{"id":10197,"date":"2016-06-15T06:00:10","date_gmt":"2016-06-15T09:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10197"},"modified":"2016-06-15T04:36:39","modified_gmt":"2016-06-15T07:36:39","slug":"premio-ig-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/06\/premio-ig-nobel\/","title":{"rendered":"Pr\u00eamio Ig Nobel"},"content":{"rendered":"<p>Quem nunca se perguntou se ao se prender um palito de sorvete na cauda de uma galinha, ela andaria feito um dinossauro? Bom, provavelmente todos n\u00f3s aqui&#8230; realmente n\u00e3o \u00e9 o tipo de informa\u00e7\u00e3o que costuma confrontar nossa exist\u00eancia cotidiana. Mas hoje eu vou falar de um pr\u00eamio que reconhece o tipo de pessoa que pensa nessas coisas: o Ig Nobel.<!--more--><\/p>\n<p>O Ig Nobel \u00e9 uma cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o criada e mantida pela revista \u201cOs Anais da Pesquisa Improv\u00e1vel\u201d (traduzido aqui por mera infantilidade minha), que ocorre desde 1991. O objetivo \u00e9 escolher as pesquisas cient\u00edficas mais estapaf\u00fardias do ano, segundo a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o: \u201cpara fazer rir e depois pensar\u201d. O nome, uma jogada com o pr\u00eamio mais prestigioso da ci\u00eancia, o Nobel, aliado \u00e0s frequentes men\u00e7\u00f5es na m\u00eddia como uma premia\u00e7\u00e3o puramente humor\u00edstica, acabam sugerindo que \u00e9 algo do tipo \u201cFramboesa de Ouro\u201d (que escolhe os piores de Hollywood a cada ano), mas muito se engana quem acredita que a ideia central \u00e9 s\u00f3 sacanear as pesquisas selecionadas ou mesmo chama-las de ruins.<\/p>\n<p>Sim, o Ig Nobel come\u00e7ou com uma postura altamente cr\u00edtica, batendo em quem fazia um desservi\u00e7o \u00e0 ci\u00eancia com deboche, os primeiros ganhadores eram defensores da homeopatia, da eugenia, criadores de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, pol\u00edticos golpistas e coisas do tipo. Mas a\u00ed come\u00e7a a aparecer um novo padr\u00e3o, at\u00e9 mais divertido. O das pesquisas improv\u00e1veis que realmente parecem est\u00fapidas, mas que nem sempre s\u00e3o.<\/p>\n<p>Rir, e depois pensar. Abri o texto falando sobre um dos ganhadores do pr\u00eamio, na categoria de biologia no ano passado. A pergunta base que a pesquisa vencedora faz jamais viria \u00e0 cabe\u00e7a de qualquer um de n\u00f3s&#8230; mas, depois que ela \u00e9 solta no mundo&#8230; vai dizer que voc\u00ea n\u00e3o quer saber agora se uma galinha realmente anda feito um dinossauro se colocarem uma cauda artificial nela? Eu n\u00e3o vou dizer nada,<br \/>\n<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article\/asset?unique&#038;id=info:doi\/10.1371\/journal.pone.0088458.s001\" target=\"_blank\">s\u00f3 vou linkar o v\u00eddeo, porque&#8230; \u00e9 claro, tem um v\u00eddeo.<\/a><\/p>\n<p>Conclusivo o suficiente para voc\u00ea? Mesmo que n\u00e3o seja&#8230; ser\u00e1 que voc\u00ea sabe o porqu\u00ea de algu\u00e9m ter esse tipo de ideia para pesquisa? Talvez aqui v\u00e1 uma informa\u00e7\u00e3o nova: o conhecimento cient\u00edfico vigente aponta que aves s\u00e3o os descendentes mais diretos dos dinossauros ainda vivos. E pela cabe\u00e7a dos pesquisadores passou a ideia de que uma ave como a galinha poderia dar dicas de como os dinossauros andavam, isso \u00e9, se tivesse uma cauda como a maioria