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	<title>Desfavor Convidado &#8211; desfavor</title>
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		<title>Efeito multiplicador.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Feb 2023 18:02:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para somir@desfavor.com. Esporte de verdade? Sim, Esporte de verdade. (Disclaimer: também fui vítima da névoa mental, logo o texto pode não sair com a qualidade que o blog exige) [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a>.</div>
<h3>Esporte de verdade? Sim, Esporte de verdade.</h3>
<p>(Disclaimer: também fui vítima da névoa mental, logo o texto pode não sair com a qualidade que o blog exige)</p>
<p>“Ana Moser, já começou dizendo que os e-sports, as competições baseadas em videogames, não poderiam ser consideradas esportes”</p>
<p>É bom ter como ministra alguém que foi atleta e que dedicou a vida à promoção dos benefícios do esporte. O problema é que, enquanto os videogames cresciam no Brasil nos anos 90, a atenção dela estava focada na carreira dentro das quadras. </p>
<p>O pior é que, sem ter nunca sido atleta, pensava igual. Até que comecei a participar de um esporte, junto com outros pais, e perceber os múltiplos benefícios que praticar qualquer coisa com o devido incentivo traz.<span id="more-21123"></span></p>
<p><strong>E-Sports não ser esporte</strong></p>
<p>Como havia comentado antes, haveria um bom motivo por trás da Ministra não considerar o e-sport um esporte. No caso, a primeira coisa em que pensei foi no Bolsa Atleta.</p>
<p>Ser um esportista de primeira linha requer muita dedicação e tempo, e tudo isso fica complicado quando essa rotina inclui também a necessidade de trabalhar para arcar com os gastos de um treinamento de alta performance.</p>
<p>Com o objetivo de garantir condições mínimas para atletas de alto rendimento que obtêm bons resultados em competições nacionais e internacionais, o governo federal mantém, desde 2005, um dos maiores programas de patrocínio individual de atletas do mundo: o Bolsa Atleta.</p>
<p>O programa garante condições mínimas para que se dediquem, com exclusividade e tranquilidade, ao treinamento e a competições locais, sul-americanas, pan-americanas, mundiais, olímpicas e paralímpicas.</p>
<p>São elegíveis, prioritariamente, atletas de alto rendimento praticantes de esportes que compõem os programas dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos. De forma não prioritária, o benefício pode ser estendido a atletas de modalidades não olímpicas.</p>
<p>Diante do que a Bolsa Atleta significa e pode proporcionar, é compreensível que a Ministra do Esporte tenha cravado que competições baseadas em videogames não possam ser consideradas como esporte. Abriria um precedente que, muito provavelmente, o orçamento do Ministério não teria como atender, tanto que dá prioridade para esportes (para)olímpicos.</p>
<p>E, diante de pessoas que torcem o nariz para videogames, ficaria difícil defender diante do público pagar 12 parcelas do teto de R$ 15.000 (não sei se o valor está maior agora) a, digamos, um nerd que tenha enormes chances de ganhar o e-sports numa Olimpíada, da mesma forma que a Rebecca Andrade. Sem falar que, quando um time disputa um campeonato internacional, a viagem é bancada, e atleta até recebe um pequeno valor para se manter durante o torneio.</p>
<p>Nesse contexto, qual seriam os argumentos para não considerar o e-sports uma atividade esportiva? Depender de uma ferramenta? Se for assim, skate e surf não deveriam ser considerados esportes, ou indo mais fundo, qualquer outro esporte que dependa de alguma coisa para acontecer, como tênis, tiro esportivo, vela, hipismo. </p>
<p>Uma atividade que depende totalmente do intelecto? E o Arco e Flecha? Tiro esportivo???</p>
<p>Propósito? Tem propósito mais discutível do que a Marcha Atlética?  </p>
<p>O fato do atleta ficar o tempo todo sentado? Ora, no frigir dos ovos, no hipismo, o cavaleiro ou amazona conduz um cavalo.   </p>
<p><strong>Benefício Social</strong></p>
<p>“Esporte é política pública. Milhões de jovens estão sendo impactados por e-sports enquanto você lê este texto, o mercado vai crescer e crescer. Triste que o governo esteja parado no tempo e não perceba a oportunidade. É melhor do que não fazer esporte nenhum, com certeza”.</p>
<p>Essa frase muito feliz do Somir me fez lembrar que Ana Moser, ao se tornar Ministra do Esporte, disse que a base da nova gestão seria integrar o esporte com educação, saúde e assistência social.</p>
<p>Nessas horas, espero que a Ministra esteja sendo bem assessorada para perceber o efeito multiplicador que o esporte pode proporcionar, ainda mais para crianças carentes. </p>
<p>Não precisa ser um esporte profissional e estruturado como futebol, vôlei ou basquete. Tem muito esporte amador no Brasil que já permite dar uma noção dessa multiplicação.</p>
<p>Um exemplo pessoal é o beisebol/softbol (modalidade modificada do beisebol, mais praticada hoje por meninas). Embora seja um esporte ainda amador, no qual os técnicos, assistentes técnicos, árbitros, anotadores de súmula, dirigentes, são praticamente os próprios pais dos atletas, já se percebe uma cadeia de atividade que gira em torno do esporte: personal trainers que dão treinos específicos para atletas, pessoas que vendem equipamentos para o esporte (outras que vendem luvas, tacos, equipamento de proteção aos árbitros), outras que confeccionam uniformes, gente que ministra cursos para árbitros. </p>
<p>Sem falar que movimenta outros setores de economia necessários para que o esporte aconteça: fretamento de ônibus para viagens, agência de turismo para torneios no exterior, setor hoteleiro das cidades que são sedes desses campeonatos, e por aí vai. Para terem uma dimensão de valores, os clubes mais ricos chegam a movimentar cada um cerca de R$ 1 milhão de reais para bancar suas categorias em campeonatos oficiais e amistosos ao longo do ano. </p>
<p>No entanto, havia uma limitação na expansão do esporte para além da colônia japonesa (e da renda que exige para sua prática), o que limitava o poder da multiplicação do esporte.</p>
<p>A situação melhorou a partir de 2006, com a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). Alguns clubes do interior de SP e do Paraná, sem o poderio econômico de outros clubes, se valeram dos mecanismos da LIE (mentira?) para garantir a sobrevivência do esporte na sua região. Esses mecanismos envolvem receber recursos de isenção de impostos de empresas e de pessoas físicas, com a contrapartida de que haja atletas carentes na equipe. Tem time no interior de São Paulo que chega a limitar a seletiva anual para atletas, tamanha a procura (no feminino, lembro que em um ano, limitaram a seletiva a 50 atletas num dos times). Além disso, para ajudar, as prefeituras dessas cidades cedem ônibus para transportar essas crianças para os torneios. Com isso, esses times já começam a contratar técnicos CLTistas, assim como comissões técnicas, nutricionistas, etc.</p>
<p>Para as crianças carentes, a prática do esporte traz uma oportunidade sem igual em termos de educação. Primeiro, abre o horizonte para crianças que dificilmente sairiam de casa, da sua cidade. Aprendem pelo esporte valores que nem sempre estão em casa, até porque nem sempre os pais estão em casa mesmo nos finais de semana (pensem em quem trabalha em um shopping por exemplo, pessoas que dormem no emprego, ou quem trabalha em vários aplicativos para pagar as contas). </p>
<p>Além disso, no beisebol/softbol, se o time da atleta chegar até em 3º lugar em um campeonato nacional, cada atleta tem o direito a receber (a partir das categorias maiores), a Bolsa Atleta, como foi explicado antes. No caso, 12 parcelas de um salário mínimo cada atleta, que tem o dinheiro depositado em uma conta diretamente no seu nome. Pena que, no caso do beisebol/softbol, o esporte só foi olímpico em quatro edições (a última em Tóquio). Assim, para Paris 2024, o esporte deixa de ser prioridade e não sei ainda se os atletas continuarão a receber essa Bolsa. E aí teríamos que esperar Los Angeles 2028 para o esporte ser olímpico de novo e voltar a ter prioridade pelas regras atuais da Bolsa.</p>
<p>E, por fim, em termos de oportunidade mesmo, a prática do beisebol/softbol traz uma possibilidade da criança carente conseguir uma bolsa de estudos e/ou jogar em um time profissional fora (o softbol é ainda amador no mundo). Temos olheiros aqui também. Quase sempre ouço de amigos e familiares no esporte notícias de uma menina carente que conseguiu uma bolsa de estudos numa escola ou faculdade nos EUA, Australia, Canadá. E, hoje em dia, os meninos que são contratados para jogar beisebol nos EUA já incluem cláusulas para assegurar bolsa integral em faculdades americanas, caso seguro caso a carreira de atleta não decole.  </p>
<p>Por essas e outras que todos os pais envolvidos no esporte se dedicam integralmente ao esporte 24/7 para criar novas possibilidades para todos os envolvidos, e criar oportunidades para quem queira se dedicar ao esporte, quem sabe de forma integral um dia. De forma amadora. Ainda.  </p>
<p><strong>Os benefícios para o e-sports</strong></p>
<p>Agora imaginem se todos esses benefícios fossem direcionados para o e-sports, tanto da Bolsa Atleta quanto da LIE. Aqui quase dou um Ctrl+C e Ctrl+V nos argumentos finais do Somir.</p>
<p>Com gente passando fome e traficante aliciando jovens nas comunidades, aliados a um sistema educacional que apenas agora está parando de piorar (ainda ruim), se for comparar caminho complicado e tortuoso, melhor que seja pela prática do e-sports, pois ao menos vai selecionar aqueles que tem melhores condições físicas e mentais de alcançar os resultados necessários para começar a ser considerado na cena profissional, dentro ou fora do esporte.</p>
<p>Além disso, não precisa de muito equipamento para colocar um monte de jovens para treinar, e nem espaço (tem clubes que são tentados a vender um campo de beisebol aqui e ali, ou uma sede inteira, para fazer caixa). E, o principal, sem dúvida a disciplina e a esperança de fazer algo a mais da vida podem vir sim desses jogos. E não apenas para os atletas, mas para suas famílias. </p>
<p>Nesse sentido, muitos dos pais amadores no beisebol/softbol são pais gratos pelo que o esporte proporcionou a seus filhos. Tem pais que ficaram viúvos e agradecem à rede de solidariedade no esporte que ajuda a criar seus filhos, evitando que se desviassem no caminho (há muito mais confiança em deixar um filho/a dormir na casa de amigos do esporte, do que com pais da escola).</p>
<p>Por fim, compartilho da tristeza do Somir pelo fato do País não perceber a oportunidade de fazer o e-sports um caso de sucesso, tal qual foi como o desenvolvimento do esporte paraolímpico aqui (fico impressionada toda vez que passo em frente ao complexo paraolímpico aqui no começo da Rodovia dos Imigrantes). </p>
<p>Sem falar do potencial econômico que o e-sports traria ao País, incentivando a criação de um ecossistema ao redor da prática do esporte. </p>
<p>Pena não ser economista para poder mensurar esse impacto, mas posso dizer que seria melhor concentrar recursos em uma aposta específica do que ficarmos nos objetivos generalistas da Ministra. Lembrem-se do quanto Israel cresceu em apostar nas Start-ups, permitindo derrotar a inflação e os terroristas sem deixar de crescer economicamente. </p>
<p><strong>Ass: Suellen</strong></p>
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		<title>Sobre a Crise da Ucrânia.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2022/03/sobre-a-crise-da-ucrania/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Mar 2022 17:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para somir@desfavor.com. Sobre a Crise da Ucrânia. A guerra da Ucrânia contra a Rússia vem nos deixando apreensivos e não é à toa. O conflito surpreendeu a quase todos, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a>.</div>
<h3>Sobre a Crise da Ucrânia.</h3>
<p>A guerra da Ucrânia contra a Rússia vem nos deixando apreensivos e não é à toa. O conflito surpreendeu a quase todos, tanto por ter rebentado abertamente numa invasão quanto pela velocidade da escalada. Até ameaças nucleares estão sendo discutidas, menos de uma semana depois de Vladimir Putin jurar que não tinha interesse em invadir sua vizinha. Em tempos assim, de excesso de informação e pouca filtragem, é difícil saber quais riscos são reais e no que devemos acreditar. Muito bem, comecemos pelo que mais interessa aos cidadãos médios.<span id="more-19623"></span></p>
<p><strong>Como o Brasil será afetado pela guerra russo-ucraniana? Qual posição assumiremos?</strong></p>
<p>De imediato, com aumento nos preços de combustíveis e alimentos, já que importamos muitos insumos agrícolas da Rússia. Apesar do BR não ter aderido às sanções, a Rússia está fora do sistema SWIFT agora e isso dificulta muito as transações.</p>
<p>O Brasil é um país com vocação diplomática (apesar de certos políticos quererem fingir que não) e dificilmente fará mais do que condenar a invasão com palavras na ONU. O fato de que Bolsonaro demonstra ser solidário à Rússia e a nossa participação no BRICS torna essa posição mais ambígua, mas isso pode até ser melhor a longo prazo. Se tivéssemos outro governante, poderíamos até sonhar em participar de uma negociação de paz (como foi feito anteriormente e de forma bem sucedida). No momento, o único risco de termos um conflito com a Rússia é se o Putin quiser colocar armas na Venezuela, que fica no nosso quintal e seria uma ameaça. Mesmo assim, é uma possibilidade muito remota, já que temos relações mais cordiais com a Rússia e seríamos intimados&#8230; ops, ajudados pelos EUA. Você, que mora no interior de São Paulo, não precisa se preocupar em montar um bunker no porão ou ser convocado pra lutar.</p>
<p><strong>O que a Rússia quer da Ucrânia e como essa bagunça começou?</strong></p>
<p>Tecnicamente, a Rússia quer a Ucrânia de volta à sua órbita de controle e sem influência ocidental, além de reconhecer a soberania russa sobre a Crimeia e, possivelmente, a independência de Donetsk e Luhansk. O que o Putin quer, especificamente, é deixar um legado como grande estadista que restaurou a influência e a grandeza da Rússia &#8211; ele chegou a dizer que a queda da URSS foi a maior tragédia política do século XX anos atrás.</p>
<p>Lembram quando a Crimeia foi anexada pela Rússia em 2014? Então, um pouco antes disso, a Ucrânia estava trabalhando em se aproximar da União Europeia e era governada por um “fantoche” do Kremlin, um cara chamado Viktor Yanukovich, que barrou a aproximação com uma canetada. Em seguida, ele foi deposto por um movimento da população. Este movimento recebeu o nome de Euromaidan pela importância da Praça Maidan durante as manifestações. </p>
<p>Depois, um governo interino assumiu, eleições foram realizadas e novos governos sem influência russa foram eleitos – Poroshenko primeiro, depois o atual presidente Zelensky. Isso fez com que o Kremlin perdesse o controle sobre a política ucraniana e começasse a “apadrinhar” os dissidentes das regiões com maior número de russos étnicos e simpatizantes do Putin. A anexação da Crimeia já é história e o Donbass (as partes de Donetsk e Luhansk controladas pelos rebeldes pró-Rússia) mergulhou numa guerra civil que perdura até hoje. </p>
<p>Antes que alguém diga que o Euromaidan é neonazista, explico o motivo da associação (mentirosa): um dos personagens mais conhecidos pela luta pela independência ucraniana, Stepan Bandera, chegou a colaborar com a ocupação nazista por acreditar em suas promessas de libertação da URSS. O fim dessa história está na internet, para quem quiser saber. Algumas poucas pessoas levaram retratos de Bandera para as manifestações, mas difamar o movimento inteiro por isso é o mesmo que querer prender quem usa Chanel por apologia ao nazismo, já que Coco Chanel também era colaboracionista. Russos étnicos não foram perseguidos pelo Euromaidan, a não ser que você queira chamar a revogação do uso do idioma russo como oficial de perseguição.</p>
