{"id":10076,"date":"2016-05-18T06:00:17","date_gmt":"2016-05-18T09:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10076"},"modified":"2016-05-18T01:44:13","modified_gmt":"2016-05-18T04:44:13","slug":"baixaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/05\/baixaria\/","title":{"rendered":"Baixaria?"},"content":{"rendered":"<p>O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o para o tema de hoje foi a <a href=\"http:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/agencia-estado\/2016\/05\/16\/goiania-aprova-lei-antibaixaria.htm\" target=\"_blank\">seguinte not\u00edcia<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>O prefeito de Goi\u00e2nia, Paulo Garcia (PT), sancionou uma &#8220;lei antibaixaria&#8221;. Desde 3 de maio, \u00e9 proibido o uso de dinheiro p\u00fablico &#8220;para a contrata\u00e7\u00e3o de artistas que em suas m\u00fasicas, dan\u00e7as ou coreografias desvalorizem, incentivem a viol\u00eancia ou exponham as mulheres, homossexuais e os afrodescendentes a situa\u00e7\u00e3o de constrangimento&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de torcer naturalmente para que os \u201cartistas\u201d tipicamente relacionados com os temas proibidos tenham que procurar outros empregos, a coisa \u00e9 um pouco mais complicada do que simplesmente gostar dos efeitos colaterais.<!--more--><\/p>\n<p>Mas antes que eu mude de assunto, vamos pensar um pouco mais sobre essa medida&#8230; por um lado \u00e9 aberrante que o Estado financie o trabalho de quem valoriza em sua obra elementos que v\u00e3o contra os objetivos de igualdade e respeito que toda sociedade suficientemente moderna deveria seguir. Por mais que o pov\u00e3o goste e tenha direito de se esbaldar com m\u00fasica baseada em baixaria, o dinheiro do Estado n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 pra isso. Ainda mais no aspecto cultural, onde deveria ser papel das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas oferecerem ao p\u00fablico mais op\u00e7\u00f5es do que as que o mercado livre j\u00e1 oferece.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, espera-se do Estado financiar o que n\u00e3o \u00e9 \u201cpop\u201d. Afinal, nossos bolsos j\u00e1 d\u00e3o conta do recado no dia a dia. \u00c9 muito mais cara de um governo incentivar m\u00fasica cl\u00e1ssica ou folcl\u00f3rica do que funk, sertanejo, ax\u00e9 e similares. Nesse ponto, eu entendo claramente a l\u00f3gica da tal \u201clei antibaixaria\u201d. \u00c9 at\u00e9 mais do que desperdi\u00e7ar o dinheiro do contribuinte, \u00e9 us\u00e1-lo para deseducar a popula\u00e7\u00e3o. Os pais que filmam seus filhos pequenos dan\u00e7ando funk que n\u00e3o me deixam mentir. N\u00e3o tem ningu\u00e9m no volante no c\u00e9rebro da maioria desse povo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m&#8230; no sentido oposto: o que exatamente configura desvaloriza\u00e7\u00e3o e constrangimento? O p\u00fablico-alvo das m\u00fasicas baixaria com certeza n\u00e3o se constrange com seus gostos, pov\u00e3o vai rebolar ao som de palavr\u00f5es at\u00e9 o sol raiar sem pensar meia vez sobre o papel da mulher, do homossexual e do negro na sociedade. Com a batida certa, o refr\u00e3o \u201cbicha preta rebola mais que puta\u201d vai ser ouvido e dan\u00e7ado por milhares (milh\u00f5es, pra ser mais honesto) sem a menor preocupa\u00e7\u00e3o. Provavelmente n\u00e3o vai alterar a percep\u00e7\u00e3o que eles j\u00e1 tem sobre igualdade e respeito&#8230;<\/p>\n<p>Cidad\u00e3o pode ser mis\u00f3gino, homof\u00f3bico e racista s\u00f3 escutando sinfonias. N\u00e3o tem muito como for\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o entre gostos e percep\u00e7\u00f5es sociais, essas opini\u00f5es s\u00e3o formadas por uma s\u00e9rie t\u00e3o imensa de fatores que parece tapar com a peneira tentar focar em alguma manifesta\u00e7\u00e3o cultural para reduzir a incid\u00eancia de comportamentos danosos. Sim, existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o popularesco e a ignor\u00e2ncia generalizada, mas talvez ela n\u00e3o seja de causalidade.<\/p>\n<p>Talvez a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o de causalidade gere o resultado. \u00c9 menos confuso do que parece: como enxergamos quem produz e consome essas m\u00fasicas como \u201cselvagens\u201d diante de nossas vis\u00f5es do que seria ideal na sociedade, pode muito bem ser justamente por isso que eles produzem e consomem esse material. E uma medida como a que ilustra o texto de hoje, por mais que proteja os cofres p\u00fablicos de gastos com gente que berra meia d\u00fazia de palavr\u00f5es num microfone pra ganhar a vida, tamb\u00e9m pode ser mais um empurr\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o sentir-se digna da baixaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o do \u201cproibido \u00e9 mais gostoso\u201d, embora isso funcione pra muita gente, estou falando mais de um refor\u00e7o de marginaliza\u00e7\u00e3o. O Estado