{"id":10133,"date":"2016-05-31T06:00:25","date_gmt":"2016-05-31T09:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10133"},"modified":"2016-06-02T23:03:07","modified_gmt":"2016-06-03T02:03:07","slug":"tendencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/05\/tendencias\/","title":{"rendered":"Tend\u00eancias."},"content":{"rendered":"<p>O caso da garota estuprada por mais de 30 homens com certeza fez seu barulho pela m\u00eddia brasileira nesses \u00faltimos dias. N\u00f3s do desfavor resolvemos dar um passo atr\u00e1s, porque, francamente, n\u00e3o \u00edamos adicionar nenhum ponto de vista muito original na hist\u00f3ria. Mas, agora, eu posso trazer uma informa\u00e7\u00e3o diferente aqui&#8230; n\u00e3o sobre o caso, mas sobre como o pa\u00eds reagiu a ele. E, de quebra, mostrar uma ferramenta que aposto que pouca gente sabe que existe: o <a href=\"https:\/\/www.google.com\/trends\/\" target=\"_blank\">Google Trends<\/a>.<!--more--><\/p>\n<p>Unindo o in\u00fatil ao desagrad\u00e1vel, especialidade da casa. O Google Trends \u00e9 uma ferramenta do Bin&#8230; evidentemente, do Google. Mais ou menos como n\u00f3s aqui compilamos as barbaridades pesquisadas que caem no desfavor, o Trends analisa a desgra\u00e7a toda. Todas as pesquisas feitas, sejam para onde forem. Ferramenta \u00fatil para quem trabalha com an\u00e1lise de tend\u00eancias, mas tamb\u00e9m como uma janela para a alma das pessoas.<\/p>\n<p>O pa\u00eds supostamente em choque com o caso e com a divulga\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo expondo a garota, e&#8230; bom, vejam esse gr\u00e1fico sobre a evolu\u00e7\u00e3o do termo \u201cv\u00eddeo de estupro coletivo\u201d nos \u00faltimos tempos:<\/p>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/www.google.com\/trends\/embed.js?hl=pt-BR&#038;q=%22video+estupro+coletivo%22&#038;date=today+3-m&#038;cmpt=q&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;content=1&#038;cid=TIMESERIES_GRAPH_0&#038;export=5&#038;w=600&#038;h=400\"><\/script><\/p>\n<hr \/>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 o n\u00famero de pesquisas, e sim o quanto o Google define a relev\u00e2ncia dele. Mas podem ter certeza que para alcan\u00e7ar relev\u00e2ncia \u201c100\u201d, precisa de milh\u00f5es de pessoas pesquisando por isso. E por que eu decidi analisar esse termo espec\u00edfico? \u00c9 compreens\u00edvel a curiosidade num caso midi\u00e1tico como esse, mas&#8230; o povo estava escolhendo um termo bem peculiar se queria se informar sobre o assunto. Outro termo que bombou foi \u201cestupro coletivo\u201d, como voc\u00eas podem ver nesse gr\u00e1fico:<\/p>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/www.google.com\/trends\/embed.js?hl=pt-BR&#038;q=estupro+coletivo&#038;date=today+3-m&#038;cmpt=q&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;content=1&#038;cid=TIMESERIES_GRAPH_0&#038;export=5&#038;w=600&#038;h=400\"><\/script><\/p>\n<hr \/>\n<p>Quanto mais gente procurava pelo termo geral para achar o caso, mais gente queria era achar o v\u00eddeo! O que me leva a crer o pr\u00f3prio v\u00eddeo foi componente determinante no \u201csucesso\u201d do caso, que estamos vendo sem parar recentemente. E mesmo com as autoridades refor\u00e7ando sem parar que a divulga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi criminosa (e pela idade dela, seria criminosa at\u00e9 se fosse consentido), o BM n\u00e3o se abalou. Continuou pesquisando.<\/p>\n<p>Na verdade, se pararmos pra pensar, o v\u00eddeo e sua popularidade tamb\u00e9m foram fatores determinantes no interesse das autoridades em correr atr\u00e1s desse caso. Tinha algo turbinando o potencial de interesse do cidad\u00e3o m\u00e9dio no caso, e conhecendo o Brasil, com certeza n\u00e3o era o sofrimento de uma mulher pobre. Era o v\u00eddeo. Porque estupros, inclusive os coletivos, acontecem aos borbot\u00f5es, muitos at\u00e9 denunciados&#8230; mas, precisou de uma representa\u00e7\u00e3o clara do caso para acontecer esse salto de interesse.