<p>Como a imprensa russa é controlada pelo governo, Putin começou a difamar o Euromaidan como um movimento neonazista e adotou um discurso cada vez mais conservador e anti-Ocidental (para que quiser saber mais, dê uma olhada nos escritos do Aleksandr Dugin). Poderia falar horas sobre o que isso causou internamente, mas o que interessa aqui é que a Rússia se sente ameaçada pela existência da OTAN e pelo fato de estar cercada de países-membros do grupo. A Ucrânia sempre foi vista pelo Kremlin como sua última fronteira com o Ocidente &#8211; a título de curiosidade, Украина (pronuncia-se “Ukraína”) quer dizer “sobre a bordinha/fronteira” em russo &#8211; e teria sido a gota d’água. Por isso, a mídia russa tem se esforçado para retratar a invasão como “desmilitarização e desnazificação” de um pedaço roubado da Grande Rússia.</p>
<p>Hoje, 28/02/2022, as exigências russas para parar a invasão foram exatamente uma declaração de neutralidade em relação ao Ocidente pela Ucrânia, a desmilitarização do país e o reconhecimento formal do controle russo sobre a Crimeia. Acredito que exigirão o reconhecimento da independência das províncias de Donetsk e Luhansk também, mas duvido que estes termos serão aceitos.</p>
<p><strong>O que vai acontecer agora? Preciso construir um bunker no porão de casa?</strong></p>
<p>Não precisa de bunker se você estiver no Brasil, essa briga não é nossa e dificilmente seríamos alvo de uma arma nuclear russa no presente momento. Se estiver na Europa ou nos EUA, o risco continua muito remoto, mas mais possível do que nunca neste período pós-Guerra Fria. Pode ler sobre segurança e o que fazer na situação, mas não precisa entrar em pânico ainda. E espero que não precise nunca.</p>
<p>Hoje, dia 28 de fevereiro, as negociações entre a Ucrânia e a Rússia recomeçaram, mas não houve avanços. A Ucrânia pediu por um cessar-fogo e pelo fim da invasão. A Rússia exigiu que a Ucrânia fosse desmilitarizada, se declarasse neutra e o controle russo sobre a Crimeia fosse reconhecido internacionalmente. A invasão continua, as tropas russas já estão quase chegando a Kiev e os ucranianos continuam resistindo. Dentro da Rússia, a população não ficou feliz e milhares de pessoas tem sido presas por protestar. Numa terra em que falar mal do governo ainda pode te levar para um campo de trabalho forçado (pesquisar sobre o que aconteceu no caso Pussy Riot caso queira saber mais), isso é algo bem expressivo.</p>
<p>Duvido que um país que já foi invadido, abandonado pela UE e pelos EUA, e teve terras tomadas pela Rússia aceite a desmilitarização, é uma exigência inaceitável. Isso já foi usado na I Guerra Mundial para criar um casus belli, e é o que eu acho que o Kremlin está tentando fazer agora. Mesmo se um cessar-fogo for assinado, duvido muito que a região fique em paz por muito tempo. Podemos ter mais da mesma guerra híbrida de Donbass ou uma breve pausa antes de outro conflito. UE talvez admita a Ucrânia em um regime especial, OTAN deve se manter reticente quanto a Ucrânia, mas admitir a Suécia e a Finlândia. </p>
<p>Um grande desafio para tentar prever o que vai acontecer é que Putin já provou que não estava blefando em nenhuma das ameaças que fez. Inclusive, já chegou a dizer em um documentário que “não é necessário que exista um mundo no qual a Rússia não exista.” Além disso, o Ocidente sabe muito pouco sobre o grau de prontidão e rapidez do arsenal nuclear russo. Nenhum especialista está se atrevendo a dizer que o risco é nulo, porque aparentemente não é mais. Fora que invadir um país que está flertando com a OTAN é um péssimo jeito de demonstrar que esta é desnecessária, que não deve se expandir e que a Rússia não é uma ameaça.</p>
<p>Acredito que a melhor chance deste conflito não se tornar uma guerra total é a queda do Putin. Não dá pra entender isso sem falar dele em particular, mas long story short: ele foi o único governante pós-soviético capaz de oferecer estabilidade e segurança econômica aos russos e por isso (e por se apropriar da máquina do Estado inteira) está se segurando no poder há tanto tempo. Entre 40% e 60% da população trabalha em estatais ou semi-estatais. Se as sanções causarem um efeito forte e rápido o suficiente para tirar isso dos russos, os protestos irão aumentar muito e causar muito mais comoção. Em algum momento, não poderão ser contidos mais e pode ser que ele caia, principalmente se a OTAN decidir levar liberdade e democracia a Moscou.</p>
<p>Daria para falar da história do Holodomor, daria para falar sobre a contradição que é chamar o governo ucraniano de neonazista e perseguir homossexuais ao mesmo tempo, daria para falar sobre a própria personalidade do Putin e como isso se reflete na política externa russa, mas acho que o que expus aqui já traz mais entendimento sobre a crise. </p>
<p>Por fim, para quem quiser dar uma olhada no que a mídia russa tem dito sobre a guerra, tem o Ria Novosti (em russo) e o Sputnik (disponível em português), ambos do Kremlin. Para quem não está interessado nas fake news russas, a Deutsche Welle, o G1, a Vice e a Al Jazeera estão fazendo boas coberturas. Além disso, para quem se interessa por geopolítica e relações internacionais no geral, um antigo professor meu falou da crise em seu canal “Redes e Poder no Sistema Internacional”.</p>
<p><strong>Ass: Paula</strong></p>
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		<title>Depoimento: Relato de uma estudante presencial.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Feb 2021 15:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para somir@desfavor.com. Relato de uma estudante presencial na pandemia. Por ser mais nova que a média de leitores do Desfavor, eu sempre me senti um pouco deslocada. Acompanho o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a>.</div>
<h3>Relato de uma estudante presencial na pandemia.</h3>
<p>Por ser mais nova que a média de leitores do Desfavor, eu sempre me senti um pouco deslocada. Acompanho o blog desde 2018 e nunca tive ideias de como contribuir: pedir temas, escrever coisas para um Desfavor Convidado ou mesmo comentar eram coisas impensáveis para mim; entretanto, nesse cenário de pandemia, eu finalmente saio do meu estado de leitora fantasma e compartilho o que vejo sendo uma estudante que tem que ir às aulas presenciais.<span id="more-18033"></span></p>
<p>Já começo dizendo que se você já viu aquelas propagandas de escolas desinfetando as mochilas dos alunos, medindo a temperatura, passando álcool em gel em suas mãos e dizendo que a proteção é impecável, isso é uma meia verdade. Essas coisas de fato acontecem, mas você percebe quão inutilizadas essas medidas ficam quando nota que os funcionários responsáveis por isso às vezes estão com a máscara com o nariz descoberto! E isso está longe de ser uma raridade; há mais funcionários com máscara mal usada do que os próprios estudantes, embora estes também carreguem sua parcela de culpa. </p>
<p>Subindo as escadas e olhando de relance, a mesma paisagem se repete em todos os andares: alunos próximos uns dos outros, não raramente se abraçando e com as máscaras mal usadas ou mesmo ausentes. Alguns desses alunos, se não me falha a memória, eram os mesmos que foram de sala em sala avisando sobre os riscos do coronavírus no início da pandemia. Eles só se afastam e arrumam a máscara quando o monitor, um homem já em seus 30-40 anos que NÃO usa máscara em momento ALGUM — apenas um daqueles plásticos que se coloca no rosto — chega e diz pra eles tomarem jeito. Isso é tão irresponsável! Isso é tão hipócrita! Isso é tão BRASIL!</p>
<p>Quando se entra na sala de aula, eis o pesadelo: os alunos nos corredores se multiplicam em dez vezes e alguns conversam um perto do outro sem máscara; se a usam, a tiram pelos motivos mais estúpidos possíveis: já vi VÁRIOS casos de alunos que tiram a máscara pra fazer vídeos do Tik Tok. Por que exatamente eles precisam tirar a proteção pra gravar vídeos? Não sei, não entendo e acho mais provável ser uma desculpa imbecil. Esses mesmos alunos deixam as cadeiras umas perto das outras, nunca usam o álcool em gel que a escola disponibiliza ou trazem o próprio, estão sempre a dizer que as coisas estão melhorando, que a pandemia está próxima de seu fim&#8230; enfim, uma bagunça total. O caso mais curioso é de um garoto que pegou covid há mais ou menos um mês, ficou de cama com uma febre altíssima — achei justo, ele fez pouco da morte do tio de uma amiga —, pediu orações, falou que tinha medo de matar um dos familiares e agora que está bem, não hesita em dizer que sai mesmo, que as vítimas de covid morrem porque Deus havia decidido que já era hora. A empatia do brasileiro só dura enquanto a doença causa sofrimento.</p>
<p>Além do grupo dos irresponsáveis (que são a maioria), há também os que vão porque não podem escolher, os que têm consciência do perigo do vírus e tentam tomar o máximo de proteção possível. Como exemplo para esse pequeno grupo, cito uma amiga: ela tem asma (e a escola não fez nada para impedir que fosse mandada), quase toda a família está em algum grupo de risco e é pré-diabética. Toda vez que alguém tira a máscara, pode-se ver um terror indescritível em seus olhos. Eu não a culpo por estar assustada, parte dos amigos dela a põem em perigo. Ela era a pessoa mais alegre de meu círculo social, agora estou preocupada cada dia mais com sua saúde mental. Mas a maioria não liga. Por quê? Porque como não estão em grupo de risco, se acham imunes à doença. Deixem a colega perder mais e mais da saúde mental! A deixem morrer! Ou melhor: deixem TODA a família dela morrer! Deus queria, não? Se ela morrer, é porque Deus quis! </p>
<p>Francamente, essa situação não me passa pela cabeça sem pensar que apenas alguém muito doente ou muito perigoso pode ser capaz de tal insensibilidade. Não queria ofender minha pátria assim, mas tenho a impressão que vivemos num país de psicopatas.</p>
<p>Os professores são os menos piores, mas alguns também fazem parte do problema. Um deles ficou um dia inteiro dando aula sem máscara sob a desculpa de que era mais fácil falar sem a proteção. Quando a coordenadora chegava, ele colocava a máscara; quando saia, tirava-a imediatamente. Um detalhe para aliviar um pouco do peso desse texto: ele só começou a usar máscara porque uma pequena parte dos alunos que estavam na parte online se juntou e spammou mais de 400 mensagens com todo tipo de piada e esculhambação no chat visível por toda a sala. Não costumo compactuar com desrespeito ao professor, mas esse foi mais que merecido. </p>
<p>Por outro lado, a maioria dos professores (principalmente os mais velhos) dão a aula num tom de hesitação, como se não quisessem estar ali. É justo, justíssimo. Eles praticamente não puderam contestar quando as aulas voltaram e, assim como a minha amiga, cada ida à escola é uma roleta russa com a natureza.</p>
<p>Enfim, meu depoimento acaba aqui. Eu tenho medo de morrer ou ter sequelas antes de sequer chegar ao ensino médio, eu tenho medo de matar meus pais, eu tenho medo de matar minha amiga; desde que essa pandemia começou, eu tenho medo de tudo. Por favor, mantenham seus filhos no ensino online, não os façam passar por tal sentimento de terror, ninguém merece isso.</p>
<p>Se cuidem.<br />
<strong>Isolde</strong></p>
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		<title>Depoimento: Crise de saúde em Manaus.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jan 2021 15:00:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para somir@desfavor.com. Depoimento: Crise de saúde em Manaus. Moro em Manaus e gostaria de compartilhar os fatos que estão acontecendo por aqui. A ampla cobertura pelos meios de comunicação [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a>.</div>
<h3>Depoimento: Crise de saúde em Manaus.</h3>
<p>Moro em Manaus e gostaria de compartilhar os fatos que estão acontecendo por aqui. A ampla cobertura pelos meios de comunicação não é capaz de traduzir os sentimentos prevalentes aqui na cidade: medo, desespero e revolta.  Todas as comparações realizadas, por mais chocantes que sejam, são apenas uma pálida analogia da real situação. Tudo isso causado por uma mistura da imprudência e da negligência com as quais tanto o governo local quanto nós, manauaras, encaramos a pandemia desde o início.<span id="more-17911"></span></p>
<p>Não entrarei no mérito de quem é a culpa, do que poderia ter sido feito e não foi. Não, não farei isso. Quero compartilhar os relatos e vivências que chegam até a mim. </p>
<p>A crônica da tragédia anunciada foi escrita por muitas mãos, nos mais diversos setores da sociedade manauara. A caminhada para a beira do abismo que se transformou o colapso da rede hospitalar começou com coisas do tipo:</p>
<ol class="uk-list-large">
<li>Houve um evento no Teatro Amazonas, organizado pela Secretaria de Cultura do estado, com um dos Bois de Parintins, cidade essa que é um dos principais focos de ocorrência da doença desde o início da pandemia. Resolveram trazer um número grande de componentes assegurando que todos estavam saudáveis. Resultado: algum assintomático na comitiva proporcionou a contaminação e o óbito de diversos integrantes da agremiação, inclusive o de uma grávida que teve que passar por uma cesárea de emergência para tentar salvar a criança.</li>
<li>O recuo do governador após a passeata para liberarem o comércio na cidade. Ali a sirene do “vai dar merda!” foi acionada. Com a revogação do decreto, muito comemoraram a “vitória” da população (leia-se comerciantes) e do seu direito de ir e vir. Mas a conta chega, ela sempre chega.</li>
<li>Aqui houve uma “epidemia” de rolês aleatórios e clandestinos TODOS os finais de semana desde que proibiram festas na cidade. Para todos os gostos! Funk, forró, “boi” (ritmo regional muito valorizado por aqui) e até gospel&#8230; parece que ao saber de que estava proibido de participar desse tipo de aglomeração, a cabeça do manauara explodiu e se tornou questão de honra organizar/participar desse tipo de coisa. E a vontade era tanta que eram blitz todos os finais de semana com vária detenções e eles iam cada vez mais longe, geograficamente falando, para realizar os eventos e cada vez mais lotados&#8230;</li>
</ol>
<p>Apesar de haver muito mais fatos que colaboraram para o panorama calamitoso que atualmente enfrentamos, essa é uma amostra do que nos levou a chegar a este ponto.</p>
<p>Hoje podemos ver em todos os hospitais da cidade, sejam públicos ou particulares (que foram os primeiros a suspenderem os atendimentos, mesmo quando ainda não haviam alcançado a capacidade máxima de internação e cobrando valores exorbitantes de cheque caução para receber os doentes), cenas de desespero generalizadas.</p>
<p>Não adianta ter o melhor plano de saúde, ter dinheiro em espécie nas mãos (e, acreditem, rolaram muitos casos de tentativas de suborno para comprar leitos e furar a fila de internação com as pessoas literalmente se engalfinhando nas portas dos hospitais – isso a mídia não mostrou) se não há o que “comprar”. Aqueles com posses ainda buscaram mandar seus parentes para fora do estado, mas a maioria não conseguiu.</p>
<p>Como as pessoas estão sem a opção de socorro médico nas instituições de saúde, são forçadas a ficarem em casa, aumentou consideravelmente o número de óbitos domiciliares. Estava conversando com uma amiga, contando sobre o falecimento de um colega de trabalho, quando ela começa a chorar dizendo que a mãe estava morrendo na frente dela em casa. Eu acompanhei em tempo real isso acontecer, pude escutar ao fundo os gritos dos demais familiares, a angústia através da ligação&#8230;foi surreal&#8230; nunca imaginei passar por essa experiência macabra&#8230; NUNCA!</p>
<p>Houve também os casos de falecimento nas unidades hospitalares por falta de oxigênio medicinal, amplamente divulgado nas mídias, o que por si só já é de um absurdo sem precedentes. Falando com uma amiga médica, ela disse que o nível de depressão entre os profissionais de saúde aumentou e que muitos pensam em desistir não pela rotina extenuante, mas pelo fato de que não tem insumos básicos, não apenas oxigênio, para executar os procedimentos. Disse, ainda, que na tentativa de manter os pacientes até os auxiliares de limpeza se ofereciam para “ambuzar” (ventilar manualmente) os pacientes. Pessoas próximas a mim presenciaram isso. Não escutaram falar&#8230; </p>
<p>Ou receber mensagens como <i>“Acabei de perde meu tio por parte de pai. Minha tia falou que estão morrendo em serie sem oxigênio. Cena de filme. Acabou o oxigênio. Meu tio foi um desses. Mana tô em Pânico. Agora vai ter toque de recolher. Eu vou fica em casa por esses tempo. Não vou sair pra nada nada. Vou me resguarda com a meninas.. Se cuide mana.. tá tenso por aqui”</i> (sic).</p>
