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	<title>Desfavor da Semana &#8211; desfavor</title>
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		<title>País adulterado.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Oct 2025 18:43:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[O mercado de consumo brasileiro enfrenta um problema crescente com a falsificação de bebidas alcoólicas. Segundo levantamento do Núcleo de Pesquisa e Estatística da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), divulgado em abril deste ano, 36% desse tipo de mercadoria vendida no país é adulterado, falsificado ou contrabandeado. LINK [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>O mercado de consumo brasileiro enfrenta um problema crescente com a falsificação de bebidas alcoólicas. Segundo levantamento do Núcleo de Pesquisa e Estatística da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), divulgado em abril deste ano, 36% desse tipo de mercadoria vendida no país é adulterado, falsificado ou contrabandeado. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://revistaoeste.com/economia/fhoresp-36-das-bebidas-alcoolicas-vendidas-no-brasil-sao-adulteradas/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>A crise do metanol nas bebidas não é a doença, é só um sintoma. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-33559"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Ao menos 36% das bebidas alcoólicas vendidas no Brasil são adulteradas. Uma a cada cinco garrafas de vodca vendida no país é falsificada. Vinhos e destilados são o alvo preferencial dos falsificadores. Uma fábrica de bebida ilegal é interditada a cada cinco dias no país. </p>
<p>Chocado com os dados? São do ano passado. E foram enviados às autoridades que tinham competência para fiscalizar. Ou seja, o que aconteceu foi, só para variar, uma tragédia anunciada.</p>
<p>Tudo isso poderia ter sido evitado se quem fiscaliza fosse mais competente e/ou menos corrupto. Mas não foi. Morreu gente e vai morrer mais gente ainda. E a incompetência não é apenas na prevenção, é generalizada: quando os primeiros casos apareceram, as providências foram lentas, insuficientes e até mesmo erradas, piorando a situação.</p>
<p>Só para citar um exemplo, o Disk-Intoxicação da ANVISA estava sem funcionar em diversas partes do país. Algo criado para dar assistência e orientação imediata em uma questão grave e urgente (uma pessoa envenenada não pode esperar) simplesmente estava desativado. Recebendo recursos públicos, pagos com o seu dinheiro, para não funcionar.</p>
<p>As investigações nos bares também foi lenta e risível. A gente sabe que no Brasil se compra qualquer fiscalização, mas dessa vez chegaram ao cúmulo de conseguir ocultar o nome de diversos estabelecimentos que venderam bebida adulterada que matou pessoas. Sim, tem bar vendendo veneno, matando, deixando cego, e eles tem direito a proteção, a não ter seus nomes divulgados. </p>
<p>“Mas Sally, não tinha como imaginar que isso poderia acontecer”. Tinha sim, se não pelos dados que eu acabo de te passar, pelo fato de já ter acontecido antes: Só na Bahia, já ocorreram mais de 60 mortes e mais de 450 internações por bebidas contaminadas com metanol em um passado não muito distante.</p>
<p>O problema é: até aqui, acontecia com pobre, com fodido, com pessoas que, no sistema social de castas do Brasil, não importam. Agora foi no barzinho caro, agora morreu advogado. Agora vai gerar comoção. </p>
<p>E, veja bem, não digo que não deva gerar comoção. Digo que, em um país sério, qualquer morte por envenenamento desse tipo deveria ser um escândalo, algo com providências e consequências muito sérias, que garantam que nunca mais nada parecido aconteça. Mas é Brasil, né? Aconteceu novamente e, pelo visto, vai acontecer outras vezes no futuro.</p>
<p>Não estão fiscalizando de forma eficiente ou suficiente.  Não estão tomando providências para que não se repita. Já apareceu meia dúzia de oportunista querendo criar lei para aumentar a pena adulteração de bebidas alcoólicas, como se isso resolvesse. </p>
<p>A pena de homicídio é bem maior e o Brasil é, segundo a ONU, recordista mundial em casos de homicídios, ficando na frente, inclusive, de vários países em guerra. Aumentar a pena não resolve, lei não resolve, pois não há fiscalização efetiva para punir quem a descumpre, não há Judiciário apto a condenar todo mundo e há um sistema de propinas fortíssimo que mantém tudo quanto é tipo de filho da puta a salvo.</p>
<p>Tá tudo errado. O sistema é corrupto, criminoso, perigoso e a qualquer momento uma adulteração de qualquer coisa (remédio, chocolate, bebida) pode tirar a vida dos seus pais, dos seus filhos, dos seus entes queridos, e o brasileiro está preocupado se vai poder beber este final de semana. Nada nunca vai se resolver em um país com essa mentalidade. </p>
<p>Aposto inclusive que tem gente pensando “Não é problema meu, eu não bebo”. É problema de todos que um país seja tão merda a ponto de que isso aconteça de forma sistemática. E, por mais que a pessoa não beba, ela é afetada, se não pelo risco de que isso aconteça com algum produto que ela consome, pelo estresse de viver em um lugar assim, onde esse tipo de coisa pode acontecer.</p>
<p>Quem está dentro costuma não perceber, mas quando você sai, se dá conta do quanto esse ambiente de ter que desconfiar de tudo e de todos, de regras não cumpridas, de irresponsabilidade, envenena a alma. É como um programa secundário que fica o tempo todo rodando, consumindo energia. É insalubre. Certamente mina a saúde, mesmo de quem está determinado a entrar em negação.</p>
<p>Viver em um país permeado por insegurança, impunidade, incompetência e corrupção faz mal. O que as pessoas vão beber neste final de semana é o menor dos problemas. Prender o Zé das Couves que adulterou a bebida, acreditem, também é, pois tem duzentos para tomar o lugar dele e continuar falsificando. Se querem dar um passo real para resolver isso, a pergunta é: quem é que tinha que ter fiscalizado isso e não fiscalizou? É para cima desses que tem que ir.</p>
<p>Se quem fiscaliza tiver medo das consequências de não fazer seu trabalho direito, o país passa a ter uma boa fiscalização e, não importa o quanto se tente falsificar bebida, nenhum estabelecimento vai topar comprar, pois saberá que pode ser multado e fechado. É por aí que se resolve, e não aumentando a pena de quem falsifica. A falha maior, só para variar, é do Estado.</p>
<p>Mas, arrisco dizer que nem o próprio brasileiro, que sofre risco de contaminação, não quer uma fiscalização eficiente. Ele quer continuar comprando bebida alcoólica do contatinho de Whatsapp, mais barato do que no supermercado. Ele quer o mercado paralelo para pagar menos. O brasileiro também é parte do problema. O brasileiro é medíocre e aceita viver em uma sociedade insalubre para se dar bem e pagar uns trocados a menos. </p>
<p>O fundo do poço do Brasil tem um alçapão. Anotem essa frase, em vários momentos das suas vidas vocês vão lembrar dela – e de mim.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Eu já vou partir do princípio de que a contaminação por metanol foi causada por incompetência do mercado “alternativo” de bebidas. Os números são suficiente para defender essa hipótese: sem matar pessoas, os contrabandistas e falsificadores já estavam ganhando muito dinheiro, gerando mais de um terço das vendas nacionais.</p>
<p>Pode ser do interesse desse mercado ilegal aumentar as margens de lucro falsificando bebidas, mas é suicídio comercial criar uma crise do tipo que mata pessoas, mesmo do ponto de vista mais amoral possível isso significa queda nas vendas e menos dinheiro. E considerando que envenenamento por metanol é algo que acontece de tempos em tempos aqui e em diversas partes do mundo, é óbvio que sempre estiveram flertando com esse desastre.</p>
<p>Existem níveis de consumo de metanol que não viram crises de saúde pública, mal viram notícia. E pode apostar que as pessoas falsificando bebidas achavam que tinham achado a medida certa de adulteração. O suficiente para aumentar seus lucros sem chamar atenção. Os casos recentes de envenenamento por metanol apenas sugerem que um ou mais desses produtores ilegais erraram a mão.</p>
<p>Risco Brasil: antes de continuar, eu gostaria de dizer que é possível que uma empresa legalizada tenha errado por “incompetência honesta”, se descobrirem isso nos próximos dias, não vai ser uma grande surpresa.</p>
<p>Num país onde as pessoas acham normal economizar dando a volta em regulações, o risco desses erros sempre vai ser grande. Se tem tanta gente comprando produto contrabandeado ou adulterado, quer dizer que existe muita demanda para levar vantagem na compra e venda de álcool. E muito mais importante, tem muita demanda pelos lucros possíveis na ilegalidade.</p>
<p>Pode ser simples como sonegar imposto num produto original, mas isso vai escalando: quem compra mais barato por ter comprado produto contrabandeado está aceitando mais riscos que o normal, porque é o tipo da coisa que não dá para resolver na polícia depois, não?</p>
<p>Existem mil motivos para ficar irritado com impostos no Brasil, existem mil motivos para desconfiar da fiscalização oficial, mas no final das contas, quem aceita o mercado ilegal está aceitando junto os riscos que o sistema tenta mitigar. Riscos como bebidas alcoólicas com doses letais de metanol.</p>
<p>Estou indo por esse ângulo não para aliviar a crítica que a Sally fez, eu parto do ponto dela sobre os mecanismos oficiais terem falhado em prevenir algo totalmente prevenível e adiciono que além disso, existe um incentivo enorme no Brasil de fazer as coisas do jeito errado e arriscar a vida alheia para levar vantagem. E é uma relação doentia: o brasileiro faz errado porque não confia no sistema, e o sistema não melhora porque o brasileiro escolhe fazer coisas erradas.</p>
<p>A minha preocupação é se as pessoas que compram produtos contrabandeados e/ou ilegais são capazes de entender o risco que estão repassando para o consumidor final ou se é simplesmente ignorância severa ao ponto de achar que não tem problema nenhum. O dono de bar que se acha esperto por colocar bebida falsa no drink porque ninguém percebe, só botar mais açúcar na batida para as moças&#8230; ele entende que pode matar alguém ou acha que é o truque perfeito porque acha que dá no mesmo?</p>
<p>Essa sempre é a parte mais desesperadora de imaginar o grau de ignorância de um povo como o brasileiro: uma pessoa pode te matar por pura incapacidade de entender que aquilo pode te matar. Ela pode receber a informação de que algo é perigoso cem vezes, mas não transforma aquilo em reflexão. É que nem o terraplanista que diz que a Terra não pode ser redonda porque ele olha para o horizonte e acha que é reto.</p>
<p>E cada vez mais eu acho que o tipo de resposta que estão dando &#8211; achando que tornar falsificação de bebida crime hediondo é uma resposta – é reflexo de uma visão distorcida da realidade, uma tentativa de não lidar com o elefante na sala: o risco de pessoas terem morrido por contaminação de metanol por pura burrice de algumas pessoas é difícil de lidar.</p>
<p>É mais confortável achar que os bandidos sabiam o que estavam fazendo, mas fizeram porque a pena era leve. Porque isso cria a ilusão de resolução de um problema, não é que empresários imbecis estão comprando produtos falsos para levar vantagem, feitos por outros imbecis que mal entendem que metanol mata&#8230; não, no mundo de fantasia de controle, são pessoas ruins que podem ser presas ou mortas e tudo se resolve.</p>
<p>Estamos numa sociedade onde você precisa regular mercados para evitar que pessoas tomem decisões burras e perigosas. Antes de tentar controlar a maldade do ser humano, é preciso dar um jeito dele entender que algumas escolhas que faz tem consequências que precisam ser previstas. E que quanto mais longe do ato são essas consequências, mais gente precisa estar envolvida no processo, porque não dá para confiar nem que o dono de um bar num lugar chique vá ter a capacidade cognitiva básica de prever que eventualmente vai ter contaminação nos produtos piratas que ele compra para economizar um dinheirinho.</p>
<p>E que depois que pessoas começarem a morrer, não tem mais volta. Não dá para ter ilusões de liberalismo no Brasil atual, tem que ter agências regulatórias e fiscais em tudo quanto é lugar, não porque o brasileiro médio está mal-intencionado de matar os outros, mas porque ele não tem treino nem incentivo para pensar meia hora no futuro.</p>
<p>Digo mais: nenhuma sociedade nesse mundo evoluiu além da necessidade de regulação séria. O que alguns países têm é menos casos absurdos de incompetência e negligência, reduzindo a carga de trabalho de fiscais e mantendo o sistema mais funcional. O governo pode fazer a parte dele, mas enquanto o povo estiver viciado em vantagens de curto prazo sem medo de ser punido (não tem a ver com ser 5 ou 50 anos de cadeia, é sobre ser descoberto e punido), é só questão de tempo até mais produtos falsificados matarem pessoas em grande escala de novo.</p>
<p>O sistema continua o mesmo, não importa se a pena do crime muda. Se a mentalidade continuar sendo essa de ser esperto doa a quem doer e se continuarmos pegando uma pequena fração de quem faz isso, não se cria nem a ideia de que deu errado na cabeça das pessoas. Eu temo que vamos sair dessa crise com alguns culpados que vão pagar pelos pecados de todos, mas que a ideia básica de levar vantagem com produto contrabandeado e/ou falsificado vai continuar como se nada.</p>
<p>O governo é uma bagunça, mas o povo não ajuda. Talvez nem entenda que precise ajudar.</p>
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		<title>Cabeças doentes.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Sep 2025 19:37:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[O governo do presidente Donald Trump (republicano) lançou na 2ª feira (22.set.2025) uma campanha de combate à alta de diagnósticos de autismo nos Estados Unidos. A 1ª diretriz anunciada foi a contraindicação do Tylenol –que tem como ingrediente ativo o paracetamol– para gestantes. LINK Não só foi um show de horrores de desinformação, como a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>O governo do presidente Donald Trump (republicano) lançou na 2ª feira (22.set.2025) uma campanha de combate à alta de diagnósticos de autismo nos Estados Unidos. A 1ª diretriz anunciada foi a contraindicação do Tylenol –que tem como ingrediente ativo o paracetamol– para gestantes. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://www.poder360.com.br/poder-saude/anuncio-de-trump-sobre-tylenol-e-autismo-nao-tem-base-avaliam-medicos/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>Não só foi um show de horrores de desinformação, como a reação do público ainda conseguiu piorar a situação. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-33372"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Queria muito entender por qual motivo quando um lado se porta de forma vergonhosa, ridícula e patética, o outro faz questão de se rebaixar e se igualar a ele. Será que ninguém consegue mais manter a sensatez, a maturidade e a dignidade?</p>
<p>Pessoas que são notoriamente conhecidas por serem idiotas em matéria de medicina e ciência disseram que fazer uso do medicamento Tylenol (Paracetamol) durante a gestação aumenta a probabilidade de a criança nascer com autismo. Isso, meus amigos, é de uma imbecilidade sem precedentes. É a versão moderna do “vacinas causam autismo”.</p>
<p>Se fosse só burrice, até passava. Mas é método. Trataram de empurrar outro remédio, sem qualquer eficiência, para tratar autismo e estão incentivando usar outros remédios para dor, claramente com interesses pessoais.</p>
<p>É curioso como esse público de negacionistas científicos, que vê em vacinas (exaustivamente testadas e aprovadas) um golpe da indústria farmacêutica para conseguir dinheiro, não vê nenhuma sombra de golpe em boicotar um remédio e promover outro sem evidências científicas válidas.</p>
<p>Se a vergonha fosse unilateral, nem seria tema desta coluna, pois rotineiro. Mas não. O outro lado, vendo o vexame, ficou com inveja e quis fazer pior.</p>
<p>Começaram a aparecer vídeos em redes sociais de pessoas tomando Tylenol, algumas em uma quantidade preocupante, para “provar” para o Trump que Tylenol não faz mal. Não sei nem por onde começar.</p>
<p>E tem vários problemas aqui. O primeiro e mais gritante é dar tamanha importância a alguém que você detesta. Imagina se dar ao trabalho de fazer um vídeo para antagonizar com o Trump e ainda ter orgulho disso. É descer ao chiqueiro para brigar com o porco e achar que está mandando muito bem!</p>
<p>Trump falou em gestantes, mas isso não impediu que todo mundo, se entupisse de Tylenol. Inclusive homens. O que caralhos você pretende provar ou contestar tomando um monte de Tylenol, meu anjo? Nada, né? Só quer aparecer mesmo. Olha lá o rebeldão, tomando Tylenol!</p>
