{"id":11312,"date":"2017-03-14T09:21:53","date_gmt":"2017-03-14T12:21:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11312"},"modified":"2025-11-19T17:09:01","modified_gmt":"2025-11-19T20:09:01","slug":"supersticoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/03\/supersticoes\/","title":{"rendered":"Supersti\u00e7\u00f5es."},"content":{"rendered":"<p>Mesmo com acesso amplo a informa\u00e7\u00f5es ao alcance de um clique, o mundo est\u00e1 cheio de pessoas supersticiosas. O mais curioso \u00e9 que muitos deles n\u00e3o s\u00e3o propriamente ignorantes. Pessoas esclarecidas acabam se deixando levar por algumas supersti\u00e7\u00f5es. A supersti\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 do que associar uma causa a um efeito sem qualquer embasamento para isso: manga com leite faz mal. Por qual motivo pessoas esclarecidas acabam sugadas por esse tipo de ignor\u00e2ncia? De onde surgiram os principais mitos? Desfavor Explica: Supersti\u00e7\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>A tend\u00eancia a acreditar em supersti\u00e7\u00f5es est\u00e1 dentro do ser humano. \u00c9 evolutivo: os antepassados que relacionavam causa e efeito, mesmo sem provas, acabaram sobrevivendo e passando os genes adiante. Aqueles que n\u00e3o tinham esta percep\u00e7\u00e3o, tinham menos subs\u00eddios para se proteger e acabavam mortos nas m\u00e3os da natureza ou de predadores. Certamente os que acreditavam em supersti\u00e7\u00f5es se privaram de muita coisa de forma desnecess\u00e1ria, mas, no final das contas, sobreviveram. E foram esses os genes que recebemos, por isso, temos uma tend\u00eancia a acreditar. N\u00e3o vou me aprofundar nesta parte, pois j\u00e1 falamos disso neste Desfavor Explica, sobre o <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/tag\/efeito-just-in-case\/\">\u201cEfeito Just In Case\u201d<\/a>.<\/p>\n<p>Demorou muito para que a ci\u00eancia evolua e possamos separar o joio do trigo. Hoje temos uma ideia mais clara do que \u00e9 supersti\u00e7\u00e3o e do que \u00e9 realmente nocivo, mas, ainda assim, algumas vezes as informa\u00e7\u00f5es se misturam. Descobrimos que aquilo que ach\u00e1vamos verdade era lenda e aquilo que era lenda pode ser verdade.<\/p>\n<p>O mais curioso \u00e9 que a origem das supersti\u00e7\u00f5es quase nunca \u00e9 a pura ignor\u00e2ncia, e sim manipula\u00e7\u00e3o coletiva por mentiras deliberadamente inventadas por pessoas que querem se beneficiar delas. Uma minoria induzindo uma maioria a fazer ou deixar de fazer algo sempre visando seu interesse pessoal. Sim, supersti\u00e7\u00f5es tem origens mesquinhas. Esse mecanismo evolutivo de tentar encontrar causa e efeito em tudo \u00e9 usado por uma minoria de espertinhos para tirar proveito da uma maioria viciada em acreditar.<\/p>\n<p>O caso mais famoso no Brasil \u00e9 a lenda de que ingerir manga com leite faz mal \u00e0 sa\u00fade. Muita gente acredita que se comer manga com leite passar\u00e1 mal e pode at\u00e9 morrer. Este \u00e9 um mito que surgiu no Brasil col\u00f4nia. A fruta era abundante e os escravos estavam sempre comendo mangas, pois a fruta estava a seu alcance o tempo todo. J\u00e1 o leite&#8230; era um alimento mais raro e caro, n\u00e3o havia fartura de leite para todo mundo. Por isso, os senhores de engenho massificaram o boato que misturar leite com manga fazia mal: os escravos tinham acesso \u00e0s mangas o dia todo e em maior quantidade, assim, tendo que escolher, acabavam optando por comer as mangas e deixavam o leite de lado.