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	<description>REPÚBLICA IMPOPULAR</description>
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		<title>Adeus.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Oct 2025 14:31:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Anúncios]]></category>
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					<description><![CDATA[Temos más notícias. Meus queridos, estamos com o coração apertado. Chegou o dia de dizer adeus. Não, não é mais um experimento entre os muitos que fazemos com o leitor, é sério. Desfavor se encerra hoje. Ao que tudo indica, um texto do Desfavor foi oficialmente considerado “neonazista” e “perigoso para a sociedade” pelo Poder [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Temos más notícias.<span id="more-34168"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Meus queridos, estamos com o coração apertado. Chegou o dia de dizer adeus. Não, não é mais um experimento entre os muitos que fazemos com o leitor, é sério. Desfavor se encerra hoje. </p>
<p>Ao que tudo indica, um texto do Desfavor foi oficialmente considerado “neonazista” e “perigoso para a sociedade” pelo Poder Público brasileiro e agora nós teremos que arcar com as consequências criminais disso.</p>
<p>Como já avisamos aqui dezenas de vezes, se um dia se considerasse que o blog viola a lei, fecharíamos o Desfavor, pois se o que falamos, no entendimento atual, viola a lei do Brasil, não temos o menor interesse em continuar falando. Durante 17 anos não violou. Hoje, ao que tudo indica, viola.</p>
<p>Nesses quase 20 anos ensinamos primeiros socorros, cobrimos a pandemia estimulando a vacinação, fizemos muitas piadas, falamos de saúde mental, fizemos incontáveis piadas com nós mesmos e demos até de receita de bolo. </p>
<p>Falamos sobre gatos, cães e sobre energia nuclear. Falamos sobre eleições, candidatos e vaso entupido. Te contamos o lado pouco falado de uma gestação, te ensinamos a sobreviver a desastres e falamos sobre física quântica. </p>
<p>Essa era a magia do Desfavor: o leitor sabia que podia encontrar um texto sobre qualquer tema cada manhã. Um blog sobre tudo, sem nichos, com a intenção de sempre induzir o leitor a pensar por conta própria, a formar suas convicções, a trazer novos pontos de vista, a exercitar sua cabeça.</p>
<p>Eu entendo que nem todo mundo compreenda nossos experimentos, mas dizer que o Desfavor é neonazista&#8230; É realmente muito complicado. Até porque fizemos diversos textos criticando esse tipo de grupo e o nazismo no geral e por esses textos críticos já fomos até ameaçados por eles. Quem é leitor sabe que se tem um pessoal que não gosta da gente, são os neonazistas.</p>
<p>Infelizmente não dá para continuar quando a proposta dos nossos textos não é compreendida e quando a resposta para isso é um processo criminal. É nesse ponto que chegamos. Reflitam.</p>
<p>E para aqueles que estão comemorando (todo mundo tem seus haters, né?), pensem melhor. Um dia o que aconteceu com a gente, de ser tirado do contexto e punido, pode acontecer com você.</p>
<p>Quem quiser manter contato com a gente, por favor deixe qualquer e-mail nos comentários. Esclarecemos que nenhum leitor está sob risco, nós jamais aprovamos nenhum comentário que consideramos criminoso.</p>
<p>Mesmo assim nenhum comentário será aprovado neste texto, para preservar quem não quer ter seu e-mail exposto público por zelar pela sua privacidade, então, seus e-mails não serão vistos. Obrigada a todos por esses 17 anos maravilhosos, todos vocês nos acrescentaram muito. </p>
<p>Em contrapartida, espero que o Desfavor tenha acrescentado coisas boas à vida de todos. Impossível que, com a variedade de temas que temos, não tenha ao menos um texto que beneficie a pessoa aqui.</p>
<p>Foi bom estar com vocês, amigos. Queria dar um &#8220;até breve”, mas é “adeus” mesmo.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>A gente tentou se comunicar da melhor forma que poderíamos, tentou explicar nossas ideias sobre como podemos ser melhores e viver num mundo mais justo sem extremismo e radicalismo, mas esse não é o momento para se expressar assim no Brasil.</p>
<p>17 anos falando sobre tudo, de temas banais, ciência, tecnologia, política, história, cultura e religiões do Brasil e do mundo, além de um grande foco em relações humanas&#8230; para a gente já deu. Vamos parar com o Desfavor porque a forma como queremos contribuir, tentando escrever de formas diferentes e surpreendentes&#8230; virou crime.</p>
<p>E se virou crime, não queremos mais. A gente queria discutir, trocar ideias, até mesmo brigar um pouco com quem pensa diferente. Mas a lei do Brasil não quer mais isso, e como sempre pregamos na nossa história: quando não te querem mais, pega suas coisas e vá embora com a sua dignidade.</p>
<p>E se você não acredita, daqui a alguns dias, semanas ou meses vai. Mataram nosso amor pelo projeto (mas não por vocês, vamos dar um jeito de ficar em contato). Para quem esteve junto com a gente nesse tempo todo, nosso agradecimento, vocês fizeram isso aqui ter graça enquanto teve graça.</p>
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		<title>Raiva!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 16:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Aprenda]]></category>
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					<description><![CDATA[Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva. Antes de entrar no [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva.<span id="more-34160"></span></p>
<p>Antes de entrar no tema em si, uma introdução para ajudar na compreensão. Vamos trabalhar com simplificações grosseiras e até tecnicamente imprecisas, para fins didáticos, pois é mais importante que todos entendam os conceitos, mesmo que para isso algo da parte técnica tenha que ser sacrificado: qual é a diferença entre emoções e sentimentos?</p>
<p>Emoções são reações instintivas, instantâneas, quase sempre incontroláveis, que aparecem de imediato em respostas a eventos, pensamentos ou estímulos do ambiente. Costumam ser universais, inerentes a todo ser humano e provocam mudanças fisiológicas, como alterações na frequência cardíaca, tensão muscular e expressões faciais.</p>
<p>As emoções estão ligadas à nossa sobrevivência e evolução como espécie. A seleção natural privilegiou quem tinha essas emoções na hora certa e na medida certa. Por exemplo, o home das cavernas que sentia medo quando via um predador se aproximando e se escondia, foi o que sobreviveu para passar seus genes adiante. São exemplos de emoções inveja, ansiedade, tristeza, alegria, tédio, medo, nojo e raiva.</p>
<p>Por exemplo, reencontrar um amigo querido gera alegria (não euforia, alegria). Vivenciar a perda de uma pessoa querida gera tristeza (não desespero, tristeza). Presenciar uma injustiça gera raiva (não ira, raiva).</p>
<p>No geral, não somos muito bons em controlar nossas emoções, pois, como já foi dito, é um mecanismo evolutivo que vem de fábrica. Mas podemos controlar o que fazemos com essas emoções. Vamos falar de sentimentos.</p>
<p>Sentimentos são o resultado da interpretação mental e consciente dessas emoções. É o que surge quando temos tempos de observar e racionalizar uma emoção sentida. São estados emocionais mais complexos e duradouros.</p>
<p>O cérebro processa e atribuí significado às emoções, transformando aquilo em um pensamento e em uma memória. Por exemplo, o sentimento de gratidão não é imediato, é um resultado da racionalização de que alguém fez algo bom por você, provavelmente despertando emoção de surpresa e alegria. É uma construção da sua cabeça: “quando eu precisei, a pessoa estava lá para me ajudar, então, agora eu sou grata a ela e a ajudarei quando ela precisar”.</p>
<p>Então, a diferença entre emoção e sentimento consiste basicamente na duração (emoção é mais rápida, sentimento é mais duradouro) e na complexidade (emoção é mais simples e sentimento é mais complexo). Provavelmente você vai encontrar outras formas de classificação por aí, e tá tudo certo, não se apegue a isso, e sim à ideia de que existem emoções rápidas, imediatas e instintivas e existe o que nós fazemos com essas emoções depois que são racionalizadas. Essa diferença é o importante.</p>
<p>Passada essa introdução, fica fácil entender que, dentro desse sistema de pensamento, raiva é uma emoção, não um sentimento. Algo que foi desenhado para ser rápido, instantâneo, automático&#8230; e depois ser elaborado em algo mais complexo, virando um sentimento, por exemplo, de decepção por ter confiado em quem te sacaneou, arrependimento por ter compartilhado uma informação que deveria ser mantida em sigilo e assim por diante.</p>
<p>Pois bem, eu acho que muita gente está tão descontrolada, polarizada e surtada, que está deslocando a raiva da emoção para o sentimento. Mais: quase todo sentimento negativo que têm, vem acompanhado pela raiva ou acaba sendo substituído ou ofuscado por ela.</p>
<p>“Mas Sally, qual é a sua fonte?”. Arial 12. É tudo da minha cabeça. Daqui para frente é absolutamente tudo da minha cabeça sem qualquer base científica e sem qualquer pretensão de estar certa. Me interessa mais o debate, a construção, o somatório de opiniões, do que ter razão.</p>
<p>Não me atrevo a dizer qual combinação de fatores causou isso (e devem ser muitos), mas provavelmente tem um componente intelectual e também um componente cultural, pois é cada vez mais comum ver as pessoas levando tudo para o pessoal (se você discorda delas, você é um inimigo) e acreditando que se não “retribuir”, se não “se vingar”, se não “der o troco” é otário.</p>
<p>Obviamente tem muito mais que contribuí para esse cenário, mas eu não saberia listar tudo. O que me interessa aqui é a consequência. Esses fatores geram o estranho fenômeno: a raiva, que deveria ser uma emoção instantânea diante de um evento negativo, continua sendo alimentada, cultivada e até ostentada com honra. “Veja como eu não sou otário, veja como eu não engulo esse desaforo, eu estou com raiva de você!”. Tudo vira raiva. Nunca entendi o motivo, mas um número considerável de pessoas parece achar mérito ser muito intenso em tudo e, talvez por isso, cultive a raiva.</p>
<p>Então, uma transmutação natural e saudável da emoção raiva para outro sentimento mais elaborado, não acontece ou fica incompleta. Vamos das um passeio por alguns sentimentos, para que vocês percebam como uma raiva que não deveria estar lá, está?</p>
<p>Ciúmes por exemplo. É possível que a pessoa sinta uma raiva imediata quando algo lhe dá um gatilho de ciúmes, mas, o natural, o civilizado, o esperado, é que a raiva passe e a pessoa elabore isso como ciúmes, que pode ser resolvido conversando, esclarecendo, estabelecendo alguns limites. Só que nem sempre é o que acontece. Muitas vezes ciúmes vira briga, gritaria, ameaça e muitas vezes até agressão física ou coisa pior.</p>
<p>Por algum motivo, a pessoa não deixa a raiva ir e transitar para outro sentimento mais complexo. Ou mantém o ciúme e a raiva, ou mantém apenas a raiva mesmo. Talvez alguém esteja pensando “mas ciúmes implica em sentir raiva!”. Não, não implica. O ciúme é definido como “medo de perder o afeto ou a exclusividade de uma pessoa”. Em momento algum se depreende raiva disso aí. Nem desse, nem de nenhum outro sentimento negativo. Mas, como a raiva está cada vez mais presente em tudo, acaba sendo naturalizada.</p>
<p>Mesmo a tristeza, um sentimento de grande porte e conhecido por todos, costuma estar acompanhado pela raiva: raiva de quem ou do que causou essa tristeza, raiva do entorno, raiva de pessoas apontadas como culpados pela situação que causou a tristeza, afinal, está virando mania sempre designar culpados para tudo.</p>
<p>Ponha a mão na consciência em responda quando foi a última vez que você viu ou que você mesmo sentiu tristeza pura, sem qualquer raiva. Está cada vez mais difícil de se ver. Geralmente a pessoa está triste, mas está com muita raiva também. A raiva permeia tudo.</p>
<p>O relacionamento terminou? A pessoa fica triste e com raiva (de quem terminou, de quem está com a pessoa que terminou, do entorno que pode ter contribuído para o término). A pessoa foi demitida? Ela fica triste, mas fica com raiva (de quem a demitiu, de pessoas a quem ela atribuiu essa demissão e até de entes inanimados como marcas e empresas). Quase sempre tem o fator raiva. E não deveria.</p>
<p>E a raiva nem precisa ser contra terceiros, pode ser consigo mesmo, se a pessoa chegar à conclusão de que ela é a “culpada” pelo sentimento negativo que está sentindo. Sentimentos como remorso, culpa, arrependimento, dúvida e até luto podem despertar raiva, seja pela pessoa não querer sentir aquilo, seja pela pessoa se achar culpada pelo evento que desencadeou os sentimentos</p>
<p>Obviamente a raiva contra si mesmo é igualmente fora de lugar e inaceitável. Não faz sentido que uma pessoa sinta raiva de si mesma por sentir algo. Sentimentos são construções complexas, se você acha que algum deles está te fazendo mal ou inadequado, pode trabalhar para desfazê-lo ou substituí-lo, mas&#8230; sentir raiva de si mesmo? Não façamos isso com nós mesmos.</p>
<p>Pense em sentimentos negativos, qualquer um deles: temor, sofrimento, revolta, preocupação, medo, mágoa, rancor, insatisfação, indignação, impaciência, hostilidade, frustração, estresse, desilusão, desgosto, desconforto, antipatia ou qualquer outro. Nenhum deles precisa vir com a raiva junto. Por sinal, o ideal é que não venha, raiva é um alarme imediato que desgasta o corpo e turva o discernimento, é um recurso de emergência que deve ser transitório.</p>
<p>Arrisco dizer que boa parte das pessoas hoje está tão imersa nesse mecanismo de embutir raiva em tudo que não vivenciam sentimentos negativos sem sentir raiva. Foram educados assim, foram educados vendo isso, então, na cabeça, são sentimentos siameses, que estão sempre onde o outro está. Esse é o “correto” na cabeça de muita gente, se é que em algum momento elas param para pensar nisso.</p>
<p>Isso atrofia. A pessoa resume tudo negativo a raiva (é bem mais fácil do que vivenciar uma enorme nuance de sentimentos complexos e ter ferramentas para lidar com todos eles). Com o tempo, a pessoa só sabe reconhecer a raiva, só sabe lidar com a raiva e só sabe ensinar a raiva como sentimento válido e adequado para aquela situação. Assim, a sociedade parece estar se transformando em uma massa de zumbis emocionais. Mais por hábito do que por escolha, a raiva é o acompanhamento que sempre vem junto, pois é assim que as coisas são.</p>
