{"id":11150,"date":"2017-02-02T19:57:09","date_gmt":"2017-02-02T21:57:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11150"},"modified":"2017-02-02T19:57:09","modified_gmt":"2017-02-02T21:57:09","slug":"real-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/02\/real-news\/","title":{"rendered":"Real news."},"content":{"rendered":"<p>Pra come\u00e7o de conversa, um aviso: eu tenho grandes dificuldades de entender o que \u00e9 \u00f3bvio para outras pessoas. Muito temas morrem no ber\u00e7o por eu achar que estaria falando mais do mesmo. Mas, talvez isso n\u00e3o seja t\u00e3o \u00f3bvio assim. Hoje eu fa\u00e7o um teste, e gostaria que voc\u00eas me dissessem se o que eu escrevi era muito \u00f3bvio ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Aparentemente o termo \u201cFake News\u201d veio para ficar. O termo, porque o conceito de not\u00edcias fabricadas ou distorcidas al\u00e9m de qualquer semelhan\u00e7a com a realidade vem de longe, s\u00f3 n\u00e3o costum\u00e1vamos ter uma categoria para elas&#8230; pois bem. Muito se fala e ainda vai se falar sobre essas not\u00edcias falsas e tendenciosas que proliferam pela internet, mas eu vejo pouca gente falando como sobre como se defender disso. Na verdade, parece que como de costume v\u00e3o querer censurar quem est\u00e1 soltando esse material ao inv\u00e9s de ensinar o povo a enxergar al\u00e9m das bobagens. No desfavor, fazemos diferente: ao inv\u00e9s de histeria, informa\u00e7\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>Agora que qualquer um pode se dizer jornalista, e com o grosso da informa\u00e7\u00e3o distribu\u00edda no nosso dia a dia passando pela m\u00e3o de estagi\u00e1rios de portais de not\u00edcias, numa guerra sem fim por cliques e curtidas, acho que at\u00e9 vale a pena tentar definir de novo o que conta como uma mat\u00e9ria jornal\u00edstica. Existe a teoria da \u00e1rea, com suas pr\u00f3prias defini\u00e7\u00f5es e padr\u00f5es, mas nem precisamos ser muito t\u00e9cnicos aqui: uma not\u00edcia de verdade \u00e9 um fato ou depoimento cujo conte\u00fado pode ser verificado independentemente caso surjam d\u00favidas. Sim, jornalistas \u00e0s vezes t\u00eam que proteger suas fontes, mas na m\u00e9dia quando algu\u00e9m respons\u00e1vel relata um acontecimento, presume-se que outra pessoa com as mesmas fontes poderia chegar na mesma conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Not\u00edcia nem precisa ser a verdade absoluta, afinal, isso nem costuma existir, mas na sua base m\u00ednima ela tem que estar baseada em informa\u00e7\u00f5es comprov\u00e1veis de acordo com suas premissas. Pode noticiar que v\u00e1rias pessoas disseram avistar discos voadores num local sem depender dos discos voadores serem reais. A not\u00edcia \u00e9 que essas pessoas disseram isso, e se elas disseram mesmo, estamos trabalhando com a verdade, mesmo que subjetiva. Por isso, quanto maior a estrutura por tr\u00e1s do jornalista, em tese maiores as possibilidades de se encontrar o caminho para uma an\u00e1lise independente do fato.<\/p>\n<p>Evidente, o trabalho do jornalista \u00e9 literalmente ir atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o temos tempo ou capacidade de descobrirmos sozinhos, mas quando estamos pensando em filtrar o que \u00e9 real do que \u00e9 falso, somos obrigados a pensar um pouco mais sobre o processo utilizado para conseguir aquela informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me lembro de ser enganado por not\u00edcias falsas. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que tenha e n\u00e3o descobri at\u00e9 agora, mas posso garantir que pelo menos a minha m\u00e9dia de credulidade em not\u00edcias que acabam expostas como falsas depois \u00e9 bem menor do que a maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o. Ent\u00e3o, alguma coisa eu devo fazer de certo. Por isso vou escrever aqui sobre como eu decido se uma not\u00edcia tende a ser real ou se n\u00e3o passa de mentira ou especula\u00e7\u00e3o barata, principalmente com as de internet.