{"id":10082,"date":"2016-05-20T06:00:40","date_gmt":"2016-05-20T09:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10082"},"modified":"2016-05-20T04:55:47","modified_gmt":"2016-05-20T07:55:47","slug":"guess-who","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/05\/guess-who\/","title":{"rendered":"Guess who?"},"content":{"rendered":"<p><strong>DIA 1<\/strong><\/p>\n<p>Mal consigo abrir os olhos. N\u00e3o tenho lembran\u00e7as de como cheguei aqui, mas tenho uma certeza: estou preso. Grossas barras de ferro me separam do resto do mundo. Tentei sair de todas as formas, pela for\u00e7a e pela intelig\u00eancia, mas n\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria. Estou encarcerado. Minha \u00faltima lembran\u00e7a \u00e9 do dia anterior, deitando para dormir ao final do dia. Depois, um grande vazio na mente. Por mais que eu me esforce, n\u00e3o consigo lembrar de mais nada.<!--more--><\/p>\n<p>Inspeciono meu corpo. N\u00e3o h\u00e1 marcas de viol\u00eancia. N\u00e3o estou machucado, n\u00e3o h\u00e1 nada que indique luta corporal. Estou intacto. Ainda assim, n\u00e3o me sinto bem. Estou cansado, fraco. N\u00e3o tenho for\u00e7as para levantar. <\/p>\n<p>Olho \u00e0 minha volta e vejo v\u00e1rios companheiros que est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o que a minha, trancafiados. Uns gritam por socorro desesperadamente, outros se calam com olhar resignado. N\u00e3o posso ver muito al\u00e9m das grades, est\u00e1 escuro agora. Decido usar a sonol\u00eancia como aliada e dormir. Dormindo o tempo passa mais r\u00e1pido. Talvez seja s\u00f3 um sonho, talvez eu acorde e perceba que tudo n\u00e3o passou de um pesadelo.<\/p>\n<p><strong>DIA 2<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era um pesadelo. Infelizmente. Abro os olhos e as odiosas barras de ferro continuam ali. \u00c9 uma realidade: estou encarcerado sem entender o motivo e sem ter qualquer mem\u00f3ria que explique essa atitude dr\u00e1stica. Sou obrigado a admitir e aceitar minha condi\u00e7\u00e3o de prisioneiro. Por mais dolorosa que seja, a aceita\u00e7\u00e3o gera algum al\u00edvio, que me permite pensar em outras coisas que n\u00e3o eu. Inevit\u00e1vel: penso na minha fam\u00edlia. Estavam ao meu lado na minha \u00faltima lembran\u00e7a. Ser\u00e1 que eles tamb\u00e9m foram capturados? Ser\u00e1 que eles est\u00e3o aqui? Ser\u00e1 que eles est\u00e3o bem?<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com minha fam\u00edlia me causa ainda mais desconforto do que meu pr\u00f3prio infort\u00fanio. Eles precisam de mim, n\u00e3o estou certo que consigam sobreviver neste mundo sem a minha ajuda. Durante anos os protegi de tal forma que hoje me pergunto se n\u00e3o acabei por deixa-los indefesos demais. Tento for\u00e7ar a vista na esperan\u00e7a de encontrar pistas. Pistas de onde estou, pistas de como fugir, pistas sobre o paradeiro da minha fam\u00edlia. Nada.<\/p>\n<p>Est\u00e3o me alimentando. Apesar de n\u00e3o ter tocado na comida, que \u00e9 horr\u00edvel, ela me foi disponibilizada. Suponho, ent\u00e3o, que me queiram vivo. Na verdade, se me quisessem morto, j\u00e1 poderiam ter me matado. Em vez de me consolar, a ideia me assusta. Uma s\u00e9rie de coisas piores do que a morte passam pela minha cabe\u00e7a. Nunca tive inimigos, n\u00e3o me lembro de ter arrumado briga ou causado qualquer tipo de confus\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil entender os motivos pelos quais me trancaram do nada.<\/p>\n<p>Percebo que um dos companheiros que estava na cela da frente desapareceu. A cela est\u00e1 vazia. <\/p>\n<p><strong>DIA 3<\/strong><\/p>\n<p>Sonhei com minha fam\u00edlia. N\u00e3o foi um sonho agrad\u00e1vel. Nada \u00e9 agrad\u00e1vel nesta nova realidade. Acordei com os gritos de um companheiro novo que foi trazido para a cela que ontem estava vazia. Ele grita muito, como se isso adiantasse. Seus gritos eventualmente desencadeiam gritos de outros companheiros. Observo atento, mas tanto o esc\u00e2ndalo como a resigna\u00e7\u00e3o parecem ter o mesmo resultado pr\u00e1tico por aqui.<\/p>\n<p>Pela primeira vez provei a comida, que mesmo horr\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 mais horr\u00edvel que a fome. \u00c9 verdade o que dizem, a fome \u00e9 o melhor tempero. Jamais teria encostado nessa gororoba se estivesse no conforto da minha casa. Como tenho d\u00favidas se ela ser\u00e1 reposta, comi apenas uma parte, assim garanto minha sobreviv\u00eancia por mais um tempo.<\/p>\n<p>Eventualmente cheiros estranhos invadem a sala. Cheiros fortes, que causam at\u00e9 ard\u00eancia. Hoje ouvi alguns barulhos. Definitivamente, n\u00e3o estamos s\u00f3s. Pensei em gritar, mas se gritar adiantasse, o companheiro da cela da frente n\u00e3o estaria na exata mesma situa\u00e7\u00e3o que eu. Ao olhar para ele, percebo que mais um companheiro de cela, desta vez o da cela ao lado, desapareceu. Ent\u00e3o \u00e9 assim que funciona? Desaparecer\u00e1 um por dia at\u00e9 chegar a minha vez?