<p>Ainda há a questão do sepultamento dos corpos. O maior cemitério em funcionamento, conhecido como Parque Tarumã, é localizado em uma área verde da cidade. Dia após dia tem sido necessário derrubar as árvores da mata interna para abrir clareiras e escavar as valas coletivas onde os caixões são colocados empilhados. Os cortejos só podem ser de até três pessoas e apesar disso sempre há congestionamento de carros funerários com longas filas na estrada que lhe dá acesso. Todos os que enterram seus familiares dizem que não conseguem esquecer a cena da retroescavadeira em ação&#8230;e para complicar mais a situação dramática, estamos em épocas de chuvas torrenciais na região norte, o que aumenta o risco de as “sepulturas” recentes serem destruídas ou levadas pelas águas já que a maioria está localizada em áreas declivosas com solo recém revolvido&#8230;</p>
<p>Quando eram apenas NÚMEROS as pessoas não se importavam, não havia caído a ficha&#8230;mas agora que se transformaram em NOMES, tudo saiu do campo do abstrato.</p>
<p>Lamentável é que tenhamos tomado consciência da necessidade de ficar em casa apenas após tantas perdas. Mais lamentável ainda é que essa consciência ainda não chegou a toda a população daqui.</p>
<p>Não sejam como nós. Observem e aprendam pelo o exemplo, pois o ser humano costuma aprender pelo amor ou pela dor. E a segunda opção é infinitamente pior.</p>
<p>Se cuidem. Fiquem bem.</p>
<p><strong>Por: Saloli</strong></p>
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		<title>Complicações do diabetes.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2020/11/complicacoes-do-diabetes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 20:00:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Complicações do diabetes. Há muito tempo escrevi um texto aqui no desfavor contando sobre como é conviver com diabetes. Hoje complemento com esse texto contando sobre possíveis [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Complicações do diabetes.</h2>
<p>Há muito tempo escrevi um texto aqui no desfavor contando sobre como é conviver com diabetes. Hoje complemento com esse texto contando sobre possíveis complicações que a doença pode provocar a longo prazo, incluindo aí um relato pessoal meu.<span id="more-17631"></span></p>
<p>Lembrando que essas complicações não são causadas necessariamente por mau controle, mas pelo simples fato de ter a doença a longo prazo. Conheço casos aí de pessoas que viveram bem com a doença a vida inteira, teve um bom controle, mas chegou aos 80 anos e a coisa desanda, os problemas aparecem. É uma espécie de &#8220;bônus&#8221; que temos que lidar, não tem jeito! </p>
<p>Segue o fato de que a diabetes pode acabar com teu corpo inteiro, existem inúmeras complicações decorrentes dela, mas nesse texto vou citar apenas quatro, que são bem conhecidas por aí: retinopatia diabética, nefropatia, neuropatia e glaucoma. </p>
<p>A começar pelo glaucoma (vou tentar ser bem didático no texto, sem usar todo aquele jargão da medicina), esse ocorre quando há o aumento de pressão dentro do olho. Sim, dentro do nosso olho correm fluídos pra lá e pra cá, e quando a pressão aumenta, pode &#8220;explodir&#8221; teu olho, por assim dizer. O que acontece mesmo é que danifica a córnea, a retina, e o principal, o nervo óptico, que é a coisinha que liga o olho ao cérebro. Se não tratado pode causar cegueira irreversível. Junte essa pressão alta do olho com sangue grosso cheio de açúcar e veja só o que acontece&#8230; O problema maior mesmo é tu conviver longos períodos, meses, anos, com a glicemia elevada no sangue, daí só acelera mais ainda o processo de piora da doença.</p>
<p>Tem tratamento? Tem sim! É geralmente feito com colírios, medicamentos via oral, e cirurgia a laser. Mas quem determina isso, obviamente, é o médico, feitos os devidos exames diagnósticos. </p>
<p>Falando em olhos, passemos para a próxima: retinopatia diabética. Essa eu tenho lutado contra por algum tempo e aqui vai, em partes, meu relato pessoal. De maneira bem simples, essa ocorre quando pequenos vasinhos de sangue começam a crescer na retina, daí acabam se proliferando. Também pode vir acompanhado do chamado &#8220;edema degenerativo de mácula&#8221;, que é quando um edema (aumento de líquido, bem resumidamente) cresce nessa região responsável pela visão nítida, pela visão central, pelo foco etc. </p>
<p>Essa é uma complicação silenciosa, devo dizer. Porque ela começa e você nem percebe nada, não apresenta nenhum sintoma, e se você não vai ao médico, fica difícil saber e diagnosticar. Em um estágio mais avançado da doença, começam a aparecer os sintomas: vista cansada, vista embaça na região central, dificuldade para enxergar coisas e objetos com nitidez (tipo a ponta do teu dedo, de perto. Fica parecendo que há uma mancha no meio da imagem, ou que foi tirada uma foto e a câmera simplesmente perdeu o foco!), dificuldade em ler no celular, no computador ou mesmo em livros, mesmo que esteja ampliado, moscas volantes (pontinhos transparentes voando no meio da imagem), floaters (algo parecendo uma serpentina ou uma cobrinha, voando também no meio da imagem).</p>
<p>Além disso tudo, tem também a sensação estranha de que há um flash se apagando ou uma luz de neon vermelha acesa quando tu fecha o olho, e altíssima sensibilidade à luz, também conhecida como fotofobia. Muita gente acha que é só frescura com luz clara, mas o que muitos não sabem também é que a pessoa realmente tem dificuldades em enxergar no horizonte, isso porque os raios solares estão entrando de maneira intensa e distorcida na retina. A pessoa enxerga uma névoa branca ao longe, como se fosse uma foto tirada com balanço de branco alterado em 3+, e o ISO alto. </p>
<p>É simplesmente horrível tu sair na luz do sol, de dia na rua, e não conseguir enxergar de longe, apenas o que está próximo de ti, e ainda assim com dificuldades, embaçado. Já houve vezes em que tropecei na rua e caí em pequenos buracos na calçada por não ter enxergado direito o que estava na minha frente. </p>
<p>O tratamento? Consiste basicamente em aplicações de laser (fotocoagulação a laser) e injeções no olho (intravítreas). Quem determina isso é o médico, através de exames diagnósticos feitos previamente, a saber, mapeamento de retina, angiografia com contraste, e tomografia ocular (OCT). A tomografia é um procedimento bem simples, enfiam tua cara num aparelho lá e fica piscando uma luzinha num preto infinito. Já a angiografia é um pouco mais chatinha, tem que tomar um contraste intravenoso antes, esperar uns minutinhos e ir para uma máquina que tem uma luz extremamente forte e irritante. </p>
<p>Quanto às injeções, por mais aflitivas e agoniantes que pareçam, são tranquilas, uma picadinha boba que tu nem sente direito, já que toma anestesia local e ainda tem aquele colírio anestésico que paralisa teu olho. O procedimento é feito em centro cirúrgico, com os devidos cuidados assépticos: acompanhante não pode entrar etc, colocam um plástico no teu olho, luvas, máscara, enfim&#8230; O incômodo mesmo fica por conta dos 10 minutos depois da aplicação, que aí sim começa a arder pra caramba, como se fosse um colírio super forte. Mas uma hora passa. </p>
<p>Se esse procedimento é suportável, o mesmo não posso dizer tanto da fotocoagulação a laser. O procedimento aqui é mais simples, enfiam tua cara num aparelho, posicionam bem o olho e uma luz começa a piscar. Essa luz pode ser verde, amarelo ou azul, depende da frequência utilizada e do comprimento de onda, cada uma serve pra uma coisa. Mas o fato é que, quando a luz começa a piscar, dói pra caralho! Não só arde como dói, bem lá no fundo do nervo, dói no teu cérebro, é uma sensação horrível como se tivesse rasgando, passando fogo por lá. E, depois disso, a pessoa tem que ficar em repouso, evitar luz clara, usar óculos escuros e os olhos ficam doendo aí uns 2 a 3 dias depois. Isso implica dizer que tu fica simplesmente impossibilitado de fazer as coisas, porque não dá! Não dá pra andar, dirigir, ler, nada! Acaba que ficando dependente dos outros para te ajudar a fazer as coisas. Complicado!</p>
<p>Lembrado também que as vezes não é bem só uma aplicação, mas sim seis, dez ou até mais, a ser determinado pelo médico. Depois são feitos os exames diagnósticos novamente para conferir se os vasinhos secaram e tudo voltou ao normal. </p>
<p>A parte chatinha disso tudo, devo dizer, é se você depende do SUS para esse tratamento. O SUS é muito bom pra muita coisa, mas para outras, tem horas que peca, viu? Digamos que, neste caso, você está fodido e vai ter que enfrentar uma puta dor de cabeça a longo prazo, e depender da sorte e da boa vontade de outrens&#8230;</p>
<p>Segue o fato de que alguns exames e tratamentos não são disponibilizados pelo SUS. A fotocoagulação e a angiografia é ok, agora a tomografia a laser e as injeções intravítreas (que são procedimentos muito caros, cada injeção custa em torno de 2mil reais!) não são disponibilizadas, daí você vai ter que enfrentar toda a burocracia e dor de cabeça de juntar o resultado dos exames, laudo médico, documentos pessoais, enfim, toda a papelada, ir na defensoria pública, choramingar e fazer um barraco pra dizer que é um caso urgente, que você pode perder a visão de maneira irreversível, enfim, tudo isso,  e cruzar os dedos pra ter sorte que tu consiga um bom defensor que apanhe bem o teu caso e um juiz que defira sem maiores complicações isso. </p>
<p>O que eu critico, se me permitem, é justamente essa falta de tato com as pessoas no serviço público nos pais. Ainda mais agora, em tempos de pandemia, em que os órgãos públicos estão fechados, só atendem por meios eletrônicos (whatts, email), é simplesmente um horror tu ter que ficar em cima, se humilhando, fazendo showzinho, pra simplesmente fazerem pouco caso de tua queixa e apenas receber um email automático sem nem informar direito em que pé está o seu processo. Enquanto isso, os dias vão se passando, os sintomas cada vez mais piorando, e o desespero batendo. As coisas poderiam ser tão mais simples num sistema que supostamente se propõe gratuito e feito para todos!</p>
<p>Passemos agora à nefropatia. Nefro tem a ver com rins, logo&#8230; Diabetes simplesmente ataca os teus rins e ele para de funcionar. O que acontece mesmo é que teus rins param de filtrar o sangue decentemente, daí aumentam os níveis de albumina na urina, e logo em seguida os níveis de creatinina, causando aumento da pressão sanguínea, inchaço nos tornozelos e pés, perda de apetite, náuseas e vômitos, até a coisa desandar de vez e causar insuficiência renal e o paciente precisar de diálise ou mesmo de transplante. Essa complicação ainda não me afetou, ainda bem! Mas, diagnosticada cedo, é reversível com utilização de medicamentos controladores de metabolismo, aliado a um bom controle glicêmico.</p>
<p>Por fim, a neuropatia diabética: &#8220;neuro&#8221; tem a ver com neurônios, sistema nervoso, então&#8230; Sim, a diabetes pode atacar também os teus nervos e, num estágio avançado, pode até causar lesão neural irreversível. Mas, antes de chegar nesse ponto, tudo começa com uma leve sensação de formigamento nos pés, que aparentemente tu nem liga direito. Disso, evolui para sensação de queimação, como se tivesse passando fogo nos pés e pernas, ou como se tivesse passado uma lâmina de depilar e a pele ficasse ardendo. Além disso há a sensação de choques, fincadas na pontinha dos dedos e no osso do pé, no calcanhar, tornozelo, enfim, até que vai subindo para os nervos da perna, e tu se sente bem incomodado na canela, joelho, ciático, lombar&#8230; </p>
<p>Para além desses sintomas pode haver também alteração de sensibilidade, seja ela vibratória, de dor, de toque ou de temperatura. Já vi casos mais avançados em que a sensibilidade da pessoa fica tão alterada que ela não consegue sequer por o pé no chão direito, de tanta dor, ou mesmo colocar determinada roupa porque o tecido, em contato com a pele, incomoda. </p>
<p>Recentemente eu também tive essa complicação com sintomas iniciais, apenas um formigamento nos pés que eu achei que era normal devido ao calor a noite. Só depois me toquei que poderia ser problema causado pela diabetes. Também cheguei a sentir umas fincadas nos dedos dos pés e ossos, bem ali na &#8220;maçã do peito&#8221; do pé, coisa bem chata. Mas logo tomei as providências. </p>
<p>O tratamento disso é feito geralmente com remédios que aliviam a dor temporariamente, e remédios específicos que &#8220;limpam&#8221; os nervos periféricos da pessoa. A depender do caso e da situação, daí tem que ter acompanhamento médico multidisciplinar, que contempla angiologista, fisioterapeuta, reumatologista, ortopedista, neurologista, e endócrino. </p>
<p>É por essas e outras que muito dizem por aí que diabético tem que prestar atenção a seus pés, e qualquer machucadinho simples merece grande atenção, já que pode evoluir para complicações maiores. É importante sempre ter em mente essas possíveis lesões, saber cortar as unhas direito, sem encravá-las ou inflamá-las, manter a pele hidratada e tudo mais. Por incrível que pareça, nem todo mundo sabe disso, ainda mais pessoas mais humildes. É por isso que tem gente especializada nos postinhos para dar esse tipo de informação tão essencial ao diabético. </p>
<p>Bem, finalizo esse texto com aquele clichê moralista de sempre: quando tu tens uma doença crônica desse tipo, e que não há cura, procure sempre seu médico e não deixe de seguir o tratamento à risca! Pois a conta uma hora vem, e ela pode ser bem cara! O que aconteceu comigo, embora tenha sido em partes erro meu, poderia ter sido evitado se eu tivesse prestado mais atenção em detalhes mínimos. Mas foi aquela coisa &#8211; imagino que muitos passam por isso, então vou relatar aqui: tu resolve fazer um doutorado, sem bolsa, daí tem que ralar pra trabalhar e pagar as contas e ainda por cima fazer uns extras pra dar conta de tudo. Nem tua pesquisa faz direito, quem dirá arrumar tempo pra ir ao médico de vez em quando, ver se está tudo bem. Daí tu vai deixando de lado, tem um controle glicêmico mediano, mede poucas vezes ao dia e não repara se tem momentos de hiperglicemia, deixa de prestar atenção na alimentação, afinal, mais importante é o aluguel estar em dia, não? E, enfim, tu vê a merda feita depois de um tempo. </p>
<p>Não pode, tá errado! Diabético tem que ter uma boa alimentação e um bom controle glicêmico, e isso custa um pouco caro. Não me refiro nem aos produtos diet no mercado, que são caros por si só, mas sim uma boa alimentação contendo fibras, cereais, verduras, frutas e legumes. Eu sei que o SUS disponibiliza fitas de medição apenas para três medições ao dia, mas o ideal mesmo seria 5 a 6 medições, o que sai caro do teu bolso. É o que eu sempre falo, diabetes é o tipo de doença de rico, porque haja gastos, viu? Mas essa, ao que parece, é a sina que todos temos que passar&#8230;</p>
<p><strong>Por: Ge</strong></p>
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		<title>Adoçantes.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Adoçantes Aproveitando o tédio da pandemia, venho ajudar o desfavor a dar uma variada nos textos com temas nada a ver que ninguém pediu, para fugir um [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Adoçantes</h2>
<p>Aproveitando o tédio da pandemia, venho ajudar o desfavor a dar uma variada nos textos com temas nada a ver que ninguém pediu, para fugir um pouco de corona vírus, notícias bizarras semanais ou eleições americanas. Hoje eu falo de adoçantes.<span id="more-17550"></span></p>
<p>Sacarina, ciclamato, stévia, sucralose&#8230; São tantas opções quando você vai ao mercado que fica até perdido. Vem comigo que vou tentar dar uma ajudinha&#8230;</p>
<p>Há muito tempo atrás escrevi aqui no desfavor um texto comentando sobre como é viver com diabetes. Pois bem, como sujeito que se vê obrigado a usar adoçantes diariamente, hoje comento sobre como é conviver com eles. Já digo de antemão que não sou médico, nem nutricionista, sou apenas um usuário comum, então não esperem uma análise profissional para dizer qual é o melhor ou pior e por quê. O texto vai ser meio que na base do &#8220;achômetro&#8221; mesmo. Acrescento também que cada adoçante tem lá uma polêmica ou controvérsia envolvida, bem como estudos mostrando que faz mal, que não faz mal, enfim. Há muita bizarrice por aí, então é preciso separar bem o joio do trigo.</p>
<p>Vamos lá: adoçantes são substâncias que servem para dar sabor doce aos alimentos. Existem os naturais e os artificiais. Os naturais, como próprio nome indica, são encontrados naturalmente na natureza, em algumas frutas, plantas, algas marinhas, enfim. Já os artificiais são produzidos sinteticamente em laboratório. </p>