n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 pra financiar baixaria, mas, se \u00e9 justamente isso que a pessoa gosta, se \u00e9 o que ela sempre ouviu e somou nos seus gostos, o que isso diz pra ela? Que ela \u00e9 baixaria e que o Estado n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de acolh\u00ea-la. Do lado de quem acha essas m\u00fasicas e dan\u00e7as uma porcaria mesmo, \u00e9 f\u00e1cil achar gra\u00e7a numa medida dessas e esquecer de se colocar no lugar de quem gosta e talvez nem tenha subs\u00eddios para mudar de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o Estado financia um evento cultural, presume-se que ele seja aberto a todos. Claro que existem outras modalidades de incentivo p\u00fablico, mas principalmente nos casos onde essas m\u00fasicas e dan\u00e7as s\u00e3o apresentadas, a ideia \u00e9 que o pov\u00e3o tenha seu entretenimento sem ter de pagar entrada. Mesmo antes da crise, uma boa parte do p\u00fablico alvo do material baixaria n\u00e3o tinha dinheiro pra fazer diferente mesmo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu volto para o argumento pr\u00f3-proibi\u00e7\u00e3o: se a fun\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 incentivar cultura que n\u00e3o tenha suporte mercadol\u00f3gico, as coisas podem ir um pouco mais longe do que comparar quem venderia ingressos e quem n\u00e3o. Na verdade, o Estado pode se infiltrar at\u00e9 mesmo no meio do mercado e desequilibrar o jogo. Se fica mais dif\u00edcil para o artista baixaria ter um suporte para se apresentar e ganhar novos f\u00e3s (f\u00e3s que v\u00e3o comprar tudo pirata mesmo e s\u00f3 pagam ingresso de vez em quando), as regras do mercado ficam ainda mais severas.<\/p>\n<p>Se o que vende \u00e9 baixaria e todos t\u00eam que lutar pelo escasso dinheiro de seu p\u00fablico habitual, para onde \u00e9 que o mercado vai apontar? Mais baixaria! A tend\u00eancia \u00e9 que as pessoas consumam vers\u00f5es cada vez mais exageradas do que consumiam anteriormente, e a cada um que empurra a linha um pouco mais pra frente e faz sucesso, mil outros sentem a \u00e1gua batendo na bunda. O n\u00edvel do popularesco caiu vertiginosamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tudo bem que s\u00f3 explicitando ideias que j\u00e1 estavam l\u00e1, mas no m\u00ednimo n\u00e3o tem mais vergonha delas.<\/p>\n<p>O Estado pode olhar para essa situa\u00e7\u00e3o e seguir dois caminhos: interven\u00e7\u00e3o ou abandono. Cada um pode defender o lado que achar melhor, mas s\u00f3 n\u00e3o vamos confundir as coisas: a lei antibaixaria \u00e9 o caminho do abandono. \u00c9 o Estado dizendo que n\u00e3o quer nada com essa cultura e deixando-a totalmente na m\u00e3o do mercado. Que j\u00e1 fez o que fez at\u00e9 agora. E se, ao intervir financiando quem produz esse conte\u00fado o dinheiro p\u00fablico n\u00e3o se tornasse um agente de retroa\u00e7\u00e3o da baixaria? Quando menos exposto aos sabores da popularidade mercadol\u00f3gica, mais f\u00e1cil n\u00e3o ficar de olho na pr\u00f3xima linha a ser cruzada. Mais simples ter integridade quando os outros problemas da vida s\u00e3o menores.<\/p>\n<p>Ideia que pode soar maluca: e se, ao contr\u00e1rio de deixar de financiar, o Estado n\u00e3o afundar o mercado dando estabilidade aos criadores do material baixaria? Jogando dinheiro neles para que a necessidade de cativar o pov\u00e3o fique cada vez menor, para que muitos deles possam finalmente descobrir o prazer na m\u00fasica ou na dan\u00e7a por elas mesmas? N\u00e3o nos esque\u00e7amos que em qualquer mercado do tipo, \u00e9 uma minoria que realmente enriquece. O grosso dessa cena \u00e9 de gente que cobra mixaria pra fazer show e se sair de l\u00e1 vivo j\u00e1 est\u00e1 sorrindo.<\/p>\n<p>\u00c9 como se o governo dissesse que n\u00e3o vai interferir no que a pessoa quer fazer, mas se ela quiser fazer um funk sobre astronomia ao inv\u00e9s de eufemismos (cada vez menos eufem\u00edsticos) para sexo, ele vai conseguir se sustentar. Ser\u00e1 que o que est\u00e1 faltando \u00e9 repress\u00e3o ao criador desse material ou estamos mesmo diante de um refor\u00e7o de marginaliza\u00e7\u00e3o que poderia ser, no m\u00ednimo, retroagido?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 o sorriso que eu e muitos de voc\u00eas demos ao ler a not\u00edcia que cria esse mercado de baixaria? Quem se sente marginalizado, age marginalizado.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que previa a posi\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o a argumenta\u00e7\u00e3o, para dizer que deveria ter lei antienrola\u00e7\u00e3o, ou mesmo para dizer que sustentar esse povo s\u00f3 vai gerar mais e mais filhos rebolando no Youtube: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o para o tema de hoje foi a seguinte not\u00edcia: O prefeito de Goi\u00e2nia, Paulo Garcia (PT), sancionou uma &#8220;lei antibaixaria&#8221;. 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