{"id":10593,"date":"2016-09-23T14:43:23","date_gmt":"2016-09-23T17:43:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10593"},"modified":"2016-09-23T14:43:23","modified_gmt":"2016-09-23T17:43:23","slug":"o-vento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/09\/o-vento\/","title":{"rendered":"O vento."},"content":{"rendered":"<p>Para onde quer que virasse a cabe\u00e7a, mais e mais pessoas naquele estado. Grunhidos inintelig\u00edveis, lamentos, choros e berros formando uma sinfonia de desespero ao seu redor. O que mais o desesperava, contanto, eram os breves momentos de sil\u00eancio absoluto entre as vozes. Nada para incomodar os olhos, finalmente. Nada al\u00e9m da luz. N\u00e3o se lembrava dela ser t\u00e3o poderosa. O ar teimando em n\u00e3o preencher os pulm\u00f5es lan\u00e7ava fagulhas na vis\u00e3o e pontadas de dor pelo corpo, agora inerte.<!--more--><\/p>\n<p>A vontade era de dormir, apesar de tudo. Sem muita resist\u00eancia, fecha os olhos, exausto de lutar. A consci\u00eancia transforma-se em mem\u00f3ria, uma sensa\u00e7\u00e3o parecida vinda do passado, de quando seu corpo era t\u00e3o fr\u00e1gil quanto agora. \u00c9 sua primeira mem\u00f3ria do vento. O manto escorrendo de suas costas nuas, ainda no colo da m\u00e3e. A sensa\u00e7\u00e3o de acolhimento que vinha de todos os lados virando um inc\u00f4modo terr\u00edvel, a pele sendo castigada pelo ar em f\u00faria, como se agulhado constantemente pelos gr\u00e3os de areia carregados pelo vento. Lembra-se de chorar em desespero, e da m\u00e3e, express\u00e3o impass\u00edvel, n\u00e3o oferecendo conforto algum.<\/p>\n<p>Fora sua primeira experi\u00eancia com o mundo, o verdadeiro mundo. Alguns minutos depois, a pele macia cheia de marcas que ardiam feito fogo. A dor e o desamparo consumindo at\u00e9 que sua m\u00e3e devolve o manto, protegendo novamente suas costas. Ela abra\u00e7a-o com for\u00e7a, desmoronando a fei\u00e7\u00e3o distante por um breve momento, como se pedisse desculpas com o olhar. S\u00e3o muitos e muitos anos de exposi\u00e7\u00e3o controlada ao vento para uma crian\u00e7a, e n\u00e3o h\u00e1 uma que n\u00e3o reaja com berros desesperados. Fato da vida, responsabilidade dos pais. Necessidade.<\/p>\n<p>Lembra-se tamb\u00e9m de quando o mundo mudou de sentido. Com a cabe\u00e7a por sobre os ombros dos pais, via toda a tribo olhando em sua dire\u00e7\u00e3o. Alguns protegiam os olhos com os bra\u00e7os, outros usavam mantos. Os que usavam os bra\u00e7os pareciam mais atentos ao que estava ao seu redor, via as bestas sendo atacadas e derrubadas por eles, com lan\u00e7as que aceleravam cada vez mais antes de perfurar a pele. Quando uma delas ca\u00eda, todos se reuniam no mesmo sentido. Com as costas para o vento. Era o momento em que via seus pais mais felizes, na fome saciada e no calor do fogo que s\u00f3 era poss\u00edvel se algu\u00e9m o protegesse com o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Dormiam todos de bru\u00e7os depois. Rosto protegido pelo seu manto, nariz tocando o solo. Os ouvidos n\u00e3o funcionavam bem, nem pra ele, nem pra ningu\u00e9m. O uivo e o estrondo da ventania intermin\u00e1vel combinavam entre si para evitar que mais do que algumas palavras pudessem ser trocadas entre as pessoas. As melhores oportunidades de comunica\u00e7\u00e3o estavam rabiscadas nos troncos das enormes \u00e1rvores, desistentes que inclinavam-se ao contr\u00e1rio das pessoas. Ningu\u00e9m precisou dizer-lhe que l\u00e1, os animais atacavam o vento pelo equil\u00edbrio, mas as plantas podiam ceder por ter ra\u00edzes. Os poucos frutos que encontravam estavam todos pr\u00f3ximos do ch\u00e3o, as copas quase que ca\u00eddas no solo.