{"id":10695,"date":"2016-10-21T12:02:23","date_gmt":"2016-10-21T14:02:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10695"},"modified":"2016-10-21T16:03:18","modified_gmt":"2016-10-21T18:03:18","slug":"problema-seu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/10\/problema-seu\/","title":{"rendered":"Problema seu!"},"content":{"rendered":"<p>Que jogue a primeira pedra quem nunca desdenhou dos problemas e preocupa\u00e7\u00f5es dos outros. Eu mesmo vivo fazendo isso aqui batendo na turma do politicamente correto, especialmente as feministas dos dias atuais: preocupando-se com roupas de personagens de hist\u00f3rias em quadrinhos enquanto meninas do mundo todo sofrem abusos terr\u00edveis. Ou mesmo o cl\u00e1ssico de fazer pouco de dramas de pessoas muito ricas e\/ou poderosas, com toda a capacidade material para dar conta da situa\u00e7\u00e3o e ainda reclamando. Acho que todos fazemos isso, mas\u2026 ser\u00e1 que aquela po\u00e9tica frase de pobre \u201c\u00e9 f\u00e1cil falar, dif\u00edcil \u00e9 ser eu\u201d n\u00e3o tem um fundo de verdade?<!--more--><\/p>\n<p>Empatia est\u00e1 muito conectada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de semelhan\u00e7a. Pudera, compreender o sentimento alheio presume que voc\u00ea consiga se colocar no seu lugar. Quanto mais parecida com voc\u00ea \u00e9 aquela pessoa, maior a probabilidade de voc\u00ea conseguir se ver reagindo \u00e0 mesma situa\u00e7\u00e3o. Tanto que normalmente a sociedade moderna s\u00f3 come\u00e7a a se mexer mesmo quando algum problema atinge pessoas parecidas com aquelas que j\u00e1 est\u00e3o no poder. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que sempre precisa uma pessoa branca de classe m\u00e9dia ou alta sofrer com alguma mazela social conhecida para algu\u00e9m se mexer. N\u00e3o \u00e9 bonito, mas \u00e9 tremendamente \u00f3bvio que \u00e9 o que mais acontece, pelo menos por estas bandas.<\/p>\n<p>Meu ponto aqui \u00e9 que est\u00e1 me soando cada vez mais perigoso fazer an\u00e1lises sobre o mundo e seus habitantes com base no que eu considero um problema ou n\u00e3o. Acompanhei alguns coment\u00e1rios sobre o debate presidencial americano na quarta passada, essencialmente de pessoas que eu sei que pensam parecido comigo em diversos temas. Quando surgiu uma pergunta sobre aborto, e ambos os candidatos tiveram que sambar para responder sem ofender demais a base de eleitores, muitos come\u00e7aram a reclamar do tema: completamente irrelevante. Assim como eu, v\u00e1rios acham que \u00e9 um absurdo n\u00e3o ser liberado e que s\u00f3 atrasa o mundo ficar discutindo sobre essa \u201cbobagem\u201d. Na hora eu gostei de ler essas opini\u00f5es, j\u00e1 que espelhavam a minha. Mas, pensando bem\u2026 \u00e9 uma bobagem pra mim.<\/p>\n<p>N\u00e3o que eu esteja renegando meus argumentos sobre o posicionamento que tenha sobre o tema e fazendo o que vivo criticando de abdicar de uma vis\u00e3o para manter-se neutro, mas a empatia com as pessoas que pensam parecido comigo me fez imaginar se eu conseguiria me colocar no lugar de quem pensa totalmente diferente. \u00c9 f\u00e1cil dispensar o interesse alheio num assunto retirando-lhes o direito de achar aquilo importante, mas, eu tive que pensar bastante e me informar para chegar ao ponto de perceber essa pol\u00eamica como vazia e desnecess\u00e1ria. Foi necess\u00e1ria uma constru\u00e7\u00e3o interna para chegar at\u00e9 a opini\u00e3o. Ent\u00e3o, eu tenho toda a base necess\u00e1ria para pensar dessa forma. E pessoas que tra\u00e7aram caminhos parecidos tamb\u00e9m podem chegar nessa ideia. Mas, e as que n\u00e3o chegaram?