{"id":12270,"date":"2017-11-01T15:11:16","date_gmt":"2017-11-01T17:11:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12270"},"modified":"2017-11-01T15:11:16","modified_gmt":"2017-11-01T17:11:16","slug":"escassez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/11\/escassez\/","title":{"rendered":"Escassez."},"content":{"rendered":"<p>Ultimamente eu fiquei fascinado com um canal do YouTube chamado \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCAL3JXZSzSm8AlZyD3nQdBA\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">Primitive Technology<\/a>\u201d, onde um cidad\u00e3o mostra como fazer desde ferramentas at\u00e9 casas usando barro, madeira e pedras. Cidad\u00e3o n\u00e3o fala uma palavra, s\u00f3 trabalha que nem um condenado at\u00e9 terminar a miss\u00e3o da vez. Mas eu n\u00e3o estou s\u00f3 indicando v\u00eddeos, algo nesse material come\u00e7ou a me fazer pensar: d\u00e1 um trabalho enorme para ter qualquer uma das comodidades que temos. Enorme. E talvez isso explique a grande parte dos problemas sociais desse mundo.<!--more--><\/p>\n<p>Mas vamos por partes: a primeira coisa a estabelecer aqui \u00e9 a complexidade necess\u00e1ria para produzir o padr\u00e3o de vida que at\u00e9 mesmo as pessoas consideradas pobres tem atualmente. Nem digo as muito pobres, porque elas tendem a viver dos restos e rejeitos de quem tem um pouco mais, estamos pensando aqui em quem consegue pelo menos manter o nariz acima da faixa da mis\u00e9ria. Mesmo para essa pessoa que tem uma casinha num lugar afastado, com p\u00e9ssimos servi\u00e7os p\u00fablicos, podemos considerar um teto de alvenaria, energia el\u00e9trica, \u00e1gua encanada, alguns eletrodom\u00e9sticos b\u00e1sicos\u2026 tudo isso exige uma enorme quantidade de horas de trabalho para ser oferecido.<\/p>\n<p>Cada tijolo que constr\u00f3i uma casa depende de uma rede de pessoas trabalhando v\u00e1rias horas por dia. O cimento que vai entre eles idem. Claro que com tecnologia o trabalho n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o bra\u00e7al quanto j\u00e1 foi, mas algu\u00e9m teve que fazer todas as etapas necess\u00e1rias para entregar o produto at\u00e9 o consumidor. Mesmo servi\u00e7os como \u00e1gua e energia partem do mesmo princ\u00edpio: algu\u00e9m teve que instalar os sistemas, gerenciar a produ\u00e7\u00e3o e fazer a entrega, por canos ou fios. Tudo isso custa muitas e muitas horas de trabalho f\u00edsico e mental de outros seres humanos.<\/p>\n<p>A comida que chega na sua mesa n\u00e3o \u00e9 diferente. S\u00e3o muitas e muitas etapas at\u00e9 a parte onde a pessoa come. N\u00e3o canso de repetir: isso significa que s\u00e3o muitas e muitas horas de trabalho, muitas vezes \u00e1rduo, para conseguir chegar at\u00e9 a etapa final do consumo. \u00c9 comum achar que as coisas que n\u00e3o fazemos n\u00f3s mesmos s\u00e3o muito f\u00e1ceis e r\u00e1pidas, \u00e9 at\u00e9 humano ter essa ilus\u00e3o. S\u00f3 que a verdade, como sempre, \u00e9 bem mais complicada. N\u00e3o fosse uma quantidade de horas insana de trabalho nos bastidores, n\u00e3o ter\u00edamos a vida que temos. Se voc\u00ea tivesse que fazer cada tijolo da sua casa, como nos v\u00eddeos que eu usei para abrir este texto, n\u00e3o seria capaz de ter outro trabalho.<\/p>\n<p>Ok, e essa \u00e9 a base do funcionamento da sociedade humana moderna: ningu\u00e9m consegue chegar sozinho ao padr\u00e3o de qualidade de vida que todos n\u00f3s conseguimos com coopera\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o de tarefas. Mas isso tem um custo, um custo muito grande que quando mal explicado, soa como idealismo de um metido a comunista: nossa sociedade \u00e9 imensamente baseada na explora\u00e7\u00e3o de pessoas por pessoas. Mas n\u00e3o por sermos inerentemente ruins, e sim porque o padr\u00e3o de vida que escolhemos n\u00e3o existiria de outra forma. A absurda concentra\u00e7\u00e3o de valor em horas de trabalho humano em qualquer produto oferecido significa necessariamente que algu\u00e9m trabalhou por um valor muito abaixo do que a maioria de n\u00f3s consideraria justo para fazer o mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor algum aqui (embora obviamente exista um, \u00e9 muito injusto para quem trabalha em condi\u00e7\u00f5es quase escravas), o que existe \u00e9 um sistema que n\u00e3o se equilibra mais sem um lado mais fraco para a corda estourar. E na configura\u00e7\u00e3o social atual, vemos que alguns grupos humanos reconhec\u00edveis por etnia pagam desproporcionalmente por essa necessidade de gera\u00e7\u00e3o de valor para os bens de consumo. Resumindo: sim, \u00e9 verdade que existem grandes vantagens em ser branco nesse mundo, por exemplo. N\u00e3o necessariamente como indiv\u00edduo, mas com certeza como grupo.<\/p>\n<p>E pouco antes dessa onda hist\u00e9rica de demoniza\u00e7\u00e3o desse grupo humano, a ideia estava relativamente bem estabelecida. O sistema de produ\u00e7\u00e3o de valor humano beneficiava demais um grupo e isso parecia injusto. T\u00ednhamos que corrigir o sistema. E foi muito por a\u00ed que os embri\u00f5es do movimento politicamente correto de hoje surgiram: com gente tentando combater a pobreza extrema e a explora\u00e7\u00e3o de povos menos afortunados. Mas, no meio do caminho, algo saiu dos trilhos, e n\u00e3o parece ter voltado at\u00e9 hoje: ao inv\u00e9s de olhar para um sistema desequilibrado, come\u00e7aram a procurar um atalho na culpabilidade pessoal de cada um dos membros desse grupo privilegiado. Como se fosse inerente a cada um deles oprimir e explorar o outro, e como se quem n\u00e3o tivesse essa cor de pele fosse automaticamente imune \u00e0 cr\u00edtica pelos mesmos motivos.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que a coisa desmonta o suficiente para gerar uma rea\u00e7\u00e3o poderosa no sentido contr\u00e1rio: quando a pregui\u00e7a de lidar com o grande problema real &#8211; o sistema de gera\u00e7\u00e3o de valor baseado em explora\u00e7\u00e3o \u2013 faz com que seja criado um imagin\u00e1rio: que um grupo espec\u00edfico de pessoas esteja propositadamente degradando a qualidade de vida alheia por preconceitos pessoais. Como a Alemanha Nazista nos ensinou, \u00e9 muito mais f\u00e1cil apontar para um grupo de pessoas com caracter\u00edsticas f\u00edsicas parecidas do que tentar corrigir um problema estrutural na sociedade.<\/p>\n<p>Temos um problema que gera desigualdade sim, e ele n\u00e3o \u00e9 a cor da pele de um grupo. Quando precisamos de in\u00fameras horas de trabalho para ter algo que consideramos b\u00e1sico em nossas vidas e n\u00e3o temos dinheiro para pagar o que essas horas realmente valem, temos que escolher entre a escassez e o abuso. Escolhemos o abuso. E n\u00e3o havia nenhuma predisposi\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para que o grupo que mais se aproveitasse do abuso fosse um com uma cor de pele espec\u00edfica, nada na gen\u00e9tica humana impediria que as cores de opressores e oprimidos mais comuns fossem invertidas. Se n\u00e3o fossem os brancos com mais vantagens no mundo atual, seria um grupo de outra cor.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m fatalmente seria opressor num sistema baseado nisso. Algu\u00e9m vai fatalmente assumir o posto dos \u201cvencedores\u201d atuais se o sistema n\u00e3o mudar. E a\u00ed vamos continuar nos perguntando porque tem tanta gente pobre nesse mundo, mas com cores diferentes. Reformar o sistema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pintar ele de outra cor.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que eu estou ficando cada vez mais radical, para dizer que eu n\u00e3o ofereci alternativa (n\u00e3o disse que era f\u00e1cil), ou mesmo para dizer que algu\u00e9m vai me chamar de nazista por causa disso: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultimamente eu fiquei fascinado com um canal do YouTube chamado \u201cPrimitive Technology\u201d, onde um cidad\u00e3o mostra como fazer desde ferramentas at\u00e9 casas usando barro, madeira e pedras. Cidad\u00e3o n\u00e3o fala uma palavra, s\u00f3 trabalha que nem um condenado at\u00e9 terminar a miss\u00e3o da vez. 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