{"id":12125,"date":"2017-09-29T13:59:46","date_gmt":"2017-09-29T16:59:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12125"},"modified":"2017-09-29T13:59:46","modified_gmt":"2017-09-29T16:59:46","slug":"rotulos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/09\/rotulos\/","title":{"rendered":"R\u00f3tulos."},"content":{"rendered":"<p>Um lado mais progressista meu concorda com a ideia de que r\u00f3tulos, seja quais forem, parecem algo do passado, algo que a humanidade deveria abandonar em busca de uma sociedade mais igualit\u00e1ria. Julgar pessoas pelo o que elas s\u00e3o e n\u00e3o por grupos que por ventura possam ser inclu\u00eddas. Mas\u2026 ser\u00e1 que esse \u00e9 um futuro positivo para n\u00f3s?<!--more--><\/p>\n<p>Acho bacana a ideia de um mundo onde a primeira impress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a que fica, onde tenhamos sempre a chance de nos mostrar como realmente somos antes de termos op\u00e7\u00f5es retiradas de n\u00f3s, onde \u00f3dios generalizados e costumeiramente infundados n\u00e3o definam o tratamento dispensado a uma pessoa. Cada um pode ser o que quiser, na combina\u00e7\u00e3o que quiser. \u00d3timo, parece um objetivo nobre para o desenvolvimento da nossa sociedade. N\u00e3o tem mais homem, mulher, hetero, gay, branco, negro\u2026 nada. S\u00f3 humanos.<\/p>\n<p>Minha maior d\u00favida sobre isso tudo \u00e9 se queremos viver numa sociedade s\u00f3 de humanos. Passamos muito tempo aqui criticando os ativistas do politicamente correto, mesmo que no cerne das nossas cren\u00e7as, n\u00e3o exista uma diferen\u00e7a t\u00e3o gritante. Nada contra uma utopia de paz e aceita\u00e7\u00e3o, mas tudo contra o desconhecimento do termo \u201cutopia\u201d. Uma sociedade perfeitamente compreensiva e justa simplesmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, a ideia fantasiosa de resultado perfeito serve como uma linha guia para sabermos que sempre pode melhorar. Se voc\u00ea parte do princ\u00edpio que uma utopia \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel, suas premissas n\u00e3o v\u00e3o colaborar para uma conclus\u00e3o racional. A ideia est\u00e1 estragada desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma sociedade sem r\u00f3tulos parece muito boa, mas \u00e9 ut\u00f3pica. E \u00e9 a\u00ed que a ideia de premissas contaminadas vai criando os monstrinhos ativistas que tanto incomodam atualmente. A pluralidade que sugere uma sociedade ideal sem separa\u00e7\u00f5es claras entre grupos \u00e9 a mesma que impede que o grupo humanidade seja suficientemente homog\u00eaneo para uma sociedade ideal. N\u00e3o se pode subjugar a percep\u00e7\u00e3o das pessoas de tal forma a n\u00e3o notarem diferen\u00e7as claras entre elas. Pode-se proibir apenas externalizar a percep\u00e7\u00e3o, e isso n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>R\u00f3tulos s\u00e3o um subconjunto da nossa forma de perceber a realidade. O c\u00e9rebro humano adaptado a reconhecer padr\u00f5es e se moldar ao redor deles. J\u00e1 falei bastante sobre isso em outros textos, ent\u00e3o vou s\u00f3 refor\u00e7ar o cerne da ideia: o c\u00e9rebro que nota um padr\u00e3o de perigo em predadores no come\u00e7o da nossa exist\u00eancia \u00e9 o mesmo c\u00e9rebro que nota um padr\u00e3o de perigo em pessoas diferentes atualmente. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de conscientiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma quest\u00e3o extremamente primal sobre como o ser humano evoluiu para lidar com a realidade ao seu redor.<\/p>\n<p>N\u00e3o vemos as pessoas com r\u00f3tulos porque queremos oprimir, vemos as pessoas com r\u00f3tulos porque \u00e9 a forma mais \u201cecon\u00f4mica\u201d para o c\u00e9rebro resolver uma situa\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s de aprender algo totalmente novo, usar o conhecido. E, infelizmente, o conhecido nem sempre est\u00e1 baseado nas melhores informa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida, mas n\u00e3o reverte o funcionamento b\u00e1sico de um ser humano. Nesse funcionamento b\u00e1sico, o c\u00e9rebro grita que algo \u00e9 diferente do que est\u00e1 acostumado e exige mais aten\u00e7\u00e3o naquilo. Instinto de sobreviv\u00eancia. Instinto que \u00e0s vezes parece rid\u00edculo quando uma pessoa \u00e9 exposta a um travesti pela primeira vez, mas que ela n\u00e3o tem controle. \u201cOlhe para isso com mais aten\u00e7\u00e3o porque eu n\u00e3o sei o que \u00e9 e se \u00e9 perigoso\u201d. Se esse tipo de instinto age quando voc\u00ea v\u00ea um inseto diferente, imagina s\u00f3 quando v\u00ea uma pessoa! Perigo por