<p>Outro problema é que nenhuma pessoa, grávida ou não, deve ingerir grandes quantidades de Tylenol ou até mesmo UM Tylenol de forma desnecessária, pois é um remédio que pode fazer mal ao fígado. Eu vi infeliz tomando 5, 10 comprimidos de uma vez. Virando pote de Tylenol na boca.</p>
<p>Isso é ser tão negacionista científico como o Trump, pois mostra que você não tem a menor ideia de como remédio funciona. Remédio não é bala, não é inofensivo. Tão burros quanto o outro lado, com o agravante dessa superioridade moral que acham que tem. A elite intelectual tomando 10 comprimidos de Tylenol: Idiocracy já foi um filme de comédia, hoje, é documentário.</p>
<p>E como a imbecilidade sempre escala quanto tem tanta gente empenhada em prestigiá-la, analfabetos funcionais resgataram uma postagem da conta oficial da Tylenol de oito anos atrás na qual o fabricante dizia que não recomenda o uso em gestantes e usaram isso como “prova” de que o Trump tinha razão.</p>
<p>Para começo de conversa, não recomendar o uso em gestantes não quer dizer que cause autismo no bebê. Pode causar um mal à gestante mesmo. E depois, a maior parte dos remédios faz esse aviso, para se resguardar: pessoas são idiotas, como bem podemos ver. Pessoas tomam remédio de forma indiscriminada. O fabricante tira o dele da reta. O obstetra, se quiser, por sua conta e risco, que prescreva.</p>
<p>Se você conversar com qualquer médico obstetra ele vai te confirmar que, entre todas as opções de remédios para a dor, o Tylenol é o mais seguro para gestantes. É 100% seguro? Não, pois nenhum remédio é 100% seguro para gestantes, o ideal é que grávida não tome remédio. Mas, precisando tomar, Tylenol costuma ser o mais indicado. Porém, sempre prescrito pelo médico, gestante não pode tomar remédio algum por conta própria.</p>
<p>Alguns imbecilóides (inclusive mulheres grávidas) que tomaram grandes quantidades de Tylenol foram parar no hospital, por uma questão hepática mesmo. E isso bastou para o pessoal do Trump berrar que eles tinham razão, ainda que a causa da hospitalização fosse uma superdosagem e sem qualquer relação a problemas com o bebê. Os imbecilóides que queriam desmentir o Trump, deram ainda mais munição para ele e seus malucos. É cansativo, sabe?</p>
<p>Por sua vez, esses pequenos indícios desconexos como o post da marca oito anos atrás e os idiotas que se intoxicaram com superdosagem, fez com que a coisa se espalhe de uma forma que virou pós-verdade, e quando isso acontece, os efeitos nocivos se propagam no tempo.</p>
<p>Nos próximos anos veremos gestante socando ibuprofeno ou, no Brasil, dipirona, ambos menos indicados, ambos com chances de causar problemas. Vamos ver mamães e bebês com problemas por não querer tomar Tylenol para não ter problemas.</p>
<p>Para culminar, vemos gente usando esse enorme esmerdeio para panfletar, colocando a culpa de tudo isso no fato do Trump ter sido eleito, como se esse povo maluco dele não fosse acreditar em qualquer merda, independente de cargo. Nunca houve (até onde se sabe) um Presidente terraplanista e o mundo está cheio deles. A culpa não é do cargo, é do ser humano.</p>
<p>Resumo dessa brincadeira:</p>
<p>1) Não há evidências científicas de que Tylenol cause autismo, mas há evidências do Trump e sua turma tenham ganhos por boicotar o Tylenol.<br />
2) Não há benefícios de que o remédio indicado pelo Trump (me recuso até a divulgar o nome) trate de alguma forma o autismo.<br />
3) Ninguém pode tomar Tylenol indiscriminadamente, pois, entre outras coisas, faz muito mal ao seu fígado.<br />
4) Gestante não pode tomar NENHUM MEDICAMENTO sem autorização expressa do SEU médico. Não de “um” médico, mas do SEU médico que a acompanha e conhece seu histórico.<br />
5) Nada, ninguém ou nenhuma evidência vai tirar da cabeça das pessoas que Tylenol causa autismo, está consolidado como pós-verdade.</p>
<p>O ser humano, meus amigos, é uma merda.</p>
<p>Meteoro, eu autorizo.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Minha primeira reação ao anúncio nem foi ficar chocado com as bobagens que Trump, RFK Jr. e companhia disseram, foi uma espécie de resignação com a era da pós-verdade: eu sei que décadas no futuro vai ter gente repetindo que ouviu falar que esse remédio “deixa a pessoa autista”. Não vai saber nem de onde veio, só vai ficar com uma daquelas informações que vai se enfiando na mente das pessoas e começa a ser repetido sem nenhuma crítica.</p>
<p>Porque o ser humano médio, eu e você incluídos, não sabe muito mais do que sabe. Desde que começamos a falar, trocamos informações que ouvimos falar, é natural e em média ajudou mais que atrapalhou na nossa evolução. Só que uma coisa é falar sobre que tipo de planta pode comer e onde tem predadores, outra completamente diferente é trocar informações científicas complexas.</p>
<p>A ideia de “bom senso” funciona com o básico da vida. Se o número de ovelhas na sua fazenda começar a diminuir rapidamente, é bom senso presumir que tem um predador por perto. Se muita gente começa a passar mal depois de comer o pão feito por uma padaria, é bom senso não ir mais lá. Mas quando você estica esse bom senso além das coisas que você realmente conhece, ele começa a dar problema.</p>
<p>Trump e todos os outros participantes daquele show de horrores repetiam sem parar como o número de autistas aumentou absurdamente nas últimas décadas. Eles mesmos usam bom senso como argumento. Se aumentou tanto, e os dados comprovam isso, tem alguma coisa deixando as pessoas autistas, não?</p>
<p>Mas será que o bom senso entende os detalhes dessa informação. Trump disse que “alguns anos atrás” tínhamos um autista a cada 10.000 pessoas; disse também que hoje é um autista a cada 31! Tem algo deixando as pessoas mais autistas, óbvio, e só pode ser algo que começamos a fazer pouco tempo atrás, certo?</p>
<p>Certo! Mas a lógica não é o que a maioria das pessoas espera. Até os anos 80, casos de autismo severo eram tratados como esquizofrenia. Poucos especialistas sequer pensavam nesse transtorno. Então, de fato, existem informações sobre os anos 60 com esse número de 1 a cada 10.000; e se você pegar os dados mais recentes, vai mesmo ver 1 a cada 30 e poucos.</p>
<p>Quando o autismo foi reconhecido pelo que realmente era, pessoas começaram a ser diagnosticadas, e é óbvio que o número aumentou. E com o passar das décadas, a definição de autismo começou a aumentar para abarcar muito mais do que aqueles casos graves de pessoas que ficam batendo a cabeça na parede. A ideia de espectro autista é super recente. Nenhum autista minimamente funcional na sociedade era diagnosticado.</p>
<p>Se você aumenta o tamanho do grupo de pessoas que pode ser chamada de autista, é óbvio que aumenta o número de autistas. Vi uma analogia excelente sobre isso: imagine que a definição de pessoa alta só contasse quem tivesse mais de 2 metros de altura. Teríamos poucas pessoas assim. E se mudássemos a ideia de pessoa alta para quem tem mais de 1,80m? De repente teríamos centenas de milhões de pessoas a mais nesse grupo. Não quer dizer que as pessoas ficaram mais altas da noite para o dia, quer dizer que o conceito de pessoa alta mudou para encaixar mais gente.</p>
<p>É a mesma coisa com o autismo. Primeiro ninguém estava diagnosticando, depois começaram a chamar de autistas só os casos mais graves, mais recentemente encontraram uma definição de autismo que inclui muito mais gente. Sim, o número de autistas aumentou, mas não porque as pessoas começaram a ficar autistas da noite para o dia.</p>
<p>No fundo, toda a conversa sobre o Tylenol era uma desculpa para empurrar aquele velho discurso antivacina, que também foi empurrado com força na mesma coletiva de imprensa. E os argumentos desse povo sempre passam por essa análise retardada sobre o aumento de autistas no mundo. Os casos de autismo só cresceram tanto quando todo mundo começou a ser vacinado, na cabecinha deles isso significa que só pode ser a “medicina moderna”.</p>
<p>Todos eles dizem que em sociedades onde as pessoas são menos vacinadas existe menos autismo, e falam disso porque eles vão veem pessoas autistas nesses lugares. Estudos reais feitos por cientistas com milhares (às vezes milhões) de pessoas demonstram que as pessoas continuam nascendo com autismo em todo tipo de sociedade. A prevalência de autistas não muda com uso de vacinas e remédios como o Tylenol. Eles acham que muda, ignoram estudos reais e pronto, vão para rede nacional dizer que sim.</p>
<p>Não é nem uma hipótese nova essa do Tylenol. Fizeram vários estudos, inclusive um na Suécia com mais de 2 milhões de crianças separando as mães pelos remédios que tomaram na gravidez. Não apareceu nenhuma relação. Os estudos que existem dizendo que pode ter relação &#8211; e que provavelmente foram usados por RFK Jr. para tomar essa decisão – não chegam a ter estudado 10.000 pessoas somados.</p>
<p>Isso foi tirado da bunda de uma forma incrível. E a minha putez é que como é muito mais fácil repetir essa baboseira do Tylenol e das vacinas do que entender a burrada incrível que é achar que o número de autistas está aumentando por qualquer motivo que não o número de diagnósticos, eu tenho certeza que vai virar “sabedoria popular” nos EUA e os macacos de imitação brasileiros vão fazer a caveira do Paracetamol até esse povo que mal sabe entender o que lê, quando lê, começar a repetir o comportamento e ensinar um para o outro que tomar vacina e remédio de febre faz a pessoa “virar autista”. Nem o Trump entendeu do que estava falando, ele estava basicamente dizendo para criança não tomar Tylenol para não ficar autista, e para tomar vacina de Hepatite B depois dos 12 para evitar&#8230; autismo!</p>
<p>Eles nem sabem o que é autismo. Acham que é uma gripe. E o assustador é que o povão pode acabar dizendo que confia mais no Trump do que nos médicos porque os médicos são as elites! O presidente dos fuckin’ EUA vai ser o rebelde antissistema para eles.</p>
<p>Eu não quero a morte de pessoas burras, eu só quero que elas não tenham cargos de poder. É pedir muito?</p>
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		<title>Toma essa, fascista!</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/09/toma-essa-fascista/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Sep 2025 19:12:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus foram condenados por participação na tentativa de golpe de Estado em 2022. A maioria dos ministros da Primeira Turma concluiu pela punição, da forma como proposta pela Procuradoria-Geral da República. LINK O FBI apresentou, na manhã desta sexta-feira (12), em uma entrevista coletiva, o jovem suspeito de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus foram condenados por participação na tentativa de golpe de Estado em 2022. A maioria dos ministros da Primeira Turma concluiu pela punição, da forma como proposta pela Procuradoria-Geral da República. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/09/12/data-de-prisao-recursos-inelegibilidade-veja-perguntas-e-respostas-sobre-a-condenacao-de-bolsonaro.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>O FBI apresentou, na manhã desta sexta-feira (12), em uma entrevista coletiva, o jovem suspeito de ter matado o ativista Charlie Kirk. Agentes disseram que ele tinha deixado mensagens nos projéteis usados na arma do crime, um deles disparado e outros três sem uso. O suspeito, identificado como Tyler Robinson, de 22 anos, teria gravado mensagens como: &#8220;percebe o volume?&#8221;, &#8220;toma essa, fascista&#8221;, &#8220;o bella ciao, ciao&#8221; e &#8220;se você ler isso, você é gay&#8221;. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/09/12/assassino-de-charlie-kirk-usou-balas-com-mensagens.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
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<p>Agora começa a guerra civil? Antes de considerar essa possibilidade, sugerimos pensar um pouco. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-32934"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>A condenação do Bolsonaro e o assassinato de Charlie Kirk possuem diversos pontos de intercessão e, para o texto de hoje, só vou poder falar sobre um deles: a desconexão da realidade que as pessoas estão experimentando: no caso do Bolsonaro, a direita, no caso de Kirk, a esquerda.</p>
<p>As pessoas estão perdendo a noção do que é a realidade ao adaptarem tudo que acontece a seu viés de confirmação, à sua narrativa, ao seu querer. E essa irrealidade é confirmada por sua bolha, que sofre do mesmo problema, fazendo com que a pessoa acredite que aquilo de fato corresponde à realidade. Isso está levando muita gente a tomar péssimas decisões e inclusive a arruinar sua vida e a da sua família por tabela. </p>
<p>Bolsonaro foi condenado. Não é Xadrez 4D, ninguém vai agir e reverter isso. É um fato, ele está condenado e provavelmente estará inelegível nas próximas eleições. Reviravoltas acontecem? Sim, claro, podem acontecer. Mas na maior parte das vezes, acontece a regra geral mesmo. Então, o saudável é trabalhar com a regra geral. Parem de fazer Pix, ir para a rua, espalhar que ele vai reverter isso. Provavelmente não vai.</p>
<p>Não adianta fazer protesto, esperar o exército agir ou Trump te salvar. O Brasil não vale o custo que o Trump teria em intervir, tanto em capital político como em despesas. Trump não vai salvar nada nem ninguém. Nada disso vai acontecer. </p>
<p>Os esforços devem ser em formar um novo nome para concorrer em 2026 e quanto antes, mais chances de conseguir vencer. Não adianta ficar abraçado ao nome do Bolsonaro esperando um milagre. Isso é burrice. A direita está insana e vai afundar junto com ele, como aconteceu com o PT quando só lançaram o Haddad para candidato aos 48 do segundo tempo.</p>
<p>A realidade nua e crua, se é que vocês me permitem, seria pensar que o Bolsonaro não volta, não importa as viradas de mesa que consiga dar. Idoso, desgostoso com a vida e com sequelas terríveis da tentativa de homicídio que sofreu. Ele não tem um futuro muito promissor, mesmo que por um milagre alguém o “salve”. Certo ou errado, ele foi derrotado e isso é fato. Aceitem. E por culpa exclusiva dele: nunca se esqueçam que foi no governo Bolsonaro que esse acordo bosta de tirar o Lula da cadeia e anular processos aconteceu.</p>
<p>Então, antes de culpar Alexandre de Moraes, de falar que Brasil virou Venezuela ou o que mais você queira falar, lembre-se de que Bolsonaro fez isso a Bolsonaro. Justo ou injusto, esse desfecho foi fruto direto de uma escolha dele. Não é como uma pessoa que tem um aneurisma rompido do nada e falece, sem qualquer responsabilidade. Ele escolheu esse caminho e muito me admira quem é de direita não estar puto com ele, pois foi graças a ele e a sua tentativa de salvar seus filhos estrupícios que vocês estão amargando esses quatro anos de Lula.</p>
<p>Bolsonaro é carta fora do baralho, justa ou injusta a decisão. Quem não partir dessa premissa não vai fazer boas escolhas, não vai conseguir antever o que está por vir e ainda periga passar vergonha. Acha que a condenação dele foi injusta, ilegal, imoral? Sem problemas. Só não negue a realidade: Bolsonaro é carta fora do baralho. Paute tudo partindo dessa premissa. Não é um desejo meu, é a realidade.</p>
<p>A mesma premissa vale para o assassinato de Charlie Kirk. Não se mata uma pessoa por divergência de opinião. Não é um motivo válido para tirar a vida de outro ser humano. Uma coisa é matar alguém que estava partindo para cima de você para te matar ou te estuprar, agindo em legítima defesa, outra é matar uma pessoa por discordar das suas opiniões. Não é a minha opinião, é a realidade.</p>
<p>Relativizar isso é ter falta de caráter, psicopatia ou então estar cego por lavagem cerebral de militância. Desumanizar para abrir caminho para destruir alguém, repetindo conceitos que nem de perto se aproxima da pessoa, como nazista, fascista e outros, é um método baixo que só torna a sociedade pior.</p>
<p>Mas, supondo que a pessoa tenha perdido completamente a noção de civilidade, humanidade e moral e tenha caído nesse discurso recorrente de desumanizar o outro para poder atacá-lo sem freios, ainda assim, por uma questão de estratégia, é burrice o que estão fazendo. </p>
<p>Meus queridos, não virem as costas para a realidade, vocês serão tratorados. Repito: não é um desejo meu, é um cálculo muito simples. Não sei em qual mundo as pessoas vivem que acham que isso pode funcionar. Tem um erro de cálculo enorme aí, e vai custar caro para quem está calculando errado. </p>
<p>Quer ameaçar os outros de morte, como estão fazendo com o Nikolas? Fatalmente parte da sociedade vai te reprovar e você pode perder amigos, seu emprego e até pode ser processado. Rede social não é boteco, o que se diz ali fecha portas. Você tem liberdade de expressão para dizer, ninguém está te impedindo. Mas tem consequências. Seu patrão tem a liberdade de te demitir. E seu patrão é mais forte do que você: ele consegue dez para trabalhar no seu lugar no dia seguinte. Você talvez não consiga outro emprego tão cedo.</p>
<p>“Ain quedizê que eu tenho que me calar por medo do meu patrão?”. Não, meu anjo, você não tem que desejar a morte de outras pessoas em público para não ser uma bosta de pessoa, um lixoso, um filho da puta sem humanidade mesmo. Esse é o ponto. Mas, se você for um merda, saiba que é um merda mais fraco do que as pessoas que está xingando e vai perder essa briga.</p>
