{"id":11985,"date":"2017-08-23T12:49:46","date_gmt":"2017-08-23T15:49:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11985"},"modified":"2017-08-23T12:49:46","modified_gmt":"2017-08-23T15:49:46","slug":"o-tempo-da-qualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/08\/o-tempo-da-qualidade\/","title":{"rendered":"O tempo da qualidade."},"content":{"rendered":"<p>Muitas vezes na minha linha de trabalho eu tenho que tomar decis\u00f5es chatas sobre quanta qualidade pode entrar num projeto. Chatas porque o conceito de n\u00edvel de qualidade n\u00e3o s\u00f3 varia de acordo com v\u00e1rios fatores pr\u00e1ticos como tempo e verba, como tamb\u00e9m \u00e9 percebido diferentemente entre as pessoas. E isso sem contar a quest\u00e3o do gosto pessoal, que torna tudo ainda mais complicado. Ent\u00e3o hoje eu quero falar um pouco sobre como imprimir um padr\u00e3o de qualidade realista no trabalho (remunerado ou n\u00e3o) que voc\u00ea faz, coisa que eu noto que a maioria das pessoas entrando no mercado de trabalho tem dificuldade de entender. Voc\u00ea sabe se est\u00e1 fazendo coisas com qualidade?<!--more--><\/p>\n<p>Definir n\u00edvel de qualidade \u00e9 complexo por si s\u00f3, tanto que \u00e9 uma das bases da \u201cmagia\u201d da publicidade: dar uma solu\u00e7\u00e3o, mesmo que tempor\u00e1ria, para a d\u00favida das pessoas sobre o que \u00e9 bom e o que n\u00e3o \u00e9. Francamente, na maioria dos casos voc\u00ea precisa de alguma experi\u00eancia e de par\u00e2metros s\u00f3lidos para saber o que est\u00e1 bem feito ou n\u00e3o. Eu consigo notar se uma arte ou um texto est\u00e3o bem feitos, mas com certeza n\u00e3o sei diferenciar entre um conserto de ar-condicionado bem ou mal feito\u2026 todos n\u00f3s vamos ter muito mais pontos cegos do que certezas no que configura um trabalho bem feito. Um produto ou servi\u00e7o de qualidade \u00e9 um conceito bem mais vari\u00e1vel do que gostar\u00edamos.<\/p>\n<p>Por isso, o primeiro passo \u00e9 unificar o que consideramos um bom trabalho da nossa parte e um bom trabalho feito por outros. Eu costumo brincar (s\u00e9rio) que o trabalho mais f\u00e1cil do mundo \u00e9 o trabalho dos outros. Quem trabalha com qualquer tipo de cria\u00e7\u00e3o sabe muito bem como sai f\u00e1cil da boca alheia que \u201c\u00e9 s\u00f3 dar uma mexidinha r\u00e1pida\u201d para resolver todos os problemas. Eu costumava ficar puto com clientes meus que tratavam meu trabalho com t\u00e3o pouca gravidade at\u00e9 perceber como o as pessoas simplesmente n\u00e3o entendem, em geral, qual \u00e9 o verdadeiro fator determinante para definir a qualidade de algo: o tempo efetivo.<\/p>\n<p>Tempo efetivo \u00e9 aquele que foi realmente usado para fazer alguma coisa. Obviamente atrasos e descaso n\u00e3o corroboram para a qualidade final\u2026 dito isso, temos que entender o que configura o tempo efetivo. Por exemplo, no meu trabalho, eventualmente eu fa\u00e7o logos para meus clientes. Logos s\u00e3o elementos visuais que representam uma marca de empresa, produto ou mesmo pessoas, e s\u00e3o dos elementos mais confusos para se definir pre\u00e7o ou n\u00edvel de qualidade por um motivo: \u00e0s vezes voc\u00ea imagina e desenha o logo em quinze minutos. Pode demorar meses para ficar pronto, mas o tempo real de sentar a bunda da cadeira e desenhar a ideia certa costuma ser muito curto.<\/p>\n<p>E a\u00ed, a d\u00favida: se demorou 15 minutos, custa 15 minutos pra mim e para o cliente? Obviamente que n\u00e3o. Porque essa conta est\u00e1 errada. No meu caso, um logo demora uns 10 anos mais 15 minutos para ficar pronto. Porque o tempo efetivo \u00e9 muito mais complexo do que o tempo de trabalho f\u00edsico, \u00e9 o tempo que voc\u00ea demorou para entregar aquele n\u00edvel de qualidade em 15 minutos. Assim como se eu e um pedreiro experiente fizermos um muro em um dia, o meu vai desabar e o dele vai durar d\u00e9cadas, se eu e um completo perdido na \u00e1rea demorarmos 15 minutos para fazer um logo, o meu vai seguir padr\u00f5es de qualidade relevantes para o mercado e o dele vai ser de uma qualidade aleat\u00f3ria que 99,99% das vezes vai estar abaixo desse padr\u00e3o. Pura probabilidade.