{"id":11358,"date":"2017-03-24T13:46:44","date_gmt":"2017-03-24T16:46:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11358"},"modified":"2017-03-24T13:46:44","modified_gmt":"2017-03-24T16:46:44","slug":"universo-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/03\/universo-25\/","title":{"rendered":"Universo 25"},"content":{"rendered":"<p>Em 1972, o etologista (quem estuda o comportamento dos animais) John B. Calhoun construiu um para\u00edso. Numa \u00e1rea de mais ou menos tr\u00eas metros quadrados, com paredes de um metro e meio, dotada de uma grande \u00e1rea comum e diversos \u201cninhos\u201d acess\u00edveis por rampas nas paredes estava estabelecido o experimento Universo 25: uma utopia para ratos onde jamais faltaria comida ou \u00e1gua, sem nenhum predador \u00e0 vista. N\u00e3o tinha como dar errado, n\u00e3o?<!--more--><\/p>\n<p>At\u00e9 porque Calhoun n\u00e3o era iniciante nisso: o local do experimento teve tal nome por ser o vig\u00e9simo quinto produzido por ele. John tinha certeza que estava criando o pin\u00e1culo do conforto e do bem estar dos ratos de laborat\u00f3rio. Os primeiros habitantes locais foram oito ratos (na verdade eram camundongos de laborat\u00f3rio, mas vou chamar de ratos at\u00e9 o fim do texto por simplicidade), quatro machos e quatro f\u00eameas. Soltos num ambiente espa\u00e7oso,  sem nenhuma competi\u00e7\u00e3o por comida ou \u00e1gua, esses oito originais prosperaram. E como prosperaram!<\/p>\n<p>Sem nada para atrapalhar, os ratos come\u00e7aram a gerar descendentes. Muitos descendentes. A popula\u00e7\u00e3o do Universo 25 dobrou a cada 55 dias, chegando \u00e0 impressionante marca de 620 ratos no 315\u00b0 dia. A sociedade roedora tinha tudo o que precisava, menos um l\u00edder benevolente: o objetivo de Calhoun era descobrir em quanto tempo os ratos chegariam num ponto insustent\u00e1vel de superpopula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faltaria comida ou \u00e1gua, mas a ideia \u00e9 que eventualmente faltaria espa\u00e7o. O experimento estava fadado ao fracasso, pelo menos para a sociedade dos ratos, mas essa parte do excesso de seres dividindo o mesmo local causar problemas todo mundo j\u00e1 conseguia presumir, mas o experimento em quest\u00e3o mostrou v\u00e1rias surpresas.<\/p>\n<p>Pela caracter\u00edstica progressiva na qual a imensa maioria dos seres vivos se reproduzem, era de se imaginar que a cada ciclo reprodutivo a popula\u00e7\u00e3o aumentasse mais e mais. Dois ratos geram quatro filhotes, que geram dezesseis, e assim por diante\u2026 a \u00e1rea do experimento fora planejada por um homem que conhecia muito sobre as necessidades de ratos, e segundo ele, o ponto do colapso de espa\u00e7o estaria numa popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente quatro mil esp\u00e9ciemes. Ci\u00eancia \u00e9 baseada em hip\u00f3teses e testes. No papel, fazia todo sentido que o desastre aconteceria mais ou menos nessa marca, mas na vida real\u2026 a teoria foi outra.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de ratos dobrava rapidamente at\u00e9 chegar na marca de 600, mas depois disso, mesmo com espa\u00e7o e recursos mais do suficientes para manter o ritmo, a taxa reprodutiva come\u00e7ou a cair. Depois dos 600 ratos, a popula\u00e7\u00e3o demorava em m\u00e9dia 145 dias para dobrar, uma queda vertiginosa do ritmo anterior de 55 dias. Havia problemas no para\u00edso. No 600\u00b0 dia do experimento, a popula\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou 2.200 ratos. E nunca mais ficou maior do que isso. A sociedade supostamente ut\u00f3pica desses animais conseguiu preencher pouco mais da metade do espa\u00e7o dispon\u00edvel. E logo depois dessa marca, entrou num colapso sem volta, com o fim da reprodu\u00e7\u00e3o e a morte de todos os ratos, por diversos motivos, mas ultimamente, por velhice mesmo.<\/p>\n<p>Entraram quatro ratos, e dois anos depois, n\u00e3o saiu nenhum. O ambiente estava controlado, havia espa\u00e7o, recursos e seguran\u00e7a do mundo exterior. Mesmo assim, aconteceu o que aconteceu. As respostas para a quest\u00e3o do porqu\u00ea do colapso de uma sociedade tecnicamente perfeita como essa est\u00e3o no comportamento dos ratos. E de como no final das contas, eles se mataram.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de ratos dobrava rapidamente no come\u00e7o, o que significa que todos os comportamentos condizentes com a reprodu\u00e7\u00e3o estavam muito presentes. Os ratos faziam muito sexo, brigavam muito pelas f\u00eameas e territ\u00f3rios, protegiam intensamente seus filhotes, vivendo suas vidas de ratos mais ou menos como foram programados para fazer. Ainda mais numa esp\u00e9cie t\u00e3o focada em se multiplicar rapidamente, era previs\u00edvel que com comida e \u00e1gua abundantes e nenhum predador natural por perto a popula\u00e7\u00e3o crescesse tanto assim.