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	<title>Eu, desfavor &#8211; desfavor</title>
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		<title>Porque vou à praia sozinha&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Dec 2017 11:35:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eu, desfavor]]></category>
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					<description><![CDATA[Não vou à praia com homens. Não marco encontros na praia. Quando vou à praia, vou sozinha, para que ninguém presencie a indignidade que protagonizo. Exagero? Não, não é não. Permita-me abrir meu coração e você entenderá meus motivos. Admiro pessoas que conseguem ir à praia de forma digna. As cariocas, por exemplo, são o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não vou à praia com homens. Não marco encontros na praia. Quando vou à praia, vou sozinha, para que ninguém presencie a indignidade que protagonizo. Exagero? Não, não é não. Permita-me abrir meu coração e você entenderá meus motivos.<span id="more-12580"></span></p>
<p>Admiro pessoas que conseguem ir à praia de forma digna. As cariocas, por exemplo, são o mais perfeito exemplo de musas da praia. São divas da areia, que desfilam de forma harmoniosa e graciosa enquanto eu me arrasto toda suada com areia colada pelo corpo. Sinceramente, não sei onde estou errando, talvez sejam os genes gringos gritando “Vai dançar tango, filha da puta, e sai desse calor que seu corpo não foi feito para isso!”. Senta e pega a pipoca que, em homenagem à chegada do verão, vou contar em detalhes minha triste e indigna experiência em praias.</p>
<p>Neste ponto, você pode estar se perguntando por qual motivo eu insisto em ir à praia, mesmo sem gostar. Bem, faço isso para que as pessoas possam olhar para mim sem precisar colocar óculos escuros, graças à minha pele agressivamente branca. Não pensem que eu sou bronzeada, pois eu não sou. É só para tirar o aspecto branco doentio, que é minha cor de fábrica.</p>
<p>Eu moro no Rio de Janeiro, então, acho que posso dizer que tenho alguma experiência em praia. Não é por falta de prática que eu fracasso miseravelmente, é por incompetência mesmo. A partir do momento em que saio de casa para ir à praia, eu viro uma derrota ambulante. Tanto é que nunca, jamais, em tempo algum aceitei marcar um encontro com um homem que me interesse na praia. Não, não. Não quero que vejam o pior de mim, suada, cabelo colado no rosto, vermelha como um camarão, cheia de areia como um bife à milanesa. Marco até na academia, se for necessário, ambiente onde sei me manter atraente. Na praia jamais, praia é minha Kryptonita estética.</p>
<p>A desgraça começa já a caminho da praia: quem foi o filho duma égua que inventou o chinelo de dedo? Aquela caralha de tora que fica entre o dedão e o pobre dedo ao lado vai machucando meu pé à medida em que vou andando e suando. Eu tenho esse probleminha, quando estou suada é possível me matar com uma caneta Bic, minha pele fica mole, a coisa mais fácil de perfurar do mundo. É meu corpo dizendo “me leve, me mate mas me tire daqui que este clima não me pertence”, acho que ele me deixa vulnerável de propósito, para ver se eu morro e acaba com essa agonia quente.</p>
<p>Então, no meio do caminho eu já estou andando como uma marreca, pois o vão entre meus dedos está sendo estuprado pelo chinelo. Qualquer marca de chinelo. Fora que o meu layout não compõe muito bem sem salto, pois além de ter um metro e meio, eu foco em um treino de hipertrofia muscular, então, sem salto eu pareço um gnominho parrudo. A pele, que é branca giz, vai ficando vermelha e, se eu já não andava muito bem pelo estupro dedal, começo a andar pior ainda por ver pontos pretos em função de um calor infernal somado à pressão baixa. 6 x 8 não combina muito com 40°. Se a coisa desdobrar mal, pode acabar até em vômitos, que é para coroar minha indignidade e meu vexame: um gnomo manco e vermelho vomitando na esquina.</p>
<p>Praia gera outra restrição mortal para mim: não se deve ir à praia com maquiagem. Me tirar a maquiagem é como tirar a carne do gaúcho, a putaria do carioca ou axé de Salvador. Não gosto e não fico bem sem maquiagem. Mas, se usar, além da pele ficar toda manchada, chegarei à praia com aquela cara borrada “Why so serious” do Coringa. Então, lá vou eu, pequena, mancando, talvez vomitando, vermelha e sem maquiagem. E suando.</p>
<p>Cheguei na praia. Enquanto as cariocas desfilam de forma lenta e sexy até as proximidades do mar, muitas vezes descalças, eu com meu chinelo assassino e meu pé hipersensível vou pulando feio uma gazela que tomou energético, pois a areia sempre está muito, muito, muito quente e vai queimando meu pé, mesmo estando de chinelo (sempre cai um pouco pela lateral). Pulando e gritando palavrão. Pulando e gritando palavrão. E elas lá, descalças, andando na maior tranquilidade. Essas porras usam ferradura? Vejam bem, não é que eu tenha pé de princesa, eu uso Melissa, o que me garante umas senhoras dumas cracas do atrito do pé com o plástico! Vai ver é meu corpo dando um último aviso desesperado para bater em retirada.</p>
