{"id":10935,"date":"2016-12-23T13:59:20","date_gmt":"2016-12-23T15:59:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=10935"},"modified":"2016-12-23T13:59:20","modified_gmt":"2016-12-23T15:59:20","slug":"esquentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/12\/esquentado\/","title":{"rendered":"Esquentado."},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de controle implac\u00e1vel sobre uma republiqueta tropical, Orlando Gutierrez pereceu calmamente sobre lenc\u00f3is de seda, em sua mans\u00e3o predileta \u00e0s margens do Atl\u00e2ntico. O abra\u00e7o da morte veio suave, diferentemente das milhares de v\u00edtimas de sua longeva ditadura. Fechou os olhos pela \u00faltima vez como se estivesse caindo num pesado e merecido sono depois de um longo dia.<!--more--><\/p>\n<p>Mas, para sua surpresa, a vis\u00e3o reforma-se, sabe-se l\u00e1 quanto tempo depois. Ao seu redor, uma grande caverna, teto e paredes iluminadas pelo vermelho do magma que borbulhava num lago central. O cheiro era de enxofre. Cat\u00f3lico suficientemente praticante, Orlando sabia muito bem que seus atos em vida poderiam ter tal consequ\u00eancia. Decide aceitar seu destino feito homem, enojado pelo choro desesperado de tantos outros que surgiam em suas proximidades e rapidamente percebiam que seriam punidos pela eternidade.<\/p>\n<p>Homens e mulheres de todas as idades materializavam-se numa nuvem de fuma\u00e7a negra, inclusive, para a surpresa de Orlando, algumas crian\u00e7as. Pelo ritmo de novas chegadas ali, presume que deve ter alguma sa\u00edda, sen\u00e3o aquela caverna estaria lotada at\u00e9 o teto de amaldi\u00e7oados. Desvencilhando-se de agarr\u00f5es daqueles procurando algum conforto ali, consegue encontrar um caminho at\u00e9 a extremidade da caverna, circundando o ambiente. Percebe o fluxo de pessoas atravessando uma galeria distante, mas parecia haver ordem ali, algu\u00e9m estava organizando uma fila.<\/p>\n<p>Um homem, ou algo muito parecido com isso, parecia anotar algo num pesado bloco de notas ao escutar as lam\u00farias daqueles que passavam em sua frente. O homem tinha sim a pele vermelha e escamosa, al\u00e9m de chifres pontiagudos, mas n\u00e3o era t\u00e3o imponente como imaginara em vida: o corpo franzino era pontuado por uma grande barriga, e embaixo de cada chifre um tufo de cabelos negros, evidenciando avan\u00e7ada calv\u00edcie. Express\u00e3o cansada, mal olhava para aqueles que pediam clem\u00eancia \u00e0 sua frente.<\/p>\n<p>Orlando aproveita-se da situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica para se posicionar bem mais \u00e0 frente na fila do que deveria. Uma senhora sente o empurr\u00e3o e volta-se para ele, olhos vermelhos e inchados. Apesar da falta de rea\u00e7\u00e3o dele, ela come\u00e7a seus lamentos. Diz que era muito religiosa, que estava na igreja praticamente todos os dias, que doava para a caridade e at\u00e9 cozinhava para o padre da par\u00f3quia. Estava esperando para falar com algum respons\u00e1vel porque acreditava que aquilo era um engano. Orlando responde com um sorriso ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>Como cada pessoa que passava pelo homem vermelho parecia falar por um bom tempo, Orlando perde a conta das horas esperando por sua vez. Faltava apenas a suposta carola para ser atendida antes dele, mas, considerando o quanto ela havia falado virtualmente sozinha no tempo todo que esperou na fila, ele decide que n\u00e3o gostaria de esperar mais tanto tempo at\u00e9 aquela mulher gastar suas desculpas esfarrapadas. Com um sutil empurr\u00e3o, ele a desequilibra para fora da fila e toma seu lugar. Os gritos dela confundem-se com os de desespero de tantos outros ao redor, tornando o crime perfeito.<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio sinaliza a vez de Orlando com um r\u00e1pido movimento do dedo. Ele aproxima-se, notando imediatamente que nos arredores daquele ser, a cacofonia de gritos e choros silenciava-se.<\/p>\n<p><b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Nome?<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Orlando Sebastian Gutierrez<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Orlando\u2026 ok. Voc\u00ea tem algo a declarar antes de ser condenado \u00e0 eternidade no Inferno?<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> N\u00e3o me arrependo de nada. Fiz o que fiz pelo meu povo, e a hist\u00f3ria h\u00e1 de me reconhecer como verdadeiramente fui.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o quer ir pra lista de revis\u00e3o?<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Bom\u2026 eu nem sabia que tinha uma. Existe uma chance de ir parar no c\u00e9u ainda?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Talvez, mas eu n\u00e3o teria pressa se fosse voc\u00ea.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Eu fui ensinado que o julgamento de Deus era infal\u00edvel.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Deveria ser\u2026 se ele aparecesse pra trabalhar.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Pois n\u00e3o?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Ah, vou te colocar na lista de revis\u00e3o de qualquer jeito. Gente, gente! Hora de almo\u00e7o, volto logo.<\/p>\n<p>A massa de condenados protesta, mas o chifrudo nem d\u00e1 bola.<\/p>\n<p><b>ORLANDO:<\/b> E agora, acontece o qu\u00ea?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Vem me acompanhando, estou indo pra l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p>Orlando concorda e vai seguindo o dem\u00f4nio por uma estreita galeria.<\/p>\n<p><b>ORLANDO:<\/b> Voc\u00ea disse que Deus n\u00e3o veio trabalhar hoje?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> N\u00e3o, ele nunca veio. Foram aqueles sete dias e s\u00f3.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> E como o c\u00e9u e o inferno est\u00e3o funcionando?