{"id":10442,"date":"2016-08-17T14:13:27","date_gmt":"2016-08-17T17:13:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10442"},"modified":"2016-08-17T14:13:27","modified_gmt":"2016-08-17T17:13:27","slug":"o-grande-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/08\/o-grande-eu\/","title":{"rendered":"O grande eu."},"content":{"rendered":"<p>Para onde quer que se olhasse, nada. Nem mesmo luz ou escurid\u00e3o. Como se n\u00e3o houvesse sequer essa informa\u00e7\u00e3o para criar um clima, com a luz poderia se imaginar vastid\u00e3o, at\u00e9 mesmo insignific\u00e2ncia diante de um infinito branco; a escurid\u00e3o traria a sensa\u00e7\u00e3o do desconhecido, com seus medos e esperan\u00e7as, ou mesmo o conforto da ignor\u00e2ncia. Nem uma coisa, nem outra. Apenas nada, sem significados ou presun\u00e7\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>Sons, nem os dos pr\u00f3prios pensamentos. E n\u00e3o era sil\u00eancio, pois o sil\u00eancio elude sentimentos de acordo com suas expectativas. Cheiros, gostos, sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas&#8230; nada tamb\u00e9m. Sequer uma brisa para indicar a exist\u00eancia de mat\u00e9ria ou energia. Parecia muito com um vazio, mas n\u00e3o havia espa\u00e7o para se mexer. Essa era a inexist\u00eancia, talvez a \u00fanica palavra poss\u00edvel de descrever o que era aquilo.<\/p>\n<p>Se \u00e9 que aquilo era. A mente n\u00e3o foi feita para descrever algo que foge dos conceitos de exist\u00eancia. Pudera, n\u00e3o havia fun\u00e7\u00e3o alguma em desenvolver a capacidade, e mesmo se desenvolvesse&#8230; o que n\u00e3o existe passaria a ser alguma coisa. Um poder incr\u00edvel esse: definir \u00e0 vida. Nada mais pr\u00f3ximo de um passe de m\u00e1gica do que subverter todas as leis do que \u00e9 conhecido e simplesmente trazer algo \u00e0 exist\u00eancia. Em tr\u00eas par\u00e1grafos, reverteu sua premissa e criou algo.<\/p>\n<p>Mesmo que esse algo seja a aus\u00eancia mais absoluta. Mas \u00e9 um processo sem volta&#8230; a seguir um turbilh\u00e3o de ideias expandem-se de um ponto infinitamente pequeno, e quando observadas, ainda desconexas numa narrativa e absurdamente entrela\u00e7adas em significados, parecem ter sempre existido ali. Apenas fora da percep\u00e7\u00e3o, afinal, n\u00e3o faziam parte daquela primeira defini\u00e7\u00e3o. A inexist\u00eancia exposta como farsa &#8211; limita\u00e7\u00e3o auto imposta dos sentidos &#8211; parece clamar por um palco para poder voltar a ser indefin\u00edvel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, as ideias solidificam-se. Estabilizam-se num plano, ainda sem padr\u00f5es percept\u00edveis, e tudo o que foi usado para dizer que n\u00e3o estavam l\u00e1 at\u00e9 t\u00e3o pouco tempo atr\u00e1s fica evidente. Aquela aus\u00eancia plena e infinita era apenas um \u00e2ngulo, uma dimens\u00e3o paralela para qual se olhou por um breve momento. E a\u00ed, os sentidos come\u00e7am a subverter as ideias. Se eles estavam l\u00e1 junto com elas, seriam eles tamb\u00e9m isso, ideias? O ponto de vista sendo uma representa\u00e7\u00e3o baseada tamb\u00e9m num ponto de vista.<\/p>\n<p>O plano est\u00e1 sucumbindo ao caos. As ideias giram descontroladas, ariscas a qualquer narrativa. N\u00e3o h\u00e1 energia suficiente para controla-las, n\u00e3o todas. Elas v\u00e3o gastar seus significados no tempo que bem entenderem, e a vastid\u00e3o \u00e9 tamanha que a melhor escolha no momento \u00e9 se concentrar nas poucas que est\u00e3o ao alcance. Ali\u00e1s, outro ponto de vista rec\u00e9m-chegado. Na inexist\u00eancia n\u00e3o fazia diferen\u00e7a alguma o tamanho dos seus bra\u00e7os, estava tudo condensado no mesmo ponto. Eu e todo o resto.