<p>Ou melhor&#8230; eram. Agora você leu este texto. Agora você sabe melhor. Agora a situação foi desemaranhada e apresentada de forma clara para você. Você pode refletir e, se quiser, colocar a raiva no setor que ela pertence: uma emoção imediata com prazo de validade curto, que se transforma em uma emoção mais complexa e menos desgastante quando racionalizada.</p>
<p>A raiva é para ser um sentimento imediatista, passageiro. Um momento de raiva. Ela vai apagando, como um fogo, quando não é alimentada. Mas, por algum motivo frequentemente as pessoas a alimentam. Por não quererem ser “otárias”? Por acharem que tem que ser assim para não serem sacaneadas novamente? Por costume? Não sei. Só sei que pegar um recurso rápido e fazer dele algo no longo prazo desgasta demais o corpo e a mente. Está fora de lugar. É tóxico. E não te ajuda nem te protege em nada, isso é uma mentira.</p>
<p>E, como sempre falamos aqui, só mantemos comportamentos custosos para nosso corpo e nossa mente quando ele nos traz um belo ganho secundário, ainda que seja inconsciente. Então, seria o caso de se perguntar que ganho secundário a raiva gera.</p>
<p>Talvez uma falsa sensação de proteção? De achar que ninguém vai fazer nada com a pessoa por ela estar visivelmente enraivecida? Ou um conforto para si mesmo, para se sentir menor idiota, no estilo “fizeram tal coisa comigo, mas eu não sou idiota, pois estou furioso”. Ou ainda usar a raiva como escudo para manter aquela ferida, aquela sensação ruim viva, como tentativa de não repetir o erro? Podem ser milhões de ganhos secundários, mas todos são contraproducentes. A raiva, no longo prazo, só faz mal.</p>
<p>E gera um “vício”. O vício na raiva é algo real. A pessoa se acostuma a acoplar a raiva em qualquer sentimento negativo e, quando não o faz, fica com a sensação de que não está dando importância a algo sério, que não está dando uma resposta ou reação à altura, que está sendo permissiva, que está sendo idiota, fraca, otária. Se você realmente se importa, então vai ficar muito puto e sentir raiva. Percebem a armadilha?</p>
<p>Nas últimas décadas, a raiva foi banalizada, cultivada e prolongada. E isso não é ruim apenas para o infeliz que fica sentindo raiva o tempo todo, jorrando cortisol no sangue, intoxicando seu corpo em majorando em 500% sua chance de ter câncer, para depois culpar as vacinas. Isso é ruim para a sociedade como um todo.</p>
<p>Primeiro pela dinâmica povo desunido, políticos unidos. A cultura da raiva faz mulher ter raiva de homem, homem ter raiva de mulher, esquerdista ter raiva de direitista, direitista ter raiva de esquerdista, rico ter raiva de pobre, pobre ter raiva de rico e muitos outros grupos, jogados uns contra os outros, brigando e achando que seu “inimigo” é o grande problema, quando, geralmente, não é. O grande problema costuma ser sistemas corruptos que sacaneiam o povo,  filhos da puta que detém poder (com ou sem cargo) que sacaneiam o povo e o povo distraído demais brigando com seu colega para fazer algo a respeito.</p>
<p>Também cria uma sociedade violenta, de desentendimentos, de conflitos na maior parte das relações: é filho espancando a mãe, é mãe matando filho, é casal se esfaqueando, é criança agredindo criança, é gente matando vizinho com martelada na cabeça&#8230; Esse é o resultado de uma sociedade que insere raiva como inerente a qualquer sentimento negativo. Vira essa barbárie, esse inferno e ainda ensina para suas crianças a reproduzirem isso.</p>
<p>E todos nós somos parte do problema, pois todos nós, em algum momento, acabamos fazendo isso sem perceber: inserir raiva onde ela não deveria estar.</p>
<p>Então, em vez de ser parte do problema, sejamos parte da solução: analisemos cada sentimento negativo e observemos se tem raiva nele. Se tiver, trabalhemos para tirar, pois ela está fora de lugar. Raiva é emoção, é para ser curta e te proteger de imediato, depois deve ser transmutada em algum sentimento mais maduro.</p>
<p>Hora da gente aprender o que significa cada sentimento negativo e se portar de acordo. Hora de deixar a raiva ir e sentir algo mais condizente com a vida adulta. Hora de se livrar dessa necessidade no vício de agregar raiva.</p>
<p>Te faço um convite: se observe. Se policie. Se eduque para não desembocar na raiva automaticamente.</p>
<p>Talvez você não mude o mundo, mas a sua vida com certeza vai melhorar.</p>
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		<title>Direito de imagem.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Oct 2025 15:15:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arca]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos últimos dias, estive testando o Grok Imagine, o serviço de IA do Elon Musk que transforma imagens em vídeos. A qualidade é bacana, não é o melhor do mercado, mas é extremamente rápido. E até agora, com uma postura bem leniente sobre nudez. Então, acho que precisamos conversar sobre uma coisa chata, especialmente se [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos dias, estive testando o Grok Imagine, o serviço de IA do Elon Musk que transforma imagens em vídeos. A qualidade é bacana, não é o melhor do mercado, mas é extremamente rápido. E até agora, com uma postura bem leniente sobre nudez. Então, acho que precisamos conversar sobre uma coisa chata, especialmente se você for mulher&#8230;<span id="more-33981"></span></p>
<p>Sim, a maioria de vocês já sabe onde eu vou chegar, mas primeiro eu quero explicar a minha leitura sobre o negócio de geração de imagens e vídeos com inteligência artificial: assim que as tecnologias ficaram disponíveis fora das universidades e centros de pesquisa, começaram a fazer mulher pelada.</p>
<p>E honestamente? Não vejo problemas com isso. Arte tem uma relação intrínseca com beleza, e desde que o artista em questão ache o corpo da mulher bonito, é claro que ele vai querer trabalhar com essa imagem. Não se pode misturar uma pessoa que enxerga mulher como um objeto com uma pessoa que simplesmente acha elas bonitas. Nada deste texto é preocupação com objetificação. Isso tem a ver com a personalidade da pessoa, não com o que ela acha visualmente atraente.</p>
<p>A questão aqui é que tem um exército de pessoas aperfeiçoando os modelos de geração de imagem e vídeo com&#8230; mulher pelada e safadezas em geral. Basicamente todo mundo que não está sendo pago para trabalhar com esses modelos está treinando a IA para desenhar peitos e bundas com mais perfeição. E é claro que todos esses avanços oferecidos de graça ou por valores irrisórios no mercado paralelo acabam alimentados de volta nos modelos mantidos por grandes empresas.</p>
<p>É claro que eu pedi para a IA fazer uma mulher pelada logo no começo da tecnologia. Era algo&#8230; meio abstrato, por assim dizer. A máquina até sabia onde iam os peitos da moça virtual, mas não exatamente como eles deveriam se parecer. E se ela estivesse nua da cintura para baixo, eram seres saídos de um conto de terror entre as pernas. Era engraçado, pelo menos.</p>
<p>A comunidade não desanimou, continuou compilando, descrevendo e alimentando milhões de imagens de mulheres peladas nos modelos até chegarmos no que é possível hoje: basicamente perfeição na nudez sintética, inclusive para homens, porque é claro que tem comunidade focada nisso também. Em questão de pornografia, tudo parece ser possível com modelos de imagem de uso pessoal.</p>
<p>Digo uso pessoal porque sem censura nenhuma, só rodando o modelo de geração de imagem numa máquina dedicada. Os sistemas online que o povão conhece como o ChatGPT contam com censura pesada, um monte de travas para manter tudo “seguro para o trabalho”; claro, naquele jeitão americano de ser: peito é intolerável, metralhadoras tudo bem.</p>
<p>E por um tempo, a represa dos modelos de imagem produzindo conteúdos mais eróticos foi mantida por essa autocensura das Big Techs. Eles sabiam o que ia acontecer se liberassem essas coisas e queriam evitar o caos que se seguiria. Mas sabe quem gosta do caos? Elon Musk.</p>
<p>O Grok, modelo dele, sempre foi mais politicamente incorreto que a concorrência. Ele fala coisas que outros bloqueiam, e fez disso seu diferencial competitivo. Outros modelos como os da OpenAI e do Google até podem ser mais poderosos em tarefas diversas, mas se você quer algo com menos travas, o Grok é ideal.</p>
<p>E desde que começou a disponibilizar modelos de imagem, o Grok sempre esteve um passinho na frente dos outros em ousadia. Novamente, diferencial competitivo para quem não tem exatamente a mesma qualidade dos outros. E isso funcionou para mantê-lo relevante. E naquela linha Elon Musk de sempre empurrar a linha, começaram a deixar o Grok desenhar mulher pelada. Cheio de frescuras, cheio de limites, mas anos-luz na frente de qualquer outro concorrente do mesmo porte.</p>
<p>Será que isso funciona financeiramente? Liberar as comportas para pessoas querendo mais safadeza nas suas IAs? Bom, faz pouco tempo o ChatGPT disse que vai liberar um modo “erótico”, reduzindo as travas do seu modelo. Alguém precisava ser maluco o suficiente para começar, Elon Musk começou. Mas depois disso, o dinheiro vai estar batendo na porta, desesperado para entrar&#8230; e eu aposto que com algumas verificações de idade antes, o mercado vai atender essa demanda.</p>
<p>E aqui eu conecto os pontos: fora da visão da maioria das pessoas, estavam treinando as IAs para ficarem boas em conteúdo erótico, escrito, sonoro ou visual. Eu tenho certeza que essa pesquisa amadora foi alimentada nos modelos profissionais, porque já pipocam na internet muitos vídeos feitos no Grok com nudez praticamente perfeita. Se você não estivesse treinando com essas imagens esse tempo todo, não ia ficar assim.</p>
<p>Ia sair daquele jeito demoníaco dos meus primeiros testes anos atrás. Os modelos foram treinados com conteúdo sugestivo e pornográfico. E quem compilou isso foram os tarados anônimos. Isso quer dizer que a IA não só sabe como é o corpo humano em todos seus detalhes, mas também sabe como simular ações conectadas, como tirar a roupa.</p>
<p>Sabe como são vídeos de celular “naturais”, sabe como fazer a iluminação exata daqueles vídeos vazados, como é o ser humano no seu ambiente natural de safadeza. O ponto aqui é que até agora os sites capazes de fazer essas cenas realistas tinham muita censura que impedia o cidadão normal de sequer ver isso. Mas estava sendo gerado: os bloqueios são realizados enquanto a imagem ou vídeo são feitos, quando uma IA supervisora reconhecer nudez ou pornografia no material e aborta a geração completa.</p>
<p>Some-se a isso a sensação pervasiva da IA estar numa bolha, muito mais valorizada do que realmente é, existe um incentivo de liberar esse lado “proibido” dela para mais pessoas e ganhar dinheiro com as mensalidades. É muito mais fácil, rápido e barato do que rodar seu próprio modelo. Eles precisam demonstrar que conseguem fazer dinheiro antes que os investimentos sequem, e historicamente, nada vende melhor que sexo.</p>
<p>Se as grandes empresas tiverem medo de seguir nesse caminho, vão surgir empresas menores com capacidade de computação e sem travas. A porta está aberta e eu não acho que vá fechar mais. Alguém vai oferecer geração de pornografia de alta qualidade para as massas, e isso vai mexer com a forma como muita coisa funciona.</p>
<p>A tecnologia está pronta para pegar qualquer foto sua e fazer você tirar sua roupa, por exemplo. Não tem que treinar mais, isso já está basicamente perfeito, só falta tirarem as últimas travas de modelos rodando em servidores bilionários. E é possível que salvo a capacidade de fazer cenas com crianças, as outras barreiras vão cair, e qualquer um com um celular na mão e talvez alguns reais de mensalidade vai poder fazer o que bem entender com sua imagem.</p>
<p>Está na mão de algumas pessoas desse mundo segurar ou soltar essa tecnologia para o povão, uma delas é maluca de pedra, o Elon, e as outras vão ficar cada vez mais pressionadas para demonstrar viabilidade econômica. Como o Grok já deu um passinho nessa direção, nos resta saber quanto dinheiro isso realmente vai gerar. Porque esse povo se conversa, se souberem que o Grok começou a ficar no positivo por causa de pessoas tirando roupa de mulheres aleatórias com IA, o incentivo vai ser forte para permitir coisas parecidas.</p>
<p>Se você é mulher, vale a pena saber que isso existe, para não descobrir só quando a represa estourar. Se você vai tomar mais cuidado com o que posta ou se vai enfrentar de peito aberto (trocadilho mais ou menos intencional) só você pode decidir. Mas como nerd que presta atenção nessas coisas, eu acho justo te informar.</p>
<p>Não é que um dia vai ficar nesse nível de pegar qualquer foto sua e te fazer tirar a roupa e começar a rebolar, é que já está pronto. São só algumas linhas de código nas IAs atuais que evitam que esse conteúdo seja mostrado. Ele já é feito, ele só não aparece na tela de quem pediu por ele. O trabalho já foi feito, milhões de fotos e vídeos de mulheres tirando a roupa em casa na frente do celular (nenhum coletado legalmente) já foram usados para treinar a IA, ela sabe exatamente como simular a cena.</p>
<p>E como o que está dentro dos modelos usados é uma caixa-preta, eu não sei nem como a lei vai fazer para provar que esse tipo de conteúdo foi usado. Eles podem simplesmente mesclar coisas feitas na clandestinidade por amadores e fazer tudo se perder num mar de zeros e uns indecifrável.</p>
<p>Salvo banir nudez e pornografia da internet, não sei como evitar que essa tecnologia chegue de forma confortável na mão de bilhões de tarados e taradas dispostos a violar o direito de imagem de qualquer um. Você que sabe como vai agir com essa informação, mas que ela fique clara aqui.</p>
<p>Eu mantenho a teoria que em algumas décadas, o próprio conceito de pornografia com sua imagem vai ficar tão batido que as pessoas vão parar de se chocar. O que a gente cresceu achando uma ofensa terrível não vai nem distrair a pessoa do futuro do que está fazendo. Mas nesse meio tempo, há um risco considerável de você se chocar com o que conseguem fazer com qualquer imagem sua disponível na internet.</p>
<p>Já existe. É rápido, fácil e cada vez menos censurado. Boa sorte!</p>
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		<title>A nova prostituição.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/10/a-nova-prostituicao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Oct 2025 16:05:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Estamos muito acostumados a ver o termo “prostituição” como sendo sinônimo sexo pago. Provavelmente pelo fato de que, quando o termo foi cunhado, essa era a principal troca envolvendo material humano e dinheiro. Mas, os tempos mudaram e hoje existem muitas outras formas de prostituição, que são camufladas, negadas e renomeadas de forma a que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos muito acostumados a ver o termo “prostituição” como sendo sinônimo sexo pago. Provavelmente pelo fato de que, quando o termo foi cunhado, essa era a principal troca envolvendo material humano e dinheiro.<span id="more-33978"></span></p>
