{"id":11879,"date":"2017-07-26T18:56:02","date_gmt":"2017-07-26T21:56:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11879"},"modified":"2017-07-26T18:56:02","modified_gmt":"2017-07-26T21:56:02","slug":"escalada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/07\/escalada\/","title":{"rendered":"Escalada."},"content":{"rendered":"<p>Hector sentia o arrependimento nos ossos, junto com o frio trazido pelos ventos cortantes do topo da montanha. A milhares de quil\u00f4metros de qualquer tra\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o, ele e seu grupo estavam h\u00e1 quase seis horas tentando contornar uma gigantesca massa de neve deslocada por uma avalanche na noite anterior. Nos meses de treinamento que fez antes da aventura, n\u00e3o tinha sido preparado para algo dessa magnitude.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 sabem como passar?\u201d \u2013 Hector pergunta para um dos guias locais, o \u00fanico com o qual conseguia se comunicar minimamente bem.<\/p>\n<p>O homem, rosto enrugado pela idade e intemp\u00e9ries de uma vida nas montanhas, chacoalha a cabe\u00e7a em negativa. Aponta para o que parece ser uma colossal pedra equilibrada numa das bordas da montanha, e com um movimento de dedo, sugere sua poss\u00edvel queda. Ainda sem uma palavra, espalma a m\u00e3o direita num pedido de espera antes de se dirigir aos outros nativos que se reuniam num c\u00edrculo.<\/p>\n<p>Hector, empres\u00e1rio de sucesso e aventureiro por voca\u00e7\u00e3o, sabia que conquistar uma das montanhas mais mortais da hist\u00f3ria do alpinismo cairia muito bem em suas palestras sobre vencer desafios. E com o melhor grupo de guias que o dinheiro poderia comprar, al\u00e9m de uma razo\u00e1vel experi\u00eancia na atividade, n\u00e3o imaginava passar por um d\u00e9cimo das dificuldades que passara at\u00e9 ali. Segurava uma c\u00e2mera nas m\u00e3os. O cinegrafista contratado para a aventura provavelmente j\u00e1 tinha perdido alguns dedos para o frio, e mal sa\u00eda da barraca da expedi\u00e7\u00e3o desde a avalanche. Com a c\u00e2mera em m\u00e3os, Hector confere se a luz est\u00e1 acesa e come\u00e7a a gravar:<\/p>\n<p>\u201cBoa tarde&#8230; as coisas ficaram bem complicadas hoje. Ontem eu torci a perna numa rocha solta e hoje uma avalanche nos pegou de surpresa aqui, a seis mil metros de altitude. Os nossos guias est\u00e3o conversando entre si para decidir o melhor curso de a\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o vendo aquela pedra l\u00e1 em cima? Ela parece ter se soltado durante a avalanche e pode cair a qualquer momento, bem no \u00fanico caminho que podemos fazer montanha acima. Nessas horas a gente entende como a natureza \u00e9 muito maior que todos n\u00f3s&#8230; n\u00e3o tem o que fazer, n\u00e3o tem plano que resolva. S\u00f3 podemos esperar e ver o que a montanha vai fazer. E quando ela se decidir, vai ser a nossa vez. Eu tenho f\u00e9. Eu tenho f\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>Hector retira o sorriso for\u00e7ado da face e guarda a c\u00e2mera rapidamente num dos bolsos de seu casaco. O guia com o qual trocara gestos anteriormente volta da reuni\u00e3o com os outros locais, express\u00e3o consternada.<\/p>\n<p>\u201cTempestade chega com Lua\u201d \u2013 fazendo movimentos circulares com os dedos.<\/p>\n<p>\u201cVamos ter que voltar?\u201d \u2013 Hector imagina todos os custos que teve com a viagem at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o. Fica.\u201d \u2013 apontando para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s vamos ficar aqui at\u00e9 a manh\u00e3?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o. Fica. N\u00f3s vamos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cComo assim?