<p>Quando chega ao ponto da areia onde você vai estender sua canga para deitar, as cariocas a puxam da bolsa, sacodem levemente com uma das mãos, como uma donzela que se despede abanando um lencinho e pronto, a canga cai aberta na areia de primeira, permitindo que elas se deitem de forma sensual. A minha? A minha canga (e olha que já testei vários tecidos) parece ter saído da boca do cachorro, toda amassada e por mais que eu sacuda ou tente estender dignamente, sempre cai toda dobrada. Aí eu tenho que me abaixar para estender a ponta que está dobrada e, quando o faço, bate um vento e tira a outra ponta do lugar. Resumindo: são pelo menos cinco minutos de abaixa e levanta tentando ajeitar a canga, colocando pesos nas pontas para ver se ela fica aberta.</p>
<p>A carioca se deita e vai curtir sua praia: conversa com amigos, mexe no celular, escuta música, relaxa. Instintivamente, ela vai girando na canga, trocando de posição, de modo a sair com um bronzeado uniforme, dourado, lindo. A babaca aqui, de tanto apanhar da vida, apelou para o despertador no celular para saber quanto tempo passou em cada posição e a hora de mudar de posição, em uma tentativa desesperada de conseguir um bronzeamento uniforme. Em vão, pois não consigo nem bronzeamento, nem uniformidade.</p>
<p>Minha melanina não enche um dedal, então, a mãe natureza estipulou que Sally vem em duas cores: branco e vermelho. Cabe a mim escolher uma das duas – e vai do branco ao vermelho em dez minutos, tá? Se ao menos fosse um vermelho homogêneo&#8230; mas não, a parte da frente sempre queima mais que a parte traseira, a parte superior do abdômen sempre queima mais do que a inferior, o lado direito sempre queima mais do que o lado esquerdo. Saio um mosaico vivo, mesmo que cronometre o tempo que passo em cada ângulo me expondo ao sol.</p>
<p>Para piorar, meus biquínis parecem sofrer de epilepsia, é praticamente impossível que fiquem no mesmo lugar. Já tentei comprar as melhores marcas, não tem jeito, todo biquíni se mexe em mim. Isso faz com que eu fique com diversas marcas desconexas de biquíni, parecendo que usei um modelo com quatro alças. A carioca não, ela pode sambar, jogar frescobol ou fazer bungee jump na praia que fica com aquela marca única, definida, intacta de biquíni. Sem sacanagem, nem com bronzeamento em spray eu consigo uma marca de biquíni decente.</p>
<p>Existe algum campo eletromagnético que a ciência ainda não descobriu que mantém o biquíni totalmente aderido ao corpo da carioca. Por mais que eu amarre o meu em um grau gangrenante (sim, já fiz), se ousar arriscar um frescobol é certeza de peito de fora, cofrinho de fora, ou ambos. Para ser bem sincera, quando estou na praia estou sempre tensa, tentanto evitar de fazer movimentos bruscos, inclusive respirando de forma mais comedida. E mesmo assim, já mostrei mais do que deveria em diversas ocasiões.</p>
<p>Aí vem o mar. De tempos em tempos a carioca se levanta e dá um mergulho gracioso no mar. Obviamente quando é comigo tem mais uma aura de videocassetada. Nunca acerto o timing e sempre acabo tomando uma arrebentação de onda na cara, que além de me encher de areia, acaba tirando meu biquíni do lugar, o que me deixa toda molhada, gritando e me cobrindo com as mãos. E isso é na ida e na volta, pois na hora de sair do mar a mão natureza sempre me contempla com uma ondada na bunda, que é para deixar bem claro que ali definitivamente não é o meu lugar.</p>
<p>A carioca sai do mar como uma sereia, desfilando lentamente, as gotas de água escorrendo gentilmente pelo seu corpo dourado, passando a mão por entre os cabelos de forma a penteá-los. Eu saio encharcada, branca e brilhante, tipo um filhote de foca. Tomando ondada na bunda e, ai de mim se pensar em colocar as mãos por entre meus cabelos para penteá-los, minha mão fica presa lá tipo armadilha para caçar urso, pois meu cabelo, em contato com água do mar, fica pior do que palha de aço. Ir à praia é ficar desgrenhada, pois quando entra em contato com a água do mar, meu cabelo entra em fúria, fica duro, inacessível.</p>
<p>Voltando do mar, você fica de pé, esperando o corpo secar um pouco para voltar a deixar na canga. Em dois minutos as cariocas estão secas e com cabelos esvoaçantes novamente. Eu não, eu demoro em média uma meia hora para secar minimamente, enquanto isso, do meu biquíni pinga água como se eu estivesse fazendo xixi. Claro que, neste ponto, meu biquíni também está cheio de areia, parece que eu caguei uma duna. Então, lá fico eu, com esse look Pampers (no caso, com direito a vazamento), vítima do vento que joga mais e mais areia no meu corpo molhado. Areia esta que vai demorar semanas para sair, não importa quantos banhos eu tome. Já disse isso antes, mas vou repetir: qualquer dia desses meu cu vai produzir uma pérola.</p>
<p>Eu realmente não sei como as cariocas conseguem: pode estar o calor que for que as filhas da puta estão sequinhas, com cabelo esvoaçante ao vento, de pé na areia sem um grão de areia colado no corpo. Eu estou suada, mas suada mesmo, aquele suado que você sente o cu suar, gota de suor escorrendo nas costas, gota de suor salgado pingando no olho e comprometendo a visão. Suada, com o cabelo todo colado na cara e nas costas e com uma crosta de areia colada no corpo todo. A mesma brisa suave que faz o cabelo das cariocas esvoaçar de forma sexy interage comigo apenas me cobrindo de areia, com uma predileção pela região dos olhos. Eu consigo a proeza de entrar areia no olho usando óculos escuros. </p>