<\/p>\n<p>O primeiro passo ao receber uma not\u00edcia suspeita \u00e9 muito simples, mas ao mesmo tempo muito complexo: bater a informa\u00e7\u00e3o recebida com a sua realidade percebida. S\u00f3 nisso j\u00e1 d\u00e1 para modular muito melhor suas percep\u00e7\u00f5es ao longo do processo. E o que isso quer dizer? Se aparece uma not\u00edcia dizendo que um cantor sertanejo encheu a cara e bateu o carro, isso encaixa na minha realidade percebida. Quer dizer que \u00e9 verdade s\u00f3 por causa disso? N\u00e3o. Mas quer dizer que come\u00e7ou com a presun\u00e7\u00e3o de plausibilidade que n\u00e3o ocorreria, por exemplo, se visse uma not\u00edcia sobre um cantor sertanejo largando a carreira para cursar F\u00edsica&#8230;<\/p>\n<p>O mais importante aqui, e \u00e9 engra\u00e7ado eu dizendo isso, \u00e9 n\u00e3o ser arrogante. Bater a informa\u00e7\u00e3o com sua vis\u00e3o do mundo n\u00e3o te torna automaticamente expert em todos os campos. Se voc\u00ea n\u00e3o tem conhecimento sobre um tema, presuma automaticamente que a verdade pode parecer mentira e vice-versa. Mas parece que a maioria das pessoas trava justamente no que deveria ser a etapa mais simples: fazer um r\u00e1pido ju\u00edzo de valor sobre se a not\u00edcia faz sentido ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o tenha uma grande cultura acumulada, existem padr\u00f5es simples de funcionamento no mundo: as coisas n\u00e3o mudam rapidamente, pessoas reagem de forma mais ou menos parecida em geral, e n\u00e3o existem provas concretas de poderes m\u00e1gicos ou paranormais em atividade no momento. S\u00f3 com essas tr\u00eas coisas voc\u00ea consegue resolver 90% dos boatos de internet de cara. Claro, \u00e9 est\u00fapido negar tudo sem dar nenhuma chance, mas partir da presun\u00e7\u00e3o de baixa probabilidade te deixa muito mais esperto para lidar com not\u00edcias falsas.<\/p>\n<p>Por exemplo: Voc\u00ea l\u00ea que existe uma cura para o c\u00e2ncer descoberta a 20 anos atr\u00e1s e mantida escondida pela ind\u00fastria farmac\u00eautica\u2026 faz algum sentido na sua vis\u00e3o de mundo que durante todo esse tempo seja poss\u00edvel esconder algo assim de milh\u00f5es de pessoas desesperadas? Que algu\u00e9m n\u00e3o teria tra\u00eddo essa conspira\u00e7\u00e3o para ficar bilion\u00e1rio vendendo o tratamento? Que a not\u00edcia n\u00e3o explodiria mundo afora por ser excelente para os neg\u00f3cios at\u00e9 mesmo dos jornais? Ent\u00e3o, partindo do princ\u00edpio que pessoas agem de forma mais ou menos parecida em geral, n\u00e3o d\u00e1 pra arquivar essa informa\u00e7\u00e3o automaticamente em \u201cduvido muito\u201d?<\/p>\n<p>Porque quando a informa\u00e7\u00e3o vai para essa categoria, voc\u00ea come\u00e7a a procurar informa\u00e7\u00f5es dos dois lados, as que comprovem e as que neguem. Quando nos deixamos levar por gostar da not\u00edcia, \u00e9 humano, \u00e9 muito humano come\u00e7ar a procurar apenas por fontes que reforcem nosso gosto. E \u00e9 a\u00ed que as not\u00edcias falsas ganham seu poder: quando a pessoa quer acreditar naquilo e tem a internet para oferecer valida\u00e7\u00e3o para esse desejo, a verdade acaba sendo o que ela quiser. Antes de podermos buscar mais informa\u00e7\u00f5es sobre qualquer interesse em segundos, as pessoas sequer tinham a chance de engolir doses cavalares de baboseiras sobre o mesmo tema durante o pico de curiosidade e interesse sobre o tema. E isso protegia nossos antepassados um pouco mais do que n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o definimos se uma not\u00edcia tem credibilidade s\u00f3 porque ela nos parece estranha. Esse \u00e9 um passo. O pr\u00f3ximo deveria ser \u00f3bvio tamb\u00e9m: verificar a fonte. E isso pode ser t\u00e3o simples quanto visitar um link e dar uma olhada no site que a est\u00e1 mostrando. Hoje em dia, custa muito pouco fazer um site por conta pr\u00f3pria se voc\u00ea tiver o interesse, a internet est\u00e1 entulhada de conte\u00fado pouco vigiado que pode ser copiado e colado livremente por a\u00ed. Se voc\u00ea for verificar a fonte da not\u00edcia que te estranhou, favor verificar a \u201ccara\u201d do site que voc\u00ea est\u00e1 visitando. Se voc\u00ea nunca ouviu falar daquele ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, entra numa roleta russa da verdade. Porque Folha de S\u00e3o Paulo, Veja e afins todo mundo conhece, e sabe mais ou menos se vai levar a s\u00e9rio ou n\u00e3o; mas um site desconhecido n\u00e3o tem nem reputa\u00e7\u00e3o negativa a zelar.