{"id":12580,"date":"2017-12-19T09:35:51","date_gmt":"2017-12-19T11:35:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=12580"},"modified":"2017-12-19T09:35:51","modified_gmt":"2017-12-19T11:35:51","slug":"porque-vou-a-praia-sozinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2017\/12\/porque-vou-a-praia-sozinha\/","title":{"rendered":"Porque vou \u00e0 praia sozinha&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o vou \u00e0 praia com homens. N\u00e3o marco encontros na praia. Quando vou \u00e0 praia, vou sozinha, para que ningu\u00e9m presencie a indignidade que protagonizo. Exagero? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. Permita-me abrir meu cora\u00e7\u00e3o e voc\u00ea entender\u00e1 meus motivos.<!--more--><\/p>\n<p>Admiro pessoas que conseguem ir \u00e0 praia de forma digna. As cariocas, por exemplo, s\u00e3o o mais perfeito exemplo de musas da praia. S\u00e3o divas da areia, que desfilam de forma harmoniosa e graciosa enquanto eu me arrasto toda suada com areia colada pelo corpo. Sinceramente, n\u00e3o sei onde estou errando, talvez sejam os genes gringos gritando \u201cVai dan\u00e7ar tango, filha da puta, e sai desse calor que seu corpo n\u00e3o foi feito para isso!\u201d. Senta e pega a pipoca que, em homenagem \u00e0 chegada do ver\u00e3o, vou contar em detalhes minha triste e indigna experi\u00eancia em praias.<\/p>\n<p>Neste ponto, voc\u00ea pode estar se perguntando por qual motivo eu insisto em ir \u00e0 praia, mesmo sem gostar. Bem, fa\u00e7o isso para que as pessoas possam olhar para mim sem precisar colocar \u00f3culos escuros, gra\u00e7as \u00e0 minha pele agressivamente branca. N\u00e3o pensem que eu sou bronzeada, pois eu n\u00e3o sou. \u00c9 s\u00f3 para tirar o aspecto branco doentio, que \u00e9 minha cor de f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Eu moro no Rio de Janeiro, ent\u00e3o, acho que posso dizer que tenho alguma experi\u00eancia em praia. N\u00e3o \u00e9 por falta de pr\u00e1tica que eu fracasso miseravelmente, \u00e9 por incompet\u00eancia mesmo. A partir do momento em que saio de casa para ir \u00e0 praia, eu viro uma derrota ambulante. Tanto \u00e9 que nunca, jamais, em tempo algum aceitei marcar um encontro com um homem que me interesse na praia. N\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o quero que vejam o pior de mim, suada, cabelo colado no rosto, vermelha como um camar\u00e3o, cheia de areia como um bife \u00e0 milanesa. Marco at\u00e9 na academia, se for necess\u00e1rio, ambiente onde sei me manter atraente. Na praia jamais, praia \u00e9 minha Kryptonita est\u00e9tica.<\/p>\n<p>A desgra\u00e7a come\u00e7a j\u00e1 a caminho da praia: quem foi o filho duma \u00e9gua que inventou o chinelo de dedo? Aquela caralha de tora que fica entre o ded\u00e3o e o pobre dedo ao lado vai machucando meu p\u00e9 \u00e0 medida em que vou andando e suando. Eu tenho esse probleminha, quando estou suada \u00e9 poss\u00edvel me matar com uma caneta Bic, minha pele fica mole, a coisa mais f\u00e1cil de perfurar do mundo. \u00c9 meu corpo dizendo \u201cme leve, me mate mas me tire daqui que este clima n\u00e3o me pertence\u201d, acho que ele me deixa vulner\u00e1vel de prop\u00f3sito, para ver se eu morro e acaba com essa agonia quente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no meio do caminho eu j\u00e1 estou andando como uma marreca, pois o v\u00e3o entre meus dedos est\u00e1 sendo estuprado pelo chinelo. Qualquer marca de chinelo. Fora que o meu layout n\u00e3o comp\u00f5e muito bem sem salto, pois al\u00e9m de ter um metro e meio, eu foco em um treino de hipertrofia muscular, ent\u00e3o, sem salto eu pare\u00e7o um gnominho parrudo. A pele, que \u00e9 branca giz, vai ficando vermelha e, se eu j\u00e1 n\u00e3o andava muito bem pelo estupro dedal, come\u00e7o a andar pior ainda por ver pontos pretos em fun\u00e7\u00e3o de um calor infernal somado \u00e0 press\u00e3o baixa. 6 x 8 n\u00e3o combina muito com 40\u00b0. Se a coisa desdobrar mal, pode acabar at\u00e9 em v\u00f4mitos, que \u00e9 para coroar minha indignidade e meu vexame: um gnomo manco e vermelho vomitando na esquina.