{"id":11279,"date":"2017-03-05T16:00:03","date_gmt":"2017-03-05T19:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11279"},"modified":"2017-04-02T09:09:59","modified_gmt":"2017-04-02T12:09:59","slug":"relatos-de-um-medium-cetico-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/03\/relatos-de-um-medium-cetico-3\/","title":{"rendered":"Relatos de um m\u00e9dium c\u00e9tico."},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/h3>\n<h6>Relatos de um m\u00e9dium c\u00e9tico.<\/h6>\n<p>Sou uma pessoa confusa, que sempre busca aquilo que mais tenta manter distante. Por exemplo, quando eu era adolescente, morria de medo de alien\u00edgenas, mas mesmo assim n\u00e3o conseguia parar de estudar sobre ufologia. Tanto fiz que acabei virando colaborador da revista UFO, a maior revista de ufologia do Brasil. J\u00e1 de esp\u00edritos n\u00e3o sentia medo exatamente, eram mais sensa\u00e7\u00f5es estranhas que me faziam sentir um arrepio na espinha. Em algumas \u00e9pocas, eu fazia o m\u00e1ximo para n\u00e3o ficar sozinho em casa, com medo de que alguma coisa estranha acontecesse. Repito, n\u00e3o era medo, era uma expectativa tensa de que alguma coisa ruim fosse acontecer. Sozinho ou n\u00e3o, elas aconteceram.<!--more--><\/p>\n<p><strong>III &#8211; Sombras<\/strong><\/p>\n<p>Dois anos ap\u00f3s me mudar para Campinas, conheci minha primeira namorada. N\u00f3s \u00e9ramos muito parecidos e \u00e9ramos muito ligados, mas acabamos nos separando ap\u00f3s 4 anos de relacionamento. Isso foi na mesma \u00e9poca que meu pai come\u00e7ou a ter problemas de sa\u00fade, o que acabou impactando ainda mais na carga emocional pela qual eu passava. Antes de nos mudarmos para a casa perto do shopping do texto anterior, mor\u00e1vamos em um apartamento no centro de Campinas. Meu pai se recuperava de uma de suas in\u00fameras cirurgias e passava muito tempo em Socorro, cidade que fica a uns 100 km de Campinas. Foi l\u00e1 que eu nasci e todos meus parentes moram l\u00e1, inclusive minha m\u00e3e, que n\u00e3o \u00e9 separada do meu pai, mas que precisou morar l\u00e1 por causa do trabalho. Quando eu ficava sozinho naquele apartamento, eu sentia coisas estranhas, sensa\u00e7\u00f5es ruins. Comecei a ficar meio deprimido, com a sensa\u00e7\u00e3o constante de que eu ia ter um surto a qualquer momento. Eu tentava desviar essa sensa\u00e7\u00e3o focando na faculdade e no meu est\u00e1gio na Unicamp, mas era dif\u00edcil controlar a sensa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico que eu sentia.<\/p>\n<p>Certo final de semana minha irm\u00e3 veio para Campinas e pedi para ela dormir no meu quarto, para evitar de ficar sozinho mais uma noite. No meio do sono sinto algu\u00e9m me cutucando, achando que \u00e9 minha irm\u00e3, acordo. Ao lado dela, vejo uma menina de uns 5 anos, loirinha, de cabelos encaracolados, me olhando com muito medo e apontando para a porta. Ao olhar para a porta vejo uma sombra parada, com dois olhos brilhantes. Apesar de ser apenas uma silhueta, consigo identificar que \u00e9 uma figura masculina. Ele fica l\u00e1, apenas nos olhando, parado na porta sem se mover. Era a primeira vez que eu via algo assim com tanta clareza, pois sempre que eu via esp\u00edritos eram apenas vislumbres ou coisas r\u00e1pidas. Aquela sombra ficou l\u00e1 durante alguns minutos a me encarar e eu n\u00e3o conseguia fazer nada al\u00e9m de encar\u00e1-la de volta. Foi a primeira vez que senti medo de verdade e ao contr\u00e1rio das outras coisas que eu via, que apareciam e sumiam do nada, a sombra saiu pela porta &#8220;andando&#8221;. N\u00e3o fiz quest\u00e3o de segui-la, apenas continuei deitado, paralisado pelo medo.