{"id":10745,"date":"2016-11-04T06:00:35","date_gmt":"2016-11-04T08:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10745"},"modified":"2016-11-04T04:35:41","modified_gmt":"2016-11-04T06:35:41","slug":"reconstrucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/11\/reconstrucao\/","title":{"rendered":"Reconstru\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>Ultimamente eu venho notando melhor uma mania do meu processo criativo: a reconstru\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o com artes e textos, principalmente. Na pr\u00e1tica significa fazer uma vez, at\u00e9 achar interessante, mas ao inv\u00e9s de trabalhar em cima da primeira vers\u00e3o, coloc\u00e1-la de lado e recome\u00e7ar, fazendo tudo de novo tentando otimizar e\/ou aperfei\u00e7oar a cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 eficiente em tempo, o que gera algumas dificuldades com prazos. Mas, eu acredito que exista uma li\u00e7\u00e3o nisso tudo.<!--more--><\/p>\n<p>Pera\u00ed\u2026 a ideia \u00e9 essa, mas\u2026<\/p>\n<p>Criar \u00e9 um processo muito pessoal, al\u00e9m das diversas peculiaridades da forma\u00e7\u00e3o e do momento da vida de cada pessoa, ainda podemos dizer que cada um tem um caminho pr\u00f3prio entre a inten\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o. Tem quem goste de planejar tudo antes, tem quem goste de deixar a inspira\u00e7\u00e3o fluir\u2026 eu mesmo tenho meu m\u00e9todo: a reconstru\u00e7\u00e3o. Considero um mix das duas abordagens. Primeiro se deixa o inconsciente montar uma vers\u00e3o pr\u00e9via, fluindo naturalmente; depois entra o planejamento ao descartar o original e refazer tudo do zero.<\/p>\n<p>\u00c9 basicamente a defini\u00e7\u00e3o do retrabalho. Fazer pelo menos duas vezes a mesma coisa, abdicando de qualquer planejamento inicial. Como a Sally sempre me diz, eu tenho muita sorte de ser meu pr\u00f3prio chefe\u2026 um processo desses com certeza enfureceria qualquer superior. N\u00e3o digo que dobra o tempo de tudo o que se cria (a primeira parte vem muito mais r\u00e1pido), mas com certeza aumenta em pelo menos 50% a dura\u00e7\u00e3o do processo. N\u00e3o \u00e9 eficiente. N\u00e3o \u00e9 nem indicado: qualquer profissional de cria\u00e7\u00e3o vai te falar sobre a import\u00e2ncia de planejar a cria\u00e7\u00e3o antes de coloc\u00e1-la em pr\u00e1tica. Buscar refer\u00eancias, fazer rascunhos, estabelecer um plano de execu\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Todos excelentes conselhos. Se eu tiver que sugerir para algu\u00e9m como produzir materiais como artes e textos, eu com certeza vou sugerir outro m\u00e9todo que n\u00e3o o meu. Quantas vezes eu j\u00e1 n\u00e3o sofri aqui mesmo por causa dele? Ou textos que demoraram demais pra sair pela repeti\u00e7\u00e3o da escrita, ou textos que sa\u00edram confusos ou an\u00eamicos porque n\u00e3o pude fazer a segunda etapa, a reconstru\u00e7\u00e3o em si. Sim, o processo tem dessas. \u00c9 um predador natural da pontualidade, e um inimigo cruel da qualidade. Se n\u00e3o h\u00e1 tempo h\u00e1bil, ele vai te causar problemas.<\/p>\n<p>E convenhamos, nos dias atuais o que mais anda faltando \u00e9 tempo h\u00e1bil. Mas, seja por romantismo ou teimosia (e essas palavras cada vez me soam mais como sin\u00f4nimas\u2026), eu ainda me permito criar dessa forma. Estou escrevendo um texto para explicar o processo, mas como voc\u00eas viram, n\u00e3o estou advogando que seja seguido por ningu\u00e9m esteja lendo. Quero s\u00f3 apresentar essa possibilidade. Talvez nas m\u00e3os de pessoas mais capazes de escolher suas batalhas, o processo da reconstru\u00e7\u00e3o seja uma ferramenta valiosa sem os pontos negativos j\u00e1 apresentados.