{"id":12036,"date":"2017-09-08T10:22:09","date_gmt":"2017-09-08T13:22:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12036"},"modified":"2017-09-08T10:22:09","modified_gmt":"2017-09-08T13:22:09","slug":"como-destruir-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/09\/como-destruir-o-mundo\/","title":{"rendered":"Como destruir o mundo."},"content":{"rendered":"<p>Com as tens\u00f5es crescentes causadas pela Coreia do Norte testando suas armas e as amea\u00e7as de retalia\u00e7\u00e3o dos EUA e at\u00e9 mesmo dos pa\u00edses pr\u00f3ximos, a destrui\u00e7\u00e3o em grande escala voltou \u00e0 moda. Mas, qual a tecnologia necess\u00e1ria para fazer um estrago desse tamanho?<!--more--><\/p>\n<p>Bom, em primeiro lugar, o t\u00edtulo do texto \u00e9 meio enganador. Destruir o mundo \u00e9 uma express\u00e3o forte demais para a humanidade atual, no m\u00e1ximo conseguimos fazer uma limpa consider\u00e1vel na popula\u00e7\u00e3o viva atual, mas destruir tudo mesmo talvez nem com todo arsenal dispon\u00edvel entre as na\u00e7\u00f5es militarizadas\u2026 o planeta e a vida em si s\u00e3o bem mais resistentes do que os estilos de vida que levamos atualment. Mesmo assim, sobra bastante margem de manobra para quem tiver tecnologia suficiente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos considerar o que \u00e9 necess\u00e1rio para que voc\u00ea se torne uma amea\u00e7a mundial. A coisa mais b\u00e1sica \u00e9 o potencial destrutivo. Muito embora armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas possam ser terr\u00edveis, elas n\u00e3o tem a capacidade de fazer um grande estrago r\u00e1pido o suficiente para falharmos em manter a humanidade funcional s\u00f3 por causa delas: por pior que sejam as doen\u00e7as ou venenos lan\u00e7ados em dada parte do mundo, nada \u00e9 r\u00e1pido o suficiente para que uma eventual cat\u00e1strofe seja causada s\u00f3 pela arma qu\u00edmica ou biol\u00f3gica e n\u00e3o por incapacidade das autoridades de lidar com o problema. Quarentenas, evacua\u00e7\u00f5es e tratamentos minimamente acess\u00edveis tendem a resolver o problema.<\/p>\n<p>Pensemos no Ebola, por exemplo. O v\u00edrus \u00e9 excelente para contaminar e matar pessoas, mas mesmo pa\u00edses com pouca ou nenhuma infraestrutura conseguiram sobreviver a ele. No mundo moderno, temos a capacidade de projetar capacidade de atendimento para qualquer buraco, e mesmo que milhares pere\u00e7am por condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, dificilmente a situa\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m assim pelo tempo suficiente para ser irrevers\u00edvel. Ent\u00e3o, por mais que seja ofensivo at\u00e9 aos padr\u00f5es militares atacar com armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas, n\u00e3o vivemos num mundo onde elas podem inviabilizar a continuidade da sociedade humana.<\/p>\n<p>Estamos falando aqui de potencial destrutivo instant\u00e2neo, ao qual n\u00e3o existe resposta r\u00e1pida o suficiente. Ent\u00e3o n\u00e3o adianta ir muito mais longe do que nossa melhor pior ideia de todos os tempos: a energia nuclear. O ditador coreano n\u00e3o teria um mil\u00e9simo da aten\u00e7\u00e3o mundial que tem caso n\u00e3o estivesse correndo atr\u00e1s dessa tecnologia, at\u00e9 porque fora isso, ele s\u00f3 seria um perigo para seu povo e para vizinhos muito pr\u00f3ximos, o que historicamente n\u00e3o gera grandes rea\u00e7\u00f5es no resto das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E o que ele precisa ter em m\u00e3os para come\u00e7ar a incomodar grandes pot\u00eancias militares? Capacidade destrutiva e proje\u00e7\u00e3o dessa capacidade. Bombas at\u00f4micas s\u00e3o espetaculares para isso: usando a energia mais poderosa que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o com o conhecimento atual, a energia dos \u00e1tomos, elas podem n\u00e3o s\u00f3 causar explos\u00f5es que obliteram cidades como ainda torn\u00e1-las inabit\u00e1veis por muitos e muitos anos, acabando com a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida essencial para a continuidade da sociedade humana.