{"id":11991,"date":"2017-08-25T09:33:10","date_gmt":"2017-08-25T12:33:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=11991"},"modified":"2017-08-25T09:33:10","modified_gmt":"2017-08-25T12:33:10","slug":"o-futuro-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/08\/o-futuro-da-vida\/","title":{"rendered":"O futuro da vida."},"content":{"rendered":"<p>Qual o seu plano para os pr\u00f3ximos tredecilh\u00f5es de anos? Se voc\u00ea ainda n\u00e3o tem, sorria, porque hoje vamos falar sobre as poss\u00edveis estrat\u00e9gias para a manuten\u00e7\u00e3o da vida nas escalas de tempo mais imensas que podemos imaginar atualmente. Se tudo tem um fim, at\u00e9 onde podemos prever que seria poss\u00edvel estender qualquer forma de intelig\u00eancia num universo com prazo de validade?<!--more--><\/p>\n<p>O n\u00famero que eu escrevi no primeiro par\u00e1grafo \u00e9 um seguido de 42 zeros, algo consideravelmente maior que os cinco (ou seis no m\u00e1ximo) que a vida humana esteve presente, ou mesmo os nove que costumam ornar a idade estimada do universo, atualmente entre 13 e 14 bilh\u00f5es de anos. Mesmo que pare\u00e7a dif\u00edcil considerar que duremos um mil\u00eanio que seja, apesar dos pesares, a humanidade conseguiu aguentar muitos trancos neste caminho, e n\u00e3o \u00e9 completamente insano pensar em como ela poderia continuar se adaptando \u00e0 passagem das eras.<\/p>\n<p>Mas antes de pensar nos tredecilh\u00f5es, sejamos mais modestos: como sobreviver aos pr\u00f3ximos milh\u00f5es de anos? Bom, as coisas n\u00e3o v\u00e3o ficar mais f\u00e1ceis aqui nesta rocha molhada orbitando o Sol. O centro do planeta Terra tende a irradiar muito calor nos pr\u00f3ximos milh\u00f5es de anos, al\u00e9m de perder a velocidade do seu giro, essencial para a manuten\u00e7\u00e3o do campo magn\u00e9tico que nos protege do pior que a estrela mais pr\u00f3xima atira em nossa dire\u00e7\u00e3o incessantemente. Em menos de um bilh\u00e3o de anos, \u00e9 bom o ser humano n\u00e3o depender mais dessa fonte natural de prote\u00e7\u00e3o, porque o Sol vir\u00e1 batendo \u00e0 nossa porta com for\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o \u00e9 pegar nossas malas e procurar vizinhan\u00e7as mais apraz\u00edveis, com as descobertas mais recentes sobre exoplanetas (isso \u00e9, planetas fora do nosso sistema solar), \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o demore muito para encontrarmos um candidato vi\u00e1vel para acolher a humanidade longe da nossa Terra natal. Chegar l\u00e1 s\u00e3o outros quinhentos (talvez quinhentos mil anos), mas nas escalas que estamos falando, parece fact\u00edvel. O ser humano pode ser congelado para uso futuro enquanto viaja para um novo local. E azar de quem ficar pra c\u00e1: mais alguns bilh\u00f5es de anos e o Sol vem fazer uma visita pessoal, estrelas como ele tendem a crescer muito de tamanho quando consomem o hidrog\u00eanio em seus n\u00facleos, o suficiente para engolir at\u00e9 mesmo a Terra.<\/p>\n<p>Caso consigamos desviar dessa bala c\u00f3smica que \u00e9 o envelhecimento de nossa estrela m\u00e3e, teremos um bom tempo para aperfei\u00e7oar o processo n\u00f4made de manuten\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie: pular de planeta em planeta enquanto forem agrad\u00e1veis, e de prefer\u00eancia montar bases mais est\u00e1veis (em bilh\u00f5es de anos) ao redor de estrelas menores e mais longevas. Quanto maior uma estrela, mais tende a terminar mal para seus vizinhos. Estrelas do tamanho do Sol passam por essa fase de crescimento, virando gigantes vermelhas, e estrelas maiores ainda terminam em explos\u00f5es catastr\u00f3ficas que conhecemos como supernovas. As realmente gigantescas\u2026 essas viram buracos negros.