<\/p>\n<p>Nada que n\u00e3o fosse pesado o suficiente poderia viver por l\u00e1. As plantas, com seus frutos e sementes gigantescas, atra\u00edam bestas que pareciam muito mais adaptadas ao local que qualquer um de sua tribo. Algumas tinham cascas dur\u00edssimas, outras grossas camadas de gordura na pele, todas para evitar que os gr\u00e3os de poeira e pequenas pedras em perp\u00e9tuo movimento pelo ar pudessem causar-lhes os mesmos danos que causavam em todos que o acompanhava. Os adultos tinham peles ressecadas, calejadas dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. O vento n\u00e3o lhes incomodava como aos pequenos, mas de tempos em tempos algu\u00e9m perdia a vis\u00e3o ou era mortalmente perfurado por uma pedra mais pontiaguda arremessada em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim que perdera a m\u00e3e. Poucos depois ap\u00f3s sua primeira experi\u00eancia de andar contra o vendo, for\u00e7ado pelo pai por finalmente ter peso suficiente para se manter em p\u00e9. O que era mais f\u00e1cil de pensar do que fazer. Sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o, o vento chacoalhou sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Os p\u00e9s n\u00e3o tinham onde encontrar repouso, a posi\u00e7\u00e3o aprendida por imita\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mantinha. O vento lhe clamava, assim como o fez com diversos outros jovens que vira tentarem a mesma coisa, vez ap\u00f3s vez. Lembra-se de gritar por socorro, sem sucesso. Ap\u00f3s desabar no ch\u00e3o, havia atrito suficiente para manter-se est\u00e1vel, mas isso era pouco para seu pai, que mantinha a press\u00e3o para ele se levantar e encarar o vento, como todos haviam feito antes dele.<\/p>\n<p>Contra todo o conhecimento que recebera, lembra-se de olhar para o horizonte, plano e infinito. Nada al\u00e9m de grandes \u00e1rvores pontuando a paisagem. A m\u00e3e, tamb\u00e9m contra todo o conhecimento que recebera, entra na frente do filho, protegendo-o do vento por algum tempo, na esperan\u00e7a de que se levantasse com mais facilidade. Ele olhou para ela uma \u00faltima vez, olhar choroso como se pedisse perd\u00e3o pela fraqueza. Ela apenas sorriu, algo t\u00e3o raro. Inclinando-se para ajuda-lo, ajoelha na sua frente e logo acusa um golpe. Ele se lembra claramente de v\u00e1rios outros da tribo correndo o quanto podiam para acudi-la. Muitos gritaram para avis\u00e1-la da pedra que vinha rolando e ganhando velocidade, mas os uivos e urros do ar n\u00e3o permitiram.<\/p>\n<p>Perdeu-a quando ainda nem era capaz de andar sozinho contra o vento. Ela foi enterrada debaixo da sombra de uma das \u00e1rvores, um s\u00edmbolo \u00fanico talhado no tronco, e pouco tempo para desperdi\u00e7ar com sentimentalismos. A vida continuou, finalmente aprendeu a enfrentar as correntes e manter-se em constante movimento com o grupo. O pai tornou-se ainda mais distante, morrendo poucos anos depois num ataque de uma das bestas. Foi colocado ao lado da mulher, e mais uma marca foi deixada no tronco.