{"id":10716,"date":"2016-10-27T06:00:17","date_gmt":"2016-10-27T08:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10716"},"modified":"2016-10-27T06:18:27","modified_gmt":"2016-10-27T08:18:27","slug":"a-frase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/10\/a-frase\/","title":{"rendered":"A frase."},"content":{"rendered":"<p>O sol acabara de se por em S\u00e3o Paulo, a cidade quieta como nunca. Nas ruas n\u00e3o haviam congestionamentos, as cal\u00e7adas vazias, lojas fechadas. No horizonte, milhares de janelas escuras. Podia-se ouvir o latido de cachorros irrequietos h\u00e1 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Dentro de um centro comunit\u00e1rio, algumas dezenas de pessoas, principalmente idosos e crian\u00e7as esperavam pelas palavras de um homem posicionado diante do microfone no palanque. O burburinho da sala cede rapidamente quando o homem pigarreia por aten\u00e7\u00e3o. <!--more--><\/p>\n<p>\u201cBoa noite, se \u00e9 que podemos chamar de boa uma situa\u00e7\u00e3o assim\u2026 para quem n\u00e3o me conhece, meu nome \u00e9 Charles Nogueira, eu sou\u2026 ou era rep\u00f3rter de um grande jornal durante os acontecimentos que nos trouxeram at\u00e9 aqui. Eu e meus colegas que est\u00e3o sentados aqui nas primeiras fileiras, o Paulo, o Jefferson e a Adriana\u2026 n\u00f3s que espalhamos os cartazes pela vizinhan\u00e7a. Fico feliz que voc\u00eas tenham comparecido, numa situa\u00e7\u00e3o dessas eu acredito que temos que nos unir, apesar do medo. Conversando com outras pessoas que n\u00e3o foram afetadas, eu percebi que tinha muita coisa mal explicada sobre a Depress\u00e3o, e ainda mais agora que nem a internet parece mais funcionar, \u00e9 essencial que todos saibam bem o que aconteceu.\u201d<\/p>\n<p>Uma senhora, numa das primeiras fileiras, ergue o bra\u00e7o. Charles mostra a m\u00e3o espalmada, sinalizando um pedido de espera.<\/p>\n<p>\u201cEu pretendo responder todas as perguntas que puder, mas depois de falar o que eu preciso agora. Ent\u00e3o eu pe\u00e7o que a senhora e todos os outros presentes esperem um pouco, sen\u00e3o corremos o risco de n\u00e3o passar a informa\u00e7\u00e3o correta. Vamos come\u00e7ar assim: sim, est\u00e1 desse jeito no mundo todo. Pela concentra\u00e7\u00e3o de pessoas, espalhou-se mais r\u00e1pido em grandes cidades como a nossa, mas at\u00e9 onde eu fiquei sabendo, nem as \u00e1reas rurais escaparam ilesas. Com base nos \u00faltimos dados que eu coletei de colegas pelo r\u00e1dio, a coisa \u00e9 generalizada e ningu\u00e9m achou solu\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora.\u201d<\/p>\n<p>Charles busca por uma folha espec\u00edfica no ma\u00e7o que mantinha sobre a mesa ao lado, assim que a encontra, recome\u00e7a:<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a, pelo menos ningu\u00e9m provou que era um v\u00edrus ou uma bact\u00e9ria, n\u00e3o passa pelo ar ou contamina qualquer coisa. E considerando como ficam aqueles que ficam com a Depress\u00e3o depois de um tempo, n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o perigoso assim nos encontrarmos em p\u00fablico. O que eu fiquei sabendo \u00e9 que come\u00e7ou no Jap\u00e3o. At\u00e9 encontrei a primeira reportagem sobre o evento, um v\u00eddeo mostrando umas dez pessoas sentadas ou deitadas no meio da cal\u00e7ada do centro comercial da cidade. Acharam que era protesto, foram entrevistar um dos ca\u00eddos\u2026 e bom, estava ao vivo. Milhares de pessoas ouviram, e come\u00e7ou tudo. Por sorte eu n\u00e3o falo japon\u00eas e pude ver o v\u00eddeo sem maiores problemas. Um amigo nosso, o Carlos, falava\u2026 a gente viu antes dos governos banirem os meios de comunica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Adriana, sentada de frente para o palanque, come\u00e7a a chorar. O homem ao lado, Paulo, come\u00e7a a consol\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u201cPerdemos muitos dos nossos. Todo mundo aqui deve ter perdido algu\u00e9m pra Depress\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 importante que nos protejamos, que cuidemos dos que sobraram, certo? Vamos quebrar um mito agora mesmo: isso te pega mesmo se voc\u00ea ler a frase. O que desencadeia o processo \u00e9 entender a informa\u00e7\u00e3o. Aposto que temos muitos analfabetos aqui. Nesse caso, \u00e9 uma vantagem enorme para a sobreviv\u00eancia. Eu obviamente sei ler e escrever, assim como meus amigos aqui, mas demos sorte do Jefferson\u2026 valeu amigo\u2026 do Jefferson ter notado logo o processo e ter nos alertado para tomarmos precau\u00e7\u00f5es. Jeff, voc\u00ea vem explicar melhor o que \u00e9 a Depress\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Jefferson levanta-se e toma o lugar de Charles no palanque.