<\/p>\n<p>Pronto&#8230; agora eu existo. E decidi ter bra\u00e7os. Acho que \u00e9 s\u00f3 isso que eu consigo alcan\u00e7ar mesmo. A paz de fazer parte do caos esvai-se na necessidade de colocar ordem e sentido no que posso perceber. Todo o resto que se expande a uma incalcul\u00e1vel velocidade, ficando distante demais. Indo embora para sempre, talvez formando outros eus quando as condi\u00e7\u00f5es forem ideais. Pelo menos vai ter algu\u00e9m l\u00e1 para testemunhar o que s\u00e3o. Melhor, n\u00e3o queria a press\u00e3o de ser o \u00fanico, imaginem s\u00f3 a responsabilidade de estar sozinho para presenciar toda essa complexidade, todas essas possibilidades. E agora eu sei porque disse eu e acabei com aquela sensa\u00e7\u00e3o de unidade com o todo.<\/p>\n<p>Era inevit\u00e1vel. Quando as ideias explodem em todas as dire\u00e7\u00f5es, algo as faz querer buscar de volta alguma coer\u00eancia. Estavam impacientes por existir, e daquele ponto de vista t\u00e3o limitado, n\u00e3o era exatamente uma exist\u00eancia. C\u00e1 estou eu me contradizendo, de novo. Talvez estivesse certo l\u00e1 no come\u00e7o da hist\u00f3ria, descrevendo eu mesmo o que n\u00e3o podia ser descrito. Eu&#8230; teria sido essa a primeira ideia a se distanciar suficiente das outras? Ser\u00e1 que eu causei&#8230; ou causou&#8230; tudo o que aconteceu a seguir?<\/p>\n<p>As ideias correm para se distanciar umas das outras, uma repulsa compreens\u00edvel at\u00e9 um certo ponto. Depois disso, elas come\u00e7am a se unir, e n\u00e3o parece haver muitos padr\u00f5es no que v\u00e3o formar, apenas o de que quanto mais delas se re\u00fanem no mesmo lugar, mais atraem as outras. Come\u00e7o a pensar que eu nunca vi a inexist\u00eancia mesmo, apenas uma fra\u00e7\u00e3o de tempo ap\u00f3s ela mudar completamente de sentido. Um ponto de vista singular que nunca mais vai se repetir. Eu n\u00e3o poderia escrever sobre a inexist\u00eancia&#8230; \u00e9 uma imensa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sinto-me menos brilhante. Parece que a cada vez que penso, transformo uma ideia em algo diferente, mas algo se perde no processo. Como se todas ao meu redor tivessem um peso enorme por serem absolutas, e assim que re\u00fano duas ou mais, algo delas se torna relativo. Uma terceira ideia que s\u00f3 existe porque aquelas duas entraram em contato. Mas o absoluto n\u00e3o aceita de bom grado ser misturado, muito menos com outro absoluto. O choque \u00e9 grande mais, sinto que n\u00e3o vou ter energia para fazer isso para sempre.<\/p>\n<p>Sinto que quando eu esgotar todas as ideias ao meu redor, as part\u00edculas do que era absoluto e n\u00e3o se adaptou a conviver com outros para formar algo novo vagando sem rumo por a\u00ed, talvez saudosas de quando ainda tinham um significado pleno. N\u00e3o me interessa mant\u00ea-las por perto. Que vaguem por a\u00ed e encontrem significado com outros eus. Nesse ritmo, aposto que o n\u00famero deles vai se tornar inconceb\u00edvel. Tudo o que pode ser misturado vai se tornar relativo. At\u00e9 que&#8230; at\u00e9 que o relativo n\u00e3o tenha mais o poder dos eus para fazer qualquer coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto da ideia de finitude, as ideias que me formam parecem que v\u00e3o sempre estar por aqui, mas acredito que o eu s\u00f3 exista enquanto puder unir e relativizar as ideias absolutas. Afinal, quando elas n\u00e3o existirem mais, n\u00e3o em sua plenitude, para que serve&#8230; ou sirvo eu? Talvez s\u00f3 para isso mesmo. Para testemunhar.<\/p>\n<p>Mas tudo bem. Eu tenho tempo. Eu tenho todo o tempo que as ideias me permitirem ter. E quando n\u00e3o tiver mais, n\u00e3o vou precisar nem lembrar do que defini no come\u00e7o do texto. Eu sou a exist\u00eancia, e sem eu, pra que definir qualquer coisa?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que quer o que eu estou usando, para dizer que n\u00e3o quer o que eu estou usando, ou mesmo para dizer que o sentido inexistiu hoje: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para onde quer que se olhasse, nada. Nem mesmo luz ou escurid\u00e3o. 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