{"id":11393,"date":"2017-04-02T15:00:04","date_gmt":"2017-04-02T18:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11393"},"modified":"2017-04-02T09:13:13","modified_gmt":"2017-04-02T12:13:13","slug":"relatos-de-um-medium-cetico-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/04\/relatos-de-um-medium-cetico-4\/","title":{"rendered":"Relatos de um m\u00e9dium c\u00e9tico."},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/h3>\n<h6>Relatos de um m\u00e9dium c\u00e9tico.<\/h6>\n<p>Quando escrevi o Desmagia Negra, em algum momento comentei que trabalhei em um hospital aqui de Campinas, aonde tive uma viv\u00eancia muito intensa com a natureza humana e em como as pessoas lidam com a dor. Nos coment\u00e1rios das postagens, houve certa curiosidade sobre o que presenciei l\u00e1. Al\u00e9m de algumas experi\u00eancias espirituais, o que mais valeu mesmo nesses pouco mais de 6 meses que trabalhei l\u00e1 foi o conhecimento adquirido de como damos tanto valor a coisas materiais e muitas vezes s\u00f3 nos importamos com o lado espiritual em nossos momentos finais.<!--more--><\/p>\n<p><strong>IV &#8211; M\u00e1rio Gatti<\/strong><\/p>\n<p>2007 foi um ano em que aprendi muito e errei muito. Um dos erros foi terminar meu namoro com a Kitsune, algo que me arrependo at\u00e9 hoje, mesmo ela j\u00e1 tendo me perdoado. Um dos acertos foi ter escolhido trabalhar no Hospital M\u00e1rio Gatti, que \u00e9 refer\u00eancia para traumas e acidentes na regi\u00e3o de Campinas ap\u00f3s passar em um concurso de est\u00e1gio da prefeitura. Como passei em primeiro lugar, me deram a passibilidade de escolher entre as assessorias de imprensa do hospital ou do PROCON. Achando que a segunda op\u00e7\u00e3o seria um t\u00e9dio sem fim, escolhi a assessoria do hospital esperando viver altas emo\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sei como est\u00e1 l\u00e1 hoje em dia, mas na \u00e9poca havia uma grande variedade de profissionais diferenciados trabalhando no tratamento dos pacientes. Um que me impactou bastante, mas isso por preconceito meu, era um enfermeiro que se vestia de mulher que trabalhava no pronto socorro infantil. Mil besteiras e pr\u00e9-julgamentos passaram pela minha cabe\u00e7a. Ao chegar na sala da assessoria, contei sobre minha estranheza para meu supervisor:<\/p>\n<p>_Muitas coisas acontecem todos os dias aqui no hospital, aproveite para  absorver o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Saia, conhe\u00e7a as pessoas, quero ver sua cara o m\u00ednimo poss\u00edvel aqui na assessoria. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o traga nenhuma reportagem, se eu n\u00e3o te ver aqui, saberei que estar\u00e1 em algum lugar aprendendo com algu\u00e9m. Para isso voc\u00ea n\u00e3o pode ter preconceito, porque todos que trabalham aqui s\u00e3o capacitados e possuem a confian\u00e7a da diretoria hospitalar.<\/p>\n<p>Daquele dia em diante me dediquei a perambular pelo hospital e a vencer minha pr\u00f3pria timidez na inten\u00e7\u00e3o de conversar com pelo menos uma pessoa diferente por dia. Conheci pessoas de religi\u00f5es diferentes, op\u00e7\u00f5es sexuais diferentes, casais que se conheceram no hospital por causa de acidentes e fui me tornando \u00edntimo dos m\u00e9dicos. Vi de perto que esse neg\u00f3cio de que ser m\u00e9dico \u00e9 sinal de sucesso n\u00e3o passa de ilus\u00e3o, j\u00e1 que a maioria precisava trabalhar horas a fio, \u00e0s vezes sem dormir, para conseguir um sal\u00e1rio decente. Vi muitos reclamarem das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, das dificuldades, mas por incr\u00edvel que pare\u00e7a todos eram realmente apaixonados pelo que faziam. Havia muito estresse naqueles corredores, mas n\u00e3o havia falta de dedica\u00e7\u00e3o, mesmo com todas as precariedades e descasos por parte da gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>De t\u00e3o pr\u00f3ximo que fui ficando dos profissionais, come\u00e7aram a me chamar para eventos \u00edntimos, como o show de uma banda de um dos m\u00e9dicos. Outra vez foi um almo\u00e7o comunit\u00e1rio aos fundos da ala de especialidades, numa