<p>Mas, os tempos mudaram e hoje existem muitas outras formas de prostituição, que são camufladas, negadas e renomeadas de forma a que não sejam malvistas socialmente. Mas também fazem mal, também implicam em um grau enorme de sujeição e violência para consigo mesmo e em algum nível de indignidade.</p>
<p>Este texto não é para julgar quem o faz, é para ajudar a perceber que o faz e para ajudar a perceber o mal que isso causa. Tendemos a medir o grau de dano que algo nos provoca pelo quanto aquilo é socialmente reprovado, mas, em uma sociedade doente, com mais pessoas usando remédio controlado do que não usando, esse critério deixa de ser confiável.</p>
<p>Há muitos comportamentos socialmente tolerados ou até aplaudidos que são sim extremamente nocivos para as pessoas e elas sequer se dão conta disso. Tem muita gente por aí sem entender por que não cresce na profissão, por que sente um enorme vazio, por que sente insônia, por que sente ansiedade, por que não se sente feliz e muito mais. Na cabeça da pessoa, ela não faz nada “errado”, afinal, tudo que ela faz tem aval social. Pois é, às vezes, mesmo com aval social, um comportamento pode ser muito nocivo.</p>
<p>Hora de expandir o conceito para adequá-lo aos novos tempos: Prostituição é comercializar a si mesmo, não apenas em troca de dinheiro, como também de algum benefício. A parte de ter ato sexual envolvido já caiu por terra com todos os zilhões de atividades online, nas quais nenhum dos envolvidos se conhece, se vê ou se toca. A prostituição, hoje, pode ser da vida, da intimidade, do relacionamento, da família, da ideologia e de muito mais.</p>
<p>Vamos partir da forma mais tradicional: sexo em troca de dinheiro. A prostituição não tem essa carga social negativa à toa, é de fato algo que faz mal à alma. Não por moralismo, mas por tolher algumas das coisas mais sagradas para nosso bem-estar: direito de escolha, liberdade, verdade, privacidade e integridade. Fazer sexo com uma pessoa pela qual não se sente atração, ter que esconder que isso é repulsivo, ter que fingir, mentir, tudo isso faz mal à alma, corrói a integridade.</p>
<p>Novamente, sem moralismos: para mim, íntegra é a pessoa que consegue alinhar o que sente, o que pensa, o que diz e o que faz. Quando você se prostituí, seja de que forma for (mesmo que seja não-sexual), um ou mais de um desses quatro itens será sacrificado.</p>
<p>Prostituição implica agradar outras pessoas, e quase nunca se consegue isso usando a verdade, infelizmente. A sociedade atual não quer verdade. Igualmente, não há liberdade quando a meta é agradar os outros. Também não há privacidade, pois o que a sociedade mais adora é revirar as entranhas da vida alheia.</p>
<p>Dito isto, quero te fazer um convite a uma reflexão, não apenas agora, mas várias vezes por dia na sua vida. Mas, esta reflexão só terá validade se você puder ser absolutamente sincero com você mesmo, já que certamente existirão estratégias para você faltar com a verdade na sua resposta e não se sentir tão mal. Todos os dias, antes de postar qualquer coisa em redes sociais, se pergunte: “Por que eu estou postando isso? O que me move a postar isso?”.</p>
<p>Vou ilustrar meu ponto com três exemplos de prostituição não-sexual, mas existem muitos outros. Vamos lá.</p>
<p>Pessoas que postam anúncio de Tigrinho, por exemplo, estão se prostituindo, estão prostituindo sua credibilidade em nome de dinheiro. É de conhecimento público que bets buscam em qualquer influencer, do maior ao menor, pessoas que convençam seus seguidores que vai ser bom apostar, que vão ganhar dinheiro com isso, que, como anunciava Felipe Neto, é uma “forma de complementar a renda”.</p>
<p>Faz mal. Primeiro porque você desgraça a vida de um monte de gente e isso nunca traz coisa boa. A pessoa que divulga bet é como um traficante: apresenta algo que vicia a pessoas vulneráveis. E algumas delas ficarão viciadas. Apostas são questão de saúde pública, arruínam famílias, causam danos à economia do país. Não é problema de cada um, podem criar uma bolha financeira que pode desgraçar todo mundo.</p>
<p>Também faz mal por detonar sua integridade: o que a pessoa pensa e sente não está de mãos dadas com o que ela fala e faz. Certamente quem anuncia bet não usa bet como forma de complementar renda e nessa altura não tem como a pessoa não saber que, para que o negócio se mantenha viável, a banca tem que ganhar quase sempre, ou seja, seu público vai perder dinheiro.</p>
<p>As pessoas sabem. Gostam de fingir que não, gostam de dizer que “aposta quem quer”, mas em algum lugar da mente, elas sabem que sua divulgação incentiva os outros a apostarem. E por mais que soterrem isso com toneladas de desculpas para tentar torná-lo socialmente aceitável, em algum ponto inconsciente, esse culpa faz um ninho, cresce e dá filhotes. Aí vem o vazio, a ansiedade, a insônia, a depressão e muito mais. Paga-se com a alma.</p>
<p>Pessoas que evadem sua privacidade mostrando sua casa, seus filhos, sua rotina, o que comeram, sua ida à academia, estão prostituindo sua intimidade. E este provavelmente é o grupo que mais resistência tem em perceber que não deixa de ser uma forma moderna de prostituição, pois muita gente o faz, dando uma falsa aura de normalidade.</p>
<p>Sabemos que cada um tem um conceito do que considera privado ou não e tá tudo certo. Mas que tal a gente estabelecer alguns parâmetros, para não se deixar enganar? O oposto de privado, é público. Logo, tudo que não é público é privado (não existe mais ou menos público). E quando você posta coisas em redes sociais, elas são públicas, por mais privadas que você pense que suas redes são, o conteúdo pode vazar de infinitas maneiras.</p>
<p>Se o oposto de privado é público, então, tudo que você posta tem que estar na categoria de “público”, ou seja, coisas que você faria em praça pública, na frente de uma freira, de uma criança e de um mendigo. Coisas que você faria que poderiam ser exibidas no Jornal Nacional sem causar qualquer constrangimento a seus filhos, aos seus pais ou a seus avós. Coisas que você faria dentro de uma igreja, dentro de um shopping ou dentro do transporte público. Tudo que você posta se enquadra nessa categoria?</p>
<p>Só aqui, rapidamente, eu consigo pensar em diversas postagens recorrentes que não. Gente reclamando do parceiro, de problemas pessoais, do trabalho. Gente mostrando outra pessoa dormindo, mostrando os erros que o parceiro(a) comete. Você berraria em praça pública qual é o seu salário? O que comprou? O que comeu? Não, né? Não faz o menor sentido. Redes sociais, meus amigos, são a praça pública moderna.</p>
<p>A partir do momento em que a pessoa se convence que só é privacidade/intimidade cagar e fazer sexo, ela expõe basicamente tudo da sua vida online e perde cada vez mais o filtro do que faz. Esse é um dos grandes problemas de redes sociais: é preciso escalar, sempre. O que você posta hoje se torna monótono depois de um tempo, então, é preciso postar mais, subir mais um degrau, para continuar recebendo atenção.</p>
<p>Daí surgem esses desafios imbecis estilo cheirar pimenta, lamber um prego enferrujado ou enfiar um baiacu vivo no fiofó. São as pessoas desesperadas por atenção. E, como dissemos lá no começo do texto, não precisa ter dinheiro envolvido para ser prostituição, pode ser algum benefício também, como status, seguidores, validação, atenção.</p>
<p>Então, gente que mostra sua vida em redes sociais está prostituindo sua intimidade e, por mais que encontre mil justificativas (a mais comum é dizer que eu sou fresca ou maluca), o dano que isso causa está aí. Remedinho controlado, ansiedade, síndrome do pânico, depressão, estresse, vazio, sensação de que algo falta, insônia, exaurimento. Gente&#8230; esses sintomas não vêm de graça nem do nada, se estão aparecendo, tem algo na sua vida que os está gerando.</p>
<p>Primeiro pela demanda insana que é ter que transformar sua vida em postagem. Sejamos sinceros, ninguém tem uma vida real tão interessante que entretenha seus seguidores todos os dias, muito menos as pessoas que costumam evadir sua privacidade.</p>
<p>Então, para conseguir audiência, a pessoa inventa, aumenta, maquia a própria vida, é lá se vai a integridade novamente. Se cuidar de uma vida só já é cansativo, imagina ter que administrar duas: a vida real e a vida contada em rede social. Pior ainda quando a vida de rede social acaba se tornando melhor do que a vida real, imagina a tortura de ter que voltar para a vida real todo dia. Talvez por isso tanta gente escolha passar a maior parte do seu tempo em redes sociais, lá sua vida é do jeito que a pessoa gostaria que a vida real fosse.</p>
<p>Em todo caso, quando se compromete a verdade (em algum lugar a pessoa sabe que está mentindo), a liberdade (a pessoa não pode postar o que quer, certas coisas não se postam para não perder seguidor, outras precisam ser inventadas para atrair a audiência e&#8230; a pessoa não pode parar de postar!) e a integridade, a alma perece. E a pior parte é: quase nunca é por dinheiro, quase sempre é uma busca desesperada por atenção, validação e elogios. É muito triste.</p>
<p>As novas formas de prostituição podem chegar a patamares assustadoramente baixos. Nessa categoria, cito como exemplo as meninas que aceitam sair com homens para jantar ou lanchar, mesmo cientes de que não querem nada com eles, e depois ainda postam numa vibe de “hi hi levei vantagem”. Isso vem sendo mais comum do que a gente imagina.</p>
<p>Não consigo pensar em nada mais triste do que prostituir seu tempo e sua presença em troca de um prato de comida e ainda achar que isso é motivo para se gabar. O autoconceito de quem faz uma coisa essas está muito, mas muito baixo. Primeiro por acha que é de alguma forma admirável enganar o outro, segundo que&#8230; por comida? A pessoa vale tão pouco?</p>
<p>Alardear que saiu com uma pessoa com a qual não tinha interesse para conseguir qualquer benefício já me parece autodepreciativo e infantil, mas contar que o benefício era um prato de comida, para mim, é o fundo do poço. “Ah mas eu não fiquei com ele”. Deu sua presença e seu tempo. Em troca de um prato de comida. Se eu tivesse uma filha e ela fizesse isso, ia para terapia na mesma hora.</p>
<p>Enfim, meus queridos, existem inúmeras formas de prostituição além dessas. Basicamente tudo que temos pode ser prostituído, não é só sobre corpo e sexo: nossa opinião (pessoas pagas para defender político X ou Y até a morte), nosso relacionamento (postar vídeo ridicularizando o marido por ele não saber escolher uma fruta no mercado), nosso lazer (passar uma viagem com o celular na mão filmando tudo que faz) e muito mais. É sagrado direito seu fazer mas&#8230; saiba que tem um preço pago com algo da sua saúde mental.</p>
<p>Por mais que, racionalmente, a pessoas que prostituí algo na sua vida não veja problema, isso faz mal. E cedo ou tarde, as consequências chegam no emocional, no psicológico é até no físico. Então, este texto não é para te julgar e sim para te informar que, por mais que a maioria das pessoas tenha certeza de que não, essa conta existe e essa conta chega. Não prostitua nenhum aspecto da sua vida.</p>
<p>Viva o agora, com verdade, com integridade, focando em você e nas pessoas que são importantes para você (família e amigos), não em seguidores. É um exercício de resgate de si mesmo focar sua vida no que você tem vontade e não no que é mais instagramável. É tentador querer viver uma vida perfeita construída em rede social mas&#8230; faz mal. O foco tem que ser na vida real e é ela quem precisa ser aprimorada, por mais difícil que seja.</p>
<p>Não prostitua nenhum aspecto da sua vida, pelo bem da sua saúde mental. Comece se vigiando em redes sociais. Antes de postar qualquer coisa, se pergunte: “para que eu estou postando isso?”. Se for em troca de aprovação, atenção, dinheiro, validação ou elogios, faça um favor a você mesmo e não poste.</p>
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		<title>Gororoba de IA.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Oct 2025 16:03:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Somir Surtado]]></category>
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					<description><![CDATA[Em inglês, a expressão AI Slop se popularizou para definir aquele conteúdo tosco feito por inteligências artificiais que começou a lotar redes sociais e a internet em geral nos últimos anos. A melhor tradução que eu encontrei foi “gororoba de IA”, porque é o que mais funciona para manter o sentido original. Embora a tecnologia [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em inglês, a expressão AI Slop se popularizou para definir aquele conteúdo tosco feito por inteligências artificiais que começou a lotar redes sociais e a internet em geral nos últimos anos. A melhor tradução que eu encontrei foi “gororoba de IA”, porque é o que mais funciona para manter o sentido original. Embora a tecnologia seja essencial para esse tipo de material, não é como se esse tipo de gororoba fosse uma novidade na nossa produção cultural&#8230;<span id="more-33975"></span></p>
<p>Nota do tradutor: sim, eu sei que “slop” é uma palavra muito mais complexa que gororoba, ela não só representa a imagem de uma porcaria misturada, como também vai para o conceitual de desleixo, preguiça&#8230; e até vai para lados de algo fisicamente molhado ou até babado (quem sabe, sabe). É uma palavra coringa da bagunça. A gente em português usa dez palavras diferentes para os conceitos de “slop” na língua inglesa, então não existe tradução perfeita. Em resumo, no contexto do texto de hoje, é algo de baixa qualidade feito de qualquer jeito, nas coxas, para usar uma expressão idiomática nossa de volta.</p>
<p>Toda vez que eu tenho que lidar com influencers no meu trabalho, eu sou lembrado de como o ser humano médio tem dificuldade de produzir conteúdo de qualidade, ou mesmo coerente. E isso vem bem antes da popularização das ferramentas de IA. Quando você começa a procurar gente para divulgar uma marca, vai sendo exposto a diversos perfis de redes sociais que produzem seus próprios conteúdos.</p>
