade de se machucar ou adoecer agindo de forma irresponsável é a mesma de se machucar tomando um banho. Sugiro que veja a estatísticas, por exemplo, de lesões em quem dirige sem cinto e de lesões em pessoas que tomam banho.</p>
<p>Conviver com os outros pressupõe algum tipo de consideração para tentar não chatear, magoar, preocupar ou dar trabalho. Se você não tem essa preocupação/responsabilidade, desculpa te informar, você está sendo muito egoísta. Vale uma reflexão para melhorar.</p>
<p>E a covardia é ainda maior quando se faz isso contra uma pessoa que não pode ir embora. Uma esposa pode se divorciar de você, mas uma mãe&#8230; o custo de virar as costas para um filho deve ser altíssimo. Isso é promover um sequestro emocional, contando que a pessoa não vá desistir, o autor desta violência se porta de forma autodestrutiva sem se importar com o sofrimento que provoca.</p>
<p>Quem leva a vida sem essa responsabilidade de poupar as pessoas que ama acaba colocando estas pessoas em uma situação muito ruim: de ter que relembrar, pedir, cobrar, implorar para que medidas mínimas de segurança e saúde sejam adotadas. Eventualmente, em algum momento, todos vão se cansar e se afastar (ou simplesmente cagar e andar), mas todo o grau de estresse, desgosto e tristeza gerados até então, configuram sim uma violência.</p>
<p>Sujeitar uma pessoa que te ama a te ver correndo um risco desnecessário é uma forma de violência, não um direito seu. Sujeitar uma pessoa que te ama a assistir a você se fazendo mal, é uma violência, não um direito seu. Não fazer a sua parte para ser um adulto funcional é uma violência, não um direito seu. Seja usar drogas, seja não cuidar da saúde, seja beber de forma nociva, seja ser relapso com cuidados que impactam a todos, seja lá o que for, é uma violência, não é um direito seu.</p>
<p>É uma violência por sujeitar quem te ama a um sofrimento. É uma violência pelo tanto que se deixa a pessoa na mão fazendo isso (vai desde sobrecarga nas tarefas diárias até criar um filho sem pai). É uma violência pelo egoísmo de se recusar a se comportar como um adultinho funcional e obrigar todos os que estão à sua volta a vivenciar essa situação disfuncional.</p>
<p>Enquanto a pessoa não consegue abandonar quem se comporta dessa forma, o medo, o desespero, o próprio amor que sente torna impossível não cobrar que o outro melhore, justamente por querer o seu bem. Não é exigível pedir que alguém assista calado enquanto uma pessoa amada não cuida de si mesma, se faz mal ou não faz o que deveria ser feito por qualquer adulto funcional para não onerar demais os outros.</p>
<p>Quando isso acontece, a pessoa que é cobrada tem dois caminhos a tomar: botar a mão na consciência e pensar “poxa, eu sou um merda, olha a preocupação que estou causando, olha o risco que estou gerando, olha a falta de consideração em não fazer tal coisa&#8230; vou fazer o que precisa ser feito” OU pensar que quem cobra é histérica, maluca, chata ou exagerada. Adivinha para qual caminho 99% das pessoas vai?</p>
<p>É muito mais fácil acreditar que a outra pessoa é histérica, maluca, chata ou exagerada. E é extremamente escroto menosprezar quem está tentando cuidar de você, da casa ou da sua família (se um pai morre, um filho fica sem pai). Isso gera um desgaste que pode ter inúmeros desdobramentos negativos para a pessoa que está ali lutando por algo que seria sua obrigação fazer. </p>
<p>Desde um cansaço extremo que pode até culminar em uma depressão, até um problema de autoestima que faz a pessoa que pede acreditar que ela é histérica, maluca, chata ou exagerada. Isso não se faz. Isso é uma forma de violência. Isso não é legal. Isso transtorna todos os moradores da casa e talvez a família toda.</p>