<p>Muita gente acha que adoçante serve para substituir o açúcar &#8211; o que não é errado -, mas dá para considerar o açúcar que a gente conhece também como um adoçante “natural” afinal, serve para dar o sabor doce aos alimentos também. Na verdade, o que a gente conhece como “açúcar” é chamado “sacarose”, e é composto por uma molécula de frutose e glicose juntas. É um carboidrato simples, oferece bastante energia e é facilmente digerido. Existem vários tipos de açúcar por aí (mascavo, demerada, orgânico&#8230;), mas isso vou pular porque dá outro texto enorme. </p>
<p>E não, açúcar não é tão vilão assim como é conhecido por aí. Ele tem alguns sais minerais importantes para o corpo, como ferro, cálcio, potássio, sódio, fósforo e magnésio. Tal fato que, quando uma pessoa tem casos de desidratação é comum utilizar uma solução de água + açúcar e sal para repor os minerais perdidos. O problema mesmo é o consumo exagerado que se tem por aí, bem como a cruel indústria alimentícia que nós temos, que abusa de coisas açucaradas para dar consistência aos alimentos.</p>
<p>Ainda na categoria de adoçantes naturais, existe a frutose, que como nome já diz, é facilmente encontrado em frutas. Sabe aquele gosto docinho que você sente quando come banana, mamão, maçã? Pois é, é a frutose presente lá. Há frutas que são amargas/azedas, possivelmente porque não estão maduras suficientes ou pela falta de frutose. A questão é que conseguiram, de alguma forma, isolar esse açúcar da fruta e passaram a comercializar na forma de pó. É um substituto para o açúcar, mas nem tanto, já que não tem tanto poder de adoçar assim, se comparado a outros adoçantes, e ele também é calórico. Ou seja, não é recomendado para quem faz dieta de emagrecimento.</p>
<p>Eu particularmente gosto para usar às vezes na culinária, mas confesso que em algumas aplicações tem que ser o bom e velho açúcar da vovó mesmo, viu? Para dar aquela &#8220;liga&#8221; decente no negócio. Já para usar no cafezinho no dia-a-dia, nem tanto, ele é suficiente.</p>
<p>Ainda na categoria dos adoçantes naturais, existe também a stévia. É extraído de uma planta chamada Stevia Rebaudiana, um arbusto herbáceo que existe aqui no Brasil e no Paraguai. Dizem por aí que ele tem o poder de adoçar até 300x mais que o açúcar, mas não é bem por aí. A interpretação errônea desse negócio nos leva a crer que uma gotinha &#8220;milagrosa&#8221; desse negócio adoça como se fossem 300 colherinhas de açúcar, e não é assim. </p>
<p>Na real, esse é um adoçante bem potente mesmo, umas 3 ou 4 gotas já são suficientes pra dar aquele sabor bem encorpado de doce nas coisas. Há quem não goste dele pelo sabor de erva que fica na boca, mas eu diria que é tolerável. Detalhe que esse adoçante é comercializado tanto na forma líquida, transparente, ou na forma de pó, para uso culinário. Outra coisa interessante desse adoçante é que ele é zero calorias. </p>
<p>Continuando, ainda nos adoçantes naturais, há também o manitol. Esse é encontrado em alguns vegetais como cebola, beterraba e aipo, e em algumas algas marinhas. É comercializado na forma de pó, e é bem raro achar por aí em mercados comuns. É potente, uma colherinha pequena dá a impressão de que foram umas seis colheres de açúcar no copo, e deixa um sabor residual meio terroso, meio de beterraba cozida na boca. Geralmente é usado na indústria alimentícia com a fabricação de geleias, gomas de mascar, balas etc. Outro uso dele é no preparo de exames gastrointestinais, como a colonoscopia, já que ele tem potente efeito laxante. Aliás, esse é o problema desse adoçante: em grandes quantidades pode fazer um estrago! Eu mesmo recentemente tive que passar por uma colonoscopia e, no preparo, tive que tomar uma solução de manitol a 20% em meio litro de água, e olha&#8230; </p>
<p>Do manitol, passemos ao sorbitol. Esse é primo do manitol, é também encontrado em algumas algas marinhas, e em algumas frutas, mas pode ser obtido a partir da redução da glicose. O ruim é que ele tem menor poder de adocicar que o açúcar, o que exige que você coloque bastante na bebida pra adoçar, só que aí há outro problema: altas doses dele pode ter efeito laxativo. Também é difícil de achar em mercado comum, e também é usado na indústria alimentícia, não só para adoçar, mas também como espessante e emulsificante. Esse deixa um sabor residual bem fraco na boca, se comparado ao manitol. </p>
<p>Depois do sorbitol, ainda na categoria dos adoçantes naturais, existe o xilitol. Ele é encontrado em fibras de alguns vegetais e frutas, como milho, framboesa e ameixa. Ele vem da xilose, que é um monossacarídeo presente na estrutura da fibra desses vegetais.</p>
<p>Ele é mais fácil de ser encontrado no mercado, só que é bem mais caro que os outros adoçantes, e é em forma de pó, ou melhor, cristais, que se assemelham ao açúcar cristal. Deixa um leve sabor residual de erva refrescante na boca, algo como sabor de pasta de dente, mas nada agressivo. E quanto ao seu poder de adoçar, diria que ele é meio a meio, isto é, uma colherinha dele equivale a duas de açúcar. </p>
<p>Além desses, existe também a taumatina, que é extraída de uma planta presente no sul do continente africano, chamada Katemfe. O mais interessante desse adoçante é que ele é uma combinação de proteínas existente nessa fruta, e como as proteínas são metabolizadas na digestão humana, logo esse adoçante é &#8220;nutritivo&#8221; de alguma forma.</p>
<p>Também é raro encontrá-lo por aí nos mercados, e se achar, vai ser bem caro, já que é importado. É comercializado tanto na forma de pó, como líquido e diz-se que adoça até 2 mil vezes mais que o açúcar. Experimentei uma única vez e realmente é promissor: tem o sabor parecido com o neotame, mas sem ser exagerado e marcante como o outro. Na indústria alimentícia ele também é utilizado como intensificador de sabor e emulsificante. </p>
<p>Agora, passando à categoria dos adoçantes artificiais, há vários, e por vezes, com nomes confusos: acessulfame K, sucralose, ciclamato de sódio, ciclamato de potássio, sacarina sódica, aspartame e neotame. Cada um tem lá seus prós e contras e, curiosamente, uma polêmica envolvida.</p>
<p>Vou começar pela sacarina sódica: é o adoçante mais popular que existe por aí, em qualquer zero-cal, adocyl, assugrin tem essa substância. Sua produção é de baixo custo, e é o adoçante mais antigo que existe, sua descoberta data de 1878. Ele é derivado do tolueno, e há quem diga que ele tem poder de adoçar até 300x mais que o açúcar, mas eu não concordo. </p>
<p>É o tipo de adoçante &#8220;normal&#8221;, quer dizer, 4 gotas para minimamente ter o sabor de uma mísera colher de açúcar. O problema é que esse (assim como outros) adoçante vicia, daí você acaba tendo que pingar umas gotas a mais, e a mais e a mais, e quando vê já está esguichando todo o frasco na bebida. A dica pra isso é: variar os tipos de adoçantes de tempos em tempos. Outra parte ruim desse adoçante é que ele deixa um gosto residual amargo na boca, um gosto metálico horrendo. </p>
<p>Quanto à polêmica sobre esse adoçante, diz respeito ao fato de que tem muito sódio em sua composição, e por isso não é indicado para hipertensos. Além disso, acaba com teu rim por causar problemas de retenção de líquidos, alteração de ph da urina e precipitação de minerais na bexiga. </p>
<p>Depois da sacarina, outro bem popular é o ciclamato de sódio e o de potássio. Eles são derivados do petróleo, e são bem polêmicos por terem uma substância (ciclohexilamina) que tem alto potencial cancerígeno. Pra vocês terem ideia, a FDA (a ANVISA dos EUA) proibiu o uso deles em refrigerantes e sucos, mas aqui no Brasil é liberado. É difícil encontrar esse adoçante &#8220;puro&#8221; por aí, ele geralmente vem misturado junto com a sacarina sódica, até porque o consumo diário permitido para um ser humano normal é de apenas seis sachês. Mas na versão pura, posso dizer pra vocês, tem um gosto residual mais amargo e mais metálico que a sacarina. Me lembra algo como que quando a gente toma bicarbonato de sódio. O ciclamato tem poder de adoçar maior que a sacarina, e geralmente é usado mais na indústria de bebidas do que comercialmente. </p>
<p>Depois desses três, tem também o popular assessulfame K (o K é o símbolo do potássio na tabela periódica). É um sal derivado do potássio, logo, você encontra por aí na forma de cristais, em sachês. É aquele típico adoçantezinho que vem no sachê em lugares chiques tipo café de hotel.</p>
<p>Se comparado ao ciclamato e à sacarina, é até duas vezes superior a eles, adoça pra caramba mesmo. Só que, assim como os outros, deixa um gosto metálico horrível na boca. Ele é um dos preferidos pra quem mexe com panificação e confeitaria, porque é estável em altas temperaturas, mas não dá tanta liga quanto o açúcar comum. Esse é outro que é problemático pra quem faz dieta controlada de potássio, também pode dar problema nos rins e causar câncer devido à liberação de radicais livres.</p>
<p>Agora vamos pra outro adoçante artificial mais polêmico ainda: aspartame. Ele é até fácil de achar nos mercados, assim como sacarina sódica e ciclamato, mas geralmente é mais caro, já que o custo de produção tende a ser mais caro. É feito a partir da combinação de dois aminoácidos, a fenilalanina e o ácido aspártico, e geralmente é comercializado na forma líquida, branquinho leitoso, e sim, realmente adoça pra caramba. Duas gotinhas já bastam para dar aquele sabor intenso de açúcar concentrado. Sabe aquele café hiper doce e concentrado, quase que melado no fundo do copo? Pois é. Esse, diferentemente dos outros, deixa um gosto residual na boca menos intenso, mas ainda assim existe. Não é um gosto de metal como os outros, mas sim algo áspero, como que doce de criança, como se você tivesse ido a uma festa e comido vários docinhos e ficasse com aquela sensação de boca áspera. </p>
<p>O ruim dele é que é calórico, cada gota tem cerca de 4kcal, e não é resistente a altas temperaturas. Agora, a polêmica sobre esse adoçante mesmo fica por conta de vários estudos (e controvérsias desses estudos) que mostram que ele tem alto potencial cancerígeno. Há quem relate também sintomas como dores de cabeça, enxaqueca, reações alérgicas com o uso desse adoçante.</p>
<p>Mas o fato é que: o ácido aspártico presente nesse adoçante eleva os níveis de aspartato e glutamato no sangue, e eles agem como neurotransmissores no cérebro. Mas, quando em excesso, ele tem a capacidade de matar os neurônios. Daí o surgimento, em longo prazo, de Alzheimer, paralisia cerebral, entre outros. Curioso é que vários refrigerantes &#8220;zero&#8221;, sucos, e até chás e iogurtes utilizam esse adoçante em sua composição. </p>
<p>Derivado do aspartame existe também o neotame. Esse sim é violentamente adoçante, e diz-se que tem o poder de adoçar até 8 mil vezes mais que o açúcar. Pra vocês terem uma ideia, não é nem questão de gramas, mas de algumas poucas miligramas pra ter o poder de adoçar equivalente a oito xícaras de açúcar. A vantagem deste para o aspartame é que este pode ser usado em altas temperaturas, e o gosto residual é bem menos intenso que o outro, quase imperceptível, ficando apenas o gosto de açúcar mesmo.</p>
<p>Ele é raro de encontrar por aí, ainda mais aqui no Brasil, até porque ele é usado mais na indústria alimentícia do que comercialmente, mas dá para encontrá-lo por aí na forma de pó, e custa bem mais caro que os outros adoçantes. Já provei uma vez e, realmente, é bem potente, bem marcante o sabor de doce, quase que enjoativo. </p>
<p>O neotame também não está livre de polêmicas e controvérsias, já que em sua estrutura tem um tal de &#8220;3-dimetil-butil&#8221;. Explicando bem resumidamente, em química isso aí é um aldeído, uma substância extremamente reativa e inflamável, utilizada na indústria farmacêutica, na produção de perfumes e plásticos, solventes e resinas. Pois é, é nada menos que isso que há no neotame, e sabe-se lá porque diachos isso foi aprovado para o consumo humano&#8230;</p>
<p>Passando agora pra sucralose, digo que esse é um dos meus adoçantes preferidos, depois do stevia. Há várias marcas por aí, mas a melhor, a meu ver, é a Linea. Esse realmente adoça de verdade, poucas gotas já deixa a bebida consistente, com sabor de açúcar pra valer, e até o gosto residual lembra açúcar (lembra como se tivesse chupado cana, ou comido melado de cana, ou algo do tipo, aquele gosto de algo caramelizado na boca). Ele é uma molécula modificada da sacarose (açúcar comum), mas não é reconhecido pelo corpo como hidrocarboneto, ou seja, não tem calorias, e não eleva a glicemia no sangue. Os únicos contras mesmo ficam por conta do preço, já que tendem a ser os mais caros disponíveis no mercado, e o fato de que ele pode ser maléfico pra tireoide, já que em sua composição tem cloro, que compromete a absorção de iodo por essa glândula.</p>
<p>Mas bem, como nem tudo são flores também, há alguns estudos mostrando que ele pode irritar o estômago e intestino, alterar a organização da flora intestinal, ter efeito laxativo, causar gases e náuseas.</p>
<p>Detalhe que, para baratear o custo, esse adoçante vem geralmente misturado com outros adoçantes artificiais existentes no mercado, como a sacarina e o ciclamato. Um exemplo é o zero-cal sucralose, que é uma mistura de tudo, e funciona bem. Depois do Linea, que é sucralose &#8220;pura&#8221;, esse zero-cal é um dos meus favoritos.</p>
<p>Tá, você leu até aqui e não se decidiu ainda sobre qual adoçante utilizar? Bem, diria que adoçante vai de cada um, já que gosto é algo muito pessoal, vai depender de que sabor residual você quer na boca, se mais amargo, metálico ou sei lá o quê&#8230;</p>
<p>Brincadeiras à parte, diria que, a não ser que você tenha alguma restrição médica previamente prescrita, vai de sacarina sódica mesmo, pra adoçar aquele cafezinho do dia a dia. Se quer algo mais forte, vai de sucralose. Para uso culinário básico, eu prefiro a frutose, já que ela tende a ser a mesma medida do açúcar comum, ou uma relação de 1 pra 2. Para uso culinário avançado, na alta gastronomia, por exemplo, pra dar aquela liga a mais naquele creme americano, daí indicaria o acessulfame K, porque ele realmente aguenta porrada e altas temperaturas.</p>
<p>Bem, para finalizar, vale sempre a pena dizer que todos os adoçantes devem ser consumidos com moderação, e se possível com a recomendação correta de um nutricionista, principalmente se o intuito é alguma dieta específica. Conviver com adoçantes diariamente também não é bicho de sete cabeças; a questão, a meu ver, é saber ir variando de tempos em tempos, tanto para não enjoar, não viciar, quanto para não causar possíveis problemas à saúde.</p>
<p><strong>Por: Ge</strong></p>
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		<title>Banco Imobiliário – Covid-19 Edition</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2020/07/banco-imobiliario-covid-19-edition/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jul 2020 19:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Banco Imobiliário – Covid-19 Edition Durante a pandemia, uns arrumaram tempo para retirar os livros dos armários, assistir maratonas de seriados, webinars, inscrevem-se em diversos cursos, tocar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Banco Imobiliário – Covid-19 Edition</h2>
<p>Durante a pandemia, uns arrumaram tempo para retirar os livros dos armários, assistir maratonas de seriados, webinars, inscrevem-se em diversos cursos, tocar um (novo) instrumento, exercitar-se.<span id="more-17146"></span></p>
<p>Isso nem (sempre) é possível para quem está com (muitos) familiares em casa, sendo obrigado a buscar meios de entretê-los para ter paz de espírito por meio de jogos e brincadeiras. </p>
<p>Pensando nisso, inspirado pelo <a href="http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI328680-17770,00-CONHECA+O+BANDO+IMOBILIARIO+CARIOCA.html" rel="noopener noreferrer" target="_blank">Bando Imobiliário Carioca</a>, que adaptou o Banco Imobiliário completamente à realidade carioca, incluímos o coronavírus nas <a href="https://issuu.com/orlanerocha1/docs/manual_de_instrucoes_banco_imobilia" rel="noopener noreferrer" target="_blank">regras do jogo</a>.</p>
<p><strong>Quando ocorre a pandemia no jogo?</strong></p>
<p>A pandemia começa quando alguém tira os dados com números iguais e dura a soma dos números dos dados. Assim, se alguém tirar 6 nos dois dados, serão doze rodadas de pandemia.</p>
