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	<title>Des Global &#8211; desfavor</title>
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	<description>REPÚBLICA IMPOPULAR</description>
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		<title>Sobre o assassinato de Charlie Kirk&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2025 19:02:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Dois dias atrás o ativista político Charlie Kirk foi assassinado num evento no estado de Utah, nos EUA. Foi tudo capturado ao vivo com diversas câmeras, numa imagem chocante que varreu o país. Um atirador o acertou diante de uma plateia incrédula que incluía sua mulher e filhos. Menos de uma hora atrás, o FBI [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Dois dias atrás o ativista político Charlie Kirk foi assassinado num evento no estado de Utah, nos EUA. Foi tudo capturado ao vivo com diversas câmeras, numa imagem chocante que varreu o país. Um atirador o acertou diante de uma plateia incrédula que incluía sua mulher e filhos. Menos de uma hora atrás, o FBI divulgou que pegou o culpado.<span id="more-32920"></span></p>
<p>Vamos primeiro estabelecer quem foi Charlie: a forma mais simples de explicar é dizer que ele era um ativista/influencer da direita americana que não fazia tanto barulho ao ponto de estar sempre na mídia, mas era conhecido ao ponto de ter um episódio recente do South Park tirando sarro dele. Boa parte dos americanos sabia quem ele era, e tinham opiniões prévias sobre a pessoa.</p>
<p>O negócio dele era muito focado em ir até universidades americanas para debater com o estudante lacrador médio. Fazia grandes eventos e abria o microfone para quem quisesse discutir com ele, num espetáculo de debate que parece meio alienígena no Brasil, mas faz muito parte da cultura de lá. Eles tem clubes de debate nas escolas, então as pessoas entendem esse tipo de evento de forma muito mais natural.</p>
<p>E é claro, uma pessoa de direita debatendo em universidades está quase sempre em território “inimigo”. Kirk fez sua imagem ao redor da ideia de “destruir os lacradores com fatos e lógica”. É uma indústria a essa altura do campeonato, suficiente para bancar muita gente que só faz isso da vida. Cristão devoto, Kirk repetia todos os pontos conservadores que já estamos carecas de ouvir, especialmente naquele combo direito de ter armas e proibição de fazer abortos.</p>
<p>Como sua morte foi um evento midiático enorme por lá, e como a internet fez com que quase todo mundo visse o vídeo horrível do tiro, a confusão foi enorme, especialmente nas redes sociais. Primeiro as reações de choque, e depois a coisa esquentou rapidamente com a turma da direita dizendo que “agora é guerra” e a turma da esquerda tirando sarro e dizendo bem-feito. E sim, teorias da conspiração por todos os lados.</p>
<p>O atirador ainda estava solto, e nesse estado de incerteza, foi chamado de profissional da Mossad a transexual de cabelo colorido. No meio tempo, vimos as pessoas simpáticas a Kirk e/ou sua causa começarem um movimento para basicamente cancelar todo mundo que tirou sarro ou disse que o ativista mereceu morrer. Tem lista online e tudo.</p>
<p>Para ser honesto, Kirk disse várias coisas em vida que facilitaram e muito a vida de quem queria ser crítico com a vítima: já havia dito que algumas mortes eram o preço a se pagar pela liberdade de ter armas. Como ferrenho defensor da Segunda Emenda (a parte da Constituição deles que permite armas para basicamente todo mundo) apareceu diversas vezes depois de tiroteios dizendo que não deveríamos tomar decisões políticas no calor do momento.</p>
<p>Kirk não era o tipo de maluco como Alex Jones (aquele que disse que crianças mortas num tiroteio eram atores e atrizes de uma armação do governo para tirar as armas das pessoas), da turma da direita local era um dos mais calmos e dispostos a conversar, mas suas opiniões não eram moderadas. É razoável que muita gente não gostasse dele. Eu mesmo discordo muito de quase tudo o que ele falava.</p>
<p>Então, tem uma zona cinza entre o que ele dizia de verdade e como se portava. Eu entendo quem disse que o atirador matou uma das vozes mais moderadas da direita, mas moderada em volume e violência: no final das contas o método dele era literalmente ir discutir com quem discordava. Não estamos falando de um centrista preocupado com excessos, ele era demonstravelmente de direita, muito conservador na parte de comportamento.</p>
<p>E se você está com seu alarme para hipocrisia e incoerência disparado agora, é normal: a turma que acha que piada é crime está tirando sarro na cara dura da morte chocante de Kirk, a turma que defende liberdade de expressão está tentando cancelar todo mundo que faz isso. Como de costuma, tudo depende de gostarem ou não da pessoa. Brasileiros que ganham em dólar, como a Sally sempre diz.</p>
<p>Morreu de tiro um defensor ferrenho do porte livre de armas, morreu assassinado por sua opinião alguém que discordou do lado que se diz da tolerância. A ideologia aqui é complicada, mas a percepção que é mais um crime da radicalização política recente não é. É claro como o dia, usando uma expressão americana.</p>
<p>Porque agora vamos para a parte atualizada nesta manhã: capturaram o atirador, aparentemente o próprio pai o denunciou para o FBI. E a coletiva de imprensa foi uma das coisas mais surreais que eu já vi. Começam falando como chegaram na pessoa, as evidências que os fazem acreditar que pegaram a pessoa certa, mas ninguém estava preparado para a descrição do que estava escrito nas balas.</p>
<p><em>&#8220;Notices bulge OwO, what&#8217;s this?&#8221;<br />
&#8220;Hey fascist! Catch!&#8221;<br />
&#8220;Oh bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao&#8221;<br />
&#8220;If you read this, you are gay LMAO.&#8221;</em></p>
<p>Eu nem sei como explicar para quem não está terminalmente online o que estava ali, mas eram piadas de internet. A bala que matou Charlie Kirk tinha escrito “notices bulge OwO”, o que eu talvez definiria como uma frase gay infantilizada furry irônica&#8230; a frase que fala de fascismo é bem óbvia, a do “bela ciao” é uma música antiga italiana reconhecida como resistência ao fascismo, e a última é uma piada descarada: se você está lendo isso, você é gay.</p>
<p>Imagina ver autoridades tendo que ler isso para o mundo inteiro numa coletiva. E o chefe do FBI ainda terminou seu discurso dizendo que veria Kirk em Valhalla. Está puxado, viu? Caso não tenhamos nenhuma reviravolta, parece que o assassino realmente tinha motivações políticas, mas o curioso dessa vez é que até onde ficamos sabendo, não era uma pessoa problemática, daqueles tipos que falam sozinhos ou chamam a atenção de todo mundo por serem monotemáticos e conspiratórios.</p>
<p>O assassino era um rapaz de vinte e poucos anos, branco, de família americana genérica e interesse por armas como tantos outros. Até o senso de humor dele é típico de quem passa muito tempo online, as balas eram postagens imbecis que tantos fazem por aí. A diferença é que eram balas, e uma delas matou um famoso ativista político.</p>
<p>O que estamos vendo agora são pessoas mais “normais” entrando na questão política com uma visão violenta das coisas. A quantidade de pessoas alinhadas à esquerda americana que simplesmente comemorou o assassinato de Kirk demonstra como não há mais empatia. E adivinha só? Tem frase do morto dizendo que empatia é uma construção social inútil, respondendo a críticas sobre sua visão fria sobre vítimas de tiroteios.</p>
<p>Dado tempo suficiente, grupos políticos adversários se afastam o suficiente para desumanizar um ao outro. O que deveria unir as pessoas em uma percepção compartilhada das coisas não une mais. A mesma cena chocante de um homem morrendo na frente da família por suas opiniões não registra de forma parecida. O público americano está perdendo o pouco de bom senso que ainda tinha com essas coisas, porque não se pode esquecer quanta piada foi feita com George Floyd quando ele foi morto pelo policial, e quanta piada ainda é feita.</p>
<p>O que parte o coração de um é só uma cena de filme para outro. Longe de mim dizer que não pode fazer piada, eu acho um retrocesso a direita americana estar tentando cancelar quem riu da morte de Kirk. Infelizmente liberdade de expressão vem com isso no pacote. Mas existe uma diferença entre insensibilidade local e insensibilidade pública: eu não sei se o público moderno realmente entende que rede social é algo aberto, que é praça pública.</p>
<p>E que essa diferença é essencial na divisão política, porque tem coisas que é melhor não ouvir um do outro. E com tantos anos de rede social, já temos uma geração inteira de adultos que acham normal esse nível de conversa pública. Existe uma radicalização que é resultado de perder a sensibilidade sobre o que se diz, a pessoa não percebe mais que é ruim para ela criticar o morto diante da viúva no funeral! E na rede social você está fazendo isso.</p>
<p>A morte de Kirk foi uma piada para o assassino. Isso pode ser resultado direto de radicalização por insensibilidade. Prepare-se para ver os EUA discutindo um pouco mais sério a liberdade de expressão, porque estamos vendo uma troca de xingamentos no funeral dos amigos uns dos outros. A ordem de soluções burras começa com cancelamento e eventualmente chega na censura (a solução inteligente é educação e autocontrole para manter o direito de expressão vivo sem usar a força do Estado para controlar ideias). A direita americana mudou um pouco depois desse caso.</p>
<p>E essa mudança pode ser uma guinada ainda mais autoritária, porque acabaram de matar justamente o cidadão que por mais besteira que falasse, ainda acreditava de coração que dava para conversar. E cada dia que passa vemos o lado que crescemos vendo como iluminado e democrático regredindo para seus dias de revolução sangrenta. Estão matando a conversa na metáfora e na prática.</p>
<p>Não foi pouca coisa o que aconteceu, pode só parecer lacração de direita e esquerda agora, mas algo mudou no clima do país que sempre exporta sua política para cá. Isso é violência política normalizada. Tem um preço.</p>
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		<title>Trump é burro ou esperto?</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/07/trump-e-burro-ou-esperto/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jul 2025 19:16:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Resposta: sim. Falta pouco para começarem as tarifas de 50% sobre o Brasil. A melhor previsão que eu posso te dar sobre elas entrarem em vigor ou não é: talvez. E isso tem tudo a ver com a burrice e a esperteza que coexistem no presidente americano. Eu começo essa análise com uma pergunta: de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Resposta: sim.<span id="more-31444"></span></p>
<p>Falta pouco para começarem as tarifas de 50% sobre o Brasil. A melhor previsão que eu posso te dar sobre elas entrarem em vigor ou não é: talvez. E isso tem tudo a ver com a burrice e a esperteza que coexistem no presidente americano.</p>
<p>Eu começo essa análise com uma pergunta: de que vale o poder se você não o exerce? Os EUA concentram o poderio econômico, cultural e militar mais hegemônico que já vimos no mundo. Eles pegaram o mundo pós-industrialização e entenderam a alma da coisa como mais ninguém. Ajudou e muito ter um país virtualmente impossível de ser atacado numa guerra e ser um dos lugares mais ricos em recursos naturais do mundo.</p>
<p>Desde que a globalização tomou conta da economia mundial, os americanos tiraram muita vantagem da sua posição privilegiada, o mundo mais conectado significava mais vias de expansão de poder. A Coca-Cola chegou no bar mais perdido da ilha mais distante da Oceania. Sua indústria cultural influenciou elites europeias e favelas africanas. Seu exército se posicionou de forma a conseguir atacar qualquer lugar do planeta em poucos minutos.</p>
<p>E durante algumas décadas, isso foi suficiente. O mundo girava ao redor deles, especialmente depois da derrocada da União Soviética. Exercer o poder neste contexto não era mais complicado do que continuar fazendo o que já faziam. Mas a globalização continuou, e não eram só eles se espalhando. Hoje há um argumento real sobre quem é mais importante para a economia mundial entre EUA e China.</p>
<p>O império ianque não desabou, mas não é mais o mesmo. Se eles queriam espalhar seus valores capitalistas, conseguiram. Quase todo mundo joga o mesmo jogo que os americanos, e alguns de forma mais eficiente. Já tinha escrito aqui antes, mas acho bom reforçar: o poder que Trump tem em mãos ainda é assustadoramente maior que qualquer outro líder mundial. Quando tudo se resumir ao menor denominador comum, o porrete dos EUA ainda é o maior.</p>
<p>Mas, novamente&#8230; e se os outros deixarem de acreditar que você vai usar o porrete? De várias formas, o resto do mundo começou a testar o quanto podia confrontar os EUA e sair ileso. Acontece que era bastante. Por uma série de motivos como rejeição interna ao papel de polícia do mundo e por vários outros externos como o dinheiro gerado pela globalização, muitos de nós vemos os EUA como um gigante manipulável.</p>
<p>E aqui entra a estratégia de Trump: muito por instinto de capitalista selvagem e ego incontrolável, o presidente americano conseguiu captar essa ideia de potencial desperdiçado. Investem trilhões em manter o mundo sob seu controle, mas ainda sim negociam como se precisassem ser justos? A ideia de colocar a América na frente tem muito a ver com americanos sentindo que estavam pagando por um serviço que não conseguiam usar.</p>
<p>O custo de ser líder do mundo não parecia mais entregar resultados práticos. O “inconsciente coletivo” que Trump capturou por lá foi justamente o de que estava mais do que na hora de colher os frutos dessa dominância. Antes que rivais como a China tivessem a oportunidade.</p>
<p>E eu considero isso burrice e esperteza, não sei ainda te dizer qual parte é mais relevante. Pensa comigo:</p>