<\/p>\n<p>Quem tem as ferramentas para resolver um problema s\u00f3 consegue olhar para ele com as ferramentas na m\u00e3o. Quem n\u00e3o tem v\u00ea algo completamente diferente. E ter as ferramentas na m\u00e3o n\u00e3o significa s\u00f3 ter acesso a elas ou condi\u00e7\u00f5es de encontrar, signfica ter feito todo o processo mental necess\u00e1rio para entender como elas funcionam. Quem s\u00f3 viu prego na vida demora algum tempo at\u00e9 entender como funciona um parafuso\u2026 e essa pessoa vai ter que intuir ou ser ensinada para conseguir resolver o problema com o que tem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. E \u00e9 a\u00ed que a empatia pode pregar pe\u00e7as: voc\u00ea se coloca no lugar da pessoa diante do problema que ela enfrenta e joga tudo fora quando n\u00e3o consegue notar que ela n\u00e3o sabe usar as mesmas ferramentas que voc\u00ea.<\/p>\n<p>E o curioso \u00e9 que temos diversos exemplos dessa desconex\u00e3o entre o que sabemos e o que o outro sabe na vida cotidiana: quem nunca se viu pirando na frente de uma tela querendo dizer para algu\u00e9m que n\u00e3o vai te ouvir o que essa pessoa tem que fazer? \u201cEra s\u00f3 fazer isso!\u201d. O ser humano em geral se amarra em ver como outras pessoas lidam com algo com o qual j\u00e1 tem alguma experi\u00eancia, porque n\u00e3o deixa de ser fascinante o processo mental de descobrir como se fazer algo, seja em voc\u00ea, seja no outro. Programas onde pessoas famosas por um motivo se veem obrigadas a fazer coisas diferentes sempre rendem. Ver o rico lidando com problema de pobre \u00e9 um cl\u00e1ssico! A ideia de que somos especializados em algumas coisas e terr\u00edveis em outras faz parte da presun\u00e7\u00e3o de um ser humano sobre o outro, mas a ideia entra em colapso quando vemos algu\u00e9m tendo um problema que achamos trivial ou uma preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o achamos v\u00e1lida.<\/p>\n<p>A\u00ed a no\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7a desaparece. A reclama\u00e7\u00e3o do outro parece est\u00fapida, irrita, cansa, incomoda. Minha teoria \u00e9 que no fundo o que realmente inferniza nossas mentes nessa hora \u00e9 a ideia de que se estiv\u00e9ssemos no lugar do outro, resolver\u00edamos tudo. Talvez pior do que achar que a grama do vizinho \u00e9 mais verde \u00e9 achar que o que nos falta est\u00e1 oferecido para o outro de bandeja e se f\u00f4ssemos n\u00f3s naquela situa\u00e7\u00e3o, ser\u00edamos felizes. Eu mesmo realmente queria que a minha preocupa\u00e7\u00e3o na vida fosse a representa\u00e7\u00e3o sexualizada de mulheres nos videogames, por exemplo. Porque com a minha cabe\u00e7a, em quest\u00e3o de segundos o problema morreria e n\u00e3o teria mais nada para me preocupar. A paz e a realiza\u00e7\u00e3o, vindo f\u00e1cil f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O problema do outro n\u00e3o consome nossas vidas da mesma forma que o nosso. N\u00e3o vem com a necessidade de fazer uma escolha (muitas vezes dif\u00edcil) e lidar com suas consequ\u00eancias, e quando tudo isso acontece com a presun\u00e7\u00e3o de que sabemos como solucionar, fica tudo muito mais inc\u00f4modo. O que at\u00e9 explica essa onda cada vez maior de polariza\u00e7\u00e3o entre opini\u00f5es: na cabe\u00e7a do petralha, a solu\u00e7\u00e3o do coxinha \u00e9 s\u00f3 mudar de posicionamento pol\u00edtico, e vice-versa. Apesar de toda a empatia que desenvolvemos na vida, ainda \u00e9 inconceb\u00edvel a ideia que uma outra mente pode chegar numa conclus\u00e3o diametralmente oposta da sua. Claro, devemos nos esfor\u00e7ar para entender que isso acontece, mas a percep\u00e7\u00e3o do outro simplesmente n\u00e3o funciona assim.