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	<title>Dés potas &#8211; desfavor</title>
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	<description>REPÚBLICA IMPOPULAR</description>
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		<title>Prisão mental.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2019 18:27:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Sugestão de Bolsonaro de Sunga: “como um estado deve lidar com psicopatas, pedófilos e outras doenças que não tem cura?”. Mesmo não precisando mais seguir temas, esse me deixou com a pulga atrás da orelha&#8230; até porque ele pode ir por um caminho terrível. Sempre um bom prospecto. O Estado costuma saber o que fazer [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sugestão de Bolsonaro de Sunga: “como um estado deve lidar com psicopatas, pedófilos e outras doenças que não tem cura?”. Mesmo não precisando mais seguir temas, esse me deixou com a pulga atrás da orelha&#8230; até porque ele pode ir por um caminho terrível. Sempre um bom prospecto.<span id="more-15934"></span></p>
<p>O Estado costuma saber o que fazer com quem mata, com quem rouba e com quem engana, e até entende que existem fatores que tornam esses crimes mais ou menos culpáveis. Matar uma pessoa é um crime sério, mas se ficar comprovado que você precisou fazer isso para se proteger, boas chances de você sequer ser punido. Roubar comida por estar passando fome costuma mudar as atitudes de um juiz em relação ao criminoso&#8230; percebam que não é só uma questão da letra fria da lei, é um senso comum desenvolvido por nós há milênios. Toda regra precisa de contexto.</p>
<p>Contexto que nos foge quando falamos de psicopatas, pedófilos e afins. Para a maioria de nós, entrar na cabeça dessas pessoas e ver o mundo com seus olhos é praticamente impossível. O contexto desaparece, e ficamos apenas com crimes terríveis e aparentemente inexplicáveis. Toda semana tem uma série de notícias sobre crimes bárbaros contra crianças e adultos que não conseguimos sequer entender. O senso comum utilizado para lidar com criminosos em outros contextos desaparece.</p>
<p>A resposta mais comum para isso é querer eliminar essas pessoas do mundo. Até mesmo para os mais ferrenhos críticos da pena de morte, caso de pedófilos estupradores e assassinos em série são uma difícil concessão em troca de um ideal maior. O que quase todos nós pensamos instintivamente é matar essas pessoas e não deixar que façam mal a outros. Então, por que motivo não faz parte das leis de todos os países essa exceção nesses casos? Se todo mundo pode concordar que uma pessoa que estupra e mata um bebê não merece respirar o mesmo ar que nós, deveria ser super simples criar esse tipo de lei.</p>
<p>Bom, aqui entram os argumentos mais comuns contra pena de morte: é uma punição sem volta aplicada por um sistema falível. O Estado pode errar e matar um inocente. Ou pior, o Estado pode ser usado por alguém mal intencionado para matar um inocente. Mas, além disso, é uma porta aberta para abusos: se psicopata tem que morrer, temos que ter uma definição disso. Se temos uma definição disso, ela é baseada num exame prévio ou apenas quando a pessoa comete algum crime? Se ela só vira psicopata se cometer algum tipo de crime, isso não significa que estamos definindo psicopatia como algo adquirido e não inato? Quem mata animais de forma cruel normalmente cai no espectro de psicopatia, essa pessoa morre também? Um soldado que mata centenas de pessoas a pedido do Estado não é psicopata? Um pai que vinga a morte do filho matando todos os filhos do inimigo é um psicopata?</p>
<p>No caso de pedófilos: ter uma coleção de fotos de crianças nuas em casa faz a pessoa entrar na categoria e receber a punição máxima de morte? Ou precisa efetivamente abusar de uma criança? Qual a faixa exata onde deixa de ser estupro de vulnerável e se torna sexo consentido? 14 anos como no Brasil ou 18 anos como em alguns estados dos EUA? Pode parecer bem óbvio para a maioria de nós que um adulto fazendo sexo com uma garota de 17 anos não tem nada de pedofilia, mas se essa for a regra da sociedade, ainda vale a pena de morte? Ou vamos ter uma segunda faixa etária para definir isso? Por que duas faixas etárias? Se uma garota de 12 anos te mandar um nude, você morre?</p>
<p>Qualquer psicólogo ou psiquiatra de respeito vai te dizer que não é como fazer um exame de sangue e encontrar uma bactéria&#8230; a mente humana é complicada. E toda vez que você mistura conceitos complicados com pena de morte, o risco do nosso senso comum falhar aumenta exponencialmente. É por isso que eu não vou continuar esse texto considerando matar essas pessoas. Indivíduos tem o sagrado direito de desejar a morte de alguém, mas o Estado tem que ficar com as mãos bem longe do tema.</p>
<p>Por isso, minha solução é desconectá-los da sociedade. E isso não quer dizer criar prisão perpétua e deixá-los juntos com os outros presos. Não estamos falando de ressocializar, estamos indo para o caminho oposto. O primeiro passo para lidar com um problema é reconhecer um problema: o número de pessoas com doenças mentais incuráveis no mundo é grande o suficiente para precisar de uma solução só sua. Não adianta tratar como um bandido genérico, porque o buraco é muito mais embaixo. A ideia de que psicopatas, sociopatas, pedófilos e todo tipo de ser humano que não parece ser tratável são apenas uma minúscula parcela de nós é confortável, mas não parece ser a realidade.</p>
<p>Temos que considerar sociedades à parte para essas pessoas. Elas precisam ser tiradas do convívio com o resto das pessoas, porque simplesmente não sabemos como resolver seus problemas atualmente. Elas são perigosas para o bem estar da maioria, mas dadas as condições certas, ainda podem ser úteis para o mundo. A ideia aqui é retomar o conceito de colônias penais: sociedades de excluídos com baixa vigilância de comportamento e uma distância razoável de outros centros populacionais para minimizar seu impacto. O ideal seria criar cidades-prisões, com uma gama básica de serviços públicos e empregos que possam gerar valor para a sociedade externa. Em troca deles ficarem longe de novas vítimas, recebem um arremedo de vida. Sim, parece ser bondade demais para gente que fez coisas horríveis, mas o sistema todo é montado para proteger quem por um acaso foi vítima de erro do Estado e ainda pode ser retirado de lá.</p>
<p>É claro, apesar do mundo ainda ter muito espaço disponível, os custos de criar cidades só para essas pessoas seria proibitivo. Ninguém vai gastar bilhões construindo uma cidade de psicopatas. Por isso, eu sugiro algo bem mais tecnológico: cidades virtuais em redes fechadas. A pessoa ainda viveria numa prisão, mas incentivada a viver em uma realidade paralela com utilização de computadores e realidade virtual. A tecnologia ainda não permite imersão perfeita, mas uma pessoa completamente isolada aceita qualquer migalha de interação social. E com o tempo, a qualidade só tende a aumentar, incentivando ainda mais esse isolamento da sociedade “normal”.</p>
<p>Não há necessidade de mais do que um cubículo com privada e cama, além de um computador. Muita gente vive essa vida por escolha própria hoje em dia. A grande preocupação seria isolar essa rede virtual do resto da internet, para evitar que essas pessoas pudessem influenciar outros, e especialmente para aplicar as regras dessa nova realidade virtual: a ausência de leis. Não estamos aqui para ressocializar. Se tudo der certo, a pessoa morre naturalmente sem nunca mais interagir com o resto do mundo, por isso, podemos liberar todo tipo de conteúdo dentro dessa rede.</p>
<p>Mas só para dar alegria para gente horrível? Não. É um efeito colateral que até traz o benefício de acalmar esse povo, mas também seria uma excelente ferramenta para encontrar falsos positivos, pessoas que foram acusadas de ter algum problema mental incurável, mas que na prática não fazem escolhas compatíveis. O mundo virtual rapidamente se tornaria a única válvula de escape dessas pessoas, e seus desejos mais profundos viriam à tona, por mais que tentassem disfarçar. Um mundo virtual sem regras claras é um excelente indicador do que a pessoa realmente quer fazer. Eu não vou descrever o que estou pensando exatamente sobre esse mundo virtual, porque pode ser meio pesado até mesmo para o Desfavor, mas em linhas gerais, é um jogo multijogador com várias personagens não jogáveis e mecânicas realistas de sexo e violência.</p>
<p>E para conseguir moedas virtuais desse mundo, esses presos poderiam fazer vários trabalhos repetitivos que ainda não conseguimos automatizar bem, como tratar fotos de lojas virtuais, transcrever livros escaneados, fazer reconhecimento visual em mapas&#8230; uma série de coisas que são úteis para o mundo lá fora, mas que não exigem interação humana. Quanto mais a humanidade transforma dados em commodities valiosas, e antes de uma inteligência artificial verdadeiramente generalista, esse povo seria extremamente útil e nunca mais teria contato com uma pessoa do mundo exterior. O objetivo do projeto é manter uma estrutura de custos equilibrada com a receita.</p>
<p>Tem gente que não vai participar? Sempre vai ter quem vai se rebelar e não participar, mas no final das contas, é o mesmo custo que o Estado teria de qualquer jeito. Com o passar dos meses, é bem provável que até mesmo os mais teimosos ou tecnologicamente ineptos acabassem dando uma chance para esse mundo virtual. Com um sistema de experiência, poderíamos evitar que jogadores muito veteranos entrassem em contato com novatos. Toda essa lógica de games já foi muito bem estudada no mercado. Dá para colocar níveis, desafios, itens especiais e tudo mais o que faz jogos multijogador funcionarem. Queremos que essas pessoas se enfiem dentro do jogo e nunca mais queiram sair. É a forma mais humana que eu consigo enxergar de isolar uma pessoa que não pode voltar para a sociedade.</p>
<p>Outro benefício é para a ciência, especialmente as que estudam a mente humana: começaríamos a entender muito mais sobre esses problemas mentais vendo essa gente agindo, raciocinando e tomando decisões num ambiente protegido. Nada impede que existam sessões de terapia virtuais, onde essas pessoas podem falar sobre seus problemas e dar mais material de estudo para os especialistas. E&#8230; se o Estado quiser ser bem capitalista mesmo, pode cobrar uma nota para terceiros entrarem no jogo e verem como ele é. Pode ser muito eficiente para gerar renda para o sistema, e ainda mais para olhar mais de perto pessoas que talvez cometam crimes reais&#8230; cidadão que gasta muito dinheiro para ficar o dia todo no jogo dos presos cometendo atrocidades merece uma análise mais próxima.</p>
<p>O futuro é a realidade virtual. Muita gente já vai se perder lá dentro de qualquer jeito, então, por que não usar isso para o nosso bem? Não deixa o Estado ter uma punição sem volta, pode gerar vantagens econômicas, e nenhuma criança real vai ser ferida no processo.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que já estamos nessa realidade virtual, para dizer que pagaria para viver essa vida, ou mesmo para dizer que Bar’hai não curtiu isso: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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		<title>Exociedade.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 15:00:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Sugestão do Mauro: “Esse é para o Somir. Se ele encontrasse um planeta viável à vida humana. Como ele organizaria a sociedade? Como formaria um sistema econômico a partir do zero? Sistema político e afins. Como se coloca um mundo para funcionar do zero?” – Uma pessoa normal se assustaria com esse tema, mas para [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sugestão do Mauro: <em>“Esse é para o Somir. Se ele encontrasse um planeta viável à vida humana. Como ele organizaria a sociedade? Como formaria um sistema econômico a partir do zero? Sistema político e afins. Como se coloca um mundo para funcionar do zero?”</em> – Uma pessoa normal se assustaria com esse tema, mas para a sorte de vocês e o azar de todas minhas ex-namoradas, esse não é o meu caso! Excelente sugestão! Vamos criar um mundo novo?<span id="more-15829"></span></p>