<\/p>\n<p>Daquele dia em diante, comecei a ter um dist\u00farbio conhecido como Paralisia do Sono. Eu dormia mas continuava consciente, pensando, escutando o que estava acontecendo ao meu redor e desesperado para tentar acordar e recobrar minha consci\u00eancia. Muitas vezes eu gritava mentalmente e quando acordava, achava que havia gritado de verdade, mas descobria que tudo havia acontecido apenas na minha cabe\u00e7a. Com a paralisia, comecei a ter muitos pesadelos. Na maioria deles eu era apenas um espectador, como se eu estivesse vendo apenas um filme. Minhas noites alternavam entre pesadelos e tentativas desesperadas de acordar da paralisia. Nas vezes que eu conseguia acordar, me via na escurid\u00e3o do quarto, com a sensa\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m havia acabado de sair dali.<\/p>\n<p>Quando fui para a casa perto do shopping, as crises diminu\u00edram e deram lugar ao que relatei no \u00faltimo texto, mas voltaram com for\u00e7a quando sa\u00edmos de l\u00e1 e nos mudamos para um outro apartamento. Nesse novo apartamento meu pai j\u00e1 estava bem e eu j\u00e1 estava namorando a Kitsune, ent\u00e3o era um contexto completamente diferente da tristeza e depress\u00e3o que eu havia passado nos anos anteriores. Quando resolvi contar para Kitsune todas as coisas que haviam acontecido comigo e que estavam voltando, ele me aconselhou:<\/p>\n<p>_Da pr\u00f3xima vez que tiver uma crise, reze com for\u00e7a um Pai Nosso. Pe\u00e7a para Jesus e Nossa Senhora intercederem por voc\u00ea e ver\u00e1 que essa entidade ir\u00e1 embora.<\/p>\n<p>Kitsune sempre foi devota de Nossa Senhora e possui uma for\u00e7a interior que sempre me impressionou. Desde a primeira vez que a vi, percebi que ela era uma mulher diferente. N\u00e3o s\u00f3 pelo fato de ser cadeirante, mas tamb\u00e9m por ser uma pessoa que n\u00e3o desistiu, seguiu em frente e conquistou sem espa\u00e7o em uma \u00e9poca em que inclus\u00e3o social praticamente n\u00e3o existia. Por isso, dei ouvidos aos conselhos dela e sempre que percebia uma crise se aproximando eu rezava mesmo n\u00e3o acreditando naquilo. As coisas foram melhorando, at\u00e9 que certa noite eu estava sozinho em casa, deitado na cama, quando tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m entrou no apartamento.<\/p>\n<p>_Droga, vou ser assaltado, estuprado e esquartejado. &#8211; penso.<\/p>\n<p>Desligo a televis\u00e3o e finjo que estou dormindo, achando que se fosse um ladr\u00e3o ele iria me deixar em paz e levar o que quisesse. Abro um dos olhos e olho o reflexo da TV, de repente uma silhueta aparece andando e parando na porta. Sinto seu olhar atrav\u00e9s do reflexo da TV e me lembro daquela outra noite em que havia visto uma sombra no quarto. Junto coragem e me viro lentamente e olho para a porta. No fim das contas n\u00e3o era uma pessoa, mas sim a mesma sombra de anos atr\u00e1s, ainda parada na porta. Come\u00e7o a rezar mentalmente, pedindo para Jesus, Nossa Senhora, anjos, santos ou quem quer que fosse para me ajudar. A sombra ent\u00e3o come\u00e7a a andar, vindo em minha dire\u00e7\u00e3o e pula na cama. Em quest\u00e3o de segundos ela est\u00e1 em cima de mim, tentando me estrangular enquanto continuo a rezar em voz alta. Numa medida desesperada, dou v\u00e1rias socos na sombra e continuo a rezar. Pouco a pouco ela vai perdendo as for\u00e7as e come\u00e7a a sumir, evaporando diante dos meus olhos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ela sumir de vez, continuo deitado com a adrenalina a mil, apenas tentando recobrar o f\u00f4lego. Me levanto, acendo a luz e procuro pelo apartamento se h\u00e1 mais algu\u00e9m ali. N\u00e3o encontro mais nada e vou ao banheiro me aliviar de toda a tens\u00e3o. Lavo o rosto e me olho no espelho, vejo leves marcas de dedos no meu pesco\u00e7o, que aos poucos tamb\u00e9m v\u00e3o sumindo. N\u00e3o consegui mais dormir naquela noite e no dia seguinte contei tudo para Kitsune:<\/p>\n<p>_Tenho certeza que agora n\u00e3o vai mais acontecer isso, mas continue rezando.