<p>Definitivamente, o Universo está mandando um recado claro: você não pertence a esse lugar, não volte mais aqui. Deve ser para bem, para me evitar um câncer de pele ou coisa do tipo. Melhor respeitar, se não pela questão da saúde, pela dignidade mesmo. Não há condições de ser vista neste estado. Praia, para mim, sempre foi e sempre será uma atividade solitária.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que dependendo do tamanho do biquíni nem vão perceber o resto, para dizer que este mesmo grau de desastre acontece quando as cariocas saem na noite ou ainda para me perguntar como ser digna na academia: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a> </p>
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		<title>Como perder um homem em dez dias.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jun 2017 12:35:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eu, desfavor]]></category>
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					<description><![CDATA[Esta é a história sobre como enfrentei um miliciano perigoso do Rio de Janeiro. Não, não é uma história de tribunal, ou de perseguição. É uma das muitas derrotas que vivi, e que já prescreveram pelo decurso do tempo, podendo ser contada sem perigo. Senta e pega a pipoca, esta é a história sobre como [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Esta é a história sobre como enfrentei um miliciano perigoso do Rio de Janeiro. Não, não é uma história de tribunal, ou de perseguição. É uma das muitas derrotas que vivi, e que já prescreveram pelo decurso do tempo, podendo ser contada sem perigo. Senta e pega a pipoca, esta é a história sobre como perder um homem em dez dias.<span id="more-11746"></span></p>
<p>Estava eu na academia, um ambiente supostamente seguro, considerando o valor da mensalidade que cobram. Sala de musculação. Um elemento muito bem apessoado se aproxima de mim e pergunta se pode revezar um aparelho comigo. Permito. Elemento Bem Apessoado começa a conversar comigo e, surpreendentemente, ele se expressa muito bem, parece muito inteligente e culto. Primeira vez na vida que vejo uma correspondência igualitária entre massa muscular e cérebro.</p>
<p>Dia seguinte, Elemento Bem Apessoado aparece para malhar no mesmo horário que eu e, novamente, pede para revezar um aparelho. Novamente conversamos e novamente fico surpresa com a cultura e inteligência do elemento. Muito agradável, não deu em cima de forma aberta, apenas manifestou um interesse discreto, com todo o cuidado para me respeitar e não me constranger. Fica a dica: todos os canalhas que conheci eram ótimas pessoas nos primeiros contatos. Não se deixem impressionar.</p>
<p>A coisa virou rotina. Elemento Bem Apessoado ia malhar sempre no mesmo horário que eu, e cada vez conversávamos mais. Até que um dia, muitas semanas depois, EBA me chamou para jantar. Topei.</p>
<p>Quando cheguei ao restaurante, uma surpresa: ele estava fechado, sem clientes, apenas aguardando por nós. Um restaurante japonês chique, completamente vazio. Olho para EBA e ele diz “Você disse que não gosta de lugares cheios, de muito barulho nem de gente ouvindo sua conversa, então, providenciei isso”. Fiquei um pouco desconcertada, mas ok. Pensei que talvez ele tivesse amigos ali que poderiam ter quebrado esse galho para ele.</p>
<p>Durante o jantar, descubro que EBA ocupava um alto posto militar, porém, exercia função na corregedoria, que, para quem não sabe, é algo 100% burocrático. Tenho ressalvas com militares no Rio de Janeiro, se você for assaltado ao lado de um, corre o risco de te matarem, mas como era uma função meramente burocrática, resolvi dar uma chance.</p>
<p>O jantar foi muito agradável. Elemento Bem Apessoado estava impecavelmente vestido, se portando de forma agradável e genuinamente interessado na conversa. Conversamos sobre todos os assuntos e, ao aprofundar, confirmei: era mais inteligente e culto que eu. Estava admirada, nunca tinha visto aquelas toneladas de músculos com tanto conteúdo do lado de dentro. Ao final do jantar, ganhei um beijo e um convite para uma nova saída.</p>
<p>Na segunda saída com EBA, fomos a uma badalada boate, daquelas que tem filas enormes na porta. Quando chegamos e o segurança da boate viu Elemento Bem Apessoado, imediatamente abriu passagem e o colocou para dentro, comigo, sem pagar. Isso me gerou um grande espanto, pois nem globais tinham essa deferência naquele lugar. Comecei a reparar melhor em EBA: relógio no pulso que valia um apartamento, carro caro&#8230; será que um salário de alta patente militar bancaria tudo isso? Bem, ele podia ser de família rica. Fiquei na dúvida, porém alerta.</p>
<p>Elemento Bem Apessoado não bebia, não fumava era ateu, adorava malhar e falava cinco idiomas. Adorava cães, chegou a chorar ao ver um filhote abandonado. Ajudava senhorinhas a atravessar a rua. Eram muitas qualidades e talvez tenham me cegado por mais tempo do que deveria. Era lindo de corpo e de rosto. Dançava bem (já tinha sido professor de dança na adolescência). Era radicalmente contra drogas. Era educado e carinhoso. Só tinha um pequeno porém, que eu acabei descobrindo um pouco tarde: era um dos milicianos mais perigosos do Rio de Janeiro.</p>