<p>Mas antes disso, precisamos de regras. Não porque regras são divertidas, mas porque são necessárias: se é a sua primeira vez pensando em como desenvolver uma sociedade do zero em um novo planeta, você provavelmente não teve tempo de calcular a quantidade absurda de variáveis envolvidas. Não só sobre sua responsabilidade como criador dessa sociedade, mas também pela tecnologia envolvida. Cada pequena variação no cenário prévio ao estabelecimento da humanidade em um novo planeta gera um plano completamente diferente! Eu tenho certeza que poderia escrever uma série de livros só com essas variações. Mas, nosso tempo é mais limitado aqui. Por isso, vamos escolher algumas perguntas básicas e criar as sociedades baseadas nas respostas.</p>
<p>Pergunta 1: conseguimos viajar mais rápido que a velocidade da luz? Isso importa pois o mais próximo que um planeta habitável pode estar da Terra atualmente é ao redor de Próxima Centauri, distante quatro anos-luz de nós. Parece pouco, mas sua mensagem de WhatsApp demoraria oito anos para ficar com a marquinha azulada de mensagem lida caso você tivesse um amigo por lá. Sem viagem mais rápida que a luz, esse planeta estaria efetivamente isolado do resto da humanidade.</p>
<p>Pergunta 2: temos inteligência artificial generalista? Vulgo inteligência artificial que “pensa sozinha”. Se sim, provavelmente já estamos independentes de trabalho braçal e temos uma segurança gigantesca sobre manutenção de conhecimento acumulado. Se não, o ser humano precisa prosperar pela própria capacidade e ser capaz de se autorregular se quiser ter qualquer chance de sucesso.</p>
<p>Pergunta 3: existem úteros artificiais? Essa pergunta não é importante apenas pela repercussão no papel da mulher biológica na sociedade, mas também pode dar uma grande sobrevida à humanidade em caso de algum problema.</p>
<p>E finalmente, pergunta 4: o criador dessa sociedade terá alguma consequência negativa se tudo der errado? Vejam bem, se eu estiver pressionado para a sociedade funcionar, é melhor não reinventar a roda. Se for algo mais descontraído, existem várias alternativas mais divertidas.</p>
<p>Vamos começar então, partindo dos seguintes princípios: não viajamos mais rápido que a luz, nem temos inteligência artificial generalista ou úteros artificiais. E mais importante: eu preciso mostrar resultado e fazer essa sociedade funcionar sob pena de coisas horríveis acontecerem comigo. Esse será o planeta Opressor 1. Em Opressor 1, temos que aceitar algumas realidades difíceis: não existe uma estrutura funcional, trazemos tecnologia na nave, mas demorariam décadas até alguém conseguir mandar qualquer coisa da Terra para nós. Precisamos lidar com necessidades básicas primeiro, e não há espaço para “problemas de primeiro mundo”.</p>
<p>Eu escolheria um grupo de pessoas mais ou menos homogêneo, composto prioritariamente por uma raça, com uma dose saudável de 20 a 30% de mestiços dessa com outras raças para manter o pool genético minimamente funcional. E antes que me chamem de supremacista branco, podem ser negros, orientais, indianos ou qualquer outra raça, desde que as pessoas se pareçam o suficiente. Isso é importante para gerar um senso tribal inicial. É quase como proibir a torcida do time visitante de entrar no estádio, apesar de saber que a maioria deles não vão brigar, se uma minoria começar, não demora muito para que uma camisa de cor diferente seja motivo de desconfiança e desumanização entre pessoas. Como as primeiras décadas serão bem difíceis, o objetivo é tirar o máximo de motivos para pessoas se subdividirem em grupos ainda menores nessa hora tão delicada.</p>
<p>Já estou parecendo o Hitler aqui, mas não acabei ainda: como não temos úteros artificiais, precisamos de homens e mulheres dispostos a procriar. Procriar muito. Algo em torno de uns 4 a 5 filhos por casal. Uma civilização com tecnologia para chegar a outro planeta provavelmente consegue manter a mortalidade infantil bem baixa, mas como vai ficar claro a seguir, precisamos de uma taxa constante de crescimento populacional. Por isso, sinto dizer, mas essa viagem não é “LGBT friendly”. Eu sei que existe inseminação artificial, mas é um processo muito complexo para um planeta começando sua civilização, e esse grupo ia ser muito difícil de lidar considerando as próximas coisas horríveis que vou sugerir. Não podemos ter divisões.</p>
<p>Mulheres, me perdoem, mas precisamos de seus úteros. Isso significa estabelecê-las como cidadãs de segunda classe. Patriarcado, aqui vamos nós: infelizmente para o nosso exemplo, mulheres muito educadas geram menos filhos e tendem a buscar funções maiores na sociedade. Mulheres precisarão ser criadas com um foco muito grande em criar filhos e manter grupos sociais unidos. Para uma sociedade num estágio tão inicial, homens podem dar conta do trabalho fora de casa sem nenhum problema. Precisamos reduzir também sua capacidade de organização, afinal, por mais que as regras estejam claras para as imigrantes originais, suas filhas não assinaram contrato nenhum e precisam ser moldadas pela sociedade. Sem voto, sem emancipação e proibição de assumirem cargos de comando ou profissões que as retirem da casa.</p>
<p>Você deve estar pensando que nenhuma pessoa inteligente toparia essa mentalidade retrógrada, e você está certo(a): precisamos de religião. Uma religião que já seja aceita pela maioria da população. Eu sugeriria o cristianismo, porque já temos exemplos históricos que a religião pode ser vencida futuramente por movimentos iluministas e avanços científicos. Penso nela como uma vacina: você coloca uma religião já enfraquecida na mente das pessoas, que sabe que os anticorpos da racionalidade podem atacar com o passar das gerações. Não escolhi o budismo porque normalmente é uma religião pouco agressiva, o que diminuiria a proteção contra outras religiões e provavelmente faria as pessoas pensarem um pouco mais do que o desejado.</p>
<p>A organização política seria centralizada, com todas as terras inicialmente na mão do Estado, mas sendo utilizadas como moeda de troca para incentivar a iniciativa pessoal. Precisaríamos de um exército que agiria feito polícia por várias décadas antes de considerarmos a divisão (coisa que não conseguiram fazer no Brasil até hoje&#8230;). Parece absurdo, mas da leva inicial, podemos considerar pelo menos 1 soldado para cada 20 habitantes. Sim, estamos falando de um exército que ocupa 5% da população global. Nosso sistema é repressivo e exige extrema estabilidade, especialmente no caso de qualquer tentativa de independência. Com o desenvolvimento de uma indústria militar decente, podemos ir reduzindo esse contingente até 1% da população, já que armas compensam mais do que números. Claro que teremos impostos, precisamos pagar por esse exército.</p>
<p>Sim, estamos falando basicamente de uma ditadura aqui. Todo o plano passa por reduzir ao máximo a pluralidade política no planeta novo. Povo que ainda não produz alimento suficiente para gerar uma economia básica não pode ficar pensando em quem vai votar. Ditadura é horrível, mas faz as coisas acontecerem. Fere nossas sensibilidades modernas, mas democracia é muito para a cabeça de quem está apenas tentando sobreviver. O que não quer dizer que não vamos fingir ter uma&#8230; o modelo comunista de novo é útil aqui: ao simular uma democracia com um partido único e representantes do povo que sempre ganham a eleição, mantemos uma Constituição que prevê o modelo democrático, mas não o realiza até que o povo tenha capacidade de se mobilizar o suficiente ou seduzir o Exército. Teremos Executivo, Legislativo e Judiciário, todos fantoches no começo, é claro.</p>
<p>Evitaríamos ao máximo ter um sistema prisional nos modelos terrestres, afinal, eles custam muito caro ao Estado. A maioria dos crimes não violentos gerariam penas de trabalho forçado. Somos uma sociedade agrícola, e precisamos de muita comida. Cidadãos considerados perigosos para a sociedade serão enviados para colônias prisionais distantes, apostando no potencial de desenvolvimento econômico de bandidos (funcionou na Austrália) e gerando um plano B caso a civilização original tenha problemas muito sérios. Para evitar que o Estado tome decisões que não possam ser desfeitas, a pior punição de todas seria o retorno para a Terra. Os cristãos podem acabar tentando implementar a pena de morte, mas temos um exército enorme justamente para isso.</p>
<p>Ah, aborto será proibido. Precisamos mesmo dos bebês&#8230; nessa mesma linha, prostituição igualmente: precisamos de mulheres presas dentro de matrimônios, sem alternativas. Importante avisar: eu quero chegar num Estado livre que respeita direitos humanos, por isso nenhuma das leis opressivas será protegida em especial pela Constituição. Todas podem ser derrubadas se o Partido perder a maioria no legislativo.</p>
<p>O sistema econômico seria essencialmente socialista nas primeiras décadas, mas ainda chamaríamos de capitalismo. Teríamos dinheiro, até para importar valor da Terra e dar uma vantagem inicial para a população local. Usaríamos uma moeda terrestre por várias décadas para manter essa ilusão de valor universal. Quando finalmente as notícias da Terra chegassem para fazer o povo entender que seus dólares não valem nada com anos de demora para atualizar a cotação, já teríamos criado e substituído as verdinhas por uma moeda local.</p>
<p>O truque de misturar capitalismo e socialismo é adicionar planejamento central da economia com metas claras em ciclos de 5 ou 10 anos, mas já com o conhecimento acumulado de ver governos socialistas errarem incrivelmente nesses planos aqui na Terra. A primeira meta seria segurança alimentar. O básico o ser humano já faz sem ninguém para o controlar: as pessoas vão fazer seus tetos e produzir alimentos para a subsistência, mas o planejamento central vai induzir sistemas de cooperativas agrícolas por vantagens fiscais e distribuição de terras. Precisamos disso para gerar entidades competitivas para produzir inovação e gerar algum grau de desigualdade social. Economias saudáveis dependem disso. O sistema de cooperativas evitaria a concentração rápida de renda em apenas uma família, mantendo o grau de competitividade um pouco maior entre os mais ricos que inevitavelmente vão surgir. O foco dos primeiros ciclos é aumentar a produção alimentar imensamente.</p>
<p>E como evitar que os ricos comecem a reduzir a produção para manter os preços altos? Bebês. Muitos bebês. Para manter o ciclo capitalista funcional depois da primeira fase “socialista”, é obrigatório manter a ilusão de crescimento infinito, para que haja interesse em produzir mais e mais para alimentar, vestir e saciar os desejos de uma população que não para de crescer. Mais pessoas significam mais mão de obra também. A economia passaria de fase para uma industrialização assim que os líderes da fase agrícola conseguissem prover alimentos suficientes para tornar agricultura de subsistência uma péssima ideia. Nossa meta é criar valor por número de pessoas até a mecanização tomar conta da economia.</p>
<p>E se você acha que eu estou maluco por achar que um povo que chegou numa nave precisa passar por fase agrícola antes da industrial, não está lendo direito: eu estou falando de décadas. Já sabemos os atalhos, já chegamos com tecnologia. Por isso precisamos fazer filhos aos montes: o que a humanidade demorou centenas de anos para estabelecer aqui, esse povo vai fazer em uma ou duas gerações. E se não fosse a religião oficial atrasando um pouco esse processo, corríamos o risco disso sair em uma geração. Uma sociedade avançada não ter a menor chance de conter as mulheres, e assim que elas escaparem das garras do Estado opressor, a taxa de natalidade desaba. Aí dependeríamos basicamente só de imigrantes para povoar o novo planeta. Isso não dá certo. Gera divisões sociais numa população muito pequena para acomodar essa tensão.</p>
<p>Ah, já que eu acabei de escrever tanta coisa inaceitável, teríamos uma limitação severa de imigrantes por pelo menos um ou dois séculos. Se o planeta for muito longe da Terra, nem precisamos escrever essa lei, porque daria tempo de gerar uma identidade própria e um senso de comunidade forte nos primeiros que chegaram lá.</p>