<\/p>\n<p>Bombas at\u00f4micas podem funcionar de duas formas usando essa energia do n\u00facleo: atrav\u00e9s de fiss\u00e3o e de fus\u00e3o. Fiss\u00e3o nuclear \u00e9 a primeira gera\u00e7\u00e3o dessas armas, uma rea\u00e7\u00e3o de imenso poder que gera energia atrav\u00e9s da \u201cdestrui\u00e7\u00e3o\u201d de \u00e1tomos. Alguns elementos qu\u00edmicos como o Ur\u00e2nio e o Plut\u00f4nio est\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximos naturalmente de se desfacelar e liberar a energia que prendem seus n\u00facleos que basta um empurr\u00e3ozinho para iniciarem um processo catastr\u00f3fico de libera\u00e7\u00e3o de energia e calor. Existe uma energia potencial imensa dentro dos \u00e1tomos, mas de nada adianta quebrar s\u00f3 um deles: se um \u00e1tomo entrasse em fiss\u00e3o ao seu lado, voc\u1ebd n\u00e3o perceberia.<\/p>\n<p>O segredo \u00e9 o efeito em cadeia. Alguns quilos de mat\u00e9ria entrando em fiss\u00e3o geram muito mais energia na explos\u00e3o que o equivalente em dinamite, por exemplo. Dinamite e outros explosivos tradicionais puxam sua energia da quebra de liga\u00e7\u00f5es moleculares, o que com certeza \u00e9 perigoso, mas nem chega perto de ser a forma mais eficiente de arrancar explos\u00f5es da mat\u00e9ria. Quando \u00e1tomos suficientes de ur\u00e2nio-238 (a vers\u00e3o \u201cperfeita\u201d do elemento para o uso da energia, por ser est\u00e1vel o suficiente para existir e inst\u00e1vel o suficiente para precisar s\u00f3 de um empurr\u00e3ozinho para desmontar) come\u00e7am a entrar em fiss\u00e3o, o potencial explosivo por grama de uma bomba at\u00f4mica de fiss\u00e3o d\u00e1 um show em qualquer outra existente.<\/p>\n<p>Quer dizer, menos uma. Justamente a que o regime norte-coreano disse ter testado recentemente: a bomba de fus\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como bomba de hidrog\u00eanio. Fiss\u00e3o emite muita energia, mas a campe\u00e3 de transforma\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria em energia \u00e9 a fus\u00e3o nuclear, processo onde dois \u00e1tomos se fundem para gerar um novo. O processo de fus\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderoso e eficiente que o Universo o chancela atrav\u00e9s das estrelas. No centro de cada estrela, um reator de fus\u00e3o para aliment\u00e1-la. Quem queima sua pele h\u00e1 bilh\u00f5es de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia \u00e9 esse processo.<\/p>\n<p>E a segunda gera\u00e7\u00e3o das bombas at\u00f4micas utiliza-se justamente desse m\u00e9todo estelar de causar estragos: com uma bomba de fiss\u00e3o detonando uma bomba de fus\u00e3o para tornar tudo ainda mais explosivo. Em condi\u00e7\u00f5es normais de press\u00e3o e temperatura, \u00e9 basicamente imposs\u00edvel come\u00e7ar um processo de fus\u00e3o nuclear com o que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o aqui na Terra, tanto que nossas usinas nucleares s\u00e3o baseadas em fiss\u00e3o. A fus\u00e3o nuclear exige tanta energia para come\u00e7ar que simplesmente n\u00e3o d\u00e1 pra fazer isso de forma controlada ainda. S\u00f3 conseguimos usar o processo quando explodimos algo. E mesmo assim, para explodir mais coisas.