{"id":11912,"date":"2017-08-04T14:31:20","date_gmt":"2017-08-04T17:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11912"},"modified":"2017-08-04T14:31:20","modified_gmt":"2017-08-04T17:31:20","slug":"iluminados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/08\/iluminados\/","title":{"rendered":"Iluminados."},"content":{"rendered":"<p>O sol mal nascia no hemisf\u00e9rio ocidental do planeta quando a luz foi avistada pela primeira vez nos c\u00e9us. Apenas um ponto amarelado nas primeiras horas, pulsando gentilmente. Mas logo o que interessava exclusivamente astr\u00f4nomos profissionais e amadores ao redor do globo ganhou novas propor\u00e7\u00f5es: em quest\u00e3o de segundos, o ponto expandiu num orbe quase t\u00e3o grande e luminoso quanto o pr\u00f3prio sol. A not\u00edcia estava espalhada: algo t\u00e3o gigantesco quanto desconhecido surgira na vizinhan\u00e7a de nosso planeta.<!--more--><\/p>\n<p>As primeiras an\u00e1lises cient\u00edficas indicavam um objeto massivo com mais ou menos duas vezes o di\u00e2metro da lua, em \u00f3rbita mais ou menos entre a Terra e Marte. A luz emitida pelo objeto desafiava o conhecimento humano, numa escala de magnitude muito maior do que seria poss\u00edvel pelo tamanho. E principalmente, por uma caracter\u00edstica surpreendente: a luz n\u00e3o aquecia o que tocava. Apesar de iluminar as noites de diversos lugares do mundo nos dias que se seguiram ao seu surgimento, as temperaturas n\u00e3o indicavam nada de diferente de uma noite habitual na regi\u00e3o. Apesar da luz ser percebida por todo tipo de animal &#8211; bagun\u00e7ando h\u00e1bitos de diversas esp\u00e9cies noturnas \u2013 as plantas pareciam ignorar a luz extra. Os girass\u00f3is continuavam seguindo o sol, indiferentes ao novo ponto luminoso nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>O falso sol ficou onde estava por algumas semanas. Evidentemente, modificando o comportamento de boa parte da humanidade. Com noites claras feito o dia, era como se uma epidemia de jet-lag tivesse se espalhado pela popula\u00e7\u00e3o. De nada ajudava o surto de cultos apocal\u00edpticos, a imensa maioria pregando alguma forma de julgamento final atrav\u00e9s daquele corpo celeste. A teoria cient\u00edfica mais aceita naquele tempo era que o que quer que estivesse naquela posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o chegara recentemente, mas sim mudara de status repentinamente. Talvez por algum fen\u00f4meno c\u00f3smico ainda n\u00e3o compreendido, um mini-buraco negro estava consumindo mat\u00e9ria ao seu redor, com prazo de validade para evaporar em radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que ainda n\u00e3o explicava a luz \u201cfria\u201d. Foram diversas hip\u00f3teses analisadas at\u00e9 que ficou decidido que aquele corpo celeste precisava ser visitado. Pela posi\u00e7\u00e3o, reutilizando sondas montadas para Marte, estimava-se pelo menos uns 4 meses de viagem para alcan\u00e7\u00e1-la. Os telesc\u00f3pios terrestres n\u00e3o eram de grande ajuda pelo excesso de luz, e nem mesmo espectr\u00f4metros dos mais modernos eram capazes de identificar a composi\u00e7\u00e3o do objeto. A miss\u00e3o foi lan\u00e7ada a toque de caixa, mais ou menos um m\u00eas e meio ap\u00f3s sua apari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a miss\u00e3o n\u00e3o foi um sucesso. Dois meses ap\u00f3s o lan\u00e7amento, com a sonda no meio do caminho, o objeto cresceu mais uma vez, novamente de forma exponencial: agora tinha o dobro do tamanho da Terra. A luz aumentou de propor\u00e7\u00e3o igualmente. Agora as noites no nosso planeta eram ainda mais claras que os dias, mas ainda sim sem gerar o calor que se presumiria. No processo de expans\u00e3o da luz, um imenso pulso magn\u00e9tico foi detectado, o qual inutilizou todos os sistemas da sonda imediatamente. O pulso alcan\u00e7ou a Terra, desligando quase tudo o que era eletr\u00f4nico por dias.