<p>Eu basicamente recriei a China? Eu basicamente recriei a China. Mas nesse mundo, essa China pode crescer sem concorrência e não precisa de política de filho único. Acabaríamos com um oligopólio? É meio que inevitável no capitalismo. Mas seria um com muito mais participantes pelo planejamento inicial de cooperativas e espaço o suficiente para quem quisesse fugir disso ter para onde crescer também. E para quem ficou com medo da população crescer além da capacidade de produção de alimentos: não tem para onde migrar, não tem ajuda estrangeira (extraplanetária) rápida o suficiente. Seria triste, mas a população encolheria até o limite da produção naturalmente&#8230; e não adianta se rebelar: exército grande.</p>
<p>Pronto. Não vai ser bonito por alguns séculos, mas essa sociedade vai funcionar. O segredo é não querer fazer tudo direito de cara: você tem que plantar as sementes de uma sociedade moderna e deixar ela crescer num ambiente fértil. Pessoas precisam de comida, teto e um mínimo de ordem para funcionar. E mesmo que você tenha odiado as minhas ideias, serve como uma análise de como a humanidade chegou até aqui. Quase tudo o que consideramos horrível hoje em dia em questão de organização social já foi necessário para algum povo no passado. E dificilmente dá para pular essas etapas num planeta novo sem tudo o que já construímos aqui.</p>
<p>Cacete, eu nem arranhei as possibilidades desse tema e já estou na quinta página! Faltou o sistema fiscal! Como não quero brincar com a sorte e usar um “tecnicamente” contra o C.U., mês que vem, quando estiver com temas livres de novo, continuo com o que faria em outras condições iniciais. Enquanto isso, quero ver se você monta uma sociedade melhor com todas as limitações que eu me coloquei (à toa). Somir para presidente da Terra!</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que começou a valorizar mais a vida que tem, para dizer que os cristãos vão estragar tudo, ou mesmo para dizer que não acredita que leu essa abominação até aqui: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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		<title>Sorteiocracia.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2017/07/sorteiocracia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Jul 2017 18:40:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Sempre bom lembrar: Dés Potas é a coluna que apresenta soluções instantâneas para todos os problemas da sociedade. O que eventualmente pode causar discordância entre os impopulares. Mas eu garanto, caso você discorde dessa solução, tem todo o direito de mudar de ideia até concordar. E hoje eu encontrei a resposta para o Brasil, a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre bom lembrar: Dés Potas é a coluna que apresenta soluções instantâneas para todos os problemas da sociedade. O que eventualmente pode causar discordância entre os impopulares. Mas eu garanto, caso você discorde dessa solução, tem todo o direito de mudar de ideia até concordar. E hoje eu encontrei a resposta para o Brasil, a Sorteiocracia!<span id="more-11796"></span></p>
<p>Eu sei, eu sei, o nome é terrível, mas para o público se adaptar mais rápido, é bom estar no nome. A Sorteiocracia é um método de governo onde tudo o que pode ser deixado ao sabor da sorte, será. E com uma faixa bem generosa de permissividade sobre o que é essencial ou não. Afinal, não parece sorte se não tiver a chance de azar. Vamos começar com o elemento mais básico de um sistema de governo: a escolha dos governantes.</p>
<p>Ao invés de gastarmos uma nota com votações e abrir espaço para os abusos de poder econômico que são as campanhas eleitorais, vamos simplesmente sortear nossos líderes. Pronto. Basta ter uma idade mínina, educação mínina e não ter nenhum problema mental sério para participar. E a coisa mais bonita de tudo é que cidadão precisa se inscrever para participar. E não custa nada. Qualquer Zé Ruela que preencha os já leves requisitos mínimos vigentes na legislação atual pode concorrer.</p>
<p>E cada ciclo eleitoral é feito de inscrições e sorteios. Para os cargos executivos, sorteia-se vice e titular, pelo período do cargo. Para os legislativos, idem, mas com muito mais agraciados. Cargos regionais como governadores, prefeitos e vereadores? Sorteios regionais. Chega de fingir que é necessário algum preparo para exercer essas funções, fazemos todo esse auê para eleger completos inúteis que poderiam ser escolhidos na sorte com os mesmos resultados? Sorteiocracia.</p>
<p>E nesse sistema de governo, admitimos nossa incapacidade de planejamento no longo prazo, reduzindo consideravelmente o tamanho dos mandatos. Pra quê quatro anos? Um aninho está bom demais, ganhou no sorteio mesmo. Um ano com um salário bacana e cheio de benefícios. Um ano para tentar fazer algo que preste ou ser esquecido para sempre. Um ano para não ter chance de aprender como o sistema funciona e ser extremamente incompetente em tirar proveito dele.</p>
<p>E como é sorteio, a chance de reeleição vira uma chance infinitesimal, vamos ter um sistema que se pouco eficiente, pelo menos vai ser menos explorável pelos corruptos de carreira. Não existe carreira de ganhar num sorteio, e mesmo que em alguns lugares algumas pessoas começarem a ganhar muitas vezes, fica bem claro que o sistema foi burlado, e bem mais fácil de resolver o problema. Uma coisa é ter caixa 2 para ganhar mais votos numa eleição, outra é subornar pessoas para mexer com um sorteio, o segundo, por incrível que pareça, deixa rastros maiores.</p>
<p>Sim, partimos do princípio que basicamente qualquer pessoa pode exercer as funções públicas, e não é preconceito, é pós-conceito. Num sistema com indicações políticas, já sabemos que fora os funcionários de carreira, ninguém sabe porra nenhuma sobre o seu trabalho. Todos os cargos públicos eletivos entrariam no sorteio, justamente aqueles assumidos por imbecis genéricos que pouco ou nada sabem do serviço. E vamos pensar em probabilidades aqui: num país com uma maioria pobre ou muito pobre, logo as pessoas vão começar a apostar nos cargos públicos. Pode não tirar a sorte grande de uma presidência, mas de repente pode rolar um vereador. Um ano de salário de vereador está bacana para a imensa maioria das pessoas, e como não tem nada que a pessoa possa fazer para se manter no cargo no próximo ciclo, duas coisas boas podem acontecer&#8230;</p>
<p>A primeira é que a pessoa vai se sentir intimidada pelo cargo &#8211; lembrando que a maioria das pessoas, por mais BMs e arrogantes que sejam, vão cair num buraco sem fundo se tentarem entender seus trabalhos bem o suficiente para explorá-los – tornando-se muito mais propensa a obedecer os funcionários de carreira próximos e não se comprometer. Porque todos os outros mecanismos de expulsar alguém do cargo continuam valendo. Outra possibilidade interessante é que o cidadão vagabundo tende a ligar o automático e só comparecer para tomar café e gastar verba de gabinete, não ajudando muito a população, mas não atrapalhando também.</p>
<p>Claro, vai se criar uma enorme indústria de influência desses eleitos pela sorte, mas vamos pensar de novo nas estatísticas: ou vai custar muito barato para subornar os políticos (a maioria pobre demais pra dizer não), fazendo com que todos estejam subornados em dado momento, mantendo a disputa de interesses viva mesmo sob subornos constantes. E a tendência é que essa indústria seja explorada constantemente, subindo os preços com uma série de “eleitos” sabendo que aquele ano é basicamente a única chance que vai ter de juntar algum dinheiro. Eventualmente vai ser muito melhor subornar os funcionários de carreira pela influência e pela longevidade de seus serviços, e esses tem mais a perder.</p>
<p>Admito que esse sistema aceita a falência do processo democrático e tenta colocar algo aleatório no lugar, mas vamos pensar em probabilidades, mais uma vez: atualmente renovamos nossos políticos de quatro em quatro anos, com inúmeras reeleições e um grupo minúsculo de candidatos com chances realistas de vitórias (custa muito caro ter chance de ser eleito). Com um sistema de sorteios, a base de pessoas aumenta exponencialmente, e considerando a média da população, vamos ter basicamente a mesma quantidade de incompetentes e corruptos, mas com chances eventuais de boas pessoas caírem nos cargos. A Sorteiocracia é o inverso da Meritocracia, sistema que só vale a pena quando a população de um local tem méritos em proporção suficiente. Não é o nosso caso.</p>
<p>E com um bônus: todos os líderes podem usar o recurso da sorte para tomar decisões, desde que duas ou mais opções sejam preparadas pelos profissionais de carreira responsáveis por seus departamentos. Nunca mais um líder vai ter medo de tomar decisões impopulares, primeiro porque não depende do povo para se manter no poder (e não vai se reeleger), e depois porque seja o que for decidido, foi na base da sorte. Cidadão pode lavar as mãos para todos os grupos reclamando disso. E não vamos ignorar que um povo como o brasileiro vai transformar tudo num grande show: com os sorteios sendo mostrados ao vivo e chiliques em redes sociais. E se a decisão for uma porcaria, lidamos com ela por um ano, porque logo vem outro paraquedista com a chance de jogar a moeda pra cima.</p>
<p>Estabilidade é coisa de sistema que está pronto para estabilidade. Vamos abraçar a ideia de que nada faz sentido mesmo, e dar sentido para isso.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que nem perceberia a diferença, para dizer que achou um problema na lógica (impossível), ou mesmo para dizer que depender da sorte é tudo o que fazemos: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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		<title>Fazendo o mínimo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Apr 2016 09:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Como é uma coluna meio rara, sempre bom explicar: Dés Potas é onde sugerimos soluções &#8220;mágicas&#8221; para grandes problemas sociais partindo do princípio de controle total. E hoje eu quero falar de uma dessas soluções, que passa longe de ser inovadora, mas que finalmente pode ter seu valor no mundo de hoje: a renda mínima [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Como é uma coluna meio rara, sempre bom explicar: Dés Potas é onde sugerimos soluções &#8220;mágicas&#8221; para grandes problemas sociais partindo do princípio de controle total. E hoje eu quero falar de uma dessas soluções, que passa longe de ser inovadora, mas que finalmente pode ter seu valor no mundo de hoje: a renda mínima garantida. Mas não pelos motivos nobres que vocês possam imaginar&#8230;<span id="more-9877"></span></p>
<p>Renda mínima garantida é um nome que estou colocando agora, mas a ideia todo mundo já conhece de alguma forma: é garantir que cada ser humano vivo, só por estar vivo, receba dinheiro do Estado (mensalmente, semanalmente) que garanta pelo menos sua sobrevivência. Não precisa dar nada em troca, estudar, trabalhar, ter filhos&#8230; a pessoa só recebe uma &#8220;mesada&#8221;. Pode ficar o dia todo largado na rua, pode gastar tudo com bebida&#8230; não tem regras.</p>
<p>A ideia parece &#8220;comunista&#8221;, mas na verdade não é bem assim: o Estado não está contratando o cidadão, está só dando dinheiro pra ele. Você pode até achar que é a mesma coisa que a Bolsa-Família que já criticamos tantas vezes aqui, mas eu argumento que essa ideia de renda mínima garantida é ainda mais hardcore nesse sentido: não precisa comprovar porra nenhuma, não precisa botar filho em escola, não precisa ter filhos&#8230; é só existir mesmo. Ninguém pode ameaçar te tirar isso. Nasceu, tem essa renda até o dia da morte, ponto.</p>
<p>Ideias parecidas com essa já existem aqui no Brasil, é claro, e em outros países onde o governo gosta de dar uma subornada no povo. Naqueles micro países esbanjadores árabes, o dinheiro do petróleo vira uma espécie de &#8220;dividendo&#8221; para os cidadãos. Já existe a discussão em países como Suíça (onde está bem avançado), Canadá, Austrália&#8230; todos programas parecidos, mas ainda não da forma como estou sugerindo aqui.</p>