<p>É completamente delusório achar que um Zé Cu de Pindamonhangaba vai ameaçar um parlamentar e ele, o Zé Cu, vai sair vitorioso nesse cabo de guerra. É completamente descolado da realidade achar que um funcionariozinho vai desejar a morte de alguém, causar polêmica e a empresa vai comprar o barulho dele. Como eu disse, tem dez, cem para ocupar o seu lugar. Você não é especial, a empresa não é sua amiga. Se as bostas que você faz respingam na empresa, você vai para a rua. Ameaçar de morte gente mais forte do que você é apenas burrice. Nem bicho faz isso. Voltem para a realidade: não resolve e quem se ferra é o mais fraco. </p>
<p>Só ontem uma lista com mais de 1200 prints de brasileiros postando coisas desagradáveis sobre Charlie Kirk foi enviada para a Embaixada dos EUA, que respondeu publicamente pedindo para ser marcada em qualquer comentário desse tipo sobre Kirk, pois essas pessoas não só serão impedidas de entrar nos EUA como também terão que pagar indenizações. </p>
<p>Só ontem Nikolas conseguiu prender pessoas e demitir várias outras pela mesma postura. Tudo de forma pública, online. Estão comprando uma briga que não tem força para lutar e serão trucidados. E todos os envolvidos apareceram chorando, se desculpando, se humilhando. Parem de passar vergonha.</p>
<p>Ao leitor do Desfavor, eu recomendo realismo e distanciamento dessa rinha social. A tendência é a coisa se intensificar e vai ficar pior, inclusive mais violenta, então, é uma boa hora para sair da briga e passar a ser observador, não importa de qual lado você esteja. “Ain mas eu vou me omitir?”. Não, você simplesmente não vai gastar tempo e energia com o que não funciona. Rinha social não funciona, isso não muda ou melhora a sociedade. E ainda pode destruir sua vida e a da sua família.</p>
<p>Comecem a se educar hoje mesmo para não discutir com desconhecidos, para não dizer nada polêmico ou que feche portas em redes sociais. Porte-se em redes sociais como se o William Bonner fosse ler tudo que você posta no Jornal Nacional. Rede social é praça pública, não diga nada a ninguém em redes sociais que você não diria em praça pública ou ao vivo, olhando olho no olho para o interlocutor.</p>
<p>“Ain conformista abaixando a cabeça”. Tá bom, meu anjo, vai lá e briga com alguém mais forte do que você achando que vai fazer uma revolução ou mudar o mundo. Depois me conta que consequências isso gerou na sua vida e na sociedade, beleza?</p>
<p>Tomara que não, mas essa situação pode escalar muito nos EUA e sabemos que o Brasil adora importar tudo que não presta dos EUA. Também sabemos que ano que vem é ano de eleição no Brasil, então, os ânimos estarão ainda mais exaltados.  Quem estiver de um dos lados da polaridade, se portando de forma bélica, agressiva, fazendo ameaças, vai virar alvo. Saiam do jogo, ele não está favorável para nenhum dos lados. E trabalhem com realidade e coerência, se não, vão fazer péssimas escolhas.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Havia uma discussão interna aqui sobre o caso do Bolsonaro realmente valer a pena ser mencionado. Sim, foi um evento grandioso que vai acabar em livros de história, mas&#8230; pouca ou nenhuma surpresa envolvida. Mesmo o voto de Fux não muda tanto a situação, que havia uma discordância já sabíamos, mas não o quanto ele discordaria. De qualquer forma, era previsível a condenação de Bolsonaro e companhia, e no dia marcado para a sentença, aconteceu justamente isso.</p>
<p>O caso do ativista americano Charlie Kirk foi impactante pela forma horrível como aconteceu, numa semana normal seria a notícia única. Mas nessa, conseguimos perceber paralelos que trouxeram de volta o tema de Bolsonaro. Como Sally bem disse, muita gente parece alérgica a lidar com a realidade das coisas.</p>
<p>Sob o risco de normalizar o que não deveria ser normalizado: não aconteceu nada de realmente novo na nossa história. Nenhum poderoso é eterno na sociedade, muitos daqueles que estiveram no topo do mundo são derrubados tempos depois quando os ventos mudam. E pessoas matam pessoas por opiniões políticas há&#8230; bom, desde que existe política.</p>
<p>O ponto que eu quero trazer aqui é de novo o tal do “culto do fim do mundo” que quase sempre se estabelece na cabeça de pessoas radicalizadas. A ideia de que estamos a um evento da queda da sociedade como conhecemos, e quase sempre a expectativa do que se segue é uma distopia horrível. Um julgamento com erros não é sinônimo de ditadura, um maluco atirando num ativista político não é o começo de uma guerra civil.</p>
<p>São pontos de crítica que exigem ação para melhorar o mundo. Você pode querer ver o Alexandre de Moraes tomando impeachment por suas ações contra a liberdade de expressão e pode querer ver o Bolsonaro impedido de chegar perto de qualquer cargo público para sempre. Não precisa escolher qual seu autoritarismo favorito, pode escolher ser contra supressão de direitos, seja ele de falar o que pensa, seja ele de viver em um sistema democrático.</p>
<p>Você pode ser contra basicamente tudo o que Charlie Kirk dizia e ser contra alguém matar ele por causa disso. A sociedade funciona com essas ideias, porque elas não são contraditórias. Agora a discussão nos EUA reaqueceu porque esquerda e direita querem jogar o atirador um no colo do outro. Como se fosse uma escolha necessária: o ponto é que não pode atirar um no outro, é a lei base de qualquer lugar funcional. Ao ficar procurando quem radicalizou a pessoa, esquece-se de que o problema é a radicalização.</p>
<p>Cultos são conhecidos por tentar afastar seus membros de influências externas, porque eles perdem o poder sobre a pessoa se família e amigos estiverem dando uma visão diferente das coisas. Cultos precisam programar a mente do cultista, senão ele vira uma fonte de questionamentos que contamina outros cultistas. O culto do fim do mundo precisa te convencer que ser radical é necessário. Que enxergar o fim de tudo na próxima esquina é a única coisa que você pode fazer para se proteger.</p>
<p>E ninguém é imune à propaganda. Com tanta gente divulgando a necessidade de estar no culto do fim do mundo, é normal que comecemos a desconfiar que tem algo válido ali. E quanto mais barulho os cultistas fazem, mais a sociedade começa a se moldar ao seu redor. Não é a primeira vez que acontece, não vai ser a última. São ciclos de destruição e reconstrução que antigamente aconteciam de forma isolada em sociedades diferentes, mas que hoje se conectam na velocidade da luz pela internet.</p>
<p>Nos EUA, pudemos perceber uma degradação da posição ideológica da direita ao aceitar e valorizar cancelamento com aqueles que debocharam ou celebraram a morte de Kirk. Não se discute reação emocional, porque ela é emocional, mas de tanto que sofreram com cancelamento da esquerda, sentiram-se justificados em devolver. E eu chamo de degradação por um motivo que vai além de achar que é certo ou errado, é pelo precedente de perder uma posição idealizada de como tocar uma sociedade. A liberdade de expressão sempre teve esse ponto fraco de deixar pessoas falarem coisas que você acha horríveis&#8230;</p>
<p>Se você acha que o mundo não está acabando, você pode se dar ao luxo de ter ideias mais abstratas sobre o que é mais funcional no longo prazo. Se você acha que está prestes a ser escravizado ou morto pelo inimigo, não sobra espaço para idealismo: a resposta é prática, não importa quão suja você ache. O culto do fim do mundo faz as pessoas pensarem no curto prazo, porque não tem mais futuro para moldar.</p>
<p>Eu sei que é irritante ler análises como a que estamos fazendo aqui se você acha que o mundo está sob ameaça iminente de destruição, mas o ponto é te incomodar mesmo: existem argumentos decentes para considerar que as coisas não estão perdidas. Eles não estão nos discursos radicalizados, porque quem é radical e foi convencido que está em minoria sendo destruído pelo inimigo tem um incentivo inconsciente de perpetuar a ideia de fim de mundo: toda sua defesa contra o horror futuro depende de aumentar sua tribo.</p>
<p>Quem se posiciona muito à direita ou à esquerda não consegue mais te dizer que as coisas podem melhorar sem revolução, sua visão de mundo depende de não ter, já aceitaram o fim. E é claro, no meio dos assustados existem os parasitas que aumentam o medo por interesses financeiros ou políticos.</p>
<p>O mundo tem um monte de problemas, mas eles não vão acabar com a humanidade. A visão radical de fim do mundo é só um caminho para quebrar tudo e ter o trabalho de reconstruir, atrasando a humanidade por histeria. E sim, estou dizendo que nem uma guinada nazista ou comunista acabam com a gente, só demora mais para voltar ao ponto de evolução novamente.</p>
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		<title>Droga política.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/08/droga-politica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Aug 2025 18:13:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fustigou indiretamente, nesta sexta-feira (29/8), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao ressaltar que o parlamentar “fez uma campanha” contra a mudança na fiscalização do Pix. Segundo o petista, está comprovado que Nikolas “queria, na verdade, era defender o crime organizado”. LINK Pelo menos o crime é&#8230; [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fustigou indiretamente, nesta sexta-feira (29/8), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao ressaltar que o parlamentar “fez uma campanha” contra a mudança na fiscalização do Pix. Segundo o petista, está comprovado que Nikolas “queria, na verdade, era defender o crime organizado”. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://www.metropoles.com/brasil/lula-ataca-nikolas-por-video-sobre-pix-queria-era-defender-o-crime" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
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<p>Pelo menos o crime é&#8230; organizado. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-32476"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>O tema é apenas um fio condutor para um raciocínio maior: o Brasil é um Narco-Estado, todo mundo sabe disso, mas gosta de negar. Estão fingindo que descobriram agora o tamanho e a influência do PCC e estão fingindo indignação. Todo político vai fazer um discurso de combate ao tráfico e vai usar dinheiro do tráfico, direta ou indiretamente em campanha. O Brasil, além de ser uma zona, é uma zona hipócrita.</p>
<p>Ninguém gosta de afrontar o problema, pois os problemas do Brasil são gigantes bolas de neve dificílimas der resolver. Recorde de criança estuprada, com a maioria dos estupros ocorrendo dentro de casa, perpetrado por familiares? Vamos regular as redes sociais, vai ficar tudo bem, não é como se um menino de 15 anos pudesse conseguir um CPF de um adulto no Google e entrar mesmo assim.</p>
<p>O mesmo vale para esse caso: Executivo, Legislativo e Judiciário estão envolvidos até a raiz dos cabelos com o tráfico, aceitam dinheiro sujo deles, atuam em parceria, têm uma relação quase simbiótica há décadas, mas o problema é o vídeo do Nikolas sobre o Pix, que tem data posterior aos crimes e que fala sobre Pix de pequenos valores, salvo engano, abaixo de 5 mil reais para pessoas físicas e 15 mil reais para pessoas jurídicas.</p>
<p>Acreditem, o problema do PCC não envolve Pix de cinco mil reais. Segundo a Receita Federal, só do que eles puderam encontrar, PCC controla ao menos 40 fundos de investimentos com patrimônio de mais de R$ 30 bilhões.</p>
<p>Um vídeo feito pelo imbecilóide do Nikolas em 2025 não pode ter causado crimes cometidos de 2020 a 2024. Um partido que foi flagrando em diversas escutas telefônicas tendo um “diálogo cabuloso” com o PCC não pode culpar um vídeo de 2025 por isso. Mas o briefing já foi lançado e todo perfil que recebe dinheiro do governo está repetindo essa imbecilidade.</p>
<p>A verdade é que o tráfico movimenta fortunas e beneficia políticos de todos os lados, é o braço direito do Estado e qualquer coisa além disso é demagogia. Mas é algo muito doloroso de ser visto ou até mesmo dito. É o tipo de entendimento que, com razão, adoece a alma, provoca depressão, síndrome de pânico.</p>
<p>Então, é menos doloroso encontrar um culpado e uma solução simples. O machismo mata mulheres. As redes sociais é que corrompem as crianças e uma lei que manda botar CPF antes de logar vai resolver isso. Para controlar o tráfico é imprescindível que a Receita Federal controle também o Pix da Dona Maria, que vende bolo de pote.</p>
<p>As pessoas estão em negação sobre tudo, inclusive sobre o tema de hoje, a ponto de acharem que essa “descoberta” envolvendo o PCC é algo pontual e que o PT está combatendo isso. O que nos leva ao cerne da questão de hoje: com esse material humano, o que nos espera? Veremos mais uma eleição nefasta, imprevisível, guerreada e recoberta de mentiras, manipulação e burrice.</p>
<p>As eleições presidenciais serão em outubro do ano que vem, mas a guerra vai começar antes, nos primeiros meses do ano, e vai se intensificando. Isso significa um 2026 de esmerdeio em sua forma mais pura: polarização pior do que nunca, notícias falsas, gente burra proferindo certezas, maniqueísmo, idiotas achando que algo diferencia Lula de Bolsonaro, teorias da conspiração e, é claro, muita violência e agressividade.</p>
<p>Nesse ponto, Somir e eu bifurcamos e pensamos diferente: eu penso que o fator preponderante do voto do brasileiro é a identificação. Um povo é apenas o reflexo dos seus políticos. E, por esse critério, Lula tem vantagem: a maior parte dos brasileiros segue o template Lula:  hipervaloriza o que faz e adora arrotar virtude, se dizer do bem.</p>
<p>Na minha opinião, uma minoria tem o template Bolsonaro: hipócrita, incompetente, julgador, cretino, conservador que leva a amante para fazer aborto em clínica clandestina, que defende bandido morto quando seu filho é muito bandido.</p>
<p>E não estou dizendo que um perfil seja melhor do que o outro, são duas merdas com alegorias diferentes. Apenas me parece que a alegoria do Lula é mais popular em matéria de quantidade, por isso as pessoas tendem a votar mais nele. Tanto é que quem adere a um dos lados não muda de lado sem se você provar que o político de estimação dele é um lixo.</p>
<p>De forma secundária, eu acho que o que influencia em uma eleição é o entorno, a máquina, as influências externas: mídia, notícias falsas, campanha, marketing, etc. Somir pensa o inverso, ele acha que o fator externo será o determinante, enquanto que a identificação fica em segundo plano.</p>
<p>Mas não tem problema, pois todos os caminhos levam a Roma, no final, nossa conclusão é a mesma: não importa quem ganhe, eles vão dividir o bolo entre si e o povo, como sempre, vai tomar no cu. E tomar no cu brigando por aqueles que estão enfiando no seu cu.</p>
<p>Um dos grandes problemas das pessoas que não pensam, seja por adotarem um político de estimação com o qual se identificam, seja pela manipulação que sofrem dos meios externos é que pessoas que não pensam são imprevisíveis. Isso desestabiliza um país. Além disso, pessoas que não pensam, ao contrário dos filhos da puta, são capazes de fazer tanto dano que matam o hospedeiro que elas parasitam.</p>
<p>O cenário não é bom. O comportamento do brasileiro médio indica que 2026 vai ser um ano difícil, com final infeliz. A necessidade de achar um culpado por tudo e uma solução simples que resolve imediatamente problemas complexos vai acabar levando a maior parte dos brasileiros a um voto muito errado, seja pela teoria do Somir, seja pela minha. Comecem a se preparar, comecem a se blindar e vamos trabalhar a sanidade mental, pois 2026 será insuportável.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Foi bem conveniente que a Sally escolheu ir pelo lado de esclarecer por que a fala de Lula não corresponde à realidade. Isso me libera para explorar como o que se passa por realidade no Brasil é efêmero. Você conseguiria imaginar no começo do ano o Lula sapateando na cabeça do Nikolas Ferreira? O Bolsonarismo pegou uma fase ruim com a opinião pública e já vejo muita gente repetindo o discurso do presidente, alguns inclusive que não estão na lista de pagamento da máquina de propaganda petista.</p>
<p>Repito que foi bom a Sally falar do tema em si, porque eu quero falar dos temas que ainda não aconteceram: eu prevejo muito mais reviravoltas entre direita e esquerda, sempre ao sabor da polêmica mais recente. É normal que as coisas mudem, mas junto com essa gangorra de opiniões e versões cria-se a ilusão de que existe algum planejamento mais complexo na política polarizada.</p>
<p>O tal do “xadrez 4D” que virou meme em muitos lugares onde se discute política: a ideia de que seu político de estimação está com um plano brilhante para ganhar a disputa, e que qualquer coisa que pareça um erro na verdade é um truque. Quem acredita nessa teia de intrigas e planejamentos de longo prazo dos poderosos se sente justificado toda vez que a opinião pública parece mudar de lado.</p>