<p>E para cada perfil bacana, cem bizarros. Sim, sempre tem aquele povo que “quer ser influencer” e não faz nada com nada; mas até mesmo os que tentam seguir um nicho costumam bater numa parede de qualidade básica. E não estou falando de filmar com um celular caríssimo, estou falando da ideia de qualidade “por que outro ser humano veria isso?”. São fotos e vídeos que nada dizem, é a ideia geral de um post de rede social, mas sem nenhum motivo aparente para existir.</p>
<p>E isso tem a ver com a pessoa, o que ela tem de referências e capacidades. Eu, por exemplo, se fosse obrigado a produzir vídeos sobre maquiagem na internet: a primeira coisa que eu pensaria é que eu não sei nada sobre maquiagem para competir no mercado. Eu teria que estudar muito sobre o tema, ou&#8230; eu poderia subverter a ideia para se adequar a talentos que eu tenho. Eu não sei fazer a coisa real, mas sou bom de pensar no que é obviamente errado, poderia ir para um caminho de humor nonsense explicando tudo errado.</p>
<p>Ou, poderia ser mais malandro e fazer tutorial de maquiagem digital, algo que embora não seja especialista, tenho o conhecimento técnico e as ferramentas para dar boas dicas. Te ensino a tirar marcas no Photoshop, a acertar o tom de pele para ficar mais natural, posso até explicar como compressão de vídeo pode estragar uma maquiagem, porque se você tiver muitas texturas juntas numa imagem, o algoritmo da rede social estraga a qualidade do vídeo&#8230;</p>
<p>O ponto aqui é que mesmo que eu não saiba falar sobre o ponto central de maquiagem, eu ainda estou pensando em coisas que fariam valer o tempo do outro e trazendo conhecimentos reais meus para o projeto. É isso que costuma dar errado nesses aspirantes a influencer: eles parecem não entender que é feito para outras pessoas. O foco é produzir algo e “ficar rico”. Não sei se é só um comportamento narcisista ou se realmente não entendem como as coisas funcionam.</p>
<p>E é aqui que eu conecto o ponto da gororoba de IA: o que as ferramentas de inteligência artificial trazem para o mercado de produção de conteúdo são coisas que combinam mais com o público “mamãe quero ser influencer” do que quem realmente se importa com o que está produzindo. Ainda são as pessoas produzindo porcaria, só mudou a forma de ser uma porcaria. A pessoa que não se importava com quem está vendo seu conteúdo vai continuar não se importando.</p>
<p>Você pode achar as nossas opiniões horríveis aqui no Desfavor, mas ainda sim conseguimos passar a ideia de que nos importamos. É mais do que a mecânica de escrever os textos de verdade, é uma intenção que passa pelo material dos autores para os leitores. Tanto que até nossos odiadores contumazes continuam aqui dia sim, dia também. É tão de verdade que até quem detesta as ideias se sente compelido a acompanhar.</p>
<p>Por isso que eu argumento que o problema da gororoba de IA não é a IA, são as pessoas usando a IA. Quando a pessoa percebe que nem quem fez se importa, não tem onde se conectar. Repito: nem quer dizer que seja sobre o padrão técnico de qualidade, tem muita coisa tosca que é divertida nesse mundo. O seu gosto é rei nessas horas: entre duas horas de nerd numa oficina escura consertando videogame dos anos 90 e dois minutos de influencer falando de iPhone com produção profissional, eu fico fácil com as duas horas toscas.</p>
<p>O ser humano médio só é sensível à qualidade de produção depois dos seus interesses. Eu sei que quase ninguém percebe roteiro ruim ou falhas nas imagens feitas na IA, mas percebe a diferença entre quem se importa e quem não. Gororoba de IA pode render cliques por um tempo, mas se a pessoa começar a ter contato com conteúdo feito de verdade por gente que gosta daquilo e se importa com o que está produzindo, a fonte começa a secar.</p>
<p>Vamos ter que aguentar muita gente ainda começando a produzir conteúdo com IA achando que é atalho para ficar rica, o mercado de vender curso para esses desesperados está bombando, e até chegar à realização que não vai dar “dinheiro infinito” produzir toneladas de conteúdo ruim, vamos todos sofrer com isso. Só não queria que a IA fosse a culpada por isso. Porque são as pessoas querendo pegar atalhos, achando que todo mundo é otário, menos elas.</p>
<p>O que talvez seja um papo difícil para termos: embora eu sempre diga que todo mundo é criativo, não quer dizer que todo mundo consegue produzir material de qualidade. Inspiração é uma pequena parte do processo. A IA ganha muita popularidade pela ideia de que vai permitir que a maioria das pessoas consiga expressar sua criatividade, mas não é bem assim que funciona: o uso de ferramentas de geração de textos, sons e vídeos não significa que você esteja transformando a sua criatividade em algo.</p>
<p>Produzir o conteúdo é muito mais importante do que bolar o conteúdo. É na hora de fazer que você coloca sua intenção e consegue fazer com que outros humanos se conectem com você. A pessoa que não queria gastar a energia e o tempo de produzir antes continua não fazendo a coisa principal mesmo com a IA fazendo materiais teoricamente profissionais.</p>
<p>Quem está falhando na “crise da gororoba de IA” é o ser humano escrevendo o prompt. Tem gente usando essas tecnologias para fazer coisas muito interessantes, e nenhuma delas está simplesmente pedindo para o ChatGPT fazer um post sobre um tema. Estão usando a IA como ferramenta de produção para realizar sua imaginação.</p>
<p>Se a sua mentalidade de produção de conteúdo é uma gororoba, só vai sair gororoba, com ou sem IA. Se é um projeto de vaidade ou puramente para tirar vantagem dos tontos que não vão perceber que é IA, vai ser gororoba. Você vai ter seus cliques por um tempo, mas vai começar a falhar eventualmente, porque mesmo o mais tosco de nós tem faro para algo que não tem intenção e interesse verdadeiro por trás.</p>
<p>E sim, mesmo os conteúdos que você mais detesta, das maiores futilidades ao humor mais “berrando na rua” que o povão gosta, quem se dá bem na maioria das vezes é quem gosta de verdade de fazer aquilo. Os seres das trevas que ficam famosos sem lógica nenhuma existem, mas basta você conhecer o mercado de influenciadores para entender: é um em um milhão, vencedores de loteria de atenção.</p>
<p>A maioria não dá certo nem em nichos muito específicos. E normalmente é por falta de noção básica sobre fazer algo para outras pessoas consumirem. É claro que esse povo vai pular de cabeça na IA e infestar a internet de imagens amareladas com os mesmos dois ou três estilos que o ChatGPT faz se você não pedir nada específico.</p>
<p>A pessoa não produz nem para ela, nem para os outros. É uma ideia etérea de fama online como algo que simplesmente cai no colo, aquela babaquice de “fazer um vídeo para viralizar” que todo mundo achava que era possível poucos anos atrás. E isso me chama atenção aqui porque estou notando que a rejeição está caindo inteira nas costas da inteligência artificial, como se o computador tivesse colocado uma arma na cabeça desse povo desleixado e forçado eles a produzir essa gororoba toda.</p>
<p>Não, são as pessoas. A IA é uma máquina que não quer nada. Quem faz esses conteúdos terríveis está escolhendo desperdiçar o seu tempo. No final das contas, não é gororoba de IA, é gororoba humana. Podemos falar sobre como o capitalismo incentiva esse tipo de comportamento, como falta educação e como essas porcarias são feitas majoritariamente por pessoas pobres&#8230; mas seja como for, é coisa nossa.</p>
<p>A IA não é capaz de fazer algo que não tenhamos pedido de alguma forma.</p>
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		<title>Viva o terrorismo!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Oct 2025 18:47:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[No aniversário de 2 anos do ataque terrorista bárbaro do Hamas contra Israel, o PCO convocou uma “celebração” do evento. Já seria de péssimo tom, mas calma que piora: fizeram isso na sede da Apeoesp, sindicato de professores do estado de São Paulo. Para começo de conversa, eu sei que o PCO (Partido da Causa [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No aniversário de 2 anos do ataque terrorista bárbaro do Hamas contra Israel, o PCO convocou uma “celebração” do evento. Já seria de péssimo tom, mas calma que piora: fizeram isso na sede da Apeoesp, sindicato de professores do estado de São Paulo.<span id="more-33798"></span></p>
<p>Para começo de conversa, eu sei que o PCO (Partido da Causa Operária) é o mais próximo de um partido troll que temos no Brasil, até por isso até hoje eu seguia a estratégia de na dúvida, votar neles. Um partido tão focado em provocar no mínimo é uma pedra a mais no sapato dos nossos políticos fisiologistas. Como sempre dizia, não quero o PCO no poder, mas um ou outro deles para tocar o terror eu sempre achei uma boa ideia.</p>
<p>Ou seja, eu sei que eles fazem essas coisas para gerar confusão e irritar as pessoas, faz parte da ideologia revolucionária e já virou uma estratégia para conseguir atenção da imprensa. Mesmo sabendo que eles querem as pessoas irritadas e falando deles custe o que custar, eu vou morder a isca.</p>
<p>Porque um sindicato de professores ficou sabendo o que era o evento e topou ceder sua sede. Imagina o grau de distorção mental das pessoas que acharam razoável misturar a imagem de toda uma categoria com esse tipo de provocação? Porque uma coisa é criticar Israel pela forma como combateu o Hamas, outra é defender os terroristas no seu método.</p>
<p>Porque aí você começa a considerar uma invasão de homens armados em áreas civis para matar e estuprar pessoas indefesas, incluindo bebês, como um “mal necessário” para conseguir seus objetivos. Não havia nada de necessário no 7 de outubro de 2023. Tanto não havia como o resultado dessa ação foi uma contraofensiva israelense tão brutal que derrubou praticamente todas as construções da Faixa de Gaza.</p>
<p>Ou seja, até de um ponto de vista totalmente amoral, foi uma péssima ideia. A não ser que o objetivo fosse demolir tudo para construir a Riviera do Oriente Médio que o Trump sugeriu. Não importa o objetivo que você imagina que o Hamas teve, ele não foi alcançado. Se queriam revolução, companheiros, ganharam bomba.</p>
<p>E eu digo isso porque existe uma base ideológica nesse povo defendendo o Hamas junto com os palestinos. A ideia é que dada a opressão militar e econômica de Israel e Estados Unidos, existe uma validade nas ações terroristas até por falta de escolha. Para quem tenta racionalizar o Hamas, é muito importante que exista alguma função maior no terrorismo contra os israelenses.</p>
<p>Porque toda a parte da turma da suposta lacração defendendo radical islâmico que joga gay do telhado ainda fica protegida pela ideia de que direitos humanos são para todos os humanos, concordando ou não com eles. Eu sei que tem buracos nessa lógica (não se pode ter liberdade de remover a liberdade), mas é uma lógica.</p>
<p>Já terrorismo não pode ser racionalizado, nem mesmo se você não gosta da vítima. Pode até chamar o que Israel fez de volta como uma espécie de terrorismo, mas mantenha-se consistente em não apoiar em nenhuma situação. Abriu a porta, começa a deixar tudo confuso. Porque a onda de protestos contra Israel, por mais merecida que tenha sido, acabou limpando a imagem do Hamas e do que eles fizeram há dois anos, numa comparação que não deveria acontecer.</p>
<p>A contrariedade à campanha genocida israelense se basta, não precisa validar nenhum de seus inimigos no caminho. A não ser que você queira literalmente exterminar o povo judeu e acabar com Israel, o Hamas não é seu aliado em causa nenhuma. Esse papo horroroso de tratar matador de criança como companheiro contra o imperialismo é um tiro no pé, da ideologia e do resultado prático dela.</p>
<p>Agora que saiu o acordo de paz, que ainda nem sabemos se vai ser cumprido, vamos ter mais uma prova do que se pode ganhar apoiando grupo terrorista: a Faixa de Gaza coberta de escombros, dezenas de milhares de pessoas mortas e um provável regime fantoche de Israel no lugar do Hamas. Revolução na base do ataque covarde contra civis é moralmente errada e taticamente estúpida.</p>
<p>Vai demorar gerações de paz para começar a desfazer o ódio que o Hamas colocou no coração dos israelenses contra todos os palestinos. E como o grupo terrorista provavelmente vai continuar tentando se manter de alguma forma para atacar de novo, podem acabar com essa paz a qualquer momento. Não existe vitória se no seu time está o fuckin’ Hamas. Eles vão sabotar tudo, porque existem pela violência.</p>
<p>Assim como muitos dos políticos israelenses. É claro que eles existem, e hoje eles são parte integrante do governo. São pessoas que querem manter a guerra indefinidamente, até literalmente matar todos os adversários e suas famílias. Só que Israel tem uma democracia e alguns padrões de comportamento previsíveis de acordo com convenções internacionais. Existem poucas, mas existem travas contra os assassinos de lá. Não existe um sistema de pé para controlar os terroristas do Hamas no seu território.</p>
<p>Até por isso, é insanidade querer comparar os dois lados por um viés político: não há política em quem invade outro país só para matar, estuprar e torturar civis. A ideia de valores de liberdade compartilhados pelos oprimidos palestinos cai quando se vê o que faz o grupo terrorista. Pode até ser ingenuidade minha, mas eu espero que o povo que passa do ponto de defender os palestinos para defender o Hamas não ache que esse tipo de violência covarde seja um método real de trazer a revolução do proletariado.</p>
<p>Defender o Hamas e o que fez no começo da guerra não é defender a esquerda ou combater a direita, é concordar com terrorismo, e pior ainda, terrorismo basicamente aleatório, porque eu não consigo conceber como qualquer um dos planejadores daquele ataque achou que os ajudaria de alguma forma. Fizeram aquilo para causar sofrimento. Não é revolução, é violência deliberada contra pessoas indefesas, com o único objetivo de causar sofrimento e trauma. É isso que o evento de comemoração dos dois anos ataques celebrou.</p>
<p>Provavelmente debaixo de algum redemoinho argumentativo que considera o imperialismo americano como mal maior da humanidade, mas que não se sustenta em nenhum contexto se essa é a parte digna de nota. Eu consigo entender o Hamas como entidade política querendo o fim de Israel por acreditar que o território foi roubado deles por poderes estrangeiros. Só que não é um objetivo alcançável pacificamente, e provavelmente nem militarmente: os EUA vão precisar desaparecer antes de Israel ter alguma chance de cair.</p>
<p>Já está feito. Como disse em outros textos, tem uma parcela da população de lá que nunca vai ceder do objetivo de exterminar um ao outro. Essas pessoas vão ter que morrer de velhice e não gerar descendentes com a mesma mentalidade para começarmos a ter uma chance de paz duradoura.</p>