<p>Primeiro temos que entender os prós e os contras de fazer algo assim. As principais críticas são óbvias até: faz o Estado gastar uma nota e potencialmente remove o incentivo de muita gente de contribuir para a sociedade. Seria como criar uma geração de crianças mimadas que não enxergam o valor do trabalho, dizem. E não está muito longe da verdade. O ser humano tende a buscar a maior vantagem possível: se alguém quer ficar coçando o saco em casa, até um rendimento pequeno garantido vira incentivo pra continuar na inércia. E fazer as pessoas que trabalham e contribuem pagarem por isso indiretamente soa muito injusto. E outra, quem vai querer fazer os trabalhos difíceis se não precisa trabalhar mais? Voltaremos a isso mais tarde.</p>
<p>Mas, no outro sentido, vantagens potenciais: deixa a experiência humana menos &#8220;bélica&#8221; em geral. Não ter mais essa pressão para conquistar sustento básico tende a reduzir até mesmo índices de criminalidade. É menos gente tendo que interromper estudos pra pagar contas de casa, é menos incentivo para profissões como a prostituição&#8230; a sociedade ganha sim algumas coisas com isso. Até ideologicamente: não dá pra falar de direitos humanos básicos se no final das contas estamos cobrando por eles. Precisa parecer valioso para outras pessoas para ter direito ao sustento? Em tese bastaria ser humano. E uma sociedade com essas bases começa a formar mais e mais pessoas que não precisam escolher profissões mais lucrativas, não falo só de termos mais artistas, mas até mais cientistas. Menos gente abarrotando cursos de marketing e direito, mais gente explorando profissões que não estão em grande demanda, ou que historicamente não pagam muito bem.</p>
<p>Ter dinheiro é muito importante na sociedade não só porque o ser humano só se importa com consumo, ter dinheiro é importante pelo risco grande que é não ter. Pobreza é sinônimo de ter seus direitos mais básicos ignorados. Só de dizer para as pessoas que elas não precisam extrair o máximo de suas vidas produtivas para evitar os riscos da pobreza extrema, a mentalidade muda. E, voltando àquilo que tinha dito sobre as pessoas não quererem mais trabalhar com coisas perigosas, difíceis ou humilhantes: bom, já passou da hora delas não quererem mesmo. De ser uma escolha bem melhor remunerada. As coisas vão mal quando dependemos de gente trabalhando em regime de virtual escravidão para economizar um pouco nos produtos que compramos.</p>
<p>Mas esses são argumentos de um coração mole que não entende a realidade difícil desse mundo, não? Bom, eu não escreveria este texto se não tivesse algo pra te surpreender, um pouco que seja: logo logo seremos dez bilhões de pessoas nesse mundo. O planeta já está dando sinais que não segura uma humanidade com esses números num padrão de ganância e consumo de países de primeiro mundo. Nem a gente mesmo está dando conta. Como a tendência global é de forte evolução em indicadores sociais (não canso de repetir: as pessoas não enxergam isso, mas estamos melhorando de padrão de vida a gigantescos passos desde o século passado) e cada vez mais gente inserida pelo menos na expectativa de um padrão de consumo &#8220;americanizado&#8221;, tem uma crise das grandes logo na próxima esquina.</p>
<p>Por isso eu digo que se déspota fosse, começaria a focar agora mesmo em REDUZIR a empolgação das pessoas com melhorias em seus padrões de vida. Criar algumas gerações de acomodados, gente sem ânimo ou incentivos de se matar de trabalhar (ou de procurar atalhos) pra ficar rica. Um mundo um pouco mais preguiçoso, que aceita trabalhar menos e ganhar menos, que acha que um carrão não vale a encheção de saco de ter um segundo emprego&#8230; acho uma bobagem tentar seguir esse caminho de acalmar os ânimos gananciosos da humanidade com conscientização sobre recursos naturais ou tentando amordaçar a indústria da aspiração. Culpa e censura claramente não funcionam mais tão bem nesse mundo de informação excessiva.</p>
<p>Que tal mais gente enfiada em casa jogando um joguinho online e menos tentando passar no vestibular de medicina? Sim, eu sei que o modelo não é muito sustentável, mas, sorriam: a natureza encontra seu jeito. Esses surtos de procriação normalmente são resultados de sociedades onde filhos são &#8220;recursos naturais&#8221;, onde pessoas precisam ter muitos para alguns vingarem e se tornarem mão de obra pra manter ou subir padrão de vida. O que dados sobre melhoras na &#8220;segurança alimentar&#8221; de países pobres demonstram é que os pobres vão tendo cada vez menos filhos de acordo com o aumento da estabilidade que suas famílias e comunidades apresentam. As pessoas perderiam o medo de ter filhos se eles estivessem garantidos a vida toda, não? Oras, desde quando as pessoas tem medo disso? Estabilidade derruba o número de filhos porque as pessoas começam a ter tempo de fazer justamente o que nunca fizeram: pensar um pouco mais.</p>
<p>E essas pessoas com cada vez menos incentivo pra botar a cara na rua seriam candidatos cada vez piores para procriar. Renda mínima garantida vai criar toneladas de &#8220;betas&#8221; de ambos os sexos. A humanidade seria resetada depois de um tempo, com essa gente &#8220;desanimada&#8221; deixando de passar genes para frente. Com a mentalidade atual do ser humano já estamos caminhando para um limite de crescimento populacional, mas com bilhões de nós querendo viver como americanos gordos, não tem como sustentar. Agora, bilhões suficientemente estagnados num padrão mínimo de vida? A economia vai girar sem parecermos um enxame de gafanhotos avançando nos recursos contados que ainda temos.</p>
<p>Se você sempre achou que o mundo desabaria se garantíssemos um básico pra todo mundo sem cobrar nada em troca, pense de novo. Talvez precisemos criar muitos e muitos &#8220;vagabundos&#8221; pra manter todo esse sistema viável.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para me chamar de maluco comunista, para dizer que adora quando eu te desmotivo, ou mesmo para dizer que eu só quero isso pra ficar em casa nerdeando: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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		<title>Negócio da Grécia.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Jun 2015 09:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Faz tempo que não posto, então só para explicar mais uma vez: Dés Potas é a coluna onde tentamos resolver todos os problemas do mundo. Nada de tão complicado assim&#8230; Na última segunda-feira, os bancos gregos não abriram. Pudera: a população &#8211; preocupada com alguma medida mais radical do governo &#8211; resolveu guardar seu dinheiro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Faz tempo que não posto, então só para explicar mais uma vez: Dés Potas é a coluna onde tentamos resolver todos os problemas do mundo. Nada de tão complicado assim&#8230;</p>
<p>Na última segunda-feira, os bancos gregos não abriram. Pudera: a população &#8211; preocupada com alguma medida mais radical do governo &#8211; resolveu guardar seu dinheiro debaixo do colchão até a crise arrefecer um pouco. E dinheiro fora dos bancos é um mal sinal para economias baseadas em&#8230; bom, baseadas em porra nenhuma como a imensa maioria delas nos dias atuais. O povo que pague a conta. Talvez esteja na hora de dar algum propósito para todo esse valor em circulação.<span id="more-8525"></span></p>
<p>Não sou economista, mas um pouco eu posso dizer: a humanidade em geral modificou seu modo de enxergar valor nos últimos dois séculos. E de forma bem mais ativa nas últimas décadas. Se um dia valor era algo sólido como uma barra de ouro, o modelo atual obedece mais ou menos a mesma lógica de usar um cartão de crédito para pagar outro cartão de crédito. Sim, é um sistema de confiança, mas baseado em dívidas. Enquanto todo mundo estiver devendo para todo mundo, dá para levar em frente a ideia de que cada nota de dinheiro não passa de uma nota promissória, mas isso começa a ficar complicado quando alguma das partes deixa de&#8230; dever.</p>
<p>Na Grécia, por exemplo: na sanha de entrar para a zona do euro, os gregos foram&#8230; criativos&#8230; com suas informações sobre a sua economia. Os governos foram tomando empréstimos para maquiar as contas e não contaram para ninguém. Com isso alcançaram números aceitáveis para fazer parte do bloco europeu de moeda única. Esperava-se que esse truque se pagasse no futuro, com maior interação econômica com as potências locais. Mas a mentira tem pernas curtas.</p>
<p>Os governos pós-euro perceberam logo que estavam com uma bomba nas mãos. A moeda valorizada não condizia com as reais condições do país, aumentando assustadoramente os custos de manter a máquina estatal funcionando. Junte-se a isso todos aqueles empréstimos que acabaram vindo à luz dos anos de maquiagem nos resultados. Receita de desastre: o país custava muito mais caro e tinha muito mais dívidas do que presumia. A Grécia até que tentou, aplicando pacotes de grande austeridade nos últimos anos para tentar conter o desastre. Mas não é como se o sistema fosse planejado para realmente resolver esse tipo de problema.</p>
<p>A Grécia é uma dor de cabeça para a zona do euro por um simples motivo: seus débitos não encaixam mais no sistema. O que você prefere, ter uma promissória de dez mil reais de um cidadão de classe média ou uma de um milhão de um mendigo? O sistema é baseado em dívidas difíceis de pagar, mas não impossíveis. Quando os gregos olham para suas contas e não tem nem ideia de onde tirar o dinheiro, suas dívidas são irrelevantes. Vivemos num modelo de economia mundial onde o ideal é que todo mundo permaneça endividado, com muitos juros acoplados. Mas chega uma hora onde fica claro que isso não foi pensado no longo prazo: se os juros forem empilhando indefinidamente, a humanidade simplesmente não consegue mais produzir valor suficiente para pagar essas dívidas.</p>
<p>O modelo desaba e acabamos todos com notas promissórias de mendigos. Valor potencial desperdiçado. A merda que acontece com os gregos não tem hora pra acabar a não ser que alguém suma com as dívidas deles. Seria humanitário esquecer os débitos para deixar um povo se reerguer, mas seria um precedente devastador para o resto do mundo. O sistema está baseado em dívidas, e perdoá-las faz dele uma piada.</p>
<p>Acredito que já estamos chegando no ponto de rever o sistema. Não é nem uma questão de capitalismo e comunismo, é mais profundo do que isso, é enxergar uma nova forma de auferir valor no mundo. O método do ouro foi excelente por um tempo, mas ele tem suas restrições: não existe valor virtual, ele dá pouco incentivo para inovação. O método das dívidas não tem a solidez do ouro, mas permite que inventemos valor de acordo com nossas necessidades. Como quantificar em ouro o valor de uma marca? Ou uma rede social? Infelizmente esse modelo também bate num limite de valores &#8220;sociais&#8221;. E quando o modelo joga um país numa crise aparentemente sem fim? O lucro nos trouxe até aqui, mas talvez não seja o veículo ideal para os próximos quilômetros da nossa estrada.</p>
<p>Se num sistema capitalista a população é gado e se num socialista ela é ferramenta, que tal voltarmos a ser humanos? A minha ideia é simples, mas imensamente complexa de se alcançar: vamos derivar valores de resultados. A humanidade define objetivos (livremente) e valoriza quem os torna possíveis. E é claro, não pode ser um só e não pode ser só coisa de um governo. O conceito é viver num mundo onde o valor está diretamente atrelado a um resultado prático, mensurável e compreensível.</p>
<p>Teríamos a meta de erradicar a fome, a de montar uma base em Marte, a de ensinar direito para a população, a de conquistar 50% das vendas numa região&#8230; o que pode ser definido (minimamente) bem por números e provas concretas vira valor. Ao invés de trabalhar para uma corporação cujo fim seria o lucro, trabalha-se para uma que tenta lucrar ao participar de um projeto para construir mil escolas no Nordeste, por exemplo. O lucro está intocado, a iniciativa pessoal também, mas o valor está atrelado ao resultado. Você pode ficar rico do mesmo jeito, desde que consiga trabalhar bem no mercado de ações (e agora esse termo seria bem realista).</p>
<p>Imagine uma bolsa de metas. Gerando valor de acordo com interesses momentâneos, aumentando o lucro de quem está nos mais populares e diminuindo os de quem não está. Governos poderiam injetar dinheiro nas ações dessas metas para incentivar o que julgam mais importante, empresários poderiam vender sorvete para ajudar a cura do câncer, poderíamos usar o sistema que temos para resolver alguma coisa, só pra variar. Se não é factível derrubar no curto prazo a imensa concentração de renda dos dias atuais, que pelo menos a direcionemos para conseguir algumas soluções.</p>