<p>Pois é, minha gente. No Rio o criminoso nem sempre é um favelado que erra a concordância com uma camiseta do Flamengo amarrada na cabeça. Pode ser qualquer um. Eu já estava muito desconfiada de vários indícios, como ele entrar em todos os lugares furando fila, nunca pagar nada e ser altamente bajulado por todos, mas um fato em especial fez acender a luz vermelha: todos os homens da academia sequer olhavam para mim quando souberam que eu estava saindo com ele.</p>
<p>Se um dia você não receber cantadas em uma academia no Rio de Janeiro, nem um flerte leve, nem olhares, desconfie. Algo está fora da ordem mundial. Um professor, com o qual eu tive um passado amoroso, simplesmente não ficava a menos de 3 metros de mim. Eu falava com ele e ele não respondia, saía correndo de perto. Fui perguntar por qual motivo ele estava se comportando assim comigo e ele disse que “não queria problemas”. Quando eu apertei, ele falou. Ainda finalizou a frase com um “gosto muito de você, mas não quero morrer”.</p>
<p>E realmente, fazendo uma retrospectiva, todos os indícios corroboravam para essa versão. Fui investigar, pois a internet tudo sabe e tudo vê. De fato era verdade. Aquele rapaz de olhos claros, que era um amor, que chorava em filme triste, era um miliciano que matava e mandava matar. Não tinha outro jeito a não ser colocar um ponto final nessa história. Vocês já tentaram terminar com um miliciano? Pois é.</p>
<p>Saí para jantar com EBA no mesmo dia. Cheguei determinada a falar, com muito jeito, que não queria mais sair com ele, mas sem dizer o motivo real. Fomos ao mesmo restaurante japonês do primeiro encontro. Ele sentou, mas imediatamente se levantou como se estivesse desconfortável – e deveria estar, pois esqueceu uma arma no bolso. Tirou a arma da parte traseira da calça e colocou em cima da mesa, com a maior naturalidade do mundo.</p>
<p>Eu estava pálida, tentando manter a naturalidade, olhando para aquela arma em cima da mesa. Não estou familiarizada com armas, nunca sequer peguei em uma. Parecia maior do que em filmes. Fiquei igual criança, tentando não olhar, mas olhando, provavelmente com os olhos esbugalhados. Os outros clientes do restaurante meio que se calaram quando ele puxou aquela arma e a colocou ostensivamente em cima da mesa. E ele, de boa. Nada estava acontecendo.</p>
<p>Não tive tempo de falar, ele abriu a conversa dizendo que a mãe dele queria me conhecer. Brinquei que era cedo para conhecer família, afinal, não éramos nada um do outro mas, de alguma forma isso não foi muito bem aceito. Ele ficou chateado e a coisa descambou em um longo discurso sobre como ele não gostava de ser &#8220;feito de palhaço&#8221;. Pedi desculpas (ainda olhando para a arma de relance) e disse que se não era isso o que ele esperava de mim, talvez fosse melhor cada um seguir o seu caminho. A resposta? “ninguém termina comigo, eu, no máximo, fico viúvo”. Ok, ele falou brincando, mas o recado estava dado.</p>
<p>Ali eu percebi a dor de cabeça que seria dar um fora em uma pessoa com muito dinheiro, poder, inteligência e que estava acostumada a nunca ser contrariada. Ele percebeu meu olhar de horror para a arma e brincou que eu não precisava ter medo pois era apenas um 38 e, segundo ele, “38 é arma de atirar em sogra e em amigo”, que as armas realmente perigosas que ele tinha estavam muito bem guardadas (uma delas, debaixo do banco do carona do carro onde eu sentava, mas tudo bem).</p>
<p>O jantar foi um show de horrores. Não havia condições de pagar para ver e meter a bronca de terminar. Era hora de pensar em outra saída.</p>
<p>EBA, agora Elemento Bandido Armado, me deixou em casa e, nesse dia, eu passei a noite em claro pensando em como escapar dessa merda. Resolvi que não ia contar para ninguém, pois ninguém poderia me ajudar e só causaria preocupação e desespero nas pessoas.</p>
<p>Era hora de uma solução criativa. Tracei um plano: se eu não podia terminar com ele, ele é que ia terminar comigo. Respirei fundo e, de encontro a tudo que prezo e acredito, comecei a mudar meu comportamento. Era hora de me tornar desagradável, sem ser agressiva.</p>
<p>Quando saímos novamente, fiz questão de não me depilar. Levantava os braços me espreguiçando para que ele visse as axilas cabeludas, somado a um discurso &#8220;meu corpo minhas regras&#8221;. Fiz uma introdução dizendo que agora que a coisa estava ficando séria e que eu ia conhecer a mãe dele, estava me sentindo muito mais à vontade para ser quem eu realmente sou. Em um esforço enorme, soltei um arroto na mesa.</p>
<p>Palitei os dentes, mastiguei de boca aberta. Espremi cravos do nariz usando faca como espelho. Senhores, eu fiz todo tipo de nojeira que vocês possam imaginar. EBA parecia em choque, bastante incomodado, mas isso não bastou. Dias depois veio outro convite para sair. Era hora de fazer pior.</p>
<p>Tudo que faltou fazer de nojeira eu fiz no segundo encontro, inclusive, e é com muita vergonha que o conto, pedir silêncio a ele, peidar no carro. Depois mandei ele cheirar e adivinhar o que eu comi. Disse que essa era uma brincadeira que eu adorava fazer. Tirei meleca do nariz. Fiz atrocidades estéticas e higiênicas, acho que morri um pouco por dentro tamanha a tristeza de ter que protagonizar aquilo, mas voltei para casa confiante: depois de uma semana fazendo as piores nojeiras, nunca mais este filho duma puta me liga.</p>
<p>Mas ligou. Aí entrei em desespero. Se nem fazer o cara cheirar meu peido e adivinhar o que eu comi tinha afastado essa pessoa, então eu não sabia mais o que fazer.</p>