<p>Não faz sentido tratar o Hamas como algo equivalente a um revolucionário comunista. Eles querem outra coisa: matar todo mundo em Israel, preferem que seja um deserto do que cidades judias, não querem mudar o sistema dos israelenses, querem só que eles não existam.</p>
<p>O imbecil defendendo o Hamas por achar que existe alguma simetria com outros tipos de movimentos populares contra opressores não entende que não há nada em comum. É uma gente que quer oprimir também, violentamente, mas não tem força para isso. Os fanáticos islâmicos anti-Israel só calham de ter menos armas, ou alguém acha que se o Hamas tivesse o tamanho do exército de Israel ia sequer existir Israel? Quase todos os povos ao redor dos judeus já tentaram matar o país com todo mundo dentro no passado.</p>
<p>Eles não são sua turma, “povo soviético”. Eles são terroristas que querem fazer limpeza étnica absoluta do adversário. E sim, essa descrição atinge uma parte dos políticos israelenses também. Mas lá o povo tem mais capacidade de controlar seu sistema, existe oposição, tem Parada Gay na rua e “chatos dos direitos humanos” em todos os cantos.</p>
<p>Em Gaza tinha pouco, agora não tem nada. O que vai sobrar de organização por sabe-se lá quanto tempo ainda é esse grupo abjeto de terroristas, e nada pior do que dar alguma validade para eles de fora para dentro, porque hoje a única coisa evitando que o Hamas recupere sua força para destruir a vida dos palestinos de novo é pressão externa.</p>
<p>Por causa de uma guerra ideológica em seus próprios países, milhões de pessoas dão seu suporte aos vilões da história. Vilões para os israelenses, e principalmente vilões para os palestinos. Eu sei que o Hamas ganhou a eleição feita em Gaza para governar a região, mas é que nem eleição na China, na Rússia, Venezuela: você não pode botar a mão no fogo por nenhum resultado.</p>
<p>O justo seria dar uma chance para os palestinos, não para o grupo assassino e covarde que cometeu um ataque suicida com dois milhões de habitantes da região que supostamente protegia. Talvez os palestinos estejam prontos para seguir em frente, mas não com o Hamas ou qualquer outro grupo terrorista que vive da tensão contra Israel para ter propósito e poder.</p>
<p>Reclame de Israel à vontade, mas, puta que pariu, não tem lógica nenhuma defender o Hamas por causa disso. Ninguém odeia mais os palestinos do que eles&#8230; e se você duvida dessa frase, vai ver algumas imagens de como ficou a Faixa de Gaza está agora.</p>
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		<title>Fãs de&#8230; calor?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Oct 2025 15:49:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Todo ano, mais ou menos nessa época, a gente faz um texto para reclamar de calor. Talvez tudo que precisasse ser dito sobre calor tenha sido exaurido em 17 anos. Mas ficou coisa por dizer sobre os degenerados que gostam de calor, que ficam felizes com calor, que pedem por calor o ano todo. O [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Todo ano, mais ou menos nessa época, a gente faz um texto para reclamar de calor. Talvez tudo que precisasse ser dito sobre calor tenha sido exaurido em 17 anos. Mas ficou coisa por dizer sobre os degenerados que gostam de calor, que ficam felizes com calor, que pedem por calor o ano todo. <span id="more-33795"></span></p>
<p>O Brasil tem todo tipo de fã: fã de Taylor Swift, fã time de futebol, fã de político e até mesmo&#8230; fã de calor. E este texto é dedicado a eles, para falar um pouco sobre essa escolha odiosa de idolatrar calor.</p>
<p>“Mas Sally, eu gosto de calor, você está dizendo que eu sou odioso?”. Não, você pode ter suas preferências. Ser fã de calor é outra coisa. É o militante do calor, o compulsivo, o irracional, o que quer impor o calor aos outros. Da mesma forma como fã de político canta hino nacional para pneu ou nega que mensalão existiu, o fã de calor se porta de forma idiota, irracional e vergonhosa.</p>
<p>O fã de calor é tirano, nada que não seja calor extremo o satisfaz, sua alegria reside em 40° de temperatura à sombra. Quando a temperatura cai ele reclama, ele fica indignado e até infeliz. E geralmente reclama de muito pouco, pois, para um fã de calor, 20° é frio. <a href="https://www.desfavor.com/blog/2025/06/frio-de-verdade/" target="_blank" rel="noopener">Já fizemos um texto sobre isso</a>, mas fica o recado: não tem frio de verdade de São Paulo para cima, ok? Se você sente frio, é por não saber se vestir de forma adequada. E não estamos falando de pagar caro por roupa e sim de fazer a escolha certa de tecidos e combinações, que pode ser muito barata.</p>
<p>Mas não. 22° e tá lá o carioca de bermuda, chinelo e casaco de moletom chiando e choramingando “Tá frio dimaixxxxx mermão”. Não, amental, não tá frio. A temperatura não desce abaixo de 10° no Rio. Você é que está com partes cruciais do corpo que devem ser mantidas aquecidas expostas. Se estivesse frio de verdade, seus dez dedinhos do pé já teriam necrosado e caído e seu pezinho estaria igual ao pé do Cebolinha. Querer usar chinelo o ano todo (você só tira o chinelo de um carioca com intervenção cirúrgica) e pretender que as estações se adaptem a isso deveria ser considerado algum tipo de problema de cabeça.</p>
<p>Então, antes de choramingar, reclamar ou se indignar, entenda que a temperatura cair não é sinônimo de fazer frio e que o fato de você estar sentindo frio não quer dizer que esteja fazendo frio. Essa premissa Mogli de que se a pessoa não puder andar seminua é frio é um pensamento sem nexo. Se a temperatura caiu, use roupas e calçados adequados e você não vai sentir frio. Se com meia, tênis e moletom você fica de boas, acredite, não é frio de verdade.</p>
<p>Boa parte dos fãs de calor é hipócrita. Eles amam calor, eles veneram o calor, eles exaltam o calor mas&#8230; trabalham e dormem em um ar condicional geladinho. Oi, querido? Assim até eu gosto de calor: enfiada no ar, calor lá fora e eu aqui dentro fresquinha. Os mesmos que se revestem de uma sensibilidade social exacerbada para atacar o frio pensando nos menos privilegiados que estão nas ruas não tem um pingo de dó do trabalhador que não tem ar condicionado e passa meses do ano sem dormir direito por estar suando, torrando e sendo comido por mosquitos.</p>
<p>Muitas vezes o fã de calor nem trabalha, aí posta de casa, uma foto na praia ou na piscina, exaltando o calor. Debaixo d&#8217;água é fácil, quero ver no busão lotado, no centro da cidade ou andando de terno. Perto da praia é fácil, quero ver verão em Bangu, sem ar-condicionado, se acham gostoso. O fã de calor vai te dizer que sim, pois ele é irracional, mas se fosse colocado nessa situação, certamente não iria gostar. Nem cachorro gosta.</p>
<p>Eu não vou argumentar que a porção mais fria do planeta é a mais desenvolvida pois já aprendi que à luz de todos os estudos que existem isso não é correto e levo bronca quando falo isso. A sociedade ainda não está pronta para aceitar que o frio civiliza. Então, vamos colocar da seguinte forma: no frio as pessoas se recolhem mais, tendem a atividades mais intelectuais ou introspectivas e no calor elas saem mais e tendem a fazer mais barulho.</p>
<p>Pode reparar, no seu dia a dia, no seu bairro. Assim que o clima esquenta provavelmente começa mais movimento, mais música alta (de péssima qualidade, quanto mais alta a música, pior a qualidade), mais animosidades, mais &#8220;socialização conflituosa&#8221;. Parece que os mal educados que estavam hibernando despertam, saem dos bueiros quando o clima esquenta. Eles entram em modo turbo, talvez eles sejam movidos a energia solar.</p>
<p>O calor parece aflorar algo expansivo nas pessoas, que, depois dos 40°, é levado às últimas consequências. Muitas vezes vemos briga, gritos, mais barulho e até mais agressão física no calor. “Ain Sally, é porque as pessoas bebem mais no calor”. Sei não. Russo vive abaixo de zero e bebe muito também. É um start que dá no fã de calor, ele fica cheio de energia, frenético, ativo.</p>
<p>E, ainda assim, tem gente que acha o verão uma estação maravilhosa. Adivinha quem? Quem briga, quem grita, quem faz barulho. O fã de calor tem no calor seu habitat natural e nele se expressa em toda sua desenvoltura, sem se importar ou sequer perceber que, ao se expressar nesses decibéis, obriga todos à sua volta a participarem de sua vida, mesmo que ninguém queira.</p>
<p>Não falha: shortinho jeans, corpo todo rabiscado de tatuagem, copinho de plástico com cerveja na mão, cantando alto alguma música que poderia ser considerada instrumento de tortura pela ONU. Bermuda de tactel de cor lamentável, corpo todo rabiscado de tatuagem e os óculos escuros mais bregas que a humanidade já viu, cantando alto alguma música que poderia ser considerada instrumento de tortura pela ONU. O colapso, senhores, também é estético. Por mais belos que sejam os corpos, o pacote é muito brega, cafona e hediondo.</p>
<p>Assim como o vampiro teme o sol, o fã de calor teme o frio. E se você realmente se incomoda com essa dinâmica sem educação na qual o fã de calor entra quando recebe os primeiros raios de sol do verão, você topa tudo, até chuva de canivete, para que essa gentalha cale a porra da boca e fique em silêncio ao menos 24h seguidas. Então, se falta de educação, falta de classe, falta de civilidade te incomoda, você vai abraçar o frio. Reflitam.</p>
<p>O fã de calor não tem preocupação com higiene e, antes que me acusem de preconceito, explico: não é que sejam porcos, eles tomam inclusive muitos banhos. Meu ponto é que no calor as pessoas suam muito. Eu disse SUAM, o que &#8220;soa&#8221; é o sino, ok? Então, por mais que você use desodorante e tome vários banhos, o suor está ali. Ele empapa a roupa, cola o cabelo. A pessoa não pode passar o dia inteiro tomando banho, certo? Mas ela passa o dia inteiro suando. Uma pessoa que não se incomoda em passar o dia inteiro suando é uma pessoa que precisa rever sua vida. Não é higiênico passa o dia suando, mesmo que você tome 200 banhos por dia.</p>
<p>Uma pessoa que vive bem sentindo aquela gota de suor escorrendo das costas para o c* enquanto come não preza pela higiene. Uma pessoa que chega ao final do dia feliz com a roupa de baixo molhada de suor não preza pela higiene. Uma pessoa que passa um dia contente com aquela pizza de suor debaixo do braço sem o menor incômodo é uma pessoa que não preza pela higiene. Se estar todo suado o tempo todo não te incomoda, adivinha só, eu acho que você não preza por higiene.</p>
<p>O fã de calor também não preza pela salubridade do ambiente. No verão, todo tipo de bicho escroto sai do esgoto e circula pelas ruas, pelas casas, pelas varandas. Baratas do tamanho de um fusca, ratos do tamanho de gatos, aranhas que poderiam ser usadas como peruca e mosquitos que a gente fica até com medo de dar um tapa e o bicho revidar. No calor os bichos hediondos acordam, se multiplicam e entram nas nossas casas. Quer viver com inseto do tamanho do seu punho? Vai morar na Austrália, fã de calor!</p>
<p>Quem é que gosta de viver em um ambiente assim, a não ser um desclassificado que, por não saber se agasalhar, exige que o ambiente esteja adequado à sua temperatura corporal? Você é pecilotérmico, seu maldito? A temperatura ambiente tem que bater com a do seu corpo, se não você morre? Quem é que topa ficar em um ambiente no qual pragas e doenças proliferam absurdamente, onde a comida perece rápido, onde há 437 tipos de mosquitos e ainda bate palminhas? O fã de calor!</p>
<p>Não podemos esquecer das questões médicas. O calor de verdade é nocivo para o corpo sob diversos aspectos, desde a proliferação de doenças transmitidas por mosquitos, agravamento de condições cardiovasculares até câncer de pele. Por sinal, o Brasil é um dos países do mundo com maior incidência de casos de câncer de pele. E, via de regra, o fã de calor não usa protetor solar, nem mesmo no rosto, pois acha que &#8220;isso é frescura, isso é coisa de mulher ou isso é mentira da indústria do skincare&#8221;.</p>
<p>Mas o fã de calor vai te dizer que frio é ruim, pois &#8220;morrem pessoas em situação de rua&#8221;. DE CALOR TAMBÉM. Ou será que o fã de calor, de dentro do seu carrinho com ar-condicionado, bebendo Gatorade da sua garrafinha Stanley acha que morador de rua se hidrata corretamente? (spoiler: morador de rua não bebe água mineral). Será que acham que morador de rua tem descanso à sombra e proteção térmica contra os malditos 60°? No frio, meu querido, a pessoa se agasalha, nem que seja com roupa doada. No calor, não tem o que fazer. Vai tirar a pele?</p>
<p>Quando você leva uma vida de adultinho funcional, o calor te atrapalha demais inclusive na rotina diária. Você já tentou cozinhar em um dia muito quente? Só um degenerado acha a experiência legal. Mas normalmente o fã de calor não é funcional, ele ou não sabe cozinhar e depende de aplicativo de comida para viver, ou tem alguém na vida (mãe, esposa, marido&#8230;) que cozinha para ele e quem passa o calor da morte perto do fogão é essa pessoa. Aí é moleza, não é mesmo?</p>
<p>Nem vou citar o impacto negativo do calor no meio-ambiente, pois qualquer imbecilóide que já plantou um feijãozinho em um algodão sabe o que acontece com uma planta exposta a um calor muito intenso e um sol muito forte. Para quem se diz preocupado com a natureza, me soa no mínimo hipócrita aplaudir quando a sensação térmica bate 63° (como aconteceu ano passado, no Rio de Janeiro) enquanto colheitas de alimentos perecem ao sol para que a pessoa possa esturricar na praia e fazer uma bela fotinho para o Instagram.</p>
<p>O fã de calor é tão escroto que se acha senhor da razão e chama de “maluco” todo aquele que gosta de frio, leia-se, dignidade. Aposto que você já passou por isso: uma pessoa com aura de personagem do Zorra Total se achando dona da razão dizendo “Ai, vocês são malucos de gostar de frio”. Somos? SOMOS? Quem não gosta de dormir em uma poça de suor, quem não gosta de passar o dia melecado, quem não gosta de sentir o cu suar é maluco?</p>
<p>E se acham superiores. Escrotizam quem não é fã de calor, vejam só. Até então, nós, povo do frio, sempre escutamos calados. Mas acho que devido à violência dos últimos verões, o pessoal do frio se emputeceu de tal forma que resolveu começar a revidar. Eu já vejo uma leve agressividade em redes sociais contra os fãs de calor. Não briguem, vocês sabem, esse é nosso mantra: não briguem com desconhecidos. Só esperem o aquecimento global piorar um pouco mais e, cedo ou tarde, eles morrerão de insolação.</p>