<p>Se durante o estado de pandemia, alguém tirar novamente dados com números iguais, é considerado como sendo uma segunda onda de contágio, e o número tirado é somado ao número de rodadas. </p>
<p>Para se livrarem dos efeitos da pandemia, os jogadores têm duas opções:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Pagar e/ou dar terrenos (com imóveis) no valor total de $ 4000 pela vacina. O valor pode ser pago por vaquinha. Só beneficia quem topar pagar, e a vacina poderá ser vendida para os outros pelo preço que quiser.</li>
<li>Pagar $ 3000 pela cloroquina: o jogador ou jogadores que toparem pagar jogam com um dado só até acabar a pandemia. A cloroquina pode ser negociada livremente com os outros.</li>
<li>Pagar $ 2000 pela ivermectina: até o fim da pandemia quem comprar o remédio não sai do lugar se tirar número ímpar ao jogar com um só dado, por conta da diarreia que o remédio causa.</li>
<li>Os valores podem ser obtidos por meio de hipoteca. Mas o resgate dos imóveis será com um acréscimo de 20% do valor hipotecado e de 50% para o jogador que causou a pandemia (o primeiro que jogou os dados com números iguais).</li>
<li>Por fim, a eficácia da vacina só dura até a próxima vez em que alguém tirar dados com números iguais.</li>
</ul>
<p>Quem não quiser ou não puder pagar a vacina nem os remédios, sofrerá os efeitos da pandemia até acabarem as rodadas previstas. Vamos a eles.</p>
<p><strong>Cartas SORTE-REVÉS.</strong></p>
<p>Sorte numa pandemia? HAHAHAHAHA&#8230;Durante o estado de pandemia, paga-se o valor das cartas SORTE e o dobro do valor das cartas REVÉS. </p>
<p>No caso, as cartas “vá para a prisão” e “habeas corpus” se transformam em “Vá para a hospital” e “Assintomático”, na qual o jogador evita a internação.</p>
<p>Títulos de posse</p>
<p>Para quem tem o jogo normal (há a <a href="https://www.estrela.com.br/banco-imobiliario-jr/p" rel="noopener noreferrer" target="_blank">versão Junior</a> só com empresas), a pandemia afeta o valor das propriedades (e de seus imóveis) da seguinte forma:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>A cor dos terrenos segue as cores das faixas do <a href="https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/07/PlanoSP-apresentacao.pdf" rel="noopener noreferrer" target="_blank">Plano São Paulo</a> (Vermelho, Laranja, Amarelo, Verde e Azul). Como no jogo há terrenos de cor roxa, essa é a pior situação de todas, pois roxo me faz lembrar de cadáveres em decomposição.</li>
<li>Dessa forma, durante a pandemia, os pagamentos de aluguéis e imóveis ocorrem da seguinte forma:
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Terrenos da cor Roxa: o dono desses terrenos (com ou sem imóveis) não recebe nada. </li>
<li>Terrenos da cor Vermelho: 20% do valor</li>
<li>Terrenos da cor Laranja: 40% do valor</li>
<li>Terrenos da cor Amarela: 60% do valor</li>
<li>Terrenos da cor Verde: 80% do valor</li>
<li>Terrenos da cor Azul: 100% do valor</li>
</ul>
</li>
</ul>
<p>Em relação a companhias, as seis existentes no jogo serão afetadas da seguinte forma:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Força e Luz: o valor triplica</li>
<li>Água e Saneamento: o valor dobra</li>
<li>Petrolífera: valor pela metade</li>
<li>Mineração: valor pela metade</li>
<li>Créditos de Carbono: valor dobra (isso é tão&#8230;geração Z)</li>
<li>Ponto.com: valor triplica</li>
</ul>
<p>Construção nos terrenos:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Durante a pandemia, só poderão construir casas e hotéis quem tiver terrenos da zona verde e azul.</li>
<li>Quem tiver terrenos na zona roxa, vermelho e amarelo não poderão construir nada durante a pandemia. </li>
<li>Somente quem pagou pela vacina ou pelos remédios poderá construir nas zonas proibidas. Mas o preço de cada casa e hotel será 50% mais caro para quem comprou um dos remédios.</li>
</ul>
<p>Empréstimos:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Durante a pandemia, na primeira vez que o peão cair em qualquer terreno ou companhia de sua propriedade, receberá o valor correspondente ao aluguel do banco como empréstimo para ver se sobrevive durante a pandemia.</li>
<li>Porém, nas vezes seguintes em que cair em qualquer outro terreno ou companhia de sua propriedade, terá que pagar o aluguel correspondente ao banco como parcela do empréstimo contraído na primeira vez, independentemente de ser muito maior do que o valor do empréstimo original. Para ficar mais parecido com as taxas de juros que os bancos praticam.</li>
</ul>
<p>Casa Início</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Em condições normais, sempre que o peão passar pela casa início, recebe-se o pró-labore de $ 200. </li>
<li>Durante a pandemia, o pró-labore vira ajuda do governo, e o peão recebe $ 6 a cada passagem. </li>
</ul>
<p>Casas Receita Federal e Restituição do Imposto de Renda</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Na casa Receita Federal, paga-se o dobro do valor indicado no tabuleiro.</li>
<li>O campo Restituição&#8230;precisa falar o que acontece? Ok, sem restituição.</li>
</ul>
<p><strong>Detenção</strong></p>
<p>Durante a pandemia, a detenção vira internação.</p>
<p>A casa no tabuleiro “entre no camburão e vá para a detenção” passa a equivaler a “entre na ambulância e vá para o hospital”. </p>
<p>Quem pagou pelos remédios para se livrar da pandemia, também vai para o hospital. Quem mandou não seguir a quarentena e continuar jogando?</p>
<p>Livra-se da internação:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Quem pagou pela vacina nem vai para o hospital, enquanto durar sua eficácia.</li>
<li>Quem tiver a carta “habeas corpus” será considerado doente assintomático. Porém, ficará 14 rodadas sem jogar, em observação no hospital.</li>
</ul>
<p>Formas de ter alta:</p>
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Na primeira tentativa de sair do hospital, o peão sai do hospital se tirar mais do que seis (contando os dois dados). Caso tire menos que seis (contando os dois dados), vai para o respirador.</li>
<li>Para sair do respirador, o peão terá que tirar mais do que nove. Caso não consiga sair nas próximas duas tentativas, restam duas possibilidades:
<ul class="uk-list uk-list-bullet">
<li>Pagar $ 1000 por nova dose de cloroquina (independente de ter pagado da primeira vez) e jogar durante o resto da pandemia com um dado apenas. No caso, o pagamento tem que ser em dinheiro e/ou em companhias, pois o hospital não aceita terrenos.</li>
<li>Se não tiver dinheiro nem companhias, resta tentar a sorte na UTI. Se não conseguir tirar mais do que dez nos dados em três tentativas, o jogador morre, $ 1000 do seu espólio vão para o banco (custos com ITBI, inventariante, etc), e o restante poderá ser dividido entre os demais jogadores.</li>
</ul>
</li>
</ul>
<p>Quem sabe colocar essas regras no jogo ensinem um pouco de resiliência divertindo? Tem espaço para colocar muito mais regras sem descaracterizar o jogo. </p>
<p>Nesse sentido, um outro jogo interessante para aplicar essas regras seria o jogo da Vida.</p>
<p><strong>Por: Suellen</strong></p>
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		<title>Covid-19, 2020, 2021, 2029, 2038, 2050</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2020 19:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Covid-19, 2020, 2021, 2029, 2038, 2050 A partir do pressuposto que os leitores daqui estejam em uma posição privilegiada se considerarmos o restante da população, devemos agora [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Covid-19, 2020, 2021, 2029, 2038, 2050</h2>
<p>A partir do pressuposto que os leitores daqui estejam em uma posição privilegiada se considerarmos o restante da população, devemos agora reservar tempo para estratégias e planos de resiliência a fim de nos preparar para os potenciais impactos prolongados do novo coronavírus, a fim de que sirva como aprendizado para uma segunda onda de contaminações ou mesmo uma pandemia nova.  <span id="more-16841"></span></p>
<p>Isso não será novidade para a humanidade, nem deveria ser, como podemos ver no que ocorreu depois da gripe espanhola:</p>
<ul>
<li>Gripe Asiática (1957): 2 milhões de mortos</li>
<li>Gripe de Hong Kong (1968): 1 milhões de mortos</li>
<li>SARS (2003): 810 mortos apenas, mas nem mesmo o prejuízo estimado de 40 bilhões de dólares em prejuízos animaram investimentos em busca de uma vacina que poderia estar pronta ou quase agora.</li>
</ul>
<p>O impacto dessa epidemia nos forçará a desacelerar o ritmo, e aprender a se tornar autossuficiente e consciente. O pensamento de projetos futuros se torna vago, à medida em que a cada dia questionamos cada aspecto de nossa vida que conhecemos desde o nascimento e somos obrigados a considerar sua possível morte.<br />
Mas a psique humana é resistente e espera se as coisas vão se dissipar por si mesmas, enquanto mantemos nossos hábitos e compromissos regulares. Só que agora a parada súbita em tudo isso pelo vírus tira as decisões fora de nossas mãos e só vai apressar uma definição em um ritmo assustador.</p>
<p>De qualquer forma, entendemos que medidas objetivas possam ser tomadas enquanto nos encontramos em adaptação para essa pandemia e para as próximas que vierem, que podem nos atingir lá na frente quando estivermos mais vulneráveis.</p>
<p><strong>Familiares: gerenciar os familiares será crucial.</strong></p>
<p>Além da questão de adoecer, você ou as pessoas ao seu redor poderão ter que sair de casa para evitar passar doenças para os demais familiares em virtude do seu trabalho. </p>
<p>Nesse sentido, planejamento para quaisquer ausências, particularmente em papéis críticos, será importante: (a) Instruir as pessoas de casa para realizar a função de qualquer um que tenha que se ausentar, por opção ou por conta da doença; (b) Abrir uma conta corrente conjunta ou deixar as senhas necessárias para realizar pagamentos, saques e transferências é uma alternativa; e (c) fazer uma lista de pessoas com as quais possa contar e o que cada um poderá oferecer de ajuda. E pegue o contato dessas pessoas e, na eventual falta dessas pessoas, de outras como back-up.</p>
<p>Como disse anteriormente, um colega da minha equipe caiu doente de Covid-19 e a esposa também desconfiava estar doente. Como a família toda de ambos era do Rio, em desespero o colega chamou a irmã para cuidar do filho pequeno do casal aqui em São Paulo. Contudo, a irmã se recusou a vir e correr o risco de ficar doente também.</p>
<p>No limite, me ofereci para cuidar do menino, mas a esposa do colega preferiu esperar a cura do marido. Um dia depois da alta do colega, a esposa foi internada com Covid-19. Por sorte, não precisou ir para a UTI. Caso ambos tivessem ido para a UTI ao mesmo tempo, não teria ficado sabendo o que teria se passado, e o filho pequeno do casal poderia ter passado por apuros. É algo que me deixou sem sono por alguns dias.</p>
<p><strong>Prevenção: Prepare-se para lidar com todo tipo de interrupção</strong></p>
<p>Não dá para enumerar todas as perturbações decorrentes de pandemia para cada família. Fiquemos com duas situações: ser desprovido de meios para dar conta das necessidades e ter que se preparar para lidar com um aumento repentino de suas responsabilidades. </p>
<p>No caso de ser desprovido, monte uma reserva financeira não só para passar de um trimestre a um ano sem renda como também para fazer frente a despesas tais como as funerárias suas e/ou de seus familiares eventualmente vítimas dessa pandemia, para que você ou outra pessoa possa fazer frente aos pagamentos sem passar por ainda mais desgastes e problemas futuros. Um seguro de vida e/ou um VGBL ou PGBL para os dependentes que preveja pecúlio e/ou pagamentos mensais também não faria mal. </p>
<p>Isso deve ser incutido em cada um independente de ser adolescente ou jovem, pois o jovem de hoje pode ser o mais velho a ter passado por essa situação numa próxima pandemia. Ou o único, e experiência prévia vai ajudar os outros.</p>
<p>Por outro lado, terá que aprender a dar conta do aumento repentino de suas responsabilidades. Qualquer um poderá ser ver obrigado a assumir as responsabilidades delegadas para a diarista, a empregada, a escola em tempo integral, e/ou por ter sido alijado da ajuda dos pais ou do cônjuge de forma temporária ou permanente. E ter que conciliar essas responsabilidades com o teletrabalho (ou não) pelo tempo que a pandemia determinar. </p>
<p><strong>Saia do grupo de risco</strong></p>
<p>Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estimou que mais da metade da população adulta brasileira está no grupo de risco da Covid-19. São 86 milhões de pessoas que apresentariam ao menos um dos fatores que pode aumentar o risco de complicações, caso haja contaminação pelo coronavírus, dos quais 9% teriam até três fatores de risco.</p>
<p>Se considerarmos como grupos de risco idosos (acima de 65 anos), portadores de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, doenças respiratórias crônicas (em particular doença pulmonar obstrutiva crônica), câncer e doenças cerebrovasculares (acidente vascular cerebral &#8211; AVC), obesidade, asma, tabagismo, doença renal crônica, quase todos podem ser debelados ou mitigados com hábitos saudáveis antes, durante ou depois da pandemia. Antes, não ligar para a saúde poderia matar sua mãe, seu parceiro ou você mesmo de vergonha. Agora pode mata-los. </p>
<p><strong>Incorpore hábitos</strong></p>
<p>Outro dia, assisti uma reportagem em que agentes públicos da saúde haviam detectado traços do coronavírus no esgoto em Niterói. Diante disso, o que já é provavelmente feito por conta do Covid-19 deve se tornar uma medida permanente: deixar os sapatos do lado de fora de casa. </p>
<p>Afinal, não há nada mais anti-higiênico do que chegar em casa e pisar no tapete com o mesmo sapato de que veio da rua. E, nesses tempos de pandemia, mesmo sentar-se no sofá com a roupa de que veio da rua (Nesse ponto, ainda não consegui pensar em alguma solução socialmente aceitável para lidar quando for permitido receber visitas. Capa lavável no sofá?). </p>
<p>Outra coisa interessante para esses tempos de isolamento, caso eles voltem, é algo familiar aos descendentes de japoneses: Radio Taiso. É uma rotina matinal composta por uma série de exercícios de alongamento, feito em empresas e escolas em todo o país antes de começar as atividades. Tem vários exemplos de exercícios no YouTube.</p>
<p><strong>Animais e cidades combinam? </strong></p>
<p>A hipótese mais forte é que o Covid-19 seja uma zoonose surgida de um mercado em Wuhan, onde vende carne de pangolins (um bicho horroroso que lembra um tamanduá). Afinal, pesquisadores na China encontraram um vírus em pangolins cujo sequenciamento genético é 99% idêntico ao do coronavírus atual. A suspeita principal é de que o vírus, originalmente, estava hospedado em morcegos e depois chegou aos pangolins. </p>
<p>Diante disso, o bom senso manda banir a prática de ir a um mercado, ou uma feira, escolher o animal para ser abatido e levado fresco para casa. Pensava que isso era uma prática dos tempos da minha mãe. Ou que, se ainda houvesse, estaria relegada às periferias e cidades menores do interior. Mas lembro que, uns cinco anos atrás, havia uma loja em que você poderia escolher a galinha caipira de sua preferência ou ovos ainda sujos de bosta perto da Estação Marechal Deodoro do metrô, no bairro de Santa Cecília.</p>
<p>Mas não se trata apenas de separar o público dos animais vivos e as pessoas que vendem e abatem esses animais. Muito menos pregar o veganismo. Por conta das zoonoses se mostrarem cada vez mais perigosas, temos que admitir a possibilidade de que animais e cidades simplesmente não combinam. Ainda mais cidades densamente populosas como São Paulo e Rio. Moramos cada vez mais apinhados, em moradias cada vez menores no geral, e muita gente cria bicho em casa (até gato e cachorro). </p>
<p>Nessas horas, fico pensando se uma combinação de animais exóticos, consumidos ou tratados como gente da família, com uma população urbana cada vez mais densa, poderia nos jogar em cima de um barril de pólvora, independente da origem do problema ser uma cidade lá nos confins da China ou não. </p>
<p><strong>Viagens </strong></p>
