{"id":10478,"date":"2016-08-25T12:21:27","date_gmt":"2016-08-25T15:21:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10478"},"modified":"2016-08-25T17:01:50","modified_gmt":"2016-08-25T20:01:50","slug":"livro-de-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/08\/livro-de-historia\/","title":{"rendered":"Livro de Hist\u00f3ria."},"content":{"rendered":"<p>Leila j\u00e1 sentia em v\u00e3o os esfor\u00e7os de secar o suor de sua testa com o len\u00e7o, encharcado por horas de trabalho naquele calor desumano. Seus ajudantes locais j\u00e1 haviam abandonado posto em busca de al\u00edvio e \u00e1gua fresca, o que consideraria fazer tamb\u00e9m n\u00e3o fosse a imensa curiosidade diante da descoberta: uma biblioteca ancestral, enterrada pela areia a muitos quil\u00f4metros de quaisquer outros s\u00edtios hist\u00f3ricos regionais. Anos de pesquisa sobre a cultura antiga local gerando frutos, imposs\u00edvel de resistir.<!--more--><\/p>\n<p>Nem mesmo os nativos contratados para fazer o servi\u00e7o pesado de desenterrar a entrada pareciam saber como reagir ao local. Supersticiosos, contavam hist\u00f3rias de maldi\u00e7\u00f5es sobre virtualmente todos os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos descobertos pelas redondezas, mas sobre esse nada tinham a acrescentar. Demonstravam receio pelo desconhecido, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sabiam apontar exatamente o que se esperar dali. N\u00e3o havia sequer uma divindade atribu\u00edda \u00e0quele lugar, segundo eles.<\/p>\n<p>O sol a pino l\u00e1 fora, mas apenas um lampi\u00e3o iluminava o local, isolado por um apertado t\u00fanel de pedra que levara dias de \u00e1rduas escava\u00e7\u00f5es para ser livrado da areia, provavelmente acumulada por s\u00e9culos de abandono. A arquitetura da c\u00e2mara subterr\u00e2nea lembrava vagamente o estilo esperado pela civiliza\u00e7\u00e3o estudada, mas algo parecia estranho: n\u00e3o havia decora\u00e7\u00e3o, pinturas ou artefatos t\u00edpicos, apenas algumas prateleiras de pedras com pergaminhos praticamente desfeitos, e no centro, uma esp\u00e9cie de altar exibindo um livro, o que por si s\u00f3 j\u00e1 causava estranhamento, mais surpreendente ainda por estar muito mais conservado do que tudo o que estava ao seu redor. A capa, aparentemente de couro, n\u00e3o tinha indica\u00e7\u00e3o alguma sobre o conte\u00fado.<\/p>\n<p>Confiante por anos de experi\u00eancia no seu trabalho, Leila prepara-se para o ato, contendo a ansiedade com um delicado processo de limpeza ao redor. A poeira suspensa no ar refletindo a luz do lampi\u00e3o gruda em sua pele ensopada, incomodando at\u00e9 os olhos. Com movimentos cuidadosos, ergue o livro do altar, evitando que suas luvas exer\u00e7am press\u00e3o demais. Mas, o livro n\u00e3o parece t\u00e3o fr\u00e1gil assim, a capa e as p\u00e1ginas quase que como novas. Ela decide quebrar o protocolo e dar uma espiada no conte\u00fado ali mesmo, confiante pela aus\u00eancia de testemunhas.<\/p>\n<p>A primeira p\u00e1gina, incrivelmente preservada, j\u00e1 estava preenchida quase que completamente por uma bel\u00edssima caligrafia, palavras reconhec\u00edveis. A surpresa a faz esquecer completamente da rever\u00eancia com a qual tratava o livro at\u00e9 ali. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o era a l\u00edngua falada pelo povo que supostamente colocou o livro ali, como era uma muito mais moderna do que o esperado. Mesmo assim, n\u00e3o registrava exatamente como uma l\u00edngua conhecida, e sim um apanhado de significados e express\u00f5es comuns nas mais de doze l\u00ednguas, vivas ou mortas, que ela falava. Al\u00e9m de algumas letras e palavras completamente novas para seus olhos. Fez senso do seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNhj???kativ ??? abra\u00e7ou o fogo quando a luz ainda escrevia charadas. Sussurrou para Tq??? um sono perp\u00e9tuo, afastando-se de tudo para abrir os c\u00e9us e ????????? vida. Sementes brotaram sem conhecer seu ?ips e esqueceram da luz (&#8230;)\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Parecia um mito de cria\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria continuava, com v\u00e1rias partes indecifr\u00e1veis, passando a impress\u00e3o de uma protol\u00edngua com v\u00e1rios pontos em comum com diversas outras do mundo, mas sem decidir-se por nenhuma em particular. O texto tamb\u00e9m n\u00e3o fazia tanta quest\u00e3o de isolar o homem como ponto