outra oportunidade foi a abertura de uma casa de eventos cujo dono era amigo do respons\u00e1vel pela TI do hospital. Percorrer aqueles corredores apenas com o objetivo de conhecer pessoas foi me levando a lugares e esses lugares rendiam hist\u00f3rias, que por sua vez rendiam as reportagens que eu escrevia para o jornal interno. A resposta foi \u00fanica, todos estavam adorando a forma como essas hist\u00f3rias pessoais estavam sendo reportadas. De uma assessoria fria e alheia ao pessoal interno, de repente nossa sala estava abarrotada de pedidos para que fossemos cobrir algum evento do hospital e l\u00e1 ia eu, com minha malinha, meu cigarrinho e pretens\u00e3o zero de fazer jornalismo, j\u00e1 que meu \u00fanico objetivo era vivenciar plenamente a experi\u00eancia de trabalhar no hospital.<\/p>\n<p>Naquele ano assisti a um filme chamado &#8217;21 gramas&#8217;, que ganhou esse nome por causa de um experimento de um cientista americano chamado Duncan MacDougall. Para o experimento, o cientista pesou o corpo de pessoas moribundas at\u00e9 chegar ao n\u00famero que d\u00e1 nome ao filme. Pol\u00eamicas \u00e0 parte, certa vez eu estava na UTI adulta e um homem come\u00e7ou a ter um piripaque. De repente uma legi\u00e3o de m\u00e9dicos e enfermeiros ficam ao redor dele, numa verdadeira cena estilo Plant\u00e3o M\u00e9dico. Apesar de todos os esfor\u00e7os, o homem falece diante de nossos olhos. De repente vejo uma luz dourada que vai ficando intensa at\u00e9 se tornar branca e uma pequena n\u00e9voa come\u00e7a a pairar pouco acima do corpo. Ent\u00e3o um corpo exatamente igual ao que est\u00e1 deitado, s\u00f3 que com menos detalhes, come\u00e7a a flutuar no meio da n\u00e9voa e uma luz intensa faz com que eu feche os olhos. Quando abro novamente, n\u00e3o vejo mais nada al\u00e9m de um corpo e um desanimado grupo que havia perdido um paciente. Vi mais duas pessoas fazerem a passagem no hospital, eram momentos de tens\u00e3o e desconforto para mim, mas para os profissionais do hospital era algo rotineiro levando em considera\u00e7\u00e3o a quantidade de pessoas acidentadas que o hospital recebia (e ainda recebe) todos os dias. Nessas duas ocasi\u00f5es tive experi\u00eancias similares de praticamente sentir o esp\u00edrito da pessoa se desprendendo do corpo e por mais que pare\u00e7a maluco, a teoria \u201921 gramas\u2019 come\u00e7ou a fazer um sentido enorme dentro da minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Para ir trabalhar e voltar para casa, eu pegava sempre o mesmo \u00f4nibus, praticamente sempre no mesmo hor\u00e1rio. Em muitas dessas viagens eu via uma senhorinha, que sempre ia com uma malinha cheia de coisas, mas voltava com a malinha vazia. Certo dia, meu supervisor me enviou para cobrir a primeira visita de c\u00e3es especialmente treinados para visitar hospitais. Nessa primeira visita, os c\u00e3ezinhos iriam passar por uma ala semi-intensiva infantil e l\u00e1 vou acompanhar os bichinhos e seus adestradores. Ao chegar na ala me deparo com cinco crian\u00e7as, todas com algum tipo de m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e fico muito impressionado. Uma menina risonha me chama aten\u00e7\u00e3o e veja ao lado dela a senhorinha do \u00f4nibus, me aproximo e fa\u00e7o uma r\u00e1pida entrevista com ela:<\/p>\n<p>_O que acha da visita desses cachorrinhos? \u2013 pergunto<\/p>\n<p>_Eu acho muito bom, minha filha nunca havia visto um cachorro antes e olha a alegria dela. \u00c9 muito dif\u00edcil ver esse tipo de rea\u00e7\u00e3o nela.<\/p>\n<p>Me aproximo da menininha, que precisava de ajuda para brincar com o cachorrinho. Pego a m\u00e3o dela e juntos fazemos carinho no animalzinho. Os olhos dela irradiavam felicidade, ora olhando pro bichinho, ora olhando pra mim. Olho para o lado e vejo a m\u00e3e dela muito emocionada com aquele momento que durou pouco mais que alguns minutos. Naquele dia, antes de voltar pra sala da assessoria, parei na \u00e1rea de fumantes e acendi um cigarro. Chorei pela hist\u00f3ria da menininha, que me foi contada por uma das m\u00e9dicas pouco depois dos c\u00e3es irem embora. Ela havia nascido no hospital e teve uma complica\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria que afetou o c\u00e9rebro e o sistema respirat\u00f3rio. Desde ent\u00e3o a menina morou no hospital, crescendo confinada entre as quatro paredes da ala semi-intensiva, sendo mantida viva gra\u00e7as \u00e0s m\u00e1quinas. Aquela menina nunca saiu do hospital, nunca passeou, nunca conheceu um animal ou uma pessoa diferente daquelas que estavam constantemente no hospital. Para aquela menina, conhecer aquele cachorrinho foi como se fosse conhecer todo um novo universo.