{"id":11855,"date":"2017-07-19T16:08:31","date_gmt":"2017-07-19T19:08:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11855"},"modified":"2017-07-19T16:08:31","modified_gmt":"2017-07-19T19:08:31","slug":"memetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/07\/memetica\/","title":{"rendered":"Mem\u00e9tica."},"content":{"rendered":"<p>Hoje falamos sobre memes, mas n\u00e3o exatamente aquelas da internet. N\u00e3o exatamente. Vamos nos ater \u00e0 defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do termo, feita por Richard Dawkins em 1976, em seu livro \u201cO Gene Ego\u00edsta\u201d. Memes s\u00e3o mais do que imagens poluindo sua timeline na rede social, s\u00e3o, por natureza, uma medida de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que obedecem as mesmas regras da evolu\u00e7\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>Meme vem do grego antigo, significando \u201cimitador\u201d. O termo original era \u201cmineme\u201d, mas Dawkins, bi\u00f3logo evolucion\u00e1rio, queria algo que rimasse como \u201cgene\u201d, afinal, toda a l\u00f3gica do processo tinha a ver com a compara\u00e7\u00e3o de ideias com processos biol\u00f3gicos evolutivos. As memes de Dawkins demoraram muito tempo para sair do campo da ci\u00eancia e virarem uma forma de descrever a cultura colaborativa da internet, mas eventualmente a palavra em si virou uma meme.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do texto de hoje refere-se \u00e0 ci\u00eancia que estuda as memes, mas no contexto geral da coisa, n\u00e3o s\u00f3 aquelas populares na grande rede. De uma certa forma, todo tipo de ideia que se espalha entre as pessoas pode ser chamada de meme: desde um estilo de cabelo at\u00e9 a filosofia nazista! Mesmo antes da publicidade ser oficializada como uma profiss\u00e3o, as pessoas sempre tiveram interesse em saber como funciona o mecanismo de dispers\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, e principalmente, como fazer uso disso para empurrar as pr\u00f3prias ideias.<\/p>\n<p>Na mem\u00e9tica, consideramos ideias quase que como seres vivos, obedecendo as leis da evolu\u00e7\u00e3o tal qual dispostas na Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Darwin. Uma meme seria ent\u00e3o uma unidade de informa\u00e7\u00e3o, algo \u201cvivo\u201d que precisa passar por v\u00e1rios desafios para continuar sua linhagem. Vamos acompanhar uma ideia idiota desde o come\u00e7o, para entender esse processo.<\/p>\n<p>O paciente zero de uma meme normalmente n\u00e3o se conta no singular, muitas teorias sobre a g\u00eanese de ideias d\u00e1 suporte \u00e0 teoria de consci\u00eancia coletiva, como se todos n\u00f3s compartilh\u00e1ssemos um mesmo estado mental, com diferentes n\u00edveis de conex\u00e3o aparente, mas como nem eu nem a maioria dos cientistas estamos nesse barco, vamos pensar nisso por um \u00e2ngulo mais simples: ideias n\u00e3o surgem do nada. Elas precisam estar baseadas em algum elemento da realidade da pessoa. E normalmente esses elementos repetem-se em sociedades parecidas. Cidad\u00e3o \u00e9 impactado por informa\u00e7\u00f5es relativamente parecidas e por pura probabilidade, chega \u00e0s mesmas conclus\u00f5es que outros de seus pares. Tudo isso para dizer que raramente essas unidades de informa\u00e7\u00e3o chamadas memes surgem apenas de um lugar.<\/p>\n<p>Sobre a ideia maluca: por deriva\u00e7\u00e3o do visual de uma celebridade famosa, algumas pessoas decidem usar faixas vermelhas no pulso. A ideia original nem era essa, a celebridade tinha uma tatuagem parecida com isso. Mas a\u00ed que entra o primeiro elemento do processo mem\u00e9tico: a c\u00f3pia. Mais do que isso, a c\u00f3pia com possibilidades de erros de tradu\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 justamente isso que come\u00e7a a imitar o processo biol\u00f3gico: cada vez que nossos genes precisam se reproduzir, a imensa complexidade do processo faz com que diversos pequenos erros comecem a se acumular no DNA. Quando uma ideia pode ser replicada entre pessoas e ter espa\u00e7o para altera\u00e7\u00f5es por \u201cerros\u201d de percep\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o (no exemplo, fazer a tatuagem era muito permanente\/doloroso\/caro), come\u00e7am a surgir suas varia\u00e7\u00f5es. E essas varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o