<p>E tem um tipo específico de fã de calor que é ainda mais degenerado: o que odeia ar-condicionado. Meu amigo, se você mora em uma cidade na qual faz calor de verdade, na qual o termômetro passa dos 40°, brigar com o ar-condicionado é atestado de insanidade.</p>
<p>Tenta dormir em uma noite de mais de 40° sem ar para você ver se tem ventilador que dê jeito. Você liga o ventilador e parece que você está dentro de uma Air Fryer. Vai suar todo o pijama, todo o lençol, toda a fronha e todo o travesseiro. É exigível que uma pessoa troque a roupa de cama diariamente? É quase impossível. O que vai acontecer é o suor secar e o infeliz ter que deitar por cima dele na noite seguinte, acumulando camadas e mais camadas de suor.</p>
<p>A pior parte é que esse tipo específico de fã de calor, ainda tenta impor isso aos outros: chega no ambiente de trabalho e dá piti para desligarem ou reduzirem o frio do ar-condicionado. SE AGASALHA, MALDITO. Quem está com calor não tem recursos a não ser o ar condicionado, você, que está com frio, pode parar de sentir frio ao se agasalhar.</p>
<p>Aí alegam rinite, alergia, o caralho a quatro. Meus queridos computador não tolera bem o calor. Não tem como trabalhar com computador em dia de verão sem ar-condicionado, você vai minar a vida útil dele. Ligar o ar é uma forma de conferir dignidade às pessoas e de preservar sua ferramenta de trabalho. Não consegue ficar em ambiente com ar-condicionado em uma cidade que faz 60°? Vai fazer um tratamento para alergia, eu mesma fiz um de vacinas semanais que curou minha rinite. Sim, é possível. Querer que uma equipe inteira trabalhe com desconforto e que o maquinário sofra danos não é sensato. Toma um Allegra e cala a boca.</p>
<p>“Ain Sally, você fala isso porque é calorenta”. Juro para você, nunca conheci alguém que sinta tanto frio como eu. Eu sinto frio o tempo todo. Mas não sou maluca nem egoísta, não pretendo que todos à minha volta se adaptem a mim. Eu sei viver em sociedade. Eu me agasalho devidamente e permito que as pessoas se mantenham em um ambiente fresco, termicamente adequado, pois não sou uma mimadinha sem consideração.</p>
<p>Ainda tem os fãs de calor que tem o desplante de exigir que se desligue ou se mude a temperatura do ar-condicionado de ambientes coletivos, como restaurante ou cinema. Vem cá, seus pais são primos? A temperatura de um ambiente assim é pensada e determinada por especialistas com diversas metas em mente, a maior parte voltadas para higiene e contaminação e certamente nenhuma delas é pensando em você. Repito: tá com frio? Se agasalhe. Não quer se agasalhar? Não frequente.</p>
<p>Mas, com o fã de calor não há diálogo, estão com o cérebro inchado pelo calor, carcomido pela desidratação e atordoado pela música ruim. Venha para o frio. Venha para a neve. Venha para o lado gelado da força.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Quem estupra?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Oct 2025 18:55:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Semana passada saiu um estudo dizendo que 15% das brasileiras já foram estupradas. A imensa maioria antes dos 13 anos de idade, muitas sem nem entender o conceito de estupro na época. E isso impacta muito na análise do que está acontecendo. Importante avisar: o tema vai ser ainda mais pesado do que parece. Quando [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Semana passada saiu <a href="https://agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho/dsr/6-em-cada-10-brasileiros-conhecem-uma-mulher-que-foi-estuprada-quando-menina/" target="_blank">um estudo dizendo que 15% das brasileiras já foram estupradas</a>. A imensa maioria antes dos 13 anos de idade, muitas sem nem entender o conceito de estupro na época. E isso impacta muito na análise do que está acontecendo. Importante avisar: o tema vai ser ainda mais pesado do que parece.<span id="more-33792"></span></p>
<p>Quando eu comecei a pensar nesse tema, caí numa armadilha que provavelmente muitos homens caem também: acreditar que o que está sendo discutido são casos de estupros de mulheres adultas por criminosos desconhecidos. E aí, talvez por corporativismo, é natural pensar: mas isso não pode ser o caso de um estuprador ser responsável por vários casos? Porque em tese, isso reduz o grau do absurdo sobre os homens, se você imagina que tem meia dúzia de estupradores muito “produtivos” por aí, significa que o números de homens que realmente comete esse crime é muito menor.</p>
<p>E aí, passa a impressão de ser muito mais um problema de segurança pública. Para baixar o número de mulheres abusadas, basta ter mais polícia, mais repressão&#8230; ou até mesmo alguns caminhos mais tortuosos de pensamento como dizer para mulheres tomarem mais cuidado. Tortuosos porque embora seja bom senso evitar situações perigosas para todos os sexos em todas as idades, só vale se você estiver com essa ideia de “mulher andando sozinha numa rua deserta de noite” como situação de risco para estupros.</p>
<p>De fato, se fossem só esses casos, mais polícia e até mesmo cuidado pessoal de mulheres poderia ser um caminho. Mas, quando saem dados dizendo que a maioria das vítimas são crianças e pré-adolescentes em casa ou em lugares supostamente seguros&#8230; é muito importante mudar o foco de segurança pública e “soluções práticas” e olhar para a realidade horrível da coisa. O problema dos estupros no Brasil não se resolve com mais policial na rua ou atenção a quanta bebida se toma.</p>
<p>Ainda seria um número terrível se fossem os 3% de mulheres que relatam ter sido estupradas depois dos 14 anos, mas 3% estão dentro das capacidades de repressão com mais competência de polícia e autoridades. Dos 15% da pesquisa, 12% são menores de idade, e 9% ainda mais: menos de 13 anos. O Brasil tem um problema mais ou menos comum em sociedades desiguais com estupros, e tem uma hecatombe nuclear de problema com abusos de crianças e adolescentes.</p>
<p>Mais um ponto: a legislação brasileira e quem coleta esses dados segue a mesma definição sobre relações sexuais com menores de 13 anos, é sempre estupro, não importa o que diga a pessoa menor de 13 anos. Se uma pessoa adulta sugere algo sexual para uma criança e a criança concorda, é estupro do mesmo jeito. Mesmo assim, a pesquisa não presumiu estupro, ela perguntou para as mulheres explicitamente se tinha sido estupro. Não tem nada a ver com começar a vida sexual antes dos 13 e a “sociedade” chamar de estupro, é literalmente sobre a parte das pessoas que responderam que reconheceram suas experiências como estupro.</p>
<p>Daqui uma presunção bem incômoda: essas são as que lembram de algo que sabem reconhecer como não consensual. Provavelmente tem as que bloquearam, as que acharam que foi consensual e as que simplesmente não conseguem falar disso, mesmo lembrando. Pode ser muito mais do que isso.</p>
<p>Estabelecidos esses pontos, temos que entender também quem está cometendo o crime. Se 12% das mulheres entrevistadas foram vítimas antes dos 13 anos (9% até os 13, 3% antes e depois dos 13). E aí, qualquer “esperança” que o número de homens estupradores ser muito menor que 15% em comparação desaba. Com vítimas dessa idade, é imensa a probabilidade de ser uma escala de um por um, ou seja, é um homem próximo com acesso e muitas vezes confiança de meninas.</p>
<p>Do crime imaginado de um homem correndo atrás de uma mulher adulta num beco escuro, sobra quase nada. Não acho que estou sendo polêmico ao dizer que o Brasil tem um problema muito maior de abuso contra crianças do que propriamente a ideia de estupro que a maioria das pessoas tem.</p>
<p>E como a parte do abuso em casa ou com conhecidos é a mais incômoda de pensar, por ser praticamente impossível de resolver de fora para dentro, pode ser que até mulheres se enganem achando que o problema do Brasil é que não tem repressão suficiente ao estupro violento. Podemos começar a pensar sobre educar homens a respeitar mulheres, e mal nunca vai fazer, mas não é exatamente esse o ponto.</p>
<p>Não estão tratando meninas de forma humanitária. Não estão tratando crianças de forma humanitária. Um dos problemas mais conhecidos sobre sociedades brutalizadas e desiguais é abuso de pessoas muito frágeis. Não estou falando apenas de sexualização precoce, é covardia descarada contra todo mundo que não pode se defender.</p>
<p>Acho que essa parte acaba bloqueada na mente de quem analisa a situação. É algo terrível de pensar: quantas pessoas frágeis estão sofrendo na mão de absolutos covardes nesse país, enquanto você lê este texto? E o motivo não precisa ir além de baixíssimo desenvolvimento intelectual e inteligência emocional negativa. Quem está no caminho dessas pessoas vai apanhar física e emocionalmente na primeira oportunidade.</p>
<p>Evidente que homens são desproporcional maioria em abusos de todos os tipos contra crianças e/ou qualquer pessoa mais frágil, pela agressividade e pela força física, mas não sei se adianta discutir esse assunto pelo ângulo da mulher. Mulheres brutalizadas também abusam muito de crianças, mas não da mesma forma sexual que tantas meninas relatam.</p>
<p>Sociedades evoluem virando essa chave de abuso contra os mais fracos. O grau de escrotidão do ser humano não pode nem ser comparado com Lei da Selva, porque mesmo que o bicho ataque quem é mais fraco, normalmente tem um objetivo prático. Mesmo que seja o instinto de caçar. O grau de abuso que o ser humano chega ao lidar com seres mais frágeis que ele tem um fator psicológico muito mais complexo. Maltratam para se sentir bem.</p>
<p>O meu ponto aqui é que precisamos saber que quem estupra nesses casos é um público que vai muito além de querer abusar sexualmente de mulher, querem abusar de fragilidade. Eu duvido que ações contra o estupro atinjam esse problema fundamental, porque vai muito além do conceito de estupro, é gente covarde mesmo.</p>
<p>Posso estar enxergando muito aqui, mas nem me parece tão sexualizado assim. É pelo abuso. É gente que provavelmente foi muito maltratada na infância e empurra o comportamento geração após geração. Novamente, mal não faz tentar conscientizar as pessoas sobre estupro, mas uma hora ou outra temos que olhar para o elefante na sala: uma parte assustadora da nossa população enxerga crianças como alvos fáceis, e não tem nenhuma barreira interna para praticar os atos mais horríveis contra elas.</p>
<p>Eu nem sei o quão separado isso está de bater, humilhar e traumatizar crianças&#8230; porque abusos sexuais são parte de várias táticas de tortura. Se você consegue enxergar seguidos contatos sexuais com crianças como uma forma de tortura (e várias das vítimas reagem como se fossem vítimas de tortura pelo resto da vida, porque é algo que a criança não entende e gera reações emocionais muito fortes), você consegue enxergar o tamanho do problema que a sociedade enfrenta.</p>
<p>É mais do que estão “mexendo” com as meninas, estão as torturando e deixando marcas para a vida toda. Se a gente quiser lidar esse assunto apenas por uma lente de iniciação sexual, surgem áreas cinzas que nada tem a ver com o problema da violência contra crianças. É sobre adultos covardes torturando crianças, mesmo que em suas cabeças vazias não seja a mesma coisa.</p>
<p>Do algo do meu desconhecimento aprofundado sobre o tema, me parece muito importante tratar da doença e não de um dos sintomas que é o abuso sexual de meninas. Porque se formos realistas, não existe remédio para esse sintoma: as meninas abusadas vão continuar dentro da mesma casa dos agressores, e se em momento algum conseguirmos colocar na cabeça de um povo brutalizado que estão torturando crianças de várias formas, inclusive sexualmente, eu não vejo resolução.</p>
<p>Tem algo que grita chamando atenção quando vemos estatísticas como essas, e eu sei que é praticamente impossível não focar na parte de homens abusando de meninas, mas se quisermos sair do ciclo inútil de aumentar penas para crimes que não são punidos, precisamos entender que é muito mais do que isso. É uma sociedade cheia de pessoas brutalizadas que sequer percebem como maltratam qualquer um que parece mais frágil que elas.</p>
<p>E normalizam isso. Acham nada de mais espancar e berrar com crianças, sem perceber que isso é mais um elemento que gera essas estatísticas de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Eu não sei como essa pessoa que abusa da criança racionaliza o comportamento, mas se eu tivesse que apostar, apostaria que passa por separar contato sexual não consentido de outras formas de violência e tortura psicológica. E não me parece separado, é só o veículo do abuso que muda.</p>
<p>Sou da teoria que sociedades só evoluem quando combinam esforços para manter crianças seguras de verdade, fora de casa, é claro, mas especialmente dentro. A coisa não avança com gerações e gerações de crianças traumatizadas. A questão do abuso sexual chama mais atenção, mas eu acredito que uma pesquisa que considerasse vários outros tipos de abusos físicos e psicológicos não sexuais nos daria um cenário ainda mais chocante sobre como o país está se sabotando geração após geração.</p>
<p>Sim, todos contra o estupro&#8230; mas não é isso que essa pesquisa mostra de verdade. Quem estupra é quem não tem cérebro suficiente para entender que criança precisa de um nível altíssimo de proteção e segurança para desenvolver seu potencial e melhorar a vida de todo mundo. Nossa plantação de humanos envenena as sementes e fica se perguntando porque a colheita é tão ruim.</p>
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		<title>Tá fácil.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/10/ta-facil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 15:35:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flertando com o desastre]]></category>
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					<description><![CDATA[Tenho visto umas novas gerações reclamarem muito das “dificuldades” em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estivéssemos em tempos difíceis. Pois bem, não estamos. Difíceis são vocês, floquinhos de neve especiais, que, de tão mimadinhos pelas facilidades da tecnologia, não suportam fazer um esforço. Deixa a tia Sally te contar o que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho visto umas novas gerações reclamarem muito das “dificuldades” em flertar, em conseguir parceiros, em conseguir relacionamentos, como se estivéssemos em tempos difíceis. Pois bem, não estamos.<span id="more-33789"></span></p>
<p>Difíceis são vocês, floquinhos de neve especiais, que, de tão mimadinhos pelas facilidades da tecnologia, não suportam fazer um esforço. Deixa a tia Sally te contar o que era realmente difícil, para você não reclamar de barriga cheia. Observe a realidade da minha geração e pare de reclamar.</p>