<\/p>\n<p>Num exemplo nerd, a mente do outro \u00e9 mais ou menos como uma m\u00e1quina virtual: um computador simulado dentro de outro computador. Por motivos \u00f3bvios, quando voc\u00ea simula um sistema dentro de outro, o que \u00e9 simulado tem que ser mais modesto no uso de recursos, tem um computador rodando para essa simula\u00e7\u00e3o poder fingir que \u00e9 outro. Sempre tem uma perda de pot\u00eancia na simula\u00e7\u00e3o. E \u00e9 justamente assim que percebemos outros seres humanos: uma simula\u00e7\u00e3o de uma pessoa dentro de n\u00f3s. Evidente que essa pessoa vai ser simplificada, s\u00f3 temos um c\u00e9rebro para abrigar duas pessoas ao mesmo tempo. E no caso humano, nem d\u00e1 pra dividir o poder de processamento, tem que usar s\u00f3 uma fra\u00e7\u00e3o do potencial da \u201cm\u00e1quina\u201d para tentar entender toda a complexidade de uma mente humana.<\/p>\n<p>Numa dessas, precisamos de atalhos: ao inv\u00e9s de tentar montar o outro e seus problemas do zero, temos que usar nossas vis\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es do mundo para cobrir os buracos. O outro acaba tendo um problema na medida que somos capazes de entender e s\u00f3 podemos achar solu\u00e7\u00f5es para ele de acordo com o material que temos para trabalhar. Tanto que o contr\u00e1rio n\u00e3o funciona: quem n\u00e3o conhece sobre f\u00edsica n\u00e3o pode oferecer para um f\u00edsico a solu\u00e7\u00e3o para um de seus estudos. N\u00e3o adianta s\u00f3 empatia para oferecer ajuda. A empatia vem com uma s\u00e9rie de instru\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para voc\u00ea que s\u00e3o for\u00e7adas para cima da percep\u00e7\u00e3o do outro. Exemplo insens\u00edvel: quando eu penso sobre racismo e no sofrimento que ele pode causar para outras pessoas, eu s\u00f3 consigo me colocar no lugar da v\u00edtima comigo \u201cpintado de preto\u201d. O que n\u00e3o tem nada a ver com o problema real. Eu com outra cor de pele ainda nasci e fui criado sem sofrer com nenhuma consequ\u00eancia do racismo. Meu c\u00e9rebro j\u00e1 est\u00e1 treinado para compreender o mundo com esse problema minimizado.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m parece controlar isso. \u00c9 preciso muito esfor\u00e7o da m\u00e1quina dentro do cr\u00e2nio para aumentar a complexidade da simula\u00e7\u00e3o do outro. E francamente, poucos de n\u00f3s temos essa disponibilidade, at\u00e9 porque eu duvido que todo mundo consiga for\u00e7ar a mente a ir t\u00e3o mais longe, por falta de capacidade mesmo. E num mundo com tantas informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, tanta conex\u00e3o entre pessoas e disponibilidade de ferramentas e processos para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas, faz sentido que essa limita\u00e7\u00e3o mental v\u00e1 tornando todos os temas em dicotomias. A pessoa v\u00ea o problema ou a preocupa\u00e7\u00e3o do outro com tanta coisa a mais na pr\u00f3pria cabe\u00e7a que quando faz a simula\u00e7\u00e3o do outro, basicamente mant\u00e9m tudo o que tem dela mesma e s\u00f3 muda a apar\u00eancia da pessoa imaginada.<\/p>\n<p>E a\u00ed, eu come\u00e7o a dar o bra\u00e7o a torcer, talvez estejamos realmente ficando mais afastados uns dos outros no mundo moderno. Talvez o c\u00e9rebro j\u00e1 esteja entrando no seu limite de processamento e a \u00fanica forma de manter alguma empatia seja essa simplifica\u00e7\u00e3o toda. A intoler\u00e2ncia bebe muito dessa fonte.<\/p>\n<p>Bom, seja como for, preocupar-se com isso \u00e9 problema meu.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o problema foi postar t\u00e3o tarde, para dizer que achou fascinante como eu desenvolvi tudo isso de uma frase de pobre, ou mesmo para dizer que a teoria \u00e9 boa at\u00e9 chegar na pr\u00e1tica: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que jogue a primeira pedra quem nunca desdenhou dos problemas e preocupa\u00e7\u00f5es dos outros. Eu mesmo vivo fazendo isso aqui batendo na turma do politicamente correto, especialmente as feministas dos dias atuais: preocupando-se com roupas de personagens de hist\u00f3rias em quadrinhos enquanto meninas do mundo todo sofrem abusos terr\u00edveis. 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