<p>Ao invés de endividar países só para não quebrar todo o sistema, que o façamos para que ele demonstre algum resultado para sua população. O que eu enxergo nesse momento é um enorme desperdício de valor potencial num jogo que poderia ajudar a humanidade, mas não o faz. Muito se engana quem acha que temos que ficar bonzinhos para aumentar a qualidade de vida no mundo, basta direcionar o esforço para lugares melhores. Mantenha-se o sistema de valor potencial, mas chega de dívidas! O dinheiro está ficando tão concentrado que não vai ter mais de quem cobrá-las no futuro.</p>
<p>Não é o sistema capitalista que está entrando em colapso, é o nosso conceito de valores. Faz sentido não ficarmos amarrados em recursos físicos quando temos tantos &#8220;virtuais&#8221; à disposição, mas também não adianta nada se o objetivo final desse sistema é fazer coleção de dinheiro! Estamos acordando cedo e trabalhando o dia todo para quê? Somos mais do que capazes de corrigir o curso (como já fizemos outras vezes) e fazer esse esforço todo dar em alguma coisa.</p>
<p>E com o enorme poder dos governos no mundo &#8211; usado para manter o sistema de dívidas no lugar &#8211; não deve ser difícil transformar metas que são aparentemente de baixo potencial lucrativo em minas de ouro! Não pagamos impostos? Justamente por isso. Alguém tem que fazer o serviço &#8220;sujo&#8221; de desperdiçar valores na construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária. Não precisamos de empresas fingindo ser boazinhas, precisamos de gente trabalhando sério e ganhando sua vida para fazer vidas melhores.</p>
<p>Evoluímos rapidamente com metas lucrativas. Quando o governo mais rico do mundo cismou que queria ir para a Lua para demonstrar superioridade sobre seu adversário global, o dinheiro apareceu e fizeram acontecer. Não precisa de objetivo nobre para fazer coisas nobres. Se curar doenças for lucrativo o suficiente, o mercado mexe a bunda e as pessoas começam a ter mais oportunidades de demonstrar engenhosidade diante do problema. No esquema de dívidas, ainda tem muito esforço envolvido, mas poucos resultados práticos. São os valores que estão errados.</p>
<p>Ao invés de cobrar da Grécia um balanço de uma empresa saudável, que se coloque seus ativos em metas &#8220;menos lucrativas&#8221; como punição. Erradicar fome no mundo dificilmente vai estar no topo das prioridades de uma economia de metas, então quem não honrar seus compromissos nas mais lucrativas fica obrigado a ralar em dobro por uma das menos. O povo se fode quase do mesmo jeito, mas não para pagar dinheiro imaginário para credores que nem sabem o que fazer com isso (a não ser criar novas dívidas).</p>
<p>Ainda existe senso de responsabilidade. Não é &#8220;bondade&#8221; nenhuma, são apenas negócios. E aí quem sabe esse cachorro para de correr atrás do próprio rabo, só pra variar&#8230;</p>
<h3>Para dizer que isso não resolve tudo, para dizer que isso ainda é muito conceitual pro seu gosto, ou mesmo para dizer que bobagens à parte finalmente entendeu o que aconteceu na Grécia: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Pedestres.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2014 08:00:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Muito se fala e se cobra de motoristas. Controla-se sua velocidade, seus reflexos e até mesmo o que ingeriram antes de dirigir. Pena que nenhum controle é exercido no caso dos pedestres, pois estes também tem potencial para causar acidentes graves. Pedestres deveriam sofrer algum tipo de controle. Qualquer tipo de controle. E é sobre [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Muito se fala e se cobra de motoristas. Controla-se sua velocidade, seus reflexos e até mesmo o que ingeriram antes de dirigir. Pena que nenhum controle é exercido no caso dos pedestres, pois estes também tem potencial para causar acidentes graves. Pedestres deveriam sofrer algum tipo de controle. Qualquer tipo de controle. E é sobre isso que vamos discutir hoje.<span id="more-7612"></span></p>
<p>Não sou lunática de propor um controle similar para motoristas e pedestres, até porque o potencial lesivo de uma pessoa motorizada é muito maior. Evidente que os motoristas devem sofrer um controle maior. Mas, deixar pedestre sem qualquer controle ou fiscalização me parece, no mínimo, uma injustiça.</p>
<p>Também não sou louca de tentar criminalizar qualquer conduta praticada por um pedestre. Isso seria uma desproporção e um desfavor para a sociedade. Direito penal é o último recurso, só deve ser utilizado quando todo o resto se mostrou insuficiente para coibir aquela conduta.</p>
<p>O que quer que se proponha, pode ser feito nos moldes da punição para quem joga lixo na rua. Uma punição randômica, você nunca sabe quando tem um guardinha te olhando. Às vezes dá para jogar impune, às vezes não. E o “policiamento” mais ostensivo é itinerante, sendo deslocado para as áreas que mais apresentam problemas.</p>
<p>Um exemplo: pedestre que atravessa fora da faixa. Ora, se jogar feito um louco na frente dos carros é uma forma de colocar a todos em risco, merece uma punição. A pessoa tem que ter MEDO de fazer isso. Se não o tem em função da sua própria vida, que o tenha em função do bolso. O esquema de autuação e multa funcionaria nos mesmos termos daquela aplicada a quem joga lixo no chão. Se no seu Estado não tem punição para quem joga lixo no chão, procura no Google.</p>
<p>Qualquer pedestre que cause um acidente de trânsito por causa da sua imprudência deveria sofrer uma penalidade na forma de multa. Uma pequena tabela com valores estipulados com alguma maleabilidade (ex: acidente com morte, indenização entre 5 a 5000 salários) dariam conta. Essa condenação poderia ser contestada judicialmente, para evitar abusos.</p>
<p>Pedestre se portando de forma imprudente de modo a colocar em risco terceiros, estejam eles motorizados ou não, tem que ser passível de punição. Pedestres abusados e irresponsáveis dificilmente vão mudar de atitude se tiverem certeza da impunidade. A razão de ser da punição é a mesma dos motoristas, o risco que aquela conduta acarreta.</p>
<p>Pedestres cobram muito dos motoristas, mas às vezes erram tanto quanto e provocam acidentes que machucam terceiros. Assim não dá. Tá na hora de todo mundo atravessar na faixa, tá na hora de ninguém ficar andando cambaleando de bêbado na rua, tá na hora de se portar com civilidade, por bem ou por mal.</p>
<p>Civilidade urbana é para todos. E se essa iniciativa desse certo, poderia ser estendida para todo e qualquer ato que comprometa o bom convívio social. Chega dessa papagaiada de processo, de ir para delegacia, de ter que fazer audiência. Regulamenta tudo bem regulamentadinho em lei e aplica multa na hora. Passou da hora de desafogarem o Judiciário.</p>
<p>Uma multinha aplicada na hora, que desse uma tremenda dor de cabeça se não fosse paga, faria as pessoas andarem na linha. Uma prova disso é a Lei Seca, que, apesar de não ter acabado com os acidentes de trânsito, mostrou uma melhora significativa. O brasileiro médio tem receio de beber e dirigir, não por sua incolumidade física e sim por aqueles mil reais que vai ter que pagar e pela perda da sua carteira de motorista.</p>
<p>Por que não usar os Guardas Municipais, que já estão na rua e bota para observar o que os pedestres estão fazendo e aplicar multa na hora? É chato? Muito. É ridículo? Certamente. É necessário? Infelizmente.</p>
<h3>Para dizer que é contra pois quer continuar sendo irresponsável, para protestar pelo seu direito de se colocar em risco ou ainda para dar mais sugestões de condutas individuais que deveriam ser punidas com multa: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Tecnocomunismo.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2014/10/tecnocomunismo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Oct 2014 09:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Quase metade da riqueza mundial (48%) está nas mãos de 1% da população. Essa informação é do banco Credit Suisse, e apesar de nossa já folclórica desconfiança dos suíços aqui na RID, os dados assustam. Não só pela injustiça com 99% dos restantes, mas pela saúde do &#8216;organismo humanidade&#8217; como um todo: isso não é [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quase metade da riqueza mundial (48%) está nas mãos de 1% da população. Essa informação é do banco Credit Suisse, e apesar de nossa já folclórica desconfiança dos suíços aqui na RID, os dados assustam. Não só pela injustiça com 99% dos restantes, mas pela saúde do &#8216;organismo humanidade&#8217; como um todo: isso não é só desequilíbrio hormonal, é um câncer absolutamente fora de controle.<span id="more-7394"></span></p>
<p>Sim, acordei comunista hoje. Mas perdoem-me se não vou me render ao maniqueísmo de pobres operários e maligna burguesia: já passou do ponto de ser a vontade das pessoas. Voltando a analogia do organismo, se cada um de nós é uma célula de um só ser vivo, um por cento delas respondem por metade do corpo. Duvido que qualquer ser consiga sobreviver com um câncer dessas proporções.</p>
<p>Mas mesmo assim, seguimos em frente. Vantagens de um organismo especializado em lidar com crescimentos tão absurdos assim. Se uma das células aumenta, outras se espremem para acomodá-la. A teoria de que riqueza &#8216;escorre&#8217; para camadas mais carentes da população está sendo provada errada bilionário atrás de bilionário. Nossos mega-ricos atuais são mais eficientes para concentrar renda do que os de outrora.</p>
<p>E a disparidade aumenta. Tamanhas concentrações de riquezas ocorrem num mundo começando a lidar com escassez de recursos. Sem consideráveis avanços tecnológicos a tendência é que cada vez mais de nós concorramos por cada vez menos. Se havia uma certa margem de respiro no acúmulo de fortunas no passado, atualmente estamos perto demais do limite de quanto se pode ter sem retirar de outros.</p>
<p>Não que não tenhamos tentado criar riquezas virtuais suficientes para permitir uma expansão mais segura das divisas dos mais ricos: a pujante indústria dos bens virtuais está aí para não me deixar mentir. Já se pode ficar milionário ou bilionário escrevendo linhas de código. Uma considerável parcela do dinheiro em circulação do mundo já está atrelada à dívidas ao invés de riquezas &#8216;físicas&#8217; como o ouro.</p>
<p>Como qualquer organismo, o que compreende a humanidade tem seus mecanismos de controle e proteção. A questão é que eles funcionam por um tempo limitado se a causa da doença não estiver sendo enfrentada. Criamos dinheiro e bens virtuais para dar espaço para as células cancerígenas crescerem, mas essa solução não deixa de ser paliativa. O problema não é falta de recursos para crescer, é a falta de espaço para crescer.</p>
<p>Num mundo ideal, dados como os revelados pela Credit Suisse deveriam fazer todo mundo parar e repensar nosso modelo de desenvolvimento. Alguma coisa claramente está errada e precisa ser tratada imediatamente (se é que ainda dá tempo). Um organismo com tanta concentração de recursos em tão poucos lugares está obviamente doente.</p>
<p>Talvez falte a percepção de como estamos todos juntos nessa. Mas eu apostaria principalmente na percepção de que ser uma célula cancerígena é uma boa coisa na nossa sociedade. As pessoas aspiram por crescer sem controle. Gastam fortunas para descobrir as melhores formas de viver em desequilíbrio com duas células irmãs. E aqui eu não vou ser idealista: não se pode culpá-las demais por isso. Aliás, não posso me culpar por isso. A ideia de se tornar obscenamente rico é tentadora.</p>
<p>E essa aspiração ao desequilíbrio provavelmente está nos genes. De modo simplificado, qualquer organismo vivo complexo é uma zona de guerra entre elementos desesperados para vencer. Não existe &#8216;justiça social&#8217; ou algo que o valha entre células: falta até mesmo consciência para tal. O tão celebrado equilíbrio da natureza é resultado direto de empates entre partes querendo se dar bem sozinhas custe o que custar.</p>