<p>Diga-se de passagem, um adultinho deveria, sozinho, saber muito bem o que precisa ser feito na vida adulta para cuidar de si mesmo, dos outros e de uma casa. Já é um enorme desaforo e motivo de vergonha profunda que alguém tenha que te apontar o descumprimento de algo que você deveria fazer por iniciativa própria. Responder a isso com descaso ou até menosprezando a pessoa? Desculpa, inaceitável.</p>
<p>E nem precisa ser algo grave de saúde ou segurança, pode ser simplesmente uma tarefa que precisa ser feita. Tem um saco de lixo pesado para levar para fora da casa: o que é mais razoável, que uma mulher de 50kg amamentando um bebê o faça ou que um marmanjo de 90kg que está assistindo televisão o faça? Pois é. </p>
<p>Se nós fizemos nosso trabalho direito e selecionamos nossos leitores para que todos tenham o QI maior do que o de uma ameba, ninguém vai discordar que o lixo precisa ser tirado de dentro de uma casa, certo? Seria, no mínimo, esperado, que uma tarefa envolvendo força seja executada por um homem.</p>
<p>Mas, certamente nesse Brasil de Meu Deus tem homem que não faz pois “está cansado e trabalhou o dia todo” e vai deixando o lixo acumular. E quando a mulher reclama, ele dá a entender (ou diz diretamente) que ela é chata, que ela não dá paz, que ele não tem sossego na própria casa (às vezes dando a entender que isso pode fazer com que ele abandone a casa), que ela que tudo no tempo dela (mesmo que o lixo esteja cercado por uma nuvem de moscas e fedendo), que ele não tem o direito de descansar cinco minutos e toda a ladainha que vocês, mulheres, já conhecem.</p>
<p>Não seja essa pessoa. Não protele demandas da vida adulta, obrigando que outras pessoas precisem ficar no papel de “chata”, “enchendo o seu saco” e cobrando de você. É exauriente para quem cobra, e é vergonhoso para quem é cobrado. Seja um adultinho funcional, proativo, e faça as coisas que a vida adulta demanda sem que ninguém precise ficar te cobrando. </p>
<p>A vida adulta já é difícil o bastante, não dificulte ainda mais a vida dos outros. Seja parceiro, seja rede de apoio, seja ajuda. Não seja peso, transtorno, mais uma obrigação. E tenha em mente que se as pessoas que estão te cobrando forem embora, o problema desaparece para elas. Você, por sua vez, está muito fodido com sua vida protelatória sozinho. </p>
<p>Então, se não por consideração aos outros, por inteligência mesmo, se organiza, faz um cronograma do que precisa ser feito e vai zerando ele aos poucos. Não dói não. Não é tão difícil. A maioria dos adultos faz, tenho fé que você consegue também.</p>
<p>E se não consegue, bem, procure ajuda. Tem algo dentro de você que precisa ser revisado e compreendido. Ser um adultinho não-funcional não deveria ser uma opção, pois além de transtornar a vida de todos à sua volta (repito: cedo ou tarde as pessoas cansam e vão embora), é ruim para você mesmo. E o primeiro passo é se desculpar com quem está à sua volta e verbalizar que não consegue, assim as pessoas não ficam pensando que é descaso, falta de consideração ou egoísmo. Ninguém tem bola de cristal para ler a sua mente.</p>
<p>Cumpra suas obrigações de uma vida adulta: cuide da sua saúde física, mental, da sua higiene, cumpra o combinado nas suas relações (familiares, amorosas e de trabalho), respeite a lei, não se coloque em risco de forma desnecessária e tenha um pingo de empatia pelas pessoas que te querem bem. Não deveria nem ser preciso pedir.</p>
<p>E a vocês, mulheres, que estão neste momento no papel da chata que tem que cobrar o óbvio, só um conselho: saia. Abandone quem quer que seja que te colocou nessa posição. Por mais legal que a pessoa seja, por mais sem querer que seja, por mais que o ame. Saia. Não é bom, não é saudável. </p>