dos dinossauros tinham. Sim, a ideia e o experimento s\u00e3o engra\u00e7ados, mas isso \u00e9 uma consequ\u00eancia, n\u00e3o o objetivo. Tamb\u00e9m n\u00e3o se sugere em tempo algum que os pesquisadores s\u00e3o burros ou est\u00e3o perdendo tempo com isso&#8230; afinal, n\u00e3o h\u00e1 nada de cient\u00edfico nesse tipo de restri\u00e7\u00e3o do que se pode ou n\u00e3o estudar. Voc\u00ea pode achar est\u00fapido, mas esse n\u00e3o \u00e9 o ponto nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Na verdade, no cerne do que \u00e9 o Ig Nobel hoje est\u00e1 mais a surpresa com como diabos aquelas pessoas conseguiram fazer as perguntas improv\u00e1veis que fazem do que necessariamente o quanto elas parecem in\u00fateis. Ent\u00e3o, muito cuidado com o tipo de risada que voc\u00ea d\u00e1 ao ver os outros exemplos que eu vou colocar aqui, a ideia de que o Ig Nobel escolhe pesquisas ruins e in\u00fateis foi criada por estagi\u00e1rios de jornalismo pregui\u00e7osos em busca de aten\u00e7\u00e3o. Se entrar nessa pilha, o ign\u00f3bil pode ser voc\u00ea. Come\u00e7ou primordialmente batendo, mas hoje em dia a imensa maioria dos premiados vai at\u00e9 a cerim\u00f4nia para receber seu trof\u00e9u, e adoram isso.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Mas este texto n\u00e3o tem a menor gra\u00e7a sem mencionar excelentes exemplos da criatividade (e talvez inutilidade) da mente humana. Alguns realmente imbecis, outros s\u00f3 com muita curiosidade na cabe\u00e7a&#8230; Ped\u00e1gio pago, vamos nos divertir:<\/p>\n<p>1992 &#8211; Pr\u00eamio Arqueologia<\/p>\n<p>Um grupo de jovens franceses pertencentes a uma organiza\u00e7\u00e3o de escoteiros resolveu que a boa a\u00e7\u00e3o do dia seria limpar picha\u00e7\u00f5es nas paredes das cavernas locais. Por falta de conhecimento, limparam junto pinturas de mais 15 mil anos de idade, inutilizando um s\u00edtio arqueol\u00f3gico todo.<\/p>\n<p>1993 &#8211; Pr\u00eamio Tecnologia Vision\u00e1ria<\/p>\n<p>O americano Jay Schiffman recebeu a honraria por ter inventado uma revolucion\u00e1ria tecnologia de proje\u00e7\u00e3o chamada AutoVision, que permitia que um motorista pudesse assistir TV ao mesmo tempo que dirigia. Pr\u00eamio dividido com o estado onde morava, que tornou legal o equipamento.<\/p>\n<p>1996 &#8211; Pr\u00eamio F\u00edsica<\/p>\n<p>Roberth Mathews, cientista brit\u00e2nico, pelos seus valorosos estudos sobre a Lei de Murphy e a comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que o p\u00e3o quase sempre cai no ch\u00e3o com o lado da manteiga virado para baixo.<\/p>\n<p>1997 &#8211; Pr\u00eamio Entomologia<\/p>\n<p>Mark Hostetler, americano, por ter escrito um livro cujo t\u00edtulo pode ser traduzido como \u201cAquela meleca no seu carro\u201d, que ensinava a identificar o tipo de inseto que bateu no seu vidro de acordo com a mancha formada.<\/p>\n<p>2000 &#8211; F\u00edsica<\/p>\n<p>Andre Gein, holand\u00eas, pelo seu importante estudo sobre como fazer sapos levitarem usando \u00edm\u00e3s, e tudo mais o que podemos depreender disso. S\u00f3 mais uma coisa: em 2010, esse mesmo Andre Gein ganhou um pr\u00eamio Nobel, de verdade. Claro, j\u00e1 tinha mudado o foco dos sapos voadores.<\/p>\n<p>2002 &#8211; Biologia<\/p>\n<p>Quatro cientistas brit\u00e2nicos que publicaram o seguinte estudo: \u201cOs comportamentos de flerte de avestruzes em rela\u00e7\u00e3o a humanos nas fazendas brit\u00e2nicas\u201d. N\u00e3o, s\u00e9rio, s\u00f3 precisa disso mesmo.