<p>Resolvi estudar o assunto. Conversei com amigas, fui até a internet ler relatos, pesquisei onde podia o que as mulheres faziam que levava os homens a dar um fora nelas. Foram três dias de imersão, pesquisando dia e noite em rede social, fóruns e em todas as fontes que eu podia, recriando os últimos passos das mulheres que levaram um fora para entender o que fazer.</p>
<p>Mas valeu a pena, por mais que elas não soubessem o que fizeram de errado, seus lamentos e desabafos me ajudaram. Eu encontrei um denominador comum na maioria dos casos. Só precisava colocar em prática. Eu mesma chamei o Elemento Bandido Armado para sair.</p>
<p>Fui linda, arrumada, cheirosa. Me portei como uma lady, bem mulherzinha, para compor o papel que iria protagonizar naquela noite. Ele ficou muito feliz em me ver assim, até comentou que eu andava estranha na última semana e que gostava mais de mim assim. Foi quando comecei. Disse que queria que ele soubesse como me sinto e ele ficou prestando atenção, interessado. Seguem abaixo algumas frases que disse, no meio de um contexto que eu fui criando:</p>
<p>“Se você quer me apresentar à sua mãe, acho melhor noivar, se a gente noivar este mês, dá para casar em maio do ano que vem, mês das noivas, o que você acha?”</p>
<p>“Meu sonho é ter quatro filhos, já tenho até os nomes para eles: Fulano, fulano, fulano e fulano. Já até parei de tomar pílula, pois tenho certeza que você seria o melhor pai do mundo”</p>
<p>“Quero casar de branco, em uma festa enorme, já reservei até um lugar”</p>
<p>“Não vejo a hora de morarmos juntos!”</p>
<p>“Posso marcar a data do casamento? Para quando?”</p>
<p>Foram umas duas horas de discurso todo nesse sentido: casar, morar junto, ter filhos. Fui carente, grudenta, ciumenta, insistente. Uma espécie de ejaculação precoce de relacionamento. Planejei festa e lugar do casamento, mostrando fotos. EBA foi ficando pálido. Falei como queria meu vestido de noiva. Falei o nome dos nossos quatro filhos. Falei, falei, falei sem parar.</p>
<p>Terminei a noite dando a medida do meu dedo para ele, para que compre logo nossas alianças. Adivinha se essa porra não sumiu? Nunca mais ligou. Mas não foi só isso. Nosso amigo miliciano fugia de mim quando me via na academia, atravessava quando me encontrava na rua. Senhoras e Senhores, um dos milicianos mais perigosos do Rio se cagou de medo de mim.</p>
<p>O saldo final que eu tiro dessa história é: homem prefere até mulher porca a mulher que o sufoca. Foi uma lição de vida onde eu pude verificar, na prática, o quanto homem (por mais poderoso que seja) se apavora quando há iniciativa e pressão de firmar um compromisso parte da mulher.</p>
<p>Então, se tem algo de bom nessa história tenebrosa foi aprender e aconselhar que, independente de tempos, feminismo ou contexto, evitem fazer pressão para estabelecer um compromisso sério com homem. Suas chances são maiores de você não o fizer e acabar partindo dele.</p>
<p>Desse dia em diante eu decidi que se eu tiver interesse em um relacionamento sério mas a coisa não caminhar para o desfecho que eu quero, eu simplesmente me afasto do homem e ponto final. Morrerei sem cobrar compromisso, namoro, fidelidade, casamento ou o que for. Essa cobrança parece ser o que há de mais repulsivo para o universo masculino.</p>
<p>Ah sim&#8230; para fechar a história: Nosso amigo miliciano foi encontrado morto muitos anos depois. Se tivesse tanto medo do crime como tinha de compromisso sério, talvez estivesse vivo.</p>
<p>Para dizer que em vez de polícia a Segurança Pública deveria ser feita por mulheres carentes, para dizer que você teria mais medo da Sally Porca que da Sally Carente ou ainda para dizer que já testou esse método involuntariamente e comprovou sua eficiência: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a></p>
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		<title>Pedras no meu caminho.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Sep 2015 09:00:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eu, desfavor]]></category>
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					<description><![CDATA[LIVRARIA 1 SALLY: Bom dia, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha? FUNCIONÁRIO: Quem? SALLY: Rafael Ilha FUNCIONÁRIO: Aquele drogado maluco? SALLY: Não, o astro do rock *cara feia FUNCIONÁRIO: Ah não, então eu estou confundindo SALLY: Ok, ele usou drogas FUNCIONÁRIO: O que comeu pilha? SALLY: Esse! [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>LIVRARIA 1</h2>
<p><b>SALLY:</b> Bom dia, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Quem?<br />
<b>SALLY:</b> Rafael Ilha<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Aquele drogado maluco?<br />
<b>SALLY:</b> Não, o astro do rock *cara feia<span id="more-8798"></span><br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Ah não, então eu estou confundindo<br />
<b>SALLY:</b> Ok, ele usou drogas<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> O que comeu pilha?<br />
<b>SALLY:</b> Esse!<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não tem não, ainda não chegou<br />
<b>SALLY:</b> Posso deixar meu telefone e quando chegar vocês me avisam?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Senhora, sinceramente, eu nem sei se vai chegar isso aí</p>
<h2>LIVRARIA 2</h2>
<p><b>SALLY:</b> Bom dia, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Hã?<br />