<\/p>\n<p>A essa altura, os cultos apocal\u00edpticos tinham certeza que estavam corretos. O caos se instaurou na sociedade de tal forma durante esses dias sem energia ou eletr\u00f4nicos que a maioria dos pa\u00edses com alguma estrutura ainda de p\u00e9 declararam lei marcial. A luz havia mudado a sociedade humana em poucos meses, mas para a vida animal, as coisas estavam muito piores: com a falta do ciclo de noite e dia, muitas esp\u00e9cies come\u00e7avam a demonstrar comportamentos bizarros, algumas at\u00e9 perdendo boa parte de suas popula\u00e7\u00f5es no processo. As plantas, que n\u00e3o pareciam sentir nenhum efeito inicialmente, come\u00e7aram a crescer de forma descontrolada depois dessa segunda fase de crescimento da luz nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>E essa fase durou mais dois anos. Dois anos nos quais florestas retomaram as paisagens urbanas, a vida vegetal incontrol\u00e1vel at\u00e9 mesmo para os mais esfor\u00e7ados jardineiros. De nada ajudava o estado da civiliza\u00e7\u00e3o humana: na expectativa de um fim iminente, o senso de longo prazo da popula\u00e7\u00e3o esvaiu-se tais quais as sombras ao c\u00e9u aberto. A luz constante come\u00e7ava a mexer seriamente com os humores e a sa\u00fade das pessoas, que cada vez mais, milh\u00f5es perecendo com os resultados de priva\u00e7\u00e3o de sono e tantos outros nas guerras e confrontamentos gerados pela resposta das religi\u00f5es ao processo.<\/p>\n<p>Com o colapso da maior parte da estrutura social e econ\u00f4mica do planeta, faltava suporte para os cientistas interessados em descobrir os segredos daquela luz sem calor. E com a profus\u00e3o de explica\u00e7\u00f5es religiosas e m\u00edsticas em geral, as pessoas n\u00e3o pareciam muito abertas a esse tipo de informa\u00e7\u00e3o. Depois de dois anos, come\u00e7ava a terceira fase. Sem aviso, houve mais uma expans\u00e3o do objeto celeste. E dessa vez, tomava quase metade dos c\u00e9us durante as falsas noites. O sol passava a ser o \u00fanico objeto realmente vis\u00edvel nos c\u00e9us al\u00e9m da Luz, j\u00e1 chamada como se fosse uma entidade viva pelos locais. A maior parte da humanidade capaz de tanto enfiou-se nos subterr\u00e2neos, enquanto os outros morriam lentamente de fome e doen\u00e7as relacionadas \u00e0 falta de estrutura social. E por d\u00e9cadas, o mundo viveu assim. Os humanos, de bilh\u00f5es para milh\u00f5es em vinte e tr\u00eas anos. A vida animal do planeta basicamente extinta com exce\u00e7\u00e3o de alguns animais de r\u00e1pida adapta\u00e7\u00e3o, especialmente insetos e bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>E assim como surgiu, a terceira fase passou. Do dia para a noite, aquela monstruosa bola luminosa nos c\u00e9us deu lugar ao ponto amarelado novamente.  At\u00e9 hoje se conta a hist\u00f3ria de quanto a humanidade perdeu quase tudo o que tinha, e como ainda, duzentos anos depois, estamos tentando reconstruir o que t\u00ednhamos e recuperar a tecnologia perdida para a luz. Aprendemos a nos unir e deixar coisas como supersti\u00e7\u00f5es e fronteiras para tr\u00e1s, numa nova sociedade que entende que nossa sobreviv\u00eancia vem em primeiro lugar. Ainda vamos criar cientistas capazes de entender o que aconteceu ali, mas o importante \u00e9 que estamos aqui. Na luz e na sombra.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Enquanto isso, numa gal\u00e1xia pr\u00f3xima:<\/p>\n<p><strong>ZLORG:<\/strong> Fnert, voc\u00ea esqueceu a luz do sistema CF56-8892 ligada no \u00faltimo per\u00edodo?<br \/>\n<strong>FNERT: <\/strong>Ah, eu estava procurando um planet\u00f3ide por l\u00e1, pode apagar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol mal nascia no hemisf\u00e9rio ocidental do planeta quando a luz foi avistada pela primeira vez nos c\u00e9us. Apenas um ponto amarelado nas primeiras horas, pulsando gentilmente. 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