<\/p>\n<p>Rezei mais alguns dias, mas acabei parando. Daquele dia em diante n\u00e3o tive mais paralisia do sono, n\u00e3o tive mais pesadelos e nunca mais vi a tal sombra. At\u00e9 que certo dia, j\u00e1 no terreiro, come\u00e7o a conversar mentalmente com o preto velho que me acompanha. Nessa conversa, come\u00e7o a questionar se realmente incorporo ou se estou fingindo:<\/p>\n<p>_Se voc\u00ea acha que est\u00e1 fingindo, porque n\u00e3o faz um teste? &#8211; prop\u00f5e o preto velho.<\/p>\n<p>_Que teste? &#8211; pergunto<\/p>\n<p>_Tente desincorporar sem seguir o m\u00e9todo ensinado pelo terreiro, veja o que acontece.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o ent\u00e3o essa desincorpora\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e a sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 de que deixei um portal aberto no meu campo de energia. Imediatamente sinto algu\u00e9m entrando pelo portal, invadindo minha mente. Vejo apenas dois olhos brilhantes e um sorriso, que desta vez fala:<\/p>\n<p>_Agora voc\u00ea \u00e9 meu filho da puta, quero ver voc\u00ea me tirar daqui.<\/p>\n<p>Entro em desespero, imaginando como poderia mandar aquela entidade de volta ao lugar de que tinha vindo. Atr\u00e1s de mim o Preto Velho ressurge e me acalma:<\/p>\n<p>_Filho, eu estava aqui o tempo todo, apenas observando o que ia acontecer. Essa sombra te persegue a tanto tempo, mas j\u00e1 \u00e9 hora dela tomar o rumo dela. Voc\u00ea j\u00e1 sabe onde pode encontrar luz, n\u00e3o precisa mais ter que passar pelo tormento da escurid\u00e3o. Reze comigo.<\/p>\n<p>O preto velho que me acompanha tamb\u00e9m \u00e9 devoto de Nossa senhora, ent\u00e3o juntos come\u00e7amos a rezar e a expulsar a sombra de dentro da minha mente. Ela xinga e tenta reagir, mas as ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais fortes e ela some. Depois daquele dia nunca mais duvidei do processo de incorpora\u00e7\u00e3o e nem achei mais que eu estava fingindo. <\/p>\n<p>O tempo se passou, meus filhos nasceram, cresceram e outro dia estou dormindo, quando sinto algu\u00e9m me cutucando. Abro os olhos e vejo uma menininha, loirinha e de cabelos encaracolados, me olhando com muito medo:<\/p>\n<p>_O que foi filha? &#8211; pergunto.<\/p>\n<p>_Papai, pode vir dormir comigo? Estou com medo de ficar sozinha.<\/p>\n<p>Me levanto e vou com ela at\u00e9 o quarto. Falamos baixinho, para n\u00e3o acordar meu outro filho:<\/p>\n<p>_Do que est\u00e1 com medo baixinha? &#8211; pergunto.<\/p>\n<p>_Estou com medo do bicho pap\u00e3o, papai.<\/p>\n<p>Minha filha n\u00e3o costuma ter medo e anda no escuro como se fosse dia, ent\u00e3o respondo:<\/p>\n<p>_Filha, n\u00e3o existe bicho pap\u00e3o.<\/p>\n<p>_Existe sim papai. O bicho pap\u00e3o mora nas sombras&#8230;<\/p>\n<p><strong><em>Por: Tender<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. Relatos de um m\u00e9dium c\u00e9tico. Sou uma pessoa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":11280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-11279","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desfavor-convidado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11279"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11279\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}