<b>SALLY:</b> Rafael Ilha, do Polegar<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Desculpe, não sei quem é. Qual e editora?<br />
<b>SALLY:</b> Não sei a editora, só sei a autora, que é a Sonia Abrão<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> *rindo<br />
<b>SALLY:</b> *cara de espanto<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> A Sonia Abrão escreveu um livro?<br />
<b>SALLY:</b> Sim<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Sobre a morte de quem?<br />
<b>SALLY:</b> Rafael Ilha está vivo&#8230;<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Nunca ouvi falar. Não temos não</p>
<h2>LIVRARIA 3</h2>
<p><b>SALLY:</b> Bom dia, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> *mexendo no computador<br />
<b>SALLY:</b> *olhando<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não consta<br />
<b>SALLY:</b> Você colocou ele como autor, ele não é o autor<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Ué, mas a biografia não é dele?<br />
<b>SALLY:</b> É sobre ele, mas não é uma autobiografia. E o nome dele não é Rafael PILHA, é Rafael ILHA<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Jura? Sempre pensei que fosse Rafael Pilha<br />
<b>SALLY:</b> Não, Pilha é apelido, porque uma vez ele engoliu uma pilha<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> *rindo<br />
<b>SALLY:</b> A autora é a Sonia Abrão<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Qualquer um escreve livro hoje em dia, né?<br />
<b>SALLY:</b> Menos eu&#8230;<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não temos não<br />
<b>SALLY:</b> Posso encomendar? Eu deixo pago<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Olha, aqui não consta que vamos receber, então, não posso vender<br />
<b>SALLY:</b> Ok, vou deixar meu telefone, se chegar vocês me ligam?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Ligamos sim, mas não sei se vai chegar&#8230;</p>
<h2>LIVRARIA 4</h2>
<p><b>SALLY:</b> Boa tarde, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Parte de esportes<br />
<b>SALLY:</b> Mas ele não é um esportista<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não? Então estou confundindo. O que ele é?<br />
<b>SALLY:</b> Cantor<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> É aquele Dominó que namorava com a Juma?<br />
<b>SALLY:</b> Polegar<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Já sei quem é&#8230; como é a capa?<br />
<b>SALLY:</b> Ele com cara de mormaço mordendo um crucifixo<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Já lançaram esse livro?<br />
<b>SALLY:</b> Sim, dia 02<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não chegou não, mas nessa mesma linha, tem a biografia da Andressa Urach</p>
<h2>LIVRARIA 5</h2>
<p><b>SALLY:</b>Boa tarde, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> É religioso?<br />
<b>SALLY:</b> Duvido muito, é só uma biografia mesmo<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não é gospel?<br />
<b>SALLY:</b> Ele já gravou um cd gospel, mas certamente esse livro passa longe do evangelho<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> FULAAAANO! TEM LIVRO DO RAFAEL ILHA?<br />
<b>SALLY:</b> &#8230;<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> É, não tem não<br />
<b>SALLY:</b> Sabe me dizer se vai chegar?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não sei dizer, mas estou vendo aqui que no nosso site tem e já está em promoção: R$ 39,90. Pode comprar online<br />
<b>SALLY:</b> JÁ está em promoção?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Já<br />
<b>SALLY:</b> Acabou de lançar!<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> É&#8230; Esse livro não deve ser muito bom não&#8230;</p>
<h2>LIVRARIA 6</h2>
<p><b>SALLY:</b> Boa tarde, vocês tem o livro “As pedras no meu caminho”, a biografia do Rafael Ilha?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> É nacional?<br />
<b>SALLY:</b> Sim<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Ah, é aquele maluco&#8230;?<br />
<b>SALLY:</b> Astro do rock *mostrando foto da capa do livro no celular<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não fizemos pedido desse livro não<br />
<b>SALLY:</b> Tem como encomendar?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Infelizmente não, não vai chegar<br />
<b>SALLY:</b> Nem pagando?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Nem pagando<br />
<b>SALLY:</b> Sabe me dizer o motivo de não terem encomendado?<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> Não sei, mas geralmente não encomendam quando o livro é ruim e acham que não vai vender<br />
<b>SALLY:</b> Vocês vão se arrepender disso<br />
<b>FUNCIONÁRIO:</b> &#8230;<br />
<b>SALLY:</b> AMARGAMENTE!</p>
<h3>Para sentir vergonha alheia por mim, para me mandar escrever minha própria biografia do Pilha ou ainda para pedir um texto com um pouquinho mais de conteúdo: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a></h3>
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		<title>Eu, desfavor: Sexo virtual.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2009 15:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eu, desfavor]]></category>