<\/p>\n<p>\u201cBoa noite\u2026 voc\u00eas v\u00e3o me perdoar se eu n\u00e3o tiver resposta pra tudo, mas pelo jeito que funciona, eu tive que tomar muito cuidado para n\u00e3o ouvir ou ler demais nessas \u00faltimas semanas. O que eu entendi foi o seguinte: quando voc\u00ea ouve a frase que a pessoa que j\u00e1 est\u00e1 com a Depress\u00e3o diz, quando voc\u00ea entende o que ela quer dizer, n\u00e3o demora mais do que meia hora para voc\u00ea sentir os sintomas. Tem gente que desmonta na mesma hora. Quem fica com isso perde toda a vontade de agir, ficando cada vez mais quieto e im\u00f3vel at\u00e9 deixar de fazer coisas b\u00e1sicas como se alimentar ou se proteger de perigos. Nem todo mundo fica choroso, nem todo mundo fica com uma express\u00e3o triste. Depende muito de como cada um lida com a frase. Tem quem entre em choque, tem quem fique desesperado. N\u00e3o, eu n\u00e3o sei como \u00e9 a frase toda, at\u00e9 porque n\u00e3o estaria aqui se soubesse. O que eu sei \u00e9 que ela precisa ser ouvida ou lida  completamente para ter o efeito. Os que ouvem s\u00e3o perigosos por mais ou menos umas duas horas antes de cessar completamente suas tentativas de comunica\u00e7\u00e3o. E nessas horas, o certo \u00e9 isolar a pessoa e evitar que ela tenha acesso a voc\u00ea de qualquer forma necess\u00e1ria, por mais querida que ela seja para voc\u00ea. Se ela te disser ou escrever a frase, voc\u00ea vai ficar do mesmo jeito. Ningu\u00e9m parece ser imune. Agora parece que as coisas est\u00e3o mais tranquilas, mas eu ainda sugiro andar nas ruas com prote\u00e7\u00e3o de ouvido e tomar muito cuidado para n\u00e3o focar a aten\u00e7\u00e3o em nada escrito depois dos primeiros casos. Mesmo que n\u00e3o tenha mais gente dizendo ou escrevendo a frase por a\u00ed, \u00e9 muito importante se proteger agora. Tape os ouvidos, olhe pro ch\u00e3o, \u00e9 o jeito mais seguro. Obrigado.\u201d<\/p>\n<p>Charles toca o ombro do amigo, que sorri de volta. Jefferson volta para sua cadeira, Charles retoma a palavra.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acho nem saud\u00e1vel especular que frase seja essa, ou o que tenha feito ela t\u00e3o poderosa assim, mas \u00e9 importante ressaltar que ela n\u00e3o parece ser uma sequ\u00eancia de palavras muito comum. Eu escutei a vers\u00e3o em japon\u00eas, n\u00e3o me pareceu longa. O meu amigo que falava a l\u00edngua e ouviu junto, para a minha sorte, foi um daqueles que reagiu em choque e n\u00e3o tentou repeti-la logo depois de ouvir. Mas ele chegou a falar, quase que pensando alto, que nada fazia sentido mais\u2026 ele logo caiu sentado no ch\u00e3o e s\u00f3 saiu dali carregado. Eu nunca vou esquecer a express\u00e3o dele. Os olhos imediatamente procurando o vazio, a boca aberta, o corpo se retraindo\u2026 muito estranho. E eu entendo que gere curiosidade, \u00e0s vezes d\u00e1 vontade de saber logo o que diabos \u00e9 essa frase e descobrir o efeito que ela causa de verdade. Acho que muitos aqui compartilham comigo esse desejo, \u00e0s vezes parece que tudo o que estamos vivendo \u00e9 uma mentira e a verdade, quando descoberta, faz com que a vida toda perca a gra\u00e7a e o sentido na hora. Mas, assim como n\u00f3s, tem mais gente ao redor do mundo que de uma forma ou de outra n\u00e3o foi impactada pela frase, e eu acredito agora, mais do que nunca, que precisamos nos unir e encontrar o nosso sentido nesse mundo que ficou completamente maluco.