<p>Por que é burrice: os EUA estão gastando o potencial que desenvolveram nos últimos cem anos. Eles são a espinha dorsal do comércio mundial, por causa do seu dinheiro que é a moeda de fato de transações internacionais, e muito por causa da proteção militar que fazem dos oceanos, por onde passa a maioria dos produtos trocados no mundo. Quando você gasta esse capital, o resto dos países começa a se mexer. Se você não vai mais oferecer essa estrutura com alguma ilusão de imparcialidade, seus concorrentes vão começar a investir nisso. Essa dependência dos americanos pode ser reduzida, e já estamos vendo isso acelerar por causa das tarifas de Trump.</p>
<p>Além disso, quebra a confiança e a estabilidade “padrão” dos EUA. O dinheiro do mundo sabia que não importava a situação, os EUA estariam abertos e funcionando de forma previsível 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não é à toa que em toda crise se compra muito dólar. Existe a confiança que pelo menos ele vai continuar funcionando. Trump criou insegurança no mercado, agindo de forma personalíssima e impulsiva. Em alguns anos, podemos ver investidores olhando com mais carinho para outros países e moedas mais confiáveis.</p>
<p>Tudo o que ele ganha agora com suas políticas pode custar muito mais caro no futuro. Você vai ver concorrentes se tornando mais independentes e vai ver o dinheiro do mundo pensando em alternativas, coisas impensáveis até poucos anos atrás.</p>
<p>Por que é esperteza: se você pensar que nenhum império é para sempre, talvez valha a pena transformar seu investimento em lucro e ter uma gordura para encarar um futuro menos hegemônico. A escolha entre decair lentamente sem sacar seu dinheiro e decair mais rápido pegando os espólios de mais de um século de controle mundial. Eu aposto que Trump só está vendo o presente, que é um mundo pronto para dar mais dinheiro para “sua empresa” e que está na hora de cobrar mais caro.</p>
<p>Mas não deixa de ser uma solução realista para o declínio de um império. Se não vai arrancar dinheiro do resto do mundo agora, vai arrancar quando? Se não der um jeito de rearmar sua indústria para ser mais autossuficiente agora, vai ser depois de descobrir que não consegue fazer mais nem papel higiênico sem a China? Tem uma lógica aqui que vai muito além das vontades de Trump, a de que os EUA precisam se preparar para o futuro, especialmente um onde não consegue mais ter esse domínio todo.</p>
<p>E muitos americanos perceberam isso. Nuvens negras no horizonte que vão virar tempestade. Faz o abrigo agora ou espera as pancadas de chuva? Sem querer (eu acho) Trump começou esse processo de transição entre dono do mundo e potência “normal”. Não é mera questão de derrotar a China, a ideia de ter alternativas aos EUA já está espalhada. Até brucutus como o Lula falam disso. A ideia de tarifas e fomento de indústrias menos lucrativas de volta aos EUA cria a forma de financiamento de um passo atrás na estratégia de globalização. Vai ficar tudo menos eficiente, e precisa ter como pagar por isso.</p>
<p>Que o resto do mundo pague. Funcionou para os colonizadores europeus, faz sentido que funcione agora. Todo mundo pagando um pouco mais para os EUA para que eles consigam montar seu bunker para o fim da hegemonia econômica.</p>
<p>Ou seja, se você acha que a situação dos EUA é sustentável por muitas e muitas décadas, é uma tremenda burrice corroer as bases da confiança que conquistou até aqui. Mas, se você acha que realmente não tem mais volta e o império vai ter que se contentar em ser “só” um país mais forte que a média, até que é uma boa ideia usar tudo o que tem agora. Você força todo mundo a gastar mais enquanto não tem alternativas, e quando eles tiverem, talvez você já tenha tornado seu país mais capaz de funcionar sozinho.</p>
<p>O engraçado é que é muito difícil atribuir qualquer uma dessas ideias mais longevas a Trump, é pouco provável que ele esteja fazendo esse cálculo, calhou do que ele acha que faz mais sentido é justamente tirar o máximo de vantagem no mínimo de tempo. Se o país vai explodir ou não depois, tanto faz, logo logo ele morre mesmo.</p>
<p>E não deixa de ser uma estratégia para criar o caos nos outros países, estava tudo muito previsível para outras potências menores, eles conseguiam se programar. Agora isso foi por água abaixo. Até Trump sair, vão ter que reagir rápido ao que acontece, momento a momento. O que de novo tem relação com otimismo ou pessimismo sobre o futuro americano: se eles fossem continuar no topo, perdeu credibilidade à toa. Se eles não forem, pode ser caos o suficiente para manter os adversários desorganizados até os americanos terem seu plano B desenvolvido.</p>
<p>Tem uma hora de tirar os lucros do seu investimento, é justamente antes dele desvalorizar. Percebam que tem zero senso de justiça ou interesses de outros países como o Brasil na minha análise, porque a verdade é que essa é uma questão deles, e eles votaram sentindo que estava na hora de escolher um caminho. O caminho parece ser usar o poder antes que não possam usar mais.</p>
<p>Se você aposta nos EUA, Trump é burro. Se você aposta contra os EUA, Trump é esperto.</p>
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		<title>Padrão South Park de deboche.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Jul 2025 17:30:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Cult]]></category>
		<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Ontem foi a estreia da esperada temporada 27 de South Park. Depois de uma longa bagunça sobre direitos, os criadores conseguiram um acordo de 1 bilhão e meio de dólares para transmissão exclusiva da Paramount. E como comemoraram isso? Sentando a pata em Donald Trump e em seus novos empregadores como nunca visto antes. O [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem foi a estreia da esperada temporada 27 de South Park. Depois de uma longa bagunça sobre direitos, os criadores conseguiram um acordo de 1 bilhão e meio de dólares para transmissão exclusiva da Paramount. E como comemoraram isso? Sentando a pata em Donald Trump e em seus novos empregadores como nunca visto antes.<span id="more-31206"></span></p>
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<p>O desenho South Park é um fenômeno cultural americano que encontra muito sucesso fora de suas fronteiras, no começo pelo humor ofensivo por esporte, mas com o passas das várias temporadas, os criadores (Trey Parker e Matt Stone) foram inserindo mais e mais elementos de sátira da cultura contemporânea, debochando de basicamente tudo no caminho.</p>
<p>Talvez você veja uma notícia ou outra de como o desenho tirou sarro de Trump dizendo que seu pinto é pequeno e que ele estava namorando o diabo. O que aconteceu mesmo, mas não te dá a noção do que é o padrão South Park de esculhambar com poderosos. Vai muito além de provocação barata.</p>
<p>O episódio de estreia da temporada gira ao redor do presidente processando a cidade de South Park e exigindo que produzam conteúdos falando bem dele para não pagaram indenização. Isso é uma relação direta com o que aconteceu com a empresa que “controla” o desenho: foram processados por Trump por um programa jornalístico e fizeram um acordo legal para acalmar Trump.</p>
<p>Coincidência ou não, no mesmo canal que mostrou a reportagem que enfureceu Trump, havia um programa de entrevistas noturno cujo apresentador batia em Trump dia sim, dia também. Logo depois do acordo ser fechado, declararam que o programa seria cancelado depois de várias décadas. A explicação oficial é que não dava dinheiro, mas muita gente sentiu cheiro de coisa errada nessa história.</p>
<p>A impressão que ficou foi que a empresa cedeu aos caprichos de Trump para não ter que lidar mais com suas tentativas de sabotagem. E sim, a empresa é a mesma que tinha acabado de contratar South Park por mais de um bilhão de dólares. South Park é famoso por fazer seus episódios bem próximos da veiculação, por isso eles conseguem falar do assunto do momento.</p>
<p>E num episódio só, atacaram Trump num dos seus momentos mais frágeis &#8211; porque ele está sendo acusado por todos os lados de estar escondendo a lista de clientes de Epstein, uma pessoa que foi presa por aliciar menores de idade para orgias com ricos e famosos e que “se matou” na cadeia antes de poder abrir o bico – e perdendo suporte até mesmo do seu gado. Além de dar uma cacetada nos seus chefes, que estavam aceitando as chantagens de Trump (a empresa quer fazer uma fusão bilionária e depende do governo para aprovar).</p>
<p>Esse é o padrão South Park de deboche: na hora que as pessoas pareciam mais assustadas com o prospecto de criticar Trump, eles dobraram a aposta e bateram nele de uma forma muito infantil (chamar de pinto pequeno) ao mesmo tempo que faziam uma “puta crítica social foda, mêo” sobre a covardia da mídia americana de enfrentar o laranjão. Tudo junto, para fazer rir do mais alienado ao mais erudito, e baixar mesmo a bola do presidente, fazê-lo voltar a ser só uma pessoa com a cara laranja e um jeito engraçado de falar.</p>
<p>E sim, vamos falar do elefante de cabelo azul na sala: o pessoal que costumava detestar o Trump agora está aplaudindo de pé o South Park, elogiando pelos motivos que costumavam criticar antigamente. Além do humor sem filtros com as “categorias protegidas” que consideravam ofensivo, ainda havia uma crítica mais elitista sobre a forma escrachada como o desenho lidava com assuntos sérios, dizendo que South Park diminuía a importância de questões complicadas e reduzia tudo ao deboche.</p>
<p>Bom, espero que tenham percebido o poder do deboche. Porque muitas vezes a gente se prende demais na ideia de que um assunto é sério demais para fazer piada, mas esquece que se não tivermos liberdade de fazer piada, provavelmente não temos liberdade de pensar criticamente sobre ele. Temas protegidos de piada costumam ser temas protegidos de análise realista também.</p>
<p>Já vimos muitas sacadas geniais do South Park enfiadas no meio das piadas mais bestas possíveis. Eu nunca vou esquecer quanta coisa eles conseguiram colocar junto na piada que o governo americano não tinha feito os atentados do 11 de Setembro, mas que queria que as pessoas pensassem que tinham: quando os garotos descobrem que a conspiração é falsa, o presidente vem dizer para eles não contarem para o mundo, porque era mais valioso para o governo que o povo achasse que eles tinham capacidade de fazer um atentado daquele tamanho e cobrir as pistas. Além de fazê-los parecerem mais fortes para o mundo, ainda mexia com o senso de patriotismo das pessoas, de imaginar que realmente respondiam a um governo que era capaz de tudo.</p>
<p>A piada de que Trump é só um ditadorzinho de pinto pequeno (porque eles fizeram o Trump ser cópia do Saddam Hussein que usavam no passado, namoro com o diabo e tudo) parece só picuinha de adolescente rebelde, mas é uma mensagem dura contra a imagem de líder intocável que Trump tenta criar. Ele é só uma pessoa, e os valores americanos de democracia de deboche são maiores que ele. Ao bater em Trump dessa forma, tem um componente patriótico na mente daquele povo. Mesmo os fãs mais desesperados de Trump tem esses valores de poder falar o que quiser nos EUA. É parte da identidade do país.</p>
<p>Ache você uma boa coisa ou não. Atinge o resto do mundo, mas é extremamente relevante na cultura deles. É o deboche como ferramenta de liberdade. Americano acha normal que uma vez por ano o presidente vá num jantar com jornalistas e seja sacaneado por um comediante por alguns minutos. É algo que eles entendem como uma das graças do país. Pode parecer só uma bobagem para quem vive num país menos dado às liberdades pessoais como o Brasil, mas é valor fundamental deles.</p>
<p>Por isso Trump fica numa posição muito fraca para rebater o South Park. O direito ao deboche tende a ser mais sério para eles do que o “respeito” à figura do presidente. E olha que lá o presidente tem uma aura quase mítica para o cidadão médio. O padrão South Park de deboche é pagar para ver quais os valores que o americano médio realmente carrega. E não é surpresa que nem os trumpistas estão raivosos com o desenho. Porque eles foram obrigados a escolher entre seu ídolo e o que acham que seu país significa.</p>
<p>Se Trump morder a isca e tentar censurar o desenho, vai ficar feio para ele. Pode perder muito do apoio que tem da base, mesmo que não comecem a odiar Trump, não vão se unir ao seu redor para impedir alguém de fazer piada com ele, não desse jeito super americano de deboche contra o poder. E quanto mais espernear, mais o South Park vai sacanear. Eles receberam uma dinheirama no seu último acordo, o suficiente para enfrentar poderosos sem medo de perderem tudo. Não fica mais “sonho americano” do que isso: usar dinheiro para comprar liberdade.</p>
<p>Sim, tem toda a parte que eles podem estar enroscando uma fusão da empresa que os contratou, porque não está abaixo de Trump mandar travar tudo. Mas isso também seria motivo para mais piadas do South Park e mais atenção chamada para um presidente agindo feito um mafioso. Podem até sofrer um pouco agora, mas a tendência é que Trump perca a capacidade de agir sem nenhuma contrapartida, até porque ano que vem temos eleições para o Legislativo por lá, e se o povo estiver irritado com Trump e sua turma, o partido democrata toma de volta as maiorias e tira boa parte do poder do laranjão.</p>
<p>Resta ao presidente americano calcular o quanto ele quer escalar essa situação. Se ele é maluco, os autores de South Park são mais. De uma certa forma, é o calcanhar de Aquiles do presidente: ele se dá bem quando é informal em ambientes formais, porque ninguém está preparado para lidar. Mas se ele resolver fazer uma disputa informal com o pessoal do fuckin’ South Park, acabou a vantagem estratégica dele. Trey e Matt são muito mais espertos e engraçados que Trump. É meio como xingar o comediante de stand-up enquanto ele está no palco&#8230; é alguém mais treinado em fazer piada, você provavelmente vai perder.</p>