<p>Com o dólar prestes a passar de R$ 6, viagens internacionais ficarão fora dos planos da maioria das pessoas. Será mais barato viajar localmente e mais seguro, se considerarmos o risco de outro surto de Covid-19 e/ou de um outro vírus nos deixar presos no exterior porque os voos foram cancelados. E também caso nos tornemos de fato o epicentro da Covid-19, ser brasileiro acabar sendo motivo para quarentenas forçadas para onde quer que você queira passear.</p>
<p>Viajar localmente não implicará necessariamente em ganhos para empresas de ônibus, se levarmos em conta o medo de se contaminar dentro do veículo até chegar no destino final tanto quanto a desconfiança de pegar um voo pelos mesmos motivos. Sobretudo se considerarmos que os ônibus agora têm janelas vedadas por conta do ar-condicionado. E em um espaço mais confinado do que um avião. Resta o carro. Pode ser mais apertado do que um ônibus, mas ao menos as janelas podem ainda ser abaixadas e podemos ter um maior controle de quem anda nele. </p>
<p>Quanto a cruzeiros, sinceramente, nesse curto prazo, falta coragem depois do que aconteceu com o navio Diamond Princess, que se tornou uma colônia de férias do coronavírus ao chegar ao Japão para realizar quarentena. </p>
<p>Por outro lado, viagens a trabalho poderão perder muito do seu sentido com a disseminação das tecnologias de que muitos já desfrutam para realizar o teletrabalho, por conta dos custos que envolvem organizar e participar de reuniões e outros eventos presencialmente, sobretudo no período de recuperação econômica após a pandemia. Nesse sentido, verifica-se o benefício adicional dos webinars e cursos online, muitos dos quais permanecem disponíveis para quem não pôde assisti-los. </p>
<p>Por fim, conselhos oficiais de viagem podem mudar à medida que uma pandemia se espalha, o que significa que planos de viagens precisarão ser ajustados rapidamente. Nesse sentido, deve-se também considerar os riscos potenciais relacionados a quaisquer visitantes que chegam de áreas infectadas, o que pode fazer com que, por exemplo, parentes que moram em outros países serem forçados a passar mais tempo na sua casa impedidos de voltar para lá por um bom tempo devido à suspensão de voos.</p>
<p><strong>Transporte urbano: considere a bicicleta</strong></p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/descon-covid19-002.jpg" alt="" width="325" height="215" class="alignleft size-full wp-image-16844" srcset="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/descon-covid19-002.jpg 325w, https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/descon-covid19-002-300x198.jpg 300w" sizes="(max-width: 325px) 100vw, 325px" />No Japão, um número crescente de trabalhadores tem utilizado a bicicleta para evitar ambientes fechados e, consequentemente, a propagação do novo coronavírus no país. Se olharmos a foto ao lado, dá para entender o motivo. Não há higiene que resista. E ainda queriam realizar as Olimpíadas nesse ano.</p>
<p>Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas nessa semana implantou o rodízio alternando os carros com letra par e os com letra ímpar para tentar impedir o maior fluxo de veículos. Só que se esqueceu de consultar o secretário estadual de transportes. Resultado: tal qual ocorreu em Tóquio, houve um aumento de demanda suficiente para colocar em dúvida a efetividade da medida já no primeiro dia, pois as companhias de transportes não disponibilizaram o nível de serviço de tempos normais para diluir o número de passageiros por viagem.</p>
<p>Dificuldades à parte, entendo que aqui haveria dois benefícios: (a) profissionais da área de saúde afirmam que um nível adequado de exercício é essencial para otimizar o sistema imunológico e (b) sendo uma maneira de locomoção solitária, andar de bicicleta seria uma ótima opção para evitar contato próximo com outras pessoas, a fim de diminuir o risco de trazer doenças para os colegas de trabalho e do caminho do trabalho para dentro de casa. </p>
<p>Assim como o teletrabalho se mostrou algo para ser continuado no futuro, caso houver uma adoção maior, fica a esperança de as empresas oferecerem condições para quem optar por vir de bicicleta, seja oferecendo uma ajuda de custo para quem alugar bicicleta para vir trabalhar, seja oferecendo mesmo duchas para quem chegar poder tomar banho e livrar-se dos germes e vírus que eventualmente trouxer do trajeto (algumas já oferecem). Fora a criação de empregos diretos e indiretos a partir da prestação de serviços a esse público.</p>
<p><strong>Conclusão: Pandemias s(er)ão nossa realidade, se já não deveriam ser.</strong></p>
<p>Sendo otimista por natureza, resta esperar que, enquanto tomamos as medidas que pudermos tomar, as prioridades mudem e, quem sabe, daqui a uns 10, 20 anos, apareça  alguma (s) vacina(s) que nos livre(m) da Covid-19, da gripe aviária, da gripe suína, do(s) coronavírus, o que for, assim como conseguimos nos livrar da varíola, da pólio, do sarampo. </p>
<p>Mas a vacina pode nunca sair, seja por mutações do vírus tornarem a tentativa inviável (um laboratório do governo americano na cidade de Los Alamos já detectou 14 mutações do coronavírus), seja pelo fato dos protótipos de vacina não sanarem o problema do excesso de resposta do sistema imunológico (como ocorreu na desistência de achar uma vacina para a dengue).</p>
<p>Diante desse quadro, é preciso agir e se comportar como se tivesse pegado a Covid-19 e como se fosse obrigado a conviver com essa condição para sempre. Você poderá ter que lidar com essa situação novamente não se sabe por quantos meses ainda, e novamente daqui a uns meses, um ano, dez, ou mesmo trinta, quarenta anos. Ou nunca mais. Mas, pelo menos, a situação agora certamente lhe trará resiliência e criatividade para lidar com outros problemas ‘menores’.</p>
<p>Não é uma questão de ter medo da morte, mas sim temer matar alguém. Ou várias pessoas. Afinal, meu colega estima ter contaminado pelo menos 10 pessoas, dentre familiares, colegas de trabalho, a doméstica e a diarista que trabalhavam em suas casas, bem com familiares das duas.</p>
<p><strong>Por: Suellen</strong></p>
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		<title>Relatos do Covid-19</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2020 19:00:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Relatos do Covid-19 Já que Sally deu uma da Carmen San Diego e se refugiou em algum lugar sério e civilizado, segue um relato do que tenho [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Relatos do Covid-19</h2>
<p>Já que Sally deu uma da Carmen San Diego e se refugiou em algum lugar sério e civilizado, segue um relato do que tenho lido, visto e ouvido sobre a Covid-19 desde 14 de março, quando começou a quarentena para muitos de nós aqui em São Paulo.</p>
<p><i>Disclaimer: não sou profissional da saúde. Apenas calhei de conhecer diversos profissionais, aqui e no exterior, por circunstâncias pessoais e profissionais. Esse relato é uma coletânea das informações que tenho recebido desde março dessas pessoas. Dada a velocidade das informações, muita coisa já deve ser de conhecimento de todos.</i><span id="more-16785"></span></p>
<p><strong>Enfermeira em um Hospital Público de São Paulo</strong></p>
<p>Tem trabalhado em turnos de 24h, no mínimo, desde que dezenas de colegas e médicos do hospital caíram doentes. Por um lado, culpa alguns médicos e enfermeiros por suas próprias contaminações, em virtude do descaso com a própria proteção, que os levaram a se contaminar, desfalcando a equipe que já estava com poucas pessoas. Por outro, mesmo ganhando pouco, paga do próprio bolso os equipamentos, uma vez que recebe uma máscara para o dia todo e um avental que é tão grosso quanto uma capa de chuva descartável, daquelas baratinhas que são vendidas em estádios. </p>
<p>Teme ter sido contaminada pelos pacientes que cuidou, que chegam em números cada vez mais crescentes da periferia, e teme contaminar a filha de quatro anos, uma vez que o marido, também enfermeiro no mesmo hospital, traz a criança de carro para encontrá-la na troca de turnos, uma vez que nenhum parente quer cuidar de uma criança cujos pais estão continuamente na linha de frente. Recebe bilhetes anônimos pedindo para que ele e a família não usem o elevador ou se mudem do prédio.</p>
<p>Foi avisado que, em 15 de maio, o Governo do Estado iria testar os profissionais de saúde. Policiais e seus familiares já estariam sendo testados. Não sabe se será o teste de sangue ou retirada de amostra do nariz.</p>
<p><strong>Infectologista em hospital público no interior</strong></p>
<p>Avisou um dia antes do anúncio de ontem que hospitais de Campinas e de Jundiaí serão os primeiros a receber pacientes da Grande São Paulo, mesmo sem ter certeza de que poderão ceder leitos no curto prazo. Disse que um dos principais perigos de contaminação está nos perdigotos de quem costuma falar alto, sobretudo quando o uso da máscara ainda não está disseminada. Sugeriu assistir um documentário da NHK para ter noção dos perigos das gotículas (assistam trecho dele abaixo. Por sorte, tinha em inglês).</p>
<div style="width: 480px;" class="wp-video"><video class="wp-video-shortcode" id="video-16785-1" width="480" height="320" preload="metadata" controls="controls"><source type="video/mp4" src="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/video-nhk-corona.mp4?_=1" /><a href="https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/video-nhk-corona.mp4">https://www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2020/05/video-nhk-corona.mp4</a></video></div>
<p>Disse também que houve um mal entendido em relação à doença. Ela não mata por alguma deficiência da imunidade. Pelo contrário, é pelo excesso da reação das defesas do corpo de qualquer um, que mata quem é do grupo de risco por conta da saúde frágil que não agüenta a carga imunológica excessiva. Daí o aparente sucesso de medicamentos supressores para quem sofre de lupus e de moduladores. </p>
<p><strong>Médico do Hospital das Clínicas</strong></p>
<p>Disse que o HC pode dobrar a UTI de 100 para 200, 250 leitos de imediato. O problema é a falta de pessoal especializado, uma vez que o salário é ridiculamente baixo, tendo em vista que o recurso vem de uma fundação. Enquanto isso, hospitais privados de ponta estão com ociosidade beirando os 90%. Entretanto, até o momento, esses hospitais privados acham mais barato ajudar a montar hospitais de campanha do que ceder ao Estado suas vagas de UTI para Covid-19 e eventualmente outras vagas de outras doenças que poderiam ser voltadas para a pandemia. Desconfia que, dada a ociosidade nesses hospitais de ponta, uma vez que a classe média e média alta pode se dar ao luxo de obedecer a quarentena, o paciente que eventualmente for internado seguirá para a UTI mesmo sem necessidade, a fim de maximizar a receita&#8230;</p>
<p>Relatou que nem os estudantes de medicina respeitam o distanciamento social. Ficam juntinhos, sem máscara e trocando perdigotos. Colegas infectologistas o informaram que até que surja uma vacina, a curva pode até ser achatada nesse primeiro momento, mas seguirá quicando. A questão é se vai quicar mais alto ou mais baixo, a depender da consciência da população. Disse que o maior perigo de contágio está na hora de tirar a máscara, da insistência em ajustá-la ao longo do dia.</p>
<p><strong>Enfermeiro em UBS na Zona Sul de São Paulo</strong></p>
<p>Relata que, na região da sua UBS, famílias inteiras estão sendo dizimadas, casa a casa, nas periferias. Recentemente, caiu vítima da falta de critério na aplicação de exames. Chegou no pronto socorro, com indícios de Covid-19, e foi apurada baixa saturação de oxigênio (86%). Contudo, como o teste deu negativo, foi mandado para casa. Voltou depois, e teve que ser internado. Ao receber alta, soube dos colegas que a qualidade do teste era ruim. Houve muito mais pessoas que, como ela, foram testados negativos num dia, para, nos dias seguintes, voltar para ser entubado, contaminando familiares e amigos nesse meio tempo. Posteriormente, o protocolo foi modificado e pessoas com baixa saturação de oxigênio não foram mais liberados dessa forma&#8230;</p>
<p><strong>Pediatra da família</strong></p>
<p>Agradeceu a quarentena imposta pelo Doria, pois acabou com o surto costumeiro de influenza que assolam as escolas tradicionalmente nessa época do ano, o que teria exacerbado ainda mais o problema. Afirmou que colegas médicos desconfiam que a combinação influenza-corona seriam o prego no caixão para pessoas até então saudáveis, fora do grupo de risco, e que fazem também uso de corticóides no tratamento do Covid-19 para evitar infecções oportunistas.  </p>
<p><strong>Dono de mercado na Liberdade.</strong></p>
<p>Dono de mercado no bairro da Liberdade aqui em São Paulo viajou para o Nordeste para passar férias com a família. Além de muito provavelmente contaminar familiares que foram juntos, contaminou funcionários e talvez clientes. Uma das funcionárias é mãe de dois conhecidos meus, e foi para direto para a UTI. Em relação a clientes, não dá para saber quantos foram contaminados e, a partir destes primeiros, quantos outros mais teriam sido contaminados, uma vez que o mercado fica na boca do metrô Liberdade e próximo à praça da Sé, local de encontro de duas linhas de metrô que ligam a cidade de norte a sul e leste a oeste. O restaurante ao lado fechou as portas.</p>
<p><strong>Enfermeiro em hospital público no extremo da zona leste (região mais pobre da cidade)</strong></p>
<p>Disse que a moral dos médicos e dos enfermeiros está caindo a cada caso de colega contaminado, e que muitos médicos e enfermeiros cogitam largar a carreira, sobretudo os enfermeiros. “Uns cogitam prestar outros concursos públicos ou mesmo ir trabalhar em qualquer outra coisa, pelo que ganham para enfrentar o perigo”, afirmou.</p>
<p>No hospital em que trabalha, tem presenciado às seguintes situações de pessoas que demoraram para ir ao hospital quando começaram a sentir falta de ar:</p>
<p>(a)	Em muitas, o pulmão virou um bloco de concreto e aí ficava difícil esperar que o respirador desse jeito em um órgão que perdeu praticamente a capacidade de se expandir<br />
(b)	Pode ocorrer que a anatomia da sua garganta possa dificultar ou mesmo impedir a entubação. Um médico de 31 anos desse hospital morreu justamente por conta dessa impossibilidade. Nem mesmo os profissionais mais experientes conseguiam entubá-lo e, antes que cogitassem outras alternativas, o coração parou de bater&#8230;</p>
<p><strong>Colega de trabalho acometido pelo Covid-19</strong></p>
<p>Classe média-alta, contra isolamento, mais preocupado com a economia, ele e outro punhado de colegas optaram por continuar a ir trabalhar, sem máscara. Isso porque acharam que quem optou pelo teletrabalho ficaria impedido de mudar as férias que fossem consumidas pela quarentena (na verdade, isso se aplica a todos). Três semanas depois, começou a ter os sintomas da Covid-19, mas relutou em ir ao hospital. Taquei o terror no infeliz citando os exemplos do parágrafo anterior do que poderia acontecer com ele caso continuasse a ficar enrolando. </p>
<p>Chegou no hospital e exames mostraram que 60% do pulmão já havia sido tomado e saturação de oxigênio caindo. Foi direto para a UTI. Recebeu um coquetel de remédios com a tal da cloroquina, combinado com corticóides para evitar as infecções. </p>
<p>Presenciou a falta de funcionários no hospital, ao ver gente novata sendo treinada para trocar o pneu do carro andando. Resultado: soube que um ou outro novato acabou contaminado, levando junto o profissional que o treinara. Também viu pessoas prometidas para alta piorarem o estado e seguirem internadas. Assim como gente morrendo do nada.</p>
<p>Passou 10 dias na UTI e mais alguns dias no quarto. Ainda está ofegante. A infectologista do hospital em que ficou internado (de ponta) admitiu que não conseguiram ainda firmar um protocolo e que cada médico está usando medicação no empirismo. Uma médica conhecida nossa que está na Europa confirmou essa situação por lá.</p>
<p>Pelo menos um dos outros colegas que, com ele, seguiram trabalhando pessoamente, pegaram a Covid-19, mas, por serem jovens, não tiveram maiores problemas e se recuperaram rapidamente.</p>
<p><strong>Médico infectado no começo de março</strong></p>
<p>Médico conhecido nosso, intensivista (que trabalha em UTI), foi internado antes do Carnaval com Covid-19 quando atendia em seu hospital pacientes idosos, enviados pelo plano de saúde especializado neles (e em cujo hospital, uma enfermeira de 34 anos teria morrido de Covid-19 no começo da pandemia, de acordo com mensagens recebidas de grupos de médicos). Já em fevereiro, notara que esses idosos começaram a morrer sucessivamente de problemas respiratórios. Quando ligou os pontos, caiu doente. Está com uma enorme dor de consciência, por ter participado de uma festa na escola dos filhos, e teme ter contaminado pais e avós dos coleguinhas.</p>