<\/p>\n<p>Parece rid\u00edculo descrever aqui a ideia de criar algo s\u00f3 para destruir e come\u00e7ar de novo, tanto pela simplicidade do conceito quanto por sua ineg\u00e1vel futilidade, mas acredito que ningu\u00e9m fale sobre um processo h\u00edbrido entre inspira\u00e7\u00e3o e expira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de verdade. Ou \u00e9 uma vers\u00e3o excessivamente art\u00edstica de cria\u00e7\u00e3o expont\u00e2nea abastecida por uma mente naturalmente brilhante, ou \u00e9 uma excessivamente redutiva onde s\u00f3 o esfor\u00e7o quase que obssessivo \u00e9 capaz de desenvolver uma ideia interessante. Nem tanto ao mar, nem tanto \u00e0 terra, creio eu.<\/p>\n<p>Porque as duas coisas presumem caracter\u00edsticas muito espec\u00edficas e dif\u00edceis de emular pela maioria das pessoas. Poucos de n\u00f3s temos uma mente que nos fa\u00e7a parecer psicografar ideias, poucos de n\u00f3s temos um senso de disciplina e foco poderosos o suficiente para gerar criatividade \u201cna marra\u201d. E a\u00ed, vem aquele discurso bizarro de muita gente que diz que n\u00e3o \u00e9 criativa. Embora muitas pessoas tenham sim dificuldades de express\u00e3o criativa for \u201catrofia\u201d, o processo n\u00e3o \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o m\u00e1gica vinda de um universo paralelo. E muito menos algo que s\u00f3 poucas pessoas no mundo nascem capazes de fazer. Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo, um caminho.<\/p>\n<p>E como eu honestamente n\u00e3o sei se \u00e9 a falta de caminhos alternativos ao \u201cdom\u201d ou a disciplina extrema que seguram as pessoas, sugiro o m\u00e9todo da reconstru\u00e7\u00e3o como uma tentativa v\u00e1lida. A experi\u00eancia de ver v\u00e1rias pessoas trilhando seus primeiros passos nessa \u00e1rea me fez notar alguns problemas comuns a quem ainda n\u00e3o tem o h\u00e1bito de produzir conte\u00fado original: o mais s\u00e9rio \u00e9 a auto-imposi\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o de saber tudo o que precisa estar na arte ou no texto antes de faz\u00ea-la. Talvez com muita experi\u00eancia e uma boa dose de press\u00e3o por prazo a pessoa consiga fazer isso, mas na m\u00e9dia, ideias s\u00e3o constru\u00eddas bloco a bloco, d\u00e1 sim pra n\u00e3o saber onde quer chegar quando come\u00e7a, s\u00f3 n\u00e3o pode estar perdido quando termina.<\/p>\n<p>E para esse problema, a reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 uma excelente alternativa. Melhor fazer algo menos eficiente do que travar ou simplesmente desistir. Se voc\u00ea quer escrever um texto, por exemplo: ao inv\u00e9s de esperar o universo te dizer o que colocar no papel ou mesmo tentar travar tudo dentro de uma s\u00e9rie de regras e metas pr\u00e9-definidas, que tal simplesmente \u201cfalar\u201d tudo do jeito que vier \u00e0 cabe\u00e7a? A tend\u00eancia, ainda mais sem treino, \u00e9 que venha um desastre liter\u00e1rio onde as ideias n\u00e3o parecem ter conex\u00e3o, dif\u00edcil de acompanhar\u2026<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que muita gente para a\u00ed. Olha para isso e fica presa na hora entre aqueles dois mundos que eu descrevi anteriormente: se pega a linha da \u201cinspira\u00e7\u00e3o divina\u201d, acha que n\u00e3o foi capaz ou acha que aquilo est\u00e1 bom s\u00f3 porque veio de dentro; se vai no sentido oposto, convence-se que n\u00e3o tem o que \u00e9 necess\u00e1rio, ou at\u00e9 pior, acha que s\u00f3 por ter se esfor\u00e7ado est\u00e1 bom. Pouca gente, pelo menos at\u00e9 onde eu entendi dos outros seres humanos, tem essa capacidade de entregar uma boa cria\u00e7\u00e3o de primeira.<\/p>\n<p>Mas d\u00e1 sim pra entregar uma cria\u00e7\u00e3o de primeira. \u00c9 s\u00f3 entender que mesmo quando colocamos nossas ideias num papel ou numa tela, elas n\u00e3o necessariamente est\u00e3o traduzidas para uma l\u00edngua intelig\u00edvel para outros seres humanos. Eu considero o processo de reconstru\u00e7\u00e3o como uma segunda tradu\u00e7\u00e3o: nossos c\u00e9rebros s\u00e3o bem parecidos com m\u00e1quinas. O c\u00e9rebro trabalha com impulsos el\u00e9tricos e armazena informa\u00e7\u00f5es picadas que s\u00e3o unidas s\u00f3 na hora que s\u00e3o chamadas. A primeira etapa de tirar essa bagun\u00e7a da cabe\u00e7a e traduzir para uma forma que entendemos \u00e9 entre seu c\u00e9rebro e voc\u00ea. Foi s\u00f3 isso que aconteceu. Aqueles impulsos el\u00e9tricos viraram imagens ou palavras. Mas isso n\u00e3o quer dizer que voc\u00ea terminou o processo.