{"id":11883,"date":"2017-07-27T09:07:03","date_gmt":"2017-07-27T12:07:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11883"},"modified":"2017-07-27T09:07:03","modified_gmt":"2017-07-27T12:07:03","slug":"transabled","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/07\/transabled\/","title":{"rendered":"Transabled"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar do termo \u201cTransabled\u201d (ou, em portugu\u00eas, Transficientes)? S\u00e3o pessoas que n\u00e3o se identificam com seus corpos e querem promover mudan\u00e7as neles para se sentirem bem consigo mesmas. O detalhe \u00e9: elas querem se tornar deficientes.<!--more--><\/p>\n<p>Isso mesmo, pessoas nascidas com corpos normais e que se sentem infelizes com eles e querem perder uma perna, a vis\u00e3o ou um bra\u00e7o, entre outros. Cada um tem sua prefer\u00eancia de defici\u00eancia. Assim como um transexual, que se sente uma mulher nascida no corpo de um homem quer corrigir a incongru\u00eancia entre o que \u00e9 e o que gostaria de ser, os Transabled (da palavra disabeled, que significa \u201cdeficiente\u201d em ingl\u00eas) buscam procedimentos cir\u00fargicos ou at\u00e9 provocam acidentes para tentar adequar seu corpo a seus desejos.<\/p>\n<p>Em geral, esse desejo de se tornar deficientes come\u00e7a ainda na inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia e, at\u00e9 onde se sabe, n\u00e3o h\u00e1 medica\u00e7\u00e3o ou terapia que seja capaz de livrar estas pessoas desta sensa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem chame esta condi\u00e7\u00e3o de Transtorno da Identidade da Integridade Corporal (TIIC, para os \u00edntimos), por\u00e9m, cresce o coro de pessoas que dizem que n\u00e3o se trata de um transtorno e que pessoas teriam total direito de definir como querem seus corpos sem serem julgadas doentes por isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro que estas pessoas ao menos simulem a defici\u00eancia pretendida, para tentar se sentirem menos infelizes. Por exemplo, alguns tem o sonho de serem parapl\u00e9gicos, ent\u00e3o, mesmo sem conseguir um procedimento cir\u00fargico que os deixe assim, compram uma cadeira de roda e vivem nela. Estas pessoas reivindicam o direito de operarem as mudan\u00e7as que quiserem em seus corpos, pois n\u00e3o s\u00e3o felizes por terem nascido com um corpo 100% funcional.<\/p>\n<p>Alegam que amputa\u00e7\u00f5es s\u00e3o autorizadas para transexuais por eles n\u00e3o se sentirem bem com o pr\u00f3prio corpo, muitas vezes comprometendo a funcionalidade do \u00f3rg\u00e3o, mas no caso deles a medicina se recusa a ajudar. Quest\u00e3o complicada: at\u00e9 onde o paciente pode decidir o que \u00e9 melhor para ele? O que \u00e9 melhor, um corpo funcional com a pessoa infeliz ou um corpo deficiente com a pessoa feliz?<\/p>\n<p>Hoje, a esmagadora maioria dos m\u00e9dicos se recusa a fazer uma interven\u00e7\u00e3o para tornar uma pessoa deficiente. Alegam ser anti\u00e9tico realizar uma interven\u00e7\u00e3o que reduza a capacidade ou funcionalidade de membro, sentido ou fun\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, este argumento pode ser combatido com exemplos simples: vasectomia (afeta a fun\u00e7\u00e3o reprodutiva), mudan\u00e7a de sexo (se amputa uma parte do corpo) e rinoplastia (n\u00e3o raro afeta respira\u00e7\u00e3o e\/ou paladar). Ent\u00e3o, em alguns casos, quando socialmente endossado, pode. Mas quando o m\u00e9dico ser\u00e1 \u201cmal visto\u201d, n\u00e3o pode. Mais ou menos o mesmo que acontece com ligadura de trompas de mulher sem filho x vasectomia de homem sem filho, ningu\u00e9m faz em mulher por ser mal visto mas fazem em homem sem problema.