<\/p>\n<p>Mas, l\u00e1 pelo rato 600, o cientista respons\u00e1vel come\u00e7ou a notar alguns comportamentos novos entre os animais. Dentre eles, a passividade dos machos e a falta de cuidado das f\u00eameas com suas crias. Todo mam\u00edfero precisa passar por um processo de desmama na natureza, a passagem da dieta de leite materno para a do animal adulto. As f\u00eameas come\u00e7aram a expulsar os filhotes dos ninhos antes do final desse processo, cada vez um pouco mais cedo, gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. Presume-se que por comida n\u00e3o ser dificuldade alguma naquela sociedade, os instintos de nutri\u00e7\u00e3o das f\u00eameas foram enfraquecendo, jogando no mundo filhotes que conviviam cada vez menos com  seus pais.<\/p>\n<p>E filhotes que caem mais cedo na sociedade que deveriam come\u00e7am a lidar com a viol\u00eancia dos outros mais cedo tamb\u00e9m, provavelmente antes de terem capacidade de lidar com isso. O n\u00famero de filhotes e jovens em geral que eram atacados por adultos cresceu exponencialmente. A maioria dos ratos naquele momento tinha v\u00e1rias cicatrizes no corpo por causa de uma \u201cadolesc\u00eancia\u201d pra l\u00e1 de traumatizante. Esses jovens come\u00e7avam a demonstrar um comportamento cada vez mais\u2026 passivo. A intera\u00e7\u00e3o social j\u00e1 n\u00e3o parecia mais t\u00e3o desejada por eles.<\/p>\n<p>O experimento identificou um aumento significativo em comportamentos homossexuais, uma maior agressividade das f\u00eameas, inclusive para com os pr\u00f3prios filhotes, a falta de capacidade ou interesse em proteger os jovens, com muitos casos de f\u00eamas salvando s\u00f3 metade de suas ninhadas quando amea\u00e7adas por outros, ou mesmo abandonando todos os filhotes sem raz\u00e3o aparente. Os machos, cada vez menos agressivos, j\u00e1 n\u00e3o tinham muita capacidade de manter seus territ\u00f3rios e f\u00eameas, pelo excesso de ratos pr\u00f3ximos. Os machos dominantes tornavam-se excessivamente agressivos, ferindo at\u00e9 mesmo suas f\u00eameas, e os machos que n\u00e3o conseguiam dominar um territ\u00f3rio tornavam-se cada vez mais passivos.<\/p>\n<p>E no ponto m\u00e1ximo da popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 t\u00ednhamos um colapso reprodutivo acontecendo. Muitos dos ratos n\u00e3o tinham mais nem vontade de fazer sexo, preferindo ficar quietos em seus cantos, comendo e cuidando da pr\u00f3pria apar\u00eancia. Alguns machos e algumas f\u00eameas ainda se reproduziam, mas n\u00e3o mais o suficiente para manter a popula\u00e7\u00e3o, e com os alt\u00edssimos n\u00edveis de ataques e at\u00e9 mesmo canibalismo impossibilitando o crescimento da maioria dos filhotes, n\u00e3o havia mais como manter o crescimento populacional, mesmo teoricamente havendo espa\u00e7o para quase o dobro dos ratos que estavam l\u00e1.<\/p>\n<p>Calhoun come\u00e7ou a notar gera\u00e7\u00f5es de \u201cbelos\u201d. Era o apelido que ele dava para aqueles ratos que n\u00e3o faziam nada o dia todo al\u00e9m de comer e cuidar dos pr\u00f3prios pelos. Ao contr\u00e1rio dos outros ratos, cheios de cicatrizes e marcas de brigas, esses pareciam imaculados. N\u00e3o socializavam, apenas dividiam o espa\u00e7o com os outros. Machos e f\u00eameas aparentemente sem papel social, sem impulso sexual uns com os outros, sem agressividade ou interesses maiores. Apenas sobrevivendo a esmo pelo Universo 25.<\/p>\n<p>Eventualmente, n\u00e3o havia mais motivo para continuar o experimento. A sociedade havia entrado em colapso com o fim da reprodu\u00e7\u00e3o e ultimamente, com o fim das motiva\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos ali de fazer\u2026 qualquer coisa. O experimento foi criado para testar a hip\u00f3tese de que a partir de um determinado n\u00famero de ratos num espa\u00e7o limitado a popula\u00e7\u00e3o pararia de crescer, mas n\u00e3o esperava encontrar um ponto muito antes desse limite onde o colapso aconteceria por motivos comportamentais.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje o experimento \u00e9 fascinante, e dele surgiram v\u00e1rias teorias, inclusive sobre o comportamento humano. Evidente que n\u00e3o d\u00e1 para comparar totalmente ratos e humanos, principalmente na parte comportamental, mas se voc\u00ea leu essa descri\u00e7\u00e3o inteira sentindo uma coceira naquela parte do c\u00e9rebro que anda meio incomodada com a vida moderna, saiba que n\u00e3o est\u00e1 sozinho(a). Quando o experimento foi divulgado, quando ficou famoso, o mundo n\u00e3o era muito parecido com o que \u00e9 agora. Cada vez mais o Universo 25 torna-se uma sugest\u00e3o assustadora sobre o caminho para o qual estamos seguindo.<\/p>\n<p>Machos passivos, f\u00eameas agressivas, poucos cuidados com os jovens, redu\u00e7\u00e3o do impulso sexual e um aumento consider\u00e1vel do ego\u00edsmo \u201cbelo\u201d. \u00c9 mesmo para nos fazer pensar\u2026 somos homens ou ratos?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que achou fascinante, para dizer que achou aterrorizante, ou mesmo para dizer que hoje em dia algum palha\u00e7o invadiria o laborat\u00f3rio para soltar os ratos: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1972, o etologista (quem estuda o comportamento dos animais) John B. Calhoun construiu um para\u00edso. 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