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					<description><![CDATA[Navego pela internet desde 1996. Municiado de meu Pentium 70Mhz e seu indefectível modem de 36.600Bps, navegava por vários minutos nas madrugadas. Considerando a minha idade na época, não demorou mais do que um “fechar de portas” para tentar achar alguma mulher pelada na rede. Algum tempo depois, descobri a maravilha dos chats públicos. Foi [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" src="http://i363.photobucket.com/albums/oo74/desfavor/img/eu_desfavor_header.jpg" /></p>
<p><img decoding="async" src="http://i363.photobucket.com/albums/oo74/desfavor/img/computerporn.jpg" alt="1" no="" /></p>
<p>Navego pela internet desde 1996. Municiado de meu Pentium 70Mhz e seu indefectível modem de 36.600Bps, navegava por vários minutos nas madrugadas. Considerando a minha idade na época, não demorou mais do que um <span style="font-style: italic;">“fechar de portas”</span> para tentar achar alguma mulher pelada na rede.</p>
<p>Algum tempo depois, descobri a maravilha dos chats públicos. Foi amor à primeira vista. Já estava irritando e provocando pessoas antes mesmo de saber o que significava o termo <span style="font-style: italic;">“troll”</span>.</p>
<p>Pode-se dizer que passei boa parte do meu tempo online caçando pornografia e contatos anônimos com outros seres humanos. Era de se esperar que eu tivesse pulado de cabeça na onda do sexo virtual, não? Pois é&#8230; Não foi o que aconteceu. Mesmo com as fases de não pegar nem gripe na vida real, toda a idéia de sexo virtual parecia ridícula demais&#8230; até para mim!</p>
<p>E quando eu falo de sexo virtual, eu realmente quero dizer fingir que está fazendo sexo de verdade com uma pessoa distante de você. Todo mundo fala suas sacanagens eventualmente. Mas aquele ponto, o RPG pornográfico de descrever o que está fazendo com a outra pessoa&#8230; Isso era impensável para mim. Talvez eu não me julgasse no direito de ser TÃO nerd assim. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(Hoje em dia eu acho patético mesmo.)</span></p>
<p>Mas acabou chegando o dia onde a curiosidade venceu o senso de auto-preservação de auto-imagem. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(Ou algo assim&#8230;)</span></p>
<p>Estávamos na época do ICQ. Toda essa história de webcams ainda não fazia parte da realidade dos ninfomaníacos virtuais. Você tinha que confiar que era mesmo uma mulher do outro lado. Foi na base dessa confiança que comecei minhas conversas com uma tal de Mary. Ainda estava engatinhando na arte do <span style="font-style: italic;">“bico doce”</span>, mas consegui abrir meu caminho rumo a um pouco mais de intimidade com a suposta garota. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(No ICQ, você pesquisava entre as pessoas que estavam online ao mesmo tempo que você e SE VIRAVA para ganhar a atenção delas&#8230; Nesse ponto era mais divertido e desafiador que o MSN, mas ainda sim, uma nerdice sem tamanho&#8230;)</span></p>
<p>Conversa vai, conversa vem, um belo dia<span style="color: rgb(102, 102, 102);"> (até aquele momento)</span> eu acabo vencendo as defesas morais de Mary e consigo que ela me descreva como estava vestida. Segundo ela, uma camisola e nada mais.<span style="color: rgb(102, 102, 102);"> (Na imaginação, camisolas são curtas e sexys, e não camisetas largas e sujas com desenhos infantis, ok? Não me julguem.)</span></p>
<p>Sinto aquele prazer da vitória. A garota sempre foi jogo duro e agora estava me dizendo que estava sem roupa-de-baixo? Eu com certeza estava seguindo um bom caminho. Mesmo sem grandes prospectos sobre o destino.</p>
<p>Mais algumas daquelas bobagens que dizemos quando estamos no assunto desejado e ela me devolve a pergunta. É nesse momento que eu percebo que teria de escolher entre realidade e fantasia&#8230;</p>
<p><span style="font-weight: bold;">Realidade:</span> Uma camiseta surrada e manchada de molho de tomate, completada por uma bermuda antiga comicamente menor do que o normal e uma cueca azul que além de furada, ainda estava com o elástico estourado.</p>
<p><span style="font-weight: bold;">Fantasia: </span>Apenas uma cueca preta. E meus poderosos músculos.</p>
<p>Escolhi a fantasia. As coisas começam a sair de controle nesse exato momento. Começo a perceber que não poderia tratar o assunto como um voyeur textual. Teria que participar daquilo de corpo e alma.</p>
<p>Mas jogar fora meus avanços? Talvez se eu mandasse bem ela topasse mandar uma foto ou mesmo um encontro às cegas. Mas&#8230; e se ela fosse uma baranga? E se ela estivesse tirando sarro com a minha cara? E se ela fosse um homem?</p>
<p>Não dava tempo para devaneios, ela me responde dizendo que gostaria que eu estivesse perto dela naquele momento. Eu que não poderia deixar por menos, afinal, tinha procurado por isso. Escrevi que se ela estivesse por perto não se arrependeria. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(Falando sem pensar: Por Somir.)</span></p>
<p>Ela dá o próximo passo perguntando o que eu faria com ela.</p>
<p>É uma das primeiras vezes que eu percebo que minha paranóia sobre quem está do outro lado do computador era capaz de me deixar terrivelmente inibido, mesmo anônimo. <span style="font-style: italic;">“Ela está me sacaneando, eu sei&#8230; Deve ter umas dez pessoas lendo isso&#8230; Todos rindo de mim.”</span> Os meus próprios crimes contra otários na internet tinham se voltado contra mim. Eu não confiava em mais ninguém formado de bits e bytes.</p>