<p>Disse que o infectologista que o atendeu o informou que chega a ser uma loteria quem pega ou não. Na própria família desse médico, além dele, a esposa e os dois filhos menores se contaminaram, mas a filha mais velha segue com exames dando negativo. Logo farão nova rodada de testes.</p>
<p><strong>30 de abril de 2020.</strong></p>
<p>Sigo em contato com essas pessoas. Com exceção do dono do mercado, todas seguem vivas. Outras podem não estar, pois cogitaram suicidar-se.</p>
<p><strong>Por: Suellen</strong></p>
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		<title>Gêneros Musicais &#8211; Outros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Oct 2019 20:00:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor Convidado]]></category>
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					<description><![CDATA[Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com. Tio Ge explica – gêneros musicais 6 – Outros Gêneros Finalizando essa série de textos sobre os gêneros musicais, hoje comento aqui sobre os vários outros gêneros [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-default uk-card-body"><strong>Desfavor Convidado</strong> é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href="mailto:desfavor@desfavor.com">desfavor@desfavor.com</a>.</div>
<h2>Tio Ge explica – gêneros musicais  6 – Outros Gêneros</h2>
<p>Finalizando essa série de textos sobre os gêneros musicais, hoje comento aqui sobre os vários outros gêneros existentes por aí e que não foram contemplados, ou não se encaixam, enquanto subgêneros e vertentes dos outros gêneros anteriormente comentados. <span id="more-15843"></span></p>
<p>A começar pela pimba: gênero musical português por excelência, é a tal da música “brega” portuguesa, parecido com o que a gente tem por aqui com Reginaldo Rossi e Sidney Magal. As letras quase sempre tem tom de humor, jogos de sentidos, ou conotação sexual. É um gênero pobre em termos de estruturação harmônica e arranjo. Segue o clichê do pop de sempre V-I-IV-II com algumas poucas variações, uma linha de baixo bem ritmada (não é o groove do blues, mas algo que produz ritmo contagiante, feito pra dançar), um violão, vocal e 3 backs vocais, e acordeão. Vez por outra também aparece algum teclado aqui ou ali, mas não é regra. Representantes desse gênero são Quim Barreiro (“A cabritinha”, “eu comi a sobra”, entre tantas outras são pura poesia! Busquem por conta própria no youtube!), Emmanuel, Ruth Marlene, Tony Carreira, Jose Malhoa, e Nel Monteiro.</p>
<p>Ainda em relação a Portugal, tem também o fado. Há toda uma história desse gênero a ser contada, bem como várias vertentes (fado corrido, fado vadio, fado menor, fado Lopes&#8230;), mas, bem resumidamente, o essencial consiste em alguns versos de origem popular sendo acompanhados de alguns poucos acordes no violão, na viola ou mesmo no bandolim e guitarra portuguesa. As letras são quase sempre tristes, melancólicas, e expressam algo de saudade, melancolia e dor da alma portuguesa. </p>
<p>Alguns fados são bem elaborados, respeitando uma métrica rígida com decassílabos, alexandrinos, quintilhas e sextilhas; e ainda existe uma relação entre a metrificação poética e onde cai o acorde específico e em qual sílaba. Quanto ao instrumento, adendo interessante: há a preferência pela guitarra portuguesa que é afinada em ré ou dó (afinação de Lisboa e de Coimbra), diferentemente da inglesa que é afinada em mi. Quanto ao arranjo, não há nada de virtuoso aqui: são poucos acordes, quando muito três, passeando pelo I, V e VI graus. Não há cadências, modulações ou retornos aqui. </p>
<p>Outro adendo interessante, já aproveitando para comentar sobre outro gênero: a modinha. O fado aparece lá no século XIX em Portugal, e tem influência direta da modinha, que é outro gênero que data lá do século XVII. A ideia, bem resumidamente, é pegar as canções de amigo, de escárnio e de maldizer, lá da época medieval, e “musicalizar” os versos com algumas notas no violão. A coisa deu certo, e pegou de tal modo que veio parar aqui no Brasil nos anos seguintes. A modinha é carregada de amorosidade, lirismo e doçura. Também tem um arranjo simples, para não dizer monótono, com um ou dois acordes sendo repetidos incessantemente no violão. </p>
<p>Aqui no Brasil, a modinha vai dar origem ao “chorinho”, gênero que também influencia o samba no final do século XIX. A ideia do chorinho é justamente algo que “chora”, que lamenta, e isso é expresso tanto nas letras quanto na célula rítmica desenvolvida pelo violão, e também nas longas escalas floreadas que são utilizadas nas flautas, dando a ideia de que algo está “caindo”.</p>
<p>Já em Portugal, no século XIX, a modinha tem uma ligeira influência da ópera italiana, chegando a ter frolattos, gruppetos, trillos e toda virtuosidade que a ópera exige da técnica vocal. Há quem critique isso e diz que a modinha portuguesa não deveria ser pretensiosa a utilizar essas virtuoses, há quem diga, por outro lado, que isso foi responsável por criar certo estilo de ópera portuguesa, mas que durou pouco tempo. </p>
<p>Falando em gêneros genuinamente brasileiros, vamos a alguns deles: Axé. Esse é um gênero que, assim como o blues, é uma mistura de tudo: tem influência do frevo (aquele estilo de dança típico de Pernambuco que as pessoas dançam pulando com guarda-chuvas coloridos), do merengue e até do reggae, e ainda incorporam elementos percussivos africanos, tudo isso misturado com a estrutura clichê do pop V-II-VI-VII. Conta a história que, na década de 1950, Dodô &#038; Osmar resolveram tocar o frevo pernambucano em cima de um carro Ford 1929, e assim nasceu o trio elétrico, principal atração do carnaval baiano. Aliás, a história do axé está intimamente ligada com o carnaval na Bahia, mas ao que parece, o que fica mesmo na memória popular é o boom do axé nos anos 90 com bandas do tipo É o Tchan e Banda Beijo, Netinho, Banda Eva, entre tantos outros.</p>
<p>Axé, na cultura africana, especificamente no candomblé e umbanda, é uma saudação religiosa que designa energia positiva. O termo, na verdade, foi cunhado pelo jornalista Hagamenon Brito, em 1987. Então, em termos de arranjo, é comum encontrar algo bem ritmado, animado, alegre, com vários elementos percussivos que vão desde o tambor tradicional, o surdo, passando pelo pandeiro e mesmo o berimbau. Geralmente se utilizam tons altos (sol maior, ré maior, lá maior) pra acompanhar os vocais também altos, e, além disso, há também os teclados fazendo algum som sintetizado ou som de piano elétrico, e também a linha dos metais (saxophone, trompete) fazendo algumas notas de passagens entre um verso e outro. </p>
<p>Falando em reggae, vamos a ele rapidinho: esse não é um gênero genuinamente brasileiro, mas bem comum na Bahia e no Maranhão. Aliás, pra quem quiser conhecer, indico o Museu do Reggae Maranhão, em São Luiz, bem interessante! </p>
<p>Reggae, na verdade, é um gênero que surge lá nos anos 1960 na Jamaica. Ele vem derivado do ska, outro gênero também jamaicano. A característica principal aqui reside no uso do tempo em 4/4 (conta-se sempre 1 e 2 e 3 e 4&#8230;) e no uso de “walking-bass” que são os baixos saltados entre oitavas (exemplo: tocar dó-dó-dó-dó rapidamente alternando entre duas oitavas, isso vem lá do jazz, especificamente do boogie-woogie), além de usar riffs típicos do jazz e uso de guitarras ou piano no tempo fraco do compasso. Do ska surge o rocksteady, com os Rude Boy, que eram os jovens marginalizados da Jamaica e que tocavam essa coisa por aí nas ruas num ritmo bem acelerado. Em dado momento dos anos 1960, não dá pra saber com precisão, resolveram passar a tocar o ska num andamento menos acelerado, e enfatizar as linhas de baixo criando grooves, para além do walking-bass. Daí mantém-se a guitarra com efeitos nos pedais (tremolo, wah wah) no contratempo e assim surge o reggae. </p>
<p>Em termos de estruturação harmônica, o reggae é aparentemente simples: ênfase em apenas dois ou três acordes na guitarra (do tipo sol maior e ré maior), com repetição incessante em quase toda a música, sobrando mesmo a ênfase para o groove de baixo. Muito raramente aparecem alguns acordes menores com sétima aumentada, ou maiores com sétima diminuta, mas não passa disso, não há todo aquele virtuosismo harmônico como no jazz bebop. No mais, algumas linhas de metais aparecem, geralmente no modo dórico ou jônio, acompanhando a mesma tonalidade que a guitarra desenvolve seus riffs. Quanto às letras, geralmente dizem sobre crítica social, política, entre outros. Todo mundo lembra de Bob Marley, o maior representante, mas há também Robbie Shakespeare, Al Anderson, Aston Barret, Trippa Irie, Janet Kay, Steel Pulse, UB40’s só pra citar alguns.</p>
<p>Forró: também é outro gênero genuinamente brasileiro, que sofre influência do xote, xaxado e do baião. Enquanto gênero musical propriamente dito, quem marca presença mesmo é o baião. A origem do termo é incerta, já que forró pode significar o diminutivo de “forrobodó”, que em Bantu significa farra, zona, arrasta-pé. Aliás, dado histórico curioso: no nordeste de antigamente havia pistas de barro e elas precisavam ser molhadas para que a poeira não se levantasse. As pessoas, então, dançavam arrastando os pés para evitar que a poeira subisse. Outra história que se conta por aí diz respeito aos engenheiros britânicos que, no século XIX, se instalaram em Pernambuco para construir a ferrovia Great Western, promoviam bailes gratuitos para todos, ou seja “for all” em inglês, e os nordestinos passaram a pronunciar “forró”. Mas essa história parece não conferir, já que o termo que vem do Bantu já existia desde muito antes.</p>
<p>Quanto ao arranjo de instrumentos, o forró “raiz” é bem simples: é tocado com um triângulo, uma sanfona (acordeão ou rabeta), e uma zabumba (uma espécie de tambor). É claro que, com bandas recentes desse gênero a coisa se expande, há o uso de baixo, guitarra, teclados, etc. O andamento é geralmente rápido, animado, e o compasso é em 4/4 (conta-se 1 e 2 e 3 e 4&#8230;). Há a ênfase na zabumba no 1º tempo e o triângulo é sempre sincopado com aquele ritmo do tipo ta-ca-ti-ca-ta-ca-ti-ca&#8230; bem irritante, diga-se de passagem.</p>
<p>Se o arranjo é simples, a harmonia não o é tanto. Geralmente usam-se progressões harmônicas enfatizando o IV e o VI grau, do tipo: I-IV-VI-II-VI-II-IV-VI-VII-I. Reparem que nessa progressão há o retorno para o II grau duas vezes antes do IV grau pra daí concluir em VI-VII-I. Quando não é isso, a sanfona utiliza solos nos modos jônio (equivalente à escala maior melódica, tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom, ou seja: partindo de dó é aquela escala que já comentei, sem nenhum acidente), mixolídio (maior melódica com o 7 grau bemol, partindo de dó fica: dó-ré-mi-fá-sol-lá-sib), lídio (maior melódica com 4º grau aumentado, partindo de dó vou ter: dó-ré-mi-fá#-sol-lá-si) ou dórico (tom-semitom-tom-tom-tom-semitom-tom, partindo de dó vou ter: dó-ré-mib-fá-sol-lá-sib), isso quando não resolvem inventar de utilizar todos esses modos juntos ao mesmo tempo. Resumindo toda essa sopa de letras, o que dá pra dizer é que a característica “especial” do forró e também do baião reside no uso da 4ª aumentada e da sétima diminuta, ou seja, fá sustenido e si bemol. Reparem que, nas músicas de Luiz Gonzaga, as melodias quase sempre usam essas notas na melodia.</p>
<p>Ainda em relação a essa estrutura harmônica que se utiliza dos modos jônio e dórico, dá pra comentar também sobre o sertanejo dito “raiz”, já que ele também utiliza essa mesma estrutura. O sertanejo “raiz”, lá do começo do século XX, utiliza apenas vocais (geralmente um dueto, mantendo uma distância de uma terça menor ou quinta justa entre as vozes), e viola ou violão. Com o passar do tempo é que vão se inserindo novos instrumentos como a sanfona, gaita, violão, guitarras e todo o arranjo de uma banda completa. Existem várias vertentes do sertanejo, o universitário eu já comentei lá no 1º texto quando falei sobre o pop. Mas tem também o sertanejo romântico, que se utiliza de letras românticas e um andamento mais lento, muito popular nos anos 1990; o sertanejo tipo moda de viola, feito pra dançar em bailões, o sertanejo do sul (milonga-fandango-chimarrita), e também aquele sertanejo dito “caipira”, muito comum nos estados do sudeste e centro-oeste, que são usados pra dançar sapateado e catira. </p>
<p>Muita gente comenta ou pergunta sobre uma possível relação entre o sertanejo brasileiro e o country americano. Não há dúvidas que, no decorrer da história, o segundo influenciou o primeiro, mas essa influência não foi tão significativa para o sertanejo se firmar como gênero. O sertanejo “raiz” vem, na verdade, desde o bandeirismo – aquele movimento dos bandeirantes de expansão do estado de SP, já no século XVII. O country, por sua vez, nasce lá nos idos de 1910 nos estados do sul dos EUA. </p>
<p>Eles se diferenciam também em termos de estruturação harmônica: o sertanejo é só isso, intervalos de 3ª ou 5ª nos vocais e uso do modo jônio ou dórico; o country é relativamente mais complexo, com uma progressão mais longa que enfatiza o IV7 (quarto grau com 7ª), o VII e várias escalas ascendentes e descendentes se  utilizando de terças paralelas (exemplo: subir e descer as notas dó-mi-ré-fá-mi-sol-fá-lá&#8230;). O arranjo também tende a se tornar mais complexo, já que usa bandolim, viola, violão, e por vezes guitarras com alguns efeitos de tremolo, disthordo, pull off, etc.</p>
<p>Ainda na categoria gêneros brasileiros, indo para o sul temos: milonga, fandango e chamarrita. São também estilos de dança, para além de gêneros musicais, e ambos se parecem muito um com outro, mas há pequenas sutilezas que os diferenciam, geralmente no que confere ao uso de passos intercalados entre pernas cruzadas, uso dos quadris na dança, e condução da moça, enfim. Enquanto gênero musical propriamente dito, o que fica é o tal do sertanejo característico da região sul. Um bom exemplo tu pode encontrar <a href="https://www.youtube.com/watch?v=LWeoqVwknfc" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a> e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8Wci7e7sJvE" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Nesse tipo de arranjo quem manda é o acordeão: ele que dá a ênfase na melodia e no acompanhamento vocal. Pode até ter violão de aço e de nylon, ou mesmo guitarra e baixo fazendo o acompanhamento, mas não é regra. Quanto à estrutura harmônica, é interessante observar o uso do modo lídio já comentado acima, e o uso do modo jônio ou dórico. Interessante também é o contraste produzido entre o baixo do acordeão, que fica uma terça acima da tonalidade dos violões, e os acordes produzidos por estes geralmente obedecem a intervalos de 4ª (exemplo: dó-fá/ré-sol/mi-lá). </p>
<p>O andamento também merece atenção, já que &#8211; mesmo tendo uma métrica regular, com compasso 2/4 (conta-se 1 e 2 e 1 e 2&#8230;) – são enfatizados alguns tempos fora de métrica, deixando-o sincopado. Exemplo: imagine dividir esse “1 e 2” e contar 1 2 3 4 5 6 7 8. Agora imagine dar ênfase da seguinte maneira: [1] 2 3 4 [5] 6 7 8, sendo o 1 e 5 correspondente ao tempo forte 1 e 2 do compasso 2/4. Ou então: [1] 2 3 [4] [5] 6 [7] 8. O fandango já tem uma dança um pouco mais complexa, geralmente é dançada em grupos, e o andamento é em 3/4, com forte ênfase do bumbo no 1º tempo. Um exemplo tu encontra <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hElm_mwMkSM" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Importante lembrar também que esses gêneros são influenciados pelo tango, que por sua vez é influenciado pela contradança, ou habanera, que é um gênero que vem lá da música erudita no século XIX. Penso que o exemplo mais famoso pra dar no campo do erudito seria a habanera de Carmen de Bizet. </p>
<p>Passando agora aos gêneros dos países vizinhos, ou quase vizinhos: tango. Todo mundo lembra de Argentina quando o assunto é tango, mas ele também existe no Uruguai. Assim como os gêneros do sul do Brasil, tango também é, ao mesmo tempo, gênero musical e de dança. Ele é, bem grosso modo, um derivado da mistura de milonga, habanera e polka europeia. Aqui, e em outros lugares, a gente tende a valorizar o gênero como algo chique, mas lá na Argentina ele não é não. É bem popular, e suas origens também são populares: nasceu no final do século XIX nos prostíbulos de Buenos Aires e Montevidéu. Era dançado naquela época por prostitutas e por imigrantes europeus na rua, em bordéis por aí. </p>
