{"id":12305,"date":"2017-11-10T14:56:12","date_gmt":"2017-11-10T16:56:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12305"},"modified":"2025-11-04T21:00:16","modified_gmt":"2025-11-05T00:00:16","slug":"its-ok-to-be-white","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/11\/its-ok-to-be-white\/","title":{"rendered":"It\u2019s ok to be white?"},"content":{"rendered":"<p>Pouco mais de uma semana atr\u00e1s, uma s\u00e9rie de cartazes com os escritos \u201cIt\u2019s ok to be white\u201d come\u00e7aram a surgir nos Estados Unidos. Principalmente nos arredores e dentro de grandes universidades. A frase, que pode ser traduzida (bem) livremente como \u201cN\u00e3o tem problema ser branco\u201d, n\u00e3o deveria gerar nenhuma pol\u00eamica, n\u00e3o? Oras, \u00e9 claro que gerou pol\u00eamica, \u00e9 2017!<!--more--><\/p>\n<p>O assunto foi pouco comentado por aqui, talvez por pregui\u00e7a dos estagi\u00e1rios dos grandes meios traduzirem o conte\u00fado, talvez por falta de conhecimento das peculiaridades das comunidades de internet dos EUA, ou provavelmente mesmo porque era muito cheio de nuances para o p\u00fablico brasileiro. Eu vou apostar nessa \u00faltima\u2026 a ideia surge num f\u00f3rum chamado \/pol\/, sobre o qual j\u00e1 falei antes aqui na \u00e9poca da elei\u00e7\u00e3o do Trump. Esse \u00e9 mais um dos ref\u00fagios de uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o americana que ficou t\u00e3o de saco cheio do politicamente correto, mas t\u00e3o de saco cheio que\u2026 elegeu o Trump.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o o f\u00f3rum em quest\u00e3o foi instrumental para a vit\u00f3ria do Oompa Loompa platinado, mas essa an\u00e1lise j\u00e1 foi feita. Hoje estamos concentrados nessa jogada aparentemente simples, mas reveladora sobre os rumos preocupantes da sociedade moderna. A ideia surgiu nas v\u00e9speras do Halloween, e n\u00e3o podia ser mais b\u00e1sica: imprimir cartazes com os escritos \u201cIt\u2019s ok to be white\u201d e colar em lugares onde pessoas hist\u00e9ricas os veriam. A genialidade da ideia est\u00e1 justamente na presun\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00e3o exagerada dos \u201cadvers\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Num v\u00e1cuo ideol\u00f3gico, dizer que n\u00e3o tem problema ser branco n\u00e3o quer dizer nada. N\u00e3o tem problema ser de nenhuma cor, oras. Quem enxerga isso que tem algo de muito podre dentro da cabe\u00e7a. Mas, como estamos longe de viver numa sociedade que se importa com o significado do que l\u00ea, era previs\u00edvel que come\u00e7ariam os chiliques logo pela manh\u00e3 seguinte. E eles vieram. Primeiro em posts de redes sociais com pessoas mencionando os cartazes \u201cassustadores\u201d, depois com rea\u00e7\u00f5es mais dram\u00e1ticas alimentadas pelo interesse da m\u00eddia.<\/p>\n<p>Qual foi a rea\u00e7\u00e3o padr\u00e3o dos que deram de cara com os cartazes? Arranc\u00e1-los e acusar quem colou de nazista. Os artistas da vitimiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7aram a dar seus showzinhos, dizendo que n\u00e3o se sentiam mais seguros em suas universidades. Um aparte aqui: o que acontece nas universidades americanas atualmente \u00e9 um dos processos mais insanos de \u201cpoliticamente correto\u201d da hist\u00f3ria. Claro que n\u00e3o com a mesma viol\u00eancia, mas qualquer discurso menos \u201cpregressista\u201d \u00e9 atacado por uma massa de ofendidos que nos faz at\u00e9 imaginar agentes de um regime totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Neste contexto, fica clara a trollagem: atrav\u00e9s de um cartaz objetivamente inofensivo na mensagem, \u00e9 poss\u00edvel expor rea\u00e7\u00f5es raivosas e irracionais do advers\u00e1rio. Um cl\u00e1ssico. Nada de novo no fronte, inclusive com v\u00e1rias pessoas respondendo que n\u00e3o, n\u00e3o estava tudo bem em SER branco. E, novamente, eu j\u00e1 passei por esse tema anteriormente, ent\u00e3o fica a an\u00e1lise j\u00e1 feita: apontar dedos para grupos n\u00e3o costuma gerar resultados de igualdade em nenhuma sociedade. O m\u00e1ximo que se consegue \u00e9 mudar o grupo dito opressor. Mas \u00e9 exigir demais dessa gente entender o buraco que est\u00e1 se enfiando\u2026 vamos continuar por um bom tempo dentro de uma sociedade opressiva para um ou mais grupos, o ser humano ainda n\u00e3o parece preparado para lidar com seus problemas sem culpar exclusivamente o outro.