expostas a outras pessoas. Como a ideia original tinha um elemento chamativo aberto o suficiente para ser \u201cremixado\u201d por outros, suas deriva\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A\u00ed que entra a segunda caracter\u00edstica evolutiva, a varia\u00e7\u00e3o. O que acontece com as memes de internet, por exemplo. Se \u00e9 suficientemente f\u00e1cil trocar o texto da imagem, e se a imagem pode significar mais coisas para pessoas diferentes, ela tem todo o potencial para ir pra frente. Uma meme tem muito mais potencial de distribui\u00e7\u00e3o que uma charge, por exemplo, algo que j\u00e1 est\u00e1 pronto na sua forma original e \u00e9 complexo de se editar. Uma ideia faz o mesmo que um ser vivo, vai se modificando aos poucos de acordo com o n\u00famero de gera\u00e7\u00f5es (ou nesse caso, itera\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>S\u00f3 quando temos um ambiente onde as varia\u00e7\u00f5es podem coexistir que temos a possibilidade do elemento evolutivo final: a sele\u00e7\u00e3o. Sobrevivem as c\u00f3pias da ideia original que encontraram algum nicho e continuaram se reproduzindo com mais e mais \u201cerros de tradu\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 justamente a caracter\u00edstica de telefone sem fio que permite essa evolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e sua subseq\u00fcente relev\u00e2ncia para p\u00fablicos diferenciados.<\/p>\n<p>E com essa ideia, memes tornam-se seres \u00fanicos. Unidades de informa\u00e7\u00e3o que vivem dentro do c\u00e9rebro humano. Essas unidades de informa\u00e7\u00e3o saltam de uma cabe\u00e7a para a outra, numa tradu\u00e7\u00e3o imperfeita totalmente dependente do ambiente que encontram na outra mente. Uma meme pode ser muito eficiente com um certo povo e n\u00e3o ter nenhum suporte de outro. O nazismo deveria ter pegado no mundo todo se fosse t\u00e3o infeccioso assim, mas a meme ficou contida num povo que entregava as condi\u00e7\u00f5es ideais para esse \u201cser vivo ideol\u00f3gico\u201d existir.<\/p>\n<p>E como n\u00e3o poderia deixar de notar, a meme mais poderosa de todos os tempos tem regras e divindades diferentes para cada povo, mas vem de uma mesma base: as religi\u00f5es s\u00e3o um exemplo perfeito desse processo, sendo totalmente infecciosas entre pessoas mais simples e mais desesperadas com a vida, e n\u00e3o tendo muito efeito em povos mais estudados e com condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas mais bem atendidas. Essa meme \u00e9 perfeita no contexto de c\u00f3pias com altera\u00e7\u00f5es: divindades normalmente seguem o mesmo conjunto de valores \u00e9ticos e morais dos povos onde surgem, e cada pequena tradu\u00e7\u00e3o desses seres m\u00e1gicos para outras culturas mantem a base da necessidade humana de explica\u00e7\u00e3o da morte e de lidar com o entendimento do outro como entidade mental separada.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 uma meme com frases diferentes a cada cultura, mas que basicamente significa a mesma coisa. Quem \u00e9 mais de porrada faz um deus mais porrador, quem \u00e9 mais de safadeza faz um deus mais safado. \u00c9 por isso que a ideia pega como ela pega, cada um pode criar a sua religi\u00e3o pr\u00f3pria baseada numa unidade cultural maior. Algumas religi\u00f5es sobreviveram, outras s\u00e3o irrelevantes. Os deuses gregos perderam a guerra evolutiva contra os do oriente m\u00e9dio, mudando de categoria, por exemplo.<\/p>\n<p>Toda ideia pode tornar-se meme com as condi\u00e7\u00f5es ideais, e quanto mais modific\u00e1vel e adapt\u00e1vel para cada receptor, melhor. Ideias vivem em nossas cabe\u00e7as, raramente nascem l\u00e1, mas assim que entram come\u00e7am a se desenvolver. E nos dia de hoje, as memes tem um territ\u00f3rio pra l\u00e1 de f\u00e9rtil para se reproduzir, tanto que voc\u00ea ficou conhecendo o termo adaptado a partir dela.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que meu texto \u00e9 uma meme for\u00e7ada, para dizer que vai escrever algo melhor baseado nisso, ou mesmo para dizer que eu postar tarde j\u00e1 virou meme: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje falamos sobre memes, mas n\u00e3o exatamente aquelas da internet. N\u00e3o exatamente. 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