<p>Mesmo que eu não fosse fã de longa data de South Park, eu ainda estaria vendo essa situação como uma tacada de mestre contra o presidente. Porque estava um clima estranho nos EUA com essa coisa do presidente ficar brigando contra seus críticos. O povo lá sabia que tinha algo errado, mas não sabia articular. Com alguns minutos de Trump com um micropênis sendo comparado com o Saddam Hussein, eles conseguiram cutucar a ferida e mostrar onde estava doendo de verdade.</p>
<p>Minha teoria é que Trump não vai retaliar diretamente, porque chamaria ainda mais atenção para essa quebra de valores fundamentais dos americanos que ele está tentando imprimir. E salvo uma censura direta contra o desenho (que se passasse seria o fim do país, e até o caipira mais caipira deles entende as coisas assim) ele só estaria numa disputa de ofensas contra dois dos mais afiados esculhambadores do mundo.</p>
<p>O “certo” seria o Trump baixar a bola e deixar passar dessa vez. O comentário oficial da Casa Branca (que já saiu) foi um tapinha de leve, chamando South Park de irrelevante. Eu acho que eles vão usar isso para fazer mais piadas, mas se ficar só nisso, tira um pouco a graça de montar na cabeça de Trump e continuar dobrando a aposta.</p>
<p>O engraçado seria Trump acusar o golpe com força e tentar atacar Trey e Matt de alguma forma oficial, porque eu tenho certeza que não só teríamos mais episódios bombásticos de South Park, como criaria uma crise ainda maior na imagem de Trump. Como eu quero ver o circo pegar fogo, vou ficar torcendo por um processo gigantesco ou uma ameaça por entidades do governo americano.</p>
<p>Mas talvez o padrão South Park de deboche tenha sido a arma mais poderosa contra Trump, fazendo-o se acalmar por um tempo até o povo esquecer um pouco da piada que ele se tornou. Humor não tem que ter limite porque ele é uma das poucas ferramentas que pessoas “normais” tem para acertar gigantes. O poder se borra de medo de virar piada, porque poder também é baseado nas pessoas acreditarem que ele existe.</p>
<p>Se Trey e Matt tivessem se dobrado às críticas de serem ofensivos e niilistas demais com suas piadas, agora não teria ninguém para dar essa porrada no homem mais poderoso do mundo. E acreditem, deve ter doído muito.</p>
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		<title>Eficiência demais.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Jul 2025 17:55:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[O mundo já discutia os resultados da globalização &#8211; a integração cada vez maior entre sociedades e economias de países diferentes &#8211; muito antes de Donald Trump assumir o poder nos EUA. As suas tarifas apenas fizeram o tema ficar mais popular. Temos defensores e detratores por todos os lados, mas eu acho que tem [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O mundo já discutia os resultados da globalização &#8211; a integração cada vez maior entre sociedades e economias de países diferentes &#8211; muito antes de Donald Trump assumir o poder nos EUA. As suas tarifas apenas fizeram o tema ficar mais popular. Temos defensores e detratores por todos os lados, mas eu acho que tem uma verdade inconveniente por trás de tudo isso: competência não funciona de forma homogênea ao redor do mundo.<span id="more-30938"></span></p>
<p>Tem quem queira dizer que a diferença entre produtividade do brasileiro e do japonês, por exemplo, seja genética. Que alguns povos sempre vão ser mais competentes que outros, e que isso nasce com a pessoa. Continuo achando tão cientificamente válida como o terraplanismo. Nunca isolamos a variável genética para fazer qualquer afirmação do tipo.</p>
<p>E provavelmente nunca vamos conseguir isolar. Você nunca vai saber se diferenças entre competências valorizadas na sociedade não são resultado de criação e ambiente. O simples fato de tentar isolar uma pessoa num experimento desses torna o experimento inválido, porque não é mais como as pessoas reais vivem. É quase como se fosse um princípio da incerteza social: você pode medir o resultado se não interferir, e sem interferir você nunca vai conseguir isolar variável genética.</p>
<p>Reconhecimento de padrões é razoável, mas mesmo que algo aconteça muito mais com um povo do que outro, você não consegue saber de verdade se foi a raça que definiu o resultado. Dito isso, alguns povos são menos competentes no jogo capitalista atual do que outros.</p>
<p>E reforçando o argumento de variável genética ser irrelevante: se perguntassem para alguém 50 anos atrás se chinês era bom de produzir tecnologia, a resposta seria uma gargalhada. Eles se tornaram extremamente eficientes numa combinação de mão de obra e cadeias de produção focadas nesses produtos. É mais fácil montar seus produtos inovadores na China do que nos EUA ou na Alemanha. Não pelos trabalhadores baratos, mas pelos trabalhadores especializados e a cadeia produtiva pronta para ser usada.</p>
<p>Alguns lugares do mundo acumulam competência em partes da economia, e quanto mais fácil for o acesso de outros mercados a essa competência, menos sentido faz produzir localmente, ou mesmo treinar localmente. A globalização nos permitiu produtos muito baratos, mas também forçou a concentração de atividades econômicas em alguns lugares específicos.</p>
<p>E então, precisamos fazer uma escolha: vamos tratar o mundo como uma grande cidade cheia de distritos especializados ou vamos tentar garantir que cada nação tenha capacidade de planejar e produzir o que precisa? Até pouco tempo atrás, parecíamos confortáveis com a primeira opção. Mas empregos começaram a migrar entre nações e muitos povos se sentiram abandonados pelo sistema.</p>
<p>É muito por isso que o nacionalismo voltou a ser moda. Venderam as benesses da globalização sem mencionar a contrapartida. Se a fábrica do mundo é a China, isso os torna tão eficientes que derrubam o preço de tudo. O consumidor fica feliz até descobrir qual é o verdadeiro custo disso: ele não tem mais o seu salário nas áreas dominadas pelos chineses.</p>
<p>A competência se acumula em alguns lugares, e quem dependia dessa competência localmente percebe o problema. Certeza que você vai produzir parafusos no seu país se a China faz o mesmo produto por um décimo do preço? Tem subsídio do governo para o produtor chinês ganhar a disputa, mas isso acumula até o ponto onde só faz sentido produzir algo no local mais eficiente. Foi um investimento que deu certo. Em várias indústrias, é inviável cortar a China do processo, se você achar quem produz fora do país asiático, vai ser num preço muito mais alto e acreditem ou não: de qualidade inferior. Depois de décadas, eles tem mais especialistas e mais maquinário especializado até mesmo que os antigos gigantes da produção como EUA, Japão e Alemanha.</p>
<p>O que nos leva ao problema da globalização: ela não está falhando, ela está funcionando muito bem. Em algumas décadas, a competência e a eficiência foram para os lugares mais dedicados. O que muita gente está percebendo agora é que não queriam esse padrão altíssimo de capitalismo. Queriam eficiência suficiente para terem seus empregos e oportunidades em casa, e pagar um pouco menos pelo que consumiam.</p>
<p>Considerando a complexidade de um smartphone, é um milagre que quase todo mundo tenha um. Isso só acontece porque as empresas na cadeia produtiva aperfeiçoaram o processo com essas competências espalhadas pelo globo, derrubando o preço com o volume e a concorrência. Era para custar muito mais caro do que custa (mesmo sendo caro). Smartphones e basicamente tudo o que você tem que passa por comércio internacional.</p>
<p>E é muita coisa: de eletrônicos aos vegetais que você compra no supermercado, tudo tem algum elemento de troca internacional que derruba o preço final. Alguém produz o insumo de forma muito eficiente em algum lugar do mundo, e a competência para produzir assim se acumula por causa disso. Entra mais dinheiro, podem investir mais&#8230;</p>
<p>Em tese era para ser assim mesmo. Fazemos isso desde que especialização começou a ter função social. Nas primeiras cidades já era mais prático e barato comprar seus potes de alguém que só fazia potes. Isso acumula com o passar dos milênios, mas ainda é a ideia de eficiência por especialização.</p>
<p>Não é necessariamente ruim que o Brasil não seja capaz de produzir eletrônicos como a China, ia ser pior e mais caro feito aqui. Mas por essa lógica, é muito importante que estejamos fazendo alguma coisa de forma muito mais eficiente que outros países para ter margem de negociação. O mundo rodou, rodou, e a lógica continua sendo trocar o que sua plantação tem demais pelo que a do vizinho tem demais.</p>
<p>Se o mundo fosse capaz de ter vários polos de competência interconectados, a globalização acharia um equilíbrio eventualmente. Mas era questão de dobrar, triplicar e quadruplicar a aposta nesse sistema. E ter como encarar os problemas que viriam disso: países muito especializados não conseguem mais acomodar liberdade pessoal de empreendimento. Não porque não querem, mas porque não tem como oferecer nada para o cidadão que quer entrar na “parte errada” da economia.</p>
<p>É uma bola de neve, países cada vez mais especializados que acabam incentivando o mundo a depender mais de países especializados. Num mundo ideal, as pessoas fluiriam de um local para o outro como se estivessem indo morar num bairro mais próximo do emprego; no mundo real a mobilidade é muito mais limitada. Temos mais e mais pessoas “presas” em lugares onde seus talentos e interesses são desperdiçados em nome da eficiência do mercado globalizado.</p>
<p>Como resolver os problemas da globalização então? Como atender às demandas do povo que vota desesperado em nacionalistas? Bom, pode parecer bizarro, mas eu acredito que a resposta seja: eficiência é supervalorizada nessa escala global. Realmente faz diferença se o prego chinês é meio centavo de dólar mais barato que o prego brasileiro?</p>
<p>Talvez para um projeto que utilize milhões deles seja, mas mesmo assim&#8230; não seria melhor pagar um pouco mais e ter mais diversidade econômica no seu país? Existe algum método na loucura da direita nacionalista atual, mas por incrível que pareça, é um método que beira ao comunismo: colocar o bem-estar acima da eficiência econômica. Eu só não sei se Trumps e Mileis da vida sabem que estão indo por essa linha.</p>
<p>O globalismo é muito discutível se termina com nações extremamente eficientes na produção ao ponto de eliminar competidores internacionais. O preço do produto até cai, mas cai em troca de menos empregos produtivos em geral. Se um funcionário num país especializado produz dez unidades no mesmo tempo e preço que um funcionário de outro produz cinco&#8230; você está matando um emprego.</p>
<p>E talvez o grande drama do século XXI seja escolher entre produtividade e empregos. Num mundo com empregos demais, temos estagnação, num mundo com produção demais, temos acúmulo desenfreado de capital. Abrimos as fronteiras no final do século passado e ficamos muito mais eficientes. Agora chegou a conta.</p>
<p>Porque por mais que não estejamos vendo uma crise de desemprego generalizada, muitas dessas novas vagas sendo ocupadas são pouco produtivas. Quantas pessoas realmente precisa no RH da sua empresa? Ou mesmo no marketing? Temos vários novos empregos difíceis de medir com produtividade assumindo o lugar dos removidos pela globalização.</p>
<p>Mas a tecnologia continua correndo, e a IA parece ser mais um passo para aumentar a eficiência desses “empregos modernos” ao ponto de reduzir quanta gente vai ser necessária. Pode parecer um pensamento ultrapassado se preocupar com empregos que são feitos por máquinas ou países mais eficientes hoje, mas tem algo mais profundo aí. Tem um problema de eficiência desigual no mundo que vai criar uma crise de ocupação tremenda.</p>
<p>Não sei quanto esses líderes antiglobalização entendem de verdade sobre esse problema, mas eu sei que o prospecto não é dos melhores se continuarmos em linha reta rumo à eficiência total das cadeias produtivas. Quer dizer, pelo menos não para a gente que está na parte debaixo. Se você já for rico, vai ser só mais dinheiro mesmo.</p>
<p>Eu acho que se não lidarmos com essa ideia que países como a China são eficientes até demais no que fazem, vamos ter que lidar com uma massa cada vez maior de gente sem função nesse mundo. E ao invés de tentar equilibrar as coisas para a mudança não ser tão brusca, a tendência é que populistas autoritários continuem vendendo a “direita comunista” como se fosse uma grande solução. Se é, não deve ser por muito tempo, porque o país que quebrar sua eficiência sozinho vai ser destruído pelo mercado.</p>
<p>O ser humano até pode achar graça em eficiência, mas não parece ter a cabeça necessária para viver num mundo ditado por ela. Eficiência acaba batendo de frente com liberdades pessoais, porque você não pode mais fazer as coisas do jeito mais agradável ou saudável para você ou sua comunidade, você tem que fazer do jeito que funciona melhor, senão a concorrência te engole. E quando as leis que você segue não podem regular como a concorrência age, pior ainda.</p>
<p>O que eu vejo é a gente chegando num limite de eficiência produtiva antes de decidir se vamos até o fim custe o que custar ou se vamos corrigir a rota para colocar ocupação e qualidade de vida na frente, para fazer a transição aos poucos. Não vejo muitos políticos se posicionando dessa forma, ou é totalmente contra ou acha que não tem nada errado acontecendo.</p>
<p>E a verdade, como sempre, é bem mais cinza.</p>
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		<title>Atualização DESFCON – Irã e Israel</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/06/atualizacao-desfcon-ira-e-israel/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Jun 2025 15:45:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Israel atacou o Irã e conseguiu matar dois militares de alta patente. Os dois países tem armas nucleares. Atualizamos o DESFCON para sinalizar um risco maior para o mundo? Depois do fiasco da minha previsão que a Rússia não atacaria a Ucrânia por ser uma péssima ideia (foi, mas fizeram do mesmo jeito), eu entro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Israel atacou o Irã e conseguiu matar dois militares de alta patente. Os dois países tem armas nucleares. Atualizamos o DESFCON para sinalizar um risco maior para o mundo?<span id="more-29733"></span></p>