<p>“Tá vendo? Era o plano fazer aquela besteira imensa mês passado porque força o inimigo a cometer um erro ainda maior logo depois!”</p>
<p>Seria engraçado se não estivesse se tornando uma racionalização de incompetência. Ao invés de aceitar que são apenas pessoas tomando decisões estúpidas por descontrole emocional aliado a um baixo QI, é mais confortável entrar na narrativa do jogo de poder. Dá um propósito para toda essa palhaçada.</p>
<p>Tudo bem cometer erros grotescos, porque assim que a gangorra mudar de lado por um erro ainda mais imbecil do outro lado, você justifica como uma estratégia. As “linhas tortas” dos deuses sendo aplicadas em pessoas comuns. Se a pessoa não consegue entender por que seu político age de forma contrária à expectativa que colocou nele, é um plano maior. Pronto.</p>
<p>Tem gente mordendo de verdade a isca de que o Lula “deixou o inimigo agir” no caso do Pix para dar essa invertida na direita. E não ria do amiguinho ainda, direita, assim que o PT estiver por baixo e um bolsonarista conseguir dar uma lacrada para cima deles, é quase certeza que vai virar para achar que a direita jogou sabendo disso e foi tudo de propósito.</p>
<p>Essa forma de inventar ordem no caos de pessoas que só pensam no próprio poder dá um ar de normalidade política no país. Se você se diverte com conspirações malucas e situações imprevisíveis, gente competente e inteligente é a coisa mais chata do mundo. Política de países mais funcionais é entediante, não existem planos mirabolantes nem variação severa de popularidade de um dia para o outro. Ainda tem suas confusões e polêmicas, é claro, mas dá tempo do povo se concentrar em outras coisas entre uma bagunça e outra.</p>
<p>Nikolas fez o vídeo sem nem saber direito o que estava protestando, o povo aderiu por não querer pagar imposto. Lula foi aconselhado a deixar quieto porque ia ser ruim para a sua campanha de reeleição. O pessoal técnico que sugeriu a mudança das regras sabia o que queria fazer, mas o resto entendeu o que era mais conveniente na hora.</p>
<p>A gente aqui ficou do lado rebelde porque não acreditava (e continuamos não acreditando) que Lula e cia. não iam usar brechas para aumentar impostos, seja naquele momento ou depois. Como o presidente segue a cartilha terraplanista de economia, onde aumentar gastos públicos é a resposta para tudo, continuo querendo a Receita Federal longe das milhões de pessoas que se viram na economia informal.</p>
<p>Mas sem ilusão de que Nikolas era amigo do povo ou que fazia parte de um plano maior para salvar o país. O desfavor aqui é que debaixo dessa fantasia coletiva de que existe um plano, as pessoas continuam acreditando que a polarização vai dar certo. Não necessariamente que um dos lados é melhor, porque isso varia por gosto, mas que existe uma batalha do bem contra o mal e que nos resta descobrir qual é o bem.</p>
<p>É uma batalha entre um grupo que quer dinheiro e poder usando táticas populistas com arroubos autoritários contra outro grupo que quer dinheiro e poder usando táticas populistas com arroubos autoritários. E no ciclo de notícias até o minuto do cidadão digitar seu voto na urna, eu entendo que está tudo em aberto. Se a pessoa está esperando votar no bem contra o mal e não está cega por religião ou culto de personalidade, a escolha acaba sendo meio&#8230; aleatória.</p>
<p>Hoje quem é o bem e quem é o mal? E no final do ano? E um mês antes das eleições? E uma semana? E um dia? Considerando que existe uma massa de manobra grande o suficiente para decidir quem vence as eleições no ano que vem, e que a ideia de que esses tropeços dos candidatos são enxergados como planos, nem se a direita ou a esquerda passarem meses e meses apanhando do povo significa que não vai ser decidido na hora quem ganha. Porque se a história viralizada da semana pender para um dos lados, o povão pode resolver que tudo o que aconteceu antes ou não importa ou era parte do plano.</p>
<p>É a visão imediatista de que importa a confiança na hora de votar, não o acumulado de suas palavras e ações até ali. Tenho certeza de que até o dia que o brasileiro médio decidir seu novo presidente ainda vamos escrever vários textos falando sobre um lado ou outro usando uma vantagem momentânea para defender as coisas mais cretinas. E que nada disso importa na hora da decisão sobre os quatro anos posteriores.</p>
<p>São pombos jogando xadrez, não xadrez 4D.</p>
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		<title>Reincidência.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/08/reincidencia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Aug 2025 18:12:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Misturamos duas notícias hoje: uma que passou pelos sites de notícias mais sérios e uma que passou pelos sites de fofocas sobre subcelebridades. No relatório, a corporação revela conversas entre Eduardo e Jair Bolsonaro. (&#8230;) “Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas graças aos elogios que você fez a mim no Poder [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Misturamos duas notícias hoje: uma que passou pelos sites de notícias mais sérios e uma que passou pelos sites de fofocas sobre subcelebridades.</p>
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<p>No relatório, a corporação revela conversas entre Eduardo e Jair Bolsonaro. (&#8230;) “Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas graças aos elogios que você fez a mim no Poder 360 estou pensando seriamente em dar mais uma porrada nele, para ver se você ‘aprender’. VTN* SEU INGRATO DO CA**!” , escreveu Eduardo. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2025-08-21/eduardo-critica-acao-da-pf-e-chama-dialogos-de-normais.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>Na noite de quinta-feira, 21, Wanessa Camargo teria sido alvo de uma agressão do ator Dado Dolabella durante um evento no Bar do Vidal, localizado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. As informações são da jornalista Fábia Oliveira, do Metrópoles. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://www.terra.com.br/diversao/gente/urgente-dado-dolabella-agride-wanessa-camargo-em-bar-no-rio-de-janeiro,e7585768f200be4897d9d9b3b921c40c9flmdd6m.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>Como conectar as coisas? Recorrência de maus comportamentos que não parecem convencer o brasileiro médio que é hora de ser melhor. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-32189"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>O que mais nos chocou não foi ver um filho falando nesses termos com um pai idoso, com saúde debilitada e passando pela pior fase da sua vida. O que mais no chocou foi ver o tanto de gente que acha isso normal, justificável, relativizável ou aceitável. É a mesma sensação que tivemos quando o goleiro Bruno disse “quem nunca saiu na mão com sua mulher?”. E, atenção: os dois lados estão errados!</p>
<p>Vamos começar com o lado da oposição. Primeiro, não tolero que se façam de finos, educados e civilizados. Janja mandou Elon Musk se foder, aos gritos, em um microfone em um evento oficial (uma palestra no G20). O filho do Lula chama Janja de xingamentos muito baixos quando se refere a ela. Uma das mensagens que acabou vazando mostra ele dizendo “a puta vai estar junto”. Lula então, é o rei das barbaridades e baixarias. São tão mal-educados quanto, tão baixos quanto, mas adoram dizer que são melhores.</p>
<p>Outra coisa que eu não tolero é culpar o Bolsonaro, ou qualquer pai ou mãe, pelo comportamento do filho. Isso pode ser feito quando o filho é criança, mas adulto? Por favor. Adultinho é responsável por seus atos e tem total capacidade de entender o que é aceitável ou não, o que é educado ou não, independente do que tenha visto na sua casa. Se seus pais foram um péssimo exemplo, se corrija. Muito cômodo um adulto imputar seus erros aos pais. Faça o favor, depois dos 18 você é responsável por não se corrigir no que tem de ruim em você.</p>
<p>E gente que enche a boca para dizer que nunca falou assim com o pai pois perderia os dentes? Como se isso fosse uma coisa boa, como se isso fosse um motivo de orgulho, como se quebrar os dentes do filho fosse um sinal de que o pai deu uma educação correta. Sinto te dizer, mas se você não falou esse tipo de coisa para o seu pai pois perderia os dentes, você não é educado, é adestrado. Não deixou de falar por respeito, por amor e sim por medo. Isso para mim não vale absolutamente nada nem depõe a seu favor.</p>
<p>Não passa pela minha cabeça, nem nos meus sonhos mais obscuros, falar qualquer coisa remotamente parecida com isso para o meu pai. Minha boca não conseguiria falar essas palavras, isso rasgaria meu coração, isso me geraria um mal-estar tamanho que eu simplesmente não conseguiria dizer. Por amor a ele, por respeito, por toda a relação que construímos. E eu estou com sérias dificuldades de entender como alguém pode achar normal, aceitável ou saudável uma relação na qual isso acontece.</p>
<p>Aí sempre vem o bárbaro e diz “ain, tá querendo bancar a superior”. Amigo&#8230; primeiro que não é “bancar”, essa é a minha realidade. Segundo que&#8230; superior? Isso é o básico do básico, do básico da decência, civilidade e humanidade. Não é superior, é o mínimo que se espera de uma pessoa decente. O mínimo mesmo. </p>
<p>Mais um argumento que me causa arrepios: achar graça ou aplaudir por ser contra o Bolsonaro. Não é uma discussão política. Não é o político Bolsonaro quem está sendo criticado. É o pai. E é muito triste ver um filho fazendo isso comum pai idoso, doente e passando por um momento delicado da vida. Foda-se o que eu acho do Bolsonaro político. Foda-se que tipo de pai o Bolsonaro foi, se seu pai foi um bosta, não seja um bosta de filho. É triste. É escroto. É errado.</p>
<p>Ver um filho, que só chegou aonde chegou pela ajuda que recebeu do pai, se referindo nesses termos a ele sempre vai ter o meu repúdio. Ver um adulto tratando assim um idoso com a saúde em frangalhos sempre vai me causar repulsa. Minha humanidade não está condicionada a política. Acha que seu pai é um bosta que não merece respeito? Corta contato. Fazer isso não é aceitável em nenhum cenário.</p>
<p>O curioso é que o que eu mais escutei foi: “Ain mas ele estava nervoso”.<br />
OI?<br />
OOOOOOOOOOOOOOOIIIIIIIIIII?<br />
Para vocês, estar nervoso justifica mandar o pai tomar no cu?<br />
Chamar o pai de “ingrato do caralho”?<br />
Em que mundo, em que povo, em que casa estar nervoso justifica xingar, ofender e atacar pessoas que você ama? No meu certamente não. E me preocupa que seja tão justificável para tanta gente.</p>
<p>Estar nervoso não é aval para NADA, vocês estão me entendendo? Estar nervoso só justifica ter uma tremedeira, nada mais. Um adulto consciente, civilizado e maduro não xinga os outros por estar nervoso e normalizarem que xingue me preocupa muitíssimo. Não é normal. Não é aceitável.</p>
<p>E se eventualmente acontecer, a postura de qualquer pessoa sã é entender que foi um erro gravíssimo e procurar ajuda, tratamento, ferramentas para que isso nunca mais se repita. Tem que ficar mortificado, pedir desculpas (inclusive públicas) e se mexer para que isso nunca mais aconteça.</p>
<p>Para mim, o grau de barbárie do “ain, ele estava nervoso” é o mesmo de quem estupra uma mulher porque ela estava de saia curta. São argumentos completamente desconexos e desproporcionais que beiram a psicopatia. </p>
<p>Fez isso quando está nervoso? Pois muito bem. Primeiro saiba que não é aceitável. Depois se comporte de acordo com esse entendimento e procure ajuda para não repetir esse comportamento em vez de cruzar os braços e deitar no berço esplêndido do “estava nervoso” ou fazer promessa vazia de que nunca mais vai fazer. Se não procurar ajuda, vai fazer novamente sim.</p>
<p>E se a gente for entrar no mérito da questão, a coisa fica ainda pior. Eduardo Bolsonaro é cria do pai, se não fosse o pai, nunca teria entrado na política, muito menos com o sucesso que entrou. Deve ao pai sua carreira. E chama o pai de “ingrato do caralho”? Não dá. </p>
<p>Fora que, além de tudo, é contraproducente. Ficou puto por ser chamado de imaturo e foi lá e deu uma enorme, gigante e robusta prova de imaturidade. Se queimou, queimou o pai e ainda se queimaram com os EUA, afinal, não é muito elogioso reclamar que vai ter que passar o resto da vida “nesta porra aqui”.</p>
<p>Com meia dúzia de frases Eduardo Bolsonaro matou sua carreira política, desmoralizou seu pai (pois a imagem do grande capitão imbroxável ruiu ao ser humilhado pelo próprio filho), se indispôs com os EUA, provou que de fato é imaturo e reforçou na sua família a fama de pessoas mal-educadas que usam termos chulos. Meus mais sinceros parabéns.</p>
<p>A utilidade que você pode tirar desse evento lamentável é avaliar como você anda tratando as pessoas que ama, às quais deve gratidão. Apontar o erro do outro e tripudiar pode ser muito divertido, mas não te ajuda em nada. Aproveite a ocasião para se perguntar como em tratado as pessoas importantes da sua vida.</p>
<p>E repita comigo: não é normal xingar seu pai, seu marido, sua mãe, sua esposa, por estar nervoso.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Tem toda uma conexão aqui entre o tipo de relação que as pessoas toleram, e como isso acaba definindo que tipo de vida elas vão viver. Especialmente no Brasil, onde não existe nenhuma repressão razoável de comportamentos agressivos, as pessoas parecem achar que passionalidade é isso mesmo, macacos berrando e se batendo.</p>
<p>E no caso das subcelebridades em questão, podemos ver uma mulher totalmente capaz de se livrar de uma relação com uma pessoa agressiva voltar com uma pessoa agressiva só para&#8230; ser agredida. Não é o caso da mulher refém de um homem violento numa comunidade carente, é uma mulher rica e bem relacionada que escolhe esse tipo de relação.</p>
<p>Porque na média brasileira, homens gostam de mulheres malucas e mulheres gostam de homens violentos. É uma atração fatal típica de grupos socialmente atrasados. Acontece em outros países quando as condições se equiparam às brasileiras, mas os números da violência aqui sugerem que o Brasil passa do esperado, é meio que uma identidade nacional nesse ponto.</p>
<p>Podem até passar a imagem para o gringo que aqui todo mundo é feliz e dança na praia; mas de brasileiro para brasileiro, eu sempre entendi a alma nacional como uma pessoa agradável e risonha que DO NADA fica extremamente furiosa e violenta. E eu sinto que o problema é que a gente não reprime suficiente essa parte do comportamento alheio. Entre nós fica esse acordo nefasto de tolerar excessos porque tem vantagem secundária na passionalidade.</p>
<p>Antes de jogar pedra na amiguinha, vou falar de homem: mulher maluca é divertida quando ela está no modo maluca para agradar. Mulher descompensada quando cisma que quer ganhar homem faz tudo o que você quer com um grau de desprendimento pela dignidade sem paralelos em mulheres mais estáveis da cabeça. Mulher maluca lambe o chão que você pisa. Mas ela vai cobrar em outros lugares. E vai cobrar caro. Ser adulto é perceber que a lambeção é passageira, mas a maluquice é eterna.</p>
<p>No caso das mulheres, existe uma atração especial por violentos e bandidos, e não é pela parte de ser vítima da violência, e sim pela fantasia de poder. Eu não sou mulher para sentir de verdade isso, mas eu sinto que é algo próximo de segurar uma arma de fogo. Tem um monte de riscos, mas é poder emprestado na sua mão. Todo mundo tem que lidar diferente com você quando você está com uma arma na mão. E é claro, provavelmente todo o instinto de estar junto com o macho que manda nos outros machos.</p>
<p>E sim, tem a parte da beleza que vale para os dois sexos. Que atire a primeira pedra quem não passou um sinal vermelho ou outro por atração sexual.</p>
<p>O ponto aqui é que é algo compreensível essa atração, mas não é uma boa ideia para a vida. E se a visão predominante for que mulher maluca e homem violento são só “passionais demais”, normalizam-se os comportamentos ruins. Não queremos gente maluca e violenta no mundo, a parte divertida dessas pessoas não compensa. Parece que compensa na hora que elas estão agindo de acordo com nossas vontades, mas quando você tira a média de como é sua vida entre esses momentos, é muito mais sofrimento que felicidade.</p>
<p>É uma conta que não fecha. Mas a sociedade brasileira se recusa a olhar para esse problema. Ou entra o discurso de “não culpar a vítima”, ou entra a desistência total de melhorar achando que “homem ou mulher” é tudo igual. Dois caminhos expressos para não lidar com o problema. O brasileiro escolhe político e parceiro sem fazer juízo de valor de sua estabilidade emocional, e quando reclama dos resultados e ouve que tem uma parte da culpa, entra na defensiva. Parece que o direito de agir feito um animal raivoso a qualquer sinal de contrariedade é o mais importante de todos.</p>