<\/p>\n<p><strong>DIA 4<\/strong><\/p>\n<p>Aproveitei o silencio e o escuro da noite passada para tentar encontrar uma rota de fuga. Tentei at\u00e9 o amanhecer. Apesar dos meus esfor\u00e7os, n\u00e3o consigo passar por entre as grades nem entort\u00e1-las. Tamb\u00e9m n\u00e3o consigo cavar um t\u00fanel. Foram horas de tentativas sem sucesso. Talvez eu tenha que me conformar em viver o resto da minha vida aqui. Tento ser forte, mas o des\u00e2nimo toma conta de mim e choro por horas. Como esperado, ningu\u00e9m escuta. Ou se escuta, n\u00e3o se importam.<\/p>\n<p>A comida acabou. Comi o que restava e n\u00e3o sei dizer se v\u00e3o trazer mais. Tento n\u00e3o enlouquecer imaginando os momentos felizes que passei com a minha fam\u00edlia. Desde coisas bobas como verificar um barulho estranho de madrugada na sala (nunca tem nada de errado acontecendo, mas a gente sempre verifica) at\u00e9 passeios e eventos divertidos. <\/p>\n<p>Sinto energia voltando ao meu corpo, o que torna mais dif\u00edcil ficar trancado neste cub\u00edculo. No desespero do confinamento, tomo uma decis\u00e3o: de amanh\u00e3 n\u00e3o passa. N\u00e3o vou viver o resto da minha vida prisioneiro, sem explica\u00e7\u00f5es, sem dignidade. De um jeito ou de outro, de amanh\u00e3 n\u00e3o passa. Esta situa\u00e7\u00e3o chegar\u00e1 ao fim, por bem ou por mal.<\/p>\n<p><strong>DIA 5<\/strong><\/p>\n<p>Acordo e percebo que outro companheiro de cela se foi. Sinto uma estranha calma e uma forte convic\u00e7\u00e3o de que colocar um ponto final nesta situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa a que pre\u00e7o, vai me trazer al\u00edvio. Come\u00e7o a pensar nas possibilidades. N\u00e3o s\u00e3o muitas, mas ainda assim, tenho algumas escolhas. Tra\u00e7o um plano mental detalhado. Repasso o plano para tentar encontrar poss\u00edveis erros ou falhas. Sim, \u00e9 isso. Est\u00e1 decidido. De hoje n\u00e3o passa.<\/p>\n<p>Escuto passos vindo em minha dire\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 novo. Para minha surpresa, abrem a porta da minha cela. Em um gesto r\u00e1pido, tento escapar, mas sou imobilizado. N\u00e3o devo ser o primeiro a tentar fugir, tenho a impress\u00e3o que eles at\u00e9 contavam com isso. <\/p>\n<p>Sou levado, imobilizado, por um longo corredor. Ao me ver passando, todos os companheiros gritam sem parar. N\u00e3o sou de \u00edndole violenta, mas diante desse cen\u00e1rio, come\u00e7o a me posicionar para um ataque. Em algum momento ter\u00e3o que me soltar, e quando o fizerem&#8230;<\/p>\n<p>Ao final do corredor, uma grande porta \u00e9 aberta. Uma claridade forte me cega, ap\u00f3s tantos dias no escuro. Tudo \u00e9 muito confuso, ou\u00e7o vozes. As vozes parecem familiares&#8230; sim! \u00c9 a minha fam\u00edlia! N\u00e3o consigo ver se eles est\u00e3o bem, se est\u00e3o presos, a claridade continua me cegando. Quando finalmente consigo focar a vis\u00e3o, percebo que estou em seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>MULHER:<\/strong> Ol\u00e1 Tobias! Sentiu nossa falta?<br \/>\n<strong>HOMEM:<\/strong> Ele parece bem&#8230;<br \/>\n<strong>CRIAN\u00c7A:<\/strong> M\u00e3e! M\u00e3e! Posso pegar o Tobias no colo?<br \/>\n<strong>MULHER: <\/strong>Com cuidado, filho, ele ainda est\u00e1 se recuperando da cirurgia<br \/>\n<strong>CRIAN\u00c7A:<\/strong> Ele est\u00e1 machucado?<br \/>\n<strong>VETERIN\u00c1RIO:<\/strong> Fizemos uma cirurgia sem cortar o Tobias, se chama laparoscopia, chegamos ao est\u00f4mago dele pela sua boca<br \/>\n<strong>HOMEM:<\/strong> Que luxo, hein Tobias! Cachorro operado por laparoscopia!<br \/>\n<strong>CRIAN\u00c7A: <\/strong>Tadinho do Tobias!<br \/>\n<strong>VETERIN\u00c1RIO:<\/strong> Agora ele j\u00e1 est\u00e1 bem, podem levar ele para casa&#8230; e n\u00e3o precisa se preocupar, ele n\u00e3o sofreu nem um pouquinho!<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para chutar sobre quem escreveu este texto, para ter certeza sobre quem escreveu este texto ou ainda para dizer que entende porque seu cachorro tem pavor de entrar na cl\u00ednica veterin\u00e1ria: <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DIA 1 Mal consigo abrir os olhos. N\u00e3o tenho lembran\u00e7as de como cheguei aqui, mas tenho uma certeza: estou preso. Grossas barras de ferro me separam do resto do mundo. Tentei sair de todas as formas, pela for\u00e7a e pela intelig\u00eancia, mas n\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria. Estou encarcerado. Minha \u00faltima lembran\u00e7a \u00e9 do dia anterior, deitando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":10083,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-10082","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10082\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}