<\/p>\n<p>Seguiu sua vida como se n\u00e3o houvesse outra escolha. No abrigo da tribo, sendo colocado cada vez mais para tr\u00e1s nas linhas formadas para a noite. Cada vez mais pr\u00f3ximo de ser a primeira barreira para o vento. No dia em que finalmente recebeu essa honra, foi considerado homem. Sua recompensa veio a seguir, uma bela jovem cuja pele era bem mais lisa e intocada pelas intemp\u00e9ries do que a maioria. Fazia quest\u00e3o de sempre andar na sua frente para mant\u00ea-la assim. Ela retribu\u00eda o afeto nas noites que podia ficar protegido nas fileiras mais internas.<\/p>\n<p>Desse afeto teve frutos. Lembra-se tamb\u00e9m de como ficou sabendo, com ela chamando sua aten\u00e7\u00e3o para um s\u00edmbolo de vida que talhara no tronco da mesma \u00e1rvore cuja sombra seus pais foram enterrados. Agora ele era um ca\u00e7ador, e um dos bons, mestre na arte de usar o vento para acelerar a lan\u00e7a o suficiente para furar as carapa\u00e7as e grossas peles das bestas. Fez quest\u00e3o de trazer muita carne para sua mulher, cuja barriga protuberava mais e mais dos mantos que a protegiam. Queria um filho forte, que encarasse o vento sem medo, que tivesse peso e coragem para jamais arriscar aqueles que o amavam, como fizera.<\/p>\n<p>Lembra-se de tudo isso para se perdoar. Para justificar seus atos. O vento consumia a beleza de sua companheira a cada dia, amea\u00e7ava seu descendente, clamava vidas e n\u00e3o permitia descanso. Ent\u00e3o, ele fez o que acreditou ser melhor, para todos. Na mesma \u00e1rvore onde estavam talhados seus momentos mais felizes e mais tristes, deixou riscado um pedido. N\u00e3o sabia para quem, mas sabia que era o que queria. Se sua voz pudesse ser ouvida, que dissesse para o vento acabar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, alguns dias depois, inclinando-se em busca de equil\u00edbrio contra o sopro intermin\u00e1vel, protegendo mulher e filho do pior dele enquanto procurava no horizonte a ca\u00e7a do dia, sente algo pela primeira vez: o nada. O vento parara. De uma s\u00f3 vez. O calor do sol escaldante pode ser sentido imediatamente. O sil\u00eancio \u00e9 assustador. Mas n\u00e3o h\u00e1 tempo de prestar aten\u00e7\u00e3o em nada disso, n\u00e3o o suficiente. As pernas bambeiam, o equil\u00edbrio se esvai e ele cai.<\/p>\n<p>O som de in\u00fameros outros corpos chocando-se contra o solo se segue. A voz da mulher, antes apenas um sibilo no meio da ventania, agora vem em alto e bom tom, desespero gutural e imediato, imitado por in\u00fameros outros desabados ao redor. Ele n\u00e3o conseguia sequer se levantar, n\u00e3o sabia como faz\u00ea-lo sem o vento. Todos seus movimentos pareciam excessivos, violentos.<\/p>\n<p>Desmaiou ao lado da mulher, depois de se arrastar at\u00e9 ela. Os dois se olharam uma \u00faltima vez antes do calor tornar-se forte demais e o corpo dela sucumbir. Cada vez menos vozes ao redor. Sil\u00eancio. Foi o \u00faltimo a desistir.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m nunca mais se levantou dali.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que gosta de hist\u00f3ria positiva, para dizer que acha que tem algum significado, ou mesmo para dizer que as drogas fazem mal: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para onde quer que virasse a cabe\u00e7a, mais e mais pessoas naquele estado. Grunhidos inintelig\u00edveis, lamentos, choros e berros formando uma sinfonia de desespero ao seu redor. O que mais o desesperava, contanto, eram os breves momentos de sil\u00eancio absoluto entre as vozes. Nada para incomodar os olhos, finalmente. 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