<\/p>\n<p>S\u00f3 que mesmo assim, a escala de tempo poss\u00edvel do universo continua criando desafios para a manuten\u00e7\u00e3o da vida. Como o universo est\u00e1 em expans\u00e3o, a cada dia que passa, todos os pontos que n\u00e3o est\u00e3o suficientemente amarrados pela for\u00e7a gravitacional v\u00e3o ficando cada vez mais distantes uns dos outros. Caso algu\u00e9m ainda teime em observar o c\u00e9u da superf\u00edcie da Terra em alguns bilh\u00f5es de anos, n\u00e3o vai ter muito para ver: a maioria das estrelas vai ter ido para t\u00e3o longe que n\u00e3o daria mais tempo de vermos sequer sua luz. O nosso c\u00e9u seria quase todo escuro, apenas com nossos vizinhos mais pr\u00f3ximos pontuando a vista.<\/p>\n<p>E por mais que fiquemos excelentes em usar a mat\u00e9ria dispon\u00edvel ao nosso redor para sustentar uma civiliza\u00e7\u00e3o, o conceito de \u201credor\u201d come\u00e7a a mudar. Considerando a velocidade da expans\u00e3o do universo, toda a mat\u00e9ria dispon\u00edvel para qualquer civiliza\u00e7\u00e3o humana presente ou futura est\u00e1 numa faixa de mais ou menos um bilh\u00e3o de anos luz. Mais do que isso e vai estar indo embora r\u00e1pido demais, por mais que tentemos alcan\u00e7ar. O que com certeza soa como muita mat\u00e9ria, mas \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o do que se tem dispon\u00edvel at\u00e9 mesmo nos dias atuais, na mais tenra inf\u00e2ncia do universo, onde tudo est\u00e1 muito pr\u00f3ximo (mesmo considerando um di\u00e2metro de 90 bilh\u00f5es de anos luz como limite te\u00f3rico).<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que conserva\u00e7\u00e3o de energia entra em foco. Energia n\u00e3o se cria, se transforma, e infelizmente, se transforma de formas cada vez menos aproveit\u00e1veis, o conceito da entropia, que assim como a velocidade m\u00e1xima poss\u00edvel (a da luz), temos que considerar desafios imposs\u00edveis de resolver mesmo com trilh\u00f5es de anos de pensamento e tecnologia. Um bilh\u00e3o de anos luz de mat\u00e9ria e energia aproveit\u00e1vel \u00e9 bastante, mas n\u00e3o infinito. At\u00e9 porque essa energia n\u00e3o vai ficar nos esperando: at\u00e9 mesmo a por\u00e7\u00e3o do universo que vai continuar gravitacionalmente presa a n\u00f3s mesmo com a expans\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 parada esperando por n\u00f3s. Estrelas v\u00e3o continuar queimando seu combust\u00edvel e formando desde planetas at\u00e9 buracos negros nesse processo.<\/p>\n<p>Eventualmente as estrelas v\u00e3o parar de ser criadas no ritmo que temos atualmente, e isso n\u00e3o est\u00e1 muito longe de acontecer, pelo menos n\u00e3o nessas escalas de zeros e zeros que estamos considerando. Cem trilh\u00f5es de anos at\u00e9 l\u00e1. Quando as estrelas pararem de nascer, s\u00f3 v\u00e3o poder queimar seu combust\u00edvel at\u00e9 morrer. Mas estrelas s\u00e3o resilientes, mesmo as que explodem acabam deixando restos que continuam funcionando de alguma forma por muitos e muitos zeros. Desde an\u00e3s brancas (o futuro do nosso Sol) at\u00e9 mesmo buracos-negros, vai ter alguma forma de energia restante delas por um bom tempo.<\/p>\n<p>Uns 120 trilh\u00f5es de anos no futuro e nenhuma estrela no sentido cl\u00e1ssico da palavra continuar\u00e1 existindo. Se dependermos ainda desse tipo de energia para sobreviver, ser\u00e1 o fim. A ideia aqui \u00e9 mudar a forma como consideramos a vida: um chip de computador \u00e9 bem mais eficiente energeticamente para criar uma consci\u00eancia do que neur\u00f4nios. Bem mais. Se ainda n\u00e3o tivermos mudado nosso conceito de exist\u00eancia para simula\u00e7\u00f5es computacionais, ou seja, com pessoas sendo \u201cc\u00f3digos de computador\u201d dentro de uma realidade virtual, o fim das estrelas vai tornar isso obrigat\u00f3rio. At\u00e9 porque nessa era do universo, vai ter cada vez menos coisas acontecendo l\u00e1 fora: vai estar t\u00e3o frio e parado que n\u00e3o vai fazer muita diferen\u00e7a estar dentro ou fora.