<p>Depois do fiasco da minha previsão que a Rússia não atacaria a Ucrânia por ser uma péssima ideia (foi, mas fizeram do mesmo jeito), eu entro neste texto escaldado: uma análise sobre a futilidade ou as péssimas chances de sucesso de um confronto militar não querem dizer que não vai acontecer. Especialmente quando falamos de governos autoritários, dispostos a matar quanta gente for necessária para se manter no poder.</p>
<p>Mas eu continuo com minha análise da situação pela lógica. Neste momento, uma troca de gentilezas atômicas não parece fazer sentido, mesmo considerando que o Irã é governado por gente ruim maluca e Israel por gente ruim racional, nessa confluência de insanidade e más intenções existem saídas mais “lucrativas” para ambas as partes se não escalarem a guerra muito além do que já acontece.</p>
<p>Muitas vezes a ameaça da guerra é mais eficiente que a guerra em si. Os dois governos funcionam se mantiverem o povo assustado o tempo todo. No Irã a ameaça de destruição pelos vizinhos é uma forma de manter os governantes no poder, e em Israel&#8230; a mesma coisa. Enquanto os povos dos dois países acharem que podem se salvar do apocalipse projetando força com seus líderes, eles continuam válidos exatamente onde estão.</p>
<p>E tem mais um fator: o lado mais fraco, o iraniano, é uma teocracia (ditadura baseada em religião). Isso significa que o Estado oprime com força as vozes dissidentes, e dá ares de guerra santa para tudo o que acontece. É difícil entrar lá e explicar para o povo que estão sofrendo à toa, que seus líderes não conseguem segurar de verdade um ataque dos adversários. Por isso, o cálculo de Israel e dos EUA é sempre do desastre humanitário que uma invasão ou ataque realmente pesado faria num país tão populoso.</p>
<p>O que fizeram em Gaza foi um balão de ensaio sobre como a comunidade internacional lidaria com algo como destruir o sistema iraniano. A reação foi grande num território e população minúsculos em comparação com um país inteiro como o Irã. E sim, eu sei que é uma análise escrota da minha parte: morreu gente em Gaza, e numa quantidade assustadora. Mas temos que pensar friamente, porque perto de uma guerra contra o Irã, o número de vítimas em Gaza seria minúsculo.</p>
<p>Novamente, como o Irã é uma teocracia, há outra análise fria: o país vai continuar com as duas mãos amarradas nas costas. Não é preconceito de quem não concorda com religião, é uma constatação. O Irã gira em falso desde que os aiatolás tomaram o poder, é muito complicado entrar no mundo moderno com um sistema de crenças de milhares de anos atrás. Você consegue forçar mulheres a cobrirem o cabelo, mas o resto da sociedade vai ficando parada no tempo. Os líderes locais acham que a troca vale a pena.</p>
<p>Mas daí a ter um país funcional ao ponto de enfrentar Israel e os EUA numa guerra&#8230; sobra vontade de morrer pela causa, mas falta economia e inovação para aplicar esse fanatismo no campo de batalha. Não se enganem, se o Irã fosse vizinho do Brasil e resolvesse tomar o nosso país, apanharíamos feio. É sim uma sociedade mais bem preparada para a luta, com gente e equipamento capaz de causar muita dor, mas os bolsos não são fundos o suficiente, a produção não dá conta de uma guerra longa e muito do poder dos seus líderes depende da crença do povo que eles tem o suporte divino contra o inimigo demoníaco.</p>
<p>Por incrível que pareça, para quem está no poder no Irã, é mais eficiente ficar nessa posição de disputa assimétrica com Israel. Mantém seu povo refém da ideia de que precisam deles para ficarem vivos, dão umas cutucadas no “grande demônio” para fazer uma propaganda aqui e acolá, mas nunca parecem tão perigosos ao ponto de dar justificativa para um grande ataque do tal do mundo ocidental.</p>
<p>Lá dentro, a liderança iraniana tem liberdade de prender e matar qualquer um que disser que eles estão errados ou passando vergonha na disputa com o adversário. Então, mesmo que aqui de fora pareça que é uma criança num ringue contra um lutador de MMA, internamente eles conseguem manter uma ilusão de equilíbrio.</p>
<p>E por incrível que pareça: parte dois, para os líderes israelenses também é interessante ficar nesse impasse. Tem algo verificável para usar de justificativa para se manterem no poder, adversários que falam sem parar sobre destruir Israel e todos os judeus. Cria um equilíbrio tênue entre as críticas que recebem pelas suas ações militares e a ideia de que se pararem vão ser destruídos. Se uma parte das pessoas acusa genocídio, outra diz que eles tem todo o direito de se defenderem.</p>
<p>E ambos os lados estão certos. Eu já até escrevi sobre isso: a situação no Oriente Médio não se resolve por um motivo. Judeus e árabes desconfiam com razão que vão ser eliminados se não ficarem com a guarda levantada. Eu não vejo solução no curto prazo que não passe por um massacre horrível. Hoje Israel tem a força para ser o lado que pode massacrar, e honestamente, perto do que poderiam fazer até que estão se controlando. Não torna a situação justa, mas não parece que existe uma saída justa. Alguém vai morrer porque decidiram que alguém precisa morrer.</p>
<p>Acabamos então com uma guerra morna. Fria na parte das bombas atômicas &#8211; porque ninguém quer passar pelo risco de uma troca de mísseis nucleares (mesmo com as defesas de Israel, é impossível dizer que nenhuma bomba iraniana vá acertar) – e quente em ataques menos catastróficos entre os dois países. Israel funciona matando líderes iranianos em ataques pontuais, o Irã funciona fazendo demonstrações de poder sem muito resultado prático no território israelense. Um dos poucos casos onde censura ajuda: como não podem falar para o iraniano médio que as retaliações são vazias, o povo menos educado acredita que estão peitando os israelenses de verdade.</p>
<p>E o status quo vai se mantendo. Eu duvido que Israel comece com as armas nucleares, porque não existe vantagem em começar. Eu duvido que o Irã comece com as armas nucleares, porque não existe vantagem em começar. Mas voltando ao começo do texto, eu disse algo parecido sobre a Rússia. O que enxergo de diferente aqui é que a Rússia estaria fazendo uma besteira com longas implicações se invadisse a Ucrânia, e para o ditador da vez, não tem tanto problema assim criar problemas que não vai enfrentar em vida.</p>
<p>No caso do Irã, a maluquice de começar uma guerra nuclear seria suicídio imediato. Toma umas dez ogivas de volta na cabeça em poucas horas, e até o mundo saber o que fazer com isso, já acabou o Estado iraniano. Putin pelo menos tinha uma previsão de se manter no poder com sua atitude, mas o Aiatolá simplesmente perderia tudo o que tem.</p>
<p>A possibilidade aqui seria um ataque total do Irã, com o claro objetivo de se matar para levar o inimigo. Mas você precisa de uma cadeia de comando de malucos disposta a realizar a ordem. E pelo que temos de informação sobre o Irã, o cidadão médio não é maluco. Ele é oprimido e mantido no escuro sobre muitas coisas, mas o povo não sofreu lavagem cerebral completa. Sai gente na rua para protestar contra abusos do governo. A consequência para essas pessoas é grave, mas elas encaram. Ainda tem muita capacidade mental no Irã, apesar do sistema de governo horrível que tolhe o potencial daquelas pessoas.</p>
<p>Então, a chance dos malucos no poder conseguirem mobilizar o país para um suicídio nuclear coletivo é nula. Pode até escapar um ou outro míssil, mas o sistema tende a se controlar antes de ser tarde demais. E mesmo que Israel com certeza devolva um ou vários mísseis, seria até o povo local controlar a situação e impedir que o estrago se espalhe. A vantagem da teocracia é convencer as pessoas que seu deus está no comando, mas a desvantagem é que quando as coisas começam a dar muito errado, a tendência do humano é achar que o deus deixou de apoiar o regime. É relativamente rápido acabar com a fé de quem está vendo cogumelos de fogo no horizonte.</p>
<p>Por mais que não seja impossível que uma bomba atômica exploda por lá, o Irã não tem condições de manter uma guerra depois disso, e o nosso DESFCON escala de acordo com a possibilidade disso chegar até a gente aqui na América do Sul. Se estivéssemos no Irã, Sally e eu já teríamos decidido pelo 2 ou mesmo pelo 1. Mas hoje nem precisamos conversar sobre o tema, mesmo no raríssimo caso do Irã fazer alguma coisa nesse sentido, teria uma resposta tão arrasadora que acabaria rapidamente antes de escalar. Defender o Irã depois do Irã começar? Nenhum país do mundo vai querer fazer isso. Acho que nem os grupos terroristas financiados por eles se enfiariam nessa confusão.</p>
<p>Se a coisa mudar para uma possibilidade de Israel usar uma bomba atômica primeiro, aí fica feio para o mundo todo e a Sally vai começar a escrever textos sobre como sobreviver ao inverno nuclear. Por enquanto, DESFCON 3 ainda explica o que acontece no mundo.</p>
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		<title>Gasto ou investimento?</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/02/gasto-ou-investimento/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Feb 2025 18:22:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Conversando com a Sally sobre o tema da USAID, eu levantei uma dúvida que tinha sobre o valor das ações americanas ao redor do mundo. Muitas coisas parecem bizarras, especialmente considerando o uso de dinheiro público, mas por que fizeram por tantas décadas? Será que é puro desperdício? Sobre o ponto que ela levantou que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Conversando com a Sally sobre o tema da <a href="https://www.desfavor.com/blog/2025/02/usaid/" target="_blank">USAID</a>, eu levantei uma dúvida que tinha sobre o valor das ações americanas ao redor do mundo. Muitas coisas parecem bizarras, especialmente considerando o uso de dinheiro público, mas por que fizeram por tantas décadas? Será que é puro desperdício?<span id="more-26115"></span></p>
<p>Sobre o ponto que ela levantou que cada país que decida onde usar seu dinheiro e que é ridículo considerar os EUA como “obrigados” a continuar distribuindo dinheiro ao redor do mundo, eu concordo. Essa mentalidade de considerar caridade como direito não é uma expectativa realista. Ajuda é ajuda. Se você misturar as coisas, pode acabar se acomodando numa situação precária sem um plano B.</p>
<p>O meu ângulo aqui é outro: do ponto de vista de quem doa bilhões para combater a fome em países muito pobres ou até mesmo financia óperas trans na Colômbia&#8230; qual é a lógica por trás de tirar dinheiro do seu país para colocar em ações de caridade e fomento cultural em outros lugares que nem pagam imposto para você?</p>
<p>Bom, a primeira coisa a se mencionar é o conceito de Soft Power, a estratégia de projetar a imagem e a influência do seu país sobre outros sem usar táticas agressivas militares ou econômicas. Desde filmes até mesmo caridade, quase tudo pode ser um mecanismo desse tipo de poder. É melhor ter amigos e admiradores do que inimigos e rivais, regra simples da vida que escala do nosso cotidiano para as maiores relações internacionais.</p>
<p>E aqui temos que entender as coisas pelo ângulo americano: o que diabos eles ganhavam gastando todo esse dinheiro? O começo da USAID é uma boa indicação: foi criada durante a Guerra Fria, quando o objetivo explícito era combater a influência da União Soviética. Era na dor como no caso das várias ditaduras apoiadas pelos americanos na América do Sul, mas era no “amor” da cultura de massa e da caridade também, havia um objetivo claro de pintar os EUA como os mocinhos do mundo.</p>
<p>Mas tudo parece tão abstrato, não? Como fazer pose de mocinho mexe no preço do dólar? Como dar comida para um queniano esquelético ajuda os EUA? E aquela ópera trans? Como isso rende para os EUA?</p>
<p>Existe um segundo elemento para considerar aqui: gerenciamento de mundo. Isso é supercomplexo, eu não sou especialista em relações internacionais, mas acho a parte mais fascinante da coisa toda e vou tentar explicar o meu entendimento. Se você é uma grande potência e seus tentáculos militares, econômicos e culturais se espalham por todo o mundo, é essencial que os outros países joguem o seu jogo.</p>
<p>O Brasil, por exemplo, não se importa muito com o sistema político ou a cultura da Indonésia, não temos interesses por lá. Os EUA sim. Tem acordos comerciais gigantescos, empresas que trazem dinheiro de lá, bases militares para projetar poder&#8230; o mundo todo é problema deles. E quanto menos estável e previsível for o mundo, menos esse sistema funciona.</p>
<p>Não é só sobre ter um presidente amigo em outro país, é sobre ter capacidade de se planejar em relação àquele povo. Ironicamente, o poder imenso de um país como os EUA não deixa de ser um castelo de cartas: são tantas coisas interligadas que uma carta bamba na base cultural africana pode cair e virar problema nas relações comerciais com a Europa. O mundo tem que fazer sentido para os americanos, hoje e amanhã.</p>
<p>Doar dinheiro para países passando fome é um jeito de criar uma memória afetiva positiva por lá, meio como dar um presente para uma pessoa e a pessoa lembrar de você toda vez que vê o presente. Mas também é uma forma de evitar que as coisas mudem muito rápido. Países em crises humanitárias sérias trocam de líderes rapidamente, e em alguns casos, ficam girando em falso entre senhores da guerra, um mais maluco e imprevisível que o outro.</p>
<p>Países muito desesperados por comida são presa fácil para fanáticos religiosos e generais sanguinários. Doar bilhões em alimentos é simpático para a maioria da humanidade, mas também é uma excelente forma de baixar a fervura em lugares muito afeitos a revoluções. Não resolve, mas deixa o lugar mais estável.</p>