<p>Provavelmente alguns de nós enriqueçam sem parar pelo mesmo motivo que cachorros vão comer até passar mal em praticamente todas as chances que tiverem: não existe nenhuma trava natural para parar de levar vantagem. Oras, nós engordamos até os limites da forma humana pelo mesmo motivo&#8230; as células de gordura aumentam para acomodar mais energia potencial até explodirem. Não existe &#8216;já está bom&#8217; na natureza. Nunca está bom.</p>
<p>&#8216;Suficiente&#8217; é um conceito racional. Uma aposta contra tudo o que nos permitiu evoluir até aqui. Definir o suficiente é assumir o risco de fazer um cálculo errado. Nossa história de acúmulo de riquezas é regida pela ideia de que é melhor sobrar do que faltar. Novamente, não podemos recriminar demais essa mentalidade. É mesmo melhor sobrar do que faltar.</p>
<p>Todo esse papo está aqui por um motivo, e eu aposto que a grande maioria de vocês vai discordar da minha conclusão. Confesso que a ideia me assusta, que enxergo a quantidade enorme de problemas que podem surgir dela, mas peço apenas que você a analise de mente aberta, mesmo que só entretendo um pensamento estranho por alguns momentos: o orgânico já deu o que tinha que dar. Está na hora de máquinas e computadores decidirem mais coisas por nós.</p>
<p>Inclusive o quanto é o suficiente. Nós somos terríveis nisso. Depois de alguns milênios de extremo interesse nessa questão, tudo o que temos para mostrar de resultados é um sistema onde metade de tudo está nas mãos de um centésimo de todos. Foi um erro catastrófico. Humanidade, eu sei que você não quer ouvir isso, mas&#8230; falhamos. Tivemos várias ideias interessantes nesse caminho todo, mas não deu certo.</p>
<p>Como podemos basear um sistema todo num cálculo que nenhum de nós consegue fazer com segurança? Como garantir que esse cálculo seja feito por alguém que não padeça do mesmo medo de falhar? Oras, troquemos o alguém por &#8216;algo&#8217;. A máquina não tem medo de errar. Aliás, a máquina nem sabe errar.</p>
<p>Se um computador decidir por nós o quanto é suficiente, poderemos nos concentrar mais em aproveitar o que desejamos e em definir metas para alcançá-las. Não estou advogando distribuição forçada de renda como solução eterna, forçando os mais aptos a trabalhar para vagabundos, estou dizendo que se a pessoa souber o quanto vai precisar acumular para conseguir as coisas que quer e não puder acumular mais enquanto não tiver outro objetivo, garantimos que as pessoas só vão trabalhar o quanto quiserem conquistar na vida.</p>
<p>Não estaríamos mais recompensando ganância cega. Se o dono da empresa decidiu que quer ter quatro mansões, cem carrões e sustentar toda essa riqueza, ele vai receber só o suficiente para isso. Quem define é a máquina. E ele só poderia receber mais se desse objetivos para ela (e, é claro, pudesse produzir essa riqueza). O dinheiro restante seria dividido igualmente entre todos.</p>
<p>Existe muita riqueza nesse mundo, e boa parte fica entrevada em fundos de investimento que só pensam em continuar o crescimento descontrolado. De uma certa forma, o dinheiro &#8216;parado&#8217; desse um por cento da população seria emprestado para o resto do mundo, sem necessariamente reduzir os padrões de vida exagerados que tantos de nós aspiramos ter um dia.</p>
<p>Claro, a máquina deste exemplo deveria funcionar sem intervenção humana direta. Os computadores deveriam assumir o controle da humanidade e tomar decisões por nós. Decisões que não estejam contaminadas por irracionalidade e mentalidade de escassez. Os computadores saberiam quanta energia, água e alimentos temos à disposição. Basta definir o mínimo para subsistência e não deixar faltar para ninguém.</p>
<p>Porque já temos como alimentar e dar condições mínimas de vida para todo mundo, o que falta é distribuição. E como o ser humano, até com razão, desconfia muito um do outro, é difícil convencer o 1% a dividir sua riqueza. E não posso ser inocente: o valor do dinheiro desabaria, com certeza. Sem especulação os mais ricos continuariam com todas suas vantagens, mas os bilhões minguariam para milhões, numa espécie de deflação global até voltarmos a ter valor &#8216;real&#8217; de troca nas moedas.</p>
<p>Isso assusta muita gente. Isso tem toda a cara de tragédia&#8230; desde que, é claro, não seja um computador sem interesses próprios faça essa transição do virtual para o real. Por sorte é justamente isso que prego! A manutenção da liberdade pessoal e da possibilidade de vida de imensas vantagens sem abrir mão da justiça social. E com o passar do tempo é de se esperar que a proporção entre muito ricos e muito pobres desabe. Só vai se dar bem mesmo quem tiver objetivos ousados e capacidade de realizá-los.</p>
<p>O erro dos outros sistemas de distribuição de renda é não considerar o computador, nossa mais importante criação! Ele nasceu para estender a capacidade orgânica, e não estamos deixando que ele faça seu trabalho. E melhor, ele já nasceu sem o defeito de não saber o quanto é o suficiente! O computador é a NOSSA evolução. Enquanto não pudermos nos tornar um com nossa criação, que pelo menos deixemos ele resolver nossos problemas.</p>
<p>Começo a ver cada vez mais com olhos diferentes todas aquelas histórias de máquinas dominando o mundo. Oras, é justamente para isso que elas foram criadas. Resta a nós descobrir quando a capacidade delas será suficiente para nos liderar. Infelizmente, justamente o suficiente que não sabemos mensurar. Eu aposto que já chegamos nesse ponto. Mas aposto que você ainda não.</p>
<p>Vamos crescer descontroladamente o quanto ainda? Quando vai ser o suficiente? Uma hora ou outra teremos que pular de cabeça nessa questão.</p>
<h3>Para dizer que eu estou sendo pago pela Skynet, para dizer que curtiu o tecnocomunismo, ou mesmo para dizer que minha solução mágica para tudo tem alguns problemas: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Dés Potas: A raiz de todos os problemas.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2014 09:25:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Para quem não sabe o que é a coluna Dés Potas: vá se informar, pois esses textos não seguem a mesma lógica de outras colunas daqui. Um saco ter que explicar toda vez. Obrigado. Tirando isso do caminho&#8230; finalmente descobri tudo o que está errado com todos os sistemas de governo: os governados. É comum [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-6549" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2014/05/despotas-raiz.jpg" alt="despotas-raiz" width="600" height="300" srcset="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2014/05/despotas-raiz.jpg 600w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2014/05/despotas-raiz-300x150.jpg 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p>Para quem não sabe o que é a coluna Dés Potas: vá se informar, pois esses textos não seguem a mesma lógica de outras colunas daqui. Um saco ter que explicar toda vez. Obrigado. Tirando isso do caminho&#8230; finalmente descobri tudo o que está errado com todos os sistemas de governo: os governados.<span id="more-6548"></span></p>
<p>É comum dizermos por aqui que democracia é uma merda, mas é a melhor merda que temos. Pois bem, no fundo essa não é a verdade. Todos os sistemas de governo são bons, dos mais liberais aos mais autoritários. Democracias, ditaduras, monarquias e até teocracias são excelentes formas de organizar uma sociedade e fazê-la florescer. Todas podem terminar em estados virtualmente utópicos de felicidade e realização pessoal para todas as pessoas.</p>
<p>Desde, é claro&#8230; que as pessoas façam exatamente o que se espera delas em cada um desses sistemas de governo. Não, sério&#8230; até mesmo numa teocracia as coisas funcionariam muito bem. O povo teria que seguir exatamente a mesma religião de seus líderes e os líderes seguirem à risca quaisquer escrituras sagradas que se comprometerem a aceitar como verdade absoluta. Colocando isso em prática, e o povo anuindo com essas regras, não tem porque não dar certo.</p>
<p>Imagine uma sociedade onde mulheres não podem estudar. Onde elas todas são obrigadas a casar com quem sua família escolheu e cuidar tanto da casa como dos filhos como seu único objetivo na vida. Agora imagine as mulheres dessa sociedade fazem mais do que obedecer essas regras: elas acreditam de verdade nelas. Fazem o que se espera delas com grande orgulho por isso.</p>
<p>Depois de várias gerações, teremos mães e esposas extremamente competentes no que fazem. Não estou falando só de carinho e dedicação, mas de um senso de dever intimamente ligado com o sucesso de suas crias. Especialistas! Reconhecidas por seus pares como indispensáveis, cobradas por resultados, valorizadas por mérito. E se a filha for mulher, vai aprender desde cedo qual o seu lugar e chegar na vida adulta com um potencial ainda maior de sucesso.</p>
<p>Entendam que eu não estou retirando o valor dos estudos aqui, neste exemplo ele é irrelevante. O sistema de governo não permite isso e o povo concorda integralmente. Se você elimina a rebeldia da equação, a tendência do ser humano é ficar cada vez mais hábil nas funções a qual é designado. Imagine também que nessa mesma sociedade o adultério (feminino) também é punido com uma pena capital. As &#8220;maçãs podres&#8221; vão ser eliminadas com frequência, passando para frente genes e formas de pensar menos afeitos à essa rebeldia passional, por assim dizer. A quantidade de casos de ofensa aos costumes estabelecidos tende a cair com o tempo também.</p>
<p>Essa é a história humana: ficamos cada vez melhores no que fazemos. Não estou nem considerando bem e mal aqui&#8230; Dos honestos aos corruptos, todos evoluíram. O que me leva ao governo da sociedade. Mesmo que no começo a devoção à causa dos líderes seja tão turva quando a dos liderados, ninguém é eterno. Um povo composto de pessoas que acreditam e seguem suas leis invariavelmente vai colocar representantes dignos no poder, questão de tempo. Os menos capazes de praticar o que pregam vão sendo substituídos, até que todos no governo sejam defensores tão ferrenhos do código de conduta local como o povo.</p>
<p>Lembrando: mesmo que as leis te pareçam injustas, isso não muda o fato que a sociedade hipotética aqui perceba-as de forma oposta. O que configura retidão neste exemplo é só o que precisamos para continuar no caminho utópico. Perfeito também é um termo relativo. Com o povo cada vez melhor em seguir essas regras e os governantes cada vez melhores em não violá-las em nome do poder, temos uma vitória social sem precedentes em nossa história.</p>
<p>Tudo funciona. Todos aceitam seus lugares e a percepção de injustiça dilui-se na satisfação média popular. Se todos os elementos de uma sociedade decidem seguir o mesmo caminho ao mesmo tempo, temos um sistema de governo ideal. É fácil assim. Mas é claro que na vida real as coisas não funcionam assim&#8230; as pessoas insistem em não compartilhar objetivos e trabalhar em uníssono pelos mesmos resultados.</p>
<p>A única coisa que afasta o injustiçado de um sistema praticamente perfeito é a crença que ele é injustiçado. A partir do momento em que ele acredita que é assim que as coisas tem que ser e que ele deve se tornar cada vez mais eficiente em cumprir seu papel, os problemas começam a desaparecer. Não importa se ele vive num estado democrático ou numa monarquia absolutista, desde que ele aceite o estabelecido como caminho correto, todo mundo tem uma chance maior de ser feliz.</p>
<p>Desde, é claro, que sigamos à risca as regras que nos foram estabelecidas. Pensem bem: as coisas fariam sentido para quem manda e para quem obedece. O problema de todos os sistemas de governo está nas mãos dos detratores. Até mesmo em cenários de capitalismo ou comunismo&#8230; O mercado se regula e nos regula. Se soubermos que o lucro é o objetivo final e acreditarmos de coração nisso, sabemos para onde ir! Os sacrifícios acontecem por um motivo, finalmente. E melhor, fica fácil definir quem é útil ou não para esse objetivo: e como estamos num estado de concordância, os mais aptos serão incentivados e os menos corrigidos.</p>