<p>Uma pessoa que não consegue dar esse mínimo e ainda joga contra você quando isso é sinalizado é uma pessoa que ninguém tem que ter por perto. Saia. Se não puder sair agora, comece a se preparar para sair (arrume um trabalho, faça terapia, faça o que for), estipule um prazo e saia.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para me chamar de histérica, maluca, chata ou exagerada, para dizer que vai proibir sua esposa de ler o Desfavor ou ainda para dizer que se ao menos um homem sentir vergonha de fazer isso daqui para frente o texto terá cumprido sua missão: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>A culpa não é dos seus pais.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2024 15:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Minha falecida mãe, psicóloga e psicanalista, costumava dizer a seguinte frase: “os filhos sobrevivem aos pais”. Pais são seres humanos, portanto, falhos. Tudo piora em um país que não dá tanto valor à psicologia, psiquiatria e saúde mental. Tudo piora ainda mais se a gente pensa no grau insano de demandas, exigências e estresse do [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Minha falecida mãe, psicóloga e psicanalista, costumava dizer a seguinte frase: “os filhos sobrevivem aos pais”. Pais são seres humanos, portanto, falhos. Tudo piora em um país que não dá tanto valor à psicologia, psiquiatria e saúde mental. Tudo piora ainda mais se a gente pensa no grau insano de demandas, exigências e estresse do dia a dia. Pais errarão com os filhos. Errarão muito, mesmo com a melhor das intenções. É inevitável. O ponto é: o que nós decidirmos fazer com esses erros.<span id="more-22923"></span></p>
<p>Vejo novas gerações de vitimizando demais, colocando culpa nos pais, atribuindo a erros deles características, defeitos e dificuldades suas. Aqui mesmo nos comentários às vezes aparecem umas coisas que me fazem suspirar alto e pensar para onde vamos quando essa geração estiver nos principais cargos de chefia do mundo. Hora de uma verdade dura: o que você é hoje não é o resultado do que seus pais fizeram com você e sim do que você fez com o que seus pais fizeram com você, ou seja, o que você é hoje é responsabilidade 100% sua.</p>
<p>Não estou dizendo que abusos, erros graves e maus tratos não deixem sequelas. Estou dizendo que, não importa o que tenha acontecido com você, existem muitas formas, caminhos e recursos para superar e ser quem você quer ser. E não necessariamente dependem de dinheiro. Dependem de uma escolha pessoal, interna sua. O que você quer fazer com isso?</p>
<p>Já conversamos sobre isso em outro texto: as pessoas fazem o que acreditam ser o melhor, dentro das suas possibilidades. Todos nós fazemos nosso melhor. O melhor de algumas pessoas é uma porcaria insuficiente? Pode ser. Provavelmente essa pessoa também não recebeu nada melhor do que isso e enfrenta severos obstáculos e restrições para fazer melhor. Cabe a você quebrar esse círculo e ter a consciência de não deixar que isso determine quem você é.</p>
<p>Claro, é muito mais fácil se acomodar com seus defeitos e limitações atribuindo tudo a erros de criação, falta de consideração e abusos sofridos. Culpar os outros, culpar fora, é sempre mais fácil. Colocar as consequências como inevitáveis é mais fácil. Mas, se a gente parar para pensar, verá que outras pessoas que sofreram os mesmos problemas não necessariamente tiveram as mesmas respostas, sequelas ou limitações. Então deve ter algum componente subjetivo aí, não é mesmo?</p>
<p>Você tem o controle de como os erros dos seus pais irão te impactar e impactarão a sua vida. Você não é uma vítima do erro dos seus pais, você é um ser humano em uma jornada para lidar da melhor forma possível com eles. E se você ainda não começou essa jornada, comece hoje. Para o resto da sua vida você olhará para trás e será grato por ter começado.</p>