focal, gastando algumas p\u00e1ginas para contar sobre criaturas fant\u00e1sticas e todo tipo de belezas naturais. Leila j\u00e1 havia perdido no\u00e7\u00e3o de tempo, avan\u00e7ando para mais de um quarto do livro quando finalmente encontra a primeira men\u00e7\u00e3o ao que seria um humano:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) e ao mesmo tempo duas almas ??naqq pela porta da exist\u00eancia, o mestre e o escravo. O mestre n\u00e3o temia o fim, ???????? pelo tempo que quisesse. O escravo corria at\u00e9 onde resistisse, apenas para passar sua ilus\u00e3o para os pr\u00f3ximos athk?? ?????. O mestre estava iluminado, o escravo na escurid\u00e3o. O escravo sentiu-se completo quando o mestre lhe deu uma casa, e nunca mais quis ser escravo. O escravo construiu. O escravo floresceu da semente da ilus\u00e3o. (&#8230;)\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O que se seguia dali lembrava a caminhada do ser humano pela hist\u00f3ria, descobrindo fogo, agricultura, pecu\u00e1ria, cidades&#8230; isso \u00e9, apesar do uso da palavra escravo, fazia imenso sentido que estivessem falando de pessoas em geral. Principalmente quando o livro gasta um grande n\u00famero de p\u00e1ginas mencionando os deuses criados pelos escravos, a maioria lembrando caracter\u00edsticas de civiliza\u00e7\u00f5es muito antigas. O estado de conserva\u00e7\u00e3o do livro, a forma como estava escrito e at\u00e9 mesmo o conhecimento apresentado por ele come\u00e7am a faz\u00ea-la acreditar que aquele material realmente n\u00e3o fazia sentido com a era que esperava desvendar com suas pesquisas. Talvez algu\u00e9m tivesse descoberto o local muito antes dela, e deixado o livro ali.<\/p>\n<p>Mas, seja como fosse, a leitura era fascinante. Virava as p\u00e1ginas cada vez mais r\u00e1pido, decifrando novas palavras com cada batida de olho. Come\u00e7avam men\u00e7\u00f5es cada vez mais espec\u00edficas sobre a hist\u00f3ria humana, at\u00e9 que um nome m\u00edtico e conhecido salta aos seus olhos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) Os escravos estendiam-se por todos os lados, suas faces diferentes entre si, harmonizando-se com a terra dos mestres. Os mestres tinham o fluxo nas m\u00e3os, esperando. Fizeram sua cama onde os escravos n\u00e3o podiam toc\u00e1-los, observando com olhos fechados cada passo deles. E de seu lar em Atl\u00e2ntida, fizeram a primeira visita. (&#8230;)\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Atl\u00e2ntida. Ou, pelo menos um dos primeiros nomes dados \u00e0 m\u00edtica ilha de localiza\u00e7\u00e3o desconhecida relatada desde a antiguidade. Tal mitologia n\u00e3o pertencia aos costumes do povo local, o que s\u00f3 refor\u00e7ava a ideia daquele livro ter sido plantado ali por um visitante muito mais recente. De qualquer forma, era uma descoberta incr\u00edvel, at\u00e9 porque dali pra frente, a hist\u00f3ria do livro n\u00e3o tinha mais tantos paralelos com a conhecida. Relatos de encontros entre mestres e escravos, inicialmente pac\u00edficos, para se tornarem progressivamente mais agressivos com o passar dos tempos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) havia aqueles que veneravam os mestres e seguiam seus conselhos s\u00e1bios, mas alguns escravos tornaram-se gananciosos, querendo o poder do ??m?? para si. Os escravos lutaram, primeiro nas florestas, depois nos desertos. Os mestres, atordoados pela ingratid\u00e3o, viraram as costas para os escravos, criando suas sementes e enterrando-se fundo na terra. Os mestres fizeram novos escravos, obedientes em ??as???q. Quando a planta cresceu, os novos enfrentaram os velhos. Os primeiros que ca\u00edram foram os que fizeram sua morada no delta da vida. Os mestres n\u00e3o tocavam a pedra, mas tocavam suas cria\u00e7\u00f5es. (&#8230;)\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O livro, segundo Leila, falava claramente dos narabicos, objeto de seu estudo pelas \u00faltimas d\u00e9cadas. Talvez o livro estivesse referenciando a grande revolta que derrubou o primeiro Taquir&#8230; hist\u00f3ria que j\u00e1 tinha lido e relido milhares de vezes, mas que incomodava por algum motivo que n\u00e3o entendia exatamente. Algo parecia errado. Mas, a curiosidade n\u00e3o tinha mais limites, continuou devorando as p\u00e1ginas, passando da metade do livro em pouco tempo.