<p>E se tem alguma estrutura para recuperar, pode ser o suficiente para instalar uma democracia ou ditadura simpática aos EUA. E muitas vezes, é só o que eles precisam. Não é bondade porque existem vários exemplos de como eles bagunçam países rebeldes como Irã, Iraque e Síria. Arábia Saudita joga dentro das regras de mundo deles, virou um bastião de estabilidade regional. Pode esquartejar jornalista à vontade se for aliado.</p>
<p>Então, existe essa ideia de estabilidade mínima mundial para eles. Manter todo mundo num padrão básico de funcionalidade que torne possível empurrar seus objetivos para frente. De novo, desde que seja aliado, senão eles mesmo armam rebeldes para explodir o sistema indesejável. A mesma lógica de dar comida para congoleses desemboca em bombardear iraquianos. Não deixa de ser uma espécie de jardinagem global.</p>
<p>Nos EUA, as consequências do mundo são maiores: como são um dos maiores destinos de imigrantes e estão economicamente conectados com virtualmente todos os países do mundo, são alvos de diásporas e refugiados em geral, tem acordos de defesa com mais da metade dos países que podem os colocar em guerras aleatórias; e mesmo doenças que não são controladas na sua origem fatalmente chegam por lá. Eles já estão amarrados com o mundo todo, por isso é diferente quando eles fazem as contas do que vale a pena fora de suas fronteiras ou não.</p>
<p>Se você corta esses gastos, a lógica se desfaz. Os países vão começar a ter que resolver seus problemas, e é bem imprevisível como isso balança o tal castelo de cartas. Concorde ou não com a tática, é uma tática. E medidas como acabar com a USAID vão de encontro com ela. Esse dinheiro pode ser tratado como desperdício ou como investimento. Investimento difícil de entender se você só conecta os pontos entre usar dinheiro dos pagadores de impostos americanos e os esfomeados em países aleatórios, mas que começa a fazer sentido se você quer o mundo funcionando de uma forma que te beneficia. Não é sobre a troca imediata entre dólares e refeições emergenciais, é sobre como essas pessoas vão funcionar em seus países dali para frente.</p>
<p>Deixa um grupo radical islâmico tomar conta? Um senhor da guerra canibal? Os chineses? Não existe vácuo de poder. Alguém vai querer explorar aqueles recursos, e o ser humano pode ser movido por objetivos bem abstratos, como direito religioso ancestral a um pedaço de terra.</p>
<p>E a ópera trans? Essa parte eu acho ainda mais interessante, tire todo seu juízo de valor sobre óperas ou transexuais, lembre-se de novo da estratégia de jardinagem global. A cultura americana está fortemente relacionada com liberdades individuais, foi isso que nos venderam por décadas e décadas. Os EUA como bastião de liberdade e justiça, onde todos são iguais e podem seguir seu “sonho americano”, da pobreza à riqueza só com iniciativa pessoal.</p>
<p>Lá vou eu ser escroto de novo: não importa se é verdade. Importa se as pessoas acreditam nisso. E como isso impacta as relações delas com os americanos. O que muitos da direita chama de degeneração cultural é um aspecto dessa cultura que os americanos empurram mundo afora: não é sobre ser gay, hetero ou qualquer outra coisa, é sobre individualismo. Existe um ganho secundário na estratégia americana se mais pessoas se sentirem livres para serem quem acreditam que são.</p>
<p>Como eles meio que sequestraram a ideia de liberdade pessoal no mundo, não deixa de ser interessante para eles que mais pessoas cortem relações com a cultura e a moral local para abraçar uma identidade mais global. Um transexual na Colômbia é uma ferramenta para essa colonização cultural. No Afeganistão então&#8230; vale por uns 100. Novamente, não é sobre ser bonzinho, é sobre o efeito que essas pessoas podem ter na cultura local, deixando-a mais aberta para o jeito americano de ser.</p>
<p>Culturas muito homogêneas formam barreiras de entrada para todo o pacote de influência ianque. Uma pessoa que “sai da vila” é um potencial consumidor de tecnologia e cultura americanas. É alguém que aprende inglês, que usa dólar, que começa a valorizar coisas que os americanos valorizam. É colonização, mesmo que não seja óbvia.</p>
<p>Não adianta produzir teorias de como uma sociedade deve funcionar se isso não chegar na ponta. E são justamente nesses “investimento aleatórios” que podemos ver a capilaridade da influência americana. Estão sempre com o dedo em alguma ação internacional, porque é assim que a gente começa a entender a mentalidade americana como a mentalidade “padrão”. Não sei se tem algum país no mundo que ainda considere os EUA como exóticos. Mesmo quem critica, critica muito “de dentro”.</p>
<p>O grande sucesso da tática americana, da qual a USAID faz parte, é que todos nós vivemos na América (roubei essa do Rammstein). Se é positivo para os EUA ou para os países presos nessa teia de influências é discutível, mas que eles transformaram esse dinheiro num mundo muito mais aberto e previsível para eles, não é. Se você parar para pensar mesmo, é complicado saber até onde eles influenciaram o que cada um de nós pensa e se a nossa cultura local chegaria nas mesmas conclusões sozinha.</p>
<p>Então, o meu ponto sobre o fim da USAID e desses gastos com o resto do mundo é que não era só jogar dinheiro para o alto. Tinha um plano que estava funcionando. Querer mudar o plano continua sendo direito inalienável do país que estava pagando a conta por ele. Pela forma como Trump e Musk funcionam, não fica claro se eles sabem exatamente o que estão fazendo ao mexer nessa parte da política internacional americana. Agora economiza uma nota, mas e se os outros países começarem a sair da linha preferida pelos EUA? Isso pode começar a tornar mercados consumidores menos interessados nas marcas americanas, no estilo de vida americano, nos valores americanos.</p>
<p>Claro, agências como a CIA vão continuar com orçamentos secretos bilionários para continuar fazendo esse tipo de influência, mas a deles não tem nem verniz de benevolência. Pode ajudar a derrubar um ditador de Republiqueta das Bananas e colocar outro no lugar, mas não é mais o tipo de ação que cria na cabeça das pessoas ao redor do mundo o desejo de seguir a liderança americana.</p>
<p>Um dos erros mais comuns de quem acaba de analisar um sistema é achar que são os descobridores dele. Que ninguém mais pensou naquilo antes deles. Se você olhar para alguns dos gastos exóticos da USAID, não é para se perguntar por que ninguém percebeu que era desperdício, e sim porque alguém achou que valia a pena. Acreditar demais na “agenda woke” que Trump diz combater é acreditar que era tudo feito por puro idealismo. Não, os EUA não chegaram aonde chegaram por ter ideais maiores que bom senso econômico.</p>
<p>Talvez lacradores estivessem forçando a mão com alguns dos gastos, mas eles só chegaram nessa posição porque há muito tempo o governo americano decidiu que empurrar a sua cultura vigente no mundo todo era muito bom para os negócios. Um mundo que segue o tempo deles, década a década, moda a moda. Cria países mais alinhados e previsíveis, onde pode-se investir sem medo. Os gastos mais bizarros da lista não eram uma falha, eram parte do projeto.</p>
<p>Era de propósito. E se acabar, vai ter consequências. Nada nessa vida é de graça.</p>
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		<title>DeepSeek</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jan 2025 19:21:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Em um dia, as ações de várias empresas americanas trabalhando com Inteligência Artificial somaram um tombo de quase um trilhão de dólares. O motivo: uma startup chinesa lançou o aplicativo DeepSeek, uma alternativa ao ChatGPT extremamente mais barata em todos os sentidos. Mas, por que esse impacto todo? Faz tempo que eu falo aqui sobre [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em um dia, as ações de várias empresas americanas trabalhando com Inteligência Artificial somaram um tombo de quase um trilhão de dólares. O motivo: uma startup chinesa lançou o aplicativo DeepSeek, uma alternativa ao ChatGPT extremamente mais barata em todos os sentidos. Mas, por que esse impacto todo?<span id="more-25545"></span></p>
<p>Faz tempo que eu falo aqui sobre um problema do futuro em relação às inteligências artificiais: o custo. Os sistemas que fazem funcionar o ChatGPT e similares são de uma complexidade imensa, exigindo muito poder de processamento de dados. Uma placa especial para rodar a computação utilizada na inteligência artificial pode custar mais de 150 mil reais, e o pessoal que roda essas modelos costuma precisar de quarteirões dessas placas empilhadas para entregar o serviço.</p>
<p>Isso quer dizer que é proibitivamente caro você ter o “cérebro” da IA na sua casa. Não só pelos equipamentos, como pelos custos de manutenção e eletricidade deles. O mercado todo estava seguindo as proposições de grandes empresas como a OpenAI e a Nvidia, que jogavam para a casa dos bilhões os custos para ter o serviço de qualidade.</p>
<p>O que o chinês fez? Otimizou os programas, achou atalhos, aproveitou o trabalho já feito por outros como a Meta&#8230; e colocou no ar uma IA que faz coisas muito parecidas com as que a versão mais avançada ChatGPT faz, mas relataram o custo de treinamento do seu modelo em 6 milhões de dólares. Ainda não é algo que a maioria de nós pode fazer, mas entre dezenas de bilhões e 6 milhões&#8230; isso abre a porta para muita gente que achava que estava fora da corrida.</p>
<p>E deixa os americanos que falavam sobre custos faraônicos para treinar e utilizar IA com a pecha de golpistas. Numa analogia bem tosca, é como se tivessem descoberto que aquele chocolate que a empresa vende por 50 reais a barra custa cinquenta centavos para fazer. Como o cidadão médio não entende patavinas de modelos de IA, estava aceitando os valores inchados das empresas americanas como se fossem verdade absoluta.</p>
<p>Não eram. Vejam bem, ainda parece existir uma vantagem técnica para o ChatGPT e outras IAs americanas, mas na hora de usar o DeepSeek, a maior parte das pessoas não sentiu isso. Talvez o chocolate americano usasse uma folha de ouro para enfeitar, mas o gosto é o mesmo sem ela. Pode não ser igual, mas é funcional para a maioria das pessoas.</p>
<p>E para esfregar sal na ferida, o DeepSeek ainda faz algo especial: ele mostra o seu caminho de raciocínio. Um dos grandes avanços do ChatGPT foi criar um mecanismo de raciocínio por passos: como algumas perguntas têm muitas informações ao mesmo tempo, não é bom para o computador rodando o modelo tentar resolver tudo de uma vez. Inclusive, muitos dos erros da IA, as chamadas alucinações, são resultado direto de responder direto perguntas que precisam de várias etapas para resolver.</p>
<p>E o ChatGPT escondia esse processo do usuário final. O medo da OpenAI era que alguém usasse isso para treinar outra IA que fizesse o mesmo. Os chineses, talvez com alguns truques escusos, conseguiram programar o DeepSeek para responder dessa mesma forma, e melhor: totalmente aberto ao usuário final. Você vê como a IA chegou naquela resposta. Não só conseguiram reproduzir o avanço dos americanos como ainda deixaram tudo com código aberto!</p>
<p>Por isso uma piada se espalhou pela internet: a IA perdeu o emprego para a IA antes da gente. Chupa, robô! E falando em ironias, a OpenAI reclamou que os chineses usaram seu material para treinar o deles, justo eles que defendem que direitos autorais não deveriam contar para treinamento. Eu sou do time tecnologia primeiro, responsabilidade depois, então estou 100% do lado de quem está fazendo as coisas com código aberto. Mas eu não tenho dinheiro preso nessa história&#8230;</p>
<p>E aí as pessoas com capital para investir começaram a repensar o poder quase que absoluto de empresas como a Nvidia, a que mais perdeu valor de mercado. Porque tem um bônus: os americanos proibiram a empresa de vender os melhores chips para IA para os chineses, e o DeepSeek foi treinado sem usar a tecnologia da Nvidia. Não só não precisava dessa dinheirama toda, como nem precisava das peças que os americanos diziam que precisava.</p>
<p>E como o mercado estava enfiando dinheiro nessas empresas com o prospecto delas dominarem o mundo no futuro, foi um choque de realidade. Quem investiu pesado no Facebook prevendo que eles iam ser donos da comunicação global ganhou muito dinheiro, e diante da revolução da IA, resolveu fazer o mesmo com a Nvidia e a OpenAI. A IA está com toda cara que não vai ficar concentrada apenas em algumas poucas empresas gigantes como as Redes Sociais.</p>
<p>E o engraçado é que isso provavelmente só está acontecendo porque governos se meteram nisso antes do mercado se acertar por conta própria. Explico: as gigantes da tecnologia ficaram gigantes por serem lisas com regulações governamentais. Eles se moviam rápido e não davam tempo de ninguém se meter, acumulando capital e poder.</p>
<p>Mas no caso da IA, a política entrou muito rápido na história. Os EUA sentiram que havia uma disputa real contra a China para ver quem teria a supremacia da tecnologia, e começou uma guerra fria. O plano dos americanos era fazer suas empresas massacrarem as empresas chinesas, retirando seu acesso às tecnologias mais recentes. E de uma certa forma, deu certo.</p>
<p>Os chineses não têm acesso legal aos melhores chips para uso em IA. Suas empresas ficaram para trás e nenhuma delas virou um titã do setor. O plano chegou aonde queria, mas tinha um erro no cálculo: sem ter empresas bilionárias na vanguarda da IA, não tem incentivo para fechar a tecnologia por lá. Os chineses começaram a atirar sem medo. E soltar seus modelos de graça.</p>
<p>O país capitalista forçou a barra para formar um pequeno grupo de amigos do Estado e controlar a tecnologia para o povo não saber como fazer. O país comunista liberou geral e incentivou seus cidadãos a desenvolverem a tecnologia por conta própria de forma empreendedora e compartilhar o conhecimento.</p>