<p>Eu estava até falando com a Sally sobre minha ideia de “recorrência” em casos de violência doméstica. Tem que ter alguma diferença entre a mulher que vai denunciar o homem com o qual convive pela primeira vez e pela décima. É uma mulher que não consegue se livrar na prática do homem violento ou é uma mulher que continua por motivos emocionais? Chega uma hora que precisamos definir se é uma questão de sequestro ou de problema emocional sério que faz a mulher continuar escolhendo voltar para o agressor.</p>
<p>Minha ideia é que o agressor seja sempre punido pela agressão, mas que existam mecanismos para literalmente culpar a vítima se ela podia se afastar e não quis. Não precisa prender a mulher, mas tem que fazer acompanhamento psicológico. Se uma pessoa fica tentando pular na jaula do leão no zoológico seguidas vezes, tem que no mínimo ser banida de visitar o zoológico.</p>
<p>Porque é importante definir como sociedade que não existe essa desculpa da passionalidade para comportamentos antissociais contínuos. Deu algo errado que deveria ser tratado. Não tem o próximo passo rumo a um desenvolvimento humano maior se não conseguirmos acabar com essa glorificação de descontrole emocional: só é descontrole se a pessoa consegue controlar. E vejam os exemplos que se repetem no país, é gente que simplesmente não entende que não pode ficar berrando e batendo toda vez que não está contente com algo.</p>
<p>Todas as sociedades precisam controlar seus violentos. Não tem jeitinho que resolva.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Não nasceu ontem.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/08/nao-nasceu-ontem/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Aug 2025 15:46:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Pouco mais de um ano antes de as denúncias do influenciador Felca provocarem uma onda de comoção nacional e mobilizarem o Congresso Nacional, acusações semelhantes contra Hytalo Santos resultaram em uma ordem judicial para remoção do conteúdo. LINK O tema continua porque quanto mais se mexe nele, mais fede. Desfavor da Semana. Continuamos no assunto. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Pouco mais de um ano antes de as denúncias do influenciador Felca provocarem uma onda de comoção nacional e mobilizarem o Congresso Nacional, acusações semelhantes contra Hytalo Santos resultaram em uma ordem judicial para remoção do conteúdo. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://revistaoeste.com/politica/ha-1-ano-justica-mandou-tirar-do-ar-denuncias-sobre-o-influenciador-hytalo-santos/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>O tema continua porque quanto mais se mexe nele, mais fede. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-31940"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Continuamos no assunto. A coisa é tão séria, tão profunda, com tantas camadas, que falamos sobre isso durante a semana e continuamos hoje: o Brasil comete todo tipo de abuso, desde os mais violentos, até os mais sutis (e nem por isso menos danosos) com crianças e ninguém consegue sequer conversar com seriedade sobre o assunto, quanto menos agir.</p>
<p>Questões preliminares já foram tratadas <a href="https://www.desfavor.com/blog/2025/08/adultizacao-de-verdade/" target="_blank">neste texto</a>. Vamos seguir em frente e aprofundar um pouco mais.</p>
<p>Primeiro ponto: adultos infantilizados criam crianças adultizadas. A maior parte das pessoas não tem tempo, recursos e maturidade/sanidade emocional para ter filhos, então, querendo ou não, consciente ou não, expõe demais seus filhos e funciona como uma engrenagem nessa máquina de abusos. Como o ganho secundário é enorme (vaidade, ego, likes, dinheiro ou outros que não cabe citar), as pessoas jamais vão refletir ou admitir isso.</p>
<p>Aí, quando eu faço um texto dizendo que não tem que postar foto de criança em rede social, vem uma enxurrada de xingamento e justificativa. “Ain mas meu perfil é fechado”. “Ain mas você é muito radical”. “Ain mas todo mundo faz”. NÃO INTERESSA. NADA DISSO INTERESSA. Conheçam o país no qual vivem. Não exponham criança em rede social. Não postem foto. Não permitam que criança tenha ou use rede social. </p>
<p>Aí vem meu argumento favorito: “Mas se a gente for pensar assim, não vive”. Quão putrefato tem que estar o cérebro de quem acha que não postar foto em rede social é não viver? Qual o grau de retardo mental, futilidade e inversão de valores que alguém tem que experimentar para achar que não postar foto em rede social é sinônimo de uma privação grave?</p>
<p>Eu sei, eu sei, é uma batalha que não vale à pena ser travada, pois já está perdida. A pessoa, em sua imensa necessidade de atenção e validação, sempre vai postar coisas da sua vida privada em redes sociais. Só quero deixar registrado que pedófilo age assim por ser doente, então, por mais errado que seja, há uma explicação. O que os pais fazem com seus filhos no Brasil não tem explicação científica, é pura imbecilidade.</p>
<p>Outro desfavor que vimos: mudar o foco do que é importante. “Ain o Felca não pode falar pois postou isso e aquilo”. “Ain o influencer preso é petista”. Por favor, podemos focar na questão urgente? O Brasil violenta crianças de forma sistemática, repetida e abundante por décadas, inclusive muito da violência acontece dentro da própria casa. Podemos olhar para isso? Podemos debater uma solução para isso? Não. Pois dói muito. Dá desespero. As pessoas preferem acreditar que o Papai Estado vai criar lei e resolver para elas, como se lei resolvesse alguma coisa no Brasil.</p>
<p>Mais um ponto que precisa ser falado: abuso com criança acontece muito no Brasil. Abuso e sexualização de criança acontece muito, muito mais do que as pessoas imaginam, pois criança dificilmente consegue se livrar de um abusador mais velho, denunciar, ser ouvida. Acontece em todas as classes sociais. Certamente VOCÊ, da rede social fechada, que acha que tá seguro postar foto dos pimpolhos, conhece mais de uma pessoa que julga ser normal, mas que de alguma forma, sem você saber, abusa de crianças. Ou seja, há muita procura por isso. Os números não mentem: há uma demanda enorme por esse tipo de conteúdo. Ninguém faz, mas quem promove isso tem milhões de seguidores e visualizações&#8230; o que significa que esse conteúdo movimenta muito dinheiro.</p>
<p>E se movimenta muito dinheiro, das mais diferentes formas, podem ter certeza de que nenhuma empresa e nenhum governo corrupto vão permitir que essa fonte de renda lhes seja tirada. As empresas inclusive vão largar dinheiro nas mãos do governo por debaixo dos panos para que possam continuar explorando esse nicho. Todos vão continuar fazendo o que fazem: fingir que estão tomando providências com regras, leis e medidas que sabem que não vão funcionar.</p>
<p>Por cima de tudo isso ainda temos pessoas monotemáticas com a ladainha de regular redes sociais. Meus queridos, a maior parte dos abusos acontece dentro da casa da criança! Pelo pai, pelo padrasto, pelo avô, por um amigo da família. Redes sociais não são a causa! Acontece e acontecia sem rede social. Rede social só mostra o que estava escondido.</p>
<p>Que tal ir ao cerne do problema em vez de ficar culpando redes sociais? O brasileiro (educar, civilizar) e os pais (obrigar a não expor os filhos). Ah mais isso ninguém quer, pois se você responsabiliza as pessoas, elas não gostam, elas se chateiam, elas se ofendem e a pessoa que fez isso perde votos.</p>
<p>Tem uma frase muito boa que se aplica a essa situação: “para que as coisas continuem como estão, é preciso que mudemos”. É justamente isso que fazem com o povo. Para que sexualização e abuso de criança continue rendendo fortunas, é preciso que algo mude e os envolvidos finjam que se importam e que estão tentando fazer algo a respeito. Como em todos os outros casos que explodiram, em duas semanas o povo vai esquecer, pois vai achar que Papai Estado vai criar uma lei para solucionar tudo. Resolver de verdade ninguém quer.</p>
<p>O primeiro passo seria o brasileiro entender o tamanho do problema, entender o tamanho da precariedade do povo. Não apenas do pobre ou do sem instrução, do povo. Tem rico fazendo isso, tem político fazendo isso, tem empresário fazendo isso.</p>
<p>Mas, cada vez que a gente tenta falar, o brasileiro fica na defensiva: “problema todo lugar tem” e “ain mas também temos muitas coisas boas”. Não reconhecer o problema (ou a dimensão do problema) é a maior garantia da manutenção do problema. Brasileiro, na média, não aceita críticas sem ficar na defensiva, sem se incomodar, sem se ofender. E enquanto continuar assim, não vai melhorar.</p>
<p><a href="https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/05/12/brasil-teve-13-criancas-e-adolescentes-vitimas-de-violencia-por-hora-mostra-atlas-da-violencia.ghtml" target="_blank">Dados oficiais</a> (que conste, muito inferiores aos dados reais, por motivos que já explicamos) mostram que no Brasil mais de dez crianças são vítimas desse tipo de violência por hora. POR HORA. Se você acha que em todo país é assim, você está fora da realidade. Não é assim. E quanto antes cair essa ficha, antes você consegue dimensionar o quanto seu filho precisa de proteção e pensar em soluções realísticas para o problema.</p>
<p>Por enquanto, o que a gente vê é que ninguém quer discutir ou resolver. O povo por estar em negação da seriedade da questão e por insistir em evadir sua privacidade em troca de ganhos secundários. O governo e as empresas por um lucro violentíssimo que obtém disso.</p>
<p>Depois ficam “ain o brasileiro tem mais é que se foder, olha as escolhas que faz”. Que tipo de saúde mental, desenvolvimento e cognição pode ter um povo que é abusado dessa e de muitas outras formas na infância? Não tem como criar um adulto saudável, um povo saudável, uma sociedade saudável nesse contexto.</p>
<p>Não tem como um país melhorar se seu cidadão já começa a vida dessa forma, não importa o que um governo faça. </p>
<p>Comecem a entender a dimensão do problema sem relativizar ou mitigar, só assim soluções condizentes podem começar a surgir.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Quando os holofotes apontaram para Hytalo (eu prenderia só por causa do nome), o grande público parece ter ficado chocado com os conteúdos publicados por ele e sua trupe de menores. Mas tem algo que me chamou muito mais atenção: os milhões e milhões de seguidores que tinha em suas contas de rede social.</p>
<p>E é curioso como esse ponto não ganhou tanta atenção assim. Mesmo sabendo que influenciador quase sempre tem muito mais bot que seguidor de verdade, os números continuam sendo impressionantes. Algumas milhões de pessoas de verdade acompanhavam o que ele postava. A demanda existe, e existe em grandes números.</p>
<p>Minha teoria é que a mídia e boa parte da discussão sobre o tema pularam essa parte porque é algo incômodo: incômodo admitir que esse conteúdo é muito desejado pelo brasileiro e incômodo por causa da zona cinza entre sexualização de crianças e sexualização de adolescentes quase adultos.</p>
<p>Toda essa indústria exposta recentemente se baseia em não dar bandeira demais. Os perfis de crianças gerenciados profissionalmente tentam manter uma aura de inocência e espontaneidade para não chamar atenção para sexualização e abusos “trabalhistas” cometidos contra suas estrelas. Já os perfis de adolescentes gerenciados por eles mesmos ou por terceiros ficam num limite tecnicamente antes do conteúdo erótico/pornográfico, jogando com a ideia de que esfregar a bunda numa câmera de celular faz parte da cultura online brasileira. E não nos enganemos&#8230; faz sim.</p>
<p>Perfis como o de Hytalo e sua trupe conseguiam ficar escondidos à plena vista porque para a maioria dos brasileiros em seu estado natural, não tem nada tão chocante assim em sexualizar adolescentes. Desde, é claro, que esse brasileiro não tenha que dizer isso em voz alta. Se você colocar um microfone na frente da maioria das pessoas, a idade de consentimento deveria ser de 40 anos! Então, é claro que a opinião pública pareceu escandalizada.</p>
<p>Mas os milhões de seguidores estavam lá o tempo todo. E até quem não era fã e sabia que acontecia não parecia realmente preocupado com isso. É nessa dissonância entre o que o povo faz e o povo diz que faz que mora o problema abordado aqui. É claro que temos problemas sociais sérios com a tal da “adultização” de crianças e adolescentes: na hora de pedir ação do poder público e dar opinião o povo é extremamente conservador, na hora de lidar com crianças e adolescentes, é extremamente liberal.</p>
<p>E aí ninguém sabe como agir.</p>
<p>Numa sociedade que age de forma conservadora, como o brasileiro diz que é, o povo se regula de forma a suprimir sexualidade de jovens mesmo que não existam leis. Se vai ficar no pé de todo mundo menor de idade para “andarem na linha”, até faz sentido essa visão cristã de manter o jovem ignorante sobre o tema. Aí tem lógica interna dar chilique porque a escola quer ensinar como funciona o sistema reprodutor da criança. A escolha é por mantê-los no escuro e suprimir qualquer comportamento nesse sentido.</p>
<p>Numa sociedade que age de forma liberal, como o brasileiro realmente é, a liberdade dada aos jovens de explorar sua sexualidade necessariamente tem que vir com educação. Se a menina de 14 anos já está fazendo sexo, que ela saiba muito bem como não engravidar, como se proteger de doenças, e até mesmo como lidar com a carga emocional relacionada com o sexo. E para ela saber disso aos 14, tem que começar a conversar com ela sobre o tema bem antes.</p>
<p>Agora, o país acaba se organizando de forma a pressionar o jovem a lidar com sexo muito cedo ao mesmo tempo que trava uma cruzada contra ele aprender sobre o tema, ou mesmo poder conversar francamente sobre o que sente. É contraproducente em todos os sentidos. Não é à toa que o perfil do influencer fez tremendo sucesso enquanto as pessoas podiam fingir que não estavam vendo: ele estava entregando o conteúdo que o povo realmente queria ver, só não queria que soubessem que estavam vendo.</p>
<p>E isso vai muito além de sexo, o conceito de adultização explorado no vídeo também englobava a forma como crianças e adolescentes são jogados em elementos da vida adulta sem preparo. O que é mais uma das confusões do povo sobre o que realmente quer do jovem: o que não falta por aí é gente que não valoriza estudo ou qualquer tipo de preparo para tocar a vida; mas novamente, se colocar um microfone na frente, a maioria vai te dizer como é importante a criança estudar e como o governo não se interessa por isso.</p>
<p>Uma sociedade que quer preparar seus jovens tem que investir neles e esperar chegarem os resultados. Ou você pressiona essa pessoa em desenvolvimento a valorizar dinheiro e status acima de tudo, ou você deixa o ensino fazer seu trabalho. E a parte da sexualização de novo se mistura aqui: o que aquelas jovens fazem na frente da câmera é uma profissão, e quase sempre uma das únicas que são habilitadas para seguir.</p>
<p>Você consegue imaginar uma adolescente passando dias fora de casa com um estranho numa família minimamente estruturada? Podem até ser super liberais com sexualidade, mas é sobre o cuidado de manter essa pessoa em formação por perto, longe dos perigos da vida e próxima o suficiente para continuar aprendendo o que eles julgam correto.</p>
<p>Muitos desses jovens explorados estão fazendo a única coisa que conseguem. É precariedade que vem muito antes de rebolar de forma sugestiva na rede social. Podem derrubar o perfil desse influenciador, mas tem oferta de jovens sem mais nenhuma opção clara e demanda de um povo que quer consumir a juventude deles. Enquanto existir mercado, vai ter produto e vendedor.</p>
<p>Eu realmente acho que o Brasil precisa escolher um caminho, eu voto no caminho liberal, porque é melhor corrigir abusos de liberdade do que ficar preso num sistema autoritário engessado. Mas honestamente? Se pelo menos esse povo resolvesse bancar seu discurso “para deus ver” e decidisse agir no cotidiano como um povo conservador, seria melhor do que essa bagunça.</p>
<p>É um sistema feito para falhar com crianças e adolescentes. E adivinha só, aconteceu justamente isso.</p>
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		<title>Taxa Brasil.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/07/taxa-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Jul 2025 18:07:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Conhecidos por ser extremamente ativos nas redes sociais, os brasileiros passaram a comentar nas publicações do presidente americano mensagens como &#8220;deixe o Brasil em paz&#8221;, &#8220;Brasil soberano&#8221; e que o país &#8220;não é terra sem lei&#8221;. Após a enxurrada, Trump chegou a restringir os comentários em suas postagens. Eles foram liberados novamente, e os brasileiros [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Conhecidos por ser extremamente ativos nas redes sociais, os brasileiros passaram a comentar nas publicações do presidente americano mensagens como &#8220;deixe o Brasil em paz&#8221;, &#8220;Brasil soberano&#8221; e que o país &#8220;não é terra sem lei&#8221;. Após a enxurrada, Trump chegou a restringir os comentários em suas postagens. Eles foram liberados novamente, e os brasileiros voltaram a inundar a seção com críticas à tarifa. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2025/07/10/brasileiros-invadem-perfil-de-trump-e-dominam-comentarios-deixe-o-brasil-em-paz.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>De novo estamos falando de um tema &#8211; as tarifas ameaçadas por Trump ao Brasil &#8211; baseado na resposta histérica do brasileiro médio. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-30607"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Adoraríamos falar do pessoal do bem desejando morte de criança por causa de uma bolsa ou do Grok xingando os usuários de uma forma que até eu fiquei constrangida, mas o Brasil impõe sua hegemonia mais uma vez no pior fato da semana.</p>