<p>Vamos começar pelo primeiro estágio: conhecer gente. Quando não existiam redes sociais, antes da internet, antes de aplicativos, nós precisávamos sair para conhecer gente. Não só sair, como interagir com estranhos até conseguir encontrar uma pessoa com a qual tivéssemos um mínimo de afinidade e atração.</p>
<p>Não tinha essa de mandar fotinho cheia de filtro, editada, ou tirada do melhor ângulo, com a melhor luz, depois de cem tentativas. Era você, ao vivo e a cores, que tinha que ser atraente. Isso significa que sair com um layout escroto para ir ao banco, ao supermercado ou à padaria poderia ser sinônimo de minar uma chance de conhecer alguém legal. Tínhamos que estar apresentáveis o tempo todo. Toda ida na rua podia ser produtiva.</p>
<p>E estar apresentável não era tão fácil. Não havia facilitadores como escova progressiva, para manter o cabelo sempre lisinho, ou babyliss para manter sempre cacheado, era o cabelo que Deus te deu e faça as fazes com isso. Não havia maquiagem de boa qualidade (e com uma variedade decente de cores) e não existiam nenhum dos procedimentos atuais, desde canetinha para emagrecer até depilação definitiva, que te ajudassem. Ou você fazia tudo na raça, no esforço, ou não fazia. Era altíssima manutenção estar sempre apresentável.</p>
<p>E para os homens também era dureza. Não tinha implante de cabelo, não tinha harmonização facial, não tinha lente de contato nos dentes, não tinha nem remédio para queda de cabelo. Um carro custava muito caro quando comparado ao salário-mínimo e, se você fosse jovem, a menos que fosse de uma família classe média alta para cima, teria que buscar a mulher a pé. E não tinha remedinho azul para ajudar na performance.</p>
<p>Não tinha essa tonelada de informação online, então, o pouco que a gente sabia sobre o sexo oposto (e nem me refiro ao corpo humano) era por tentativa e erro (nossa ou dos amigos) e geralmente ninguém era muito sincero sobre seus fracassos, as pessoas contavam umas histórias de sucesso ficcionais, que, quando você tentava reproduzir, nunca tinham um bom final. Isso quer dizer que você ia para a interação olho no olho com pouquíssimo ou nenhum preparo.</p>
<p>Não existia fórum de discussão, tutorial no Youtube e nem ao menos essa mentalidade de acolhimento. Se faziam algo escroto com você ou se você fazia alguma besteira, basicamente tinha que lidar com as consequências dos seus atos, sem poder contar para o mundo (no máximo para algum amigo mais chegado). Não tínhamos essa noção de que certas coisas acontecem com todo mundo. Ninguém recebia afago da coletividade quando algo dava errado. Especialmente homens.</p>
<p>Os padrões de comportamento aos quais estávamos expostos eram péssimos. Você já viu, por curiosidade, um capítulo de alguma novela da década de 80/90? É tenebroso. O machismo, a insensibilidade, a babaquice. Aquilo era vendido como algo bonito, fodão. Pessoas fumando eram consideradas atraentes. Uma pessoa traindo era sexy. E o layout de ator na época era totalmente destoante da genética brasileira, não tinha como uma pessoa média chegar remotamente perto daquilo, seja pela aparência, seja pela produção.</p>
<p>Roupas eram artigo de luxo: não havia essa variedade nem esses preços de hoje. A roupa era cara e não tinha muitas opções. Se você queria estar “na moda”, tinha que usar a marca X, que sempre era caríssima. E pulávamos de modismo em modismo, um mais caro do que o outro: mochila da Company, tênis da Redley, moletom da Pakalolo e por aí vai. Não tinha substituto, ou você usava o modismo da vez ou estava fora de moda. Íamos para o campo de batalha quase todos fora de moda.</p>
<p>E mesmo quando nossos pais se comoviam e atrasavam o aluguel para comprar o modismo da vez, não havia a variedade de roupa que vemos agora. Mesmo modelo, três cores diferentes. Escolhe uma e usa até não caber mais ou até se desfazer. Vai para o cinema, para a festa, para a excursão, tudo com a mesma roupa.</p>
<p>Geralmente, quem não fosse muito privilegiado, tinha uma, duas ou no máximo três roupas de sair. E era com isso que você tinha que se virar em todos os eventos que fosse. Nem perfume era algo acessível, muita gente só jogava o desodorante pelo corpo para se perfumar.</p>
<p>Os eventos sociais de pegação geralmente se resumiam a festas. Não grandes festas, festinha caída no play de alguém. Você nunca sabia quem ia e quem não ia, pois não tinha celular para confirmar quem vai chegar e quando. Era sempre uma taquicardia esperando que aquela pessoa que você queria que fosse chegasse. Todos nós fomos a festas que foram um completo desperdício, mais de uma vez. Perdia-se tempo, energia, dinheiro e preparo.</p>
<p>E nas festas, meus amigos, você não podia contar com nada além da sua aparência e desenvoltura. Não tinha seu número de seguidores para te tornar interessante, não tinha fotinho com o grupo ou selfie para mostrar o quanto foi legal. Normalmente eram umas festinhas caídas, nas quais mulher levava algo para comer e homem levava algo para beber e a festa toda costumava girar em torno de&#8230; dançar.</p>
<p>Isso mesmo, durante muitos anos o grande peneirão acontecia na pista de dança. Era lá que os meninos chegavam nas meninas. Se eram mais jovens, em festinha de play ou matinê. Se eram mais velhos, em boates. Mas era sempre na pista de dança. Você tinha que, no mínimo, fingir que dançava.</p>
<p>Quem é +40 aqui certamente já se humilhou dançando o que não queria para tentar pegar mulher (deixe nos comentários se o seu coração mandar, queremos rir). Existiam as músicas da moda, que tocariam em qualquer festinha. Nos tempos mais obscuros, uma febre de lambada humilhou os homens como nunca antes na história do país. Para pegar mulher homem tinha que tentar dançar lambada, Senhores. Pensem bem se vocês têm motivo para reclamar.</p>
<p>Também teve um tempo obscuro do axé. Aonde você ia, tocava axé e tinha que dançar, caso contrário você entrava no grupo marginalizado antissocial e inferiorizado que ficava às margens da pista de dança, um grupo que reduzia muito suas chances de pegar alguém.</p>
<p>Mas não bastava chegar e correr para a pista de dança não, ali era só para finalizar todo um trabalho pregresso de vender bem a você mesmo. As pessoas tinham que procurar aptidões que as tornem valorizadas, já que não tinha como postar fotinho das realizações online. Não fazia muita diferença ter viajado para lugares lindos, ter comido pratos maravilhosos ou qualquer outra “realização” do passado. Ninguém via.</p>
<p>Você não entrava com status pregresso para te ajudar. Importava o que as pessoas viam quando olhavam para você, naquele momento. Tinha que ser interessante ao vivo, no improviso, na frente da plateia, mesmo com uma roupa escrota repetida 500 vezes. Se você não fosse aquele um e um milhão que nascei belíssimo, tinha que se virar para conseguir chamar a atenção.</p>
<p>Quem não era abençoado pela genética, (e poucos eram/são) tinham que encontrar e aprimorar outros atrativos para que, na interação olho no olho, despertassem interesse. Tocar violão, ser muito bom de conversa, ser bem-humorado e muitos outros recursos eram testados e desenvolvidos. Havia um empenho real em se aprimorar, não por evolução pessoal, mas para pegar gente mesmo.</p>
<p>E você não podia pensar com calma no que ia “postar” para ser atraente. Era na hora, em tempo real, no calor do momento. Não é tão fácil quanto parece. Uma coisa é estabelecer uma imagem online, pensando com calma em cada passo e depois só sustentar. Outra é ter que construir essa imagem em tempo real. E sustentar.</p>
<p>A imagem física também era um desafio. Ninguém lembraria de você como sua foto de perfil de uma rede social e sim como você se apresenta em uma festa. E se já era difícil se apresentar de forma bacana, terminar uma festa de forma atraente era pior ainda. Quase tudo que se fazia em matéria de beleza era gambiarra, já que no Brasil quase não entravam produtos importados e a indústria brasileira não fabricava muita coisa além de Monange. Maquiagem borrava, desodorante vencia. Não era fácil.</p>
<p>Se alisava o cabelo com ferro de passar, se hidratava o cabelo com babosa, se usava aquele batom hediondo verde, que você passava na boca sem ter a menor ideia da cor na qual iria se transformar (e sempre se transformava na pior cor, um vermelho menstruação que fazia o lábio parecer uma peça de carne do açougue). Spoiler: durava 24h e não saía da pele nem com água sanitária.</p>
<p>O máximo de beleza que conseguíamos alcançar era baixo. Não dava para se garantir nisso, a menos que você fosse muito privilegiado geneticamente &#8211; e quase nenhum de nós era, ao  menos não eu. Todos os dentes retos e brancos? Causaria até estranhamento. Pele perfeita? Esquece, impossível. Corpo com pouca gordura? Altamente improvável. Você ia para a vida com o que mãe natureza te deu, podendo fazer pouquíssimas modificações. E tinha que jogar com outras ferramentas, outras habilidades&#8230; ou se conformar em pegar uma pessoa não tão bonita.</p>
<p>O máximo que a gente conseguia, em termos de beleza, era passar um gel New Wave no cabelo ou um brilho labial que vinha dentro de uma embalagem que simulava um morango. Espinha no rosto? Se fode aí, compensa sendo muito legal. A gente era o que era e tinha que encontrar dentro da gente armas para lutar esse jogo da conquista.</p>
<p>E mesmo no campo da conversa, nada era fácil. Não era possível ver redes sociais do outro para saber quais eram seus interesses e nortear a conversa para esse lado. A gente entrava em uma conversa sem ter a menor ideia de quem a pessoa era, se era solteira ou não ou do que ela gostava. Não raro falávamos algo que ia totalmente de encontro como o que a pessoa gostava, era altamente constrangedor.</p>
<p>Pense no tempo que você precisa interagir com alguém em redes sociais para conhecer melhor a pessoa e imagine que esse mesmo tempo deveria ser gasto em encontros presenciais, para conseguir criar alguma conexão com a pessoa. Não era possível fazer algo multitarefas: conversa com a pessoa enquanto trabalha, enquanto faz o almoço, enquanto faz compras. O tempo era usado 100% para o outro. Pensa no trabalho e no tempo que levava fazer tudo presencial.</p>
<p>E muitas vezes a gente investia bastante tempo em conhecer uma pessoa e depois de todo esse investimento, descobria um obstáculo inegociável (o fato de a pessoa ser comprometida, o fato de a pessoa fumar ou qualquer outra coisa) que nos obrigava a jogar fora todo o trabalho. Tinha zero conversinha de responsabilidade afetiva, todo mundo mentia e pronto, você que lide com isso.</p>
<p>Quando a pessoa mentia para você, você só descobria em um futuro distante. Não existia foto de rede social para provar que ela não morava em determinado bairro ou que ela não estava viajando a trabalho. A peneira, meus amigos, era muito, mas muito difícil, pois cientes disso, todo mundo mentia muito.</p>
<p>Imagina só, homem falando de si mesmo sabendo que as chances de uma mentira ser descoberta são mínimas. Tá decepcionado porque descobriu que o contatinho votou no político X? Na nossa época a gente descobria que o contatinho era pai de família ou procurado pela polícia!</p>
<p>E se você tivesse a sorte de pegar alguém e essa pessoa não estar mentindo para você, seus desafios estavam só começando. Não havia celular, o que significava que, para falar com a pessoa novamente, você teria que ligar para a casa dela (se, com sorte, ela tivesse telefone fixo) e correr o risco de falar com o pai ou com a mãe dela. Era uma taquicardia ligar para os outros, você nunca sabia quem ia atender.</p>
<p>E não era fácil falar com a pessoa de primeira, pois para isso, a pessoa precisaria estar em casa e a linha precisaria estar desocupada. Era muito comum ligar e ninguém atender, o ligar e o telefone estar ocupado, ou ainda ligar e falar com pai/mãe e eles te avisarem que a pessoa não está. Era todo um processo. Geralmente demandava pelo menos umas 5 tentativas. Imagina essa geração que tem medo de falar ao telefone tendo que passar por isso cada vez que quer falar com seu ficante&#8230;</p>
<p>Se finalmente você conseguisse falar com a pessoa e tivesse a sorte dela topar sair com você, precisava marcar dia e hora para o encontro. E quando chegava o dia e hora, torcer para que a pessoa esteja lá, pois não era possível avisar em caso de atrasos ou imprevistos. A vida sem celular era bem desafiadora. A gente ia mais nunca tinha certeza se o outro de fato estaria lá. Não por te rejeitar, podia acontecer qualquer imprevisto e a pessoa não teria como te avisar.</p>
<p>Isso te colocava em um exercício muito cruel de autoestima: quanto tempo esperar caso a pessoa não apareça na hora marcada. A pessoa marcou às 20h com você em um lugar público, mas são 20:20 e ela não chegou. Você sabe que ela não vai poder te avisar se acontecer um imprevisto, seja de falta, seja de atraso.</p>
<p>O quanto é digno esperar? Quando ir embora? Era uma decisão difícil quando estávamos realmente interessados na pessoa. E geralmente os locais de encontro eram locais públicos, como porta do cinema ou restaurante, então, todas as outras pessoas podiam assistir sua espera ansiosa. Vocês ficam aí chorando ghosting quando a pessoa não responde um Whatsapp? A gente se arrumava todo, ficava plantado e todo mundo assistia a nossa humilhação!</p>
<p>E mesmo que desse tudo certo, fatalmente, vocês teriam outros encontros, então, isso se repetiria outras vezes: ligar e falar com o pai da menina, ter que se arrumar com pouquíssimos recursos, ter aquela taquicardia de não saber se a pessoa vai atrasar ou te deixar plantado esperando&#8230; Namoro era basicamente esse grande combo.</p>
<p>Não tinha como se falar o dia todo. Não tinha como saber onde o outro estava, o que estava fazendo ou se estava bem. As pessoas se falavam, no máximo, no final do dia para contar rapidamente (ligação telefônica já custou muito caro) como foi o dia.</p>
<p>Dividir problemas? Pedir conselho? Conversas profundas? Só no final de semana. A gente ia construindo intimidade e proximidade final de semana a final de semana. Demorava muito mais. O que essa geração faz em seis meses a nossa demorava anos para construir. E os bonitos reclamam que tudo vai muito devagar na vida deles&#8230;</p>
<p>O lazer também era muito limitado: cinema, pracinha, casa dos outros, festinha. Não fugia muito disso, a menos que sua família fosse rica. Isso nos obrigava a focar mais nas pessoas do que nos lugares, mais na conversa do que no espetáculo. É bem mais desafiador sustentar algo só na base das pessoas. Essa nova geração enjoa fácil do outro? Imagina quanto duraria quando o programa era só sair para comer um cachorro-quente e ficar conversando olho no olho.</p>