perigo, grandes primatas est\u00e3o no alto dos alertas de qualquer esp\u00e9cie com mais de um neur\u00f4nio. N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel pra ningu\u00e9m n\u00e3o enxergar perigo em seres desse tamanho com bra\u00e7os e m\u00e3os articuladas\u2026<\/p>\n<p>Isso perdoa as pessoas que agem deliberadamente para fazer mal para grupos considerados \u201cinferiores\u201d? Claro que n\u00e3o. Decidimo-nos por um padr\u00e3o mais alto de tratamento entre n\u00f3s, e mesmo que esse padr\u00e3o viva sendo desrespeitado, \u00e9 o pouco que temos para manter qualquer chance de evolu\u00e7\u00e3o na mesa. O problema \u00e9 quando nos prendemos \u00e0 vis\u00e3o ut\u00f3pica de um mundo sem r\u00f3tulos esperando que esse seja o ponto de estabilidade. Complicado esperar por algo que por defini\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, num exerc\u00edcio imaginativo, vamos considerar que esse objetivo seja alcan\u00e7\u00e1vel: o dia em que ningu\u00e9m mais julga ningu\u00e9m sem conhecer chega e os r\u00f3tulos tornam-se coisa do passado. Isso n\u00e3o quer dizer que as pessoas ficaram \u201cboas\u201d. S\u00f3 quer dizer que ningu\u00e9m mais \u00e9 julgado pelo o que aparenta.  Nada impede que ainda sejamos horr\u00edveis uns com os outros, e nesse mundo especial, n\u00e3o h\u00e1 nada que impe\u00e7a o estrago que as pessoas ruins possam fazer com as boas antes que seja tarde demais. Porque se voc\u00ea n\u00e3o usa mais r\u00f3tulos, voc\u00ea s\u00f3 julga a\u00e7\u00f5es realizadas. E a\u00e7\u00f5es realizadas obedecem um princ\u00edpio de incerteza quase que qu\u00e2ntico: voc\u00ea n\u00e3o sabe se foram boas ou ruins at\u00e9 fazer a medi\u00e7\u00e3o. O preconceito n\u00e3o nos faz bem em alguns casos, mas pode salvar nossas vidas em outros. Complicado querer padronizar isso, seja para um lado ou para o outro. Um racista te dizendo que todos os diferentes s\u00e3o ruins est\u00e1 te mostrando um mundo absurdo, um ativista dizendo que todas as pessoas s\u00e3o boas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Na verdade, enquanto houver disputa por recursos nesse mundo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel presumir as boas inten\u00e7\u00f5es (ou mesmo neutras) de qualquer outra pessoa. Enquanto o que os humanos desejam esteja dispon\u00edvel em quantidade menor do que a necess\u00e1ria para todos se satisfazerem, estamos em guerra. Fazemos alian\u00e7as, alguma para toda a vida, mas mesmo assim, a disputa existe. E se pararmos pra pensar, a constante nesse tempo todo de evolu\u00e7\u00e3o humana foi a disputa pelos recursos, b\u00e1sicos ou n\u00e3o. Estamos cada vez menos brutalizados, mas cada vez mais gananciosos. O que era luxo h\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u00e9 padr\u00e3o at\u00e9 mesmo para os mais desprovidos. O desejo pelos recursos dispon\u00edveis cresce, e muita gente n\u00e3o aceita mais as migalhas que as disputas realizadas antes de nascerem as deixaram.<\/p>\n<p>Se ao inv\u00e9s de ficar pregando uma utopia de aceita\u00e7\u00e3o (indevida), os nossos ativistas mais vocais estivessem pregando aumento de produ\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o de recursos, talvez estiv\u00e9ssemos correndo muito mais r\u00e1pido para um mundo onde ningu\u00e9m tem sequer preocupa\u00e7\u00e3o com o que est\u00e1 dentro das cal\u00e7as dos outros. Um mundo talvez t\u00e3o ut\u00f3pico quanto, mas mais alcan\u00e7\u00e1vel por estar diretamente ligado ao verdadeiro desejo do ser humano: livrar-se da escassez. Com esse problema resolvido ou muito bem encaminhado, a fam\u00edlia tradicional n\u00e3o choraria por nada mais. Afinal, n\u00e3o tem ningu\u00e9m tentando tirar nada dela. Quando temos muito, cada concess\u00e3o \u00e9 menos dolorosa.<\/p>\n<p>Se queremos matar um instinto de preserva\u00e7\u00e3o que vive sendo usado para tornar esse mundo menos justo para alguns, temos que focar no instinto, e n\u00e3o na vocaliza\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que se sentiu rotulado, para dizer que vai chorar do mesmo jeito, ou mesmo para dizer que se a minha solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o fim da escassez estamos ferrados: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um lado mais progressista meu concorda com a ideia de que r\u00f3tulos, seja quais forem, parecem algo do passado, algo que a humanidade deveria abandonar em busca de uma sociedade mais igualit\u00e1ria. Julgar pessoas pelo o que elas s\u00e3o e n\u00e3o por grupos que por ventura possam ser inclu\u00eddas. 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