{"id":10426,"date":"2016-08-12T14:21:56","date_gmt":"2016-08-12T17:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10426"},"modified":"2016-08-12T14:21:56","modified_gmt":"2016-08-12T17:21:56","slug":"unidade-731","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/08\/unidade-731\/","title":{"rendered":"Unidade 731"},"content":{"rendered":"<p>Eu costumava brincar que o Jap\u00e3o era a Argentina da \u00c1sia, todos os vizinhos tinham alguma birra com eles. Costumava, porque a coisa \u00e9 extremamente mais grave que uma rivalidade pontual. Durante sua hist\u00f3ria, o imp\u00e9rio japon\u00eas cometeu diversas atrocidades contra povos pr\u00f3ximos, e hoje eu vou me concentrar numa das mais terr\u00edveis, a Unidade 731.<!--more--><\/p>\n<p>Esse era o nome de um conjunto militar\/cient\u00edfico instalado na parte da China ocupada pelo Jap\u00e3o durante a Segunda Guerra Mundial. Com tantas refer\u00eancias ao que os alem\u00e3es fizeram com os judeus na mesma \u00e9poca, \u00e9 f\u00e1cil esquecer o que acontecia nas margens do Pac\u00edfico. Os EUA travavam uma guerra contra os japoneses por l\u00e1, mas n\u00e3o sozinhos. Russos e chineses tamb\u00e9m sofriam as consequ\u00eancias da guerra; os russos com a desvantagem de estarem do \u201clado errado\u201d do pa\u00eds e seu maior esfor\u00e7o militar, os chineses com uma severa desvantagem tecnol\u00f3gica e operacional nas suas defesas.<\/p>\n<p>Dois povos que pagaram pre\u00e7os altos nessa guerra, mas raramente s\u00e3o reconhecidos nesse sentido. O que talvez explique as d\u00e9cadas seguintes de polariza\u00e7\u00e3o. E como vamos ver a seguir, de forma at\u00e9 compreens\u00edvel considerando como casos como esse ficaram consideravelmente escondidos com o passar das d\u00e9cadas. Mas, vamos \u00e0 parte dif\u00edcil. Explicar o que acontecia no local&#8230;<\/p>\n<p>Conhecida oficialmente pelo nome de Departamento de Preven\u00e7\u00e3o e Epidemias e Purifica\u00e7\u00e3o de \u00c1gua, a Unidade 731 realizava experimentos com seres humanos, prisioneiros de guerra coletados pelos japoneses. Dentre eles, uma grande maioria de civis chineses e russos, al\u00e9m de alguns soldados americanos e europeus. Importante ressaltar que n\u00e3o existem muitos registros oficiais sobre os acontecimentos, a maioria deles resistindo ao tempo atrav\u00e9s de testemunhos de participantes e sobreviventes. Mas vamos chegar nessa parte mais pra frente.<\/p>\n<p>O nome oficial era um eufemismo, na melhor das hip\u00f3teses. No campo principal de opera\u00e7\u00f5es, um complexo com mais de seis quil\u00f4metros quadrados e mais de 150 pr\u00e9dios, os prisioneiros eram usados como cobaias para testes de armas biol\u00f3gicas e todo o tipo de teste de resist\u00eancia humana. Militares e pseudo-cientistas japoneses criavam e aplicavam os experimentos, num misto de completa falta de \u00e9tica cient\u00edfica e sadismo descarado.<\/p>\n<p>Numa unidade pr\u00f3xima, eram criados ratos e pulgas para a cultiva\u00e7\u00e3o da peste bulb\u00f4nica, e esses eram soltos em regi\u00f5es ainda n\u00e3o ocupadas pelos japoneses para analisar os resultados da infec\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo a capacidade de defesa e taxa de mortalidade nas popula\u00e7\u00f5es chinesas locais. Avi\u00f5es davam rasantes fazendo chover pulgas dos c\u00e9us, ou mesmo lan\u00e7avam suprimentos contaminados disfar\u00e7ados de ajuda humanit\u00e1ria em localidades muito debilitadas pela guerra. Estima-se que quase meio milh\u00e3o de pessoas morreram em decorr\u00eancia das doen\u00e7as disseminadas pelo ex\u00e9rcito japon\u00eas durante e at\u00e9 mesmo ap\u00f3s a segunda grande guerra.