<p>Como todos devem saber, Trump vem promovendo um aumento de taxas na importação de produtos de outros países que, de alguma forma, contrariem os interesses dos EUA. E ele deixou bem claras quais eram as regras. E o Lula conseguiu a proeza de pisotear em praticamente todas as regras apresentadas.</p>
<p>Por exemplo, Trump disse que quem tentasse defender que negociações internacionais não sejam realizadas em dólar, tomaria represália. Desde então, dia sim, dia também, Lula vai a público defender uma moeda única para os BRICs, um amontoado de ditadura e país de IDH baixo que resolveu se comportar de forma afrontosa. Não sou eu que afirmo, o próprio Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, foi a público dizer que a ideia era do Lula e que ele estava pressionando por isso. Esse é só um exemplo. Lula está provocando o Trump por meses.</p>
<p>Pois bem, a consequência veio&#8230; e com ela toda a vergonha correlata, pois tem gente que não sabe ser contrariada sem se comportar como um bebê chorão.</p>
<p>Sendo bem sincera, eu achei até que foi pouco: um aumento de 50% na taxa para produtos brasileiros. Isso significa que um produto brasileiro vai custar mais caro nos EUA. São os EUA regulando os preços pelos quais comprarão e venderão produtos dentro do seu território nacional. Mas, por algum motivo, o brazuca já começou a gritar sobre soberania nacional. “Mas a motivação do Trump&#8230;” meu anjo, ele tem o direito de aumentar os impostos no país dele. O Lula também faz muita coisa por motivação política.</p>
<p>Na real, todos os países exercem pressão uns nos outros. Lula fez pressão na Venezuela pelo Maduro. Lula se meteu na condenação da Cristina Kirchner na Argentina. Por esse raciocínio, Lula viola a soberania nacional de um monte de vizinhos. E quando foi conveniente, esquerdista pediu que o Biden intervenha no Brasil. Complicado isso, quando o Lula faz silenciam, quando o Lula toma, gritam.</p>
<p>Curiosamente, o Brasil taxa os produtos dos EUA em 92%, quase o dobro, e o americano nunca achou que isso feria a soberania nacional deles.</p>
<p>Para piorar, tem muito brasileiro pedindo reciprocidade. Reciprocidade seria reduzir o imposto de 92% que vocês aplicam nos EUA para 50%. E, vamos combinar, até a China peidou para os EUA nessa questão de taxação, será mesmo que o Brasil tem condições e peitar? “Mas Sally, só estão falando em aumentar as taxas para os EUA para ter mais margem de negociação, não tem problema peitar, eles não vão aplicar”. Meu anjo, você conhece o Trump? Acha que ele responde bem a ameaças? E se fosse uma ameaça real até vai, mas todo mundo sabe que é um Pinscher latindo para um Rottweiler.</p>
<p>Já aconteceu com outros países, então, já temos alguma base de observação: Trump impõe uma taxação violenta como aviso, se o país se corrige, melhora a postura e negocia, a coisa é mitigada. É isso o que deve ser feito. Quem quer peitar os EUA tem que fazer o dever de casa antes e se tornar uma nação forte, não dá para peitar uma potência mundial sendo terceiro mundo. Simplesmente não dá.</p>
<p>Se afrontar o moço laranja, ele pode surtar e aplicar a taxa de 50%. Produtos exportados do Brasil correspondem a pouco mais de 1% do mercado americano, os EUA não precisam do Brasil. Mas o Brasil precisa dos EUA, pois é seu segundo maior parceiro comercial.</p>
<p>Então, se Lula tiver um mínimo de responsabilidade, vai enfiar o galho dentro, negociar e mudar a postura do país nas questões que supostamente prejudicam os EUA. Eu tenho certeza de que isso vá acontecer? Não. Lula é um barril de pólvora. É possível que ele e seu grande ego acabem desagradando o Trump novamente, ainda que seja apenas com falas impulsivas ditas por aí.</p>
<p>E mesmo que o Trump recue, não tem que comemorar não. Esse vem e vai de ameaça de taxa mina a estabilidade do Brasil diante do mercado internacional. Isso, por si só, mesmo sem aplicar nenhuma taxa, prejudica demais um país e reflete na sua economia. E quando o Governo pauta sua autuação em gastar feito uns filhos da puta, qualquer decréscimo pode fazer um grande estrago.</p>
<p>O outro lado, por sua vez, não ajuda muito. A família Bolsonaro (e seu entorno) está buzinando no ouvido dos EUA faz tempo pedindo retaliação, punição e sangue. Muito do que dizem está floreado, valorizado, exagerado. Veja bem, eu entendo o desejo de defender alguém da sua família, eu provavelmente faria o mesmo, mas dá para fazer sem jogar todo o povo brasileiro debaixo do ônibus, certo?</p>
<p>Chega a ser contraproducente. Os resultados de uma eventual taxação podem acabar colando na família Bolsonaro. Eu acho maravilhoso, pois impede que qualquer um deles se candidate em 2026, já que o povo vai ficar puto, mas, olhando do ponto de vista deles, não foi algo inteligente.</p>
<p>O brasileiro médio, por sua vez, não se comportou de uma forma digna. Cada “lado” está achando que seu político de estimação agiu muito bem a culpa de tudo é do outro “lado”, quando, para variar, há um somatório de culpas e cagadas. Político unido, povo desunido. A velha fórmula de sempre. E continua eficiente.</p>
<p>Além disso, o brasileiro também deu vexame lá fora. Foram como gafanhotos no perfil do Trump em redes sociais “xingar muito”. Mandaram tanta foto do Vampeta pelado, tanta ameaça, tanto palavrão, que ele teve que fechar os comentários do seu perfil. Sério, gente, qual é a idade mental dessas pessoas?</p>
<p>E ainda é burro. Se você xinga uma pessoa adulta normal, talvez ela sinta pena. Mas se você xinga um infantilóide mimado retardado, pode acabar deixando ele com ainda mais raiva e mais vontade de fazer algo contra o seu país.</p>
<p>Para finalizar o rol da vergonha, tem gente em redes sociais propondo boicote a marcas americanas, equiparando a situação do Brasil à do Canadá. Veja bem, Trump ameaçou anexar o Canadá aos EUA, transformando-o em um estado americano. Isso é muito diferente de taxar produtos.</p>
<p>Mas, em todo caso, o Canadense é capaz de levar adiante um boicote aos produtos americanos. Mas o brasileiro&#8230; será que ele vai abrir mão do seu iPhone? Será que ele desiste de filmes e séries americanos? Tênis, roupas, perfumes? Eu duvido muito, principalmente depois de ver convocação de boicote vinda de perfil que paga selo de verificação de rede social americana.</p>
<p>Tudo uma grande vergonha, principalmente acharem que podem se opor aos EUA. Quando um país não faz o dever de casa não tem força para peitar potências mundiais. É simples assim. “Ain conformista entreguista”. Não, realismo. Algo que está faltando às pessoas. Tenham consciência e inteligência de não afrontar quem é mais forte, caso contrário, o único resultado que vão conseguir é levar uma surra.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>O grande problema da polarização é que ela acaba fazendo as pessoas acharem que as coisas só existem&#8230; polarizadas. É algo que se reforça através de acertos e erros de ambos os lados. Não sei se só eu penso assim, mas não vi quase ninguém dizendo isso em público: as tarifas que o Trump disse que vai colocar no Brasil são resultado do trabalho em conjunto de esquerda e direita brasileiras.</p>
<p>Combinação perfeita: de um lado a turma de Bolsonaro tenta desviar a culpa pelos seus erros dizendo que são perseguidos pelo sistema, e de outro a turma de Lula tenta desviar a culpa pelos seus erros dizendo que são perseguidos pelo&#8230; sistema. O sistema da direita é o STF, o sistema da esquerda são os EUA.</p>
<p>Tanto fizeram tentando sabotar o Judiciário e provocando o Trump para ganhar biscoito que as coisas se juntaram no presidente americano argumentando que as tarifas para o Brasil eram uma resposta ao que fizeram com Bolsonaro e o alinhamento do país com China e cia.</p>
<p>Trump não deixa de ser um agente do caos e sua política de taxação não deixa de ser uma bagunça de ideologia política e econômica, mas ir lá cutucar o laranjão foi escolha deliberada de ambos os lados da política brasileira. Agora que as pessoas reagiram mal à ideia da taxação, os dois campos tentam fazer o outro assumir o filho feio.</p>
<p>Verdade seja dita: em nível de escrotice, eu até acho que os esforços de Eduardo Bolsonaro são mais defensáveis. Está tentando salvar o pai da cadeia. Está fazendo de um jeito muito burro que faz o resto do país sofrer junto, mas de um ponto de vista humano, eu não julgo com tanta rigidez quem faz coisa errada para tentar ajudar a sua família.</p>
<p>Lula eu já não sei bem como justificar. Me parece algo mais egocêntrico. Já escrevi aqui outras vezes que não dá para entender o atual presidente brasileiro sem sua visão dos EUA como eram nos anos da Guerra Fria. Nessa altura do campeonato, já não dá entender os EUA como a mesma coisa que ele supostamente lutava contra nos seus tempos de comunista raiz. É importante entender que os americanos têm seus próprios interesses que vão colocar na frente do Brasil, mas o imperialismo do século passado já caducou na mente do povo e dos políticos no controle do país.</p>
<p>Entendendo ou não o que ambos os agentes fizeram nessa situação, não muda o fato que é uma dança de dois. Sem a combinação dos poderes dos dois lados do espectro político tupiniquim, seríamos só mais um país aleatório na lista de Trump. Ele pode estar preocupado de verdade com uma suposta perseguição política a Bolsonaro, mas não se enganem, Trump continua não sabendo apontar o Brasil no mapa.</p>
<p>Nas últimas décadas, o brasileiro votou compulsivamente nessas pessoas que colocam seus interesses pessoais acima de tudo. Para escapar de um crime que foi cometido ou mesmo para alimentar o ego de quem acha que ser famoso no Brasil é pouco, ganhamos problemas econômicos. Mesmo que seja só mais uma bravata de Trump, parte do jogo dele de pedir muito no começo para negociar, ainda é dor-de-cabeça desnecessária. Ele poderia ter começado de 30% que nem fez com a União Europeia ou com o México.</p>
<p>Tudo o que essa gente ganhou para gente foram condições piores de negociação. Para eles? Vantagens pessoais. Mesmo que a direita seja burra feito uma porta e esteja se esforçando para se queimar com a opinião pública, o plano era tentar virar a mesa e tirar o Bolsonaro da cadeia. Eles ainda estão dizendo isso, o lado político totalmente sequestrado pela popularidade do ex-presidente, que como sempre quer ser beneficiado pessoalmente custe o que custar para o resto do povo.</p>
<p>Do outro, Lula e sua equipe estão tentando descobrir até onde podem esticar a corda com o súbito senso de patriotismo que colou no seu governo. E como sempre, o risco de deixarem estourar para tentar levar o máximo de vantagem eleitoral é enorme. Esse povo também está disposto a arriscar você em troca de poder. Poderiam usar isso para mostrar uma frente unida e negociar mais duro com Trump.</p>
<p>Mas se deixar o brasileiro médio emocionado com isso aumentar a chance de uma reeleição de Lula, vale o risco de mandar foto do Vampeta pelado para o Trump até ele ficar com raiva de verdade. Faz tempo que eu não vejo o Lula tão feliz em discursos e entrevistas. O Trump deu um presente para ele, e esse presente poderia ser usado para ajudar o país.</p>
<p>Poderia, mas como estamos falando de outro lado essencialmente egoísta, da mesma forma que os bolsonaristas topam causar o caos no país para manter seu poder, o governo pode muito bem errar a mão e não parar enquanto está na frente. O maior medo do Lula agora deve ser o Trump voltar atrás rápido demais e matar o momento de patriotismo petista antes dele mexer de verdade com os seus números de aprovação.</p>
<p>Eles vão querer ordenhar essa vaca laranja, e não ajuda nada como apesar de bons de vídeo de rede social, o povo de direita tem zero planejamento de longo prazo. A máquina de propaganda petista plantou o boné azul meses atrás e agora está fazendo a festa com ele comparando com os bonés trumpistas da direita. Todo mundo tentando tirar o máximo disso, doa a quem doer.</p>
<p>E sabe o pior, mesmo com todos os fatos apontando para um quase conluio de Lula e Bolsonaro para fazer o Brasil tomar essa taxa americana, o povo ainda quer escolher um lado culpado e votar no outro ano que vem.</p>
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		<title>Entrando na guerra.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jun 2025 17:46:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Continuamos vendo pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, “entrarem” na disputa entre Israel e Irã. Se você não está na linha de fogo, é muito estranho que seja uma disputa. Desfavor da Semana. No meio desse conflito entre Israel e Irã tem muita coisa bizarra em matéria de postura e opinião acontecendo. Eu [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Continuamos vendo pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, “entrarem” na disputa entre Israel e Irã. Se você não está na linha de fogo, é muito estranho que seja uma disputa. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-29906"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>No meio desse conflito entre Israel e Irã tem muita coisa bizarra em matéria de postura e opinião acontecendo. Eu vou fazer um rápido passeio e o Somir vai aprofundar o problema principal que, na nossa opinião, é uma das causas da maior parte dos comportamentos bizarros que estamos vendo, sejam eles relacionados a guerra ou não.</p>
<p>Vamos começar pela contradição mais gritante: grupos “minoritários” que defendem Palestina, Hamas, Irã e tantos outros governos que os matariam se tivessem oportunidade. Se você faz parte do grupo LGBT, saiba que em qualquer desses grupos/países, você seria morto, de forma cruel, por entenderem que você é uma aberração e não deveria existir.</p>
<p>O que leva pessoas a defenderem países, regimes e pessoas que negam seu direito a existência? É como se galinhas se unissem para protestar a favor do KFC. Você já se perguntou como você reagiria se um país, um regime ou um povo negasse seu direito de existir? Pessoas que, se colocassem as mãos em você, te torturariam e te matariam apenas pelo que você é?</p>
<p>O grau de dissonância cognitiva que alguém precisa ter para defender seus potenciais algozes tem que ser muito alto, quase doentio. E eu acredito que um dos combustíveis seja esse sentimento “anti-EUA” que se convencionou ser bandeira da esquerda brasileira.</p>
<p>Percebam que ninguém é obrigado a gostar dos EUA. Eu mesma não gosto, nunca gostei, você vai achar muito texto meu dizendo que é um povo infantilizado, tosco, que a qualidade de vida em lugar sem uma boa saúde acessível é terrível, que a saúde mental é completamente deteriorada e até dizendo que americano é brasileiro que ganha em dólar.</p>
<p>Porém, levantar bandeira de EUA como vilões do mundo a serem combatidos é infantil. Se você passou dos 20 anos e faz isso, precisa ou de um choque de realidade, ou de terapia. Quem pega qualquer coisa e deposita nela a culpa por tudo de ruim é criança: um vilão é sempre o responsável por tudo de negativo que aconteça ou venha acontecer. Adultos, normalmente, conseguem ter uma evolução mental e psíquica de ver diversos tons de cinza, e não tudo preto no branco. Conseguem ver a construção para que algo ruim aconteça, e nunca é culpa de uma coisa só.</p>
<p>Infelizmente, muito adulto no Brasil tem mentalidade de criança e, por diferentes motivos, seja aplauso da sua bolha, seja pela incapacidade de ver nuances, defende o indefensável. Guerra não é jogo de futebol. Não é para tomar lados. É, em primeiro lugar, para ser contra, pois quem mais se ferra é civil inocente. Depois, pode se avaliar ato a ato e decidir o que quer reprovar de acordo com um contexto. Tomar um lado em uma guerra é validá-la. E quem valida guerra é burro ou canalha.</p>
<p>Mas a pessoa veste a camisa de um dos lados e aplaude tudo que ele faz e critica tudo que o outro lado faz, banalizando uma das maiores tragédias do mundo moderno, como se fosse um Fla x Flu. Isso gera incoerências, contradições e até defesa de pessoas que, se pudessem ter acesso a eles, os matariam sem dó. Em nome de ser contra os EUA, defendem grupos que violam sistematicamente os direitos humanos. A que ponto chegamos&#8230;</p>