<p>Mas revelar isso seria muito <span style="font-style: italic;">“viadinho”</span>, penso eu. Tinha que continuar no comando da situação. Naquela sanha estúpida de auto-afirmação, digo que arrancaria aquela camisola dela.</p>
<p>Lembro bem: Ela responde com um <span style="font-style: italic;">“hihihihi”</span>.<span style="color: rgb(102, 102, 102);"> (Risadinha tímida pré “rsrsrs”. Outros tempos, desfavores&#8230;)</span></p>
<p>Pronto! Estava no controle novamente. Ela que estava tímida. Poderia dormir em paz sabendo que eu tomei a dianteira e deixei-a sem graça com minha testosterona em forma de pixels. Claro que eu ainda resolvo tirar onda perguntando se ela ficou com vergonha. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(Claro&#8230;)</span></p>
<p>Ah, Somir, por que você escreveu isso?</p>
<p>Ela diz que sim, mas que é porque só ela que está pelada agora. Quando o <span style="font-style: italic;">“eu faria”</span> se torna <span style="font-style: italic;">“eu estou fazendo”</span>, não tem mais volta. Eu estava prestes a ter minha primeira vez de mentira. E pior, sem nenhuma proteção.</p>
<p>Vacilo um pouco. Penso se eu realmente quero continuar com aquilo. Ela me pergunta se eu que estava com vergonha agora. Maldita pessoa sem rosto da internet! Você me conhecia melhor do que eu mesmo. Óbvio que eu não admitiria isso.</p>
<p><span style="font-weight: bold;">Fantasia:</span> Digo que também estava tirando minha roupa.</p>
<p><span style="font-weight: bold;">Realidade:</span> Mais um gole de refrigerante.</p>
<p>Se serve de consolo, ela que abre a sessão pornográfica de vez, fingindo espanto com o tamanho do que acabara de ser descoberto pela cueca preta. Eu entro no jogo, de forma totalmente mecânica e previsível. De uma certa forma, estava<span style="font-style: italic;"> “enfiando dobrado”</span>.</p>
<p>Aquilo já não tinha muita graça. Era puramente virtual, sem a menor indicação de que se tornaria realidade. Estava sendo usado.</p>
<p>Ela me descrevia em detalhes como estávamos fazendo sexo. Eu concordava. Completamente incapaz de entrar no clima e me sentindo violado, comecei a torcer para gozar logo. Não na vida real, o único líquido prestes a sair de meu corpo era mesmo aquele copo de refrigerante. Eu queria terminar logo aquela sessão de sexo virtual, era vergonhoso. Não só pelo fator RPG sexual já citado, mas também porque no final das contas, acabou sendo uma broxada.</p>
<p>Meu o eu fantasioso continuava suas proezas sexuais, contanto.</p>
<p>Se você é mulher, já deve ter percebido que é um tanto quanto suspeita essa descrição sobre a súbita empolgação e assertividade de Mary com o assunto. Quisera eu ter percebido algo de errado ali. Mas até aquele momento, ela parecia a típica mulher fresca que eu estava tão acostumado a ver por aí.</p>
<p>Mary começou a me pedir para descrever meu <span style="font-style: italic;">“gran finale”</span>. E não era para proteger os olhos ou evitar uma gravidez indesejada, Mary queria que chegássemos ao clímax juntos.</p>
<p>Veja bem, apesar de estar numa das fases mais onanistas de minha vida, nunca tinha cronometrado quanto tempo demorava para ir de um ponto ao outro da masturbação. E como estava fingindo até isso, tive que colocar um prazo mental de uns três minutos para avisá-la. Parecia justo.</p>
<p>Enquanto isso, aproveitei e fui me livrar daquela tubaína.<span style="color: rgb(102, 102, 102);"> (Ainda não era viciado no ácido ortofosfórico&#8230;)</span></p>
<p>Voltando, vi algumas mensagens de incentivo na tela e constatei que estava na hora de gozar. Finalmente! Ela pareceu satisfeita também. Ainda me sentindo sem graça por ter fingido um orgasmo numa sessão de sexo virtual, continuei conversando com ela por mais alguns minutos, dizendo que tinha adorado a experiência.</p>
<p>Ela me disse que precisava dormir. Eu pensei que apesar da estranheza do que acabara de fazer, talvez aquela situação se convertesse em algo mais real depois. Ah, a vida é de quem se arrisca! E pelo menos ela era safada!</p>
<p>No dia seguinte, converso com ela novamente. Ela já abre a janelinha do ICQ me perguntando se estava com saudades. Eu digo que pensei nela a noite toda. <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(Pensei mesmo. Aquilo tinha sido ridículo.)</span></p>
<p>Ela parece surpresa. Me pergunta porque eu pensei nela a noite toda. Eu respondo que era por causa da noite anterior.</p>
<p>Ela me faz outra pergunta. <span style="font-style: italic;">“Porque eu não estava aqui?”</span> <span style="color: rgb(102, 102, 102);">(traduzido do miguxês arcaico)</span></p>
<p>Eu respiro fundo&#8230; e pergunto onde ela estava na noite anterior. Ela me diz que havia saído com as amigas. Eu fecho a janelinha e apago ela da minha lista.</p>
<p>Até hoje eu não sei com quem tive minha primeira relação sexual virtual. E sinceramente&#8230; Não quero saber.</p>
<p><span style="font-weight: bold;"><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Para me perguntar o que eu estou vestindo, para dizer que eu sou um broxa virtual ou mesmo para dizer que é a Mary e estava só tirando uma com a minha cara: </span><a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></span></p>
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