<\/p>\n<p>Nas depend\u00eancias principais da Unidade 731, os relatos s\u00e3o de experimentos indiferenci\u00e1veis de tortura. Prisioneiros eram infectados com diversas doen\u00e7as e agentes biol\u00f3gicos, dentre elas a peste supracitada, c\u00f3lera, antraz&#8230; sem contar um foco enorme em doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, principalmente a s\u00edfilis. Fazer esse tipo de testes em seres humanos, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais \u201chumanas\u201d, j\u00e1 \u00e9 considerado um crime terr\u00edvel de guerra ou n\u00e3o por si s\u00f3, mas as coisas eram ainda piores do que isso.<\/p>\n<p>Segundo relatos de testemunhas e at\u00e9 mesmo alguns relat\u00f3rios sobreviventes dos pesquisadores, a imensa maioria das v\u00edtimas era analisada em diversos est\u00e1gios das doen\u00e7as atrav\u00e9s de vivissec\u00e7\u00e3o, o termo usado pra definir abrir um ser vivo para estudar seu funcionamento. Pessoas infectadas eram abertas sem anestesia, pois segundo os pesquisadores isso poderia contaminar os resultados, seus \u00f3rg\u00e3os retirados e estudados enquanto elas ainda agonizavam. Milhares de homens, mulheres e crian\u00e7as foram submetidos a esses testes, incluindo rec\u00e9m-nascidos e mulheres gr\u00e1vidas (muitas pelos pr\u00f3prios oficiais japoneses propositalmente para os estudos).<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o parava por a\u00ed, longe disso. A mentalidade recorrente na Unidade 731 parecia ir bem al\u00e9m de estudar armas biol\u00f3gicas, cruzando uma linha para o campo do \u201cvamos torturar e matar pessoas s\u00f3 porque podemos\u201d. Outros testes inclu\u00edam derramar \u00e1gua nos membros de prisioneiros, coloca-los para fora num frio congelante e descobrir quanto tempo demorava para que bra\u00e7os e pernas congelassem e precisassem ser amputados. E muitas vezes, de forma progressiva, congelando pequenos peda\u00e7os por vez e repetindo o teste seguidas vezes. Muitos prisioneiros voltavam para o confinamento com peda\u00e7os faltando, ou deixados para morrer com a gangrena, ou reaproveitados para testes com armas biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Outros relatos mencionam amputa\u00e7\u00f5es com o \u00fanico prop\u00f3sito de recosturar o membro ao contr\u00e1rio ou do outro lado. Sem contar testes como colocar pessoas em c\u00e2maras altamente pressurizadas e centr\u00edfugas at\u00e9 elas morrerem, deixadas sem \u00e1gua ou comida por longos per\u00edodos de tempo para saber quanto demorava para morrerem num caso ou outro, estudos sobre severidade de queimaduras e capacidade de sobreviv\u00eancia nos mais diversos graus e coberturas delas, prisioneiros expostos a doses letais de radia\u00e7\u00e3o, injetados com diversos produtos qu\u00edmicos, sangue de animais, \u00e1gua do mar&#8230; al\u00e9m disso, testes com granadas e lan\u00e7adores de chamas foram feitos com os prisioneiros, com an\u00e1lises de danos em diferentes dist\u00e2ncias e cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitos e muitos relatos de viol\u00eancia sexual, principalmente contra mulheres. Estupros s\u00e3o crimes frequentes em guerras, mas havia um novo grau de especializa\u00e7\u00e3o na Unidade 731. Sob a desculpa de fazer testes, prisioneiros eram obrigados a fazer sexo diante de oficiais, sendo que um deles havia sido contaminado com uma doen\u00e7a sexualmente transmiss\u00edvel, quase sempre s\u00edfilis, antes do ato. As pessoas eram for\u00e7adas sob a mira de armas, sabendo que se n\u00e3o fizessem aquilo, morreriam. Muitas prisioneiras eram for\u00e7adas a engravidar para os testes, e embora os v\u00e1rios relatos de partos acontecidos l\u00e1 dentro, n\u00e3o h\u00e1 nenhum