<p>Que o miserável derive orgulho de sua miséria. Que entenda que é seu papel não ter para que outros tenham. Que comece a viver com ainda menos do que vive para permitir que os ricos façam o que fazem com ainda mais eficiência! Quem sabe seu sacrifício seja o começo de uma especialização genética em sobreviver com quase nenhum alimento? Seus filhos serão miseráveis, claro, mas serão miseráveis com menos sofrimento que seus antecessores. Imagine só um rito de passagem de um jovem, encarando uma semana sem colocar uma migalha de pão sequer na boca&#8230; e ao sobreviver, sendo reverenciado por toda a sociedade! Imagine o orgulho!</p>
<p>Inocente quem acha que isso não poderia acontecer. Somos seres sociais e temos programados em nós uma satisfação instintiva em pertencer. Numa ditadura comunista, por exemplo, desde que todos trabalhem em prol da igualdade as coisas vão funcionar extremamente bem. Novamente: a pessoa sabe por que está fazendo o que faz. Chega dessa coisa de não ter propósito na vida&#8230; você faz parte da coletividade e segue as regras. Você é uma engrenagem perfeita numa máquina muito maior.</p>
<p>As religiões que não me deixam mentir: adoramos essa sensação de pertencimento. Propósito! Metas alcançáveis, estabilidade e previsibilidade. A pessoa nasce, é criada para cumprir uma função social e é justamente isso o que ela faz. Vai dizer que você não gostaria de saber exatamente o que fazer para se sentir realizado(a)? Quantos não gastam os frutos de seu suor justamente procurando por essa resposta?</p>
<p>Escolha o sistema, escolha as regras&#8230; não importa quais sejam, se o povo cooperar, vai funcionar. E dado o devido tempo, vai não só se acostumar como defender ativamente a manutenção de ambos. Vão acreditar nisso e se esforçar para ficarem cada vez melhores nesse jogo. Injustiça não é um conceito universal e imutável, ele só existe se você o perceber. Esse gato sempre está vivo e morto.</p>
<p>O caminho da felicidade passa pela aceitação. Pela estagnação. Quando você aceita o sistema, o sistema faz sentido. Sério, é só isso. Todas as revoltas que tivemos contras governos até hoje foram desnecessárias&#8230; as coisas funcionariam se tivéssemos insistido o tempo suficiente nelas. As linhagens dos primeiros déspotas escolhidos pelos deuses poderiam estar nos governando até hoje e você estaria com um sorriso no rosto.</p>
<p>A norma era sacrificar virgens para os deuses e matar aqueles que aprendiam a ler e escrever? Tudo bem. Era só ter fechado com essa ideia e não mudado uma vírgula. Deveríamos ter ensinado geração após geração que manutenção era o caminho perfeito. Essas virgens hoje em dia provavelmente seriam reverenciadas e tratadas como rainhas por todas suas curtas vidas. Milênios de especialização e reverência por funções sociais fixas valorizam muito o ser humano. Ainda no exemplo, analfabetismo não seria vergonha alguma. Seria algo digno de grande orgulho. Pessoas felizes com o que são, oras.</p>
<p>A única forma de fazer um sistema funcionar perfeitamente é obedecê-lo perfeitamente. É exatamente por isso que nunca se chegou a um consenso sobre qual deles é o melhor: no final das contas eles são irrelevantes. São os governados que fazem o sistema funcionar. Só eles.</p>
<p>Chega de botar a culpa nos políticos, eles são apenas sintomas da doença da rebeldia. Você só precisa aceitar as coisas como são para resolver todos os problemas e finalmente partirmos para a tão sonhada sociedade ideal. Simples, não?</p>
<h3>Para ignorar o primeiro parágrafo, para dizer que não gosta desse tipo de texto indireto, ou mesmo para agradecer por alguém finalmente explicar o que você tem que fazer: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Dés Potas: Liberou geral.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2013 09:33:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Atenção: Dés Potas é uma coluna que compreende suas limitações, mas mesmo assim não se entrega sem lutar. Basicamente, sugerimos grande mudanças sociais implementadas de forma ditatorial com o único objetivo de resolver todos os problemas do mundo. Hoje quero explorar a ideia de um mundo com liberdade de expressão absolutamente irrestrita. Absolutamente mesmo. Apesar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-5606" alt="despotas-liberougeral" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/11/despotas-liberougeral.jpg" width="600" height="300" srcset="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/11/despotas-liberougeral.jpg 600w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/11/despotas-liberougeral-300x150.jpg 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p>Atenção: Dés Potas é uma coluna que compreende suas limitações, mas mesmo assim não se entrega sem lutar. Basicamente, sugerimos grande mudanças sociais implementadas de forma ditatorial com o único objetivo de resolver todos os problemas do mundo. Hoje quero explorar a ideia de um mundo com liberdade de expressão absolutamente irrestrita. Absolutamente mesmo.<span id="more-5605"></span></p>
<p>Apesar de frequentemente usarmos termos como &#8220;patrulha de pensamento&#8221; para criticar essa mania de querer amordaçar quem não se conforma com o politicamente correto, não é como se o conceito fosse realmente estranho às leis que regem TODOS os países desse mundo. Planejar, divulgar ou glorificar crimes &#8220;práticos&#8221; é o suficiente para te colocar numa cadeia em basicamente qualquer canto do planeta. Claro que os específicos variam de lugar para lugar&#8230;</p>
<p>Agora, vamos ao decreto: Não existem crimes que não atentem diretamente contra integridade física ou ao patrimônio alheio. Pensar, falar, fotografar, filmar, distribuir ou qualquer outra forma de expressão humana SEM fins lucrativos (ha, este ditador pensa antes de ditar) está livre de qualquer sanção legal. Indefinidamente. Conceitos como honra e dignidade pessoal passam a ser de responsabilidade exclusiva individual.</p>
<p>Imagino que nos primeiros meses após algo desse nível for imposto ao povão, vai ser meio complicado evitar uma guerra civil mundial. Se não acontecer, vai ser apenas uma bagunça gigantesca. E mesmo que ela aconteça, caso não elimine a humanidade de vez e as tropas leais ao ditador mundial consigam manter o regime, o sol nascerá mais uma vez e começaremos a ver as benesses desse plano tão drástico.</p>
<p>Logo no começo, o mundo não entraria em colapso. Seres humanos são criaturas de hábitos e tendem a gostar mais da ideia de serem aceitos pelo grupo do que propriamente se expressar (vide todas as redes sociais). Existem vantagens para quem sabe jogar o jogo da hipocrisia social, e elas não se desfazem do dia para noite. Sacos continuarão a ser puxados e Lucianos Hucks da vida continuarão sendo admirados pelas massas bestificadas. A pose continua.</p>
<p>Mas não para sempre. Quando boa parte do povo entender que não existem repercussões legais para o que expressam, aí sim começa uma era caótica da comunicação humana. Para o bem e para o mal. Os preconceitos virão à tona numa velocidade impressionante. Pessoas serão atacadas e criticadas merecendo ou não. Boa parte da sujeira que fica debaixo do tapete nos dias de hoje vai poluir todo o ambiente.</p>
<p>Parece horrível, e por um tempo é para ser mesmo. Uma liberação absoluta da liberdade de expressão é uma espécie de intervenção/terapia de choque para toda a humanidade. Esse ponto crítico é justamente aquele onde finalmente se descobrirá o que realmente ofende e revolta as pessoas. Porque sem a oportunidade de enfiar um processo oportunista numa celebridade, sobra apenas o esforço necessário para se defender. Se ele vale a pena ou não&#8230; Uma relação de custo e benefício calcada em elementos subjetivos como honra, dignidade e senso de justiça.</p>
<p>E pior, sem ninguém para segurar sua mão no processo. Se o que uma pessoa expressou te incomoda, você vai ter que resolver. E vamos lembrar que os outros crimes continuam existindo. Ninguém pode te impedir de revidar uma piada com um tiro, mas com certeza isso aumenta suas chances de ver o sol nascendo quadrado por vários anos. A opinião de alguém vale isso? Talvez uma boa conversa, uma boa vingança (legal) ou uma boa retirada estratégica valha muito mais a pena no caso.</p>
<p>Seria realmente um momento problemático para charlatões, corruptos e todos os tipos de parasitas que dependem de mordaças legais para continuar sobrevivendo. O rei vai ficar nu. A questão que fica é se vamos ter muita gente percebendo isso&#8230; Provavelmente demora, mas a liberdade de dizer a verdade sem limitações arbitrárias de um sistema montado para beneficiar quem já é poderoso tende a criar uma pressão insustentável se pensarmos no longo prazo. Não adianta mais ter dinheiro e poder para transformar o pensamento alheio em crime.</p>
<p>Ok, mas nem tudo é festa. As minorias (inclusive as minorias &#8220;estatisticamente falsas&#8221; como as mulheres) vão apanhar bastante no começo. Todo grupo que puder ser atacado com sons e símbolos vai sofrer. Mas, até quando? As grandes evoluções sociais humanas não estão intimamente ligadas à protecionismo legal. Gente mais bem alimentada, mais bem estudada e mais bem de vida em geral tende a reduzir drasticamente o seu repertório ofensivo. Não é medo de lei, é uma compreensível diminuição no interesse por &#8220;cuidar da vida alheia&#8221;.</p>
<p>Quem realmente sobrar berrando impropérios preconceituosos contra minorias vai acabar sofrendo o mesmo processo de insignificância intelectual que entidades como a Ku Klux Klan e a Westboro Baptist Church já sofreram num país onde tem liberdade de expressão garantida como os EUA. Quem fala merda demais por tempo demais vira barulho de fundo num mundo cada vez mais instruído.</p>
<p>Não sendo crime, quem achar válido misturar sua identidade pessoal com essas opiniões raivosas que se esbalde! O mundo civilizado não vai pactuar com isso. Fale o que quiser, aceite as consequências. Não vai ser pelo crime de pensar, vai ser pela burrice demonstrada. Pune-se o que realmente deve ser punido. Opinião divergente constrói, ela sempre deve ser garantida&#8230; Assim como o direito de uma pessoa ou entidade não querer mais se misturar com quem não tem opiniões e visões do mundo suficientemente compatíveis.</p>
<p>Vai achando que é festa se dizer nazista num país como o Brasil, por exemplo, vai. Com o tempo, não vai ser uma lei que vai fazer um racista esconder o que pensa e agir de acordo, vai ser o bom e velho bom senso de saber o que está acontecendo no mundo ao seu redor. E mais importante, todo aquele clima de &#8220;mártir da verdade&#8221; vai perder seu valor. Se cidadão acha de verdade que eliminar um grupo específico de seres humanos vai resolver os problemas do mundo, não tem mais ninguém proibindo-o de falar.</p>
<p>O problema deixa de ser algo convenientemente impossível de vencer como a fúria do Estado e vira mera questão de convencer mais gente. E boa sorte com isso! Quando o maluco preconceituoso perde nos dias atuais, bota a culpa no sistema injusto com ele. Se ele pode falar, aí a falha é pessoal ou do argumento em si. Muita gente que nunca pensou direito no que acredita e prega veladamente vai se ver obrigada a encarar sua desilusão olho-no-olho. Pensar liberta.</p>
<p>Claro, temos toda a questão de calúnias, ofensas e injúrias desaparecendo do mapa. Qualquer um vai pode espalhar o que bem entender sobre qualquer um sem consequências legais&#8230; Vai gerar problemas para muita gente, mas num mundo onde tudo pode ser dito, vai começar a ficar cada vez menos relevante. A não ser que existam formas de comprovar ou reforçar as acusações, vale tanto quanto as outras bilhões de declarações raivosas e/ou humilhantes que surgirão concomitantemente.</p>
<p>Eventualmente, vai ser um saco ter que se preocupar com cada uma delas. Meio o que já acontece com essa onda de exposição em situações íntimas na internet: Choca cada vez menos, parece armação por fama cada vez mais. Podemos vencer o trio &#8220;crime verbal&#8221; simplesmente saturando o mercado de interesse na vida alheia. E ainda vale toda aquela coisa de responsabilidade pessoal: Do outro lado da ofensa/acusação tem uma pessoa que pode dizer absolutamente tudo o que quiser. Vale a pena?</p>