<\/p>\n<p>E nesse salto para uma vida simulada (lembrando que pra quem est\u00e1 vivo nessa simula\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo igual a uma vida \u201creal\u201d, tanto que estatisticamente \u00e9 mais prov\u00e1vel que j\u00e1 estejamos nessa era e sejamos simula\u00e7\u00f5es do que os originais) come\u00e7amos a explorar as vantagens de tempo e energia n\u00e3o serem mais as mesmas coisas que conhecemos agora. Num universo muito frio e quieto, \u00e9 mais f\u00e1cil fazer um computador funcionar por eras e eras com pouqu\u00edssima energia. Um dos caminhos pode ser ficar ao redor de buracos- negros, sugando a quantidade m\u00ednima de energia que eles irradiam via radia\u00e7\u00e3o de Hawking, por exemplo; e quanto maior o buraco-negro, menos energia escapa. E quanto maior, mais tempo ele dura. Estima-se que eles ser\u00e3o os \u00faltimos a evaporar para a entropia, e nossa \u00faltima chance de ter alguma forma de energia dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>E quanto a idade do universo for de uns septrilh\u00f5es de anos (30 zeros), das duas uma: se os pr\u00f3tons dentro dos \u00e1tomos come\u00e7arem a decair, isso \u00e9, virarem outras coisas \u201cin\u00fateis\u201d para seres acostumados a trabalha com mat\u00e9ria tradicional, isso quer dizer que o jogo basicamente acabou. Quer dizer, come\u00e7ou a acabar: at\u00e9 todos os pr\u00f3tons deca\u00edrem, e at\u00e9 mesmo os buracos negros derreterem numa sopa primordial de part\u00edculas sem utilidade, chegamos no tredecilh\u00e3o, uma dezena deles, ali\u00e1s. L\u00e1 pelos 43 zeros, acaba qualquer chance inclusive de simular vida em computadores.<\/p>\n<p>Se os pr\u00f3tons n\u00e3o deca\u00edrem, as coisas podem durar mais. Muito mais: os buracos negros durariam incrivelmente mais se os pr\u00f3tons se comportarem. S\u00f3 depois de 100 zeros que o \u00faltimo deles evaporaria. Mas isso n\u00e3o seria o fim. Toda a mat\u00e9ria tenderia a decair para uma forma de ferro chamada Ferro 56, o \u00faltimo passo te\u00f3rico para a mat\u00e9ria. O universo viraria ferro, literalmente. Se fic\u00e1ssemos excelentes em aproveitar energia, bolas de ferro gigantes que ainda estariam flutuando por a\u00ed poderiam nos manter funcionando por mais\u2026 mil e quinhentos zeros. E a\u00ed, um alento: o ferro acabaria, por um processo muito lento, virando novos buracos negros, o que estenderia mais um pouco a energia dispon\u00edvel para quem estivesse perto o suficiente.<\/p>\n<p>E isso duraria no m\u00e1ximo at\u00e9 alguns milh\u00f5es de zeros. A\u00ed a \u00faltima alternativa seria come\u00e7ar a queimar mem\u00f3rias que temos em troca de uns \u00faltimos minutos de vida\u2026 informa\u00e7\u00e3o exige energia para existir. Nossa \u00faltima lenha na fogueira da vida pode ser a informa\u00e7\u00e3o que nos levou at\u00e9 aquele ponto. E quando n\u00e3o tiver mais informa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Bom, chegamos no ponto onde por pura probabilidade j\u00e1 seria poss\u00edvel ter um novo Big Bang. O n\u00famero de recombina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis da mat\u00e9ria que existe bate num limite de alguns milh\u00f5es de zeros mesmo. Pena que nenhuma informa\u00e7\u00e3o (mem\u00f3ria) poderia sobreviver a esse processo. Ou seja, se isso j\u00e1 aconteceu antes, n\u00e3o temos como saber. Mas pode ter acontecido.<\/p>\n<p>Talvez, de uma forma muito maluca, sejamos todos eternos enquanto lembrarmos.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que precisa que eu me aprofunde na vida simulada, para dizer que ler o texto demorou todos os zeros poss\u00edveis, ou mesmo para dizer que isso tudo \u00e9 irrelevante (se voc\u00ea n\u00e3o for uma simula\u00e7\u00e3o, talvez): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual o seu plano para os pr\u00f3ximos tredecilh\u00f5es de anos? Se voc\u00ea ainda n\u00e3o tem, sorria, porque hoje vamos falar sobre as poss\u00edveis estrat\u00e9gias para a manuten\u00e7\u00e3o da vida nas escalas de tempo mais imensas que podemos imaginar atualmente. 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