<p>A China acaba de enfiar uma trolha capitalista nos americanos. O país que quis “moldar sua economia” acaba de quebrar a cara. Tecnologia fechada no país da liberdade, tecnologia aberta na ditadura chinesa. Eu ainda acho que os chineses não fizeram isso por interesse no futuro da tecnologia, porque são infestados de cartéis que abusam do poder do Partido Comunista para quebrar concorrência livre; mas sim como uma vingança pelas sanções americanas.</p>
<p>Foi mais do que um tropeço de grandes empresas, foi um golpe dolorido no projeto de oligopólio de IA que empresários e governantes americanos pretendiam instalar. Esse DeepSeek não é só uma “cópia baratinha chinesa”, é um balde de água fria num plano de muitos e muitos bilhões de dólares. Eu prevejo que isso não vai terminar sem alguma tentativa de recuperar o controle, não duvido que as tarifas do Trump possam começar a ir na direção de tecnologia que pode treinar IAs, como placas de vídeo.</p>
<p>Porque como diria Capitão Nascimento, o sistema é foda. O sistema vai lutar para manter IA mais complicada de ser treinada longe do controle dele. Eu estou feliz que numa pancada só os chineses tenham diminuído minha preocupação com o futuro da tecnologia, e que com Trump no poder vai existir um bom incentivo para os chineses continuarem turbinando o mercado de código aberto.</p>
<p>Ainda não quer dizer que qualquer um vai poder ter a tecnologia, mas a pressão para baratear e democratizar vai ser mantida pelos chineses enquanto os americanos estiverem tentando fechar a porta da IA para eles. O primeiro golpe foi bem doloroso, espero que venham mais.</p>
<p>E viva o comunismo! Opa&#8230; espera&#8230;</p>
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		<title>Medidas do Trump.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jan 2025 15:48:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Provavelmente você que é leitor do Desfavor já sabe disso, mas vamos reforçar: a vitória do Trump não vai mudar a vida do brasileiro tanto quanto o povo está imaginando. Ao contrário do que pensa o povo, o Brasil acaba protegido por sua irrelevância. Basta que vocês controlem minimamente o Presidente de vocês, que vai [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente você que é leitor do Desfavor já sabe disso, mas vamos reforçar: a vitória do Trump não vai mudar a vida do brasileiro tanto quanto o povo está imaginando.  Ao contrário do que pensa o povo, o Brasil acaba protegido por sua irrelevância. Basta que vocês controlem minimamente o Presidente de vocês, que vai ficar tudo bem: se algo desandar, será por uma cagada do Lula, não por perseguição do Trump.<span id="more-25113"></span></p>
<p>Para manter o leitor atualizado, decidimos comentar rapidamente as principais medidas que o Trump já divulgou abertamente que pretende tomar. Não vamos entrar no mérito se são justas ou não, se são bonitas ou não, o americano sabia no que estava votando e, se elegeu o Trump, eles queriam exatamente isso. Democracia funciona assim: a vontade da maioria prevalece. </p>
<p>Quase nenhuma impacta você, mas, é sempre interessante entender para que lado o mundo está indo, principalmente em um país que adora copiar os EUA.</p>
<p>Vamos começar pelo perdão aos invasores do Capitólio. Ele concedeu o grau máximo de perdão a quem não cometeu atos de violência: total, completo e incondicional. Quem cometeu atos de violência terá seu caso avaliado individualmente. Como isso te impacta? Quase zero. É apenas um indicativo do que vai acontecer em 2026 se o bolsonarismo, em qualquer uma das suas formas, vencer.</p>
<p>Também ordenou que todos os funcionários federais retornem imediatamente ao trabalho presencial e em tempo integral, deixando a critério dos chefes dos órgãos analisar casos especiais e abrir exceções. Acabou o home office. A regra agora é o trabalho presencial de volta. Zero impacto na sua vida.</p>
<p>Trump criou diretrizes para que todos os órgãos e agências federais façam sua parte para reduzir o custo de vida do americano. Cada um no seu quadrado, dentro das suas atribuições: quem está na área de habitação vai ter que ajudar a reduzir o custo de moradia, por exemplo. Zero impacto na sua vida.</p>
<p>Ele retirou os EUA do acordo climático de Paris. Nada de novo, já havia feito o mesmo no primeiro governo. Isso significa que os EUA não vão aderir a normas para poluir menos, por entender que são inúteis e que neste momento precisam priorizar a economia do país. Novamente, zero impacto na sua vida. “Mas Sally, a poluição do planeta me afeta!”. Fica tranquilo que com ou sem acordo climático o planeta caminha a passos largos para um colapso, não vai fazer diferença para você não.  </p>
<p>Nesse mesmo caminho, revogou políticas energéticas voltadas para sustentabilidade e combate a mudanças climáticas. Tem medidas bizarras como autorizar a exploração doméstica de petróleo e medidas de amplo impacto, como acabar com subsídios para carros elétricos. Novamente: o planeta vai para o saco com ou sem essas medidas, não vale a pena se emocionar.</p>
<p>Revogou restrições para exploração de recursos naturais no Alasca, com a aparente intenção de aumentar a exploração de gás natural, autorizando inclusive que se construa infraestrutura rodoviária passando por cima do que for. Também permitiu que águas que eram declaradas protegidas para a preservação de algumas espécies animais possam ser desviadas para a Califórnia, para ajudar a conter os incêndios.</p>
<p>A linha de pensamento é: sustentabilidade não pode ser feita às custas da economia. O americano está mal de vida, os preços estão altos, precisamos produzir riqueza e recursos, ainda que seja petróleo e carvão. Todas as medidas convergem para esse ponto: reduzir o custo de vida, aumentar a produtividade, melhorar as condições econômicas do país e do povo.</p>
<p>Também retirou os EUA da OMS, a Organização Mundial da Saúde, alegando que fizeram má-gestão da pandemia de Covid-19. Novamente, dificilmente te impacte e está todo mundo chorando não por preocupação com a saúde e sim porque os EUA contribuíam com muito dinheiro. Talvez algo mude se a coisa desandar muito e eles se descuidarem a ponto de criar uma nova doença ou trazer de volta alguma doença, mas é muito improvável. Fiquem de olho em requisitos para viajar (vacinas, transporte de animais, etc.) pois as regras podem mudar.</p>
<p>Retirou os EUA do acordo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e adotou outras medidas para priorizar a indústria nacional. Em bom português, ele não está preocupado em cooperar nem com os outros países, ele quer fazer o que seja melhor para os EUA sem amarras. Isso vai permitir que medidas para proteção para empresas americanas sejam tomadas e sim, pode impactar o Brasil, caso o Governo brasileiro conduza mal a situação. </p>
<p>Quem irritar o mercado americano, por qualquer motivo, desde falas até preços, pode tomar uma tributação que torne seus produtos caros demais para serem comprados pelos EUA, fazendo com que o país busque outros vendedores, por exemplo, a Argentina, que está em lua de mel com o Trump. Então, mesmo com uma chance de te impactar, não tem absolutamente nada que você possa fazer a não ser pressionar o seu Presidente a não ficar falando bostas, como por exemplo, que o Trump eleito é uma nova forma de nazismo.</p>
<p>E assim como pode te impactar para prejudicar, também pode impactar para beneficiar. Se os EUA tributarem muito algum parceiro comercial, ele pode ser substituído pelo Brasil. Não é tão improvável que surjam atritos, por exemplo, com a China.. Torça para que os EUA briguem com vários parceiros comerciais (nem todos os países vão gostar da pressão e do bullying do Trump nas negociações), assim deixam de comprar deles e passam a comprar do Brasil, injetando bastante dinheiro no país.</p>
<p>Corre a boca pequena que já estão sendo organizadas medidas de retaliação contra países que cobrem impostos “injustos” de multinacionais americanas. Cabe ao Brasil se recolher à sua insignificância e dar ao seu segundo maior parceiro comercial o que ele quer. E eu suponho que de fato Lula vá fazer isso, todo esse piti o de soberania nacional é balela, ele sabe que está com as calças arriadas até o tornozelo e que é cadelinha dos EUA. Se, em uma hipótese bem improvável, Lula resolver peitar os EUA, será péssimo para o país.</p>
<p>TikTok. Trump suspendeu o banimento. As razões para o banimento continuam válidas (tanto é que democratas e republicanos foram a favor), mas Trump acha que o Governo Biden não conduziu a situação da melhor forma. </p>
<p>A polêmica seria que o TikTok assumidamente coleta dados dos usuários e tem autorização para repassá-los ao Governo chinês, colocando a segurança dos EUA em risco. O Governo americano deu 9 meses para que a rede social pare de coletar os dados, prove que não os repassa ao governo chinês ou seja vendida para um americano. Como não aconteceu, veio o bloqueio. </p>
<p>Provavelmente Trump acha que se falar grosso com a China esse cenário muda e que não mudou antes porque ninguém respeitava o Biden. Mas, não se enganem, se o TikTok continuar coletando dados com autorização para passá-los ao governo chinês, ele vai acabar banido sim. </p>
<p>Provavelmente Trump vai conseguir exercer a pressão necessária para mudar esse quadro. Isso impacta a vida de quem usa TikTok no Brasil? Sim, pois o conteúdo do mundo todo costuma ser uma cópia do conteúdo americano. Por um lado pode ser bom, pois se o TikTok for banido dos EUA seu conteúdo vai ter mais destaque, mas se você copiava o conteúdo gringo, vai te prejudicar.</p>
<p>Também adotou e vai adotar ainda mais medidas para garantir a liberdade de expressão, que, segundo ele, foi ferida no Governo Biden, especialmente nas plataformas digitais. Estas medidas seriam para impedir que qualquer político possa fazer isso novamente e para desfazer as violações supostamente criadas pelo governo anterior. </p>
<p>Não é algo “daqui para frente”. Trump vai mandar investigar e punir violações ao direito de liberdade de expressão executadas pelo governo anterior. E tem os donos das principais redes sociais ao seu lado. Mas não te afeta em nada.</p>
<p>Declarou emergência nacional na fronteira com o México. Isso significa que, enquanto durar a emergência, as normas que regem imigração ficarão mais rigorosas, o que, por lá, quer dizer até desconsiderar os Direitos Humanos. </p>
<p>Só te afeta se você estava pensando em entrar ilegalmente nos EUA. Se for esse o caso (ou se você já estiver ilegal), eu recomendo fortemente que não vá ou que saia do país. É papo de mãe ser separada de criança de três anos e a criança ser jogada em uma gaiola. Os próximos anos serão de atrocidades, para desencorajar a imigração ilegal. </p>
<p>A primeira medida já foi adotada. O aplicativo CBP One, criado pelo governo anterior, que era utilizado para tentar ajudar imigrantes ilegais, já saiu do ar. A nova diretriz é bem clara: imigrante ilegal não é mais regularizável, a partir de agora, é apenas deportável. Serão caçados e deportados. O único limite que o governo pode encontrar é o financeiro, se ficar muito caro executar esse plano. </p>
<p>Ainda na pegada da medida anterior, suspendeu a entrada de refugiados no país. Saibam ler o momento no qual vivem: os EUA não querem estrangeiros lá, salvo raras exceções que podem ser contempladas com Green Card. Não vá a um lugar que não te quer e que está disposto a fazer atrocidades para passar um recado a todos os que estão pensando em ir para lá. Não parece ser blefe, esse Governo vai arregaçar imigrantes ilegais. Talvez não da forma que venderam que fariam, mas será executado e não será bonito.</p>
<p>Medidas de proteção contra ameaças estrangeiras. Podemos esperar por novas regras e políticas para concessão de vistos e para triagem da entrada de estrangeiros no país. Isso te afeta com força se você está pensando em ir aos EUA, ainda que a passeio, como turista. A prioridade não é mais dinheiro de turista, é peneirar muito bem quem entra no país.</p>
<p>Mais de uma autoridade já disse que Consulados farão pesquisas nas redes sociais, devidamente auxiliados por seus CEOs (lembrando que Mark Instagram é best friend do Trump agora) e que pessoas que já tenham defendido publicamente países inimigos dos EUA (Palestina, Cuba, Rússia&#8230;) ou que tenham falado mal dos EUA, tendem a ter seus vistos negados. </p>
<p>Mais: disseram que essas buscas em redes sociais serão feitas em quem já tem visto concedido e que se algo “nocivo” for encontrado, o visto será revogado. Então, recomendo fortemente que se você quer visitar os EUA, apague qualquer coisa que possa aborrecer esse Governo das suas redes sociais. “Mas Sally, adianta apagar?”. Não, se eles quiserem, eles podem ver mesmo apagado. Mas dificulta. E mostra um sinal de arrependimento.</p>
<p>Criação do DOGE, Departamento de Eficiência Governamental. É um órgão cuja função é melhorar a tecnologia do Governo e aumentar sua produtividade. Será liderado pelo Elon Musk. Não te afeta em nada, só fica um pouco mais complicado para o Brasil comprar briga com Elon Musk agora e talvez (seria esse o comportamento padrão) Elon Musk tente se vingar de alguma forma pelo banimento do X no Brasil. Mas isso é um problema para Alexandre de Mores, não para você.</p>
<p>Também instituiu uma nova diretriz para lidar com ideologia de gênero: o sexo de uma pessoa é imutável e só existe homem e mulher. Se você não mora nos EUA, provavelmente não te impacta. </p>
<p>Lá vai causar um estrago, pois vai afetar a emissão de documentação, vai acabar com o financiamento de qualquer programa que tenha uma opinião diferente. Particulares podem fazer ou falar o que quiserem, mas atos, documentos e posicionamentos partindo do poder público terão que respeitar esse entendimento de que “gênero biológico há apenas dois,  homem e mulher”.</p>