<p>Quanto ao gênero musical propriamente dito, é relativamente simples: compasso 2/4, com aquele tresillo no baixo, e geralmente é tocado em trio de baixo, violino, e bandoneon, que é uma espécie de sanfona bem pequena. Arranjos mais complexos envolvem também violoncelo e cello no meio, mas não passa disso. Quanto à harmonia, ela fica por conta de contrapontos (os violinos ficam uma 3ª de distância dos violoncelos, que por sua vez ficam uma 5ª de distância do baixo), e por conta de um desenvolvimento de um tema melódico nos agudos (violinos) sendo repetidos pelos outros instrumentos (violoncelo e baixo) no decorrer da música, enquanto o bandoneon faz a célula rítmica com progressão harmônica enfatizando o VI grau menor, III e IV graus, seguido às vezes de algum solo. </p>
<p>Na Colômbia (e em menor grau no Panamá, e também no Recife e em Belém) existe a cumbia. A origem do termo é difícil de explicar, existem várias teorias, dentre elas: o nome vem de “cumbague”, que significa prazer, mas também significa aquele cacique forte, de caráter belicoso e audaz; outros dizem que a palavra vem de “cumbancha”, que vem do Congo, e outros ainda dizem que vem de “cumbé” que significa batida, choque.</p>
<p>É um gênero bem interessante, tanto pelo arranjo de instrumentos não muito conhecidos por aí, quanto pela estrutura harmônica. Os instrumentos utilizados são a flauta de milho, flauta de bambu, a gaita “hembra”, e os tambores (respectivamente alegre, tambora e chamador), além de elementos percussivos como maracá e guache, bongo e guizo; e, nas versões contemporâneas, também há metais/sopros (sax, trombone, trompete), violão e guitarra. O detalhe também fica por conta do ritmo e do andamento, que é 2/4, mas não se conta “1 e 2 e 1 e 2&#8230;”, mas sim “e 2 1 – e 2 1 – e 2 1&#8230;”. Isso, em música, se chama “tresillo”. O baixo segue com 3 notas, caindo justamente nesse esquema de “e 2 1”, geralmente algo do tipo fá-sol-dó/fá-sol-dó. Reparem que, partindo de dó, são justamente os graus IV-V-I usados lá no rock. Quanto aos outros instrumentos, é interessante que eles enfatizam os acordes no 3º, 6º e 7º graus. Vários exemplos tu pode encontrar nesse longo vídeo <a href="https://www.youtube.com/watch?v=qMVZ1CGDSdE" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Indo um pouco acima, ali em Puerto Rico, Cuba, Panama&#8230;, a gente encontra o reggaeton. Bem grosso modo, esse gênero é a mistura do reggae com o hip-hop. A estrutura harmônica segue aquela clichê do pop, mas preferencialmente aquela V-II-VI-VII, enfatizando, ou antes, iniciando a música no VII grau (sensível) com a intenção de dar mais dramaticidade ao encadeamento harmônico, já que esse grau pede pra resolver em I (tônico) ou V (dominante). Acrescenta-se aí também algumas poucas cordas (geralmente violão mesmo, quando muito viola e bandolim) utilizando o modo frígio. Quanto ao andamento, da mesma forma que a cumbia, também se utiliza o tresillo com aquela contagem no “e 2 1”. Acho que o melhor exemplo contemporâneo pra dar seria Daddy Yankee com “despacito”.</p>
<p>Um gênero mais ou menos parecido com o reggaeton é o kuduro, mas esse não é exatamente latino. O gênero vem, na verdade, da Angola, desde os anos 1980, e significa, literalmente, bunda dura. A ideia é justamente representar uma dança em que as pessoas mexem freneticamente a bunda. O arranjo é bem rudimentar: compasso em 4/4, com ênfase na caixa alta (som de taff taff taff), baixo em 5as bem saltadinho, e progressão clichê do pop, tipo V-I-IV-II. Melodia simples feita com os vocais e acordeão, ou teclado com algum som sintetizado, e com algumas poucas notas, bem fácil de memorizar, bem “chiclete” e repetitiva. Um exemplo bem contemporâneo disso é aquela famosa “danza kuduro” de Don Omar, que bombou aí alguns anos atrás. </p>
<p>Mudando drasticamente o disco, vamos para o rap e hip-hop: muita gente confunde, e com razão, já que ambos são bem parecidos. Mas, bem resumidamente: hip-hop, em sua origem, tem a ver com toda uma cultura/movimento, que começa lá nos anos 1970 nas comunidades afro-latinas e em NY. Nessa cultura se inclui o rap, o grafite, a dança break, e a música eletrônica que se utiliza de straches e loops, e tem certa influência do UK garage com aqueles bass. </p>
<p>O rap, diminutivo de rythm and poetry, é só isso mesmo: há um mc (mestre de cerimônia) que toma a voz e declama uma poesia (seja ela já anteriormente escrita ou improvisada) em forma ritmada acompanhada de uma batida eletrônica feita por um DJ. O hip-hop, por sua vez, é o gênero um tanto mais complexo que envolve vários elementos da eletrônica (vários loops diferentes), efeitos de transição, baixo bem marcado (geralmente em quintas, mas sem grooves), alguns strings e uma progressão simples do tipo IV-V-I. O problema maior mesmo, e que gera bastante confusão, é que no final dos anos 90 e começo dos anos 2 mil, vários artistas começaram a apelar para algo mais comercial, mais pop, denominando o gênero como hip-hop. E aqui, não faltam artistas para citar: Jay-z, Beyoncé, Ja Rule, Nelly, Ne-Yo, Chris Brown, T-Pain, Akon, Sean Paul, T.I&#8230; </p>
<p>Indo pro outro lado do oceano, mais especificamente em Andaluzia, na Espanha, tem o flamenco. Ele é também um gênero de dança, e está intimamente ligado ao folclore local. Suas origens remontam às culturas Moura e cigana, e sofre influência dos árabes e judeus. Antigamente era só canto, e só depois que começou a ter cordas (violão, viola, alaúde, bandurria), palmas, sapateado e dança. Também é comum ter chocalhos, adufe e castanholas pra apimentar a percussão. Existem os chamados “palos” que são subcategorias do flamenco, e se diferenciam pela estrutura rítmica e pela progressão harmônica utilizada. Só para citar alguns: existe o fandango, farruca, granaína, cartageneras, alegrias, bulerías, caracoles, guajiras, peteneras, entre tantos outros.</p>
<p>O ritmo desse negócio é complexo. Via de regra, os compassos 2/4 e 4/4 geralmente são usados em tangos, rumbas e tientos. Compasso em 3/4 em servillas e fandangos, e o 12/8 em seguirlla, soleas , bulería e alegria. Pra vocês terem ideia, as vezes a contagem de tempo é feita assim: 12 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11, ou assim: 121 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12. Quanto à harmonia, é algo interessante de ser notado também: usa-se predominantemente o modo frígio, o terceiro modo grego, com a fórmula semitom-tom-tom-tom-semitom-tom-tom. Partindo de mi vou ter: mi-fá-sol-lá-si-dó-ré-mi, sem nenhum acidente na escala. Partindo de dó vou ter dó-réb-mib-fá-sol-láb-sib. Esse modo é característico pela 2a e 3a menor, além da 6a e 7a menor, tudo junto na mesma escala.</p>
<p>Além disso, ele também usa a cadência “Andaluzia”, que é uma progressão descendente que usa VIm-V-IV-III ou Im-VII-VI-V. Partindo de dó vou ter: lá menor, sol maior, fá maior, mi maior, ou dó menor, si maior, lá maior e sol maior. É uma progressão que gera aquela coisa de sensualidade e mistério na música espanhola. Um exemplo bem condensado disso tudo tu pode conferir nesse vídeo <a href="https://www.youtube.com/watch?v=svfsqlkhCaE" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Um dos palos derivados do flamenco que é bem conhecido por aí é o merengue. Ele está presente não só no norte do país, como também na Venezuela, Colômbia, Haiti, e até na Angola. A diferença principal está no compasso em 2/4 e baixo bem marcado entre oitavas (walking-bass). Ele também é agitado, feito pra dançar. Na estrutura harmônica não tem nada de diferente, mesma ênfase para o modo frígio. Exemplo dá pra ser encontrado <a href="https://www.youtube.com/watch?v=b9pdK9ZKcmg" rel="noopener noreferrer" target="_blank">nesse vídeo</a>.</p>
<p>Indo pra Cuba, não tem como não lembrar do mambo, gênero latino por excelência, que também é um gênero de dança. A coisa começa lá pelos anos 1950, com Orestes López, e o nome, segundo consta a história, vem da expressão “estas mambo?” que significa, “você está bem?” Em termos de harmonia, ela é relativamente simples, progressão V-II-IV-I, flertando um pouco com elementos jazzísticos, como acordes com 5ª diminuta ou sétima aumentada, mas não passa disso em termos de complexidade harmônica. Em termos de arranjo e ritmo, ele é rápido e animado, dançante, pra cima, e tem um grave acentuado naquele ritmo já comentado de “e 2 1&#8230;”, com ênfase nos instrumentos de metais e sopros, como trompete, trombone e sax, e às vezes tuba. Também tem os vocais, as vezes com 2 ou 3 backs vocais uma quinta abaixo, e os teclados fazendo ou riffs ou algumas notas arpejadas. </p>
<p>Do mambo deriva-se a salsa e o cha-cha-cha. Uma pessoa leiga que ouve pode dizer que ambos os três gêneros são tudo a mesma coisa, mas existem pequenas diferenças sutis entre eles. A começar pelo ritmo e andamento: o mambo é rápido, a salsa é um pouco mais lenta. Além disso, o mambo é mais cadenciado, mesmo com a progressão harmônica simples, enquanto que a salsa é mais “caliente”, mais apimentada. Já o cha-cha-cha se diferencia pelo ritmo sincopado e várias quebras (repiques) no meio da música. O compasso é em 3/4 (contagem 1, 2, 3, 1, 2, 3&#8230;), mas conta-se sempre as tercinas em cada tempo, do tipo tá-tá-tá/tá-tá-tá/tá-tá-tá. Reparem que são 3 grupos de “ta-ta-ta”, um em cada tempo do compasso. Daí a origem que dá nome ao gênero. </p>
<p>Em Cuba também tem a rumba, derivado do flamenco. Ele se difere sutilmente dos outros palos acima comentados por ter um ritmo mais lento, mais suave, embora também seja feito para dançar. A harmonia, embora use o modo frígio, é menos misteriosa que os outros palos. O compasso também é em 2/4, mas em cada tempo do compasso há uma tercina sincopada, daí aquele ritmo do tipo tá/tá-ra-da-tátátátá/ta-da-ta-tátátátá/ta-da-ta-tátátátá&#8230; bem marcado com os guiros, bongos e congas. </p>
<p>Baixando um pouco o ritmo eufórico de todos esses gêneros, ainda em Cuba (e também no Brasil e em todos os países latinos!), temos o bolero. Aqui no pais influenciou fortemente o samba-canção. Ele se caracteriza por ser mais lento, bem do tipo pra dançar agarradinho, e, diferentemente dos vários instrumentos de sopro e da percussão rica e marcada, aqui é mais comum encontrar só violão e piano nos acompanhamentos, poucas linhas de baixo e uma progressão harmônica simples, do tipo II-VI-V-VII-III. Curioso, aliás, como esse gênero dá ênfase aos graus II e VI, causando um efeito de sobretensão (tensão acima do grau dominante), que pede pra resolver em III ou I, e causa um efeito de surpresa no ouvinte. </p>
<p>Ainda em todos os países latinos, próximo da Cordilheira dos Andes, existe a música andina. É um gênero folclórico que tem influência da cultura inca, e a ênfase aqui é a quena, uma espécie de flauta, e a flauta de pã (aquela que não é reta, mas sim horizontal com vários tubos amarrados, de diferentes tamanhos), além do charango e da bandola, que são instrumentos de cordas parecidos com o alaúde. Quanto à harmonia, algo estranho: ênfase no IV e VII grau, embora a progressão seja simples, e a melodia fica por conta do si bemol na escala. Um exemplo tu encontra <a href="https://www.youtube.com/watch?v=68MlDucqWkA" rel="noopener noreferrer" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Na tentativa de fechar esse texto, que já está bem grandinho, comento brevemente sobre as características das músicas de algumas regiões distintas, como a música árabe e asiática. A começar pela árabe, ela é diferentona por si só por valorizar mais a melodia e ritmo do que a harmonia. Não há a preocupação, como nós ocidentais, em ter o arranjo e o encadeamento perfeito entre acordes pra produzir uma harmonia complexa. É bastante comum, aliás, ocorrer performances em que a música é tocada com aceleração e diminuição do ritmo, mas sempre constante, sem parar. O que importa mais é a improvisação utilizando as escalas maquam. Dois gêneros mais comuns aqui são o nubah e o waslat. Mas, só pra ter ideia, existe uma infinidade de gêneros e formas em cada região específica: no Egito encontramos o Al Jeel, o Shaabi, o Mawwai e a Semsemya. Na Argélia existe o Chaabi e o Rai, e em Marrocos existe o Malhun e e o Gnawa; e na Tunísia o mezwed e o mizmar.</p>
<p>Quanto à melodia, ela pode parecer relativamente simples, mas se torna bem complexa já que eles utilizam um sistema tonal diferente de nós ocidentais, composto por 24 microtons. Explico: nós estamos acostumados a esse sistema de 12 notas, sendo 7 tons inteiros e 5 semitons entre os tons inteiros, à exceção de mi e fá e si e dó. Na música árabe é como se entre fá e fá sustenido tivesse mais meio tom, um fá meio sustenido ou sustenido-sustenido ou fá dobrado sustenido, como queira preferir.  É um negócio complexo para nós ocidentais, pra não dizer também que é difícil de perceber pelo ouvido, já que somos educados desde pequeno a esse sistema dodecafônico. </p>
<p>Se com 12 notas podemos fazer várias coisas complexas em termos de composição, com 24 então a música ocidental pode parecer pobre e seca em relação à oriental.  Isso significa que os orientais são melhores que nós em termos auditivos? Não necessariamente, mas diria que eles têm outra percepção de mundo (e de acústica!) diferentemente de nós.</p>
<p>Aliás, breve parêntese aqui pra comentar rapidinho que a música indiana também tem um sistema tonal parecido, mas com 22 microtons e que se ligam, de alguma maneira, aos 22 pontos espalhados em nosso corpo, que por sua vez, ligam os 7 chakras. Na cultura indiana há uma relação entre notas, frequências e cores devem ser emitidas pra harmonizar esses chakras. </p>
<p>Na música árabe existe também o maqam, que é um sistema tonal complexo, um conjunto de regras bem específicas pra gerar escalas utilizando os microtons. Pra vocês terem ideia da complexidade: existem os jins ou ajnas que são conjuntos de notas que podem ser agrupadas na categoria “trhicords” (3 notas), “tetrachords” (4 notas) e “pentachords” (5 notas). Nos trichords eu tenho os jins: Ajam, Jiharkah, Sikah e Mustaar. Nos tetrachords eu tenho Bayati, Busalik, Hijaz, Kurd,Nahawand, Rast, Ssaba, Zamzama, e nos pentachords eu tenho o Athar Kurd, e Nawa Athar. Pegando o Bayati, por exemplo, eu tenho as notas ré-mi bemol bemol-fá-sol. Considerando o harmônico fundamental de ré (admitamos lá como referência em 440hz, ré vai ser 587,3hz) eu tenho uma relação de 3/4 e 3/4 entre ré e mi bemol bemol e entre mi bemol bemol e fá. Em outros termos, matematicamente falando, isso é 4π/3 rad + π/2 sen do harmônico superior de ré. </p>
<p>Indo para a música chinesa, essa é interessante porque, apesar de estar pautada no ciclo de quintas, o mesmo utilizado na música ocidental, formando as sete notas, ela prioriza um sistema pentatônico, e há uma relação muito interessante entre as notas (gong, shang, jue, zhi, e yu), a direção no espaço (centro, oeste, leste, sul e norte), a estação do ano, o elemento (terra, metal, madeira, fogo e água), os planetas (saturno, Vênus, júpiter, marte e mercúrio), e as emoções (relaxamento, preocupação, ira, prazer, medo).</p>
<p>Pra fechar de vez, duas palavrinhas breves: no decorrer de todos esses textos eu certamente pulei uma porrada de gêneros e formações musicais específicas (como a música folclórica canadense de origem aborígene da América do norte, a música alemã, a música celta, a folclórica russa e australiana&#8230;) por pensar que não vem ao caso, a não ser que alguém aqui queira se aventurar a estudar a fundo antropologia e etnomusicologia. De todo modo, esses textos não se prestam a tanto, essa não foi a intenção, e sim explicar “de um jeito fácil” alguns dos gêneros mais (ou menos) conhecidos por aí. </p>
<p>E, bem, o que fica disso tudo é que, ao analisar determinado gênero musical, bem como as formas com que determinado grupo social arranja e agrupa seus instrumentos e produz certa sonoridade, tudo isso nos dá uma dimensão maior sobre o que somos e a forma como vemos o mundo. Música, mais do que a arte de unir som e silêncio, é também fenômeno físico e fisiológico, e a forma com que lidamos com ela nos mostra a dimensão do que somos.</p>
<p><strong>Por: Ge</strong></p>
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