<\/p>\n<p>Praia gera outra restri\u00e7\u00e3o mortal para mim: n\u00e3o se deve ir \u00e0 praia com maquiagem. Me tirar a maquiagem \u00e9 como tirar a carne do ga\u00facho, a putaria do carioca ou ax\u00e9 de Salvador. N\u00e3o gosto e n\u00e3o fico bem sem maquiagem. Mas, se usar, al\u00e9m da pele ficar toda manchada, chegarei \u00e0 praia com aquela cara borrada \u201cWhy so serious\u201d do Coringa. Ent\u00e3o, l\u00e1 vou eu, pequena, mancando, talvez vomitando, vermelha e sem maquiagem. E suando.<\/p>\n<p>Cheguei na praia. Enquanto as cariocas desfilam de forma lenta e sexy at\u00e9 as proximidades do mar, muitas vezes descal\u00e7as, eu com meu chinelo assassino e meu p\u00e9 hipersens\u00edvel vou pulando feio uma gazela que tomou energ\u00e9tico, pois a areia sempre est\u00e1 muito, muito, muito quente e vai queimando meu p\u00e9, mesmo estando de chinelo (sempre cai um pouco pela lateral). Pulando e gritando palavr\u00e3o. Pulando e gritando palavr\u00e3o. E elas l\u00e1, descal\u00e7as, andando na maior tranquilidade. Essas porras usam ferradura? Vejam bem, n\u00e3o \u00e9 que eu tenha p\u00e9 de princesa, eu uso Melissa, o que me garante umas senhoras dumas cracas do atrito do p\u00e9 com o pl\u00e1stico! Vai ver \u00e9 meu corpo dando um \u00faltimo aviso desesperado para bater em retirada.<\/p>\n<p>Quando chega ao ponto da areia onde voc\u00ea vai estender sua canga para deitar, as cariocas a puxam da bolsa, sacodem levemente com uma das m\u00e3os, como uma donzela que se despede abanando um lencinho e pronto, a canga cai aberta na areia de primeira, permitindo que elas se deitem de forma sensual. A minha? A minha canga (e olha que j\u00e1 testei v\u00e1rios tecidos) parece ter sa\u00eddo da boca do cachorro, toda amassada e por mais que eu sacuda ou tente estender dignamente, sempre cai toda dobrada. A\u00ed eu tenho que me abaixar para estender a ponta que est\u00e1 dobrada e, quando o fa\u00e7o, bate um vento e tira a outra ponta do lugar. Resumindo: s\u00e3o pelo menos cinco minutos de abaixa e levanta tentando ajeitar a canga, colocando pesos nas pontas para ver se ela fica aberta.<\/p>\n<p>A carioca se deita e vai curtir sua praia: conversa com amigos, mexe no celular, escuta m\u00fasica, relaxa. Instintivamente, ela vai girando na canga, trocando de posi\u00e7\u00e3o, de modo a sair com um bronzeado uniforme, dourado, lindo. A babaca aqui, de tanto apanhar da vida, apelou para o despertador no celular para saber quanto tempo passou em cada posi\u00e7\u00e3o e a hora de mudar de posi\u00e7\u00e3o, em uma tentativa desesperada de conseguir um bronzeamento uniforme. Em v\u00e3o, pois n\u00e3o consigo nem bronzeamento, nem uniformidade.<\/p>\n<p>Minha melanina n\u00e3o enche um dedal, ent\u00e3o, a m\u00e3e natureza estipulou que Sally vem em duas cores: branco e vermelho. Cabe a mim escolher uma das duas \u2013 e vai do branco ao vermelho em dez minutos, t\u00e1? Se ao menos fosse um vermelho homog\u00eaneo&#8230; mas n\u00e3o, a parte da frente sempre queima mais que a parte traseira, a parte superior do abd\u00f4men sempre queima mais do que a inferior, o lado direito sempre queima mais do que o lado esquerdo. Saio um mosaico vivo, mesmo que cronometre o tempo que passo em cada \u00e2ngulo me expondo ao sol.<\/p>\n<p>Para piorar, meus biqu\u00ednis parecem sofrer de epilepsia, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel que fiquem no mesmo lugar. J\u00e1 tentei comprar as melhores marcas, n\u00e3o tem jeito, todo biqu\u00edni se mexe em mim. Isso faz com que eu fique com diversas marcas desconexas de biqu\u00edni, parecendo que usei um modelo com quatro al\u00e7as. A carioca n\u00e3o, ela pode sambar, jogar frescobol ou fazer bungee jump na praia que fica com aquela marca \u00fanica, definida, intacta de biqu\u00edni. Sem sacanagem, nem com bronzeamento em spray eu consigo uma marca de biqu\u00edni decente.