<p>Isso deve deixar de fora mulheres trans de competições em categorias feminina e também de banheiros femininos, sobretudo em prédios públicos. Te afeta? Só se você visitar o país. Então, muito cuidado ao militar quando for aos EUA daqui para frente. O posicionamento do país é “só existem dois gêneros, masculino e feminino”. Quem quiser frequentar o país deve estar ciente disso e se comportar de acordo com essa premissa, concordando ou não. Se insurgir contra isso não vai acabar bem. Não gosta? Não vá.</p>
<p>O funcionalismo público tem que ter suas contratações guiadas pela meritocracia daqui para frente, isto é, não se pode contratar com base em etnia, religião, sexo ou qualquer outro critério que não seja competência. Também determinou o encerramento definitivo, no prazo de 60 dias, de programas ligados a diversidade e inclusão. Não te afeta em absolutamente nada.</p>
<p>Cartéis de drogas, especialmente os mexicanos, agora são equiparados a organizações terroristas e devem ser tratados como tal. Não te afeta em nada, exceto pelo cuidado redobrado que você deve tomar ao ir aos EUA. Já vi imbecilóide ir com um cigarrinho de maconha na mochila e passar por maus bocados na revista, sendo devolvido ao Brasil no mesmo dia, algemado. Não seja idiota.</p>
<p>Cidadania americana. Não terão mais direito a cidadania americana filhos de pais que estejam ilegalmente no país. É uma medida bem discutível, pois a Constituição americana vai em sentido contrário e provavelmente será contestada judicialmente. Não te impacta em nada, afinal, nenhuma mulher faria a insanidade de entrar grávida ilegalmente em um país que já deixou muito claro que não quer imigrantes, certo?</p>
<p>Ainda falando sobre imigrantes ilegais, o processo para prendê-los e deportá-los ficou mais rigoroso (ou seja, pode prender e deportar por muito pouco, até por uma multa de trânsito) e mais rápido. Não é provável que consigam fazer a deportação em massa prometida (mais por questões financeiras), mas a coisa vai ficar mais feia e mais violenta para imigrantes. Também pretendem colocar mais barreiras físicas, além do muro, separando os EUA do México. Não te impacta em nada a não ser na importância de deixar muito bem claro e provado ao Consulado dos EUA que você não tem nenhuma intenção de ficar no país se quiser um visto de turista.</p>
<p>Pena de morte agora é encorajada, principalmente no caso de crime cometido por estrangeiro ilegal. O Procurador Geral dos EUA tem ordem do Presidente da República para que, sempre que possível, oriente a aplicar pena de morte. Não te afeta, a menos que você cometa um crime nos EUA, algo que eu desaconselho em qualquer contexto.</p>
<p>A ajuda externa dos EUA para outros países será severamente revista. Ocorrerá uma revisão de gastos que promete ser expressiva. Enquanto isso, a maior parte está suspensa por 90 dias. A ideia é que se está faltando no país, não deve gastar com o país dos outros. A menos que você esteja em um país que recebe ajuda financeira dos EUA, não te afeta.</p>
<p>Além de criar, Trump também “descriou”, revogou decretos. Isso quer dizer que regras e obrigações que antes existiam, agora não existem mais. </p>
<p>A maioria diz respeito a inclusão e causas sociais: promoção de equidade racial, discriminação sexual, discriminação de gênero e coisas do tipo. Nada que impacte a sua vida. </p>
<p>Talvez a revogação do decreto que retirava Cuba da lista de países terroristas mereça alguma atenção. Aos olhos dos EUA, Cuba é um país patrocinador de terrorismo agora. Cuidado com os elogios a Cuba em redes sociais ou qualquer âmbito online se quiser ir aos EUA ou conseguir um visto, mesmo que seja de turista.</p>
<p>Vimos também congelamentos (de regulamentação e de contratações), mas eles não te afetam em nada. É apenas uma forma de impedir que os funcionários do Biden façam qualquer coisa relevante até que os funcionários do Trump assumam. </p>
<p>Deu para sentir o pêndulo virando? Eu espero que sim. Mesmo sem te afetar diretamente, essas medidas são um termômetro do que pode vir para o Brasil em dois anos. Talvez não venha, mas talvez venha. Recomendo que comecem a se preparar para isso, tanto com medidas práticas (tendo muito cuidado com o que falam e fazem na esfera pública e profissional) como na saúde mental, para poder encarar eventuais mudanças sem surtar.</p>
<p>“Mas Sally, você realmente acha que Trump vai conseguir bancar tudo isso?”. Provavelmente não. Mas boa parte do que está neste texto sim, então, não conte com um recuo. E, ao que tudo indica, essas são apenas medidas iniciais, o pior ainda está por vir.</p>
<p>Serenidade, resiliência e saúde mental, por gentileza.</p>
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		<title>O meta político.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jan 2025 19:16:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Acho que já expliquei antes, mas como é um termo mais nerd, alguns de vocês podem não conhecer: “meta” é o nome que se dá para as estratégias que os melhores jogadores usam num jogo. Funciona como um substantivo: o meta é o “jeito certo” de jogar, por assim dizer. Depois que você internaliza esse [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Acho que já expliquei antes, mas como é um termo mais nerd, alguns de vocês podem não conhecer: “meta” é o nome que se dá para as estratégias que os melhores jogadores usam num jogo. Funciona como um substantivo: o meta é o “jeito certo” de jogar, por assim dizer. Depois que você internaliza esse conceito, começa a enxergar em vários lugares, inclusive na política.<span id="more-24903"></span></p>
<p>Donald Trump já tinha ganhado a eleição e tomado conta do ciclo de notícias. Enquanto esperavam pela sua posse, muitos apoiadores pensaram em tirar umas férias e curtir a vitória. Porém, muito antes do próximo momento garantido de atenção, Trump resolve trazer de volta o tema de anexar a Groenlândia (território dinamarquês) e ainda adicionar o Canadá na brincadeira, querendo transformar o país em um novo estado.</p>
<p>E pronto, base ativada novamente. Jornalistas partem para cima, tirando da gaveta artigos sobre a gigantesca ilha congelada do Atlântico Norte, que já tinham preparado da última vez que Trump falou disso. O povo nas redes sociais começa a discutir, políticos americanos, canadenses e europeus dão seus pitacos, muitas pessoas fazem cenários mentais sobre a possibilidade disso acontecer&#8230; e antes das pessoas enjoarem, Trump resolve colocar o Canal do Panamá no pacote e dizer que não nega a possibilidade de usar a força para conseguir novas posses.</p>
<p>Quando você acha que o assunto acabou, ele joga mais uma bomba. E não importa o grau de realismo das ideias de Trump. O Canadá não quer ser um estado americano, a Dinamarca já está trabalhando para deixar a Groenlândia independente há décadas, e o Panamá tem zero incentivos para abrir mão da sua maior fonte de renda. São todos devaneios laranjas que dificilmente saem do papel sem destruir a imagem americana no mundo.</p>
<p>Minha teoria é que Trump joga essas coisas para o universo e vê se ganha alguma coisa no processo. Quando você diz publicamente que quer alguma coisa, quem tem instintivamente começa a pensar no seu preço. Podem nem querer agir, mas é uma tática de negócios que Trump e quase todo mundo com alguma experiência no mercado conhecem. Faça eles pensarem num preço e o impossível pode virar uma negociação.</p>
<p>Mas cá estou eu caindo no truque também&#8230; o texto não é sobre a possibilidade de Trump anexar esses territórios, é sobre como a melhor forma de comunicação política no Século XXI é a saturação. Não deixe as pessoas ficarem com tempo mental livre, porque elas podem começar a pensar sobre suas motivações. Enquanto o povo discute Groenlândia, não está pensando em outras coisas que podem incomodar Trump.</p>
<p>Já que o povo vai ficar falando sem parar sobre cada notícia que aparece em seus feeds, que você tenha alguma influência para onde elas vão estar olhando. Estamos vendo muitos políticos de esquerda afundando por não entender ou mesmo conseguir agir de forma parecida. Não é sobre qualidade, é sobre quantidade.</p>
<p>Se você falar uma maluquice por dia, nenhuma das suas maluquices fica tão importante assim. Bolsonaro se virou bem assim, Trump também. Ambos pagaram pesado pela pandemia e não foram reeleitos, mas nunca ficaram tão longe assim da metade. No caso do Brasil foi extremamente apertado. A tática de uma bomba a cada dia resolve muitos problemas de comunicação.</p>
<p>O governo Lula e o governo Biden sofreram muito com notícias falsas e presunções do povão sobre suas ações. Zero julgamento aqui: independe o mérito da informação, e sim como todas as notícias negativas para eles foram cultivadas por vários dias, tomando o ciclo de notícias. As suas contrapartes também lidaram com esses problemas, mas nada grudava por tempo suficiente.</p>
<p>Falou algo racista na segunda? Diga algo sexista na terça! Ainda está com um clima estranho? Homofobia, negação científica, ideia ridícula&#8230; qualquer coisa que faça com que o ciclo de notícias se sinta obrigado a se adaptar. E quando a semana acabar, ou o público seguiu o assunto que você foi propondo ou está dividido discutindo as últimas dez asneiras que disse.</p>
<p>Seja como for, funciona. É volume. Eu vejo muita gente falando que o “pessoal da direita” entendeu como funciona a comunicação digital, e apesar de concordar, parecem sempre tentar explicar como se fosse uma questão de descontração, mentiras, material chocante&#8230; e não é isso que é comunicação digital. Porque isso não é novo.</p>
<p>Ninguém inventou agora a ideia de que uma mentira fantástica chama mais atenção que uma verdade chata. Nem que as pessoas gostam de bagunça e exagero. O ser humano não descobriu que gosta de bundas e piadas há duas décadas, esse é o padrão histórico. O que define a comunicação digital que funciona hoje no “meta político” não é o conteúdo, é o volume.</p>
<p>O streamer gera mais engajamento com o espectador que o apresentador de TV porque ele está lendo os comentários em tempo real. Ele está se comunicando com a pessoa centenas de vezes por transmissão. Ele pode até ser meio escroto, falar bobagem, fazer coisa errada, que ainda compensa para muita gente. Comunicação digital é estar em cima do seu público feito um carrapato, é pular pela janela se a porta está fechada.</p>
<p>Quando você já tinha dado de ombros para a histeria trumpista, o arrombado cai no seu colo de novo com esse papo estrambólico de anexar a Groenlândia, Canadá e Canal do Panamá. Não dá nem para ficar com saudades. E quando esse assunto ficar chato, ele vai soltar outra, e outra, e outra. Não porque Trump está seguindo a cartilha de algum marketeiro genial, mas porque ele é assim, a internet só deu mais palco para ele.</p>
<p>É uma era de influencers que falam mais do que ouvem, gente que só quer aparecer e fica forçando a barra para se manter na sua memória de curto prazo. Isso é comunicação digital. É a parte feia e muitas vezes irritante do meta da comunicação para a massa. Se você fala com um nicho, tudo bem ser mais educado, mas se quer falar com todo mundo ao mesmo tempo, tem que ser uma criança hiperativa desesperada por atenção.</p>
<p>Muitas vezes o meta estraga o jogo. Descobrem um jeito muito eficiente de jogar que ganha, mas que deixa os outros jogadores putos da vida. Matam diversidade e reduzem a diversão de quem não tem saco ou habilidade para jogar daquele jeito específico. O meta político está selecionando narcisistas e pessoas com todo tipo de problema mental que não se aguentam e ficam pentelhando o mundo todo por atenção.</p>
<p>Funciona porque dilui a crítica em tantas instâncias que nenhuma cola de verdade, e funciona porque o mote da publicidade clássica ainda vale: quem é visto é lembrado. Se a sua noção de política for muito rasa para escolher uma ideia e seguir com ela, você vai ser impactado pelo Trump mais Trump do grupo. O Bolsonaro mais Bolsonaro, o Marçal mais Marçal. Quem for mais demente de ficar te bombardeando com “assuntos de momento” vai desequilibrar o jogo na hora do voto.</p>
<p>O jeito mais eficiente de jogar política é o jeito trumpista de impactos constantes sem se apegar de verdade a nenhuma fala passada. As partidas desse jogo são muito mais curtas e frequentes. E a sua atenção é o campo de batalha. Aqui no Desfavor a gente ignora o jogo porque não temos fins lucrativos ou políticos, mas ele está claramente disposto para quem quer estar na ponta da língua e dos bolsos das pessoas.</p>
<p>Nos jogos o meta muda de tempos em tempos porque os donos do jogo vão fazendo modificações para enfraquecer as estratégias boas demais e fortalecer as muito ruins. Na vida real eu não sei quem faz esse papel, provavelmente ninguém. Isso quer dizer que salvo alguém achar outro jeito ainda mais eficiente de entrar na sua cabeça e ficar por lá, vamos continuar vendo a política seguir na mesma direção do mercado de influencers.</p>
<p>Não porque as pessoas querem sofrer, mas porque elas recompensam quem joga dessa forma. Existe um ganho secundário em morder todas essas iscas e ficar trocando de assunto compulsivamente junto com os Trumps da vida. Talvez seja um alívio ser “forçado” a não olhar para dentro, que nem aquela meme do cidadão que não quer ir dormir com a mulher porque alguém está errado na internet.</p>
<p>No Desfavor eu sei que ganho temas quando entretenho as besteiras de políticos bostejadores compulsivos, mas na vida fora do blog&#8230; zero recompensas. Eles falam essas coisas, a gente morde a isca, discute algo que provavelmente nem precisava discutir, e espera pela próxima dose, mesmo que não faça nada.</p>
<p>Tenho uma solução para isso? Não. Não sei se existe solução para o meta, porque o meta é descoberto, não criado. O ser humano é assim. Trump funciona. Provavelmente a única coisa para se tirar dessa reflexão é por que Trump funciona especificamente com você. Entenda isso e no mínimo você aprende o meta, se vai jogar desse jeito ou não, são outros quinhentos&#8230;</p>