<\/p>\n<p>Segundo os escritos, os novos escravos, que come\u00e7aram a se chamar de Imp\u00e9rio Ozinar, cresceram em poderio militar e influ\u00eancia cultural atrav\u00e9s dos anos, ajudados por uma tecnologia incr\u00edvel oferecida pelos mestres. Naquela hist\u00f3ria, os ozinares alcan\u00e7am as f\u00e9rteis terras ao norte e travam uma imensa batalha contra os l\u00e9gicos, cujo imp\u00e9rio agigantava-se sem parar enquanto os narabicos tentavam conter os avan\u00e7os dos ozinares. Leila agora come\u00e7a a ficar extremamente desconfiada, relatos t\u00e3o precisos sobre os acontecimentos daquela era eram bem recentes, gra\u00e7as aos trabalhos de pessoas como ela. O livro estava correto demais, conhecimento extremamente recente.<\/p>\n<p>Leila encosta o livro no altar novamente, o c\u00e9rebro se co\u00e7ando para lembrar de algo importante. Apenas uma sensa\u00e7\u00e3o de algo errado. A palavra \u201ceg\u00edpcios\u201d vem \u00e0 sua mente, depois, \u201cromanos\u201d. Leila n\u00e3o sabe direito de onde elas vem, mas parecem essenciais. Ela fecha o livro de vez e se afasta, buscando descanso numa prateleira de pedra vazia. A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber apontar nomes de povos para per\u00edodos hist\u00f3ricos \u00e9 nova para ela, ent\u00e3o, faz um exerc\u00edcio mental para tentar se recuperar.<\/p>\n<p>Pensa no que acontece depois daquele ponto do livro. S\u00e9culos de uma terr\u00edvel guerra contra os ozinares, chamada de Idade das Trevas. Com os povos locais finalmente alcan\u00e7ando o n\u00edvel tecnol\u00f3gico de um Imp\u00e9rio Ozinar subitamente enfraquecido pela corrup\u00e7\u00e3o de seu poder central. Os povos unidos renomeiam o continente para Europa, acontecem as grandes descobertas, a era moderna&#8230; e nada de lembrar dos tais de eg\u00edpcios e romanos. Leila, frustrada, levanta-se e busca o livro mais uma vez, agora com o objetivo de ler as p\u00e1ginas finais e ver se acha alguma men\u00e7\u00e3o ao que estava incomodando sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Abrindo o livro nas \u00faltimas p\u00e1ginas, uma surpresa: estavam em branco. O livro ia exatamente at\u00e9 o ponto onde havia parado de ler. Leila volta para a p\u00e1gina com os escritos para confirmar, e quando vira a p\u00e1gina para ver a pr\u00f3xima, consegue ver ela sendo preenchida, como se por m\u00e1gica, letra por letra numa tinta que parece brotar do papel. Assustada, bate o livro e arremessa-o no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora ela consegue lembrar de onde vinham os nomes \u201ceg\u00edpcios\u201d e \u201cromanos\u201d: de um passado que ela acabara de destruir. Leila embebe seu len\u00e7o no querosene do lampi\u00e3o, coloca por sobre o livro e arremessa a chama por cima. Sai de l\u00e1 pelo t\u00fanel apertado, e pede para os homens que relaxavam na sombra do jipe que os trouxera para enterrar o lugar de volta, e nunca mais falarem sobre isso.<\/p>\n<hr \/>\n<span class=\"collapseomatic \" id=\"id69f78c597a0f5\"  tabindex=\"0\" title=\"N\u00c3O ENTENDI: Explica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.\"    >N\u00c3O ENTENDI: Explica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/span><span id='swap-id69f78c597a0f5'  class='colomat-swap' style='display:none;'>Fechar<\/span><div id=\"target-id69f78c597a0f5\" class=\"collapseomatic_content \">O livro mudava a hist\u00f3ria da humanidade quando lido, fazendo um novo povo assumir o controle do mundo, o que provavelmente era o plano de quem o colocou ali. At\u00e9 onde a protagonista leu, tinha feito os eg\u00edpcios se tornarem \u201cnarabicos\u201d e os romanos em \u201clegicos\u201d. Quando Leila parou de ler, os ozinares ainda tinham suporte dos \u201cmestres\u201d, o que deixou de acontecer quando fechou o livro, permitindo que o resto da humanidade lutasse contra eles e garantisse que a partir daquele ponto a hist\u00f3ria da humanidade continuasse mais ou menos igual. Se Leila continuasse lendo, poderia mudar at\u00e9 mesmo seu presente para um mundo onde fosse escrava desse povo.<br \/>\n<\/div>\n<hr \/>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que minhas hist\u00f3rias est\u00e3o cada vez mais malucas, para agradecer pelo \u201cn\u00e3o entendi\u201d, ou mesmo para dizer que esquece de tudo sempre precisar de m\u00e1gica: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leila j\u00e1 sentia em v\u00e3o os esfor\u00e7os de secar o suor de sua testa com o len\u00e7o, encharcado por horas de trabalho naquele calor desumano. 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