<\/p>\n<p>Calcular qualidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ver quanto tempo uma pessoa demora para efetivamente entregar a tarefa, \u00e9 saber quanto tempo demorou para ela ficar boa o suficiente para entregar a tarefa. E \u00e9 a\u00ed que eu percebo o maior problema na percep\u00e7\u00e3o das pessoas em geral: a disson\u00e2ncia entre o que se v\u00ea de tempo gasto e o quanto elas pagam por esse tempo. O que para uma pessoa experiente e bem informada no seu campo de trabalho pode parecer extremamente simples, para o resto de n\u00f3s pode demorar anos para se fazer de forma remotamente parecida. Mas, sejamos honestos, \u00e9 raro termos esse tipo de percep\u00e7\u00e3o na hora, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Porque a\u00ed entra um segundo fator: a obscuridade do processo. Ou seja, qu\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 se imaginar fazendo a mesma coisa, por mais fantasiosa que a ideia seja. \u00c9 f\u00e1cil se imaginar abrindo um programa de computador e desenhando duas linhas, por isso eu sofro com essa percep\u00e7\u00e3o de \u201c\u00e9 rapidinho\u201d no meu mercado; mas se estivermos falando de um cirurgi\u00e3o, duvido que algu\u00e9m aqui seja arrogante o suficiente para dizer \u201c\u00e9 s\u00f3 cortar um peda\u00e7o e costurar outro!\u201d, mesmo que no fim do dia, seja justamente isso. O processo \u00e9 muito mais obscuro para o cidad\u00e3o m\u00e9dio, at\u00e9 porque s\u00f3 de imaginar um cirurgi\u00e3o fazendo algo \u201cde qualquer jeito\u201d, todos n\u00f3s ficamos assustados. Ningu\u00e9m quer se imaginar nesse grau de press\u00e3o. Por isso m\u00e9dico pode cobrar basicamente o que quiser, por isso faculdades de medicina s\u00e3o t\u00e3o concorridas: o processo de entrega de qualidade da profiss\u00e3o est\u00e1 muito bem escondido da imagina\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Mas qualidade continua funcionando da mesma forma: um cirurgi\u00e3o que sabe \u201centrar e sair\u201d em quinze minutos demorou d\u00e9cadas para fazer isso com efici\u00eancia. Custou muito tempo e dedica\u00e7\u00e3o fazer aquilo daquele jeito, muito mais do que o ato sugere. No final das contas, novamente, o que contou foi o tempo. O que eu ando percebendo nas gera\u00e7\u00f5es mais recentes \u00e9 um certo desd\u00e9m pelo tempo efetivo antes da entrega do servi\u00e7o ou do produto, como se numa involu\u00e7\u00e3o silenciosa, tenhamos retornado aos tempos do \u201cdom\u201d, do suposto talento natural que surge no momento sem um custo elevado de horas antes. Sinto informar que \u201cdom\u201d n\u00e3o existe. Porque por mais talento para algo que uma pessoa tenha, sem dedicar tempo efetivo para uma tarefa, sempre vai ter um n\u00edvel de qualidade baixo. Acho essencial definir esse ponto para chegarmos no objetivo do texto de hoje:<\/p>\n<p>Os \u201cg\u00eanios\u201d das startups est\u00e3o a\u00ed para provar o ponto. Muita gente ignora que para cada empresa inovadora que surge (e por inovadora hoje em dia quero dizer fazer um aplicativo para celular, 99% das vezes) com sucesso, incont\u00e1veis mais morreram pelo caminho. Ningu\u00e9m teve uma ideia de ouro surgida do \u00e9ter, todas foram resultado de muito tempo efetivo. As que s\u00e3o s\u00f3 ideias diferentes morrem feito moscas. Ou esquecemos que para cada ideia que \u201cmudou o mundo\u201d temos umas dez pessoas que tentaram antes e n\u00e3o conseguiram? Tinham uns cinco Googles antes do Google, para quem n\u00e3o acompanhava ou n\u00e3o tinha idade para ter acompanhado. O que teve mais tempo efetivo, ou seja, pessoas que estavam prontas para realizar o trabalho mais o suor empregado no projeto, venceu e virou uma das maiores empresas do mundo.