<\/p>\n<p>Passei a visitar a ala semi-intensiva infantil sempre que podia e sempre via a menininha e sua m\u00e3e do lado, com sua malinha de roupas e lanches para passar o dia. Recentemente o Godzila come\u00e7ou a fazer um trabalho volunt\u00e1rio no M\u00e1rio Gatti e me disse que a menininha (hoje uma adolescente) ainda est\u00e1 l\u00e1, mas que sua m\u00e3e parou de visit\u00e1-la, praticamente abandonando-a \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Saber isso me deixou muito triste, mas imagino o quanto deve ser doloroso para uma m\u00e3e ver sua filha crescer no quarto de um hospital, com expectativa zero de recupera\u00e7\u00e3o e cujo destino ser\u00e1 fazer a passagem sem ter conhecido o mundo al\u00e9m daqueles muros.<\/p>\n<p>Naquele ano, programei de ir com alguns amigos para a praia. Fomos em 4 pessoas e eu acabei indo de \u00f4nibus com um amigo, enquanto que as outras duas pessoas iam de carro ap\u00f3s o expediente no hospital. Como chegamos na casa que hav\u00edamos alugado antes dos outros que estavam vindo de carro, fomos comprar algumas cervejas. Esse amigo e eu ficamos bebendo at\u00e9 de madrugada, quando ele resolveu ir se deitar. Continuei acordado, apaguei a luz para n\u00e3o atrapalhar meu amigo e fui me deitar na outra cama disponivel no quarto, s\u00f3 escutando as ondas do mar. Comecei a sentir o quarto inteiro tremer e a ouvir cascos de cavalos ecoando no ar, olho para meu amigo e ele continua dormindo como se nada estivesse acontecendo. Olho para o teto do quarto e vejo que est\u00e1 pegando fogo. Sem conseguir desviar o olhar daquele estranho acontecimento, vejo um cavaleiro sair do meio do fogo, parando em pleno ar na minha frente. O cavaleiro me olha e aponta um dedo, sem dizer nada. O quarto continua a tremer, come\u00e7ando a rachar parte das paredes e tudo acaba assim, sem mais nem menos.At\u00e9 hoje n\u00e3o sei se isso foi um sonho ou algo que vi acordado, s\u00f3 sei alguns dias depois eu estava andando na rua com o Godzila quando ele aponta um casar\u00e3o do outro lado da rua:<\/p>\n<p>_Sabe o que \u00e9 aquilo ali? &#8211; ele pergunta<\/p>\n<p>_Sei n\u00e3o. &#8211; respondo<\/p>\n<p>_\u00c9 uma Loja da Ma\u00e7onaria.<\/p>\n<p>_E o que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>_Falam que \u00e9 uma sociedade onde um ajuda o outro, ent\u00e3o s\u00f3 tem gente cheio da grana que falam que tem rela\u00e7\u00e3o com os cavaleiros templ\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao saber disso sinto um estralo na minha cabe\u00e7a e come\u00e7o a pesquisar a fundo sobre a Ma\u00e7onaria. Demorou alguns meses at\u00e9 conseguir uma brecha para conhecer de fato um pouco mais sobre a Ordem e descobrir que realmente h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre a Ma\u00e7onaria e os cavaleiros templ\u00e1rios. N\u00e3o tive d\u00favidas e entrei de cabe\u00e7a no universo das ordens m\u00edsticas, que por sua vez me levaram a conhecer a Umbanda. No terreiro conhe\u00e7o um italiano que tamb\u00e9m era ma\u00e7om e vou l\u00e1 conversar com o preto velho dele:<\/p>\n<p>_Filho, voc\u00ea sabe quem \u00e9 seu pai de cabe\u00e7a? &#8211; pergunta o preto velho<\/p>\n<p>_Acho que \u00e9 Ogum, mas n\u00e3o tenho certeza.<\/p>\n<p>_\u00c9 Ogum sim filho, esse \u00e9 o orix\u00e1 do fogo e da guerra. Ogum tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como S\u00e3o Jorge, que em vida era um cavaleiro.<\/p>\n<p><strong><em>Por: Tender<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. 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