<p>O primeiro passo é assumir que a responsabilidade é sua. Não é dos seus pais, não é da sociedade, não é de mais ninguém. É só sua. Todo mundo passa por privações, eventos tristes, eventos traumáticos e muitas outras fontes de desgraçamento mental. Uns mais, outros menos, mas, em alguma medida, todos nós estamos travando algumas batalhas internas. Então, respire fundo e esqueça os outros e o que eles te fizeram, daqui para frente é sobre o que você vai fazer com o que te fizeram.</p>
<p>Um bom começo é retirar seus pais do papel de vilões. Salvo que sejam psicopatas, eles estavam fazendo o melhor que podiam com a educação que receberam, com realidade na qual viveram, com o preparo emocional que tinham. Não adianta olhar sob a luz da sociedade atual o que pais deveriam ter feito 10, 20, 30, 40 anos atrás. Eram outros tempos, havia menos acesso a informação e, se for antes dos anos 90, criança nem gente era.</p>
<p>Da mesma forma que existem pessoas com deficiência física, que não podem andar, que não podem falar, que não podem ver, existem pessoas com deficiências emocionais. Pessoas que são incapazes de alguns tipos de afetos, relacionamentos ou trocas por uma série de fatores que aconteceram em suas vidas e nunca foram tratados. </p>
<p>Talvez seus pais sejam deficientes emocionais. É uma questão relativamente recente, não se falava sobre isso antes dos anos 2000, portanto, eles não tiveram oportunidade de trabalhar o problema. Talvez eles sequer tenham a compreensão de sua deficiência emocional. Outros tempos: a gente era o que a  gente era e se virava com isso aí. Terapia era “coisa para maluco”. Mas os tempos mudaram, você pode ser melhor do que isso.</p>
<p>E você só pode mudar a você mesmo, não pode mudar os outros. Se seus pais são deficientes emocionais, em vez de raiva, revolta ou cobrança, eu recomendo um pouco de compaixão e acolhimento. Ninguém grita com um paraplégico para que ele caminhe. Não cobre o que o outro não pode te dar. Não cobre o outro. Foco em melhorar a você mesmo.</p>
<p>Seus pais estavam fazendo o que eles podiam, o que eles achavam melhor, o que eles, dentro das inúmeras limitações (emocionais, financeiras, educacionais e muitas outras) achavam mais adequado. Erraram? Com certeza. Mas esses erros não precisam determinar quem você é. Quem você é é uma construção sua, você pode pegar “bloquinhos” para montar quem você é em infinitas fontes, não apenas nos seus pais e nos erros que eles cometeram.</p>
<p>Você tem traumas, medos, dificuldades? Bem-vindo ao clube, todos nós temos. A grande pergunta é: o que você faz para tentar superá-los e ser melhor, se sentir melhor, viver melhor? Existem infinitas possibilidades. E ficar onde está culpando os seus pais não é uma delas, não para um adulto funcional.</p>
<p>Você pode procurar ajuda de profissionais sérios (psicólogos, psicanalistas e psiquiatras) de forma gratuita ou pagando um valor simbólico. Existem diversos institutos que fazem esse trabalho. Existem faculdades e universidades que fazem esse trabalho. Uma busca rápida no Google te ajuda a descobrir como, quando e onde. Olha que privilégio viver nos tempos atuais, nos quais consultas podem ser feitas por videochamadas! Tenho certeza de que em todo o Brasil você encontrará ao menos um profissional que possa te atender.</p>
<p>Também é possível procurar por vídeos, palestras, cursos, depoimentos online ou qualquer outra fonte sobre o que você vivenciou e acredita ter te impactado de forma negativa. Claro, fontes que falem sobre como superar isso, não que acrescentem raiva e revolta. Muitas vezes um depoimento sincero no Youtube ajuda a ver a coisa com outros olhos. Uma live ajuda a ressignificar. Uma aula explicando de onde isso veio te dá ferramentas para virar uma página. Seja proativo e curioso, pesquise, procure, escute. Com sorte, no caminho, você encontra pessoas que digam algo que te ajude.</p>