<\/p>\n<p>Com isso, Tranficiente acabam se sujeitando propositadamente a acidentes, para conseguir a defici\u00eancia t\u00e3o sonhada, s\u00f3 que muitas vezes o fim \u00e9 tr\u00e1gico. Amputar um membro ou danificar a coluna n\u00e3o \u00e9 tarefa para amadores. H\u00e1 relatos de pessoas que congelaram voluntariamente a pr\u00f3pria perna para for\u00e7ar uma amputa\u00e7\u00e3o, atiraram em si mesmas e at\u00e9 serraram um membro. Diante disso, existem m\u00e9dicos que come\u00e7am a ceder e realizar procedimentos, ap\u00f3s uma cuidadosa an\u00e1lise e acompanhamento psicol\u00f3gico do paciente, assim como \u00e9 feito nas cirurgias de mudan\u00e7a de sexo. Mas, foram marginalizados, estigmatizados e at\u00e9 demitidos por isso. A regra \u00e9 clara: isso n\u00e3o se faz, o m\u00e9dico deve recusar.<\/p>\n<p>No Brasil o assunto ainda \u00e9 pouco debatido. Os Transficientes contam com uma t\u00edmida milit\u00e2ncia de ativistas que acusam a sociedade de oprimi-los com um padr\u00e3o est\u00e9tico de corpo perfeito, impedindo que eles sejam felizes com o corpo que eles desejam. Eles alegam que a sociedade n\u00e3o tem o direito de lhes dizer qual deve ser seu corpo e que se eles s\u00e3o infelizes em um corpo que \u00e9 socialmente aceit\u00e1vel devem ter o direito de modifica-lo. E a\u00ed? Como lidar?<\/p>\n<p>O relato de um homem que se diz Transficiente ganhou fama na internet recentemente. Ele conta que desde que se entende por gente, se sente muito estranho tendo dois bra\u00e7os. Sua alma pertenceria a uma pessoa de um bra\u00e7o s\u00f3. Nada contra o  membro em si (existem problemas neurol\u00f3gicos em que a pessoa rejeita um membro em espec\u00edfico), ele apenas se sentia uma fraude tendo dois bra\u00e7os funcionais. J\u00e1 adulto, foi a diversos m\u00e9dicos implorando para ter o bra\u00e7o amputado, mas todos se recusaram a realizar o procedimento. Sua vida virou um sofrimento insuport\u00e1vel e ele decidiu que resolveria o problema sozinho, pois, em suas palavras, jamais conseguiria ser feliz com dois bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Ele estudou como amputar o pr\u00f3prio bra\u00e7o sem sangrar at\u00e9 a morte. Comprava membros inteiros de animais em a\u00e7ougues para praticar e verificar quais eram os instrumentos cortantes mais eficientes. Pensou em formas de danificar o membro para que, quando fosse socorrido, os m\u00e9dicos n\u00e3o pudessem reimplant\u00e1-lo. E, mais importante, estudou sobre como fazer parecer um acidente, pois temia ser penalizado por seu ato, segregado, taxado de louco. N\u00e3o queria perder o emprego, os amigos e a fam\u00edlia. Ser Transficiente \u00e9 uma jornada solit\u00e1ria, dificilmente voc\u00ea pode desabafar com algu\u00e9m sem ser severamente julgado e recriminado por isso. Finalmente, depois de anos se preparando, ele conseguiu amputar o pr\u00f3prio bra\u00e7o e hoje se diz muito feliz e realizado, com arrependimento zero.