{"id":12097,"date":"2017-09-22T09:45:24","date_gmt":"2017-09-22T12:45:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12097"},"modified":"2017-09-22T09:45:24","modified_gmt":"2017-09-22T12:45:24","slug":"corredor-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/09\/corredor-parte-4\/","title":{"rendered":"Corredor &#8211; Parte 4"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/08\/corredor-parte-1\/\">PARTE 1<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/09\/corredor-parte-2\/\">PARTE 2<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/09\/corredor-parte-3\/\">PARTE 3<\/a><\/p>\n<p>Os tons acinzentados das paredes de concreto tornam-se negros quase que imediatamente quando a m\u00e3o estendida de Eduardo finalmente toca a escurid\u00e3o. A sombra demarcando a separa\u00e7\u00e3o entre o sal\u00e3o e o corredor envolve seu corpo como se fosse l\u00edquida, aumentando a for\u00e7a exercida progressivamente.<!--more--><\/p>\n<p>Logo sente um pux\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 mais nada para ver ou ouvir. Ele estica os membros em busca de uma superf\u00edcie s\u00f3lida, mas parece estar flutuando. Ao contr\u00e1rio de sua expectativa, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de um calor aconchegante, a escurid\u00e3o exercendo uma press\u00e3o sobre sua pele como se fosse um longo abra\u00e7o.<\/p>\n<p><b>VOZ:<\/b> Viu? N\u00e3o precisava ter medo.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Onde eu estou?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Dentro. Protegido.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu n\u00e3o consigo mais andar&#8230;<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> E agora?<\/p>\n<p>Eduardo sente seus p\u00e9s entrando em contato com uma superf\u00edcie \u00famida e macia. \u00c9 quando nota tamb\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 mais com suas roupas ou com qualquer coisa al\u00e9m de seu corpo. Ele d\u00e1 mais alguns passos antes de se ajoelhar e tocar o ch\u00e3o. \u00c9 quente e parece estar\u2026 vivo. De tempos em tempos sente um pulsar tal qual o de um cora\u00e7\u00e3o bombeando sangue. Lentamente o som ambiente come\u00e7a a voltar, com as batidas esperadas pelo movimento. O nariz tamb\u00e9m come\u00e7a a captar um cheiro reconhec\u00edvel, sangue.<\/p>\n<p><b>EDUARDO:<\/b> O que \u00e9 isso?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Eu. Isso sou eu, Eduardo. E voc\u00ea \u00e9 meu convidado.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Esse cheiro est\u00e1 come\u00e7ando a me enjoar\u2026<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Isso n\u00e3o \u00e9 coisa que se diga para seu anfitri\u00e3o.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Pra onde eu vou?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Eu vou te dar uma escolha, Eduardo. Uma que eu n\u00e3o dei para nenhum dos outros at\u00e9 aqui\u2026 voc\u00ea pode n\u00e3o ir a lugar algum. Aqui onde voc\u00ea est\u00e1, n\u00e3o vai sentir frio, fome, sede ou qualquer outra coisa que te incomode. Voc\u00ea pode se deitar no ch\u00e3o macio e quente e descansar o tempo que quiser.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu n\u00e3o esperava que fosse t\u00e3o&#8230;<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Acolhedor?<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu\u2026 eu quero deitar um pouco.<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Fique \u00e0 vontade e me chame assim que mudar de ideia.<\/p>\n<p>Eduardo deita-se onde est\u00e1. As batidas r\u00edtmicas no ch\u00e3o logo o deixam sonolento. Aninha-se em posi\u00e7\u00e3o fetal numa depress\u00e3o do solo que parece feita para acomodar seu corpo. N\u00e3o consegue se lembrar de quando se sentiu t\u00e3o confort\u00e1vel na vida, logo caindo num sono profundo.<\/p>\n<p>Sabe-se l\u00e1 quanto tempo depois, acorda. As batidas continuam ali, o cheiro de sangue n\u00e3o causa mais inc\u00f4modo. Pregui\u00e7osamente, come\u00e7a a se levantar. Mas algo o impede: o lado do corpo que tocava o ch\u00e3o org\u00e2nico parece colado. Um pouco mais de for\u00e7a e sente dor, com o bra\u00e7o ainda livre, tenta sentir o que acontecera com as partes coladas\u2026 \u00e9 como se sua pele tivesse se fundido com o ch\u00e3o.<\/p>\n<p><b>EDUARDO:<\/b> O que \u00e9 isso?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> \u00c9 o seu corpo reconhecendo sua verdadeira casa.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> D\u00f3i!<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> S\u00f3 quando voc\u00ea tenta sair.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Voc\u00ea vai me prender aqui?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Voc\u00ea ainda \u00e9 livre para fazer o que bem entender. Voc\u00ea quer sair?<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu quero levantar daqui!<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Ent\u00e3o levante-se.