<\/p>\n<p>Um bom produto ou servi\u00e7o n\u00e3o \u00e9 resultado de um g\u00eanio sendo atingido por um raio, \u00e9 hoje como sempre foi\u2026 resultado de horas. Tempo dedicado. Talentos s\u00e3o desperdi\u00e7ados a cada minuto nesse mundo, justamente porque as pessoas n\u00e3o conseguem ou mesmo n\u00e3o sabem investir neles. Mais uma defini\u00e7\u00e3o que eu espero que entre na cabe\u00e7a de todos voc\u00eas: talento \u00e9 tempo efetivo com ou sem aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. S\u00f3 tem talento para algo quem gasta tempo com esse algo, seja direta ou indiretamente. \u00c9 humanamente imposs\u00edvel nascer com talento para algo, n\u00e3o \u00e9 assim que a biologia funciona. O que acontece \u00e9 que algumas caracter\u00edsticas inatas podem facilitar o uso do seu tempo para desenvolver um talento pr\u00e1tico. Mas garanto: todo mundo tem algum talento potencial gigante que nunca vai desenvolver por pura probabilidade. O mais comum \u00e9 nem saber que ele est\u00e1 l\u00e1 por n\u00e3o fazer nada na vida que te fa\u00e7a perceber isso. Infelizmente \u00e0s vezes \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de n\u00e3o estar no lugar certo na hora certa.<\/p>\n<p>Quando eu vejo essas novas gera\u00e7\u00f5es entrarem na pilha de \u201cuma grande ideia e uma startup na m\u00e3o\u201d, eu vejo um problema s\u00e9rio: esqueceram da parte que voc\u00ea tem que ser capaz de fazer as coisas direito, da parte que tudo custa muito caro em tempo nessa vida e ningu\u00e9m consegue pular essa parte. Voc\u00ea pode ser rico sem esfor\u00e7o, mas n\u00e3o pode entregar qualidade sem esfor\u00e7o. Tempo e qualidade nunca v\u00e3o se dissociar, mesmo que esse tempo n\u00e3o seja todo usado suando a camisa na produ\u00e7\u00e3o. E a\u00ed entra o perigo da mentalidade vigente dos mileniais e seus seguidores: fazer o que gosta n\u00e3o significa fazer o que consegue entregar com qualidade. Porque podemos gostar de milhares de coisas nessa vida, mas consciente ou inconscientemente, vamos dedicar nosso tempo efetivo para pouqu\u00edssimas delas.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o pare\u00e7a, voc\u00ea est\u00e1 desenvolvendo um talento todos os dias da sua vida, e se esse talento estiver obscuro, voc\u00ea pode passar a vida toda atirando para tudo quanto \u00e9 lado e nunca acertar num alvo. O que eu quero passar aqui \u00e9: podemos fazer muitas coisas nessa vida, mas s\u00f3 algumas com n\u00edvel de qualidade \u201clucrativo\u201d. Como aparentemente temos muita dificuldade de entender o que conta como qualidade aceit\u00e1vel, estou passando uma cola aqui: tempo efetivo. Se o tempo do trabalho f\u00edsico combina com o tempo despendido anteriormente para aprender a fazer aquilo direito, voc\u00ea consegue entregar qualidade. Se os dois n\u00e3o se conversarem, ta\u00ed a explica\u00e7\u00e3o de porque tanta coisa sai errada ou meio nas coxas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o esfor\u00e7o do momento ou mesmo uma grande ideia que v\u00e3o te permitir um bom servi\u00e7o ou produto &#8211; seja ele fazer um logo ou consertar um ar-condicionado \u2013 \u00e9 o tempo efetivo. Por mais que voc\u00ea se esforce, usar um martelo para tirar um parafuso sempre vai gerar um resultado tosco. Pense no tempo. Tempo \u00e9 dinheiro\u2026 e qualidade.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que ainda acha que trabalho criativo \u00e9 ref\u00fagio de vagabundo, para dizer que gostou da propaganda e vai comprar, ou mesmo para dizer que foi um desperd\u00edcio de tempo: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes na minha linha de trabalho eu tenho que tomar decis\u00f5es chatas sobre quanta qualidade pode entrar num projeto. Chatas porque o conceito de n\u00edvel de qualidade n\u00e3o s\u00f3 varia de acordo com v\u00e1rios fatores pr\u00e1ticos como tempo e verba, como tamb\u00e9m \u00e9 percebido diferentemente entre as pessoas. 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