sobrevivente conhecido. Algumas crian\u00e7as nasceram e cresceram l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o a falta de aten\u00e7\u00e3o que o caso recebeu nas d\u00e9cadas seguintes, e a explica\u00e7\u00e3o para isso s\u00f3 completa o absurdo: quando o ex\u00e9rcito russo chegou para liberar a \u00e1rea onde a base ficava, na China, a maioria dos oficiais de mais alta patente e cientistas j\u00e1 tinham voltado para o Jap\u00e3o. Antes de fugir, eliminaram a maioria das provas que conseguiram, incluindo suas cobaias. Os soldados russos capturaram alguns dos japoneses que permaneceram por l\u00e1, e os julgaram nos anos seguintes, ainda debaixo da cortina de ferro, com pouca repercuss\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>J\u00e1 os outros, que voltaram para o Jap\u00e3o, ficaram sob controle dos americanos ap\u00f3s a rendi\u00e7\u00e3o japonesa. Foram perdoados em troca dos resultados dos testes e colabora\u00e7\u00e3o com o programa de armas biol\u00f3gicas americano, tendo garantida a liberdade desde que n\u00e3o dividissem os dados com outros pa\u00edses. Tanto que alguns desses oficiais foram envolvidos em outros esc\u00e2ndalos de abusos nos anos seguintes. O assunto foi abafado por muito tempo, sendo mais conhecido por chineses e russos, e mesmo assim, alguns poucos com acesso a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1988 foi lan\u00e7ado um filme chin\u00eas chamado \u201cMen Behind the Sun\u201d, que gerou alguma controv\u00e9rsia na \u00e9poca pelo realismo com o qual relatou a hist\u00f3ria, mas que tamb\u00e9m acabou ficando meio perdido na cultura ocidental, ao contr\u00e1rio dos in\u00fameros filmes, s\u00e9ries e materiais sobre os crimes alem\u00e3es. N\u00e3o recomendo o filme pra ningu\u00e9m, \u00e9 um festival de tortura e brutalidade em c\u00e2mera lenta num roteiro confuso, mas talvez d\u00ea uma cara para a hist\u00f3ria descrita neste texto. Existe outro filme, russo, chamado \u201cPhilosophy of a Knife\u201d, sobre o mesmo tema, mas esse al\u00e9m de ter quatro horas de dura\u00e7\u00e3o e ser ainda mais focado em chocar o espectador, parece mais um projeto de estudantes de cinema do que propriamente um filme.<\/p>\n<p>Ambos est\u00e3o dispon\u00edveis na internet, o chin\u00eas no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bqnftyYWW4E\" target=\"_blank\">Youtube<\/a>, o russo (s\u00e9rio, esse \u00e9 basicamente pornografia de tortura metido a art\u00edstico) em outros lugares, procure por sua conta e risco. A Unidade 731 j\u00e1 foi tema de m\u00fasicas do Iron Maiden e do Slayer, e foi referenciada at\u00e9 em algumas s\u00e9ries, inclusive no Arquivo X. Mas nada que tenha realmente colocado alguma luz sobre o caso.<\/p>\n<p>Ainda hoje o assunto n\u00e3o tem muito destaque, e at\u00e9 mesmo as representa\u00e7\u00f5es dele na m\u00eddia s\u00e3o apelativas, explorando at\u00e9 a mem\u00f3ria das v\u00edtimas. O governo japon\u00eas at\u00e9 hoje nega que tenha existido dessa forma, mas se desculpa \u201cem linhas gerais\u201d pelos seus crimes de guerra. E esse foi o caso que vazou.<\/p>\n<p>O pior dessa hist\u00f3ria toda \u00e9 a no\u00e7\u00e3o final de que o crime compensou.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que adora esses assuntos felizes, para reclamar que eu descrevi demais as torturas, ou mesmo para reclamar que eu n\u00e3o descrevi mais as torturas: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu costumava brincar que o Jap\u00e3o era a Argentina da \u00c1sia, todos os vizinhos tinham alguma birra com eles. Costumava, porque a coisa \u00e9 extremamente mais grave que uma rivalidade pontual. 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