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> N\u00e3o d\u00e1, minha pele est\u00e1\u2026 presa\u2026<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Ent\u00e3o levante-se com vontade. Mas eu tenho que te avisar, n\u00e3o vai ser agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eduardo come\u00e7a a fazer mais e mais for\u00e7a. A dor da pele come\u00e7ando a rasgar nos pontos de contato \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p><b>EDUARDO:<\/b> Arrrgh! Me solta!<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 lutando contra mim, est\u00e1 lutando contra voc\u00ea. A dor \u00e9 o seu pre\u00e7o, pague-o ou continue onde est\u00e1.<\/p>\n<p>Ele para onde est\u00e1. A dor \u00e9 muito grande a cada tentativa de se separar, mas a cada pausa para respirar um pouco, toda aquela sensa\u00e7\u00e3o acolhedora volta imediatamente.<\/p>\n<p><b>VOZ:<\/b> Me diga, por que voc\u00ea quer sair?<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu n\u00e3o posso ficar aqui pra sempre!<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Isso ainda n\u00e3o foi uma resposta.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Eu tenho que voltar pra\u2026 pra minha mulher.<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Aquela que voc\u00ea n\u00e3o aguenta mais ver? Aquela que te deu uma filha doente?<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Cala a boca\u2026 cala a boca!<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Eu ouvi de uma fonte confi\u00e1vel que depois que a base onde voc\u00ea estava foi destru\u00edda, todas as fam\u00edlias v\u00e3o receber uma gorda indeniza\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o precisa mais de voc\u00ea. Voc\u00ea pode ficar aqui agora. Todos acham que voc\u00ea morreu, n\u00e3o tem mais nada te for\u00e7ando a voltar, Eduardo.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Onde est\u00e3o os outros?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Perto.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> O 822 e o cara da manuten\u00e7\u00e3o? Os soldados?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Como eu disse, perto.<br \/>\n<b>EDUARDO:<\/b> Voc\u00ea fez isso com eles?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> J\u00e1 sei, vou te dar mais um motivo para ficar.<\/p>\n<p>Algo come\u00e7a a se levantar do ch\u00e3o macio ao lado de Eduardo. \u00c9 como se fosse uma bolha recheada de l\u00edquido, ficando cada vez maior. Ela cresce abaixo do seu bra\u00e7o livre, erguendo-o no processo.<\/p>\n<p><b>EDUARDO:<\/b> O que \u00e9 isso?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Estoure-a.<\/p>\n<p>Eduardo toca a superf\u00edcie da bolha, \u00e9 como se fosse um bal\u00e3o de \u00e1gua protegido por uma camada fina de pele aquecida. Ele tenta pressionar a parte que alcan\u00e7a, mas a resist\u00eancia \u00e9 grande. Com a ponta dos dedos, aumenta a press\u00e3o, usando as unhas para fazer um buraco. Eventualmente a bolha cede com um rasgar aud\u00edvel seguido por uma explos\u00e3o de l\u00edquidos que logo escorrem por todos os lados. O cheiro \u00e9 terr\u00edvel no come\u00e7o, mas rapidamente torna-se toler\u00e1vel. No escuro, Eduardo come\u00e7a a tatear o que surge de dentro dela.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pessoa. Um corpo de crian\u00e7a, nua como ele, mas muito mais fundida com o ch\u00e3o do que seu pr\u00f3prio corpo. Instintivamente busca pelo rosto, tentando reconhecer as fei\u00e7\u00f5es pelo tato. Sente uma respira\u00e7\u00e3o come\u00e7ar timidamente pela ponta do nariz.<\/p>\n<p><b>EDUARDO:<\/b> O que \u00e9 isso?<br \/>\n<b>VOZ:<\/b> Vai tudo ficar bem.<\/p>\n<p>O corpo ao seu lado \u00e9 quente e encaixado perfeitamente sob o bra\u00e7o livre, com a cabe\u00e7a aninhada pr\u00f3xima de seu peito. A crian\u00e7a fundida ao solo logo tosse algumas vezes, e emite um gemido parecido com o de quem acaba de acordar.<\/p>\n<p><b>CRIAN\u00c7A:<\/b> Papai, porque t\u00e1 escuro?<\/p>\n<p>Continua\u2026<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que essa hist\u00f3ria est\u00e1 come\u00e7ando a ficar previs\u00edvel, para dizer que n\u00e3o aguenta mais essas continua\u00e7\u00f5es, ou mesmo para dizer que agora est\u00e1 sentindo que n\u00e3o vai querer mais ler o resto: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARTE 1 | PARTE 2 | PARTE 3 Os tons acinzentados das paredes de concreto tornam-se negros quase que imediatamente quando a m\u00e3o estendida de Eduardo finalmente toca a escurid\u00e3o. A sombra demarcando a separa\u00e7\u00e3o entre o sal\u00e3o e o corredor envolve seu corpo como se fosse l\u00edquida, aumentando a for\u00e7a exercida progressivamente.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":12008,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-12097","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12097\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12008"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}