<\/p>\n<p>Existe algum campo eletromagn\u00e9tico que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o descobriu que mant\u00e9m o biqu\u00edni totalmente aderido ao corpo da carioca. Por mais que eu amarre o meu em um grau gangrenante (sim, j\u00e1 fiz), se ousar arriscar um frescobol \u00e9 certeza de peito de fora, cofrinho de fora, ou ambos. Para ser bem sincera, quando estou na praia estou sempre tensa, tentanto evitar de fazer movimentos bruscos, inclusive respirando de forma mais comedida. E mesmo assim, j\u00e1 mostrei mais do que deveria em diversas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>A\u00ed vem o mar. De tempos em tempos a carioca se levanta e d\u00e1 um mergulho gracioso no mar. Obviamente quando \u00e9 comigo tem mais uma aura de videocassetada. Nunca acerto o timing e sempre acabo tomando uma arrebenta\u00e7\u00e3o de onda na cara, que al\u00e9m de me encher de areia, acaba tirando meu biqu\u00edni do lugar, o que me deixa toda molhada, gritando e me cobrindo com as m\u00e3os. E isso \u00e9 na ida e na volta, pois na hora de sair do mar a m\u00e3o natureza sempre me contempla com uma ondada na bunda, que \u00e9 para deixar bem claro que ali definitivamente n\u00e3o \u00e9 o meu lugar.<\/p>\n<p>A carioca sai do mar como uma sereia, desfilando lentamente, as gotas de \u00e1gua escorrendo gentilmente pelo seu corpo dourado, passando a m\u00e3o por entre os cabelos de forma a pente\u00e1-los. Eu saio encharcada, branca e brilhante, tipo um filhote de foca. Tomando ondada na bunda e, ai de mim se pensar em colocar as m\u00e3os por entre meus cabelos para pente\u00e1-los, minha m\u00e3o fica presa l\u00e1 tipo armadilha para ca\u00e7ar urso, pois meu cabelo, em contato com \u00e1gua do mar, fica pior do que palha de a\u00e7o. Ir \u00e0 praia \u00e9 ficar desgrenhada, pois quando entra em contato com a \u00e1gua do mar, meu cabelo entra em f\u00faria, fica duro, inacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Voltando do mar, voc\u00ea fica de p\u00e9, esperando o corpo secar um pouco para voltar a deixar na canga. Em dois minutos as cariocas est\u00e3o secas e com cabelos esvoa\u00e7antes novamente. Eu n\u00e3o, eu demoro em m\u00e9dia uma meia hora para secar minimamente, enquanto isso, do meu biqu\u00edni pinga \u00e1gua como se eu estivesse fazendo xixi. Claro que, neste ponto, meu biqu\u00edni tamb\u00e9m est\u00e1 cheio de areia, parece que eu caguei uma duna. Ent\u00e3o, l\u00e1 fico eu, com esse look Pampers (no caso, com direito a vazamento), v\u00edtima do vento que joga mais e mais areia no meu corpo molhado. Areia esta que vai demorar semanas para sair, n\u00e3o importa quantos banhos eu tome. J\u00e1 disse isso antes, mas vou repetir: qualquer dia desses meu cu vai produzir uma p\u00e9rola.<\/p>\n<p>Eu realmente n\u00e3o sei como as cariocas conseguem: pode estar o calor que for que as filhas da puta est\u00e3o sequinhas, com cabelo esvoa\u00e7ante ao vento, de p\u00e9 na areia sem um gr\u00e3o de areia colado no corpo. Eu estou suada, mas suada mesmo, aquele suado que voc\u00ea sente o cu suar, gota de suor escorrendo nas costas, gota de suor salgado pingando no olho e comprometendo a vis\u00e3o. Suada, com o cabelo todo colado na cara e nas costas e com uma crosta de areia colada no corpo todo. A mesma brisa suave que faz o cabelo das cariocas esvoa\u00e7ar de forma sexy interage comigo apenas me cobrindo de areia, com uma predile\u00e7\u00e3o pela regi\u00e3o dos olhos. Eu consigo a proeza de entrar areia no olho usando \u00f3culos escuros. <\/p>\n<p>Definitivamente, o Universo est\u00e1 mandando um recado claro: voc\u00ea n\u00e3o pertence a esse lugar, n\u00e3o volte mais aqui. Deve ser para bem, para me evitar um c\u00e2ncer de pele ou coisa do tipo. Melhor respeitar, se n\u00e3o pela quest\u00e3o da sa\u00fade, pela dignidade mesmo. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de ser vista neste estado. Praia, para mim, sempre foi e sempre ser\u00e1 uma atividade solit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que dependendo do tamanho do biqu\u00edni nem v\u00e3o perceber o resto, para dizer que este mesmo grau de desastre acontece quando as cariocas saem na noite ou ainda para me perguntar como ser digna na academia: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o vou \u00e0 praia com homens. N\u00e3o marco encontros na praia. 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