<\/p>\n<p>S\u00e9rio, at\u00e9 o assunto em aberto bateu o recorde hist\u00f3rico de pesquisas:<\/p>\n<p><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/www.google.com\/trends\/embed.js?hl=pt-BR&#038;q=estupro&#038;geo=BR&#038;cmpt=q&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;tz=Etc\/GMT%2B3&#038;content=1&#038;cid=TIMESERIES_GRAPH_0&#038;export=5&#038;w=600&#038;h=400\"><\/script><\/p>\n<hr \/>\n<p>Pelo menos sob o que diz respeito ao Google, esse \u00e9 o maior caso do tipo da hist\u00f3ria recente brasileira. E nem o argumento que mais gente usa a internet agora vale, porque essa \u00e9 uma m\u00e9dia de relev\u00e2ncia, n\u00e3o um comparativo de n\u00fameros diretos. Com certeza o que mudou nesse meio tempo foi o perfil do internauta m\u00e9dio. De 2004 (quando o Google come\u00e7a a capturar os dados) at\u00e9 aqui, praticamente todo mundo com um batimento card\u00edaco conseguiu acessar a internet e buscar nela pelo menos um interesse.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu come\u00e7o a imaginar&#8230; o caso ganhou a popularidade que ganhou porque tem mais gente usando a internet que procuraria pelo v\u00eddeo? Porque essa l\u00f3gica tem seus perigos: o surto de aten\u00e7\u00e3o ao tema foi causado pelo maior interesse em explorar uma v\u00edtima? E sem nenhum ju\u00edzo de valor: a profus\u00e3o de opini\u00f5es sobre a suposta culpa dela no caso n\u00e3o bebe da mesma fonte? Nem quero entrar no tema exato porque gera uma discuss\u00e3o que julgo vazia, mas pensando nos dados coletados e na sua evolu\u00e7\u00e3o de acordo com a populariza\u00e7\u00e3o da internet, sinto que estamos finalmente vendo a cara do brasileiro com n\u00fameros para bancar.<\/p>\n<p>Talvez quando falaram de \u201ccultura do estupro\u201d estivessem mirando em uma coisa e acertando em outra. A evolu\u00e7\u00e3o equivalente do interesse pela not\u00edcia e a busca pelo v\u00eddeo da garota sofrendo o abuso n\u00e3o necessariamente diz que o brasileiro corrobora com o estupro como ato, mas demonstra sim que se o assunto \u00e9 \u201cestupro da dignidade\u201d, a busca pela exposi\u00e7\u00e3o do outro no seu momento mais vulner\u00e1vel, essa cultura vai de vento em popa.<\/p>\n<p>E, repetindo, pelo visto no final das contas era a possibilidade de \u201cpresenciar\u201d a cena na internet que mais colocava lenha na fogueira. Seria razo\u00e1vel imaginar que a queda das pesquisas de ambas as pesquisas nos \u00faltimos dias seria resultado do assunto morrendo, mas&#8230; e se for o contr\u00e1rio? E se a preocupa\u00e7\u00e3o com bloquear o material tenha causado a queda na relev\u00eancia? Enquanto as pessoas achavam que podiam ter acesso ao v\u00eddeo e a novidades relacionadas a ele, o assunto explodiu. Quando a maioria das pessoas viu que n\u00e3o havia mais o que extrair dele em imagens, as pesquisas ca\u00edram consideravelmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se me fiz claro, provavelmente n\u00e3o, mas a ideia central \u00e9 que esses dados podem estar dizendo algo sobre os interesses e opini\u00f5es desse povo que ningu\u00e9m est\u00e1 realmente cutucando. Pelo menos n\u00e3o onde eu estou buscando minhas informa\u00e7\u00f5es. Que as autoridades tupiniquins s\u00f3 mexeriam a bunda em caso de grande como\u00e7\u00e3o nacional era extremamente previs\u00edvel, \u00e9 claro. Mas, estamos come\u00e7ando a juntar dados agora para perceber como o que realmente move as pessoas e a m\u00eddia a criar essa como\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente&#8230; querer ver o crime acontecendo.<\/p>\n<p>Talvez, de um jeito bem inesperado, a \u201ccultura do estupro\u201d realmente exista. Mas ela n\u00e3o necessariamente tenha rela\u00e7\u00e3o com o crime sexual em si, e sim com a vis\u00e3o cada vez mais turva da sociedade sobre privacidade e preserva\u00e7\u00e3o da dignidade alheia. Quando a pessoa n\u00e3o sente restri\u00e7\u00e3o alguma ao observar outro ser humano numa situa\u00e7\u00e3o dessas, abre-se m\u00e3o de um direito muito b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Na era das redes sociais, todos os crimes s\u00e3o coletivos, pelo visto.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o entendeu nada mas gostou de brincar com o Trends, para dizer que n\u00e3o sabe de que lado eu fiquei, ou mesmo para dizer que eu parei na hora do pulo do gato (essa opini\u00e3o eu j\u00e1 proferi milhares de vezes): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso da garota estuprada por mais de 30 homens com certeza fez seu barulho pela m\u00eddia brasileira nesses \u00faltimos dias. N\u00f3s do desfavor resolvemos dar um passo atr\u00e1s, porque, francamente, n\u00e3o \u00edamos adicionar nenhum ponto de vista muito original na hist\u00f3ria. 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