<p>Problemático era quando não existia internet, quando não existia a menor possibilidade de ter acesso a informações de forma fácil, rápida e gratuita. Hoje tudo vai depender da sua disposição em se fazer responsável por sua melhora e usar seu tempo com essa prioridade.</p>
<p>Outro ponto importante para começar essa jornada é acreditar que você tem a força necessária para superar isso. Eu aposto o que vocês quiserem que aparece ao menos um comentário no estilo “Você acha que é fácil?” neste texto. Bem, agora que eu mencionei, talvez não apareça. Mas muita gente vai pensar “você acha que é fácil?”.</p>
<p>Eu disse que era fácil? Aponte o trecho do texto no qual eu disse que era fácil. Eu nunca disse que seria fácil, eu disse que é possível, e que é uma jornada, uma caminhada, um processo gradual. E você só vai conseguir esta jornada se acreditar que pode fazê-lo. A limitação está apenas na sua cabeça. E cá entre nós, é vergonhoso que eu tenha mais fé em você do que você mesmo, hein? Não caia nessa armadilha de decretar que não dá. Dá sim. Dizer que não dá é só se esconder.</p>
<p>“Mas Sally, eu não acho que possa fazê-lo”. Beleza. Então antes de começar a jornada vamos fortalecer essa autoestima, essa autoconfiança, essa autoimagem. Entenda de onde vem essa falta de confiança em você mesmo e procure desconstruir as crenças que te paralisam e te fazem pensar que não vai conseguir. E aqui valem os mesmos recursos de antes: assista a vídeos, faça terapia, converse com pessoas que já passaram por isso, leia, beba de todas as fontes que falem sobre o assunto de forma construtiva e proativa para tentar se fortalecer e começar a jornada.</p>
<p>Depois que você entender que seus pais estavam fazendo o melhor, que existem pessoas com deficiências emocionais e que você tem o poder de determinar o quanto os atos de terceiros vão te impactar, vem a hora do perdão. Não é um evento, uma cerimônia ou uma declaração. É interno, silencioso, em quietude.</p>
<p>Perdoar os seus pais pelos erros que eles cometeram com você, ciente de que provavelmente eles não podiam fazer diferente. Perdoar a você mesmo se em algum momento você acreditou ser merecedor desses maus tratos, negligências ou erros. Perdoar a si mesmo se em algum momento sentiu raiva, ódio ou outro sentimento negativo por eles. Perdoar a você mesmo se até agora não conseguiu ver as coisas com clareza, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Perdoar todas as mágoas e sentimentos negativos para poder virar a página.</p>
<p>Parece bobagem, mas o perdão é importante. Falta de perdão, principalmente de perdão consigo mesmo, leva a culpa. E culpa é uma âncora que só te afunda e mina sua saúde mental. E é uma âncora silenciosa, que muitas vezes fica ali escondidinha no seu inconsciente e você nem percebe. Então, sem a necessidade de dizer uma palavra (só se você achar que precisa dizer), trabalhe o perdão dentro de você. O outro nem precisa saber. </p>
<p>E, não custa esclarecer, por mais óbvio que seja, perdoar não é uma afirmação. Não basta repetir que perdoa alguém, tal qual irmãos emburrados que saíram no tapa quando a mãe ordena “pede desculpas para o seu irmão a-go-ra!”. Isso é desculpas da boca para fora. Perdão é abrir mão de um sentimento negativo. É passar uma borracha. É zerar qualquer mágoa, ressentimento ou pendência. Perdão é deixar ir. Solte. Deixe ir. Vire a página.</p>