<\/p>\n<p>2003 &#8211; F\u00edsica<\/p>\n<p>V\u00e1rios cientistas australianos com o espetacular estudo: \u201cUma an\u00e1lise das for\u00e7as necess\u00e1rias para arrastar ovelhas sobre diferentes superf\u00edcies\u201d.<\/p>\n<p>2003 &#8211; Biologia<\/p>\n<p>Um tocante estudo holand\u00eas que revelou o primeiro caso de necrofilia homossexual entre patos.<\/p>\n<p>2004 &#8211; Sa\u00fade P\u00fablica<\/p>\n<p>Jillian Clarke, cientista americana que finalmente foi pesquisar sobre algo que todos quer\u00edamos saber: se a regra dos cincos segundos era v\u00e1lida. Ou seja, se o alimento estava pr\u00f3prio para o consumo se retirado do ch\u00e3o em at\u00e9 cinco segundos depois de ser derrubado.<\/p>\n<p>2005 &#8211; Paz<\/p>\n<p>Um casal de cientistas brit\u00e2nicos, por usarem a for\u00e7a&#8230; de seus c\u00e9rebros para analisar eletronicamente as rea\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro de um gafanhoto ao filme Star Wars&#8230; e publicarem os resultados.<\/p>\n<p>2006 &#8211; Medicina<\/p>\n<p>O premiado foi um bravo m\u00e9dico americano que ousou responder a pergunta: massagem anal pode acabar com crises de solu\u00e7os aparentemente intrat\u00e1veis? Eu acho melhor nem dizer qual o resultado dessa an\u00e1lise&#8230;<\/p>\n<p>2007 &#8211; Medicina<\/p>\n<p>Num trabalho conjunto dos dois lados do Atl\u00e2ntico, um cientista americano e um ingl\u00eas publicaram um estudo chamado \u201cEngolir espadas e seus efeitos colaterais\u201d.<\/p>\n<p>2007 &#8211; Lingu\u00edstica<\/p>\n<p>Cientistas espanh\u00f3is descobriram que ratos de laborat\u00f3rio nem sempre conseguem diferenciar algu\u00e9m falando japon\u00eas ao contr\u00e1rio e algu\u00e9m falando holand\u00eas ao contr\u00e1rio. Obviamente, foram premiados.<\/p>\n<p>2008 &#8211; Arqueologia<\/p>\n<p>Orgulho nacional! Dois estudiosos da USP publicaram um fascinante estudo sobre o papel dos tatus na destrui\u00e7\u00e3o de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>2009 &#8211; Medicina Veterin\u00e1ria<\/p>\n<p>Palmas para os pesquisadores ingleses que descobriram que vacas que recebem nomes d\u00e3o mais leite do que as que n\u00e3o recebem.<\/p>\n<p>2010 &#8211; Paz<\/p>\n<p>De novo, os ingleses. Richard Stephens recebeu o pr\u00eamio por confirmar em seus estudos a ideia de que xingar diminui a intensidade da dor depois de uma topada.<\/p>\n<p>2010 &#8211; Gerenciamento<\/p>\n<p>Para ganhar o pr\u00eamio, um grupo de estudiosos italianos conseguiu demonstrar matematicamente que qualquer organiza\u00e7\u00e3o se tornaria mais eficiente se come\u00e7asse a promover pessoas de forma totalmente aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p>2011 &#8211; Fisiologia<\/p>\n<p>Cientistas de toda a Europa se uniram para descobrir algo que sempre nos interessou: se bocejos s\u00e3o contagiosos tamb\u00e9m entre tartarugas. N\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>2012 &#8211; Anatomia<\/p>\n<p>Frans de Wall, cientista holand\u00eas, por provar que chimpanz\u00e9s s\u00e3o capazes de reconhecer outros chimpanz\u00e9s, individualmente, atrav\u00e9s de fotos de suas bundas.<\/p>\n<p>2013 &#8211; Psicologia<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns ao grupo de pesquisadores franceses que descobriu atrav\u00e9s de numerosos estudos que pessoas que se acham b\u00eabadas tamb\u00e9m se acham atraentes.