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea lento, n\u00e3o conhece montanha. Matar todos n\u00f3s. Fica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEspera a\u00ed! N\u00e3o foi isso que combinamos! Voc\u00eas est\u00e3o recebendo muito bem para me levar aonde eu quiser aqui. Se voc\u00eas v\u00e3o voltar, eu volto junto.\u201d<\/p>\n<p>O guia olha para Hector, retorcendo a boca em sinal de d\u00favida. Os outros guias come\u00e7am a se movimentar montanha abaixo.<\/p>\n<p>\u201cPerdoa. Minha fam\u00edlia&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu tamb\u00e9m tenho! \u00c9 dinheiro? Eu tenho! Eu pago pra voc\u00eas o dobro, o triplo!\u201d \u2013 Hector segura o homem pela manga do casaco.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quero dinheiro. Solta!\u201d<\/p>\n<p>Hector n\u00e3o obedece, muito pelo contr\u00e1rio: agarra com mais for\u00e7a, mas seus m\u00fasculos j\u00e1 n\u00e3o obedecem como faziam em outras condi\u00e7\u00f5es de temperatura e altitude. N\u00e3o ajuda a dor da tor\u00e7\u00e3o que teve na perna no dia anterior. O guia chacoalha o bra\u00e7o, desequilibrando Hector, que desaba na neve. O homem come\u00e7a a se afastar, apesar dos gritos de Hector. De dentro da barraca situada a poucos metros dali, sai o m\u00e9dico contratado para acompanhar a expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que est\u00e1 acontecendo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles v\u00e3o nos deixar pra morrer aqui!\u201d \u2013 Hector tenta se erguer, com grande dificuldade.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico imediatamente come\u00e7a a correr na dire\u00e7\u00e3o dos guias, que se afastavam cada vez mais r\u00e1pido. Hector come\u00e7a a tirar a neve do corpo enquanto espera que ele consiga convenc\u00ea-los de levar o resto do time.<\/p>\n<p>\u201cEu sou m\u00e9dico, deixa eu ir junto&#8230; eu ajudo! Eu sou \u00fatil! Espera!\u201d<\/p>\n<p>Hector demora alguns minutos para processar o acontecido. Tempo suficiente para o m\u00e9dico ser aceito no grupo dos guias e j\u00e1 fazer a curva montanha abaixo. Nem se quisesse poderia acompanhar o ritmo deles. Com a dor da tor\u00e7\u00e3o renovada pela queda recente, arrasta-se lentamente de volta \u00e0 barraca, onde apenas o cinegrafista com as m\u00e3os destru\u00eddas pela gangrena repousava, ainda apagado pelos analg\u00e9sicos administrados. Ap\u00f3s algum tempo de choque pela situa\u00e7\u00e3o, tira a c\u00e2mera do bolso.<\/p>\n<p>\u201cOl\u00e1 pessoal&#8230; a coisa est\u00e1 complicada, bem complicada. Os nossos guias acabaram de dizer que est\u00e1 chegando uma tempestade, e como eu e nosso amigo Walter aqui estamos com a sa\u00fade um pouco abaixo do esperado, vamos ter que esperar at\u00e9 mandarem um grupo de resgate. Agora eu sei valorizar muito mais como \u00e9 ter sa\u00fade. Conseguir andar normalmente faz muita falta&#8230; eu estou fazendo uma promessa aqui: quando sair daqui, vou fazer uma grande doa\u00e7\u00e3o para a causa da mobilidade inclusiva. Vamos revolucionar essa \u00e1rea como fizemos com tantas outras. Eu tenho certeza que saio daqui enriquecido.\u201d<\/p>\n<p>Ele desliga o aparelho, guardando de volta no bolso do casaco. O dia l\u00e1 fora come\u00e7a a dar os \u00faltimos suspiros, reduzindo drasticamente a temperatura dentro da barraca. Religa o braseiro, mantendo o rosto o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da chama.