<\/p>\n<p>Mas calma, n\u00e3o espere que a RID construa a sua t\u00e3o cedo, porque saber como faz em tese \u00e9 f\u00e1cil, ter quem monte e a mat\u00e9ria-prima necess\u00e1ria s\u00e3o outros quinhentos. Poucas pessoas nesse planeta s\u00e3o realmente proficientes nos processos necess\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o de uma, e mesmo que voc\u00ea tenha essas pessoas, conseguir o Ur\u00e2nio \u00e9 bem complicado, pela sua imensa raridade e alt\u00edssimo controle. E voc\u00ea n\u00e3o precisa de algumas gramas s\u00f3, s\u00e3o quantidades absurdas na compara\u00e7\u00e3o com a exist\u00eancia do elemento na crosta terrestre. N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 car\u00edssimo, at\u00e9 porque precisa passar por muitos processos complexos para chegar na forma utiliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>E mesmo que voc\u00ea consiga montar uma bomba dessas, s\u00f3 vai conseguir se explodir se n\u00e3o conseguir coloc\u00e1-la no lugar que quiser. Faz uma bomba gigante \u00e9 razoavelmente simples em compara\u00e7\u00e3o com o tipo que realmente assusta o resto do mundo: a que pode ser colocada na ponta de um m\u00edssil. As bombas at\u00f4micas que foram usadas contra os japoneses na segunda guerra foram basicamente largadas de um avi\u00e3o. Podiam ser enormes e n\u00e3o precisavam fazer quase nada no caminho.<\/p>\n<p>E a\u00ed que entram a miniaturiza\u00e7\u00e3o e os m\u00edsseis de longo alcance. M\u00edsseis e foguetes sofrem com uma quest\u00e3o complexa: quanto mais peso carregam, mais combust\u00edvel precisam, quanto mais combust\u00edvel carregam, mais peso precisam\u2026 bombas precisam ser pequenas e leves o suficiente para caber num m\u00edssil pra come\u00e7o de conversa, mas precisam ser ainda mais pequenas e leves para que o m\u00edssil n\u00e3o precise ser do tamanho de um foguete. E \u00e9 mais f\u00e1cil falar do que fazer: com uma tecnologia t\u00e3o complexa e uma depend\u00eancia t\u00e3o grande de gerar a rea\u00e7\u00e3o em cadeia perfeita, cada quilo de mat\u00e9ria na bomba aumenta a probabilidade dela explodir direito. Quando voc\u00ea tenta otimizar o processo, corre muito mais risco da parte at\u00f4mica n\u00e3o funcionar e seu m\u00edssil ser apenas uma bomba vagagunda e car\u00edssima.<\/p>\n<p>E boa sorte enfiando tanta coisa num espa\u00e7o t\u00e3o pequeno. Mas, vamos l\u00e1, por algum motivo voc\u00ea consegue. Chegar longe \u00e9 bem complicado tamb\u00e9m. M\u00edsseis intercontinentais n\u00e3o s\u00e3o avi\u00f5es, at\u00e9 porque avi\u00f5es seriam muito lentos e alvos f\u00e1ceis, eles precisam fazer uma manobra complicada para fora do planeta para chegar longe. A Terra, a despeito do que alguns andam falando, \u00e9 redonda e n\u00e3o tem \u201clinha reta\u201d que resolva uma trajet\u00f3ria dessas. Sem contar que a n\u00e3o ser que voc\u00ea queira arriscar sua bomba caindo milhares de quil\u00f4metros longe do alvo, precisa mirar com perfei\u00e7\u00e3o e ter v\u00e1rios est\u00e1gios no seu m\u00edssil: pra mitigar um pouco o problema do combust\u00edvel, m\u00edsseis e foguetes s\u00e3o feitos em est\u00e1gios, liberando partes que j\u00e1 consumiram seu combust\u00edvel para deixar o resto mais leve.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea tiver a tecnologia toda, ainda sim tem que acertar o tiro e torcer para a bomba detonar antes que os sistemas de defesa do inimigo o interceptem. Ou seja: na d\u00favida, atira no Brasil, que \u00e9 grande e n\u00e3o vai se defender. Do que eu estava falando mesmo?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que ficou animado com o prospecto, para dizer que guerra nuclear perdeu a gra\u00e7a, ou mesmo para dizer que confia na Melhor Coreia: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com as tens\u00f5es crescentes causadas pela Coreia do Norte testando suas armas e as amea\u00e7as de retalia\u00e7\u00e3o dos EUA e at\u00e9 mesmo dos pa\u00edses pr\u00f3ximos, a destrui\u00e7\u00e3o em grande escala voltou \u00e0 moda. 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