<\/p>\n<p>Quebrar espelho d\u00e1 azar? Bem, durante muitos s\u00e9culos se acreditava que o reflexo do espelho mostrava a alma da pessoa, e n\u00e3o apenas seu reflexo (tanto que vampiros supostamente n\u00e3o tinham reflexo por n\u00e3o terem alma), assim, quebrar um espelho poderia causar algum dano \u00e0 ess\u00eancia da pessoa. Por\u00e9m, o que massificou essa lenda foi algo muito distante da alma. Tudo come\u00e7ou na It\u00e1lia, no s\u00e9culo XVI, e n\u00e3o tinha qualquer cunho espiritual: espelhos eram muito, muito caros. Assim, os patr\u00f5es aumentaram uma lenda que j\u00e1 existia (e que dizia apenas que quebrar um espelho era ruim) passando a afirmar que quem quebrasse um espelho teria sete anos de azar, para que os criados tomassem muito cuidado eles. O medo fazia com que os empregados tomassem todo o cuidado do mundo com os espelhos. O bolso do patr\u00e3o agradece.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m os casos onde s\u00e3o hist\u00f3rias mal contadas, confus\u00f5es, um telefone sem fio hist\u00f3rico. N\u00e3o se trata apenas de ignor\u00e2ncia, mas sim de um grande mal entendido, perpetrado por s\u00e9culos. O ser humano nem sempre exercita seu senso cr\u00edtico e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Passar debaixo de escadas d\u00e1 azar? Muita gente acredita que se passar por debaixo de uma escada, algo ruim vai lhe acontecer. N\u00e3o \u00e9 de todo sem fundamento. Antigamente se atacava castelos usando escadas para subir em suas muralhas: uma pessoa subia as escadas outra segurava a escada, pela parte de baixo. Uma das t\u00e1ticas defensivas contra esse tipo de investida era jogar \u00f3leo fervendo do alto das muralhas e, geralmente, o infeliz que estava debaixo da escada levava a pior.<\/p>\n<p>No per\u00edodo medieval, tamb\u00e9m era frequente que criminosos caminhassem por baixo de escadas quando estavam sendo conduzidos para a forca, logo, passar por debaixo da escada era sinal de que voc\u00ea seria enforcado. Era tanta dana\u00e7\u00e3o que virou for\u00e7a de express\u00e3o, quando se dizia que uma pessoa estava ferrada, se dizia que ela passaria por debaixo da escada.<\/p>\n<p>Gatos pretos, coitados, ganharam a fama de demon\u00edacos e de propagar o azar. Gatos eram mal vistos no geral durante o per\u00edodo da idade m\u00e9dia. Seus h\u00e1bitos noturnos geravam desconfian\u00e7as de alguma liga\u00e7\u00e3o com o dem\u00f4nio, e preto n\u00e3o era uma cor muito prestigiada na \u00e9poca. Mas, acredita-se que a coisa desandou mesmo quando, uma noite, perseguiram e apedrejaram um gato preto, que buscou refugio na casa de uma idosa conhecida na cidade por amparar gatos de rua. O gato correu para dentro da casa, machucado, e a senhora (que j\u00e1 tinha fama de bruxa por acolher os gatos), o acolheu. Acontece que, por motivos desconhecidos, esta senhora tamb\u00e9m estava machucada, ent\u00e3o, no dia seguinte, quando ela saiu na rua, a popula\u00e7\u00e3o concluiu que ela era o gato, uma bruxa que durante o dia assumia forma de mulher e \u00e0 noite se transformava em um gato.