<\/p>\n<p>Como toda boa cria\u00e7\u00e3o, ela deve se comunicar com outras pessoas. A etapa da reconstru\u00e7\u00e3o &#8211; de refazer tudo sem tentar remendar o original \u2013 funciona muito bem se for uma segunda tradu\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea j\u00e1 tirou da sua cabe\u00e7a o que queria, pode estar um desastre, mas voc\u00ea sabe o que tentou comunicar em linguagem humana, n\u00e3o mais puramente sin\u00e1ptica. Ent\u00e3o, basta refazer tudo pensando em como fazer outros seres humanos entenderem aquilo. A fase da cria\u00e7\u00e3o \u201cpura\u201d j\u00e1 foi. E essa n\u00e3o tem press\u00e3o externa. Voc\u00ea tirou isso da sua cabe\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 pra mais ningu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea. S\u00f3 quando se reconstr\u00f3i que a preocupa\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar outras pessoas come\u00e7a a nortear seu esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Claro, experi\u00eancia e conhecimento te fazem misturar os dois processos e evitar a obriga\u00e7\u00e3o de reconstruir tudo, sempre. Mas, se voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando, se quer apenas quebrar essa primeira barreira entre as ideias que est\u00e3o dentro da sua cabe\u00e7a e o resto do universo, sugiro que tente fazer dessa forma. Primeiro explique para voc\u00ea mesmo &#8211; em palavras ou em imagens &#8211; o que quer fazer. Quando voc\u00ea entender, a\u00ed sim pode explicar. Criatividade \u00e9 um microcosmo do processo educacional. Cada ideia tem que ser aprendida antes de ser ensinada. Voc\u00ea \u00e9 um professor das pr\u00f3prias ideias a cada vez que tenta criar algo novo.<\/p>\n<p>A ideia de trabalhar com reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente tornar mec\u00e2nico o processo. Primeira fase \u00e9 onde voc\u00ea aprende, segunda \u00e9 onde voc\u00ea ensina. Deixar um texto de lado e come\u00e7ar a escrever basicamente a mesma coisa com outras palavras pode te ajudar muito, se voc\u00ea entender que essa segunda passagem pela ideia \u00e9 focada em ensinar os outros o que voc\u00ea acaba de aprender sobre o que pensava. Quem n\u00e3o sabe do que est\u00e1 falando dificilmente consegue explicar para outra pessoa, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Pessoalmente, eu exagero muitas vezes com esse sistema, ele pode virar uma mania nas m\u00e3o erradas, mas ele \u00e9 excelente pra calar a boca de gente que acha que n\u00e3o \u00e9 criativa. E at\u00e9 mesmo para come\u00e7ar a produzir conte\u00fado de mais qualidade. N\u00e3o dizem que a pr\u00e1tica leva a perfei\u00e7\u00e3o? At\u00e9 mesmo dentro de um sistema t\u00e3o reduzido quanto esse de colocar uma ideia no mundo a pr\u00e1tica pode ser\u2026 praticada. Treinar a diferen\u00e7a gigante entre a forma como uma ideia \u00e9 gerada e como ela \u00e9 proposta pode te tornar cada vez mais eficiente nisso.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o em tempo, mas com certeza no poder da mensagem. Se eu tivesse escrito s\u00f3 o primeiro par\u00e1grafo, daquele jeito, ser\u00e1 que eu teria me feito claro sobre o tema? Ser\u00e1 que eu me fiz claro agora? Se n\u00e3o, talvez reescreva no futuro. Uma hora a gente acerta\u2026<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que vai escrever um coment\u00e1rio e n\u00e3o postar, para dizer que fica esperando minha pr\u00f3xima tentativa, ou mesmo para dizer que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma pessoa criativa: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultimamente eu venho notando melhor uma mania do meu processo criativo: a reconstru\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o com artes e textos, principalmente. 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