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estimativas confi\u00e1veis de quantos Transficientes existem no mundo, por raz\u00f5es \u00f3bvias, eles escondem seus desejos, temendo o estereotipo de doentes ou malucos. Temem que as pessoas se afastem deles, perder emprego, perder o c\u00f4njuge e perder a guarda dos filhos. Mas eles j\u00e1 est\u00e3o come\u00e7ando a se organizar atrav\u00e9s de sites e f\u00f3runs que buscam esclarecer melhor o assunto (do ponto de vista deles) e divulgar relatos, para que outros Transficientes n\u00e3o se sinta t\u00e3o sozinhos. <\/p>\n<p>H\u00e1 muitos relatos que est\u00e3o ganhando fama, inclusive em v\u00eddeos, com nome e sobrenome. Pessoas que se cegaram, que se colocaram em cadeiras de rodas, que amputaram um membro. Todos se dizem muito felizes depois de conseguir seu objetivo.<\/p>\n<p>Loucura? Parece. Mas em uma sociedade onde aceitamos modifica\u00e7\u00f5es corporais radicais, inclusive troca de sexo, qual seria o argumento para impedir que a vontade destas pessoas seja realizada? N\u00e3o custa lembrar que transg\u00eaneros eram considerados doentes faz pouco tempo, a cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero s\u00f3 foi autorizada com naturalidade recentemente.<\/p>\n<p>Considerando que a ci\u00eancia n\u00e3o consegue supostamente \u201ccurar\u201d estas pessoas, por mais que fossem loucas, n\u00e3o h\u00e1 o que fazer, ent\u00e3o, ser\u00e1 mesmo necess\u00e1rio conden\u00e1-las a viver em um corpo \u201cpadr\u00e3o\u201d? N\u00e3o seria cruel? Quem somos n\u00f3s para dizer como a pessoa deve ser feliz? Mas, ao mesmo tempo, ser\u00e1 que as pessoas realmente tem maturidade e intelig\u00eancia emocional para tomar uma decis\u00e3o irrevers\u00edvel como essa? O que vai acontecer com a sociedade de todos os que tiverem vontade de ser deficientes realmente conseguirem? E se isso virar modismo?<\/p>\n<p>Como voc\u00eas podem perceber pelo numero de perguntas, eu n\u00e3o tenho as respostas. Este \u00e9 um daqueles textos feitos para compartilhar d\u00favidas com voc\u00eas e ouvir as opini\u00f5es nos coment\u00e1rios. Partindo do princ\u00edpio que a maior parte dos Transficientes que tiveram coragem de se assumir vem da Alemanha, Su\u00e9cia, Su\u00ed\u00e7a e EUA, acredito que sejam pessoas com algum grau de discernimento.<\/p>\n<p>No Brasil, como falta o b\u00e1sico (\u00e9tica e car\u00e1ter), talvez nem caiba uma discuss\u00e3o nesta profundidade. Algu\u00e9m duvida de que pessoas mutilariam a si mesmas se houvesse uma forma \u201csegura\u201d de faz\u00ea-lo, para usufruir dos benef\u00edcios que deficientes disp\u00f5e por lei? Ou mutilariam seus filhos, em troca de alguma ajuda governamental. Definitivamente, n\u00e3o estamos preparados. Mas \u00e9 bom ir pensando no assunto e formando sua opini\u00e3o, j\u00e1 j\u00e1 ele vira pauta na imprensa.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto podemos tra\u00e7ar uma linha impedindo que pessoas modifiquem seus corpos dentro de um crit\u00e9rio universal do que \u00e9 aceit\u00e1vel e do que n\u00e3o \u00e9? Conto com a sua resposta nos coment\u00e1rios, pois eu n\u00e3o a tenho.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que o brasileiro j\u00e1 \u00e9 transficiente, pois lhe falta c\u00e9rebro, para dizer que n\u00e3o entende mas respeita ou ainda para n\u00e3o dizer nada por estar chocado com esta novidade: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar do termo \u201cTransabled\u201d (ou, em portugu\u00eas, Transficientes)? S\u00e3o pessoas que n\u00e3o se identificam com seus corpos e querem promover mudan\u00e7as neles para se sentirem bem consigo mesmas. 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