<p>O mais triste nisso tudo é que todo brasileiro que odeia os EUA é um vassalo dos EUA e sequer percebe, pois nem resistência sabe ser. Mesmo aquele que diz odiar, prestigia os EUA. O brasileiro pautou toda sua cultura, estrutura, lazer, sistema de trabalho e sociedade no modelo americano. Eu tinha alguma ideia disso, mas só percebi a dimensão quando saí do Brasil. Foi aí que me dei conta que tudo, basicamente tudo do Brasil é chupinhado ou adaptado dos EUA.</p>
<p>O que só torna mais patético pessoas que levam um estilo de vida americano atacando o país. Nessa hora sempre surgem os militantes para dizer que eles não levam uma vida pautada nos EUA, mas na real, levam sim, só não sabem disso pois desde pequenos foram criados nessa realidade e presumem que ela seja brasileira. Não é. A vida de vocês é 100% americana revestida de algumas alegorias nacionais. É EUA com saci, carnaval, festa junina e samba.</p>
<p>Fica parecendo aquele filho que vive na casa do pai, que ganha mesada do pai, que depende do pai, mas vive criticando o pai e desmerecendo tudo que vem dele, que, por sinal, é outra figura muito comum na cultura brasileira. O Brasil com os EUA é esse filho em larga escala. Pelo amor de Deus, bebam de outras fontes se quiserem odiar esse país. Vai acontecer? Claro que não.</p>
<p>É o clássico Brasil: está tão umbilicalmente ligado a algo, de forma tão subserviente, dependente e incontrolável, que toma raiva daquilo. O babaca que vai bater em travesti e depois vai em sauna gay. O idiota que pauta a vida na defesa da família e depois bate na esposa. O imbecilóide que diz que aborto é assassinato e depois leva a amante para fazer aborto. É um modo de funcionar. E a maior parte das pessoas vai viver e morrer sem nunca perceber esse mecanismo.</p>
<p>Parece aquela criança que, na escolinha, puxa o cabelo da menina pela qual está apaixonado: não sabe lidar com o que sente e isso transborda em uma pseudo-rejeição irracional cujos atos e sentimentos contradizem. É bobo, infantil e todo mundo que está de fora e é adulto percebe o que está acontecendo. Mas a criança tá lá, cheia de raiva e jura que odeia a coleguinha.</p>
<p>Estão dispostos a defender quem os assassinaria para se posicionar contra os EUA mas não parecem estar dispostos a parar de consumir seus produtos. Curioso. Dão muito dinheiro para os EUA. “Mas Sally, tal coisa que eu comprei foi feita na China”. Sim, a pedido dos EUA. O chinês ganhou uma moeda por um dia de trabalho em um porão escuro, quem realmente ganha dinheiro é a marca americana que você consome.</p>
<p>Se você está disposto a defender gente que te assassinaria tal é seu repúdio pelos EUA, não faz nenhum sentido consumir nada de marca americana. Ou assistir nenhum filme, seriado ou peça. Ou viajar para lá. Ou prestigiar de qualquer forma qualquer coisa que venha de lá. Se o repúdio é forte o bastante para defender quem te mataria, todo o resto deveria ser apenas uma consequência natural.</p>
<p>Vamos amadurecer? Vamos parar de depositar a culpa de tudo em um único lugar? Vamos sair dessa dualidade onde um país é a causa de todos os males? Tá feio. Tá feio demais.</p>
<p>Se você, sob algum pretexto, defende um grupo que te mataria, você não é herói, não é mais consciente do que o resto das pessoas e não é bom. É apenas um idiota.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>A minha linha política hoje em dia é basicamente antiautoritária. Por isso, mesmo quando um lado me parece pior pelas ideias atrasadas sobre ciência e liberdades pessoais, se o outro tem esse viés de concentração de poder, eu mantenho a desconfiança. Acredito que a fase de reis e ditadores já passou e não ajuda a humanidade em nada buscar isso de volta.</p>
<p>Por isso, critico Israel pelos abusos que comete sem achar que o modelo iraniano é válido. Muita gente parece esquecer que ser contra a guerra é uma posição válida. E aqui, a ideia que explica por que tanta gente resolve “vestir a camisa” de Israel, e bizarramente, do Irã: o mundo virou conteúdo por causa da comunicação em tempo real.</p>
<p>Conteúdo é uma palavra antiga com novos significados na era digital. Com tanta gente reagindo em tempo real e infinitas conexões entre humanos, nossa relação com o que acontece no mundo veio para o primeiro plano. As coisas existem mais como plataforma para reações do que como coisas em si. Mais do que a troca de mísseis entre israelenses e iranianos, a guerra é conteúdo explorável por atenção e todos os ganhos secundários dessa atenção.</p>
<p>E isso influencia a forma como as pessoas pensam. O elemento principal nesta análise é como isso vai fazendo as pessoas acreditarem que precisam ter uma opinião forte sobre o tema. Você provavelmente tem uma opinião forte sobre alguém que divide a casa com você ou sobre um tema com o qual trabalha diariamente. Você pode ter opiniões fortes sobre seus hobbies e interesses cotidianos&#8230; mas dificilmente vai ter uma opinião forte sobre uma guerra cujas bombas não caem no seu quintal.</p>
<p>Sim, eu sei: defina opinião forte. No contexto deste texto, opinião forte é aquela baseada no impacto que as coisas têm na sua vida. Sua opinião sobre o passo certo da dança que mais gosta, da tática certa para o jogo que joga, sobre a melhor forma de fazer algo no seu trabalho&#8230; ou mesmo sobre o ronco da pessoa que dorme ao seu lado; essas são opiniões fortes baseadas em experiência e conhecimento aprofundado de como isso mexe com a sua vida.</p>
<p>Israelenses e iranianos na linha de fogo conseguem ter opiniões fortes sobre a guerra. Nós não. E isso é uma coisa ótima, eu não quero ter opiniões fortes sobre ter medo de ser explodido por um míssil balístico. Mas quando a realidade é substituída por conteúdo, é como se estivéssemos lá. O que aquelas pessoas que vivem a guerra estão dizendo começa a parecer coisa nossa. Repito: não é.</p>
<p>O comportamento esperado de quem consome conteúdo é reagir. E como tudo acontece tão rápido por causa da comunicação de massa, pessoas acabam se enganando que estão lá. A fúria de israelenses e iranianos por causa do que acontece diretamente com eles é transferida para observadores externos. E aí, muita gente acredita que precisa entrar na guerra de alguma forma.</p>
<p>É que apesar de tudo, ainda temos empatia. Quando alguém aparece para nós com todos os sentimentos de quem vive a guerra, eles pegam na gente. Seja numa vítima desesperada, seja num líder tentando unir seu povo numa causa, alguma coisa passa pela tela, grande ou pequena. E aí a nossa análise pode ser contaminada. É humano sentir o que o outro sente.</p>
<p>Só que tem algo menos nobre que vem junto: empatia também é uma fonte de entretenimento. Quando você lê ou ouve uma história, quando você vê um filme ou série, é a capacidade de se colocar no lugar do outro que faz daquela experiência algo realmente interessante. O meu ponto aqui é que guerras transformadas em conteúdo são muito eficientes em gerar atenção e toda uma gama de sentimentos.</p>
<p>Especialmente se você está longe das explosões. Mais ou menos como num filme de guerra, é a sensação sem o perigo. Tanta gente toma lados e começa a defender o indefensável porque o conflito da vez é conteúdo. Público LGBT+ defendendo o Irã não está conectando os pontos entre o sistema iraniano e sua vida. Se não estão morrendo na mão do regime, não está acontecendo de verdade.</p>
<p>É meio como torcer por uma personagem numa série. Você não precisa concordar de verdade, só ter interesse no avanço daquela história. E mais, como um dos lados é muito mais forte que o outro, gera uma torcida inconsciente pelo azarão. Se a pessoa não estiver se forçando a entender o que aconteceria se um dos lados tivesse poder real sobre ela, é bem possível que não entenda mesmo.</p>
<p>Estou absolvendo os defensores do Irã? Não. Porque eu nem estava culpando mesmo. A diferença fundamental entre os textos da Sally e os meus é que ela acha que essas pessoas podem ser melhores. Eu acho que não, porque não conseguem ou não querem ter o trabalho. Tem uma base mínima de inteligência e conhecimento mesmo para entender essas questões sociopolíticas e a única alternativa humanitária é aceitar as limitações de quem não vai dar o próximo passo.</p>
<p>Elas mal sabem por que estão falando ou fazendo besteira. Eu já escrevi isso outras vezes: burrice e ignorância não doem, não custa tão caro assim na mente de alguém defender o Irã mesmo que o Irã fosse o torturar e matar se vivesse minimamente parecido com o que vive no Brasil.</p>
<p>Pode ser uma anta o quanto quiser, especialmente na internet. É relativamente fácil fingir ser mais complexo do que realmente é, pessoas podem decorar palavras difíceis e repetir discursos que não entendem, porque elas devem se sentir bem fazendo isso. O ponto destes textos é talvez buscar alguém precisando organizar melhor os pensamentos que já tem, ou mesmo dar um suporte para quem tem que conviver com gente assim. Não é exatamente uma opinião sobre a guerra, é uma opinião sobre conteúdo. Novela, filme, jogo de futebol. Parece político e ideológico, mas é entretenimento.</p>
<p>Se eu puder pedir alguma coisa, no entanto&#8230; é não dar cargos de poder para brasileiro que fica muito pilhado por causa de guerra entre Israel e Irã.</p>
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		<title>Pagando caro&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 May 2025 18:40:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois de forte reação do mercado, o governo federal voltou atrás na tentativa de tributar aplicações de fundos nacionais no exterior e manteve a alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em 0% para essas operações, horas depois do anúncio oficial, nesta quinta-feira, 22. No entanto, o Decreto nº 12.466/2025 ainda segue em vigor com [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Depois de forte reação do mercado, o governo federal voltou atrás na tentativa de tributar aplicações de fundos nacionais no exterior e manteve a alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em 0% para essas operações, horas depois do anúncio oficial, nesta quinta-feira, 22. No entanto, o Decreto nº 12.466/2025 ainda segue em vigor com uma série de outras mudanças — estas, mantidas — e que elevam de forma expressiva a carga tributária sobre operações de crédito, câmbio e previdência privada. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://revistaoeste.com/economia/governo-recua-sobre-iof-mas-mantem-alta-para-credito-cambio-e-previdencia/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>Saímos de um governo desastrado para outro. E a grande dúvida do brasileiro parece ser qual incompetente vai eleger para continuar fazendo a mesma coisa. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-29507"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Todo mundo viu o que aconteceu, certo? Não precisa de explicação nem de introdução. Todo mundo está vendo isso acontecer desde que o atual governo assumiu, certo? As cagadas, a má gestão, as chamadas “falhas de comunicação”, sobre as quais já falamos e não são em nada falhas na comunicação. </p>
<p>Pois bem, não vamos ficar aqui nos repetindo do quanto esse governo é bosta e do quanto é absurdo que exista alguma chance, ainda que não seja uma certeza, de que vençam as eleições novamente no ano que vem. Vocês já sabem. Queremos ir um pouco além e sair da reclamação cíclica.</p>
<p>Enquanto argentina, tenho lugar de fala para conversar um pouquinho com vocês sobre tudo que aconteceu para que o país desemboque no Milei. Gostemos dele ou não, somos todos forçados a concordar que ele foi uma terceira via que despontou de um partido sem expressão e venceu os dois grandes partidos e nomes que alternavam poder há décadas.</p>
<p>Milei não foi uma “sorte” ou um “azar”. Não foi um fenômeno da natureza. Não foi algo aleatório. Para que Milei vença os dois grandes nomes, os dois grandes partidos, os dois grandes lados, certas condições foram imprescindíveis. Entre elas, uma raivosa rejeição aos dos principais “lados” da polarização política argentina.</p>
<p>Uma terceira via não surge magicamente, ou por um milagre, ou por uma confluência de astros. É preciso espaço para que surja. E se o povo não rejeitar cavalarmente os dois lados que normalmente alternar o poder, essa terceira via nunca tem espaço para se criar. Enquanto o brasileiro for fã de político e defender um lado em detrimento do outro, não vai surgir terceira via.</p>
<p>Enquanto brasileiro defender qualquer um dos dois lados, ficará preso apenas a esses dois lados. Não adianta pedir por terceira via, ter esperança de terceira via ou dizer que não surge pois “não tem ninguém”. Tem sim. Vocês é que não permitem. É como plantar várias sementes em areia e esperar que brote algo. É como plantar várias sementes na terra e nunca regar. Vocês têm que fazer por onde.</p>
<p>Acho que essa ideia não está muito clara na cabeça da maioria das pessoas por esse mecanismo de esperar sempre coisas caídas do céu, dadas de cima para baixo, sem qualquer mérito ou participação popular. Os políticos brasileiros realmente conseguiram convencer o povo de que ele não tem nenhum poder e o melhor a fazer é torcer por um salvador. Passou da hora de corrigir esse pensamento.</p>
<p>Participar do cenário político do país não é apenas ir à urna votar. É muito mais. É um processo diário. E cada pequeno ato conta. Uma postagem em rede social conta. Mas o povo insiste em negar ou não reconhecer o poder que tem, pois é aquele esquema Homem Aranha: com grandes poderes, grandes responsabilidades.</p>
<p>A esperança do brasileiro, por um misto de desesperança e exaustão, é que as coisas se acomodem sozinhas, se resolvam de forma mágica ou que alguém se encarregue disso. E, para isso, estão dispostos a transigir demais. Se acomodam com o político de estimação merda que tem, pois é o “menos pior”, não se envolvem em política ou se convencem que tanto faz, sempre vão se foder, não importa o que aconteça.</p>
<p>O primeiro grande passo para que se abra espaço para um novo nome é uma violenta rejeição por parte do povo a tudo isso que está aí. Atual esquerda e atual direita. Lula e anexos. Bolsonaro e anexos. Hora de mudar o slogan para “Eles Não” e se fazer ouvir. Não precisa ir para a rua. É uma época privilegiada, você pode fazer muito do sofá da sua casa.</p>
<p>“Mas Sally, quem disse que, só porque aconteceu na Argentina, daria certo no Brasil?”. Isso aconteceu com a Dilma, que, por sinal, caiu por muito menos. A rejeição cavalar abriu espaço para um candidato inexpressivo de partido pequeno. E Bolsonaro se elegeu. </p>
<p>Se o brasileiro massivamente começar a rejeitar os dois lados, isso tem consequências. Aprendam uma coisa: todo mundo tem inimigos. Quanto mais importante a pessoa, mais importantes costumam ser os inimigos.</p>
<p>Lula, por exemplo está cheio de inimigos. Talvez o povo sozinho não consiga mudanças, mas&#8230; o povo não está sozinho. E o Bolsonaro, sempre bom lembrar, além de inelegível, está com sérios problemas de saúde, então, esse aí a própria vida se encarregou de neutralizar.</p>
<p>Eu não estou pedindo que tracem um plano para resolver a situação. Estou pedindo que rejeitem. Que façam uma campanha de rejeição sem precedentes. Isso o povo sabe fazer, e muito bem. O brasileiro é uma máquina de moer reputação, de atormentar em rede social, de falar mal sempre que tem oportunidade. Apenas isso. Detonem esse governo. Abram espaço para algo novo.</p>
<p>Abrir espaço para algo novo é um exercício, seja na política, seja na sua vida. Se você não abrir espaço, o novo não consegue chegar nem entrar. Não é esperar o novo aparecer e acenar para aí abrir espaço. Não é assim que a vida funciona. Primeiro se abre espaço sem nada em vista, e depois o novo chega.</p>
<p>Provavelmente não vão acertar de primeira, provavelmente a terceira via não será a ideal, mas ao menos se exercita a quebra desse monopólio, dessa alternância de poder. Política do café com leite é coisa do passado, chega de dois lados se alternando no poder. Acho muito necessário que o brasileiro seja treinando e apenas a sair desses ciclos destrutivos.</p>
<p>Eu só peço isso, como primeiro passo: aprendam a rejeitar ambos os lados e a fazer com que essa rejeição seja ouvida. Esse é o primeiro passo para abrir espaço para uma terceira via e também para botar algum freio nesses políticos bostas que abusam do povo sem qualquer constrangimento.</p>
<p>Político brasileiro perdeu o medo até de falar merda. Um imitou paciente com falta de ar morrendo em plena pandemia, o outro disse que Deus mandou a seca no Nordeste para que ele possa dar água. Vocês estão em uma relação abusiva. Se separem, mesmo que ainda não tenham outro pretendente à vista.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>O governo Lula passa por uma fase terrível de desconfiança com o brasileiro médio. Quase metade já tinha votado no Bolsonaro eleição passada, e a outra metade demonstra paciência mínima com as ideias lançadas pelo presidente e sua equipe. O povo desconfia, com razão, que o governo quer enfiar a mão no seu bolso sem entregar nada em troca.</p>