<\/p>\n<p>Sites ca\u00e7a-n\u00edqueis s\u00e3o um bom indicador de not\u00edcias de fontes duvidosas, aqueles entulhados de banners e palavras chave, com link em todas as palavras, erros de portugu\u00eas, artes feias e apelativas, propagandas que pulam na sua tela\u2026 o dono desse site ganha dinheiro com cliques, n\u00e3o com leitura da sua informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, basta uma chamada forte e um monte de armadilhas para voc\u00ea clicar em outra coisa que o d\u00ea dinheiro para tudo funcionar. Esse povo n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para o que est\u00e1 publicando, desde que tenha gente clicando. O que eu normalmente fa\u00e7o quando caio em sites toscos e desconhecidos \u00e9 procurar pela mesma not\u00edcia em portais maiores. Sim, voc\u00ea est\u00e1 se arriscando a acreditar numa cagada de estagi\u00e1rio, mas \u00e9 muito mais seguro se a mesma informa\u00e7\u00e3o estiver replicada num site que vai tomar processo se escrever uma merda muito grande.<\/p>\n<p>E por fim, quando voc\u00ea realmente ficou interessado em chegar ao fundo disso, a\u00ed entra a parte de remontar a not\u00edcia. Justamente por isso eu comecei falando do que seria uma boa not\u00edcia: se voc\u00ea conseguir fazer uma pesquisa independente (ou seja, usando as fontes originais da mat\u00e9ria ou presumindo quais sejam elas) e chegar em conclus\u00f5es minimamente parecidas, voc\u00ea consegue entender de onde veio aquela ideia. E inclusive descobrir as conclus\u00f5es est\u00fapidas que muitos jornalistas tomam ao fazerem suas investiga\u00e7\u00f5es. Se voc\u00ea achar os estudos cient\u00edficos originais de mat\u00e9rias sobre ci\u00eancia e come\u00e7ar a ler cada um deles, via de regra vai notar que quem escreveu a mat\u00e9ria tirou alguma coisa da cartola, e normalmente a coisa que vira a manchete depois.<\/p>\n<p>Claro que ningu\u00e9m pode viver assim, repetindo os trabalhos de jornalistas para se informar, por isso essa etapa \u00e9 opcional: eu sugiro fazer esse tipo de pesquisa separada quando a informa\u00e7\u00e3o que te deixa desconfiado ser\u00e1 usada para voc\u00ea tomar uma decis\u00e3o. No dia a dia, s\u00f3 de usar um bom senso inicial para n\u00e3o se empolgar (e pode ser ficar feliz, triste ou puto com uma not\u00edcia) e cair na armadilha da confirma\u00e7\u00e3o, de prestar um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o se a not\u00edcia vem de algu\u00e9m que tem reputa\u00e7\u00e3o a zelar e se ela faz sentido com o resto do funcionamento conhecido do universo, eu duvido que qualquer not\u00edcia falsa v\u00e1 te enganar.<\/p>\n<p>E, se alguma eventualmente o fizer\u2026 bom, palmas para ela. Ficar batendo em quem solta not\u00edcias falsas ou tendenciosas resolve muito menos no quadro geral do que prestar aten\u00e7\u00e3o por alguns segundos na informa\u00e7\u00e3o que consome. Normalmente a vida \u00e9 repetitiva e previs\u00edvel. Se parece absurdo, grandes chances de ser absurdo.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que hoje eu me superei na hora da postagem, para dizer que achou \u00f3bvio demais, ou mesmo para dizer que a verdade \u00e9 uma vadia: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra come\u00e7o de conversa, um aviso: eu tenho grandes dificuldades de entender o que \u00e9 \u00f3bvio para outras pessoas. Muito temas morrem no ber\u00e7o por eu achar que estaria falando mais do mesmo. Mas, talvez isso n\u00e3o seja t\u00e3o \u00f3bvio assim. Hoje eu fa\u00e7o um teste, e gostaria que voc\u00eas me dissessem se o que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":11151,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-11150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-somir-surtado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11150\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}