\u201d<\/p>\n<p>Um senhor, aparentando seus sessenta anos de idade, levanta a m\u00e3o. Charles prepara-se para impedi-lo de falar, mas n\u00e3o o faz a tempo:<\/p>\n<p>\u201cRapaz, voc\u00ea fala bonito\u2026 mas eu n\u00e3o entendi nada. Eu s\u00f3 sei que a minha v\u00e9ia e meus tr\u00eas filhos pararam de fazer tudo, da noite pro dia. A v\u00e9ia n\u00e3o aguentou n\u00e3o. Meu menino mais velho deixou essas duas meninas pra eu cuidar, n\u00e3o tenho mais como conseguir comida, acabou tudo nos mercados. Minhas netinhas est\u00e3o magrinhas demais&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Charles respira fundo. Acena em concord\u00e2ncia com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cOk, n\u00f3s prometemos e vamos entregar v\u00e1rias latas de comida para todos voc\u00eas, conseguimos muitas no estoque de uma f\u00e1brica no interior. Mas \u00e9 importante discutirmos tamb\u00e9m nossas estrat\u00e9gias para reorganizar uma sociedade e&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A senhora que levantou a m\u00e3o no come\u00e7o do discurso de Charles interrompe:<\/p>\n<p>\u201cPode dar a comida pra gente? Eu estou com fome\u2026 faz dois dias que eu mal como, mo\u00e7o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Charles sorri, resignado.<\/p>\n<p>\u201cPodem se servir. Continuamos depois&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Os presentes come\u00e7am a se aglomerar ao redor de uma pilha de latas de carnes e vegetais enlatados, as crian\u00e7as disparando na frente. H\u00e1 um princ\u00edpio de tumulto, mas logo as coisas se acalmam. Alguns, com sacolas cheias, j\u00e1 come\u00e7am a ir embora, apesar da insist\u00eancia de Charles e seus amigos para mais algum tempo de conversa. Depois de alguns minutos, apenas metade do qu\u00f3rum inicial se mant\u00e9m. Com a ajuda de um abridor de latas, forma-se uma roda no meio do sal\u00e3o para o consumo imediato dos alimentos. As crian\u00e7as servem-se fartamente, os idosos come\u00e7am a conversar entre si. Charles aproveita a situa\u00e7\u00e3o para pedir a palavra mais uma vez:<\/p>\n<p>\u201cSe nos organizarmos, podemos at\u00e9 encontrar mais pessoas, nos reunirmos numa cidade menor e tentar colocar as coisas em funcionamento. O Paulo estava dizendo agora de pouco que sem manuten\u00e7\u00e3o, a energia e a \u00e1gua encanada n\u00e3o v\u00e3o durar mais do que algumas semanas. Precisamos de algum especialista em&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Uma das crian\u00e7as, um garoto maltrapilho que parecia desacompanhado at\u00e9 ali, entre uma garfada e outra de um presunto enlatado, mal termina de mastigar antes de interromper Charles:<\/p>\n<p>\u201cTio, posso levar as latas pra casa?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea pode comer aqui sem problemas\u2026 mas pode levar sim.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e eu acho que est\u00e1 com fome&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEla n\u00e3o veio?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, ontem ela deitou na cama e ficou l\u00e1&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Charles e os outros presentes se entreolham, entristecidos. Uma senhora que estava por perto abra\u00e7a o menino, que parece confuso com o gesto.<\/p>\n<p>\u201cSe ela acordar e eu n\u00e3o estiver em casa, vai brigar\u2026\u201d<\/p>\n<p>A senhora sorri e passa a m\u00e3o na cabe\u00e7a do jovem.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho certeza que ela n\u00e3o vai ficar brava com voc\u00ea. Vamos fazer assim, eu volto com voc\u00ea e te ajudo a levar mais comida, t\u00e1 bom?\u201d<\/p>\n<p>O menino sorri de volta. Um pouco de esperan\u00e7a preenche o ambiente.<\/p>\n<p>\u201cTia, o que quer dizer quando ela diz que<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol acabara de se por em S\u00e3o Paulo, a cidade quieta como nunca. Nas ruas n\u00e3o haviam congestionamentos, as cal\u00e7adas vazias, lojas fechadas. No horizonte, milhares de janelas escuras. Podia-se ouvir o latido de cachorros irrequietos h\u00e1 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Dentro de um centro comunit\u00e1rio, algumas dezenas de pessoas, principalmente idosos e crian\u00e7as esperavam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":10717,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-10716","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10716\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10717"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}