{"id":12527,"date":"2017-12-08T12:18:42","date_gmt":"2017-12-08T14:18:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12527"},"modified":"2017-12-08T12:18:42","modified_gmt":"2017-12-08T14:18:42","slug":"adpocalypse-parte-2-desmonetizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/12\/adpocalypse-parte-2-desmonetizados\/","title":{"rendered":"Adpocalypse Parte 2: Desmonetizados."},"content":{"rendered":"<p>O consumo de m\u00eddia mudou consideravelmente nos \u00faltimos anos. A internet criou vers\u00f5es mais pr\u00e1ticas e frequentemente mais livres dos formatos consagrados de \u00e1udio, v\u00eddeo e texto. Um modelo que come\u00e7ou com hobbistas dedicando seu tempo livre para produzir conte\u00fado, mas que hoje em dia \u00e9 uma ind\u00fastria maior que todas as outras combinadas. Inclusive no dinheiro movimentado. E onde tem dinheiro, tem interesses\u2026<!--more--><\/p>\n<p>Durante um tempo, a livre cria\u00e7\u00e3o de material para redes sociais (especialmente YouTube, que continua sendo o foco aqui) era extremamente positiva para quem queria anunciar: com a profus\u00e3o de conte\u00fado vindo de todos os lados, muitos extremamente de nicho, podia-se apontar an\u00fancios para pessoas com uma especificidade nunca antes vista. Meio dif\u00edcil saber exatamente se o seu an\u00fancio de carros combina bem com a audi\u00eancia de uma novela, mas se a pessoa est\u00e1 vendo um v\u00eddeo bem espec\u00edfico sobre carros, grandes chances que ela se interesse bem mais pelo tema.<\/p>\n<p>Sem contar que de uma certa forma, o YouTube \u00e9 uma TV com milh\u00f5es de canais diferentes. Seria terr\u00edvel se os anunciantes tivessem que tratar com os produtores de conte\u00fado diretamente, gastando um tempo que ningu\u00e9m tem. Mas, como o Google gerencia tudo ao mesmo tempo, voc\u00ea pode anunciar em milh\u00f5es de canais ao mesmo tempo, inclusive at\u00e9 perseguindo as pessoas que acha interessantes canal por canal. Vai dizer que nunca sentiu que tinha um anunciante correndo atr\u00e1s de voc\u00ea pela internet toda? Eles de fato estavam. Do jeito que o sistema funciona hoje, quem faz a propaganda n\u00e3o sabe seu nome ou seu endere\u00e7o, mas sabe que voc\u00ea viu tal conte\u00fado, visitou tal site\u2026 o que resolveu problemas hist\u00f3ricos da publicidade tradicional.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, como de costume, a lua de mel acaba e produtores de conte\u00fado e anunciantes come\u00e7am a perceber que a outra parte acorda com bafo\u2026 quanto mais popular \u00e9 uma plataforma, maior a pluralidade das opini\u00f5es das pessoas que a utilizam, e com o YouTube se tornando de fato a maior \u201cTV\u201d do mundo, houve um influxo de produtores de conte\u00fado no que provavelmente chamaremos de \u201cera de ouro\u201d do site em alguns anos. Havia espa\u00e7o para todos, produzindo incont\u00e1veis horas de material para uma plateia cada vez maior. E muitas pessoas come\u00e7aram a ganhar dinheiro de verdade com isso. Os anunciantes derramando suas verbas de m\u00eddia rec\u00e9m-retiradas das m\u00eddias tradicionais, e os produtores livres como nunca para fazer o que bem entenderem.<\/p>\n<p>Bom demais para ser verdade. Quando os anunciantes percebem realmente o poder que tem ao financiar uma revolu\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado na humanidade, eles percebem tamb\u00e9m que estavam abdicando do controle que sempre tiveram na m\u00eddia tradicional sem necessariamente um motivo para isso. Quem \u00e9 acostumado com poder n\u00e3o fica passivo por muito tempo. Os anunciantes queriam saber melhor o que estavam financiando e o que os consumidores potenciais estavam fazendo ao ver suas mensagens naqueles v\u00eddeos. Com isso come\u00e7a a primeira grande extin\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos monetizados do Youtube.<\/p>\n<p>Com a vit\u00f3ria de Trump nas elei\u00e7\u00f5es e um crescimento acentuado de canais ditos de \u201cdireita\u201d no YouTube, acabava uma era de \u201cinoc\u00eancia\u201d no conte\u00fado apresentado no site. N\u00e3o havia mais uma presun\u00e7\u00e3o de conte\u00fado livre de pol\u00eamicas por l\u00e1, e para quem coloca sua marca quase que \u00e0s cegas na frente do material produzido pelos youtubers, isso parecia muito perigoso. Ainda mais considerando a febre \u201cpoliticamente correta\u201d nas redes sociais e os riscos \u00f3bvios de gerar pol\u00eamica e boicotes caso arriscassem ficar fora da narrativa vigente sobre o que \u00e9 certo. Os anunciantes come\u00e7aram a pressionar com sua arma mais poderosa: o dinheiro.