<\/p>\n<p>Com esse ponto em mente: quem leu esse cartaz e o conectou imediatamente a grupos que pregam a supremacia racial branca\u2026 estava certo. Locais como esse f\u00f3rum n\u00e3o s\u00e3o como uma KKK, mas quem passa mais de dez minutos lendo o material produzido por eles sabe muito bem que ele est\u00e1 apinhado de gente muito racista. Muitas vezes daquela forma meio de brincadeira e meio s\u00e9ria ao mesmo tempo, mas mesmo assim, negar que o \/pol\/ tende ao racismo \u00e9 mentir descaradamente.<\/p>\n<p>Eu sei, eu sei, fica dif\u00edcil tomar um lado claro quando a rea\u00e7\u00e3o aos cartazes \u00e9 ao mesmo tempo hist\u00e9rica e com um fundo de verdade, mas ningu\u00e9m disse que as coisas seriam simples nessa vida. A verdade \u00e9 que o nosso ideal de compreens\u00e3o das mensagens alheias tem que ser baseado em mais fatores do que a mensagem pura ou a inclina\u00e7\u00e3o pura de quem a divulgou, existe um meio termo complicado a\u00ed. T\u00e3o complicado que me leva \u00e0 verdadeira reflex\u00e3o deste texto: ser\u00e1 que o excesso de informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dando contextos demais para qualquer coisa que comunicamos? Contextos que muitas vezes s\u00e3o desnecess\u00e1rios?<\/p>\n<p>O cartaz era uma clara armadilha nesse contexto: quem mais colaria ele nas paredes de locais declaradamente hostis ao conceito de poder de homens brancos? \u00c9 claro que tem contexto, \u00e9 claro que d\u00e1 para presumir muito mais do que a mensagem pura. Mas, duvido que todos os que reagiram dessa forma sabiam exatamente o que estavam presumindo. Estavam reagindo na verdade a um contexto divisivo de quem se presume em guerra. De quem est\u00e1 sempre olhando por cima do ombro para se defender de um ataque. E nesse renascimento da rixa entre esquerda e direita, ambos os lados parecem absolutamente paranoicos, enxergando \u201csoldados\u201d inimigos em todos os cantos.<\/p>\n<p>Tirando os ativistas hist\u00e9ricos mais hist\u00e9ricos, nenhuma pessoa realmente tem o que argumentar contra o \u201c\u00e9 ok ser branco\u201d, at\u00e9 porque \u00e9 uma mensagem vazia em sua funda\u00e7\u00e3o, dependendo muito do que se presume a partir dela: seja uma mensagem do ex\u00e9rcito aliado ou inimigo. Mas, e quando n\u00e3o \u00e9? E quando quem solta a mensagem s\u00f3 quer dizer aquilo mesmo? Como ficam as verdades mais simples num universo comunicativo onde tudo pode e ser\u00e1 usado como arma numa guerra ideol\u00f3gica (burra)?<\/p>\n<p>De uma certa forma, o que eu quero dizer aqui \u00e9 que estamos nos afogando em contextos, muitos deles pregui\u00e7osos, e tornando as mensagens que passamos quase que inconsequentes. Como se fossem apenas uma sequ\u00eancia de letras e n\u00fameros que precisassem ser decodificadas para achar uma mensagem necessariamente pr\u00f3 ou contra voc\u00ea. \u00c9 uma nova forma de analfabetismo funcional at\u00e9: ficar t\u00e3o amarrado em contextos paranoicos que a mensagem na sua frente torna-se irrelevante.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que \u00e9 ok n\u00e3o entender, para dizer que estou repetitivo, ou mesmo para dizer que desistiu de pensar no que l\u00ea: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco mais de uma semana atr\u00e1s, uma s\u00e9rie de cartazes com os escritos \u201cIt\u2019s ok to be white\u201d come\u00e7aram a surgir nos Estados Unidos. Principalmente nos arredores e dentro de grandes universidades. 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