<p>E esse deixar ir é unilateral. É um trabalho só seu. Não precisa de admissão de culpa do outro lado, de reconhecimento do que fez, de nada. É você, sozinho, dentro de você quem vai fazer a escolha de soltar isso, de não viver imputando esse peso e essa responsabilidade. Fizeram com você o melhor que era possível dadas as circunstâncias, cabe a você fazer o seu melhor para lidar com isso, inclusive para se desfazer disso.</p>
<p>Pode não ser rápido, pode não ser automático, mas é possível. Tudo depende do quanto você quer e do quanto você investe nisso. Existem muitos caminhos e você terá que testar e encontrar o seu. Para mim, o caminho mais eficiente é a empatia, é o se colocar no lugar da pessoa, naquela circunstância, analisando as ferramentas que a pessoa tinha e tentar compreender o que levou às decisões bostas. Tentar não julgar. Tentar tirar o peso desses acontecimentos da sua vida.</p>
<p>“Mas Sally, são pessoas que ainda me fazem mal”. Se te fazem mal, afaste-se.  Ninguém tem que ser obrigado a se colocar em uma situação de violência. Porém, isso não impede o perdão. Dá para compreender, perdoar e se afastar até que você consiga lidar com essas pessoas sem que elas te façam mal. Se você nunca chegar lá, que pena, o afastamento será permanente. Se um dia você conseguir compreender que as coisas têm a importância que a gente escolhe dar a elas e terceiros não puderem mais te abalar, será possível uma reaproximação.</p>
<p>Situação compreendida, envolvidos perdoados, é hora de correr atrás do tempo perdido. Em que esfera da vida os erros dos seus pais te impactaram? Fortaleça-a. Trabalhe, desenvolva e alimente aquilo que você se julgava incapaz, que acreditava ser seu ponto fraco. Pode ser o físico, pode ser um aspecto emocional, pode ser relacionamento, tanto faz. Assim como um músculo lesionado precisa de atenção e exercícios para recuperação, um emocional lesionado também.</p>
<p>Seu trauma está relacionado a físico? Vai malhar, para ganhar massa ou emagrecer ou mudar o que quer que te faça sentir mal. Está ligado a relacionamento? Leia livros sobre, assista vídeos sobre, com a mente aberta e buscando bons curadores de conteúdo (e não gente que caia no seu viés de confirmação). Converse com quem tem bons relacionamentos, escute. Esteja aberto, observe qual é a sua parte para que a coisa não dê certo. Tire o foco do outro, não existe nada fora, o que aparece fora é o resultado do que você está mostrando ao mundo de dentro de você. Quem planta merda, colhe bosta. Pare de plantar merda e vai parar de colher bosta.</p>
<p>Trabalhe a área que você acredita ter ficado defasada. O que somos na vida, o que aprendemos na vida, o que executamos na vida vai muito além dos nossos pais. Eles não puderam te dar o suporto para essa área ficar do jeito que você gostaria? Ok, agora você é um adulto, não mais uma criança, e pode providenciar isso por você mesmo. Providencie. E se não providenciar, pare de culpar os outros, pois foi uma escolha ou inércia sua.</p>
<p>E, por fim, vigilância, eterna vigilância. Você identificou onde estão seus pontos fracos, suas zonas problemáticas. Fique sempre de olho para não correr de volta para o mesmo buraco de onde saiu, principalmente em tempos difíceis. Todos tendemos a isso. Esteja atento e desfaça qualquer retrocesso assim que o identificar.</p>
<p>Cabe a você, e só a você, escolher quem quer ser. Já deu de culpar algo externo: pais, as mulheres, os homens ou caralho a quatro. Hora de ser adultinho e responsável pela construção de quem você quer ser.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que prefere botar a culpa nos outros, para dizer que para mim é fácil sem saber absolutamente nada da minha vida ou ainda para dizer que quem culpa os pais por tudo paga a língua quando tem filhos: comente.</p>
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