<\/p>\n<p>\u201cAmigo, em que situa\u00e7\u00e3o nos metemos, n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>O cinegrafista n\u00e3o responde, n\u00e3o se mexe. Na verdade, nem respira. Hector resolve fingir que nada est\u00e1 acontecendo ao seu redor, tal qual uma crian\u00e7a que fecha os olhos na esperan\u00e7a de escapar dos monstros. A nega\u00e7\u00e3o continua pela noite. O braseiro &#8211; feito para derreter neve, cozinhar e afins \u2013 n\u00e3o resiste sua fun\u00e7\u00e3o de aquecedor por muito tempo. A noite na montanha exige calor humano. Do lado de Hector, os melhores isolantes t\u00e9rmicos que o dinheiro pode comprar. Contra ele, uma ventania que amea\u00e7a arremessar a barraca a qualquer momento. Sem a luz do fogo, apenas a d\u00e9bil luz uma lanterna diferencia a barraca da paisagem, j\u00e1 coberta por uma nova camada de neve. Hector liga a c\u00e2mera mais uma vez:<\/p>\n<p>\u201cA noite&#8230; a noite nunca foi t\u00e3o assustadora pra mim. Uma grande li\u00e7\u00e3o que aprendi com um guru tibetano nessa viagem foi que n\u00e3o importa quanto medo voc\u00ea tenha, voc\u00ea sempre tem um tanto a mais de esperan\u00e7a. O dia vai nascer.\u201d<\/p>\n<p>Enrolado em todas as mantas restantes, inclusive a do cad\u00e1ver que obviamente n\u00e3o tinha mais utilidade para ela, um estrondo chama sua aten\u00e7\u00e3o. O surto de adrenalina religa todos os sistemas, fazendo-o abrir a barraca imediatamente. O pior da nevasca havia passado, um tanto de luz da Lua banhava o horizonte, especialmente na parte inferior da montanha. A pedra n\u00e3o estava mais l\u00e1. As toneladas de neve ao redor dela tamb\u00e9m n\u00e3o. Quer quer que estivesse l\u00e1 embaixo deve ter encontrado ambos. E tal qual come\u00e7ou, a nevasca cessa num golpe s\u00f3.<\/p>\n<p>Ele tira a c\u00e2mera do bolso, fazendo quest\u00e3o de ligar a fun\u00e7\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o noturna:<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o acredito&#8230; eu n\u00e3o acredito&#8230; eles estavam l\u00e1 embaixo! EEEEIII! Algu\u00e9m est\u00e1 me ouvindo?\u201d<\/p>\n<p>Hector aponta a c\u00e2mera para sua face, express\u00e3o desesperada.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho que ir ajud\u00e1-los&#8230; mas&#8230; mas eu n\u00e3o sei se algu\u00e9m sobreviveria&#8230; eu estou vendo um caminho formado pela neve que se desprendeu com a nova avalanche&#8230; eu tenho que ser forte. Pela minha fam\u00edlia. Eu n\u00e3o vou terminar minha hist\u00f3ria aqui, n\u00e3o vou! A bateria est\u00e1 acabando&#8230; mas eu vejo voc\u00eas l\u00e1 embaixo. Pela minha filha, pela minha mulher&#8230; eu vejo voc\u00eas l\u00e1 embaixo. Nunca vou esquecer daqueles que ficaram aqui na montanha. Nunca!\u201d<\/p>\n<p>Hector desliga a c\u00e2mera.<\/p>\n<p>O som de um helic\u00f3ptero toma o ambiente. A aeronave desce exatamente num plat\u00f4 criado pela queda da pedra. Um homem todo encapotado desce e corre na dire\u00e7\u00e3o de Hector.<\/p>\n<p>\u201cO senhor est\u00e1 bem?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gra\u00e7as a voc\u00eas! Era para dar a avalanche meia hora atr\u00e1s, eu estou congelando, seus imbecis!\u201d<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que entendeu, mas n\u00e3o entendeu; para dizer que tem certeza que Hector \u00e9 coach, ou mesmo para dizer que dinheiro sempre vence: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hector sentia o arrependimento nos ossos, junto com o frio trazido pelos ventos cortantes do topo da montanha. A milhares de quil\u00f4metros de qualquer tra\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o, ele e seu grupo estavam h\u00e1 quase seis horas tentando contornar uma gigantesca massa de neve deslocada por uma avalanche na noite anterior. 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