<\/p>\n<p>2014 &#8211; Arte<\/p>\n<p>Por responder a pergunta se pessoas sentem mais ou menos dor quando atingidas por um potente laser em suas m\u00e3os de acordo com a beleza percebida de uma pintura que estejam observando, a honra foi concedida a um time de pesquisadores italianos.<\/p>\n<p>2014 &#8211; Ci\u00eancia \u00c1rtica<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe que vem algo bom quando inventam uma categoria s\u00f3 pra isso. Cientistas noruegueses estudaram a fundo as rea\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas de renas quando confrontadas com pessoas vestidas de ursos polares.<\/p>\n<p>2015 &#8211; Economia<\/p>\n<p>A pol\u00edcia metropolitana de Bangcok, na Tail\u00e2ndia, recebeu a honraria por seu inovador plano de oferecer recompensas em dinheiro para policiais que recusassem subornos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>A pegada do pr\u00eamio mudou com o passar dos anos, e agora boa parte da comunidade cient\u00edfica acha uma forma divertida de expor aquele tipo de material que seria improv\u00e1vel de achar seu espa\u00e7o ao sol por vias normais. Nem todo mundo vai pesquisar sobre cura do c\u00e2ncer ou fontes de energia mais eficientes&#8230; e tudo bem. Porque \u00e9 justamente nessa soma de mentes atirando para todos os lados que reside uma das maiores for\u00e7as da humanidade na busca por conhecimento.<\/p>\n<p>Ci\u00eancia, e eu j\u00e1 tinha mencionado isso no texto sobre o m\u00e9todo cient\u00edfico, \u00e9 muito mais baseada em perguntas do que propriamente as respostas. Muda o mundo quem sabe fazer a pergunta que ningu\u00e9m foi capaz de fazer antes. Voc\u00ea sabia que se Einstein n\u00e3o tivesse se parado para perguntar se o tempo era relativo voc\u00ea n\u00e3o conseguiria usar seu Waze ou Google Maps para navegar pela cidade? A no\u00e7\u00e3o de que o tempo corre diferente de acordo com algumas condi\u00e7\u00f5es que permite que os sat\u00e9lites do GPS consigam entrar em sincronia com nossos aparelhos aqui embaixo e evitar erros monstruosos de localiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Ig Nobel sabe dar umas cacetadas naqueles que desviam a ci\u00eancia para ganhos pessoais e ideias est\u00fapidas de superioridade, mas est\u00e1 principalmente focado em valorizar essa parte t\u00e3o importante do desenvolvimento do conhecimento humano que \u00e9 a da curiosidade. De fazer perguntas malucas que nos fazem rir, mas&#8230; quem sabe, pensar. Dif\u00edcil cravar que uma pesquisa nunca vai ser \u00fatil para o resto do mundo, que seja descobrindo algo novo por ela mesma ou influenciando outras pessoas a fazer perguntas diferentes do que sempre fizeram.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que isso foi uma grande perda de tempo, para dizer que valeu s\u00f3 pelo v\u00eddeo da galinha, ou mesmo para dizer que pelo menos esse algum brasileiro ganhou: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca se perguntou se ao se prender um palito de sorvete na cauda de uma galinha, ela andaria feito um dinossauro? Bom, provavelmente todos n\u00f3s aqui&#8230; realmente n\u00e3o \u00e9 o tipo de informa\u00e7\u00e3o que costuma confrontar nossa exist\u00eancia cotidiana. 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