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		<title>Os drones de Nova Jersey.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Dec 2024 17:02:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Nas últimas semanas, foram registrados mais de cinco mil avistamentos de luzes e objetos nos céus americanos, em especial no estado de Nova Jersey. E esse número só cobre os que chegaram como avisos para as autoridades locais. A internet está cheia de vídeos e é claro, teorias. Mas, o que está acontecendo de verdade? [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nas últimas semanas, foram registrados mais de cinco mil avistamentos de luzes e objetos nos céus americanos, em especial no estado de Nova Jersey. E esse número só cobre os que chegaram como avisos para as autoridades locais. A internet está cheia de vídeos e é claro, teorias. Mas, o que está acontecendo de verdade?<span id="more-24206"></span></p>
<p>A primeira coisa que podemos afirmar é que está acontecendo um processo de histeria coletiva. Isso é garantido, porque muitos dos avistamentos eram apenas aviões conhecidos nas suas rotas programadas. Teve gente denunciando estrelas, planetas e diversos outros elementos conhecidos do céu. É uma bola de neve conhecida. O ser humano sempre age dessa forma em grandes grupos.</p>
<p>E francamente, eu não me coloco acima dessas pessoas. A gente costuma saber muito pouco sobre o que é normal nos céus das nossas cidades todas as noites. Pouca gente com interesse em astronomia que sequer sabe diferenciar um planeta de uma estrela. Se de repente alguém te chamasse a atenção para coisas “estranhas” no céu noturno, eu aposto que você não saberia diferenciar o que costuma estar lá mesmo do que quebra o padrão.</p>
<p>Então, primeira coisa a entender do caso das luzes nos céus americanos: a imensa maioria dos avistamentos pode ser explicada tranquilamente. É que o cidadão médio nunca tinha prestado atenção até hoje. Porém, isso não explica tudo o que está acontecendo.</p>
<p>Porque sim, algumas dessas luzes parecem conectadas com objetos cuja origem não foi determinada. Por “sorte” o ser humano médio já tem uma palavra que desmistifica um pouco o que acontece: drone. Os objetos que não foram explicados tem toda a cara de drone, voam como drone, e muitos já foram identificados até com o modelo mais provável.</p>
<p>O mistério, reforçado pelo próprio governo americano que admite não saber a origem de alguns desses avistamentos, não é exatamente o que as pessoas estão vendo (são drones), mas o que diabos eles estão fazendo nos céus de grandes cidades. Aqui, é importante separar os tempos: existe um período antes da notícia se espalhar e um após.</p>
<p>Porque depois que os vídeos começaram a pipocar pela rede e os avistamentos virarem notícias nos maiores portais de notícias do mundo, você já começa a ter que considerar interesses bem mais conhecidos: a vontade de aprontar e a vontade de lucrar. Os céus de Nova Jersey viraram um palco com plateia garantida. Todo mundo que quiser um pouco de atenção pode subir nesse palco.</p>
<p>Mais pessoas vão usar seus drones para aparecer, mais pessoas vão filmar ou manipular vídeos, fazendo qualquer coisa para viralizar. Estamos na fase contaminada dessa análise: é meio como querer estudar as bactérias presentes num objeto depois dele cair no esgoto. Não existe mais a possibilidade de analisar o evento sem milhares de pessoas tentando interferir no resultado.</p>
<p>O que nos interessa é a parte limpa da história: as primeiras imagens antes de virar um fenômeno cultural. Realmente, um monte de objetos não identificados parecidos com drones voaram pelos céus da cidade americana de forma estranha durante a noite. E qualquer teoria decente sobre o que aconteceu tem que ser baseada nessa etapa do processo.</p>
<p>Aconteceu alguma coisa fora do comum. E aí, precisamos analisar a probabilidade das explicações mais repetidas.</p>
<p><strong>Espionagem internacional:</strong> os americanos usavam drones há mais de uma década em guerras, mas o potencial da tecnologia ficou visível de verdade com a guerra na Ucrânia. Russos e ucranianos infestam os céus dos campos de batalha com essas máquinas, que são um óbvio avanço em relação aos voos tripulados de outrora.</p>
<p>É possível que algum dos inúmeros adversários dos americanos esteja fazendo espionagem ou mesmo alguma campanha de desmoralização nos EUA usando seus drones. Possível, mas não muito realista. O governo americano já jurou que não drones de potências estrangeiras, mas francamente, eles não admitiriam mesmo que fossem. O problema é que de um ponto de vista militar o que aconteceu faz pouco ou nenhum sentido: não só exibe sua tecnologia, arriscando até a perder equipamentos no solo adversário, como não pega nenhuma informação realmente valiosa numa área urbana genérica.</p>
<p>Vão descobrir o mesmo que o Google Maps já mostra. E ainda arriscar a fúria do maior exército do mundo por uma&#8230; trollagem? Sim, tem um efeito psicológico de deixar o americano médio mais inseguro sobre a capacidade do seu exército de defender o país, mas o resultado prático disso seria nulo. Os EUA continuam sendo o país mais difícil do mundo de invadir. E isso provavelmente vai se manter por séculos. Ninguém com mais de um neurônio na cabeça tem qualquer plano de atacar os americanos em seu território com algum objetivo militar real.</p>
<p>Pode ser algum adversário maluco? Pode. Faz sentido? Não.</p>
<p><strong>Alienígenas:</strong> eu sempre digo que a pior parte de Deus é que ele parece ser tão burro quanto um ser humano médio. Impressionante como essas divindades são tão limitadas, preconceituosas e incoerentes como as pessoas que acreditam nelas, não? Eu posso dizer o mesmo de alienígenas.</p>
<p>A pessoa média olha para uma luz no céu fazendo coisas aleatórias e resolve, na sua profunda sabedoria, que seres inteligentes ao ponto de viajar pelas estrelas para visitar a Terra vão colocar drones cheios de luzes para vagar aleatoriamente na frente dos macacos pelados. Precisa de meia dúzia de pontos de Q.I. para sugerir tirar as luzes dos drones para não chamar tanta atenção. Eu aposto que quem tem tecnologia de transporte entre planetas consegue chegar nessa conclusão também.</p>
<p>“Mas eles podem querer ser vistos.”</p>
<p>Sim, só que eu vou além, se estamos vendo, eles só podem querer ser vistos. Não existe alternativa. E se eles querem ser vistos, por que desse jeito, por que nesse lugar? Não tem lógica nem para a gente que é macaco pelado e mal chega na Lua, não vai ter lógica para uma espécie avançada que veio de outro lugar da galáxia (ou de fora dela). Voltando à analogia com deuses, é essa coisa de chamar de “formas misteriosas” as ações do ser diferente que não fazem o menor sentido. A pessoa não revisa sua conclusão tresloucada, apenas coloca toda confusão na intenção misteriosa do tal do ser superior. Isso é preguiça, não humildade.</p>
<p>Explicar as luzes nos EUA como alienígenas é o mesmo salto lógico que dizer que elas são vacas picadas por vagalumes radioativos: você vê uma coisa simples e cria uma explicação imensa, cheia de condições improváveis, e trata ela como se fosse a mesma coisa que uma explicação igualmente simples. Não é.</p>
<p><strong>Experimentos secretos do governo americano:</strong> é uma das teorias menos malucas, mas não sem seus problemas. A indústria militar americana é um labirinto de projetos secretos que nem mesmo as mais altas patentes ficam sabendo. Não necessariamente por quererem esconder delas, mas porque as altas patentes tem tempo limitado. Não dá para ficar explicando tudo para os generais, especialmente aqueles com muito tempo de serviço e pouca familiaridade até mesmo com smartphones. Óbvio que muitos experimentos e testes acontecem com pouca gente sabendo.</p>
<p>E se foi um teste de drones das forças armadas americanas, faz sentido que pouca gente soubesse, e também que assim que a turma de cima ficasse sabendo, dissesse em público que não era um teste. São secretos, oras. Mas é outra teoria que exige um pouco de suspensão de racionalidade para ser aceita: se foi um teste secreto, foi um fracasso retumbante. Porque não só os drones foram vistos como ficaram fazendo shows para o povão.</p>
<p>Novamente, basta ter um cérebro minimamente funcional para diferenciar ficar escondido de ficar brilhando luzes na frente de milhões. Seres com cérebros do tamanho de uma azeitona conseguem perceber a diferença, evidente que até mesmo o mais burro dos militares americanos saberia também. É a mesma lógica dos supostos aliens: não é que tentaram se esconder e não conseguiram, é que só poderiam ter como objetivo serem avistados.</p>
<p>Agora, que tipo de teste militar seria esse? Porque já está bem determinado que luzes em movimento no céu noturno chamam atenção das pessoas. Duvido que algum general americano esteja recebendo o relatório de que os drones iluminados que mandaram sobre uma grande área urbana de fato chamaram atenção. Então, se queriam chamar atenção, por que queriam chamar atenção?</p>
<p>Sei lá. Faz algum sentido que essa seja a explicação? Que o exército que gasta bilhões de dólares por ano apenas em tecnologia de camuflagem esteja fazendo um teste assim? Talvez seja alguma forma de manipulação psicológica, deixando o povo assustado para defender uma guerra contra o/a “insira inimigo da vez aqui”? No final de um governo para o começo de outro? Com Biden e Trump sendo tão diferentes na sua ideia de intervenção militar? Não é impossível, mas a hipótese dos aliens também não é impossível. Péssima linha de corte.</p>
<p><strong>Interesses desconhecidos:</strong> com os dados que temos em mãos, é a melhor hipótese. Repito que depois que viralizou não podemos considerar mais nada, porque pessoas vão usar esse palco para aparecer. Mas antes, alguém realmente subiu vários drones nos céus de Nova Jersey que agiram de forma estranha.</p>
<p>Existe a teoria que eram drones do governo buscando por sinais de uma suposta arma nuclear escondida na área. Até mesmo grandes jornais ventilaram essa possibilidade. Faz mais sentido. Não muito sentido, mas&#8230; mais. Explica a quantidade, explica os padrões de movimento que os fizeram ser facilmente identificados, explica também porque não estavam escondidos sem iluminação: seria um perigo eles se estabacarem uns nos outros ou em drones e aviões civis. Tem regra para voar um drone de noite, e a regra é estar identificado por luzes.</p>
<p>E faz sentido o silêncio do governo: é melhor acharem que são aliens ou chineses do que acharem que tem uma bomba atômica por perto. O problema dessa teoria é a implicação que conseguiram trazer para dentro do país ou desviar uma das americanas para uma locação desconhecida. Outros tipos de armas e bombas não seriam identificáveis pelos céus, e para ser honesto, provavelmente nem uma bomba atômica.</p>
<p>Sim, nenhuma segurança é perfeita, mas deixar uma arma dessas se perder é de um grau de falha que faz o 11 de setembro parecer um trabalho perfeito de inteligência americana. Mais provável que aliens, mas difícil na prática.</p>
<p><strong>O que eu acho:</strong> foi uma brincadeira que saiu do controle. Alguém começou a soltar drones na região por pura vontade de sacanear, a polícia ficou irritada, trouxe o exército para ajudar a derrubar, e rapidamente os céus ficaram cheios. Alguns relatos são dos drones da trollagem, alguns são dos equipamentos militares usados para identificar e derrubar. Depois que a notícia explodiu, mais gente começou a subir drones no meio do caos e o governo está mantendo em segredo sobre sua incapacidade de lidar com algo que nem mesmo é uma ameaça militar.</p>
<p>Explica perfeitamente as declarações oficiais, porque novamente, é melhor acharem que são aliens. Muito melhor. A dura realidade da minha alternativa é a de que não tem muito o que fazer contra drones e todo mundo sabe disso, só não quer admitir. O povo americano está seguro contra uma invasão de soldados estrangeiros, mas não contra um ataque de drones. Nenhum povo está seguro contra drones, ainda mais se você tiver agentes infiltrados lá dentro. Spoiler: todos os países que têm inimigos têm agentes infiltrados em territórios inimigos.</p>
<p>Dá para produzir milhares pelo preço de um avião tripulado. E mais rápido também. Você pode produzir uma peça em cada fábrica ou país e montar só onde vai usar. Se precisar de 100 drones para explodir um objetivo militar, ainda é mais barato e rápido que com um caça moderno, com zero chances de matar um dos seus soldados. Drones são um modificador de como guerras são travadas, algo com antes e depois, como tanques, metralhadoras e mísseis intercontinentais.</p>
<p>Eu não acho que os drones de Nova Jersey e os outros pipocando em vários lugares do mundo sejam algo além de civis aprontando e o governo respondendo de forma exagerada. Porque no fundo os EUA e os outros exércitos do mundo sabem que drones são uma daquelas mudanças de paradigma que tornam o mundo todo mais perigoso. Não pode deixar solto, mas não pode admitir publicamente que é muito difícil combater.</p>
<p>Por isso as respostas vagas e o esforço para dizer que não são objetos de nações inimigas. Não dá para mentir que não teve algo a mais do que o normal voando em seus céus, mas a verdade que não tem muito o que fazer mesmo se fosse um adversário militar é dura demais para a moral do povo. Eu não acho também que uma nação inimiga teria esse grau de coragem de provocar os EUA com altas possibilidades de serem descobertos, mas no dia que não se preocuparem mais com a fúria dos americanos e estiverem em guerra declarada, eu tenho certeza de que os céus do mundo vão ficar infestados.</p>
<p>É uma tecnologia militar boa demais para ser ignorada, por isso não estão ignorando, só disfarçando.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que são aliens leigos que só conhecem estratégia militar de ver conspiração de WhatsApp, para dizer que é isso que querem que a gente pense, ou mesmo para dizer que eu sempre estrago a graça das coisas: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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