<p>Já ultrapassei uma página do meu limite e não cheguei nem perto de cobrir todos os perrengues que passávamos quando éramos jovens. Se interessar, posso fazer uma continuação. O fato é que hoje a vida tá fácil, tá muito fácil. Se está difícil para você conhecer gente, bem, desculpa te informar, a responsabilidade é só sua. Pare de reclamar e busque ferramentas para: 1) aprender a escolher pessoas boas e 2) conseguir se conectar com elas e construir algo.</p>
<p>E&#8230; sério mesmo, deixa nos comentários as suas maiores humilhações na pista de dança para tentar pegar alguém. Todos nós precisamos dessa alegria.</p>
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		<title>País adulterado.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Oct 2025 18:43:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desfavor da Semana]]></category>
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					<description><![CDATA[O mercado de consumo brasileiro enfrenta um problema crescente com a falsificação de bebidas alcoólicas. Segundo levantamento do Núcleo de Pesquisa e Estatística da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), divulgado em abril deste ano, 36% desse tipo de mercadoria vendida no país é adulterado, falsificado ou contrabandeado. LINK [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="uk-card uk-card-body uk-card-default">
<p>O mercado de consumo brasileiro enfrenta um problema crescente com a falsificação de bebidas alcoólicas. Segundo levantamento do Núcleo de Pesquisa e Estatística da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), divulgado em abril deste ano, 36% desse tipo de mercadoria vendida no país é adulterado, falsificado ou contrabandeado. <a class="uk-button uk-button-text" href="https://revistaoeste.com/economia/fhoresp-36-das-bebidas-alcoolicas-vendidas-no-brasil-sao-adulteradas/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">LINK</a></p>
<hr />
<p>A crise do metanol nas bebidas não é a doença, é só um sintoma. <strong>Desfavor da Semana</strong>.</p>
</div>
<p><span id="more-33559"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Ao menos 36% das bebidas alcoólicas vendidas no Brasil são adulteradas. Uma a cada cinco garrafas de vodca vendida no país é falsificada. Vinhos e destilados são o alvo preferencial dos falsificadores. Uma fábrica de bebida ilegal é interditada a cada cinco dias no país. </p>
<p>Chocado com os dados? São do ano passado. E foram enviados às autoridades que tinham competência para fiscalizar. Ou seja, o que aconteceu foi, só para variar, uma tragédia anunciada.</p>
<p>Tudo isso poderia ter sido evitado se quem fiscaliza fosse mais competente e/ou menos corrupto. Mas não foi. Morreu gente e vai morrer mais gente ainda. E a incompetência não é apenas na prevenção, é generalizada: quando os primeiros casos apareceram, as providências foram lentas, insuficientes e até mesmo erradas, piorando a situação.</p>
<p>Só para citar um exemplo, o Disk-Intoxicação da ANVISA estava sem funcionar em diversas partes do país. Algo criado para dar assistência e orientação imediata em uma questão grave e urgente (uma pessoa envenenada não pode esperar) simplesmente estava desativado. Recebendo recursos públicos, pagos com o seu dinheiro, para não funcionar.</p>
<p>As investigações nos bares também foi lenta e risível. A gente sabe que no Brasil se compra qualquer fiscalização, mas dessa vez chegaram ao cúmulo de conseguir ocultar o nome de diversos estabelecimentos que venderam bebida adulterada que matou pessoas. Sim, tem bar vendendo veneno, matando, deixando cego, e eles tem direito a proteção, a não ter seus nomes divulgados. </p>
<p>“Mas Sally, não tinha como imaginar que isso poderia acontecer”. Tinha sim, se não pelos dados que eu acabo de te passar, pelo fato de já ter acontecido antes: Só na Bahia, já ocorreram mais de 60 mortes e mais de 450 internações por bebidas contaminadas com metanol em um passado não muito distante.</p>
<p>O problema é: até aqui, acontecia com pobre, com fodido, com pessoas que, no sistema social de castas do Brasil, não importam. Agora foi no barzinho caro, agora morreu advogado. Agora vai gerar comoção. </p>
<p>E, veja bem, não digo que não deva gerar comoção. Digo que, em um país sério, qualquer morte por envenenamento desse tipo deveria ser um escândalo, algo com providências e consequências muito sérias, que garantam que nunca mais nada parecido aconteça. Mas é Brasil, né? Aconteceu novamente e, pelo visto, vai acontecer outras vezes no futuro.</p>
<p>Não estão fiscalizando de forma eficiente ou suficiente.  Não estão tomando providências para que não se repita. Já apareceu meia dúzia de oportunista querendo criar lei para aumentar a pena adulteração de bebidas alcoólicas, como se isso resolvesse. </p>
<p>A pena de homicídio é bem maior e o Brasil é, segundo a ONU, recordista mundial em casos de homicídios, ficando na frente, inclusive, de vários países em guerra. Aumentar a pena não resolve, lei não resolve, pois não há fiscalização efetiva para punir quem a descumpre, não há Judiciário apto a condenar todo mundo e há um sistema de propinas fortíssimo que mantém tudo quanto é tipo de filho da puta a salvo.</p>
<p>Tá tudo errado. O sistema é corrupto, criminoso, perigoso e a qualquer momento uma adulteração de qualquer coisa (remédio, chocolate, bebida) pode tirar a vida dos seus pais, dos seus filhos, dos seus entes queridos, e o brasileiro está preocupado se vai poder beber este final de semana. Nada nunca vai se resolver em um país com essa mentalidade. </p>
<p>Aposto inclusive que tem gente pensando “Não é problema meu, eu não bebo”. É problema de todos que um país seja tão merda a ponto de que isso aconteça de forma sistemática. E, por mais que a pessoa não beba, ela é afetada, se não pelo risco de que isso aconteça com algum produto que ela consome, pelo estresse de viver em um lugar assim, onde esse tipo de coisa pode acontecer.</p>
<p>Quem está dentro costuma não perceber, mas quando você sai, se dá conta do quanto esse ambiente de ter que desconfiar de tudo e de todos, de regras não cumpridas, de irresponsabilidade, envenena a alma. É como um programa secundário que fica o tempo todo rodando, consumindo energia. É insalubre. Certamente mina a saúde, mesmo de quem está determinado a entrar em negação.</p>
<p>Viver em um país permeado por insegurança, impunidade, incompetência e corrupção faz mal. O que as pessoas vão beber neste final de semana é o menor dos problemas. Prender o Zé das Couves que adulterou a bebida, acreditem, também é, pois tem duzentos para tomar o lugar dele e continuar falsificando. Se querem dar um passo real para resolver isso, a pergunta é: quem é que tinha que ter fiscalizado isso e não fiscalizou? É para cima desses que tem que ir.</p>
<p>Se quem fiscaliza tiver medo das consequências de não fazer seu trabalho direito, o país passa a ter uma boa fiscalização e, não importa o quanto se tente falsificar bebida, nenhum estabelecimento vai topar comprar, pois saberá que pode ser multado e fechado. É por aí que se resolve, e não aumentando a pena de quem falsifica. A falha maior, só para variar, é do Estado.</p>
<p>Mas, arrisco dizer que nem o próprio brasileiro, que sofre risco de contaminação, não quer uma fiscalização eficiente. Ele quer continuar comprando bebida alcoólica do contatinho de Whatsapp, mais barato do que no supermercado. Ele quer o mercado paralelo para pagar menos. O brasileiro também é parte do problema. O brasileiro é medíocre e aceita viver em uma sociedade insalubre para se dar bem e pagar uns trocados a menos. </p>
<p>O fundo do poço do Brasil tem um alçapão. Anotem essa frase, em vários momentos das suas vidas vocês vão lembrar dela – e de mim.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Eu já vou partir do princípio de que a contaminação por metanol foi causada por incompetência do mercado “alternativo” de bebidas. Os números são suficiente para defender essa hipótese: sem matar pessoas, os contrabandistas e falsificadores já estavam ganhando muito dinheiro, gerando mais de um terço das vendas nacionais.</p>
<p>Pode ser do interesse desse mercado ilegal aumentar as margens de lucro falsificando bebidas, mas é suicídio comercial criar uma crise do tipo que mata pessoas, mesmo do ponto de vista mais amoral possível isso significa queda nas vendas e menos dinheiro. E considerando que envenenamento por metanol é algo que acontece de tempos em tempos aqui e em diversas partes do mundo, é óbvio que sempre estiveram flertando com esse desastre.</p>
<p>Existem níveis de consumo de metanol que não viram crises de saúde pública, mal viram notícia. E pode apostar que as pessoas falsificando bebidas achavam que tinham achado a medida certa de adulteração. O suficiente para aumentar seus lucros sem chamar atenção. Os casos recentes de envenenamento por metanol apenas sugerem que um ou mais desses produtores ilegais erraram a mão.</p>
<p>Risco Brasil: antes de continuar, eu gostaria de dizer que é possível que uma empresa legalizada tenha errado por “incompetência honesta”, se descobrirem isso nos próximos dias, não vai ser uma grande surpresa.</p>
<p>Num país onde as pessoas acham normal economizar dando a volta em regulações, o risco desses erros sempre vai ser grande. Se tem tanta gente comprando produto contrabandeado ou adulterado, quer dizer que existe muita demanda para levar vantagem na compra e venda de álcool. E muito mais importante, tem muita demanda pelos lucros possíveis na ilegalidade.</p>
<p>Pode ser simples como sonegar imposto num produto original, mas isso vai escalando: quem compra mais barato por ter comprado produto contrabandeado está aceitando mais riscos que o normal, porque é o tipo da coisa que não dá para resolver na polícia depois, não?</p>
<p>Existem mil motivos para ficar irritado com impostos no Brasil, existem mil motivos para desconfiar da fiscalização oficial, mas no final das contas, quem aceita o mercado ilegal está aceitando junto os riscos que o sistema tenta mitigar. Riscos como bebidas alcoólicas com doses letais de metanol.</p>
<p>Estou indo por esse ângulo não para aliviar a crítica que a Sally fez, eu parto do ponto dela sobre os mecanismos oficiais terem falhado em prevenir algo totalmente prevenível e adiciono que além disso, existe um incentivo enorme no Brasil de fazer as coisas do jeito errado e arriscar a vida alheia para levar vantagem. E é uma relação doentia: o brasileiro faz errado porque não confia no sistema, e o sistema não melhora porque o brasileiro escolhe fazer coisas erradas.</p>
<p>A minha preocupação é se as pessoas que compram produtos contrabandeados e/ou ilegais são capazes de entender o risco que estão repassando para o consumidor final ou se é simplesmente ignorância severa ao ponto de achar que não tem problema nenhum. O dono de bar que se acha esperto por colocar bebida falsa no drink porque ninguém percebe, só botar mais açúcar na batida para as moças&#8230; ele entende que pode matar alguém ou acha que é o truque perfeito porque acha que dá no mesmo?</p>
<p>Essa sempre é a parte mais desesperadora de imaginar o grau de ignorância de um povo como o brasileiro: uma pessoa pode te matar por pura incapacidade de entender que aquilo pode te matar. Ela pode receber a informação de que algo é perigoso cem vezes, mas não transforma aquilo em reflexão. É que nem o terraplanista que diz que a Terra não pode ser redonda porque ele olha para o horizonte e acha que é reto.</p>
<p>E cada vez mais eu acho que o tipo de resposta que estão dando &#8211; achando que tornar falsificação de bebida crime hediondo é uma resposta – é reflexo de uma visão distorcida da realidade, uma tentativa de não lidar com o elefante na sala: o risco de pessoas terem morrido por contaminação de metanol por pura burrice de algumas pessoas é difícil de lidar.</p>
<p>É mais confortável achar que os bandidos sabiam o que estavam fazendo, mas fizeram porque a pena era leve. Porque isso cria a ilusão de resolução de um problema, não é que empresários imbecis estão comprando produtos falsos para levar vantagem, feitos por outros imbecis que mal entendem que metanol mata&#8230; não, no mundo de fantasia de controle, são pessoas ruins que podem ser presas ou mortas e tudo se resolve.</p>
<p>Estamos numa sociedade onde você precisa regular mercados para evitar que pessoas tomem decisões burras e perigosas. Antes de tentar controlar a maldade do ser humano, é preciso dar um jeito dele entender que algumas escolhas que faz tem consequências que precisam ser previstas. E que quanto mais longe do ato são essas consequências, mais gente precisa estar envolvida no processo, porque não dá para confiar nem que o dono de um bar num lugar chique vá ter a capacidade cognitiva básica de prever que eventualmente vai ter contaminação nos produtos piratas que ele compra para economizar um dinheirinho.</p>
<p>E que depois que pessoas começarem a morrer, não tem mais volta. Não dá para ter ilusões de liberalismo no Brasil atual, tem que ter agências regulatórias e fiscais em tudo quanto é lugar, não porque o brasileiro médio está mal-intencionado de matar os outros, mas porque ele não tem treino nem incentivo para pensar meia hora no futuro.</p>
<p>Digo mais: nenhuma sociedade nesse mundo evoluiu além da necessidade de regulação séria. O que alguns países têm é menos casos absurdos de incompetência e negligência, reduzindo a carga de trabalho de fiscais e mantendo o sistema mais funcional. O governo pode fazer a parte dele, mas enquanto o povo estiver viciado em vantagens de curto prazo sem medo de ser punido (não tem a ver com ser 5 ou 50 anos de cadeia, é sobre ser descoberto e punido), é só questão de tempo até mais produtos falsificados matarem pessoas em grande escala de novo.</p>
<p>O sistema continua o mesmo, não importa se a pena do crime muda. Se a mentalidade continuar sendo essa de ser esperto doa a quem doer e se continuarmos pegando uma pequena fração de quem faz isso, não se cria nem a ideia de que deu errado na cabeça das pessoas. Eu temo que vamos sair dessa crise com alguns culpados que vão pagar pelos pecados de todos, mas que a ideia básica de levar vantagem com produto contrabandeado e/ou falsificado vai continuar como se nada.</p>
<p>O governo é uma bagunça, mas o povo não ajuda. Talvez nem entenda que precise ajudar.</p>
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