<p>E sim, eu também sei que conteúdos terríveis ganharão muito mais visibilidade. Mas vamos lembrar: Divulgar não é crime, mas produzir ainda vai ser (mesmo que ato de tirar a foto ou vídeo não seja, o crime real ocorre e é ele que vai ser punido). E mesmo quem tentar vender conteúdo que não produziu ainda vai ficar barrado pela regra de não ter fins lucrativos. Eu até tenho uma teoria bem impopular para tratar pedófilos que funcionaria bem neste modelo de liberdade de expressão irrestrita: Virtualização. Que explorem versões em bits e bytes ao invés de pessoas reais.</p>
<p>Convenhamos que castração (mesmo que química) só funciona com quem se sente muito mal com sua parafilia ou com quem já não tem outra escolha. Mantê-los distraídos e isolados em universos virtuais pode reduzir o ímpeto de praticar e ainda gira a economia (inferno, aqui vou eu)! Mesmo que você tenha uma compreensível raiva do tipo, o modelo atual não funciona bem o suficiente. Esta ditadura se preocupa com resultados&#8230;</p>
<p>E isso vale para inúmeros outros tipos de impulsos antissociais e desvios psicológicos que colocam pessoas de carne e osso em risco: Tanta gente joga a vida fora lutando com monstro virtual em jogos&#8230; o ímpeto humano de fuga da realidade é uma ferramenta explorável. Enquanto existirem travas e mais travas sobre o que uma pessoa pode explorar &#8220;na sua mente&#8221;, não conseguiremos descobrir quantos desses desajustados podemos confinar em simulações e dramatizações (só é crime se for verdade) de seus desejos e fantasias.</p>
<p>O Estado financia o projeto, e em troca consegue um cadastro completo sobre essas pessoas. Quem criar uma conta no &#8220;Tortura Covarde Online&#8221; ganha de brinde uma entrada no sistema da polícia. Novamente: O sistema atual não resolve bem essas questões. O número de estupros está subindo de forma assustadora nos últimos tempos (e sim, eu sei que é mais por causa de gente tendo coragem de denunciar, mas o número é absurdo de qualquer jeito)!</p>
<p>Resumindo: Liberdade de expressão irrestrita não só força as pessoas a lidar tanto com o que falam e ouvem como também permite um lento e necessário amadurecimento do adulto médio nessa era digital. Com o bônus de permitir tratamentos realmente inovadores para vários dos elementos problemáticos da sociedade.</p>
<p>Não tem como dar errado. Quer dizer, a não ser por uma guerra civil mundial fora de controle&#8230; Mas não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos, não?</p>
<h3>Para dizer que esta coluna te faz agradecer muito por eu não ter pretensões políticas, para apontar alguma falha (inventada, é claro) no meu plano infalível, ou mesmo para dizer que eu só quero estragar o mundo todo para poder fazer uma piada: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Dés Potas: O tamanho do problema.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Oct 2013 08:40:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dés potas]]></category>
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					<description><![CDATA[Para quem esqueceu, Dés Potas é a coluna onde sugerimos soluções autoritárias para resolver magicamente grandes problemas sociais. Afinal, o mundo só não funciona direito porque eu não estou no comando. E esse pronome é mais abrangente do que parece&#8230; O governo dos EUA continua &#8220;desligado&#8221;. Evidente que o braço de ferro entre os dois [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-5417" alt="despotas-tamanho" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/10/despotas-tamanho.jpg" width="600" height="300" srcset="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/10/despotas-tamanho.jpg 600w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2013/10/despotas-tamanho-300x150.jpg 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></p>
<p>Para quem esqueceu, Dés Potas é a coluna onde sugerimos soluções autoritárias para resolver magicamente grandes problemas sociais. Afinal, o mundo só não funciona direito porque eu não estou no comando. E esse pronome é mais abrangente do que parece&#8230;</p>
<p>O governo dos EUA continua &#8220;desligado&#8221;. Evidente que o braço de ferro entre os dois grande partidos de lá tem tudo a ver com essa bagunça, mas como precisa-se de uma desculpa para isso, a questão da universalização do atendimento médico se destaca. Democratas querem um modelo mais abrangente, republicanos querem que cada um que pague o seu.<span id="more-5416"></span></p>
<p>Vejam bem, nem vou entrar muito no mérito do que acontece por lá, até porque pode acabar nas páginas do Desfavor da Semana, o que me interessa aqui é o conceito de que uma pessoa seja obrigada a pagar pela saúde de outra. Aliás, não só saúde como qualquer serviço público: invariavelmente alguém vai acabar contribuindo mais em impostos do que recebe de volta nesses serviços públicos. É compreensível que tenhamos defensores de uma ideia de cada um por si e a natureza contra todos. Justo é pagar pelo que recebe.</p>
<p>Assim como é compreensível que do outro lado tenhamos pessoas dizendo que sociedade não se faz sozinho, e que essas possíveis disparidades entre pagamento e recebimento são essenciais para que as coisas continuem funcionando. Justo é ter direitos, custe o que custar. Afinal, não criamos um padrão de humanidade muito melhor do que mero darwinismo social? Isso tem um custo.</p>
<p>Agora, como equilibrar duas ideias tão justas, mas tão contraditórias? As pessoas deveriam pagar apenas pelo que recebem E as que não podem pagar o básico deveriam receber pelo menos o básico. O ideal seria todo mundo receber MAIS do que paga, mas o ideal não é um modelo sustentável. Recursos não se materializam por mágica. Tem que sair da mão de alguém para cair em outra.</p>
<p>É assim que já acontece, mas não da forma como se costuma dizer ao pregar desregulamentação governamental: Não são os ricos que dão dinheiro para os pobres, é justamente o contrário. A riqueza mundial é produzida pela maioria e entregue para uma minoria administrar. O sistema em si já é pra lá de cagado, e isso vem de loooonga data.</p>
<p>Tentativas de quebrar essa lógica perversa terminaram em desastre, resetar o sistema e colocar uma nova versão ainda mais inchada e burocrática em seu lugar se provou vez após vez uma péssima ideia. Tentar (mesmo que em tese) se preocupar com igualdade de tanta gente ao mesmo tempo gera mais problemas que soluções. Afinal, se tem algo que as pessoas não querem ser é iguais&#8230; Elas querem receber mais do que pagam. E cada um tem seu próprio conceito de quanto vai querer pagar.</p>
<p>Quanto mais gente você iguala num mesmo grupo, mais essas diferenças se acentuam. E quanto mais liberdade elas tem, mais diferenças elas demonstram. Até por isso regimes comunistas não são conhecidos pela tolerância com dissidentes&#8230; É como se tentasse colocar vários gatos numa mesma caixa: Quanto mais deles, mais impossível é mantê-los lá dentro. Eventualmente você precisa colocar algo que eles querem muito dentro da caixa, ou mesmo deixá-los se borrando de medo das consequências de sair. As duas opções foram muito utilizadas em nossa história: Capitalismo e Socialismo. Mas no final das contas, dá tudo no mesmo: os gatos começam a ficar irrequietos na caixa.</p>
<p>Muito gato, pouca caixa.</p>
<p>E a minha solução mágica, impopulares e impopulares, é simples: Precisamos de mais caixas. Temos mais de duzentos países no mundo, e eu digo que isso ainda é muito pouco. Algumas caixas são grandes demais. Algumas, vazias demais&#8230; Resolvemos a maioria dos problemas econômicos do mundo criando mais uns 800 países.</p>
<p>Cada um cagando e andando para o bem estar um do outro. Quer dizer, pelo menos sem a obrigação social de se preocupar com isso. Solidariedade funciona muito bem, mas ela tem uma escala máxima de eficiência. Mais da metade do mundo se preocupa com a África. A África continua na merda. E só vai melhorar de verdade quando quem já está lá tiver condições de sair do atoleiro.</p>
<p>O problema não é ajudar o próximo, o problema é TER que ajudar o próximo. Quando a obrigação entra, o sistema patina. Com exceção de países ricos, os serviços públicos da maior parte dos países do mundo são terríveis. E o tamanho do país tem muito a ver com isso: os BRICS são uma desgraça nesse ponto. O povo teoricamente paga por tudo e recebe quase nada em troca. Isso caga completamente o conceito de solidariedade&#8230; A pessoa sabe que está trabalhando para financiar aquilo tudo, e mesmo assim não é o suficiente.</p>
<p>Com países menores, por exemplo, dividindo o Brasil em uns 20 países diferentes, a coisa mudaria consideravelmente: A pessoa veria seu dinheiro indo para muito mais perto de onde vive, não teria um governo central inchado oferecendo &#8220;dinheiro grátis&#8221; em troca de votos, e principalmente: tornaria os países vizinhos em VERDADEIROS vizinhos. Daqueles que você não torce o nariz quando te pedem uma xícara de açúcar. Não é mais sua responsabilidade, se você ajudar vai estar sendo uma pessoa bacana!</p>
<p>E aí a satisfação de prestar solidariedade começa a virar moeda de troca. Você paga mais do que recebe em recursos, mas &#8220;complementa a renda&#8221; com satisfação pessoal. É preciso criar mais vizinhos nesse mundo globalizado&#8230; E tirar essa pecha de &#8220;companheiros de cela&#8221;. Pagar por governo incompetente cansa, e além disso mancha a imagem que se faz de todos os outros habitantes da sua região de contribuição. &#8220;Por que eu tenho que me foder por algo que já estou pagando para resolver?&#8221;</p>
<p>E se você diz que unidades federativas (os famosos estados) existem justamente por isso, se engana: Eles são mecanismos de administração para manutenção da unidade nacional. Eles existem justamente para evitar que um país se quebre em inúmeros pedaços ou para que surjam &#8220;pontos cegos&#8221; onde o governo federal não tem controle. Minha proposta infalível prega separatismo mesmo. Não separatismo de conveniência só para isolar áreas já ricas das mais pobres, é separatismo para criar mais vizinhos. Para que os grupos se conversem, cada um com sua própria identidade. Cada um enxergando o outro como possível parceiro de lucros, não como alguém que divide seus dividendos no final do mês.</p>
<p>Países enormes como o Brasil são dinossauros controlados por minúsculos cérebros. E nem é só um problema tupiniquim: Se os EUA levassem à risca o que realmente são, esse problema de endividamento e fechamento do governo não aconteceria. Cada estado por lá é basicamente um país, só escolhem participar do governo central por acordos antigos e armas novas. Se estivessem realmente separados, assim que um fizesse uma merda dessas, perderia poder e dinheiro para os países adjacentes.</p>
<p>Sim, porque concorrência faz milagres pelo interesse de alguém em mexer a bunda. Um equilíbrio entre solidariedade de vizinho e disputa saudável aqueceria até mesmo a economia de áreas mais remotas. Reduzir necessidade de importações para sobrar mais dinheiro em caixa, investimentos em infraestrutura e serviços básicos para atrair bons imigrantes, desenvolvimento de tecnologia e foco em capacitação para disputar melhor no mercado externo&#8230; Todas coisas que falham terrivelmente em países grandes como o Brasil, mas funcionam muito bem em países minúsculos como Cingapura!</p>
<p>Não é à toa que só mesmo um &#8220;império&#8221; como os EUA consegue ficar mais ou menos perto de países menores no IDH: custa caro, dá trabalho e precisa de muita atenção e incentivo para levar essas políticas públicas em frente. Porra, eles tem que pilhar metade do mundo só para conseguir se manter marginalmente por ali, e mesmo assim estão afogados em dívidas! Cuba não ganha do Brasil sempre em qualidade de vida porque é socialista: ganha porque é um ovo e nem mesmo o Fidel conseguiria cagar algo do tipo.</p>
<p>Dividir para conquistar. Assim que eu for ditador do mundo, podem apostar que essa vai ser minha primeira atitude. País gigante ficou obsoleto, pergunte para qualquer um que vive num deles&#8230;</p>
<h3>Para mentir ao dizer que achou alguma falha no meu plano, para dizer que gostaria que separassem todos os países de perto de você, ou mesmo para perguntar se o Suriname é grande demais (é, só preciso de metade, a metade que não encosta no Brasil): <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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