<\/p>\n<p>A coisa n\u00e3o acabou muito bem para esta senhorinha, acabou morta por religiosos. Nem para os gatos pretos, que passaram a constar oficialmente na lista de perseguidos pela inquisi\u00e7\u00e3o. Dali em diante, a lenda s\u00f3 se espalhou. Mas, \u00e9 poss\u00edvel que exista um resqu\u00edcio de ci\u00eancia respaldando essa premissa de que gatos pretos trazem azar. O pelo do gato preto possu\u00ed uma quantidade muito maior de subst\u00e2ncias alerg\u00eanicas, por isso, eles tem mais propens\u00e3o de fazer com que pessoas passem mal. N\u00e3o \u00e9 azar, \u00e9 qu\u00edmica. Por este motivo, existem pessoas que n\u00e3o tem qualquer problema com gatos, mas passam mal quando expostas a um gato preto.<\/p>\n<p>Bater tr\u00eas vezes na madeira espanta o azar ou te livra de algo ruim? Certamente n\u00e3o, mas durante s\u00e9culos este h\u00e1bito foi propagado por diversas culturas. Culturas ind\u00edgenas acreditavam que os deuses moravam dentro das \u00e1rvores, ent\u00e3o, quando algo ruim acontecia ou se sentiam amea\u00e7ados, davam cascudinhos em \u00e1rvores para \u201cacordar\u201d ou \u201cchamar\u201d os Deuses, de modo a que eles fiquem atentos para proteg\u00ea-los. Os Celtas, por sua vez, acreditavam que as \u00e1rvores tinham o poder de mandar os dem\u00f4nios de volta para o buraco de onde sa\u00edram e que este mecanismo seria ativado batendo nos troncos das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Na falta de \u00e1rvores dispon\u00edveis no cotidiano, algu\u00e9m presumiu que servia qualquer madeira. Hoje batem tr\u00eas vezes na porta, na parede ou onde quer que encontrem madeira, mesmo que \u201cmorta\u201d, Francamente, se eu sou uma \u00e1rvore e voc\u00ea me corta, me queima, me transforma em uma mesa, a \u00faltima coisa que vou fazer \u00e9 te ajudar se voc\u00ea me encher de cascudos.<\/p>\n<p>Abrir guarda-chuva dentro de casa d\u00e1 azar? Depende, se voc\u00ea morar em uma casa min\u00fascula e seu guarda-chuva for enorme, r\u00edgido, feito de metal com um mecanismo de abertura violento e abrupto, provavelmente vai machucar algu\u00e9m ou quebrar alguma coisa. Era isso que acontecia no s\u00e9culo XVIII. Sempre dava merda quando abriam guarda-chuva em locais fechados, desde derrubar a bebida de algu\u00e9m em uma taverna, at\u00e9 perfurar o olho de uma crian\u00e7a dentro de casa.<\/p>\n<p>As sucessivas experi\u00eancias negativas criaram uma associa\u00e7\u00e3o de guarda-chuva em locais fechados com desgra\u00e7a, ent\u00e3o, mesmo quando a tecnologia melhorou os guarda-chuvas, o temor persistiu, pois n\u00e3o se tinha muita certeza se era pela din\u00e2mica da abertura ou pelo guarda-chuva em si, ent\u00e3o, just in case, melhor n\u00e3o abrir dentro de casa.<\/p>\n<p>D\u00e1 azar ver a noiva antes de entrar no altar? Bem, antigamente dava. \u00c9 que as mulheres ficavam trancadas se arrumando em um local onde homens n\u00e3o podiam entrar, gra\u00e7as ao puritanismo da \u00e9poca. N\u00e3o podia pairar a menor desconfian\u00e7a de que a mulher havia feito sexo antes do casamento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, as vezes em que os homens viram a noiva antes de subir ao altar, foram as vezes em que ela literalmente estava fugindo do casamento, como voc\u00eas podem imaginar, n\u00e3o deve ser uma ocasi\u00e3o muito feliz. Igualmente, o h\u00e1bito de carregar a noiva para entrar na casa ou su\u00edte nupcial surgiu depois de alguns transtornos: com enormes vestidos de noiva e, depois de eventualmente beber nas festas, muitas mulheres trope\u00e7aram e ca\u00edram, chegando a se machucar, arruinando a noite de n\u00fapcias. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 cavalheirismo do homem carregar a mulher, \u00e9 apenas uma forma de assegurar que far\u00e3o sexo.<\/p>\n<p>Algumas supersti\u00e7\u00f5es pegaram t\u00e3o forte que hoje foram elevadas \u00e0 categoria normas de boa educa\u00e7\u00e3o e incorporadas de vez no cotidiano. \u00c9 o caso do \u201csa\u00fade\u201d ap\u00f3s o espirro. Em muitos pa\u00edses, em vez de dizer \u201csa\u00fade\u201d se diz uma frase de cunho religioso, como \u201cDeus te aben\u00e7oe\u201d. Isso surgiu no s\u00e9culo VI, por ordem do Papa Greg\u00f3rio. O n\u00famero de mortes pela peste aumentava exponencialmente e, os primeiros sintomas eram espirros. O Papa ent\u00e3o pediu que cada vez que algu\u00e9m espirrasse, fizessem uma ora\u00e7\u00e3o para a pessoa, pois as chances de doen\u00e7a e morte eram grandes.<\/p>\n<p>Acontece que, tanta gente adoeceu e espirrou que ficava impratic\u00e1vel dizer uma ora\u00e7\u00e3o cada vez que algu\u00e9m espirrava. O Papa ent\u00e3o autorizou uma vers\u00e3o compacta de orar pelo doente: depois de cada espirro bastaria dizer \u201cDeus te aben\u00e7oe\u201d, que valia como uma ora\u00e7\u00e3o. Caso a pessoa estivesse sozinha, ela mesma deveria dizer \u201cDeus me ajude\u201d depois de espirrar. Infelizmente parece que Deus n\u00e3o estava muito atento, pois milh\u00f5es morreram, apesar da prece express, que virou h\u00e1bito e \u00e9 utilizada at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Muitas supersti\u00e7\u00f5es ficaram de fora, como o trevo de quatro folhas, as velas no bolo de anivers\u00e1rio, atirar moedas em fontes, fazer desejos para estrelas cadentes, ferraduras que d\u00e3o sorte, jogar sal pelo ombro ap\u00f3s derram\u00e1-lo, p\u00e9s de coelho que d\u00e3o sorte e outros. Talvez em uma segunda edi\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 que todo mundo entenda o efeito \u201ctelefone sem fio\u201d ao longo dos s\u00e9culos: eventos que o ser humano n\u00e3o sabia explicar acabaram associados aos objetos, pessoas ou circunst\u00e2ncias que pareciam ser os causadores \u00e0 \u00e9poca e estas hist\u00f3rias foram contadas e recontadas, distorcidas e aumentada, de modo a tornar um achismo verdadeiro. E nenhum filho da puta parou para se questionar se isso fazia sentido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m fica a dica: se voc\u00ea quer induzir uma pessoa a fazer ou deixar de fazer algo, bater de frente pode n\u00e3o ser a melhor op\u00e7\u00e3o. Jogue no ar uma supersti\u00e7\u00e3o, as pessoas acreditam em qualquer bobagem. Quem sabe em alguns s\u00e9culos o mundo todo n\u00e3o estar\u00e1 acreditando na sementinha que voc\u00ea plantou hoje&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que t\u00e1 na hora de refor\u00e7ar o temor pelo numero 13, para dizer que cachorros pretos \u00e9 que deveriam ser discriminados j\u00e1 que o dem\u00f4nio \u00e9 apelidado de \u201cc\u00e3o\u201d ou ainda para compartilhar suas supersti\u00e7\u00f5es pessoais: deixe seu coment\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo com acesso amplo a informa\u00e7\u00f5es ao alcance de um clique, o mundo est\u00e1 cheio de pessoas supersticiosas. O mais curioso \u00e9 que muitos deles n\u00e3o s\u00e3o propriamente ignorantes. Pessoas esclarecidas acabam se deixando levar por algumas supersti\u00e7\u00f5es. 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