<p>E ao mesmo tempo, pesquisas sobre cenários eleitorais para ano que vem dão Lula como favorito, embora de forma apertada. O que diabos está acontecendo? Como o mesmo povo que desconfia de um governante ainda sim pensa em votar nele de novo?</p>
<p>A história do IOF é só mais uma numa lista de tentativas frustradas do governo de mexer na forma de arrecadação e tendo uma reação furiosa da população. É justo porque na campanha para sua eleição, Lula disse que não ia aumentar impostos. Mas se formos realistas, nunca fez sentido considerar a turma do PT como alguém que faz cortes na máquina pública para arrumar as contas do país.</p>
<p>Se você tem algum conhecimento histórico sobre Lula e Dilma no poder, sabe que eles acreditam justamente no oposto: aumentar os gastos estatais para aquecer a economia, nunca foi sobre cortes, sempre foi sobre apostar em arrecadar mais para botar as contas em dia. E quando não tem algo como o boom da commodities dos primeiros governos de Lula injetando dinheiro no país, a coisa não funciona: com a mentalidade de não controlar os gastos públicos, só resta aumentar impostos ou cobrar os que o cidadão costuma sonegar.</p>
<p>O brasileiro talvez não seja muito atento a essas questões de filosofia econômica da esquerda nacional, mas é meio difícil acreditar que agora, durante o governo Lula agindo exatamente dessa forma, não consiga perceber. O povo está sobrecarregado de impostos, não aguenta mais, e por isso não está no clima de políticas desenvolvimentistas baseadas em maiores gastos públicos. Mas se perguntado sobre quem pretende votar em 2026, muitos dizem Lula de novo.</p>
<p>Talvez em 2022 o povo tenha se enganado, mas com um mandato inteiro do PT tentando arrancar mais dinheiro do cidadão por impostos? Não faz sentido achar que Lula vai agir diferente. Mais pessoas pensam em votar no Lula do que pessoas consideram seu governo bom. Como um país pode funcionar se isso acontece?</p>
<p>Estou dizendo que a solução é o candidato de Bolsonaro? Eu realmente espero que não. Não só tenho horror da ideia de dar mais poder para os estelionatários evangélicos que se uniram ao movimento da direita brasileira, como na prática o bolsonarismo não foi consistente nem nessa parte de responsabilidade fiscal; lembrem-se que ele criou uma dívida horrível no final do seu mandato na tentativa de subornar pessoas a votar nele para a reeleição.</p>
<p>O brasileiro parece querer algo de Lula e de Bolsonaro na presidência, provavelmente o populismo que promete prosperidade sem nenhum esforço, mas na prática nenhum dos dois consegue entregar suas supostas vantagens. No governo de Lula não ganhamos mais justiça social e cuidado ambiental, no governo de Bolsonaro não ficamos mais seguros e honestos. As grandes vantagens que ambos dizem ter simplesmente não se materializam. E isso tem motivo: o que Lula e Bolsonaro vendem são características imaginadas pelos seus eleitores.</p>
<p>São candidatos virtuais cujos predicados existem só na cabeça de quem os defende. E isso está tão definido na cabeça do brasileiro médio que parece que não existe mais nada a se fazer entre escolher um ou o outro. E se pararmos para pensar, a única coisa impedindo que um ou o outro sejam esquecidos como presidenciáveis é a relação adversarial.</p>
<p>O meu ponto aqui é que já nos provamos como povo que não gostamos nem de um nem de outro. As reações negativas ao governo Lula e a incapacidade de Bolsonaro conseguir articular um candidato oposto são provas que nenhum dos dois agrada. Mas é tanto medo criado na cabeça das pessoas que tem certeza de que o mundo acaba se não votarem contra o que parecem gostar menos.</p>
<p>O povo está sequestrado por duas forças políticas das quais dá sinais claros de não gostar. Mas há uma dificuldade imensa de lidar com a realidade por causa das campanhas de medo criadas por ambos os lados. O brasileiro não está sendo convencido pelos políticos, está sendo chantageado. Falta mais gente falando isso com todas as letras: não queremos nem um nem outro. Queremos tentar outras coisas, porque as que estão aí não vão para lugar nenhum.</p>
<p>É útil para quem está no poder que o povo só os enxergue como opções. Não importa se não gostam de verdade, importa que mantenham seus cargos e poderes pelo máximo de tempo possível. Se você não quer um nem outro, você é a maioria: o povo age como se não confiasse no Lula ao mesmo tempo que realmente considera se é melhor manter ele do que trazer alguém do lado bolsonarista de volta. Se um dos dois realmente gerasse alguma confiança, já estaria basicamente garantido em 2026.</p>
<p>Para ter uma terceira via, a primeira coisa a se fazer é rejeitar as outras duas. Tudo bem ser contra os dois, é o que a maioria das pessoas pensa de verdade, mas precisamos falar isso em voz alta, senão as outras pessoas vão acabar de novo se sentindo obrigadas a escolher entre o menor dos males por medo de que todo mundo seja maluco.</p>
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		<title>Vida artificial.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2025 17:36:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos últimos dias, os bebês reborn voltaram a viralizar nas redes sociais, embora não sejam uma novidade. Entre fotos e vídeos em que esses bonecos são tratados como crianças reais, chamou atenção o caso de Yasmin Becker, de 17 anos, moradora de Janaúba (MG). Criadora de conteúdos infantis, ela levou seu boneco a um hospital, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>Nos últimos dias, os bebês reborn voltaram a viralizar nas redes sociais, embora não sejam uma novidade. Entre fotos e vídeos em que esses bonecos são tratados como crianças reais, chamou atenção o caso de Yasmin Becker, de 17 anos, moradora de Janaúba (MG). Criadora de conteúdos infantis, ela levou seu boneco a um hospital, alegando que ele “não estava se sentindo bem”. O vídeo da experiência fictícia gerou debate entre os usuários. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://revistacrescer.globo.com/maes-e-pais/historias/noticia/2025/04/mineira-leva-bebe-reborn-ao-hospital-e-video-viraliza-assista.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>Isso nos chamou a atenção durante a semana, mas não pelo motivo que você está esperando. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-28708"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Esta semana vimos várias notícias envolvendo esses bonecos horrorosos chamados “Bebê Reborn”, desde uma lunática que fez vídeo levando o boneco para o hospital por achar que ele “não estava se sentindo bem” até um ritual bizarro que emula o parto de um Bebê Reborn e custa bastante caro para quem decide encená-lo.</p>
<p>Pesquisando, percebi que o universo Reborn tem infinitas bizarrices. Tem creche para Bebê Reborn. Tem pediatra, tem babá, tem uma infinidade de prestadores de serviço que atendem a esses pedaços de borracha com roupinha como se fossem reais. Estou fascinada por essa nova modalidade de doença mental e insisti com o Somir para que este fosse o tema de hoje.</p>
<p>Mas, se vocês pensam que eu vou pregar terapia e que as pessoas cuidem da sua saúde mental, estão enganados. Eu já desisti.</p>
<p>O que eu quero dizer é: que bom que tem Bebê Reborn. Deixem essas mulheres em paz. Deixem elas botarem roupinha e darem afeto para um pedaço de borracha com cabelo. Não façam bullying ou recriminem, pois, se em algum momento virar algo socialmente reprovado, essas mesmas mulheres vão largar os bonecos e partir para crianças de verdade ou animais de estimação, e Deus me livre dessas pessoas responsáveis por um ser vivo.</p>
<p>“Mas Sally, a maioria já tem filhos”. Sim, mas mulher infantilizada é assim: adora filho bebê e acha que depois que cresce não é tão legal. Ela gosta de um ser completamente dependente dela, para que ela possa passar o dia em função dele e se sinta útil, pois só assim se sente importante. Quando filho cresce e vai viver, bate na mamãe o vazio de não ter feito porra nenhuma com a sua vida.</p>
<p>Todo mundo na casa tem vida. O marido trabalha, tem o futebol, tem o bar, tem os amigos. Os filhos têm escola, faculdade, festa, amigos. Só a mulher, que ficou enterrada nesse papel de “mãe”, ficou enganada. Foi dito a ela que isso seria o mais lindo, o mais nobre, o mais importante da sua vida. Só não lhe foi dito que, quanto mais passa o tempo, menos atuação ela terá no cargo.</p>
<p>Aí vem o vazio. Aí vem as consequências de não conseguir se sustentar sozinha e de precisar de marido, mesmo que o amor e o respeito tenham acabado. Aí chega toda a conta de escolher viver de forma monotemática se dedicando à maternidade, não só por achar que esse é o único caminho, mas também por ver algum status nisso.</p>
<p>E ter filhos sem estar preparado para isso (financeiramente, emocionalmente e mentalmente) cobra um preço. E geralmente parte da cobrança se paga com a saúde mental. O resultado costuma ser mulher carente, com baixa autoestima, infantilizada e/ou dependente emocional.</p>
<p>Isso não vai mudar. Eu não vou lutar contra isso fazendo texto dizendo como evitar ou o que tem que fazer. É estrutural. Tá tudo errado desde o berço e as futuras gerações, como regra, vão repetir os erros desta, pois quem ensina, ensina errado. Por mais que com palavras tente ensinar certo, ensina errado com exemplos, que é por onde os filhos aprendem.</p>
<p>O ponto de discussão é: vai deixar essas doidas varridas responsáveis por um pedaço de plástico ou vai ridicularizar elas até elas terem vergonha dos Bebê Reborn e partirem para adotar uma criança ou um pet? Por gentileza, deixem as doidas ninando material sintético. Não tirem isso delas. É só isso o que eu peço.</p>
<p>“Mas Sally, o certo seria fazer terapia”. Sim, mas sabemos que não vai acontecer. Tem gente que não tem nem bagagem de inteligência, vocabulário e capacidade reflexiva para fazer terapia. Tem gente que já chegou num ponto da vida em que ver a verdade deprime até a morte, após tantos anos perdidos vivendo uma vida bosta. Essas pessoas não vão melhorar.</p>
<p>É a versão feminina do criminoso que vira evangélico e para de cometer crimes. Eu sou a favor da igreja evangélica? Não, eu sou contra com todas as minhas forças, mas exerce alguma contenção social. Não funciona sempre, mas em alguns casos sim. É o certo a se fazer? Não. Mas a essa altura, se tem um bandido a menos na rua a gente comemora. Se tem uma maluca a menos esquizofrenizando cachorro, botando roupinha e sapatinho em pet, eu também comemoro. Benditos sejam os Bebês Reborn.</p>
<p>Bebê Reborn não é causa, é consequências. Se você tira isso delas, a causa continua e quem vai sofrer as consequências dessa carência, dessa falta de saúde mental, desse amontoado de comportamentos bizarros será uma criança, um cão ou um gato. Deixa as doidas preencherem o que falta na vida delas com boneco, caso contrário, o estrago vai ser ainda pior.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Eu sou da ideia que se formos errar em alguma coisa na sociedade, que erremos por dar mais liberdade para as pessoas. É uma visão que por vezes fica com cara de esquerda lacradora, por vezes direita libertária, mas que na verdade é sobre o poder da autorregulação. Leis e moralidade (que nada mais é do que os costumes da maioria numa região, nem sempre o que é moral é ético) vem de cima para baixo e quase sempre consideram um mundo ideal, autorregulação é o cidadão descobrindo por conta própria o que funciona ou não na sua vida.</p>
<p>O que vem de fora para dentro é mais idealista, o que vem de dentro para fora é mais utilitarista. O mundo como achamos que deve ser contra o mundo que conseguimos fazer. É importante ter metas mais nobres para o que queremos ser como sociedade, para empurrar o povão numa direção mais eficiente e saudável; mas as pessoas precisam ter uma margem de manobra para empurrar a linha para o que é mais fácil fazer.</p>
<p>Toda essa explicação é para dizer que assim como a Sally, eu também acredito que não adianta dar chilique com pessoas mais velhas “criando” bebês de borracha. Existem ganhos secundários que essas pessoas precisam na sua vida, e acharam um caminho fácil o suficiente para consegui-los. Um caminho que não coloca em risco crianças de verdade.</p>
<p>Não é o ideal porque essa energia, se bem canalizada, poderia ajudar muitas crianças reais que precisam de atenção e carinho urgentemente. Só que aqui entra o realismo: quem está fazendo isso não tem interesse numa criança de verdade. O fato de serem bebês não é só economia de matéria-prima ou praticidade de armazenamento: nessa idade, o ser humano não oferece interações muito complexas.</p>
<p>E isso já deveria ser a dica do grau de profundidade desejado pela pessoa que começa a cuidar desses bebês reborn. Não é alguém que quer um filho, a pessoa quer aquela interação específica do bebê que não responde. Com o bônus de ser imortal e não sujar a fralda. Sei que tem toda a questão terapêutica estudada por especialistas, mas nem é o ponto aqui: porque estamos falando de uma onda de colecionadores e produtores de conteúdo para rede social. Não são pessoas acompanhadas num tipo de tratamento.</p>
<p>Há o que criticar, eu sou menos exigente que a Sally no nível básico de saúde mental do ser humano, mas ainda percebo claramente como isso pode dar errado na cabeça da pessoa. A imaginação tem esse hábito de se misturar com a realidade se não for confrontada. Mas na questão de “desperdício de instinto materno”, não me parece realmente um problema. Não acho que uma criança real se beneficiaria no longo prazo apenas com esse interesse por bebês plásticos. Muitas das piores mães do mundo brincaram com bonecas quando pequenas.</p>
<p>Inclusive eu vou além: eu acredito que exista uma função social nessas relações entre pessoas e objetos. Uma que eu já toquei num texto antigo sobre pedofilia, de um ponto de vista totalmente utilitarista, um pedófilo consumindo conteúdo ficcional sobre crianças é alguém satisfazendo um desejo sem encostar numa criança real. Eu lembro que o texto era sobre criminalizar quadrinhos pornográficos japoneses com crianças, e que não havia dados sobre a presunção que essas pessoas abusavam de crianças reais por terem visto desenhos de crianças sendo abusadas.</p>
<p>E até onde eu sei, esses dados ainda não existem. O que até essa popularidade recente dos bebês reborn me sugere é que essas relações imaginárias são ainda mais naturais que eu previa naquela época. Se mulheres, inclusive mulheres que já tem filhos, conseguem formar laços imaginários com essas bonecas, é porque isso é muito comum mesmo no ser humano.</p>
<p>A discussão no caso do conteúdo pedófilo ficcional era sobre se ele bastaria para a pessoa doente. Eu começo a ver mais provas que sim, bastaria. Lembra o começo do texto quando eu comparo o que é ideal e o que é prático? O ideal é que nenhuma criança tenha que lidar com abusos sexuais, mas o prático é que não conseguimos eliminar nem uma fração dos adultos com essa propensão. Como lidar com isso? Uma alternativa que ninguém gosta de pensar, mas que provavelmente vai ter que ser tentada é oferecer opções sintéticas para os pedófilos.</p>
<p>E aí as coisas se amarram: talvez seja sim uma alternativa avançar na direção de relações imaginárias e deixar objetos e representações ficcionais de seres humanos serem as “vítimas” dos desejos das pessoas. Gostar de criança não é gostar do “objeto” criança. São coisas parecidas apenas em superfície. Por motivos muito diferentes, a “mãe de boneca” e o pedófilo se encaixam numa mesma categoria: pessoas que são muito mais seguras para as crianças se tiverem simulações realistas para usar.</p>
<p>A diferença entre ideal e prático. Tem uma série de problemas relacionados com soltar as rédeas legais e morais sobre se relacionar com objetos simulando crianças, mas não se pode negar que é mais fácil. Usamos o tempo e a atenção de quem talvez fizesse mal para uma criança real em outro lugar. E sim, empurramos o problema para frente: porque uma hora ou outra a inteligência artificial vai começar a nos deixar confusos sobre se são realmente objetos. Aí eu não sei para onde correr, provavelmente vão precisar definir uma linha básica de consciência para merecer direitos e manter os “objetos de abuso” abaixo dela. Mas como é comum na vida, às vezes precisamos lidar com os problema de hoje e pensar nos de amanhã&#8230; só amanhã.</p>
<p>Pelo que eu estou enxergando, o ser humano está dizendo que aceita sim relações virtuais. E a minha previsão antiga de que vamos acabar (como espécie) vivendo como ditadores de universos virtuais próprios está ficando cada vez mais forte. As pessoas estão dizendo que querem isso, a tecnologia está se mexendo para entregar isso. Todo dia aparece um novo sinal desse movimento, e se assim como eu você acha que é um movimento que não pode ser impedido, faz sentido relaxar as regras e deixar as pessoas mais livres para se isolar de contato humano caso não queiram mesmo.</p>
<p>Gente forçada acaba fazendo as coisas malfeitas.</p>
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