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> N\u00e3o tem c\u00e9u.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Como assim?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Quer dizer, pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o tem nada nada, tem as funda\u00e7\u00f5es. Botaram o port\u00e3o, algumas nuvens, mas o resto ficou parado.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Ent\u00e3o n\u00e3o importa o que voc\u00ea fa\u00e7a em vida, vem pro inferno?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> \u00c9\u2026 mas nem deveriam.<\/p>\n<p>A galeria termina num sal\u00e3o incomensuravelmente grande, com alguns quil\u00f4metros de pedras e magma pontuando a paisagem, mas um grande vazio ocupando todo o horizonte.<\/p>\n<p><b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Olha s\u00f3, aqui a coisa avan\u00e7ou mais. Mas mesmo assim, n\u00e3o deu nem 1% da obra completada. Daquelas pedras pra frente n\u00e3o tem mais nada.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> E todo mundo que j\u00e1 morreu veio pra c\u00e1?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Sim. Sabe h\u00e1 quantos mil\u00eanios eu n\u00e3o tenho f\u00e9rias?<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Todos?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> O problema \u00e9 que do vazio pra frente eu n\u00e3o tenho nem ideia de at\u00e9 onde vai, o povo entra praquele lado e se perde. E depois de algum tempo, todo mundo acaba indo pro vazio.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Nem voc\u00ea sabe o que tem l\u00e1?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Voc\u00ea viu o tanto de gente que eu tenho que receber? E enquanto n\u00e3o terminam a obra do c\u00e9u, eu tenho que ficar anotando os nomes para revis\u00e3o, eu realmente acho que pelo menos metade das pessoas que est\u00e3o aqui n\u00e3o mereciam.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Bom, pensando bem, eu ajudei bastante os mais pobres.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> \u00c9\u2026 se eu fosse voc\u00ea, n\u00e3o teria muitas esperan\u00e7as. Talvez voc\u00ea seja perdoado pelas mortes, mas as torturas n\u00e3o v\u00e3o descer bem.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> E eu vou ser torturado por aqui?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Idealmente, sim. Mas estou sem equipe.<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio senta-se numa pedra mais achatada, e puxa o que parece ser uma marmita. Orlando come\u00e7a a olhar para o horizonte negro.<\/p>\n<p><b>ORLANDO:<\/b> E por que voc\u00ea n\u00e3o termina de construir aqui?<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Seria imposs\u00edvel.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Voc\u00ea tem m\u00e3o de obra quase que infinita e n\u00e3o precisa pagar sal\u00e1rio.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Mas eles est\u00e3o aqui para serem punidos, pelo menos em teoria.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Carregar pedra e fazer piscinas de lava me parece uma puni\u00e7\u00e3o boa.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Mas isso s\u00f3 ia escancarar que n\u00e3o tem estrutura nenhuma aqui.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Diz para eles que \u00e9 assim que Deus julga as pessoas, que o trabalho dignifica e aqueles que se esfor\u00e7arem mais podem voltar para o c\u00e9u.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> O que n\u00f3s sabemos que n\u00e3o \u00e9 verdade.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Deus trabalha de formas misteriosas.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Voc\u00ea \u00e9 bom\u2026<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> N\u00e3o quer que eu supervisione? Voc\u00ea faz o seu trabalho de receber os danados, eu boto eles para fazer um inferno espetacular.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Bom, eu tinha mesmo algumas ideias do que fazer com o lugar.<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Eles podem me chamar de \u201cO Arquiteto da Salva\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Sim!<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Serei duro, por\u00e9m justo. Cruel com os inimigos, mas caridoso com os amigos. Sob o meu comando, faremos um inferno do povo, para o povo!<br \/>\n<b>DEM\u00d4NIO:<\/b> Est\u00e1 contratado!<br \/>\n<b>ORLANDO:<\/b> Conte do nosso projeto para todos que passarem por voc\u00ea, e digam para falar comigo. Juntos tornaremos o inferno grandioso!<\/p>\n<p>V\u00e1rios anos se passam. Orlando, ou, o Arquiteto da Salva\u00e7\u00e3o, expande o inferno para al\u00e9m do horizonte, usando a m\u00e3o-de-obra de milh\u00f5es de almas desesperadas por reden\u00e7\u00e3o para construir monumentos, ruas, pra\u00e7as, est\u00e1tuas do dem\u00f4nio e at\u00e9 algumas de si pr\u00f3prio. Programas de tortura volunt\u00e1ria prometem encurtar o tempo de espera no inferno em alguns mil\u00eanios da eternidade, com impressionante ades\u00e3o.<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio tira f\u00e9rias, finalmente.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que n\u00e3o gosta de hist\u00f3ria sem twist, para dizer que agora sabe que deus \u00e9 brasileiro, ou mesmo para dizer que qualquer semelhan\u00e7a com ditadores vivos ou mortos \u00e9 mera coincid\u00eancia: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de controle implac\u00e1vel sobre uma republiqueta tropical, Orlando Gutierrez pereceu calmamente sobre lenc\u00f3is de seda, em sua mans\u00e3o predileta \u00e0s margens do Atl\u00e2ntico. O abra\u00e7o da morte veio suave, diferentemente das milhares de v\u00edtimas de sua longeva ditadura. 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