<\/p>\n<p>Escandalizados com exemplos de seus produtos e servi\u00e7os supostamente financiando v\u00eddeos de racistas e coisas do g\u00eanero, grandes anunciantes amea\u00e7aram tirar suas vultuosas verbas de m\u00eddia do YouTube (que custa uma nota pret\u00edssima ao Google por minuto s\u00f3 pelos servidores) enquanto a gigante das pesquisas n\u00e3o desse aten\u00e7\u00e3o ao problema. E com incont\u00e1veis horas de conte\u00fado no seu site, era imposs\u00edvel fazer uma curadoria eficiente do que estava ou n\u00e3o de acordo com as pol\u00edticas do site. Al\u00e9m disso, no minuto que o YouTube colocar pessoas para escolher que v\u00eddeos podem ou n\u00e3o estar no seu site baseados em qualquer outra coisa que n\u00e3o a legalidade, passa a ser considerado o respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o dele, abrindo uma brecha legal para tomar processos por qualquer coisa que ofenda uma das centenas de milh\u00f5es de pessoas (qui\u00e7\u00e1 bilh\u00f5es) que consomem seu conte\u00fado diariamente.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi deixar o \u201crob\u00f4\u201d que analisa os v\u00eddeos treinado para tirar as propagandas dos v\u00eddeos que pareciam perigosos. E nessa, muitos canais perderam basicamente toda sua fonte de renda da noite para o dia. Na d\u00favida, o YouTube atirou. Derrubava ent\u00e3o toneladas de v\u00eddeos (alguns sem deletar, mas escondendo e tirando an\u00fancios) e os criadores que se virassem pra reverter. O que boa parte n\u00e3o conseguiu. O algor\u00edtimo do YouTube para definir que v\u00eddeos poderiam ser monetizados \u00e9 de dif\u00edcil compreens\u00e3o aparentemente at\u00e9 para seus criadores, e totalmente esot\u00e9rico para quem produz o conte\u00fado. Nessa, quem se deu bem foram os canais que nunca se meteram em pol\u00eamica.  Inclusive aqueles canais malucos de v\u00eddeos infantis do texto anterior, que passaram por debaixo do radar dessa grande extin\u00e7\u00e3o e precisaram ser atacados separadamente meses depois.<\/p>\n<p>Nessa, os anunciantes conseguiram o que queriam: come\u00e7aram a controlar, mesmo que indiretamente, o conte\u00fado dos canais do YouTube. Quem n\u00e3o consegue monetizar seus v\u00eddeos e n\u00e3o \u00e9 preferido pelos algor\u00edtimos de indica\u00e7\u00e3o do site acaba isolado num canto escuro da internet. Em tese, o YouTube se mant\u00e9m livre de censura ideol\u00f3gica, mas na pr\u00e1tica, \u00e9 exatamente o que est\u00e1 acontecendo. Para quem paga pelo conte\u00fado, n\u00e3o vale o risco de existir uma plataforma livre demais, um v\u00eddeo que te faz pensar sobre assuntos muito pesados tende a te deixar menos propenso a fazer uma compra ou experimentar algo novo. Tanto que antes da primeira grande extin\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos monetizados pelos conte\u00fados \u201cracistas\u201d (entre aspas porque tem muita histeria nesse processo), os v\u00eddeos com conte\u00fados LGBT(e sei l\u00e1 mais o que) tamb\u00e9m sofreram um processo de desmonetiza\u00e7\u00e3o em massa. Pol\u00eamica e temas dif\u00edceis s\u00e3o ruins para o neg\u00f3cio, pelo menos no modelo cl\u00e1ssico que os anunciantes est\u00e3o acostumados.<\/p>\n<p>Ouvi dizer bastante por a\u00ed que o YouTube est\u00e1 acabado e s\u00f3 vai piorar com o tempo, o que eu tenho um contraponto: vai piorar para quem n\u00e3o entrar em conformidade com o conte\u00fado esperado pelos anunciantes. Mas vai continuar imprimindo dinheiro para o Google e aqueles que sabem n\u00e3o pisar em terrenos perigosos por muito tempo ainda. N\u00e3o existe concorr\u00eancia ainda. Com exce\u00e7\u00e3o do Instagram, nenhuma rede social com modelo de monetiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 crescendo mais, e a tend\u00eancia \u00e9 que o pico da viabilidade comercial das redes sociais esteja chegando. Todo o poder financeiro que controlava a m\u00eddia tradicional est\u00e1 quase que transferido para as m\u00eddias digitais, ou seja, vai tudo ser profissionalizado. Acabou a corrida do ouro.<\/p>\n<p>E com isso, acabou o tempo do conte\u00fado livre e lucrativo. O modelo do YouTube estabilizou, e apesar dos sustos, o Adpocalypse foi adiado por mais alguns anos. O pre\u00e7o que pagamos foi alto, mas\u2026 n\u00e3o tinha como ser diferente. At\u00e9 termos um novo salto tecnol\u00f3gico consider\u00e1vel que mude totalmente nossos h\u00e1bitos de consumo de m\u00eddia, \u00e9 bom se acostumar. Ou voc\u00ea \u00e9 livre, ou voc\u00ea ganha dinheiro\u2026 como sempre foi.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que adora essas conclus\u00f5es pessimistas, para dizer que estava torcendo para o YouTube falir, ou mesmo para dizer que sabe quem \u00e9 o respons\u00e1vel por tudo isso (se falar deles no seu canal, ele \u00e9 desmonetizado): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O consumo de m\u00eddia mudou consideravelmente nos \u00faltimos anos. A internet criou vers\u00f5es mais pr\u00e1ticas e frequentemente mais livres dos formatos consagrados de \u00e1udio, v\u00eddeo e texto. Um modelo que come\u00e7ou com hobbistas dedicando seu tempo livre para produzir conte\u00fado, mas que hoje em dia \u00e9 uma ind\u00fastria maior que todas as outras combinadas. 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